R e v i s t a H o m e m , E s p a ç o e T e m p o . C e n t r o d e C i ê n c i a s H u m a n a s d a U n i ve r s i d a d e E s t a d u a l
V a l e d o A c a r a ú / U V A . A n o I I, n ú m e r o 1 , m a r ç o d e 2 0 0 8 . IS S N 1 9 8 2 - 3 8 0 0
UM “SANTO” SEM ALTAR 1
Igor Alves Moreira2
RESUMO:
Fragmentos de me mórias a reco mpor u m “Santo”, ainda não reconhecido
oficialmente pela Igreja Católica. Perdão, sangue e oferta são os gestos de
Dom Expedito Lopes retomados por narrativas orais daqueles e daquelas que
acreditam e m seu poder milagroso. Co m seus depoi mentos, refazem a image m
do Antístite e já o autoriza aos altares e lares cristãos de GaranhunsPerna mbuco. São formas de narrar não só a mo rte, mas, sobretudo, a vida do
Bispo e, consequentemente, suas esperanças de vê-lo cultuado.
ABSTRACT:
Fragments of me moi rs to recompose a " Saint ", not yet recognized officiall y
by the Catholic Church. Pardon, blood and it presents the y are the gestures of
Expedite Talent Lopes retaken b y narratives orals of those and of those that
believe in your miraculous power. With yo ur depositions, the y re-do the i mage
of Antístite and it already authorizes him/it to the altars and Christian homes
of Garanhuns-Pernambuco. The y are forms of narrating not onl y the death,
but, above all, the Bishop's life and, consequentl y, you r hopes of seeing him/it
worshipped.
Considerações iniciais
O presente artigo trata-se de uma análise das memórias sobre Dom
Expedito Lopes, 5.º Bispo da cidade pernambucana Garanhuns, assassinado
em 01 de Julho de 1957, naquela urbe, com três tiros de revólver.
Em relação as memórias...
O autor dos disparos, Padre Hosana de Siqueira e Silva. O motivo
principal para os disparos recaía sobre fortes denúncias chegadas aos
ouvidos do bispo Dom Expedito de que Padre Hosana estava tendo um caso
amoroso, primeiro com Maria José Martins, sua prima e empregada
doméstica, e, posteriormente, com Quitéria Marques, outra empregada
doméstica a freqüentar os aposentos e intimidades do sacerdote. Quanto à
Um a adapt ação do s egundo capí t ul o de m i nha Monogr afi a de Graduaç ão em
Hi st óri a. M OR EIR A, Igo r Al ves . Dom Expedi t o Lopes no I m agin ár i o Popul ar .
Ori ent adora: P rofes s ora M es t ra M ari a Apareci d a Vas concel os Lop es . S obral -C E:
Uni vers i dade Es t adual Val e do Acar aú (UVA), 2003.
2
Al uno do Curs o de P ós -Graduaç ão (M es t rado) em Hi st óri a S oci al da Uni vers i dade
Federal do C eará (UFC ). Bol s i s t a FUNC AP (Fundaç ão C earens e de Apoi o à P es qui s a
e ao Des envol vi m ent o C i entí fi co). Ori ent ador: P rofes s or Dout or Fran ci s co R égi s
Lop es R am os .
1
49
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primeira, recaíam- se, ainda, sussurros de que estaria grávida, portanto,
esperando um fruto do amor proibido.
Ao ser invadido por essas conversas “ à boca miúde”, Dom Expedito,
com autorização da Santa Sé, resolveu suspender Padre Hosana de Ordens.
A nota iria ser lida no Programa de Rádio A Voz da Diocese, no ar às
segundas-feiras,
na
Rádio
Difusora
de
Garanhuns.
Sabendo
dessa
determinação, Padre Hosana dirigiu-se à emissora e exigiu falar sua defesa.
Não dado a ele o espaço para falar sua versão da história, pegou um táxi e,
no meio do caminho, resolveu ir ao Palácio Episcopal do bispo. Lá, bravo e
nervoso, disparou três tiros contra ele. Este, por sua vez, foi socorrido,
levado ao Hospital Dom Moura e agonizou ainda durante oito horas
proferindo palavras de perdão ao padre assassino e de oferenda de si
m esm o pelo clero, pela diocese e pelo povo de Garanhuns.
Uma morte que provocou a escrita de vários textos e o som de várias
falas (depoimentos) orais sobre o caso e sobre a suposta “santidade” e
“martírio” do moribundo. Fechou-se para a morte e, ao mesmo tempo,
abriu-se à dialética memória e esquecimento, provocando a escrita de textos
e dando vida às lembranças e esquecimentos de seus diocesanos. Pereceu no
dia 02 de Julho, por volta das duas horas e quinze minutos da manhã. O
crime – e suas interpretações – deixou marcas. Passeia entre lembranças e
esquecimentos.
As guerras e aparthaides não se constituem apenas por motivos
econômicos; também, e, sobretudo, por motivos ideológicos e simbólicos.
Aqui repousa a esfera mais sensível do ser humano: o desejo, a ausência, a
necessidade de sentir-se protegido, acolhido e confortado por uma força
maior; no caso, o "santo" Dom Expedito Lopes. Características de “bom
pastor, santo, piedoso, calmo, sábio, prudente, humilde, sereno e herói "
atribuídas a ele criam uma esfera celestial, um outro mundo e, não deixa de
ser uma forma de o devoto criar seu próprio mundo, sua própria identidade;
participante de uma imaginária rede de proteção. Ao se agarrarem às tais
características, o "santo" passa a ser um referencial a ser seguido, num
mundo cru, seco, individual e de relações efêmeras. Mundo construído com
valores – individualismo, egocentrismo, busca do excedente, utilitarismo -
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da modernidade. Por outro lado, ao Pe. Hosana representa o traidor à Cristo
e às leis da Igreja.
