Educação em Foco Ano 14, n. 17 – julho de 2011 ISSN 1519-3322 Publicação do Centro de Comunicação da Faculdade de Educação - UEMG Campus Belo Horizonte [email protected] Conselho Científico Almerindo Janela (Universidade do Minho – Portugal), Antônio Carrilo Avelar (Universidade do México), Eneida Maria Chaves (Universidade Federal de São João del-Rey – UFSJ), Francisco Antônio Loyola (Montreal), José Augusto Cardoso Bernardes (Universidade de Coimbra), Adilson Xavier da Silva (UNA/BH), José Carlos Libâneo (Universidade Católica de Goiás – UCG), Júlio César Furtado (Centro Universitário da Associação Brasileira de Ensino Universitário – UNIABEU), Maria Aparecida da Silva (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – CEFET/MG), Maria da Consolação Rocha (Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG), Maria Teresa Machado Duran (Universidade de Camaguey – Cuba), Mauro Henrique Nogueira Guimarães de Abreu (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), Max Haetinger (Inteligência Educacional e Sistema de Ensino – IESDE), Mírian Paura Sabrosa Zippin Grispun (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ), Patrícia Sadovsky (Villa Dominico – Universidade de Buenos Aires - Argentina), Vera Lúcia Ferreira Alves de Brito (Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG). Conselho Editorial Ana Teresa Drumond Rodrigues (Centro Universitário Newton Paiva), Belkiss Alves Nogueira da Fonseca (Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG), Maria Odília de Simoni (Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG), Santuza Abras (Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG). Educação em Foco – ano 14, n. 17 (julho/2011) Belo Horizonte: Faculdade de Educação/Campus BH/UEMG, 1995 v. : il.; 21 x 15 cm Semestral ISSN: 1519-3322 Educação – Brasil – periódicos 2 - Educação – América Latina Periódicos: I – Faculdade de Educação/CBH/UEMG COD - 370 Indexada em: • BBE: Biblioteca Brasileira de Educação (Brasília, INP) • Latindex: Sistema Regional de Información em Línea para Revistas Científicas de America Latina, el Caribe, España Portugal. Qualis: B2 - Educação ISSN 1519-3322 Belo Horizonte 2011 Universidade do Estado de Minas Gerais Reitor Dijon Moraes Júnior Vice-Reitora Santuza Abras Chefe de Gabinete Eduardo Andrade Santa Cecília Pró-Reitor de Planejamento, Gestão e Finanças Antônio Dianese Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação Magda Lúcia Chamon Pró-Reitora de Ensino e Extensão Renata Nunes Vasconcelos EdUEMG – Editora da Universidade do Estado de Minas Gerais Avenida Coronel José Máximo - 200 - Bairro São Sebastião CEP: 36.202-284 - Barbacena - MG Tel.: (32) 3362-7385 - Fax: (32) 3362-7431 [email protected] Capa Centro Design - ED/UEMG Revisão Tomaz de Andrade Nogueira Coordenação Daniele Alves Ribeiro Projeto gráfico e diagramação Marco Aurélio Costa Santiago Revisão final e normalização Regina Maria Boratto Cunningham Faculdade de Educação – Campus Belo Horizonte (FaE/CBH) – UEMG Diretora do Campus Belo Horizonte Santuza Abras Diretora da FaE Dolores Maria Borges de Amorim Vice-Diretora da FaE Lélia Lombardo Revista Educação em Foco Centro de Comunicação (Cenc) da FaE CBH/UEMG Rua Paraíba - 29 - sala 704 Belo Horizonte - MG - Cep: 30.130-140 Tel.: (31) 3239-5912 Coordenador do Cenc e editor responsável Tomaz de Andrade Nogueira Secretário Antônio Augusto de Jesus Linha editorial A revista Educação em Foco é editada semestralmente pelo Centro de Comunicação da Faculdade de Educação (FaE) - Campus Belo Horizonte - UEMG - através de seu curso de Pedagogia e destina-se à divulgação de trabalhos relacionados a assuntos educacionais, sobretudo aqueles ligados à escola pública. As opiniões emitidas nos artigos são de responsabilidade dos autores. Permite-se a reprodução total ou parcial dos artigos desta revista, desde que citada a fonte. Sumário Editorial 9 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira The School Administration Course: its importance and influence on Education in Minas Gerais/Brazil Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes 13 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país Drops of reflections on the Pedagogy trajectory in this country Ana Lúcia Amaral 37 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento Constitutive dimensions of Pedagogy as a field of knowledge Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta 55 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente Education major in Brazil: looking back on the past, understanding the present Leda Scheibe, Zenilde Durli 79 Sumário Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai? Formation in the Pedagogy course: the praxis, how is it going? Luana Costa Almeida, Maria Márcia Sigrist Malavasi Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais Career and salary of teachers in Basic Education: some legal boundaries Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini 111 129 Editorial Um misto de orgulho e honra reveste a apresentação desta edição especial da revista “Educação em Foco”. Orgulho por poder refletir sobre a Pedagogia, o curso de Pedagogia da Faculdade de Educação nos 40 ANOS de histórica e significativa inserção de seus egressos na sociedade mineira e brasileira; inserção de êxito desses egressos na contribuição inconteste de seus profissionais, pesquisadores para e da educação. Ao orgulho soma-se a emoção da educadora, pedagoga que não mediu esforços na luta pela educação e pela formação de um educador capaz de não apenas superar desafios, mas transformá-los, objetivando a superação de práticas educativas demandadas pelo contexto atual. Honra que se mescla no compromisso para e pela Educação que, assumida ao longo de minha trajetória profissional, levou-me também a assumir a coordenação do curso de Pedagogia entre os anos de 2000 e 2004, a vice-direção de 2004 a 2008 e a direção da Faculdade de Educação entre 2008 e 2012. Convicta do dever de construir e oportunizar espaços e tempos de lutas e ações para uma educação igualitária e emancipatória, foram os desafios vivenciados e partilhados com toda a comunidade acadêmica da Faculdade de Educação. Portanto, no ano em que a Faculdade de Educação reflete sobre a Pedagogia, a formação do pedagogo e seus campos de atuação profissional, as professoras Maria do Carmo de Matos e Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes, no artigo “O curso de Administração Escolar - importância e influência na Educação mineira” buscam, recuperando na história, as origens do atual curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais. Marco de um período da Educação em Minas Gerais e no Brasil - 1946/1969 -, o CAE se transformou em referência na formação, produção de conhecimentos e de materiais didáticopedagógicos utilizados pelo sistema educacional mineiro com repercussões nacionais. Nesse curso encontram-se os princípios 9 10 orientadores do projeto pedagógico do curso de Pedagogia. Com “Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país”, Ana Lúcia Amaral propõe-se, em “gotas”, refletir sobre a educação, o contexto, as influências e as repercussões de diferentes correntes teóricas e das políticas educacionais que orientaram e definiram rumos para a educação brasileira e para a Pedagogia. A análise apresentada pela autora instiga-nos, educadores, pedagogos, à reflexão sobre o que fizeram da e com a Pedagogia e o que se propõe à Pedagogia como ciência da educação. São “gotas” preciosas à reflexão. Os autores do artigo “As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento”, Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo e Selma Garrido Pimenta, ao assumirem posicionamento contrário aos educadores da ANFOPE e à legislação que define as diretrizes curriculares para os cursos de Pedagogia, apresentam e analisam as bases sobre as quais assumem e defendem a “Pedagogia como um campo de estudos sobre o fenômeno educativo, portadora de especificidades epistemológicas... A Pedagogia é a ciência que tem por objeto a educação humana nas várias modalidades em que se manifesta na prática social”. A especificidade epistemológica do campo científico e profissional da Pedagogia é abordada ao longo do texto, tornando claras as convicções que orientam e definem a luta política em torno da Pedagogia, assumida pelos autores ao longo de suas significativas trajetórias profissionais. No artigo “Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai?” são apresentadas propostas curriculares que se estruturam na busca do trabalho coletivo e da interdisciplinaridade como eixos /dimensões possibilitadores de articulação entre teoria e prática na formação dos pedagogos. Tal questão, historicamente posta, tornou-se objeto da pesquisa que buscou a formação de um profissional egresso do curso de Pedagogia em uma universidade pública paulista. As autoras Luana Costa Almeida e Maria Márcia Sigrid Malavasi, em suas considerações, trazem para reflexão a necessidade da retomada da dimensão prática nos estágios como importante espaço para a efetivação da práxis almejada nos cursos de Pedagogia. Outra consideração relevante desse estudo é a questão da interdisciplinaridade como dimensão da produção do conhecimento dentro dos cursos de Pedagogia, uma vez que oportuniza o trabalho coletivo numa perspectiva dialética em que a práxis se efetiva. Oportuna é a temática apresentada por Rubens Barbosa de Camargo e Márcia Aparecida Jacomini no artigo “Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais” nesta edição especial, que buscou na centralidade dos demais artigos a análise teórico-reflexiva sobre as origens, a trajetória , os avanços e retrocessos da Pedagogia no país. Oportuna porque constrói com o leitor, ao longo do texto, uma análise crítica dos documentos legais nos elementos identificadores da necessidade do estabelecimento de planos