mobility muito mais que um gadget 4 N5 - Setembro de 2003 C a d e r n o s L i n k entrevista A Mobilidade é uma das componentes de um Sistema de Informação, o que significa dar mais um passo na arquitectura tecnológica, tendo sempre presente que o objectivo é adequar sempre e cada vez melhor o que as pessoas estão a fazer, com os processos e com a informação O que falamos quando nos referimos a Mobilidade nos Sistemas de Informação? Comecemos por falar de conceitos básicos. Como sabemos, os Sistemas de Informação só têm utilidade se houver uma ligação entre Pessoas, Processos e Informação. O que pressupõe a existência de um alinhamento entre o que as pessoas fazem, a informação necessária e os processos. Se este alinhamento existir e o sistema for bem desenvolvido, tecnicamente temos um Sistema de Informação. Ora, a actividade das pessoas, muita da informação e alguns processos de negócio, são móveis. Neste contexto, o conceito de Mobilidade concretiza-se num grau adicional de aderência entre o que as pessoas fazem, isto é, os processos, e o modo como a informação é tratada. Trata-se de mais uma componente que serve o negócio e a estratégia das organizações. José Alves Marques Presidente do Conselho de Administração da Link Consulting Essa componente, como se manifesta? Traduz-se, por exemplo, em estender os Sistemas de Informação a que temos acesso quando estamos sentados na nossa secretária, a uma equipa comercial ou de suporte técnico, cuja actividade obriga a estar em permanente Mobilidade. Manifesta-se também em situações onde a informação é móvel, como a informação de logística – veículos, contentores, camiões, passageiros.... Para conseguir gerir esta informação em tempo real alinhada com os processos de negócio, temos de utilizar tecnologias móveis que captem essa informação e a disponibilizem a quem opera ou gere negócio. Se quisermos ir mais longe, o conceito de Mobilidade aplica-se a inúmeras situações da actividade das pessoas e relaciona-se também com a facilidade de dispormos da informação onde quer que nos encontremos, por exemplo, os estudantes dentro de uma universidade têm que circular entre salas de aula, bibliotecas, laboratórios, o seu local pessoal de estudo, etc. O ideal seria que toda a informação necessária para estudarem estivesse acessível quando dela necessitam. Como é óbvio, isto obriga não só a ter as redes de acesso mas a criar todo um sistema de suporte ao ensino, à secretaria, às bibliotecas, aos departamentos etc. Na sua opinião, porque se fala tanto em Mobilidade? A Mobilidade é importante porque o mundo hoje é cada vez mais rápido e próximo, o que obriga a que todas os processos reajam à informação em tempo real. Não se admitem tempos mortos porque as pessoas não estão sentadas em frente ao seu computador ou porque a informação só pode ser actualizada com intervalos de tempo excessivamente longos. Mas, repito, é uma componente de um Sistema de Informação, o que significa dar mais um passo na arquitectura tecnológica, tendo sempre presente que o objectivo é adequar sempre e cada vez melhor o que as pessoas estão a fazer, com os processos e com a informação. Penso que todo este grande interesse pela Mobilidade começou com a emergência e sucesso das comunicações móveis de voz, concretizado no telemóvel. Depois pensou-se, com algum optimismo, que seria N5 - Setembro de 2003 5 C a d e r n o s L i n k entrevista possível passar para a Mobilidade dos dados e que este processo seria mais ou menos óbvio. E continuámos a falar de Mobilidade. Mas neste caso, já não se trata só de tecnologia, como referi anteriormente. É verdade que os sistemas de suporte à Mobilidade de dados têm andado mais lentamente do que os estudos previam há cerca de dois ou três anos, mas mesmo assim, este talvez seja o menor dos problemas. Aqui trata-se também de mudar os processos de negócio e "mexer" com a forma como as pessoas trabalham. É muito mais lento e complexo. No entanto, existem tecnologias de dados com sucesso? De facto, foi o caso do SMS, que começou por ter um enorme sucesso na utilização pessoal. As empresas só agora começam a perceber algumas das possibilidades destas tecnologias para disponibilizar informação, como meio de fidelização de clientes. Entretanto surgiram outras como o GPRS e o WiFi, tecnologias que começam a estar maduras. Parece-me que estamos no início de um processo em que as tecnologias passarão a ser maciçamente utilizadas, quer na óptica pessoal, quer sobretudo pelo lado do negócio. Mas, repito, estamos ainda no início, e as aplicações disponíveis ainda são limitadas. Porque falhou o WAP e, aparentemente, o UMTS? O WAP falhou