Nos depoimentos orais por mim recolhidos em Garanhuns-PE, os
devotos de Dom Expedito reproduzem e defendem fielmente as versões
apresentadas até então sobre os momentos finais da vítima e também sobre
seu comportamento como cristão. Para elas, duvidar das sofridas palavras
do "santo" é perder o sentido de sua própria existência, pois Dom Expedito
agora foi capturado por eles como o protetor, o confessor, o amigo das
horas de sofrimento e dor que o cotidiano vos reserva.
Tomando-o como
Tutor, entrega-o as decisões de suas vidas.
Para a Irmã Cândida Araújo Corrêa, a qual estava presente junto ao prelado ferido
no Hospital, desta maneira se deu seus últimos momentos e, em conseqüência, suas últimas
palavras:
Eu as s i s ti à mort e del e. Quando eu cheguei e vi at é os
furos . El e t ava t odo cobert o, t avam t i rando a s egunda
radi ogr afi a. Ti raram t rês radi ogra fi as e não local i z aram as
bal as , não puderam operar, não puderam faz er nada. Aí
fiz eram s ó t rans fus ão de s angue e s oro e agu ard ando a
res i s t ênci a del e. (...) E el e fal ando s em pre, s em pre. Ent ão el e
dis s e: ' É t ão fei o um hom em gem er. Eu não s ei s ofrer '. Aí ,
quando foi um a cert a hora, a pres s ão del e es t ava z ero e
fiz eram , um padre com eçou a rez ar no ouvi do del e. Diz i a: '
M eu Deus eu vos dou o m eu coraç ão'. Aí el e [Dom Expedi t o]
res pondi a: ' M eu Deus eu vos ofereço a mi nha vi da'. (...) Na
hora do perdão t am bém el e di s s e: ' M eu Deus , perdoa t odos os
m eus pecados ' (...) Depoi s , el e ofereceu a vi da pel o padre, né.
El e di s s e as s i m : ' M eu Deus perdoa es s e i nfel i z s acerdot e !'.
Aí , fez um a paus a. ' Faz ei com que el e não Vos torne a
ofender! 3 '
Neste momento, a depoente ajuda a instaurar e construir a imagem do
bispo como o próprio Cristo, maculado pela ira de um padre assassino, de
uma ovelha perdida, negra, sem um "verdadeiro" pastor para trazê-la de
volta ao rebanho, ao controle social que o clero católico exercia na
Garanhuns de outrora. Isto é, ferir o prelado é ferir ao próprio Cristo, em
sua honra e em sua santidade.
Ent revi s t a com Ir m ã C ândi da Araúj o C orrêa, co- fundadora, junt am ent e com Dom
Ex pedi t o Lop es , do Ins t i t ut o de Nos s a S enhora de Fát i m a em Garanhuns , e di ret ora
do C ol égi o M ons enhor Adel m ar Val ença (Ant i go Gi nás i o do Arrai al ). Ent revi s t a
real i z ada em Garanhuns - PE, em Feve rei ro de 2003.
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Outros exemplos podem ser aqui verificados. Como exemplo, temos
Dona Marilene Correa, comerciante, ex-proprietária da Padaria Dom
Expedito, e sua devota, relata-nos a importância do bispo em sua vida:
Na mi nha vi da! P a t odo l ado que eu m e vi ro el e es t á com i go (...)
ent regava mui t o m eus probl em a da padari a. (...) Na mi nha
devoção com el e eu s em pre venço. S em pre eu venço tudo na
mi nha vi da. 4
Por outro lado, para a Professora aposentada D. Eugênia Gonçalves
de Medeiros, de 73 anos de idade, quando por mim indagada sobre a
importância de Dom Expedito em sua vida e se ela sente-se confortada em
seus braços, responde:
M ui t o. M ui t o. Num t em um a coi s a, qual quer coi s a, at é o m eu
repous o. C om o é que eu vou vi ver! [ ênfas e] (...) Eu s ou devot a
de Dom Exped i t o. El e é o m eu i nt erces s or di ant e de Deus 5 .
Em O que é Religião , Rubem Alves no explica esse sentimento de
pertença, essa relação dialética devoto/santo. Na abordagem inicial da obra
o autor suscita questionamentos do tipo: “Desapareceu a Religião?" 6 Essa
indagação encontra-se imersa em um determinado contexto sócio-políticohistórico e cultural
ao qual a Tecnologia e a Ciência alastram-se e
conquistam espaços - outrora pertencentes e controlados pela religião - no
cotidiano das pessoas. Entretanto, ainda segundo o autor, a religião ainda
exibe sinais até então considerados dominados e/ou eliminados pela
ascensão dessa tecnologia. O que acontece é que ela está fora dos ciclos das
decisões humanas no que diz respeito a dirigir um país, uma cidade ou um
Estado. Foi expulsa pela a Ciência e a Tecnologia. Porém, permanece
invisível, sutil, e ao mesmo tempo, forte nas pessoas. Por
quê? O autor
privilegia como uma possível resposta o fato de os problemas individuais e
sociais não terem desaparecido.
Ent revi s t a com Dona M ari l ene C orrea, com erci ant e, ex - propri et ári a da P adari a
Dom Expedi t o, 65 anos de i dade. Ent revi s t a real i z ada em s ua res i dênci a, Garanhuns ,
no di a 15 de Feve rei ro de 2003.
5
Ent revi s t a com Dona Eugêni a Gonçal ves de M edei ros , profes s ora apos ent ada, 73
anos de idade. Ent revi s t a real i z ada em s ua res i dênci a, Garanhuns , no di a 15 de
Feverei ro de 2003.
6
A LVES , R ubem . O qu e é Rel i gi ão? S ão P aul o: Bras i l i ens e, 2.ª Edi ção, s / d, P ág.
09.
4
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A Ciência e Tecnologia, ambas não conseguiram responder a muitas
inquietações e desejos das pessoas: pois somos um ser de desejos: do
ausente, da privação. Assim, a necessidade de criarm os significados para
tudo que nos rodeia se instala com uma força poderosa na construção do
que chamamos de realidade, ou seja, o real, o concreto. O instrumento
eficaz nessa comunicação conosco e com Deus são os símbolos.