de carreira e remuneração de professores, expressos em legislações brasileiras desde o Império até o presente. Sem dúvida, a luta por uma educação de qualidade pressupõe, como verificado em documentos analisados e “recomendados”, a condição e o preparo docente, ainda que sejam constatados, desde sempre, a penúria salarial e as condições de trabalho a que os docentes se submetiam e, por que não, ainda estão submetidos em termos internacionais e nacional? Esta edição se encerra com o artigo das professoras Leda Scheibe e Zenilde Durli – “Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente”. Sem dúvida, as autoras apresentam e explicitam, nas definições educacionais do país, o contexto sociocultural e a jurisprudência nas leis educacionais orientadoras dos currículos e definidoras do perfil de egressos. A complexidade histórica do curso de Pedagogia e seu papel no encaminhamento de questões educacionais são abordados, considerando-se três momentos marcantes em sua trajetória: o movimento dos educadores das décadas de 20 e 30, as mudanças impetradas ao curso no contexto das legislações das décadas de 60 11 e 70 do século XX e o período pós-década de 70, caracterizado por intencionalidades antagônicas em que os debates e os dissensos se tornaram definidores das legislações atuais e provocadores de inquietações geradas ainda das ambiguidades e indefinições sobre a Pedagogia, a formação e o campo de atuações de seu profissional. Os estudos dos teóricos apresentados nesta edição especial representam o coroamento do propósito da Faculdade de Educação: neste ano de 2011 refletir sobre a Pedagogia e avaliar, pelo seu percurso, avanços e retrocesso ao longo dos 40 anos do seu curso de Pedagogia. O agradecimento da Direção da Faculdade de Educação aos educadores e pedagogos que contribuíram com as reflexões e as proposições acrescidas dos desafios apresentados em seus artigos, a todos que direta ou indiretamente formam o pedagogo. Ao CenC, aos seus coordenadores e aos pareceristas, o cumprimento especial pelo empenho de sempre e o inconteste esforço para que, dentro ainda das comemorações dos 40 ANOS DO CURSO DE PEDAGOGIA, este número especial fosse lançado. Dolores Maria Borges de Amorim Belo Horizonte, 2011 12 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira Maria do Carmo de Matos1 [email protected] Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes2 [email protected] Resumo Neste artigo enfoca-se a repercussão do Curso de Administração Escolar na educação mineira. Instituído em 1946 com a extinção da Escola de Aperfeiçoamento e a criação dos institutos de educação, funcionou até 1969 e teve grande importância. Habilitava com exclusividade profissionais para a rede estadual de ensino e era voltado para a formação de professores para as disciplinas pedagógicas do ensino normal e para cargos de projeção e influência na hierarquia educacional, incluindo escolas, inspetorias e o órgão central. Professores e ex-alunos participaram ativamente da produção de programas de ensino, materiais e livros didáticos, tendo como foco o então ensino primário. Com o seu encerramento deu-se a criação do curso de Pedagogia em 1970, incorporado à UEMG em 1995. Esses cursos integram o percurso histórico da atual Faculdade de Educação, do Campus de Belo Horizonte, da Universidade do Estado de Minas Gerais. Palavras-chave: formação docente; política educacional; recontextualização. 1 Doutora em Educação FaE/CBH/UEMG 2 Doutora em Educação FaE/CBH/UEMG 13 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira3 O Curso de Administração Escolar (CAE) funcionou em Minas Gerais no período de 1946 a 1969, em continuidade à Escola de Aperfeiçoamento instalada em 19294 e faz parte do percurso histórico da atual Faculdade de Educação, do Campus de Belo Horizonte, da Universidade do Estado de Minas Gerais (FaE-CBH/UEMG). Em decorrência da lei n. 5.540/1968, o CAE foi extinto, dando origem ao curso de Pedagogia do Instituto de Educação de Minas Gerais, cujo início se deu em 1970. Este funcionou como instituição vinculada à Secretaria de Estado da Educação até 1995, quando passou a integrar a FaE/CBH-UEMG. Criada pela Constituição do Estado de Minas Gerais de 1989, pela lei n. 11.539, de 23 de julho de 1994, a UEMG teve assegurada a incorporação das unidades de ensino superior que passaram a compor o campus de Belo Horizonte: a Fundação Mineira de Arte Aleijadinho (FUMA); a Fundação Escola Guignard; o curso de Pedagogia do Instituto de Educação de Minas Gerais e o Serviço de Orientação e Seleção Profissional (SOSP). Da primeira tiveram origem duas unidades, a Escola de Design e a Escola de Música; a segunda é a atual Escola Guignard e a terceira deu origem à atual Faculdade de Educação. O SOSP ficou vinculado à Reitoria. Como as demais unidades citadas, a Faculdade de Educação já contava uma longa trajetória de funcionamento. Em seu percurso, a instituição passou por várias transformações mantendo, todavia, algumas características básicas, como sua função social e educativa voltada à formação de profissionais para atuação em escolas e em cargos de diferentes instâncias da rede estadual de ensino em 14 3 Este Artigo se referencia em: a) pesquisa em andamento na FaE/CBH-UEMG que conta com recursos da FAPEMIG, sob o título: “A influência do Serviço de Orientação e Seleção Profissional – SOSP e do Curso de Administração Escolar na produção de concepções e de práticas educativas e de formação docente nos anos iniciais do ensino fundamental em Minas Gerais (1949/1969)”; b) MATOS, M. do C. de. Formação docente e integração curricular – proposta do Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação/UEMG, 2009. 4 Sua criação se deu no governo Antônio Carlos em Minas Gerais, no período 1926/1930, com Francisco Campos à frente da Secretaria de Negócios do Interior, à qual vinculava-se a educação. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes distintas regiões e localidades do Estado. Desde o período da Escola de Aperfeiçoamento, os profissionais formados por esse curso, além da produção e divulgação de conhecimento em suas respectivas áreas, ocuparam cargos de projeção no sistema de ensino estadual, no órgão central e em órgãos regionais, além de cargos de liderança no âmbito das escolas. Nessa trajetória foi construída uma experiência na área da formação de professores para Escolas Normais e de profissionais para outras funções no âmbito da rede de ensino estadual, tendo como foco o então ensino primário, que merece ser considerado. Com apoio em Goodson (1997) e Lopes (2007), cumpre enfatizar que as instituições escolares têm formas próprias de reagir a determinadas situações. O modo como captam e atribuem sentido a ideias, a concepções e a propostas relaciona-se não só às sinalizações contextuais, mas também a construções do seu dia a dia, à cultura e à experiência que constroem ao longo do tempo e que compõem sua história. Nesse processo, assume relevância o papel dos grupos disciplinares. A experiência institucional se expressa na recontextualização de novas ideias e proposições (BALL, 1998; BERNSTEIN, 1996). Mesmo nas orientações advindas do nível macro, os grupos disciplinares têm papel importante no processo de sua reinterpretação, razão pela qual essas perspectivas podem ser acentuadas ou minimizadas em contextos sociais específicos, embora constituam balizadores dos discursos curriculares institucionais. Além disso, as lideranças, os processos de distribuição de recursos, os materiais didáticos, a maior relação da instituição com órgãos oficiais, as lutas internas entre os grupos disciplinares por status e território material e simbólico produzem marcas diversas nos processos de seleção de conteúdos e métodos de ensino (GOODSON, 1997; LOPES, 2007). Como argumenta Lopes (2007), a instituição escolar não apenas reage às definições oficiais e ao contexto sócio-histórico. Sob muitas formas, as instituições disseminam sua influência no 15 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira 16 contexto educacional. Sob esse prisma, importa considerar as possíveis ações de retorno dos contextos institucionais para os contextos mais amplos do sistema educacional. Na escola em foco, esse processo manifestou-se na produção e divulgação de suas ideias e concepções no âmbito do seu próprio projeto de formação e nas inúmeras vezes em que foi chamada a participar de trabalhos da administração da rede estadual de ensino. Em diferentes momentos e sob formas diversas, seu corpo docente atuou em cursos e seminários, na elaboração de programas de ensino, de materiais didáticos e outros documentos e propostas oficiais construídas para divulgação. Seus professores se destacaram na produção de livros e materiais didáticos para docentes das séries iniciais do Ensino Fundamental. Considerada a repercussão e a importância para a educação do estado de Minas Gerais, no presente artigo busca-se enfocar as especificidades referentes à constituição e ao funcionamento do Curso de Administração Escolar. Sua trajetória e experiência constituíram as bases da criação e da organização do atual curso de Pedagogia da Faculdade de Educação, do Campus de Belo Horizonte, da Universidade do Estado de Minas Gerais. Os professores que se encontravam em exercício no Curso de Administração Escolar em 28 de novembro de 1968, data da Lei Federal n. 5.540, passaram a integrar o corpo docente do curso de Pedagogia, e o Decreto n. 12.235/1969 que o criou, em seu art. 2º, assegurou-lhes o direito ao exercício da docência e, se necessário, o prazo de cinco anos para obtenção dos requisitos exigidos para o magistério em nível superior (CHAVES, [197-?]). Segundo a análise de Castilho e Mafra ([197-?], p. 9), professoras que tiveram participação ativa nos trabalhos de construção da proposta e na instalação do curso de Pedagogia, a criação do curso