Discurso – Tragédia anunciada Senhor Presidente Senhoras senadoras, Senhores senadores Amigos que nos acompanham pela Agência Senado ou pelas redes sociais Há duas semanas, subi a esta tribuna para falar sobre o papel da polícia cidadã no Estado Democrático de Direito. O lamentável episódio do confronto de policiais militares e estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso que narrei aqui serviu não apenas para avaliarmos a ação policial, mas também para aprofundarmos a reflexão sobre essa importante instituição chamada Polícia Militar. A Constituição de 1988 em seu artigo 144, § 5º, cristaliza bem a competência das Polícias Militares, incumbindo-as da nobre missão de realizar o policiamento ostensivo e a preservação da ordem pública por meio de ações planejadas e coordenadas. Diante da competência delineada pela Lei máxima, cabe às Instituições Militares Estaduais a missão de realizar o policiamento nas ruas, avenidas, rodovias, com a finalidade de trazer segurança e tranqüilidade a uma sociedade com medo da criminalidade, da falta de segurança e da violência. São muitos os problemas que afligem a população brasileira e que não têm recebido respostas suficientes por parte dos atuais governantes. Quando nos deparamos com cenas chocantes como a de policiais atirando com balas de borracha em alunos durante uma manifestação pacífica, é comum recorrermos à frase “Polícia Truculenta”. A ação de meia-dúzia de policiais acaba colocando em xeque a credibilidade de toda uma instituição. Se por um lado, a violência, a corrupção, o despreparo de alguns profissionais são inegáveis, por outro, precisamos evitar qualquer generalização. É aí que volto a destacar a importância da Polícia Militar de Mato Grosso, instituição da qual devo a minha vida. Por seis anos, minha família e eu vivemos sob escolta desses homens do Estado, quando ainda era procurador da República. 1 Pois bem, aqui quero iniciar minha reflexão. Os nossos PMs possuem condições de trabalho que os afastem das vulnerabilidades, de atividades paralelas ou do desinteresse pela carreira abraçada? Ao ser nomeado presidente da Comissão de Segurança Pública do Senado, no ano passado, iniciamos um longo trabalho de enfrentamento da atual realidade. Desde 2011, recebemos inúmeras sugestões, reclamações, pedidos, e analisamos as propostas legislativas já em tramitação Casa. São valiosos subsídios que nos auxiliam na obtenção das respostas adequadas aos problemas. Senhor Presidente Senhoras senadoras, Senhores senadores Amigos que nos acompanham pela Agência Senado ou pelas redes sociais Tivemos notícias de que, desde o ano passado, a Rotam de Mato Grosso – grupo responsável pelas ações de controle de distúrbios civis – convive com o descaso poder público. Faltam materiais para treinamento. O pior: falta material para as operações policiais. A Rotam é uma Unidade Especializada que vem desempenhando um papel institucional de grande importância. Ela atua nos casos de perturbação da ordem pública, por meio de operações planejadas e executadas com o objetivo de restaurar a ordem quebrada. Ou seja, atuam nos casos em que um grupo, ou vários grupos, extrapola o direito de manifestar seus desígnios, causando lesão ao direito do cidadão, bem como dano ao patrimônio público e privado. Mesmo sem equipamentos necessários, a Rotam continua atuando nos presídios de Mato Grosso; nos casos de reintegração de posse; e também nas manifestações como foi o caso dos alunos da UFMT. A situação da Rotam de Mato Grosso vai de mal a pior. Estamos diante de uma tragédia anunciada. Como fiscal da lei e das ações do Poder Executivo, não posso me calar diante dos fatos. Tão importante quanto preservar a vida e o direito à livre manifestação de estudantes universitários, é zelar por aqueles que representam o Estado. 