Os gestos, os silêncios, as orações nas igrejas, orações privadas, as procissões, as
peregrinações, as festas; tudo isso é um conjunto de símbolos carregados de significados
flexíveis e variados, pois a religião também assim se apresenta; porquanto o homem,
com sua cultura, elaboram e (re) elabora significados. O que antes era uma pedra, agora
pode ser adorado como um deus, por exemplo. Ao símbolo é outorgada a fuga do
mundo social e, ao mesmo tempo e, contraditoriamente, a construção desse mundo real
e de suas relações sociais. Porque o homem tornou-se inventor de mundos, inventor de
si mesmo. Amor, desejo, imaginação, mãos e símbolos são suas ferramentas.
Suas invenções, seus mundos e suas marcas são visíveis nos santuários –
públicos e domésticos -, capelas, lugares, templos, amuletos, colares, livros, comidas,
perfumes e outros; como também nos silêncios, olhares, rezas, renúncias, canções,
poemas, celebrações, adorações, graças e/ou milagres; todas essas coisas e gestos
adormecidos nessas linhas apresentam um fluxo movimento entre o mundo sagrado e
espiritual e o mundo profano e real. É o fio - da navalha- e o pavio da história. Para o
religioso, o que importa são os objetos e sentidos que a fantasia e a imaginação podem
construir. O autor afirma ainda que as entidades religiosas sejam entidades imaginárias.
E a religião também pode ser encarada como uma parte, um
subconjunto e/ou fragmento do imaginário. Mas, o que é ou como
poderíamos
compreender as
características
da força
e
poder que
o
imaginário exerce nas tessituras sociais?
Diante dessa indagação, acredito ser necessários rendermos nossos
ouvidos e atenções à Tânia Navarro Swain, quando escreve “Você disse
imaginário?”
7
. Para ela, as relações estabelecidas entre sujeito/objeto,
indivíduo/sociedade
e
natureza/cultura
ora
aparecem
em
um
diálogo
organizado e ora determinante; e que, esses pólos se complementam e se
SW A IN, Tâni a Navar ro. Você di s s e Imagi nár i o ? In: H i s tóri a n o Pl u ral , UNB,
1994, P. 42- 46.
7
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repulsam simultaneamente. São essas ambigüidades e contradições que
organizam a vida social. E na vida social não encontramos as forças e
decisões estabelecidas somente pelos bens materiais. Ao contrário, a vida
social produz bens imateriais, símbolos, representações e interpretações
materializadas em textos, imagens, iconografias e gestos. Aqui entra em
questão o imaginário.
Afirma a autora que o imaginário é e está presente em todos os
discursos; é forjador de sentidos, de identidades, de (in) coerências, define
comportamentos, inculca valores, concorda e discordam atitudes, estabelece
estereótipos e paradigmas, apresenta e institucionaliza “verdades” e seus
efeitos de poder e é dinâmico. A eficácia de o imaginário dar-se porque
trabalha
com
afetos,
desejos,
esperanças,
emoções,
condições
de
possibilidades, com a composição de sentidos, enfim, forma o real e se
torna o solo elementar de toda formação social, porque é produtor de
formas em nós e na natureza. Ela insiste em dizer que as instituições só
podem existir no imaginário e no simbólico.
Sinto na escrita, nas palavras e nos olhos dos devotos de Dom Expedito, quando
das minhas entrevistas, uma rede de desejos, emoções, “verdades” estabelecidas,
esperanças e uma profunda e inquestionável esfera afetiva, principalmente quando lhes
indago sobre as graças e ou milagres alcançados através do intermédio do “santo”.
Ouçamos um pouco mais Dona Eugênia Gonçalves de Medeiros,
relatando as graças alcançadas. Segundo ela, foram duas graças as mais
significativas: a gravidez considerada de risco e o pedido de conforto ao
coração, depois da morte do filho em acidente de moto. Adianto ao leitor,
para melhor compreensão, que os partos de D. Eugênia foram todos
laboriosos, isto é, de risco e que, à época, ela estava com 34 anos de idade.
Precisava fazer uma cesariana e não estava confiante se iria sobreviver.
Esse parto se refere ao seu primeiro bebê.
Então eu fui para o médico. Quando a posição do feto não se alterou até 08
meses. Ela [sua filha] foi gerada sentada e eu sou cardíaca desde criança, ainda
este problema. Resultado: quando foram os primeiros dias, pela manhã, eu
amanheci inquieta. Meu marido disse: ‘ Não. Vamo logo pro médico. Vamo logo
encontrar o Arnaldo [ o médico], porque você vai fazer a cirurgia.’ Eu num tinha
nem me alimentado. (...) Quando eu cheguei lá Arnaldo não estava Mas eu sabia,
eu disse: ‘ Vá buscá-lo na casa dele. Quando ele voltou, cê num vai acreditar, eu
tinha pedido ao Dom Expedito. Pedi, pedi, em voz alta ao Dom Expedito que me
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socorresse, não me deixasse eu entrar na cirurgia (...) eu tinha a impressão de que
se fosse pra cirurgia eu morria, não tinha jeito, não deu tempo o médico chegar.
(...) Quando o médico chegou, eu já tinha tido a criança. Ela nasceu parto normal
no meio do corredor. Olhe, num deu tempo, a irmã Bezerra, uma freira, foi quem
me socorreu, pegou a criança no hábito dela. A criança virou! Ao mesmo tempo,
saiu do caminho. Eu num senti nada. Não precisou nada, absolutamente nada,
nada, foi todo normal. Nem médico, nem enfermeira boto a mão em cima de
mim. [ênfase] 8.
Sobre a outra graça, relata-nos:
Eu perdi um fil ho num des as t re. Ol he, pra um a m ãe que s ofreu de
ver um fi l ho m orrer; s ai r de cas a vi vo e che gar m ort o. Num é? !
Is s o num dói dem ai s? ! Dói . E, aonde eu fui al canç ar e m e
s ust ent ar. Que eu s ou um a pes s oa cardí ac a. Quem m e s us t ent ou?
El e! [ Dom Ex pedi t o] 9 .
