Final de análise: a letra como resto.
Maria Fátima G. Pinheiro.
Doutoranda do Programa de Pós - Graduação em Psicanálise da UERJ.
Mestre em Teoria Psicanalítica - UFRJ.
Participante do Núcleo de Topologia do ICP - Escola Brasileira de Psicanálise - Rio.
Este trabalho tem como objetivo tecer considerações sobre a letra no final da
análise tomando-a em sua dimensão de resto sintomático. Essa perspectiva nos leva a
interrogar o conceito de letra dentro da concepção lacaniana desde sua vertente de
instância do inconsciente à sua vertente de cifra de gozo. Da letra como suporte material
do significante, remetida às cadeias da fala, à letra como cifra, articulada a função da
escrita, há um campo a ser escandido. Para explorar esse campo de investigação nos
aproximamos da função do calígrafo, como o fez Lacan, que no seu ofício se entrega ao
trabalho de traçar linhas, e nesse movimento desvelar tanto a fixidez da letra quanto a
sua fluidez variável.
Nas suas primeiras elaborações no seminário A Carta Roubada (1955) Lacan já
situava a letra a partir do sentido literal como uma missiva, colocando-a como
determinante na estrutura psíquica do sujeito. Este termo, neste momento, possui a
dimensão de fábula, em que a verdade se apresenta enquanto estrutura de ficção, e está
remetida ao significante na interpretação lacaniana do conto de Edgar Allan Poe. Lacan
irá dizer, então, que “para cada um a letra é o seu inconsciente” (Lacan, 1954-55,
p.248). A letra tem ampla mobilidade, ela se desloca, ela localiza o significante, fica
suspensa ou mesmo chega ao seu destino. E enquanto letra (carta) pode também ser
amassada, ser tomada como objeto, ser extraviada ou rejeitada, e na medida em que tem
ligação com o gozo, se torna suporte da repetição. Ela, em última instância, coloca em
jogo o ciframento das mensagens em que os desejos inconscientes se presentificam.
Nos seus desenvolvimentos posteriores, em 1957, em A Instância da letra no
inconsciente ou a razão desde Freud, Lacan através das metáforas e metonímias, dá um
acento mais preciso sobre esse ponto, tomando a letra ao pé da letra. Tempo em que a
define como “o suporte material que o discurso concreto toma emprestado da
linguagem” (Lacan, 1957, p. 498), e que produz os seus efeitos de verdade no sujeito. O
mecanismo da metáfora é, então, apresentado como sendo o mesmo que determina o
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sintoma. A metáfora como centelha criadora está fixada ao sintoma, e é tomada como
elemento significante. Pode-se sublinhar que este ponto da concepção lacaniana de
coalescência da letra e do sintoma é revelador da articulação entre simbólico e real na
vertente significante. Esta articulação entre os dois conceitos, a letra e sintoma, já
parece denotar, nesse tempo, a perspectiva da escrita, em que ambos se apresentam
como uma invenção de cada sujeito, uma modalidade singular de gozo. Este é o
momento em que Lacan enuncia lentamente a sua guinada na direção da escrita ao
anunciar: “Se o sintoma pode ser lido, é por já estar inscrito, ele mesmo, num processo
de escrita. Como formação particular do inconsciente, ele não é uma significação, mas a
relação desta com uma estrutura significante que o determina.” (Lacan, 1957, p.446).
Cabe sublinhar, que tanto a noção de sintoma, assim como a da letra, como mensagem,
foram reconsideradas por Lacan a partir do instante em que ele marca a diferença do
inconsciente como lugar da fala e avança na direção da fórmula “estruturado como uma
linguagem”. Isto implica em um distanciamento que diz respeito aos efeitos semânticos
da fala e a toda possibilidade de intersubjetividade, levando-o a uma abordagem mais
determinada em direção à letra como “suporte material que o discurso concreto
empresta à linguagem” (Lacan, 1957, p.498).
Quase dez anos depois, ao proferir a frase que é a epígrafe do primeiro capítulo
do seminário de um Outro ao outro: “A essência da teoria psicanalítica é um discurso
sem fala” (Lacan, 1968, p. 11) Lacan, então, realiza uma mudança radical quanto às
suas elaborações em relação ao sintoma e quanto ao conceito de letra ao situá-los junto
ao processo de escrita e não mais ao da fala. Este aspecto culmina com o instante em
que Lacan considera que a relação sexual não pode se escrever e ser formalizada,
quando ele, insistentemente, recorrerá ao escrito para dar conta desse impossível de ser
circunscrito. Verifica-se, então, a partir dos anos 70, no ensino lacaniano, uma profusão
de grafos, matemas, assim como o interesse crescente pelos estudos matemáticos e
topológicos. Lacan (1973) revela que a contingência, ou o que cessa de não se escrever
é por onde se pode atestar um real que por escapar ao discurso é transmissível.
Entretanto, o aspecto da escrita como contingência foi mais amplamente evidenciado
por Lacan em “Lituraterra” (1971), no seminário de um discurso que não fosse
semblante, a partir do vôo que realizou sobre a Sibéria no retorno de sua viagem ao
Japão. Ali ele pode colher, em uma rota nova, algo do qual pode fazer leitura. Por entre
as nuvens, um escoamento, um fio de águas, único traço visível no deserto da planície,
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paisagem sem fronteiras, sem oposição significante, com a total ausência do imaginário,
Lacan pode recolher a condição litoral. Essa condição permite a articulação entre letra e
gozo, tão visível na caligrafia japonesa através do enlaçamento entre a pintura e a letra.