2 Cuiabá será sede da Copa do Mundo de 2014 e o Governo sequer cumpre o que preceitua a Doutrina de Policiamento de Controle de Distúrbios Civis. Conforme a Doutrina, um grupamento de choque é formado por 26 policiais militares com, no mínimo, 12 escudeiros, três lançadores, dois atiradores, um segurança, um homem extintor e um motorista. Senhor governador, nós temos ao menos a metade dessa estrutura? Não! Senhoras e senhores senadores, obtivemos por meio de denúncias anônimas de policiais da Rotam que faltam até escudos e que os capacetes utilizados por estes profissionais não possuem sequer proteção balística. Os escudos ainda são de acrílico, o que coloca em risco a vida de policiais que atuam nessas ações. Hoje, a Rotam possui apenas nove escudos anti-tumulto, 20 pares pederneiras e 24 capacetes anti-tumulto. Para trabalhar, a Rotam precisa de 30 escudos balísticos de aramida com viseira e proteção balística; 50 pares de pederneiras com proteção para joelhos e canelas; 50 capacetes balísticos; 50 máscaras contra gases; 50 pares de cotoveleiras; e 08 bornais táticos para acomodação de granadas e munições. Mesmo sem a metade desses materiais, nossa honrosa PM consegue ser referência nas ações de Controle de Distúrbio Civil. É bom lembrar que, em 2011, o batalhão da Rotam permaneceu de prontidão durante os 66 dias, quando por uma reivindicação legítima que é melhora nos salários, 1.750 investigadores e os 380 escrivães da Polícia Civil de Mato Grosso permaneceram em greve. Não houve conflito. Mas, e se tivesse? De quem seria a responsabilidade, no caso de uma tragédia? Senhoras e senhores senadores, mesmo com as deficiências que descrevi, existe a programação de um curso de formação de Controle de Distúrbios Civis que, inclusive, deverá contar com a presença de policiais de outros estados. Como faremos isso sem estrutura? Não entrei no mérito de falar de outro problema da segurança pública de Mato Grosso que é o déficit de efetivo. No final do ano passado, o Governo anunciou que mais 2,5 mil novos homens serão incorporados ao efetivo responsável pela Segurança, até 3 dezembro de 2013. Quero registrar que acompanhamos o anúncio e cobraremos a aplicação da medida. Senhor Presidente Senhoras senadoras, Senhores senadores Amigos que nos acompanham pela Agência Senado ou pelas redes sociais Este não é um discurso sobre bandidos e mocinhos, sobre heróis e anti-heróis. Este não é um discurso sobre culpados e inocentes. Este é um discurso para falar de brasileiros que se posicionam diariamente na linha de fogo entre criminosos e sociedade. De homens e mulheres que chegam a ter seus sonhos interrompidos pelo ofício que escolheram exercer. Gente que perde a vida em decorrência do cumprimento da profissão. Este é um discurso também para falar dos mais de 200 policiais militares mortos no país do ano passado até fevereiro deste mês. Somente este ano morreram em Mato Grosso oito policiais militares. Em 2012 foram 14 policiais mortos. Em 14 meses morreram 22 profissionais no meu Estado. O número é assustador e fica ainda mais alarmante se comparado aos números de pesquisa semelhante realizada nos Estados Unidos. O último levantamento aponta a morte de 72 policiais no país. Número que, no Brasil, representaria um resultado absolutamente fenomenal. A organicidade do Estado se dá pelos seres humanos que movimentam a máquina. Portanto, quando morre um servidor público por razões de seu trabalho, senhoras e senhores senadores, morre também um pouco do Estado. Presto minha homenagem aos familiares e amigos desses profissionais que morreram fardados. Também às famílias dos profissionais, mortos indiretamente em razão do trabalho prestado. Por exemplo, durante momentos de folga, muitas vezes após serem reconhecidos por criminosos. Famílias como do Policial da Rotam, Wilson Campos, executado em Várzea Grande. 4 Do Policial Civil Manuel Alves de Almeida, 55 anos, morto em julho de 2012, durante tentativa de assalto no bairro CPA 4, em Cuiabá. Do Policial Militar Devanilson Gonçalves da Cruz, morto em Várzea Grande, no fim do ano passado. E do Policial Militar, Alex Oliveira Suzarte, executado após luta corporal com assaltantes em Poconé, portal do Pantanal matogrossense. Senhor Presidente Senhoras senadoras, Senhores senadores Amigos que nos acompanham pela Agência Senado ou pelas redes sociais Termino este discurso citando a frase do economista norte-americano Jeffrey David Sachs: “estado desorganizado, crime organizado”. Precisamos de uma política pública de segurança consistente, que envolva um projeto sofisticado e profundo de integração institucional e intersetorial, gestão de informação, formação de uma cultura da paz e prevenção ao crime. Enquanto houver descaso na prestação do serviço de segurança do povo, com o povo e pelo povo, fatores como a má-distribuição de renda e dezenas de outros problemas sociais continuarão agravando o problema da violência. E que Deus abençoe e ilumine esses valorosos profissionais do Estado do Mato Grosso que morreram no exercício da profissão ou que ainda estão patrulhando as ruas para nos proteger. Obrigado! 5