permitiu manter a experiência iniciada com a Escola de Aperfeiçoamento, o que evidencia a importância dessa construção na constituição do novo curso; sinaliza ainda a projeção e a repercussão da experiência institucional na apropriação, Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes recontextualização e interpretação (BERNSTEIN, 1996) da proposta advinda do âmbito oficial e das concepções presentes no meio educacional naquele momento. Segundo as mencionadas autoras ([197-?]), a criação do curso de Pedagogia5: [...] além de atender a todas as exigências da lei n. 5.540/68, tais como currículo, carga horária, número de créditos, habilitações específicas, etc., permitiu manter a herança da antiga Escola de Aperfeiçoamento e suas características fundamentais, conservadas durante a vigência do Curso de Administração Escolar. Tal herança é que torna sui generis o Curso de Pedagogia do IEMG entre outros existentes no país. O Curso de Administração Escolar: instituição e influências O Curso de Administração Escolar foi criado em 1946 pela transformação da Escola de Aperfeiçoamento, em consonância com as mudanças introduzidas na legislação de ensino da época e, segundo Castilho e Mafra ([197-?]), da ênfase atribuída à formação dos educadores pela Lei Orgânica do Ensino Normal - Decreto-Lei n. 8.520, de 2 de janeiro de 1946, que criou os institutos de educação. Por essa lei, os cursos desses institutos deveriam abranger o período desde o jardim de infância até a especialização para professores primários e a habilitação em administração escolar. A referida lei fazia parte das reformas instituídas por Gustavo Capanema, que compreendiam a Lei Orgânica do Ensino Industrial e a do Ensino Secundário, em 1942, a Lei Orgânica 5 O curso de Pedagogia foi criado pelo Decreto Estadual n. 12.235, de 01/12/1969. O Parecer n. 31, de 30/03/1970 apresentou o exame do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais sobre o pedido de funcionamento do curso. A autorização de funcionamento se deu pelo Decreto Federal n. 66.855/1970, que possibilitou o início da formação em nível de graduação. O primeiro Regimento foi aprovado pelo Decreto Estadual n. 12.840, de 22/07/1970. O reconhecimento se deu em Minas Gerais pelo Parecer n, 676, de 06/03/1974, do Conselho Estadual de Educação e em âmbito Federal pelo Decreto n. 74.109, de 27/05/1974. 17 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira 18 do Ensino Comercial, em 1943, e as Leis Orgânicas do Ensino Primário, Normal e Agrícola, em 1946, alcançando de modo integral os ensinos primário e secundário. Ao ensino normal foi atribuída a finalidade de “[...] prover a formação de pessoal docente necessário às escolas primárias, habilitar administradores escolares destinados às escolas e desenvolver e propagar os conhecimentos e técnicas relativos à educação da infância” (PIMENTA, 1992, p. 99). Três modalidades de cursos foram previstas: o Curso de Regentes (1º ciclo - nível ginasial), a Escola Normal (2º ciclo - nível secundário) e o Instituto de Educação. Estes contavam também com uma Escola Primária e um Jardim de Infância como unidades anexas. O Instituto de Educação de Minas Gerais foi criado pelo Decreto n. 1.666, de 28 de janeiro de 1946, assinado pelo então interventor do estado, Nísio Batista de Oliveira, que também extinguiu a Escola de Aperfeiçoamento (CHAVES, [197-?]). A criação do Instituto de Educação de Minas Gerais deu-se pela transformação da então Escola Normal Modelo, em 1946, pelo Decreto n. 1.836. Essa escola havia sido criada no governo João Pinheiro, pela lei n. 439, de 28 de setembro de 1906, sob a denominação de Escola Normal de Belo Horizonte (PAIVA e PAIXÃO, 2002). A instituição da Lei Orgânica para o Ensino Normal estabeleceu os mesmos princípios para todo o país na programação, nos conteúdos, nos métodos e até mesmo nas especificidades relativas ao sistema de ensino e, sob a análise de Brzezinski (1987), alcançou o máximo de centralização. Essa lei, na visão da autora, buscou padronizar o ensino e, de certa forma, não contribuiu para alterar a precariedade observada na formação do professor para os anos iniciais da escolarização. O fim do Estado Novo em 1945 deu início a um momento de redemocratização no país. A Constituição de 1946 retoma alguns aspectos da Carta Constitucional de 1934 atribuindo aos estados e ao Distrito Federal a competência de organizar os seus sistemas de ensino baseados nas Diretrizes da União. Nesse Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes contexto foi constituída pelo ministro Clemente Mariani uma comissão, presidida por Lourenço Filho, encarregada de propor um anteprojeto para as diretrizes e bases da educação nacional, dando início a mais uma reforma da educação no país. As discussões desencadeadas por esse movimento, sob a análise de Romanelli (2002), desdobraram-se em dois períodos: um que decorreu da apresentação do primeiro anteprojeto em 1948 e seguiu até 1958 e o segundo, que se estendeu até sua votação em 1961. O tema da centralização e descentralização do ensino marcou o primeiro momento, e o segundo teve como foco nuclear a questão da liberdade de ensino, instaurando o debate entre o público e o privado, contribuindo para a ascensão do Movimento em Defesa da Escola Pública. Tal Movimento culminou com outro - o Manifesto dos Educadores, em 1959, também redigido por Fernando Azevedo, com 189 assinaturas de educadores, intelectuais e estudantes. Com o contexto gerado internamente pelo final da ditadura, aliado ao final da II Grande Guerra e sob a influência dos princípios norteadores da Carta de 1946, algumas soluções imediatas se impuseram “[...] para, pelo menos, duas questões: a expansão quantitativa da rede física primária e a ampliação das condições de preparo do professor primário” (BRZEZINSKI, 1987, p. 122)6. Data dessa época a criação de cursos normais noturnos, quando a classe média começou a ter acesso a essas escolas, principalmente as particulares. A lei n. 4.024/1961 manteve as mesmas modalidades com relação à Escola Normal: o curso de Regentes no nível ginasial e a Escola Normal no nível do então colegial; manteve ainda os Institutos de Educação. O funcionamento do Curso de Administração Escolar encontrou fundamento legal nessa Lei, em seu art. 59 e Parágrafo Único, que possibilitava a existência, nos Institutos de Educação, de cursos de caráter pós-normal, 6 Ressalta a autora o crescimento de matrículas no Ensino Normal, que passou de 27.148 em 1945 para 90.727 em 1960 e para 347.873 em 1970. A ampliação de vagas se deu em especial com a criação de escolas na rede privada; em 1951, entre 546 Escolas Normais existentes no país, somente 168 eram públicas estaduais; do total, 258 localizavam-se em São Paulo e Minas Gerais (TANURI, 2000, p. 77). 19 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira visando à formação de supervisores, administradores, inspetores e orientadores, bem como de professores das disciplinas pedagógicas do Ensino Normal. Art. 59 - A formação de professores para o ensino médio será feita nas faculdades de filosofia, ciências e letras e a de professores de disciplinas específicas do ensino técnico em cursos especiais de educação técnica. Parágrafo Único – Nos institutos de educação poderão funcionar cursos de formação de professores para o ensino normal, dentro das normas estabelecidas para os cursos pedagógicos das faculdades de filosofia, ciências e letras (BRASIL, 1961, art. 59). Com a duração de dois anos e em regime de bolsa de estudos, o Curso de Administração Escolar de nível pós-normal requeria que os candidatos fossem efetivos no quadro de pessoal do estado e contassem o mínimo de três anos de atuação nessa rede de ensino. Os critérios de seletividade adotados pela Escola de Aperfeiçoamento, da qual se originou, foram mantidos. Nesse sentido, não se pode deixar de mencionar o rigoroso processo de seleção que incluía Português, Matemática, Conhecimentos Gerais, testes de inteligência e de personalidade aplicados pelo Laboratório de Psicologia e, depois, pelo Serviço de Orientação e Seleção Profissional (SOSP)7. O curso de Administração Escolar voltava-se à formação para o magistério de algumas disciplinas do curso Normal e à formação de profissionais para a rede estadual de ensino, para atuação na inspeção escolar, na direção de escola, na orientação de ensino e atuação em órgãos da administração do sistema de ensino, como inspetorias e delegacias regionais de ensino e a Secretaria de Estado da Educação. A atuação desses profissionais em diferentes instâncias e distintas localidades favorecia a disseminação do ideário e concepções defendidas pelo CAE em todo o estado, o que permite vislumbrar a repercussão que o mesmo teve na educação mineira. 20 7 O SOSP foi criado pela lei n. 482, de 11 de novembro de 1949. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes Importância e repercussão do CAE na Educação em Minas Gerais Sob nova organização, algumas das características básicas da Escola de Aperfeiçoamento, que antecedeu o CAE, foram mantidas; o regimento daquela escola permaneceu em vigor e todo o seu pessoal foi incorporado ao novo curso: corpo docente, alunos, assistentes e pessoal administrativo8. Tendo como fundamento o ideário do movimento da Escola Nova, a Reforma Francisco Campos, que criou a Escola de Aperfeiçoamento, buscou alcançar o ensino primário e o normal da época. Em seu âmbito, a educação primária constituía importante instrumento de formação e de socialização visando tornar as futuras gerações urbanas ordeiras, racionais e produtivas. À formação do professor foi atribuído papel estratégico. Para Francisco Campos, a formação do professorado constituía um problema cuja solução estava condicionada à resolução da questão da instrução primária; o regulamento da Reforma enfatizava a importância do trabalho do professor para o seu êxito9. Para ele, as críticas dirigidas ao ensino primário, “[...] de modo indireto e oblíquo”, dirigiam-se também ao ensino normal. Para ser um bom professor era necessária uma formação técnica e científica, o conhecimento dos processos de ensino e o domínio da metodologia (MINAS GERAIS, 1928). Entre os vários recursos previstos visando à eficiência da Reforma, Prates (1990, p. 13) considera a maior de todas as 8 A primeira diretora do Curso, a professora Amélia de Castro Monteiro, pertencia ao quadro docente da Escola de Aperfeiçoamento e permaneceu no cargo até 1951. Foi substituída pela Professora Alda Lodi, que também integrava o corpo docente desde aquela Escola e exerceu a direção do Curso até o encerramento de suas atividades em 1969. 