essencialmente pelo facto do modo como a interface era disponibilizada ser pouco agradável e amigável. As pessoas não sentiram que existia valor no WAP. O SMS é fácil, é simples e permite interagir. O UMTS falhou, basicamente porque a tecnologia não foi disponibilizada a tempo e porque era (é) cara. Por outro lado, baseava-se numa bola de neve, em que havia muito dinheiro para investir. Houve um 6 N5 - Setembro de 2003 excesso de optimismo e verificámos também que faltou um modelo de negócio. Como é que vê o estado actual da Mobilidade em Portugal? No conceito abrangente de que falamos, estamos muito atrasados no que respeita ao desenvolvimento de aplicações que explorem estas tecnologias e que permitam disponibilizar serviços. Temos alguns (poucos) exemplos no sector empresarial, no domínio da logística (transportes rodoviários), na distribuição, na bilhética electrónica. Na área financeira existem alguns exemplos rudimentares de utilização de dispositivos móveis para operações de home-banking. No sector público fala-se muito da rede de trunking digital para todas as forças de segurança e emergência, existe o programa dos campus digitais para as universidades, mas aparentemente as decisões tardam. Uma força de inovação poderiam ser os Operadores de Telecomunicações, mas estes não têm vocação para uma área que já implica sistemas. Por outro lado, a voz continua a ser o principal negócio dos operadores móveis, pelo que vão caminhar para os dados, mas de uma forma cautelosa. E com a actual situação do mercado, retraem o próprio investimento. Em muitos domínios, não existem obstácu- C a d e r n o s L i n k entrevista A Link reune todos os requisitos e condições do que é e deve ser um fornecedor de soluções de Mobilidade nestas áreas deveriam privilegiar parcerias, mas esta não é a mentalidade empresarial típica dos Telcos. As parcerias são difíceis, mesmo que muita gente diga o contrário. Depois, existe um outro problema. Para criar mercado de dados é preciso ter dimensão e o nosso mercado é pequeno. Em síntese, penso que os operadores têm tido alguma dificuldade na construção de um modelo de negócio em que sejam um suporte activo à Mobilidade los tecnológicos que inviabilizem as comunicações digitais, designadamente em actividades que envolvam Mobilidade e as soluções podem não ser muito onerosas em termos de comunicações, sobretudo quando aferidas pelos ganhos de produtividade. Não haverá também um problema de indefinição do modelo de negócio?... Sim, penso que muitas vezes ainda andam à procura do modelo de negócio. Mas esta é uma questão complexa. A grande maioria dos operadores de telecomunicações conhece bem o negócio da voz, estão vocacionados e organizados para venderem minutos de comunicações. Para entrarem Do seu ponto de vista, quais são os constrangimentos que ainda hoje condicionam o desenvolvimento da Mobilidade? Mais do que a ausência de tecnologias, foi a febre do UMTS, que quase eclipsou ou fez cair no esquecimento outras tecnologias, que estão a regressar como por exemplo, as associadas à Ethernet wireless. Mas também existem alguns aspectos de regulação, como os modelos de utilização do WiFi em banda larga ou espectro de bandas para alocar ao WiFi, que são questões que ainda não estão resolvidas, entre outras razões, porque existem divergências entre os EUA e a União Europeia, que naturalmente, limita o seu crescimento. No caso português, penso que o modelo de liberalização da rede fixa também não tem ajudado este desenvolvimento, ao inviabilizar a criação de alternativas com modelos de negócio sustentáveis. Para darmos o passo em frente na Mobilidade, qual é o papel que atribui ao Governo? A UMIC parece querer suprir a grande dificuldade que tem existido até ao momento, que é decidir, executar, avaliar. Até muito LINK Mobilidade total, sem fronteiras Operadores de telecomunicações e "utilities" são alguns dos sectores de actividade económica onde a Link já desenvolveu ou está ainda a desenvolver projectos de integração de Sistemas de Informação, que envolvem o fornecimento de diferentes soluções de Mobilidade e a utilização de variadas tecnologias de Mobilidade. Um dos exemplos mais significativos foi o Projecto RDA, desenvolvido para a OniWay, e que consistiu numa solução móvel corporativa que permite aos colaboradores de uma determinada empresa o acesso através de terminais móveis (telefones móveis, PDA, etc.), à informação existente nos diferentes Sistemas de Informação dessa mesma empresa. O acesso pode ser feito via SMS, WAP ou até via portal Web. Este sistema permite que as empresas disponibilizem conteúdos aos seus colaboradores através de múltiplos