Quando lhe pergunto como ela “paga” sua promessa ao santo, ela
responde que somente através de suas orações pessoais. Dona Eugênia
difere-se um pouco dos demais devotos que irei evidenciar aqui: ela
acredita não ser necessário pagar o santo com objetos como pernas-de-pau,
braços e outras partes do corpo confeccionado de madeiras; ou quaisquer
outros objetos. Contraditoriamente, sua fé é mais racional ou mais
amadurecida para os que assim quiserem denominar. Todavia, esse ponto
não
apaga
a
emotividade,
afetividade,
os
desejos,
a
fatalidade,
a
providência, a teatralidade, a mágica, as “verdades” e até a característica
transubstancial que permeiam e vão costurando os fios e teias simbólicas de
seu depoimento.
Carregado também de forte emoção e afetividade é o depoimento de
Dona Marilene Correa sobre as graças alcançadas por intermédio de Dom
Expedito. Esta se refere à cura de sua filha de 02 anos de idade que sofria
de fortes e conseqüentes convulsões. Por intermédio de uma cunhada sua,
em Maceió – Alagoas soube dos feitos do bispo “santo”, isto é, da
existência de Dom Expedito na corte celestial a interceder pelos seus fiéis.
Percebe-se como a fama de Dom Expedito se alastrou àquela época – iremos
conversar sobre isso um pouco mais adiante. Hoje sua filha já é adulta e
mãe:
Ent revi s t a com Dona Eugêni a Gonçal ves de M edei ros , profes s ora apos ent ada, 73
anos de idade. Ent revi s t a real i z ada em s ua res i dênci a, Garanhuns , no di a 15 de
Feverei ro de 2003.
9
Ibi d.
8
55
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Ent ão t eve um a S ext a- fei ra da P ai x ão, que foi o di a de m ai s
agoni a que eu pas s ei na m i nha vi da, porque el a t eve s et e vez es o
pas s am ent o. (...) Aí eu che guei em cas a, i m edi at am ent e m e
dedi quei a el e [ Dom Ex pedi t o] fiz um pedi do pra, s e el a fi cas s e
boa, eu t raz er el a pra vi s i t ar o túm ul o del e aqui na cat edral , el a
vis t i di nha de pret o, s apat i nho pret o, t oda arrum adi nha. E es s a
roupa t oda fi ca pra pri m ei ra m eni na pobre que pas s as s e na mi nha
cas a, eu doar aquel a roupi nha e faz er devoção pra el e enquant o
vi da eu t i ver. E el a, depoi s de adul t a, el a fi car faz endo t am bém .
(...) Aí eu fi z a prom es s a e el a num t eve nunca m ai s . Hoj e el a
t em , vai faz er 41 anos em dez em bro. Não t eve m ai s . J á t em um a
fi l ha m oça, tudi nho. El a fi cou boa. 1 0
Dona Marilene acrescenta ainda uma outra graça alcançada. Só que
dessa vez foi com seu filho que sofria também de constantes convulsões.
Com relação a ele, o pagamento se deu de outra forma: em sua primeira
comunhão foi tirada uma foto do garoto e deixada no túmulo do bispo
assassinado.
A piedosa devota Dona Marilene inclui-se em um conjunto de devotos
outros que estabelecem uma relação de troca com os santos de suas causas.
Uma relação onde só tem sentido se a graça ou o milagre tiver uma dupla
comunicação e um duplo trânsito: devoto/santo e santo/devoto. Se essa
relação for interrompida e quebrada, por quaisquer motivos, a graça ou o
milagre não tem consistência para durar “ enquanto vida eu tiver”, como
mesmo afirmou acima.
Sobre esse ponto da discussão, João de Pina Cabral, em seu artigo O
pagamento do Santo – uma tipologia interpretativa dos ex-votos no
contexto
sociocultural
importantes.
Estes
do
estudos
noroeste
português,
levanta
foram
realizados
com
os
considerações
camponeses
portugueses em Alto Minho, em Portugal, entre os anos de 1979-1983. Para
ele,
A prova m ai s vi s í vel de rel ações de t roca ent re s eres hum anos e
s eres di vi nos s ão as ofert as vot i vas . Es t as s ão ofere ci das ao s er
di vi no em t roca pel a s ua i nt ervenç ão favorável s obre a vi da
hum ana. (...) À dádi va di vi na paga- s e com a cont ra dádi va
hum ana. É um a rel ação de carát er bi pol ar. 1 1
Ent revi s t a com Dona M ari l ene C orrea Araúj o, com erci ant e, ex -propri et ári a da
P adari a Dom Ex pedi t o, 65 anos de i dade. Ent revi s t a real i z ada em sua res i dênci a,
Garanhuns , no di a 15 de Feverei ro de 2003.
11
C ABR AL, J oão de Pi na. O pagament o do s ant o: uma t i pol ogi a int er pr et at i va dos
ex- vot os no cont ext o s oci ocul t ur al do nor oes t e por t uguês . In: Rel i gi osi d ad e
Pop u l ar. C ent ro de Es t udos Hum aní st i cos – S TUD IM GENER ALE –, N.º 06, Port o,
1984.
10
56
R e v i s t a H o m e m , E s p a ç o e T e m p o . C e n t r o d e C i ê n c i a s H u m a n a s d a U n i ve r s i d a d e E s t a d u a l
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O
autor
defende
que
essas
relações
de
reciprocidade
são
os
sustentáculos das relações do homem com o sobrenatural. Insiste em dividir
e caracterizar três tipos de ex-votos: o primeiro tipo está associado às
camadas mais populares; porque os santos e os devotos estão em um
patamar simétrico; entre eles existe uma relação de boa vizinhança. Estão aí
chamando nossa atenção para tal afirmação os objetos de cera e outros
materiais ou partes do corpo humano esculpidas em madeira. Esse primeiro
tipo é uma manifestação de caráter igualitário entre seres divinos e
humanos.
No segundo tipo de ex-votos a reciprocidade e igualdade ente devoto/
santo é fragmentada. Aqui, o santo não é obrigado a acolher e responder aos
pedidos lhes direcionados; porque se tornam superiores com relação aos
seus fiéis. Isso explica os castigos que os fiéis atribuíam às imagens de
santos.