9 “Quanto mais profunda e radical uma reforma de ensino, mais demorada sua execução, que somente se poderá fazer satisfactoriamente (sic) quando incorporados os seus princípios ao espírito dos seus executores. Estes terão que ser ‘educados’ nos princípios da reforma, para que os princípios da reforma se incorporem ao seu espírito. Não será a obra de um governo, senão de vários governos sucessivos, interessados, como têm sido os governos mineiros, na solução desse problema sobre todos relevante, porque delle (sic) todos de certa maneira dependente” (MINAS GERAIS, 1928). Para Campos, “[...] o ensino Primário não são os programas, a distribuição das matérias, senão o modo de ministrá-lo, a sua dosagem, a qualidade do veículo em que a noção passa do mestre ao aluno; em uma palavra, a técnica de apresentação dos assuntos e noções e, por conseguinte, em resumo e afinal - o professor (CAMPOS, 1945, p. 11, apud PEIXOTO, 1992, p. 15). 21 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira 22 iniciativas “[...] a criação de uma instituição que efetivamente levasse o professorado à mudança das idéias (sic) e práticas tradicionais do magistério”: a Escola de Aperfeiçoamento. Como centro irradiador dos novos princípios, a essa escola foi atribuído o papel de formar uma elite pedagógica e cientificamente preparada, tecnicamente aprimorada segundo os mais sofisticados padrões do conhecimento educacional da época. Essa elite deveria difundir as novas ideias e técnicas de ensino e seria colocada nos postos-chave da estrutura do ensino; seriam professores de escolas normais, diretores de escolas, assistentes e orientadores técnicos. O diploma conferido pela Escola de Aperfeiçoamento, após a formatura da primeira turma, passou a ser requisito para aqueles que desejavam ocupar os cargos mencionados, o que, entretanto, não impediu, muitas vezes, a associação de critérios políticos para esse preenchimento. As condições requeridas para ingresso ao curso e demais exigências a que deveriam atender no seu decorrer, assim como a disciplina e a avaliação a que deveriam se submeter, obedeciam a um rigor cujas especificidades são denotativas do controle previsto no regulamento, assim como da atuação esperada das alunas no regresso às escolas de origem. Embora em geral originárias de segmentos sociais ligados às elites da época, as normalistas passavam por processo de seleção que, além do título, requeria dois anos de efetivo exercício no magistério e comprovada competência profissional, idoneidade moral e sanidade física e mental. A seleção incluía a indicação da candidata por profissional que ocupasse posição de importância na estrutura da rede estadual de ensino, como o próprio secretário ou o inspetor geral da instrução, devendo apresentar ainda atestados fornecidos por autoridades do local de residência: de idoneidade religiosa, dado pelo pároco, de idoneidade moral, firmado pelo juiz da cidade e de boa qualidade do serviço prestado no magistério, fornecido pela diretora da escola onde lecionasse. Com o passar do tempo, foi acrescentada uma prova de conhecimentos para ingresso na Escola. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes A formação da elite educacional envolvia também outra das preocupações da época: a candidata deveria ter muito boa saúde e órgãos dos sentidos perfeitos, o que requeria o respectivo atestado, fornecido por médico ligado à própria Escola. Aos critérios de admissão acresciam-se normas de procedimento e de conduta irrepreensível, regulamentadas pelo estado, cujo cumprimento ficava a cargo da Escola de Aperfeiçoamento; por sua observância eram responsabilizados o diretor, o corpo docente, duas inspetoras de comportamento e até o porteiro. O curso era desenvolvido em horário integral, de segunda-feira aos sábados, o que permitia o desenvolvimento de pesquisas, apesar de o Regulamento prescrever apenas a transmissão do conhecimento. Uma das mudanças introduzidas no CAE e que talvez maior repercussão gerou entre os professores foi a alteração do horário de funcionamento, que passou a ser oferecido não mais em tempo integral como antes. As classes experimentais foram suprimidas, mantidas apenas as classes de demonstração do grupo escolar anexo, o Grupo Escolar Luiz Pessanha. Houve ainda modificações no currículo que oferecia as disciplinas Filosofia, Psicologia, Organização Escolar, Estatística, Didática e Metodologias Específicas e Educação Física. Em relação à Escola de Aperfeiçoamento, foram suprimidas as disciplinas Socialização e Metodologia Geral e introduzidas Estatística, Organização Escolar e Filosofia da Educação. Segundo Chaves ([197-?]), sua carga horária variou entre 1.680 e 1.830 horas. O desenvolvimento curricular ficava entre o que era exigido no ensino normal e no ensino primário, sem perder de vista as exigências do ensino superior. Além de o registro educacional ter a mesma validade no âmbito educacional, egressos do curso, ao buscarem a complementação ou prosseguimento de estudos em cursos superiores de Pedagogia e de outras licenciaturas obtinham a dispensa de várias disciplinas cursadas no CAE, o que se dava pelo estudo dos programas ali cursados em relação ao da instituição de destino, sinalizando a semelhança entre o currículo 23 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira do curso e o das instituições de ensino superior da época. Embora as novas condições de funcionamento dificultassem o processo de investigação, novos estudos e pesquisas continuaram sendo realizados. Os professores mantiveram posição de destaque na educação do estado, em suas respectivas áreas, pela atuação docente, pela publicação de livros e produção de outros materiais didáticos, realização de palestras, participação em eventos e outras iniciativas de órgãos do governo estadual, na elaboração de programas de ensino ou pela ocupação de cargos junto à administração do sistema educacional, por meio dos quais se ampliava sua área de influência na educação do estado10. Essa influência foi muito forte no ensino primário e normal no estado; conforme sinaliza Prates (2000), até a década de 1970 aproximadamente, o material utilizado para a alfabetização em Minas Gerais foi produzido nesse curso. Outros materiais, pesquisas e programas de ensino das diversas áreas do currículo ali produzidos foram também amplamente utilizados na formação de professores e no desenvolvimento do ensino fundamental11. Muitos desses trabalhos, decorrentes de estudos e pesquisas produzidos por professores e alunos, foram publicados pela Secretaria de Educação, com evidente repercussão junto aos professores e escolas. Resultado do trabalho também iniciado na Escola de Aperfeiçoamento, conforme sustenta Maciel (2008, p. 9), foi 24 10 O programa do ensino primário da época, que vigorou até 1963, foi elaborado por professores do CAE, em atendimento à solicitação do secretário de estado da educação, Odilon Bherens. 11 Entre os trabalhos produzidos, Chaves ([197-?]) menciona: 1) do período da Escola de Aperfeiçoamento - a) na área de Linguagem – “A escala de Dificuldades Ortográficas”, “Os ciclos de apreciação literária das crianças de sete a onze anos”, “Fases do Método Global de Contos”, “O vocabulário das séries de livros básicos para o ensino de leitura”, “Condições do material básico para o ensino da leitura; b) na área de Matemática - “Pesquisa sobre a Matemática mais usada em Jornais, Revistas e no Comércio, “Estudo experimental sobre erros de operações e erros de raciocínio, “Os fatos fundamentais mais freqüentes (sic) usados nas classes de 3ª e 4ª séries”, “Transferência do raciocínio do plano de ação para o raciocínio lógico em problemas de Matemática; 2) da época do CAE – a) na área da linguagem -“Fases da Composição no 1º ano”, “Fases do Método Global de Ensino da Leitura”, “Relação entre o ensino da Ortografia e o da Leitura no 1º ano”, “Aplicação do sincretismo no ensino da gramática”, “Caracterização das Fases da Aprendizagem da Escrita”; b) na área da matemática - “Seriação de etapas no ensino das quatro operações de números inteiros e fracionários”, “Raciocínio e Operações”, “Pesquisa para conhecer o índice de transferência de problemas que não dependem de operações escritas para problemas de raciocínio semelhante, mas de números maiores dependentes de operações escritas”. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes a propagação do método global, disseminado pela atuação de várias gerações de ex-alunas, [que] do final da década de 30 até a década de 70, marcou a história da alfabetização em Minas Gerais. Nesse período Minas viveu o período áureo do método global, utilizado em praticamente todas as escolas. Dois manuais didáticos – pré-livros – representantes do método global de contos tiveram então ampla presença nas escolas mineiras e alfabetizaram várias gerações: O livro de Lili, de Anita Fonseca e Os três porquinhos, de Lúcia Casasanta. Outros pré-livros12 produzidos por alunas do curso foram também publicados e utilizados pelas escolas no processo de alfabetização. Fazia parte da orientação do curso a produção, pelas alunas, do material didático que deveria ser utilizado no ensino das diversas áreas curriculares, segundo os fundamentos teóricos defendidos pelos professores das respectivas disciplinas e as pesquisas feitas junto a escolas e classes de demonstração. Data da Escola de Aperfeiçoamento o incentivo ao retorno de ex-alunas, trazendo dificuldades na aplicação de propostas para discussão e busca de alternativas, o que também contribuía para a pesquisa e a adequação das teorias à realidade das escolas, sempre visada pela instituição. A situação evidenciada é indicativa da importância da produção das instituições e dos professores no processo de construção de concepções e de práticas educativas que se projetam tanto nas ações docentes como na produção de material e na participação em eventos científicos e outras promoções. Outra realização de ex-alunas do curso foi a criação, em 1966, de uma associação, ainda em funcionamento, sob a denominação Fundação AMAE para a educação e o ensino. Foi instituída 12 Entre eles incluem-se: “Pituchinha”, de Marieta Leite; “O gatinho minau”, de Maria José de Mello Paiva; “Chapeuzinho Vermelho”, de Irene Lustosa; “Bonequinho Doce”, de Alaíde Lisboa; “O circo do Carequinha”, de Maria Serafina de Freitas; “Meninos Travessos”, de Maria Yvonne Atalécio de Araújo e “O cachorrinho fujão” de Elisa de Oliveira. 25 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira 26 inicialmente como Associação Mineira de Administração Escolar, com a finalidade de congregar ex-alunas e, além da realização de cursos, vem promovendo anualmente encontros e seminários voltados à discussão e à apresentação de temas de interesse do meio educacional. Publica a revista “AMAE Educando”, contribuindo para a divulgação de artigos de procedências diversas e de experiências significativas também das escolas de ensino fundamental e médio. Sob a análise de Castilho e Mafra ([197-?]), o Curso de Administração Escolar manteve papel importante no âmbito do estado de Minas Gerais, mesmo tendo o período de seu funcionamento registrado diversas mudanças nas propostas oficiais para a educação, ainda que mantidos os argumentos técnicos. Houve desde proposta de cunho liberal-democratizante, como a de Milton Campos, à de Kubitscheck, mais acentuadamente voltada para a modernização, como foi sua atuação depois no país. As políticas sociais em Minas Gerais, inclusive as educacionais, foram delineadas, no governo Kubistcheck, em função do projeto de desenvolvimento econômico mais global, com claras alterações em relação à política educacional enunciada no governo que o antecedeu; naquela gestão, a de Milton Campos, foi elaborado um Plano de Desenvolvimento do Ensino, com a previsão de atendimento a 80% da população do ensino primário num prazo de cinco anos. Em mensagem enviada à Assembleia Legislativa em 1952, Kubitscheck contribuiu para a redução dessa ênfase ao argumentar que a busca da democratização do ensino sem correspondência aos interesses econômicos levaria à deterioração da educação (PAIVA; PAIXÃO, 2002). Apesar das mudanças ocorridas no período de seu funcionamento, em especial aquelas referentes à política educacional e de formação docente, o Curso manteve muito da sua organização inicial. Coube-lhe com exclusividade a habilitação de profissionais em nível pós-normal para a direção de escolas, orientação de ensino e inspeção escolar para a rede estadual de ensino. Importante Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes ressaltar sua influência na educação do estado por muito tempo. Além de seu corpo docente ser chamado a apoiar, em diferentes circunstâncias, as ações até mesmo dos próprios administradores do órgão central da rede de ensino estadual, a Secretaria de Estado da Educação, os professores eram também sempre convidados a participar da elaboração de programas de ensino, da realização de cursos e demais ações de iniciativa daquela instância13. O Curso de Administração Escolar manteve as principais características da Escola de Aperfeiçoamento, em especial a hegemonia das ideias defendidas pelo escolanovismo. Com o foco mais acentuado nas questões técnico-pedagógicas, continuou mesclando diferentes perspectivas teóricas relacionadas às diversas tendências dos campos disciplinares componentes do currículo (DUSSEL, 2002; LOPES, 2005). Tendência advinda da Escola de Aperfeiçoamento, percebia-se no curso a mescla de pelo menos duas grandes correntes de pensamento: a europeia na Psicologia e a americana nas metodologias, além da forte influência da Igreja Católica. Esta se dava por meio de todo o corpo docente, em especial os professores de Filosofia e de História da Educação. A tendência ao enfoque técnicopedagógico se acentuou, misturando-se à influência mais 13 Entre outros, foram professores no Curso de Administração Escolar: em Psicologia Educacional: Yago Pimentel, Maria Augusta da Cunha, Geralda Ávila e Iris Barbosa Goulart; em Metodologia da Linguagem e Didática de Linguagem: Lúcia Monteiro Casasanta, Selma Alves Passos Wanderley Dias, Maria Umbelina Caiafa, Nilsa Pedrosa, Maria Angela Tinoco Rios; em Metodologia da Aritmética e Geometria: Alda Lodi, Jacy Sella Vieira de Vasconcellos, Maria Francisca Teresa Barbosa Magalhães, Sônia Fiuza da Rocha Castilho, Ana Lúcia Amaral Duarte, Regina Almeida, Wanda de Castro Alves, Vera de Souza Carmo; em Metodologia das Ciências Naturais: Maria Carlota da Mata Machado Eulálio, Henrique Marques Lisboa, Maria Lygia de Oliveira, Maria do Rosário Costa; em Metodologia das Ciências Sociais e Didática dos Estudos Sociais: Marieta Leite, Lincoln Bessa, Maria Onolita Peixoto, Ely Fonseca Dutra, Maria Abadia Duarte Porto, Dolores Francisca Pereira Mendes; em Metodologia do Desenho e Artes Aplicadas: Nelson Hortmann e Marilda de Fátima Silva; em Filosofia da Educação: Maria Luisa de Almeida Cunha, Raymundo Nonato Fernandes, Vicente Porto de Menezes, Lenita Ferreira de Oliveira, Lenir Ferreira Chaves; em Estatística: Dr. Mário Cunha, Dulce Botelho Junqueira, Suzana Ezequiel Dias, Terezinha de Oliveira, Anna Edith Bellico da Costa, Eliana Ignez Monteiro Menezes; em Organização Escolar: Fernando Magalhães, Leda Maria da Silva Lourenço, Neusa Maria de Oliveira Macedo, Edite Soares Mafra, Dalva Cifuentes Gonçalves; em Metodologia da Educação Física: Luiza Menezes de Macedo, Odette Santos Infante Vieira, Cléa Dalva Bastos, Irma do Carmo do Osório. 27 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira técnica do PABAEE14 em alguns grupos disciplinares ligados às metodologias de ensino (DUSSEL, 2002; LOPES, 2005). Mas o curso manteve a perspectiva de trabalho que o caracterizou na educação do estado, inclusive a tendência à investigação. Na Escola de Aperfeiçoamento, a organização curricular tinha centralidade na socialização, com especial ênfase nos centros de interesse, na abordagem integrada de questões e temas nos diversos campos disciplinares. O Curso de Administração Escolar passou a ter uma perspectiva mais técnico-pedagógica, em razão da influência advinda do contexto e da política educacional, que passou a enfatizar os aspectos relacionados à qualidade do ensino, articulando-se a uma perspectiva mais técnica, sob o argumento da eficiência e da racionalidade. Na apropriação dos diferentes discursos presentes no contexto, tanto os advindos do plano oficial ou aqueles em circulação no meio educacional, os professores evidenciavam a influência das respectivas comunidades disciplinares (GOODSON, 1997; LOPES, 2007). Essa influência ficou também evidenciada na consolidação de algumas áreas disciplinares na formação do professor, como a Psicologia e as metodologias, por exemplo; dinâmica essa que se deu imbricada ao processo de constituição da formação na instituição e lhe confere especificidade. Diferentes perspectivas teóricas orientavam as disciplinas e no interior do curso se mesclavam. Ao articular distintos discursos, a hibridação gera novas montagens e cria novos sentidos, mobilizando alguns e reprimindo ou mesmo apagando outros. Tal interpretação se dá em determinadas circunstâncias históricas que implicam limites e possibilidades (DUSSEL, 2002; LOPES, 2005). Embora todos os grupos disciplinares se preocupassem com a realidade educativa e com a investigação como base do ensino, os diferentes enfoques articulavam-se a finalidades sociais e políticas 28 14 PABAEE – Programa de Assistência Brasileiro-Americana ao Ensino Elementar. Acordo firmado entre o Brasil e os Estados Unidos em 1956, implantado em 1957 e instalado no Instituto de Educação de Minas Gerais, onde funcionava o Curso de Administração Escolar no período 1958/1963, cuja continuidade se deu na Divisão de Aperfeiçoamento do Magistério –DAP, do Centro de Recursos Humanos João Pinheiro, de Minas Gerais. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes de certa forma semelhantes. Mesmo denotando autonomia e até resistência às definições oficiais em alguns momentos, não chegaram a revelar um potencial crítico. Importante registrar, todavia, o aspecto produtivo desse processo: a prática curricular como prática cultural possibilitou a expressão da heterogeneidade, diferentes discursos e leituras e a ressignificação de mensagens. Os professores conseguiram criar um curso com feição própria buscando articular a teoria à realidade educacional mineira e introduziram inovações no ensino, tendo como referência suas pesquisas e as de seus alunos. Considerações finais O Curso de Administração Escolar, criado em 1946, com a extinção da Escola de Aperfeiçoamento e criação dos institutos de educação no país, funcionou em Minas Gerais até 1969 e teve grande importância na educação mineira, pois habilitava, com exclusividade, profissionais para a rede estadual de ensino; voltava-se à formação de professores para as disciplinas pedagógicas do ensino normal e para os cargos de diretor de escola, orientador de ensino e inspetor escolar, além de outros postos de projeção na hierarquia do sistema de ensino estadual. As principais características da Escola de Aperfeiçoamento foram mantidas no curso. Com o foco mais acentuado nas questões técnico-pedagógicas, continuou mesclando diferentes perspectivas teóricas relacionadas às diferentes tendências orientadoras dos diversos campos disciplinares componentes do currículo, aliadas à influência da Igreja Católica. Suas ações alcançavam o sistema educacional como um todo, inclusive o órgão central, mesmo não contando mais com as condições iniciais de funcionamento conferidas àquela escola, principalmente em relação à pesquisa e à experimentação. Já na Escola de Aperfeiçoamento, diferentes linhas, perspectivas e sentidos atribuídos à educação se mesclaram, conferindo à 29 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira 30 formação oferecida características próprias que se distanciaram tanto de direções estritamente teóricas como das normas restritivas do Regulamento da Reforma Francisco Campos; ao recontextualizá-las, os professores criaram um processo que as hibridizou, assumindo uma dinâmica peculiar, ficando reconhecida como um espaço de produção de conhecimento. Ainda que seus objetivos se restringissem aos problemas aparentes e mais imediatos do ensino, esses professores se empenharam naquele momento em construir um projeto de formação que atendesse à realidade escolar mineira e, para isso, ultrapassaram tanto as prescrições teóricas como os dispositivos do governo e tiveram como suporte a pesquisa. A Escola Aperfeiçoamento conciliava o tradicionalismo local e a forte influência da Igreja a um ensino no qual eram adotados pelos professores os mais modernos métodos, incentivando a pesquisa e a participação das alunas nas aulas. Pela Reforma Campos, as professoras deveriam ter capacidade para transmitir os mais modernos conhecimentos e um comportamento conservador, em conformidade com as normas sociais; o governo pretendia assim modernizar a sociedade sem, no entanto, abalar as estruturas sociais. O CAE continuou mesclando a perspectiva tradicional a concepções de cunho instrumental e técnico com as ênfases presentes no meio educacional de diferentes momentos de seu período de funcionamento. Era oferecida uma base de conhecimentos que possibilitava o aprofundamento de estudos em cada área de conhecimento e suas bases teórico-conceituais; a abordagem dos estudos e discussões, entretanto, não ultrapassava o âmbito das questões e dos problemas inerentes aos diferentes campos do saber enfocados e à esfera educacional. Embora conferisse uma base sólida de conhecimentos que possibilitava uma atuação que distinguia os ex-alunos no âmbito da educação, em especial no ensino primário e normal, não oferecia uma perspectiva mais ampla do sistema educacional e de sua função social e política. As condições de criação e início de funcionamento do curso, a Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 Maria do Carmo de Matos, Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes começar com a Escola de Aperfeiçoamento, contribuíram para a construção de uma cultura com características que se integraram ao papel que desempenhou na educação do estado, evidenciadas na autonomia que sempre buscou manter em suas decisões e práticas, no espírito investigativo permeando as atividades docentes, na capacidade combativa demonstrada com frequência ao reunir os professores em trabalhos coletivos em torno de interesses do curso, mesmo com marcadas divergências de posicionamentos, e no comprometimento e atuação dos professores e alunos nas escolas e em cargos de projeção e influência no sistema de ensino do estado. Com grande prestígio junto ao governo, em especial quando de sua criação como Escola de Aperfeiçoamento, considerada a “coluna mestra” da reforma de ensino da época, a Reforma Francisco Campos, aos poucos, passou a partilhar o espaço da produção do conhecimento na área de sua atuação com outros órgãos. De certa forma, teve sua importância relativizada ao longo do tempo, embora seus professores tenham continuado a participar de atividades e ações a convite da administração da rede estadual de ensino. O curso manteve seu funcionamento até 1969, quando mudanças introduzidas na legislação do ensino pela lei n. 5.540, de 1968, levaram ao encerramento de suas atividades, marcando a origem do Curso de Pedagogia, iniciado em 1970. 31 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 O Curso de Administração Escolar: importância e influência na Educação mineira Referências BALL, S. Cidadania global, consumo e política educacional. In: SILVA, L. H. (Org.). A escola cidadã no contexto da globalização. 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It trained exclusively professionals for the state education network and worked on the preparation of teachers for pedagogical courses in the institutes of education and for functions of relevance and influence in the educational structure, including schools, inspectorships and the central organ. Professors and students had an active participation in the preparation of teaching programs, materials and didactic books, with a focus on what was then basic school. After the end of the School Administration Course the Pedagogy Course was created in 1970 and became part of the UEMG in 1995. These courses mark the history of the present-day College of Education – Belo Horizonte campus – of the University of the State of Minas Gerais. Keywords: preparation of teachers; educational policy; recontextualization. 35 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 13-35 36 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país Ana Lúcia Amaral1 [email protected] Resumo O trabalho versa sobre a trajetória da Pedagogia no país, sobretudo nos últimos quarenta anos. Trajetória observada do ponto de vista da autora, cuja carreira, vasta e variada, esteve sempre ligada à sua condição de pedagoga. Tendo ocupado diversas posições nos âmbitos estadual e federal, a autora conviveu, ao longo dos anos, com diferentes modelos pedagógicos, vendo-os surgir, tornaremse hegemônicos e, subitamente, ante a emergência de um novo paradigma, serem sumariamente descartados. Na sucessão de propostas por que passou a Educação no país, a Pedagogia teve o seu campo teórico demonizado e invadido, nas últimas décadas, pela Sociologia e pela Ciência Política, num processo de denúncia do fracasso escolar como responsabilidade dos pedagogos. A denúncia e a consequente invasão do campo não deram conta de mudar o quadro da educação no Brasil: as teorias mencionadas falaram sobre Educação, destruíram os saberes pedagógicos, mas não souberam criar novos saberes que lhes permitissem fazer Educação... Palavras-chave: Pedagogia; pedagogos; campos teóricos; saberes do pedagogo; saberes do professor. 1 Ph.D., professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais - FaE/UFMG e do Curso de Pedagogia do Instituto de Educação de Minas Gerais – IEMG. 37 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país Gotas da minha própria trajetória 38 Diplomei-me professora primária pelo Curso de Formação de Professores do Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG); tornei-me bacharel e licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Um pouco antes, havia me tornado supervisora escolar, tendo cursado o famoso Curso de Administração Escolar (CAE) do IEMG. Fui professora de grupo escolar, supervisora, professora do CAE – que viria a se transformar em curso de Pedagogia em 1971, no qual exerci a docência como professora de Didática e Metodologia da Matemática, o mesmo curso que vim a dirigir no início dos anos oitenta. Fui também professora e coordenadora do Curso de Formação de Professores. Em 1985 concluí meu mestrado em educação na UFMG e em seguida fui admitida na Universidade de Stanford, Califórnia, onde, concomitantemente com o doutorado em Ciências Sociais da Educação, cursei e concluí um mestrado em Sociologia. Retornando ao Brasil, trabalhei por mais dois anos na recémcriada Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) como professora de Didática e assessora pedagógica na Reitoria do caríssimo professor Aluísio Pimenta. Um par de anos depois, fui aprovada em concurso na FaE-UFMG, onde trabalhei como professora de Didática e pesquisadora do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais (GAME) e da linha de pesquisa da Pós-Graduação: “ Políticas Públicas: Formulação, Implantação e Avaliação”. Longo percurso, sempre na Educação, onde sempre me senti e me identifiquei como pedagoga. Nessa trajetória, vivi variadas experiências - como aluna de grupo escolar, as fascinantes atividades da escola dita Escola Nova; como aluna de curso ginasial, as experiências típicas de um currículo enciclopédico da Escola Tradicional; como aluna do Curso de Formação de Professores, o aprendizado em profundidade dos grandes teóricos da Escola Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Ana Lúcia Amaral Nova: Montessory, Dewey, Kilpatrick, Claparède, Décroly, entre outros; como aluna do Curso de Administração Escolar do IEMG, um rico aprendizado do como ensinar: lições fantásticas sobre a unidade do fenômeno linguístico, ministradas por Lúcia Casasanta, fascinante aventura do Método da Descoberta no ensino da Matemática, as metodologias de Ciências e Estudos Sociais; na Faculdade de Educação da UFMG - FaE/UFMG, sólidos estudos teóricos de Fundamentos da Educação e Administração Escolar; no mestrado em Educação, na mesma FaE, profundos estudos embasados em teóricos tecnicistas, cujo maior expoente era, sem dúvida, Benjamin Bloom: suas Taxonomias tiveram forte influência em minha prática pedagógica, tornando-a mais lúcida e mais rica. Embora adquirido em diferentes instituições, meu arsenal pedagógico era constituído de teoria e prática: ensinaram-me a discutir a Educação e a fazer Educação. Professora, supervisora escolar e coordenadora de curso de formação de professores, diretora de curso de pedagogia, chefe de departamento, pesquisadora, coordenadora da Subsecretaria de Desenvolvimento Educacional da SEE, consultora de programas educacionais semipresenciais e a distância – cargos que exerci sob a égide dos diferenciados modelos pedagógicos já referidos. A cada afirmação de um novo modelo, o outro era abandonado pela academia e responsabilizado pelos sucessivos fracassos da escola brasileira. Do modelo anterior, nada permanecia. Quando parti para o doutorado, vigia no corpo acadêmico da Educação um discurso marxista e neomarxista, subsidiado pela Sociologia e pela Ciência Política, substituindo as referências anteriores ditadas pela Filosofia, pela Psicologia e pela Economia, nessa ordem. Quando voltei do doutorado, na década de mil novecentos e noventa, assisti à implantação, juntamente com as teorias marxistas, de outro modelo conhecido como Construtivismo, cuja ênfase acentuada no desenvolvimento da aprendizagem do aluno, acabava por minimizar o que a Pedagogia caracterizava como ensino. 