canais, sem implicar um esforço de investimento demasiado grande, já que a maior parte da infra-estrutura fica do lado do operador móvel, podendo até, em modo ASP, todo o conteúdo ficar na infra-estrutura do operador, de modo a diminuir ainda mais o custo da solução. Apesar da Oniway ter desistido da quarta licença de operador móvel do UMTS, o trabalho de desenvolvimento permitiu à Link desenvolver esta solução e apresentar ao mercado o pacote Mobile Services Platform (MSP), uma solução de comunicações para quem que estar na Mobilidade. Um projecto muito interessante, pela facilidade com que se compreende o seu alcance, é o SIMOVLAB, que consiste na utilização de terminais móveis robustos (PocketPC) nos laboratórios de certificação de contadores da EPAL, para levantamento de valores obtidos nos ensaios. Os terminais comunicam com o repositório de ensaios via WiFi, de onde o sistema de gestão de contadores é automaticamente actualizado. Este sistema permitiu poupar 40% do tempo necessário à certificação de um contador. N5 - Setembro de 2003 7 C a d e r n o s L i n k entrevista Soluções móveis: para além da integração O desenvolvimento de soluções globais de Mobilidade são, cada vez mais, uma realidade na actividade da Link. Com efeito, a Link tem vindo a desenvolver soluções à medida para os seus clientes, envolvendo a utilização de diferentes tecnologias, o que prova a sua flexibilidade e conhecimento. O VídeoMMS, WiFi (Wireless LAN) e Portais Móveis são três importantes exemplos onde a Link provou a sua capacidade. No domínio do VídeoMMS forneceu uma solução a um dos operadores do seu parceiro Philips, que permite a captura e a visualização de vídeos em terminais móveis da nova geração, como o Nokia 3650, o Nokia 7650 ou o SonyEricsson P800 e envio dos Videos para outros utilizadores via MMS ou e-mail. A atenção com que a Link segue as tendências tecnológicas da Mobilidade e a sua utilização comercial, permitiu-lhe fornecer a um operador móvel uma solução de autenticação e accounting para serviços WiFi, a qual pode facilmente ser estendida para suportar a autenticação, autorização e registo de acessos a todos os serviços IP, como é o caso do GPRS e UMTS. Outro exemplo demonstrativo da versatilidade da Link encontra-se na capacidade de integrar portáteis móveis com fornecedores de conteúdos. Foi neste contexto que apoiou um dos operadores móveis na integração do seu Portal Móvel com as plataformas onde os parceiros disponibilizam os conteúdos, assegurando que estes conteúdos podem ser consultados no portal móvel com boa qualidade de serviço. A Link, porque mantém uma actividade de I&D e uma relação próxima com o INESC e com o Instituto Superior Técnico, domina as tecnologias móveis ainda numa fase pré-comercial e conhece as tecnologias emergentes e as mais maduras 8 N5 - Setembro de 2003 recentemente, e apesar do discurso, não tinha havido vontade política. Parece que a situação está a mudar. Um exemplo é a iniciativa dos Campus Virtuais, que poderá contribuir para dar origem à criação nas escolas de um Sistema de Informação global, integrado e adaptado ao utilizador móvel. Pode ter um efeito duradouro, fazendo com que as gerações entretanto formadas, quando entrarem no mercado de trabalho, procurem também estender este tipo de iniciativas aos seus futuros locais de trabalho. É preciso também que o Governo funcione como um exemplo, fomentando a interoperação entre os sistemas da Administração, dinamizando iniciativas mobilizadoras, como a gestão integrada dos transportes públicos nas áreas Metropolitanas (será que é desta que vão existir as autoridades Metropolitanas?), aderindo a projectos de logística integrada para os portos (as vias verdes), etc. Concordo que o Governo seja criterioso na gestão pública do dinheiro, mas tem também que garantir que a gestão dos Fundos Comunitários melhore rapidamente. Acontece que existem muitos projectos aprovados, mas a máquina estatal emperra e não liberta esses financiamentos. Por outro lado, há numerosas iniciativas comunitárias que Portugal não explora por incapacidade organizativa. Parece-me que nesta área há um claro défice de liderança política. C a d e r n o s L i n k entrevista Tráfego de dados (em milhares) Tráfego de dados SMS Acesso ao serviço WAP via GSM 2002 II Trim III Trim IV Trim Ano 2002 2003 I Trim 1.528.597 461.035 471.849 542.029 577.766 2.052.679 542.953 Ano 2001 I Trim Chamadas 7.850 Minutos 11.533 8.346 9.209 33.227 8.372 10.887 10.260 10.177 42.857 9.053 7.822 Fonte: Anacom Porque é que o mercado deve ver a Link como um “player” fornecedor de soluções e serviços de Mobilidade? A Mobilidade em Sistemas de