Especialmente
no
Brasil
Colonial,
essas
práticas
e
castigos
direcionados aos santos eram constantes, conforme iremos analisar mais
adiante. Exemplos palpáveis são os retratos, postos em destaque nas salas e
igrejas, do ser divino, a construção de igrejas e templos para agradar o
santo.
Essas construções de capelas e templos refletem a submissão do
devoto para com o ser divino, porquanto a capela pode ser observada como
um lócus de grandiosidade e de sacralidade do santo; e não mais a casa do
devoto; interpretada agora como incapaz de comportar e de ser digna para
abrigar poderes transubstanciais.
E no terceiro tipo, o autor acredita ser a relação devoto/ser divino
revestida por um sentimentalismo materno; o qual o ser divino acolhe,
docemente, o devoto e o protege como uma mão leva o filho ao colo e ao
seio. Neste sentido, o devoto precisa ser constantemente vigiado e guiado,
perde-se sua, ou alguns resquícios e migalhas, de autonomia.
A rel ação ent re o s er di vi no e o s er hum ano j á não incom paráv el
à rel ação ent re vi zi nhos cam pones es , com o no prim ei ro t i po, nem
à do rei e do s údi t o, com o no s egundo; m ai s si m , às dos pai s
perant e um a cri anç a de col o. At i t ude as s umi da por um a el it e
urbana educada 1 2 .
12
Ibi d.
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R e v i s t a H o m e m , E s p a ç o e T e m p o . C e n t r o d e C i ê n c i a s H u m a n a s d a U n i ve r s i d a d e E s t a d u a l
V a l e d o A c a r a ú / U V A . A n o I I, n ú m e r o 1 , m a r ç o d e 2 0 0 8 . IS S N 1 9 8 2 - 3 8 0 0
Muito embora João de Pina Cabral tenha sistematizado desta forma os
tipos de ex-votos, eu faço a opção por compreendê-los de uma forma a qual
os três mesclam-se constantemente e em simultaneidade. Pelo menos nos
depoimentos por mim recolhidos e nas cartas de agradecimentos e pedidos
de graças endereçadas à Catedral de Santo Antônio, local onde está
enterrado o corpo do bispo assassinado, bem como nos ex-votos lá deixados
é muito forte os indícios de uma relação em que aparecem características de
patriarcalismo e, ao mesmo tempo, traços de maternalismo; sensações de
reciprocidade e, simultaneamente, submissão – como o súdito para com o
rei, como afirma o autor acima citado - do devoto para com o “santo” Dom
Expedito. Outros exemplos seguem para melhor entendermos tal afirmação.
Em uma carta endereçada a Dom Expedito Lopes pelo devoto
Francisco Múcio Vasconcelos, nascido em Sobral, estado do Ceará, porém
residindo, à época, em Maceió, estado de Alagoas e datada de 04 de
Fevereiro de 1983; pode-se usufruir do seguinte depoimento de uma graça
por ele alcançada em 1961.
Na íntegra, a carta:
Eu Fran ci s co M úci o Vas conc el os , nas ci do em S obral , es t ado do
C eará, cas ado, hoj e res i di ndo na ci dade de M acei ó, es t ado de
Al agoas , à Traves s a S erafi m C ost a, n.º 254, Bai rro Farol , e
mi nha es pos a Terez a de J es us M enez es Vas concel os , nas ci da na
ci dade de S ant ana do Acaraú, es t ado do C eará, vi m os rel at ar,
para fi ns de s er anex ado ao P roces s o de Beat i fi ca ção de Dom
Ex pedi t o Lop es , a graç a al canç ada (aut ênt i co m i l agre ) m edi ant e
a s ua vali os a i nt erces s ão, com o pas s am os a det al har:
Em m eados do m ês de J ul ho do ano de 1961, na ci dade de
P arnaí ba, es t ado do P i auí , onde res i dí am os naquel a época, por
recom endaç ão m édi ca, foi apl i cada um a inj eção de W yci l l i n na
regi ão gl út ea de nos s o fi l ho, Franci s co M úci o de Vas conc el os
Fi l ho, naquel a época com t rês anos i ncom pl et os . Depoi s da
i nj eção fei t a, foi veri fi cado que a m esm a s e apres ent av a al t erada,
pel os res í duos fi cados no fras co- am pol a; com o s e es perav a, o
lí qui do não foi abs orvi do, pel o que s e form ou um abces s o
própri o des t e cas o. P rocuram os o m édi co da fam í l i a, / dr. J oão
Iv es t y de M enez es , que indi cou a apl i cação t ópi ca do ungüent o
denom i nado ‘ Ant i fl ogi s t i ne”, aqueci do, o que foi fei t o, porém ,
por i nex peri ênci a, em t em perat ura de água em ebul i ção e ai nda
em cont at o di ret o com a pel e, fat o que provocou um a ex t ens a
quei m adura em t oda nádega do garot o, fi cando com o s e diz
com um ent e de ‘ carne vi va’ e s ecreção aquos a tí pi ca des s e t i po
de quei m adura, agravando - s e s eri am ent e o quadro e em nada
reduz i ndo o abces s o, ao cont rári o, com o que o acel erando.
Cham ado novam ent e o m édi co aci m a, s urpreendeu - s e o m es m o e
i nform ou que t i nha agravado em m uit o, poi s havi a neces s i dade
urgent e de s er s arj ado o abces s o, m as que não podi a ant e a
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R e v i s t a H o m e m , E s p a ç o e T e m p o . C e n t r o d e C i ê n c i a s H u m a n a s d a U n i ve r s i d a d e E s t a d u a l
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quei m adura e as s i m não s abi a o que faz er, m edi cando- s e a
quei m adura, o s eu regr es s o s eri a l ent o e o abces s o requeri a
urgênci a.