39 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país Gotas da trajetória da Pedagogia no país 40 O século XX assistiu ao apogeu e ao declínio da Pedagogia; melhor dizendo, ao prestígio e ao descrédito dos pedagogos... Quero crer que o apogeu da Pedagogia em nosso país começou já na década de trinta, quando se tornou hegemônico no Brasil o pensamento escolanovista, permanecendo aproximadamente até o início dos anos sessenta, quando muda toda a configuração educacional com a instalação do Regime Militar em 1964. Segundo Ghiraldelli (2001), após a Primeira Guerra Mundial, o Brasil começou a diversificar suas relações comerciais e financeiras, anteriormente limitadas às relações com a Inglaterra, abrindo espaço para os contatos com os Estados Unidos, não somente econômicos, mas culturais e, sobretudo, importando a produção educacional e pedagógica americana. Todo o ideário pedagógico do Movimento da Escola Nova - movimento originado na Europa, mas desenvolvido nos Estados Unidos por John Dewey e seu discípulo William Kilpatrick, chegou ao Brasil principalmente em sua versão americana. Esse movimento enfatizava os métodos ativos de ensinoaprendizagem, a experiência e a atividade infantis, a curiosidade e a liberdade da criança, o debate e a vivência democrática na escola, o respeito aos interesses infantis e às diferenças individuais, valorizando os estudos de Pedagogia Experimental que dariam suporte a uma “Pedagogia Científica”. Em notável frase, Dewey afirmava que “trata-se de uma transformação que se compara com a de Copérnico em nosso sistema planetário”. Destaque-se o deslocamento do eixo da escola: do professor para a criança (AMARAL, 2008). Vários estados brasileiros, inspirados por jovens intelectuais como o baiano Anísio Teixeira (discípulo de Dewey), Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, Francisco Campos, entre outros, promoveram reformas educacionais inspiradas na Escola Nova. Em Minas Gerais, mais especificamente em Belo Horizonte, Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Ana Lúcia Amaral a notória Escola de Aperfeiçoamento (que veio a se transformar no Curso de Administração Escolar) e o CAE foram, tanto um quanto o outro, cada um em seu tempo, responsáveis pela primorosa formação de especialistas educacionais (supervisores, orientadores, administradores, inspetores) que, após dois anos de cuidadoso preparo pedagógico e metodológico, retornavam a seus municípios (ou estados), responsabilizando-se pela disseminação, em suas escolas de origem, das ideias e práticas escolanovistas – estudadas e vivenciadas naquele precioso biênio. À época, o Curso de Formação de Professores, tal como o Curso de Administração Escolar, contava com o seleto grupo de professoras do Grupo Escolar anexo para ministrar aulas de demonstração das diversas disciplinas do currículo, sob a orientação das formadoras das diferentes metodologias. Entre as muitas grandes mestras, destaco a figura ímpar de Lúcia Casasanta, piagetiana convicta que nos ensinou o valor do método e das técnicas, ela própria responsável pelo aprimoramento e disseminação do Método Global de Contos, método que me iniciou no aprendizado da leitura e da escrita (“Livro de Lili”), a mim e a meus filhos (“As mais belas histórias”). Tivemos também a proveitosa experiência desenvolvida em colégios de aplicação das universidades. Professores de Educação Básica, muito bem preparados, ministravam, a seus alunos regulares, aulas previamente encomendadas pelo formador de professores dos cursos de Pedagogia, com o propósito de serem observadas e discutidas por seus alunos, sob a sua orientação. Entretanto, num dado momento, essas aulas passaram a ser consideradas “fictícias” pelos formuladores de políticas educacionais, e uma nova política pedagógica se implantou no país, agora dirigindo os alunos para “estágios supervisionados” em escolas públicas, supostamente a “verdadeira imersão na realidade” das nossas escolas. Com um número cada vez maior de alunos e de escolas em diferentes localizações, os professores formadores não puderam mais estar presentes nas salas de aula observadas. 41 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país 42 Os anos setenta foram fortemente marcados pelo Tecnicismo, pelo apelo de ordem econômica, referenciados pela Teoria do Capital Humano e assistiram à substituição da busca da qualidade pela busca da quantidade. No intuito explícito de democratização da escola pública, o sistema educacional abriu suas portas a uma nova clientela – as classes menos favorecidas – mas com o intuito implícito de escolarizar uma clientela destinada a suprir as necessidades do mercado de trabalho em franca industrialização. Havia uma ênfase excessiva no planejamento, elaborado em níveis superiores, para ser executado pelos professores em sala de aula. Esse planejamento era balizado, desde antes, até o fim do processo, pela avaliação, tendo sempre em vista o alcance dos objetivos e metas propostos. Embora tenha sido, em épocas posteriores, negativamente marcado pela associação à ditadura militar - época em que foi introduzido no Brasil - o Tecnicismo trouxe algumas contribuições valiosas à Pedagogia como, por exemplo, os estudos sobre os produtos de aprendizagem desenvolvidos por Bloom e outros estudiosos, que se concretizaram em Taxonomias nas áreas da Cognição, Psicomotricidade e Afetividade; estas duas, especialmente, ainda desconhecidas de grande parte de nossos educadores. A aprendizagem, que no escolanovismo havia sido tratada como um atributo medido pela curva normal (a curva de Gauss, que alocava os alunos em fortes, médios e fracos), passou a ser tratada como um processo a ser inserido na curva de Bloom - rightly skewed, isto é, uma curva inclinada para a direita (de escores altos), significando que a quase totalidade dos alunos deveria chegar aos patamares mínimos de escolaridade estabelecidos. Essa “perseguição” dos padrões mínimos de qualidade era da responsabilidade do professor. Bloom introduziu ainda, na educação escolar, as importantes funções da avaliação: diagnóstica, formativa e somativa (BLOOM, HASTINGS & MADAUS, 1971). Com a mudança da clientela e dos objetivos dos formuladores de políticas educacionais, a Educação se revestiu de um novo caráter: para dar conta da massificação proposta, o ensino não Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Ana Lúcia Amaral podia mais se dar ao luxo de bibliotecas de classe, clubes de leitura, cantinhos de ciências, descobertas matemáticas, hortas escolares... A busca da construção da cidadania, tão necessária à vida em uma sociedade democrática – mote da Escola Nova - já não era mais possível nem necessária. Tais procedimentos deram lugar a um ensino não socializado, mas individualizado sob a forma de módulos de aprendizagem. No desconhecimento do perfil e das necessidades dos novos alunos, os professores não sabiam como agir. A massificação que se perpetrou na escola fundamental estendeu-se aos demais níveis de ensino, atingindo a formação de professores (AMARAL, 1985). Deu-se, então, um efeito negativo em cascata: o fracasso foi tomando conta de nossas escolas e os fantasmas da repetência e da evasão escolar passaram a fazer parte da rotina escolar, agora em larga escala. Nos anos oitenta, assistimos ao desembarque, nos “portos” educacionais brasileiros, das teorias da reprodução e, posteriormente, da teoria crítica. Aquele foi um momento marcado fortemente pelo viés sociológico e político, tendo como pano de fundo as teorias marxistas. Foi um momento de denúncia da discriminação social e cultural realizada pelo sistema educacional – via avaliação – que estaria fazendo com que a pirâmide educacional reproduzisse a pirâmide social. Chegou-se mesmo ao estabelecimento de comparações entre a fábrica e a escola, esta invocada como uma grande produtora do fracasso escolar, orquestrado por supervisores, orientadores, administradores e inspetores escolares, supostos agentes a serviço do capitalismo selvagem a roubarem a autonomia e a criatividade do professor, agora mero executor de tarefas planejadas em instâncias mais altas. Tal discurso de esquerda foi apropriado pela direita e, em alguns outros estados da União, serviu de marco teórico para o início de um grande descrédito da supervisão e da orientação que, entretanto, especialmente em escolas do interior, prestavam um enorme auxílio à educação fundamental. Não estou aqui a 43 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país defender ou censurar o resgate das antigas habilitações do CAE e/ou dos cursos de Pedagogia, mas não há dúvida de que aqueles profissionais, à época, eram extremamente importantes