A idéia de litoral implica um assoreamento que se acumula como resto, e que a própria
palavra lituraterre recobre, em francês, fazendo um deslizamento metonímico entre os
vocábulos: lettre (letra ou carta) litter (lixo) litière (lixeira). A palavra usada por Lacan
para dar conta da escrita é ravinamento, palavra que remete à escavação provocada por
enxurrada. Vemos, então em Lituraterra duas vertentes que articulam letra e gozo: uma
como produção de resto e outra que escava, que faz furo no saber.
A leitura feita por Lacan da letra - escritura a partir da visão do escoamento das
águas entre as nuvens, marca um ponto importante, aquele onde o significante se coloca
como semblante, porque é de uma ruptura que se trata - o semblante como nuvem
dissolve aquilo que constituía forma, onde litoral vira literal. A paisagem da escrita em
Lituraterra ao se romper o semblante, no real, se apresenta como ravinamento do
significante, como aquilo que choveu do semblante, como afirma Lacan no seu esforço
de poesia.
Um ano após as suas considerações sobre a letra em Lituraterra Lacan tecerá
importantes apontamentos sobre o gozo, em 1972, o apresentando como uma instância
negativa: “aquilo que não serve para nada” (Lacan, 1972-73, p.11). Do axioma “o
significante representa o sujeito para outro significante” ao “significante não representa
nada” Lacan faz advir o significante na sua dimensão de letra, produtor de gozo na
conjunção simbólico-real. Essa concepção desvela o aparelhamento da letra no discurso
como produção de gozo e laço social. A letra se lê, e, portanto, situa a escrita no
discurso analítico. Esse campo da escrita se abre a partir da introdução da idéia de que o
significado nada tem a ver com os ouvidos, mas somente com a leitura, com a leitura do
que se ouve de significante “(Lacan 1972-73, p. 47)”. Como nos referimos
anteriormente, para Lacan o escrito é um efeito do discurso que parte do fato de que é
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incluir o valor de gozo correspondente à parte do significado que nada tem a ver com os
ouvidos, como nos aponta Lacan, mas com a leitura do que se ouve de significante, ou
seja, o gozo como cifra. Nessa medida o trabalho da análise será o de fazer um corte
para que o sujeito separe o que é da ordem do gozo do que é da ordem do significante,
questão litoral, revelada através da letra encarnada no sintoma. A letra, por não estar
afetada pelos efeitos do sentido, tem como função romper com a universalização da
língua, ela revela a singularidade da língua privada como resto sintomático que cada um
recolhe no final de uma análise.
Em seu recente
texto “Ler um sintoma” (2011), apresentado em Londres
Jacques- Alain Miller sustenta a idéia de que o saber- dizer próprio à psicanálise se
funda no saber ler. O autor argumenta que o bem dizer e o saber ler se encontram do
lado do analista, são propriedade do analista. Entretanto, no decurso de uma análise, se
transferem ao analisante. Neste aspecto, sem se reduzir à retórica, a psicanálise marca a
sua diferença em relação àquela, pelo saber ler. Esse ponto delimita um campo preciso
da psicanálise que não se refere sómente à escuta, mas à leitura. A distância entre a
escuta e a leitura é o intervalo por onde a psicanálise opera.
Outro aspecto importante diz respeito ao ternário Real, Imaginário e Simbólico
enfatizado por este autor. Ele afirma que Lacan desloca o aparato utilizado por Freud do
ternário edípico para uma marcação borromeana, o que faz com que a interpretação
passe a funcionar não mais como a escuta do sentido, mas como leitura do não sentido.
Essa é a dimensão que concerne à leitura do sintoma, onde se perde os efeitos
produzidos pela semântica a partir da orientação que a letra veicula em direção ao real,
como Anzeichen, como fora do sentido, a partir de sua materialidade. O aspecto
fundamental que marca a possibilidade de leitura do síntoma é o fato da escritura estar
fora do sentido, ou seja, a letra como gozo está encruada na formação dos síntomas.
Saber ler o sintoma é manter o intervalo entre a palavra e o sentido que ela veicula, isto
implica deslocar-se da verdade na sua vertente de interpretação, como decifração, e
deixar entrever a opacidade do gozo, além da fixidez que este localiza. Isto nos leva
também a concluir que ler o sintoma implica em reduzi-lo à um resto, marca de um
encontro do significante com o corpo. Nesta direção podemos situar que não há sintoma
sem resto, efeitos da letra, letra como resto de um real abrasivo que deixou marcas. E
isto só um calígrafo- leitor pode testemunhar, no final de um percurso de análise, pois a
letra, de forma persistente, não cessa de interrogar a precariedade do estatuto do sexual
na psicanálise.
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Referências bibliográficas:
Costa, A. “Relações entre letra e escrita nas produções em psicanálise” em Estilos da
Clínica, n. 24. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
Enlaces- Psicoanálisis y Cultura, año 11, N. 14. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2009.
Lacan, J. (1955) O seminário sobre “A carta roubada”. In: Escritos. Rio de Janeiro:
Zahar Editor, 1998.
_______( 1957)” A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”. In:
Escritos. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1998.
Lacan, J. (1973) Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos. In:
Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar Editor., 2003.
Lacan, J. O Seminário. Livro 16: De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar Editor.,
2008.
Lacan, J. O Seminário. Livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de
Janeiro: Zahar Editor., 2009.
______ O Seminário. Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1985.
Tarrab, M. En las huelas del síntoma. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2005.
Miller, J. A (2011) Leer un síntoma - Texto establecido por Dominique Helvoet no
Congresso da N. L. S, Londres.
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