Fi cam os real m ent e afl i t os e m uit o preocupados di ant e à
gravi dad e e t am bém s em s aber o que faz er. O garot o apres ent ava s e m uit o i nqui et o e com febre. Vi vendo- s e es t e dram a, à noi t e,
em m i nhas orações , eu, pai , recor ri à S an ta [ gri fo m eu] Al m a de
Dom Expedi t o Lop es , pedi ndo-l he a cura de m eu fi l ho e
p romet en d o [ gri fo m eu] que m andari a o At es t ado para
pos si bi l it ar a sua m ereci da beat i fi ca ção. Eu, que o conheci
pes s oal m ent e, as s is t i à s ua S agraç ão Epi s copal em Sobral e
acom panhei t o da s ua vi da at é a s ua t rági c a m ort e, s abendo ai nda
de mui t as graç as al cançad as por s eu i nt erm édi o, com m ui t a
confi ança e fé, fi z -l he aquel e pedi do e confi ant e em s er at endi do,
com o real m ent e o fui . P ara grat a s urpres a nos s a e de t odos que
ti veram conheci m ent o, l ogo ao am anhec er do di a s egui nt e, após
um a noi t e cal m a do garot o, cons t at ou-s e a com pl et a ci cat ri z ação
da quei m adura e o abces s o re gredi do, que com li gei r a
com pres s ão e s em qual quer dor, ex pel i u t odo o lí qui do não
abs orvi do da inj eção e as s i m , i rrefut avel m ent e, em cura tot al ,
des neces s ári o de qual quer t rat am ent o ou cui dado.
P ara m el hor com provar e ofi ci al i z ar o ocorri do, anex am os o
ATES TADO do m édi co que o as s i s ti u e cons t at ou a cura aci m a
rel at ada e que ex cedeu à ex pect at i va da m edi ci na.
E por s er a ex pres s ão de m ai s pura VER DADE, fi rm am os abaix o
o pres ent e docum ent o.
M acei ó – Al agoas ., 04 de Fever ei ro de 1983
Fran ci s co M úci o Vas conc el os 1 3
Traço de submissão entrega proteção, afetividade, fatalidade, alegria,
mágica e a sensação de dívida paga pulsam nessa descrição. Podemos
observar também que do ponto de vista dos três tipos de ex-votos outrora
mencionados, todos estão aqui mesclados ficando difícil identificar as
limitações de cada um.
Esta outra carta foi enviada pela Irmã Macrina contando um caso ocorrido com o
devoto José Alves de Menezes, em Campina Grande, Estado da Paraíba. A carta não
apresentava data de endereçamento, tampouco da ocorrência do fato. No entanto, é por
demais importante ser citada também na íntegra para tentarmos compreender a fé e total
devoção de ambos - Irmão Macrina e o senhor José Alves de Menezes - a Dom Expedito
Lopes; assim como evidenciar traços de uma religiosidade afetiva, emocional,
transubstancial e fatalista. Uma carta escrita por Irmã Macrina:
C art a endereç ada à Di oces e de Garanhuns , lócus onde es t á ent errado o corpo de
Dom Expedi t o Lop es , pel o devot o Franci s co M úci o Vas conc el os , nas ci do em S obral C E, porém res i di ndo, à época, em M acei ó- A L e dat ada de 04 de Fever ei ro de 1983.
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Graça obt i da por i nt erces s ão de Dom Ex pedi t o Lop es
Agr aci ado: J os é Al ves de M enez es
Um di a, chegou em cas a quas e des es perado da vi da. arm ado com
um revól ver, a pri m ei ra pes s oa que o encont rou foi sua m ãe, para
quem s e di ri gi u com i nt enção de al vej á- l a. Um a ti a, vendo a
cena, gri t ou- l he: ‘ m eu fil ho, não faça i s s o! Não m at e s ua m ãe! É
pecado!
S ai ndo, ent ão, de cas a, di ri gi u- s e à cas a do sogro, onde s e
achava a es pos a, de quem s e havi a s eparado, ant es de um ano de
cas ado. Encont rou- a com a s ogra, no j ardi m . Di s s e ent ão: ‘ Não
pos s o faz er nada!’ Ent rou, ent ão no quart o, deu doi s ti ros no
própri o pei t o. Um a das bal as fi cou encal hada na vei a aort a.
Ouvi ndo o ti ro, as pes s oas foram ver o que ti nha acont eci do.
Encont rando- o no chão, com o m ort o, l evaram - no para o hos pi t al .
Depoi s de ex am i ná- lo o m édi co di s s e para a fam í l i a: ‘ Im pos s í vel
el e es capa r des t a. S e operarm os , s erá m ort e cert a! ’.
Voltou para casa e, durante 15 dias, sofreu dores horríveis [ parte ilegível] à
noite, pedi à mãe dele que fosse descansar. Ficaria com ele. Pus-me a falar-lhe
sobre Dom Expedito e lhe perguntei: '‘Você quer ficar bom?'’ Respondeu-me: ‘
Quero!’. ‘ Acredita que Dom Expedito lhe pode curar?’ Respondeu-me: ‘
Acredito.’ Apresentei-lhe então, uma relíquia e um retrato de Dom Expedito.
Coloquei a relíquia sobre a ferida e pedi-lhe: ‘ Diga comigo: Dom Expedito, o
senhor vai me curar.’ Ao terminar de dizer isto, ele deu um grande grito e
desmaiou. Tomei um susto enorme. Pensei comigo: ‘ Meu Deus, em vez da vida
foi a morte!’ Três minutos depois, voltando a si ele exclamou: ‘ Mãe, estou
curado! Dom Expedito me curou! Sinto que a bala saiu!’ [ parte ilegível] ‘ Estou
curado! Quero me levantar!’. A mãe, lhe disse: ‘ Agora é tarde, meu filho, deixe
para amanhã’. No dia seguinte não sentia nada. Três meses depois, a bala saía
pelas costas.
C as o ocorri do em C am pi na Grande – P araí ba
Im ã M acri na ( R el . Ins t r, C ri s t ã) 1 4
Agradecimentos de cura de doenças como câncer, por exemplo; pelo
marido, filho ou qualquer outro membro da família ter conseguido um
emprego;
por
ter concluído a faculdade; pela compra de um terreno ou
casa; pela aquisição de uma escola, pela recuperação de algum acidente com
veículo, entre outros, fazem parte do Menu de Dom Expedito Lopes. Para
ser sincero, o compõe.