Informação – não estamos a falar de Mobilidade no sentido da produção de pequenos “gadgets” para acrescentar aos serviços prestados pelos operadores móveis – tem de ser vista no quadro da adequação das pessoas e da informação, e traduzi-la em processos de negócio. É dessa adequação ou integração que se retiram as mais valias. Para conseguir fazer isto é preciso uma organização que tenha experiência em integração e que domine diferentes tecnologias. É preciso uma organização que domine a arquitectura tecnológica e a arquitectura de processos para que o cliente tenha confiança de que vai funcionar. É preciso também um profundo conhecimento das tecnologias dos operadores móveis. A Link cumpre todos estes requisitos e desde o início da liberalização das comunicações móveis que tem trabalhado com todos os operadores do mercado. Mas é preciso reunir mais condições?... De facto. Por exemplo, a Link, porque mantém uma actividade de I&D e uma relação próxima com o INESC e com o Instituto Superior Técnico, o que lhe permite dominar essas tecnologias móveis ainda numa fase pré-comercial e conhece as tecnologias emergentes e as mais maduras, bem como todo o mundo relacionado com os protocolos e a normalização. Estamos pois em condições de criar e construir soluções de Sistemas de Informação com qualquer tecnologia de Mobilidade e integrá-las com as arquitecturas e as plataformas tecnológicas que as organizações possuem no seu back-office. Em projectos de Mobilidade temos de estar atentos e ter muito cuidado para não investir em sistemas ou modelos que podem não ter sustentabilidade a médio e longo prazo. Em síntese, reunimos todas as condições para que o mercado nos veja como um integrador de Sistemas de Informação completo e independente, pois temos recursos humanos qualificados, experiência e conhecimento em diversos projectos e clientes, referências de utilizadores e domínio prévio das tecnologias porque participamos em projectos de I&D, e trabalhamos com todos os principais fabricantes de TI. Paralelamente, dominamos tecnologias horizontais como a segurança – e nas comunicações móveis os problemas de segurança são mais prementes –, redes, sistemas distribuídos, plataformas de interoperação e todos os ambientes de programação e de desenvolvimento mais relevantes. ¶ Transportes, logística e gestão de serviços ainda mais móveis Actividade particularmente móvel são os transportes, precisamente um sector onde a Link está apostar e que tem vários exemplos para apresentar. O Projecto Calypso é talvez o mais representativo. Baseada na experiência adquirida ao longo de sete anos no projecto Calypso, a Link acabaria por ser a "responsável" pelo desenho do Sistema de Bilhética Intermodal e Interoperável da Área Metropolitana de Lisboa. Este sistema, que começou pelo projecto Lisboa Viva no Metropolitano de Lisboa, confere aos cerca de 1 milhão de passageiros diários um instrumento electrónico móvel por excelência: o "Cartão inteligente contactless LisboaViva", utilizado em qualquer operador e/ou sistemas de bilhética. Outro exemplo é o portal de negócios do Grupo Luís Simões, que consistiu na criação de «um interface transaccional na Web, através do qual os clientes interagem com a empresa», sendo possível gerir electronicamente todos os processos de negócio. O portal inclui ainda um repositório documental para a gestão colaborativa de todos os documentos de suporte aos processos de negócio. No domínio do wireless, importa também referir o projecto SIPA, que está a ser desenvolvido para a Palmetal, uma empresa instalada no Parque Industrial da AutoEuropa. Este projecto baseia-se numa solução de Rádio Frequência, que permitirá à Palmetal suportar via wireless um conjunto de processos de onde se destacam: recepção; expedição; emissão de guias; inventários; emissão de etiquetas; verificação de localizações e pesquisa de produtos tudo isto de uma forma on-line, ajustada a cada um dos clientes e integrada com o ERP Navision entretanto implementado. Já o projecto XTraN SIMS consiste num sistema de planeamento e monitorização do transporte de valores da ESEGUR. O sistema permite planear as rotas dos veículos de transporte de valores, a partir de informação obtida de diversos sistemas da ESEGUR, que antes do aparecimento deste sistema era elaborado manualmente. O sistema permite também a monitorização da execução das rotas, obtendo informação através do sistema XTraN não só da localização dos veículos mas também das operações em curso no veículo e do estado do veículo, através da utilização de GPS, de redes de Trunking, e de terminais móveis. 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