A carta de Dona Maria Magdalena de Oliveira, de Pacaembu - São
Paulo e, datada de 20 de abril de 1984;
está permeada de devoção e
agradecimentos a Dom Expedito por duas graças alcançadas: a filha ter se
formado em Advocacia e pelo emprego que o marido conseguiu. Como
pagamento, a divulgação da sua fé.
C art a de Ir m ã M acri na rel at ando o fat o ocorri do com o s enhor J os é Al ves de
M enez es , de C am pi na Grande, P araí ba. A cart a não es t á dat ada.
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(...) M eu m ari do es t ava des em pregado, com ecei a novena e ant es
de t erm i nar j á cons egui u o s ervi ço. M i nha fil ha acabou de s e
form ar em para advogada e preci s ava de um es cri t óri o para
t rabal har. C om ecei a novena e, ant es de t erm i nar, el a j á
cons egui u graç as ao Dom Expedi t o Lop es . Eu prom et i a el e que
es creve ri a e es t ou propagando a fé. 1 5
Abaixo, segue outro agradecimento. Desta vez, por três graças
alcançadas através do bispo assassinado. Duas delas, envolvendo cura de
doenças cancerígenas. Assim nos fala Dona Laura Nascimento, do bairro de
Graças, em Recife-Pernambuco.
M eu i rm ão es t ava i nt ernado por caus a dos nervos peguei com D.
Ex pedi t o Lop es nunca m ai s foi preci s o s er i nt ernado. M eu
com padre foi operado do cânc er os m édi cos di rão t rês m es es de
vi da para el e pegu ei com Dom Ex pedit o Lo pes e el e es t a bom . J á
faz ci nco anos que el e operou. Mi nha pri m a t am bém foi operada
de cânce r t am bém es t á boa 1 6 .
E outros, e outros, e outros pedidos e agradecimentos são-lhes feitos
e endereçados. Todos permeados de fios de sentimentalismo, devoção,
submissão, poderes sobrenaturais e/ou transubstanciais, de fatalidade entre
outras características já aqui citadas.
Na relação Devoto/Dom Expedito também há características de
proteção, respeito, reverência e total entrega ao ser divino; bem como
também foram escritos exemplares de Literatura de Cordel. Neles, o
cordelista
narra, à sua maneira, o crime e reveste o “santo” de muitas
qualidades como “imaculado, Príncipe da Religião, condutor de almas ao
céu, pastor e pai”. Nesses escritos, os autores canalizam suas atenções para
as características do bispo e, em contra partida, as opõe às características
do padre Hosana – já foi aqui afirmado e compreendido que um não poderia
se sustentar até hoje no imaginário social sem a existência do outro -; para
narrar suas versões sobre o crime e definir lugares sociais para ambos os
personagens.
M ui t a al egri a s e fez
No povo ao rec eber
O novo pas t or e pai
C art a de Dona M ari a M agdal en a de Oli vei ra, de P acaem bú- SP , dat ada de 20 de
Abri l de 1984.
16
C art a de Dona La ur a Nas ci m ent o, do bai rro de Graças , R eci fe- P E. O docum ent o
não apres ent a dat a.
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Do rebanho a m erecer
No governo pas t oral
A j ust i ça deve s er.
Adiante, diz:
Res ol veu di ver s os cas os
Na vi da par oqui al
Faz endo ver a s eus padr es
O dever s acer dot al
De conduz i r mui t as al mas
Ao r ei no cel es t i al .
Prossegue ainda, fazendo alusão do sangue derramado de Dom
Expedito com o sangue derramado de Cristo na cruz e, também, sobre o
gesto de perdão de Dom Expedito para com o padre assassino.
C omo o s angue de Jes us
N es s e di a cel ebr ado,
Em jul ho di a pr i mei r o,
T ambém s angue der r amado
Do bi s po Di oces ano
N es s e di a cons umado.
Dom Expedi t o s ent i u
A mor t e s e apr oxi mar
Rez ava cons t ant ement e
Dei xando dor es pas s ar
L embr ando s empr e do padr e
Que devi a s e s al var
(... )
As pal avr as der r adei r as
Que el e pr onunci ou
Pel o bem da Di oces e
Ao padr e já per doou
E es t e s ej a o fi m
Dos cr i mes que pr at i cou.
Os padr es chor avam todos
O bi s po nunca chor ou
A chama daquel a l uz
N aquel a hor a f it ou
E um ar de s anti dade
N a s ua f ace pai r ou.
(...)
Prosseguindo, o autor outorga ao bispo o lócus da santidade e ao
padre assassino o lócus do fracasso do homem.
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Na pes s oa des s e padre
O hom em fracas s ou
O di vi no perm anece
No bi s po que perdoou
A j ust i ça que condene,
O profano que fi cou. 1 7
O assassinato de Dom Expedito Lopes, o qual desencadeou, nos
vários relatos de sua vida, morte e sua "presença" entre nós, também está
dentro dessa análise levantada pela autora. Muitos espaços, compreensíveis
ou não pela razão, são ocupados pelos discursos religiosos do clero e da
população de Garanhuns. As últimas palavras de Dom Expedito – as quais o
prelado pede perdão de seus pecados e que todos perdoem o padre
assassino. Como também a oferta de sim mesmo ao povo e ao clero de
Garanhuns - configura-se como o estopim e/ou o motor inicial desse
processo.
José Soares, em seu cordel A Morte do Bispo de Garanhuns, também
contribui com sua fala, sua interpretação para preencher os espaços vazios
em torno e sobre a figura do prelado. Atribuindo-lhe características e
sentidos, o autor (re) cria sua "verdade" para poder entender e suportar o
fato.
Garanhuns es t á de l ut o
Num a bi s onha m anhã!
Foi m ort o Dom Ex pedi t o
Um bis po de al m a S ã,
P el o revól ver de um padre
P art i dári o de S at ã.
Si m l ei t ores es s e padre
Com s eu ins t i nt o pagão
Com 3 t i ros de veról ver
P rost ou s em vi da, no chão
A Dom Expedi t o Lopes
P rí nci pe da rel i gi ão.
Adiante, o autor afirma em sua narrativa que as dores de Dom
Expedito são acopladas e/ou próximas às dores cotidianas do povo da
cidade.
Poi s não s uport ando as dores
C ordel O B is p o Márti r. Aut or des conheci do. Es cri t o em Agos t o de 1957. P .05 e
s egui nt es .
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Sua vi da foi pas s ada
As duas horas e qui nz e
De um a t ri s t e m adrugada
Deix ando o povo t ão t ri st e
E a ci dade enl ut ada. 1 8
Até o presente momento, caminhamos no intuito de entender,
compreender, analisar e respeitar como os devotos de Dom Expedito Lopes
o acolhe em suas vidas. Neste caso, podemos chamar novamente Eni
Orlandi para nos falar que o discurso religioso é o espaço, o momento e a
oportunidade desses devotos de construir e expressar sua espiritualidade,
momento de pôr sua fala em Deus, que é, segundo ela, a “onipotência do
silêncio”.
Todas essas manifestações, quer sejam orais ou escritas, estão sendo
capturadas pela Diocese de Garanhuns para promover e institucionalizar
uma memória oficial de “santidade” e de “martírio” de Dom Expedito.
Desde 1990 para cá a diocese elabora e põe em prática momentos públicos –
missas e exposições – sobre a vida, e, sobretudo, sobre a morte do prelado
para convencer o povo de sua “santidade”. Foi criado um Tribunal
Eclesiástico pela causa de Beatificação e Canonização de Dom Expedito.
Esse tribunal fez um itinerário entre os estados do Piauí, Pernambuco e
Ceará para recolher depoimentos e documentos sobre Dom Expedito Lopes.
Esse material embasa a ação pela canonização do bispo.
Seu processo já encerrou-se em sua primeira fase aqui no Brasil.
Hoje, encontra-se no Tribunal da Causa dos Santos, em Roma, à espera de
análise e veredicto do Papa Bento XVI. Será “santo” e “mártir” oficial da
Igreja Dom Expedito? Quem ganhará com isso e se beneficiará com essa
santificação? Como esse momento chega e está, e, sobretudo, não chega e
não está, na atual Garanhuns? Perguntas para outros diálogos. Caminho
aberto para outras análises.
Ref erên ci as bi bl i ográf i cas
ALVES, Rubem. O que é Religião? São Paulo: Brasiliense, 2.ª Edição, s/d, Pág. 09.
18
C ordel A Morte d o Bi s p o d e Garan h un s , de J os é S oares (s / d), P .01 e s egui nt es .
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V a l e d o A c a r a ú / U V A . A n o I I, n ú m e r o 1 , m a r ç o d e 2 0 0 8 . IS S N 1 9 8 2 - 3 8 0 0
C ABR AL, J oão de Pi na. O pagament o do s ant o: uma t i pol ogi a int er pr et at i va dos exvot os no cont ext o s oci ocul t ur al do nor oes t e port uguês . In: Rel i gi os id ad e Pop u l ar .
C ent ro de Es t udos Hum aní s t i cos – S TUDIM GENER A LE –, N.º 06, P ort o, 1984.
MOREIRA, Igor Alves. Dom Expedito Lopes no Imaginário Popular. Monografia de conclusão do
Curso de Graduação em História. Orientadora: Professora Mestra Maria Aparecida Vasconcelos Lopes.
Sobral-CE: Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), 2003.
SW A IN, Tâni a Navar ro. Você di s s e Imagi nár i o ? In: H i s tóri a n o Pl u ral , UNB, 1994,
P. 42- 46.
FO NT E S ES CRI T AS
C art a endere çad a à Di oces e de Garanhuns , lócus onde es t á ent errado o corpo de Dom
Ex pedi t o Lop es , pel o devot o Franci s co M úci o Vas conc el os , nas ci do em Sobral - C E,
porém res i di ndo, à época, em M acei ó- AL e dat ada de 04 de Fever ei ro de 1983.
C art a de Ir m ã M acri na rel at ando o fat o ocorri do com o s enhor J os é Al ves de
M enez es , de C am pi na Grande, P araí ba. A cart a não es t á dat ada.
C art a de Dona M ari a M agd al ena de Ol i vei ra, de P AC AEM BÚ- S P, dat ada de 20 de
Abri l de 1984.
C art a de Dona Lau ra Nas ci m ent o, do bai rro de Graças , R eci fe- PE. O docum ent o não
apres ent a dat a.
Cordel O Bi sp o Márti r. Aut or des conheci do. Es cri t o em Agos t o de 1957.
Cordel A Morte d o B i sp o d e Garan h u n s , de J os é S oares . O docum ent o não
apres ent a dat a.
FO NT E S O RAI S
Ent revi s t a com Irm ã C ândi da Araúj o C orrêa, co- fundadora, junt am ent e com Dom
Ex pedi t o Lop es , do Ins t i t ut o de Nos s a S enhora de Fát i m a em Garanhuns , e di ret ora
do C ol égi o M ons enhor Adel m ar Val ença (Ant i go Gi nás i o do Arrai al ). Ent revi s t a
real i z ada em Garanhuns - PE, em Feve rei ro de 2003.
Ent revi s t a com Dona M ari l ene C orrea, com erci ant e, ex - propri et ári a da P adari a Dom
Ex pedi t o, 65 anos de idade. Ent revi s t a real i z ada em s ua res i dênci a, Garanhuns , no
di a 15 de Feve rei ro de 2003.
Ent revi s t a com Dona Eugêni a Gonçal ves de M edei ros , profes s ora apos ent ada, 73
anos de idade. Ent revi s t a real i z ada em s ua res i dênci a, Garanhuns , no di a 15 de
Feverei ro de 2003.
65
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Um Santo sem altar