na garantia da qualidade do ensino fundamental em Minas Gerais. Começara um discurso de ataque ao positivismo educacional e ao “pecado da aplicação”, fosse de teorias ou métodos e, sobretudo, de técnicas, palavra equivocadamente associada ao Tecnicismo que acabara por elevar a técnica, esta, um meio, à condição de fim. A Ciência passou a ser vista com desconfiança e, mais uma vez, os subsídios que nos eram dados pela Psicologia e mesmo pela Economia foram sumariamente descartados. As pesquisas de natureza micro, quais sejam, aquelas desenvolvidas no âmbito das salas de aula foram rejeitadas e o pedagogo foi usado como o bode expiatório do fracasso educacional brasileiro. Gotas de reflexão sobre a invasão do campo chamado Pedagogia 44 Pièrre Bourdieu (1988) nos brindou com um detalhado estudo sobre a disputa de poder nas faculdades universitárias da França. O prestígio de cada uma delas está ligado às origens de seus professores, estas influenciando sobejamente o seu capital cultural, assim como a capacidade de cada uma das faculdades de se afirmar no campo de lutas que é a própria universidade. Em outros trabalhos, Bourdieu (apud ORTIZ, 1983) nos fala do campo científico, conceito explorado, com muita felicidade, por Magda Soares (2000) na tentativa de explicar a tensão entre a Didática e o Currículo no campo pedagógico. Assumo que é válida a tentativa de trazer também para este contexto o conceito de campo bourdieuniano, para explicar a luta travada entre os diferentes campos científicos ligados ao objeto Educação (Psicologia Educacional, Sociologia da Educação, Filosofia da Educação, entre outros) e a Pedagogia. Depreendi que esses campos olhavam o fenômeno educativo Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Ana Lúcia Amaral sob a ótica do seu próprio campo teórico. Assim, a Sociologia da Educação estudava a Educação com o viés característico do campo da Sociologia e o mesmo se dava com as demais ciências. Cabia à Pedagogia valer-se desses conhecimentos para melhor compreender o fenômeno educativo em suas diferentes manifestações, melhor dizendo, em sua totalidade. A Pedagogia é a ciência da Educação por excelência. Entretanto, à Pedagogia cabia não somente compreender a Educação, mas fazer Educação! Isso requeria fazer uso dos conhecimentos da prática já experimentados e consagrados, como também pesquisar novos conhecimentos no campo dessa mesma prática. Esse era o corpo de conhecimentos próprio da Pedagogia. Todavia, esses saberes passaram a ser alvo de ataque ferrenho, sobretudo dos sociólogos. Num processo de autodefesa, de sobrevivência, a Pedagogia passou a absorver o discurso político e sociológico que se tornara hegemônico e a abandonar o seu próprio discurso. Os discursos marxista e neomarxista surgiram por aqui na década de oitenta: Marx na releitura de Gramsci, Bowles e Gintis, Althusser, Bourdieu e Passeron, Baudelot e Establet, entre outros, a enfatizar o caráter reprodutivista da Educação. A Sociologia se incumbiu da disseminação do pensamento desses autores. É mister ressaltar que, em grande parte dos cursos de Pedagogia, o saber pedagógico foi sumariamente substituído pelo saber político e sociológico. Na Faculdade de Educação da UFMG não importava a disciplina ministrada; os textos e o discurso eram sempre os mesmos2. É muito estranho pensar que eram os próprios pedagogos que se incumbiam de difundir um discurso destruidor de sua própria profissão.3 Em Minas Gerais, o Curso de Administração Escolar, alçado à 2 Ex-diretora da FaE/UFMG nos fala da constatação, à época, dessa uniformidade do discurso, concretizada nos textos recomendados pelos professores. A pós-graduação exercia, então, uma forte influência na docência e na estruturação da graduação. 3 Entretanto, renomada pedagoga do sul do país nos chama a atenção para o fato de que em faculdades de pequeno porte, no interior dos estados, o currículo da Pedagogia manteve um cunho fortemente tecnicista, mas que era, infelizmente, na maioria das vezes, de qualidade duvidosa... 45 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país condição de curso de Pedagogia, foi, aos poucos, perdendo a sua marca de excelência pedagógica, que se traduzia numa forte carga curricular das metodologias, estas ministradas por pedagogas de renome. Além da homogeneização teórica, sua estrutura escolar também foi enormemente modificada, com as metodologias perdendo espaço para as disciplinas ditas de “fundamentação”. Tornou-se um curso de Pedagogia não diferenciado. Os pedagogos, atacados na essência de sua profissão, envergonhavam-se de sua condição de pedagogos. Os “fundamentos” da Educação que deveriam “iluminar” a teoria e a prática pedagógicas tornaram-se o cerne da Pedagogia. A prática pedagógica desapareceu, dando espaço ao discurso teórico das disciplinas de fundamentação que, ironicamente, como mencionamos, era o mesmo, qualquer que fosse a disciplina ministrada. Na guerra dos “campos científicos” a Pedagogia abriu mão de seu espaço de práxis da Educação para teorias que o invadiram, permanecendo no campo da denúncia, sem condições de fazerem Educação. Num processo similar, sem embasamento teórico para mudar o quadro dominante, os pedagogos foram aos poucos se transformando em pseudofilósofos, pseudopsicólogos, pseudossociólogos etc., a repetir o jargão dos outros campos, mas sem o estofo necessário para teorizar sobre eles, confrontando-os (AMARAL, 2010). Pedagogos que ostentavam o orgulho da denúncia das mazelas da escola, mas sem a coragem necessária para atravessar os seus portões para saneá-las, em seu verdadeiro papel... Gotas de ansiedade sobre o futuro da Pedagogia 46 Na atualidade, estamos vivendo, legalmente, sob as determinações das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, Licenciatura, estabelecidas em 2006 (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2006). Nos meios acadêmicos, a ausência de consenso sobre a identidade da Pedagogia: formação de pedagogos ou formação de professores? Ou os dois? Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Ana Lúcia Amaral Qualquer que seja o rumo a tomar, é mister que se definam, sem medo, os saberes necessários à sua formação. Se a opção for pela formação do especialista em Pedagogia, é preciso que o pedagogo assuma, sem medo, a especialidade escolhida. Mas há que mergulhar a fundo nos saberes já consagrados pela pesquisa pedagógica (não há necessidade de reinventar a roda a todo momento) e realizar novas pesquisas no campo, de modo a desenvolver conhecimentos teóricos e práticos, tanto no âmbito pedagógico em geral quanto no âmbito específico de sua comunidade escolar. O pedagogo deve, sim, valer-se das contribuições da Filosofia, da História da Educação, da Antropologia, da Sociologia, da Psicologia, da Ciência Política, da Economia, dos estudos ambientais e ecológicos, da Administração, mas fazendo desses conhecimentos um amálgama que possa dar sustentação aos saberes que lhe são próprios. As Diretrizes Curriculares, mesmo enfatizando a docência na formação do pedagogo, sugere inúmeras competências que o curso de Pedagogia deve propiciar ao pedagogo, em sua formação mais ampla. Se, entretanto, a opção for pela docência, vale a pena relembrar que um bom número de autores já classificou, com algumas variações, os saberes que deveriam ser do domínio do professor: Perrenoud, Altet, Tardif, entre muitos. Tenho particular apreço pela classificação de Clermont Gauthier (1998). Ele os classifica como: (i) saber disciplinar – se refere ao conhecimento produzido pelos pesquisadores e cientistas nas diversas disciplinas científicas; (ii) saber curricular – uma disciplina nunca é ensinada tal qual; na verdade, ela sofre inúmeras transformações para se tornar um programa de ensino; (iii) saber das ciências da educação – os professores adquirem, durante a sua formação ou em seu trabalho, determinados conhecimentos profissionais que “permeiam a maneira de o professor existir profissionalmente” e que, embora não os ajudem diretamente a ensinar, apresentam-lhes 47 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país 48 determinadas facetas de seu ofício ou da educação em geral; (iv) saber da tradição pedagógica – um saber que transparece numa espécie de intervalo da consciência. Cada professor tem uma representação da escola, que o determina antes mesmo de ter feito um curso de formação de professores; (v) saber experiencial – a experiência e o hábito estão intimamente relacionados. Aprender por meio de suas próprias experiências significa viver um momento particular, momento esse diferente de tudo o que se encontra habitualmente sendo registrado como tal em nosso repertório de saberes. A experiência torna-se a regra e pode assumir a forma de rotina. O professor elabora uma jurisprudência particular feita de truques que ele acredita que funcionam; e, finalmente, (vi) o saber da ação pedagógica – que é o saber experiencial dos professores, a partir do momento em que se torna público e que é testado por meio das pesquisas realizadas em sala de aula. Os saberes da ação pedagógica legitimados pelas pesquisas são atualmente o tipo de saber menos desenvolvido no repertório de saberes do professor, embora seja, paradoxalmente, o mais necessário à profissionalização do ensino. Gauthier (1998) argumenta que, na falta de um saber da ação pedagógica válido, o professor, para fundamentar seus gestos, continuará recorrendo à experiência, à tradição, ao bom senso, saberes que, além de comportarem limitações importantes, não o distinguem em nada, ou quase em nada, do cidadão comum. Vemos, assim, que fica permitido ao professor o uso do ensaio e erro com seus alunos. E me pergunto: onde fica a ética do ensinar em situações como essa? Quando precisamos de um médico, um dentista ou um psicólogo para nossos filhos, procuramos informações a respeito dos profissionais, buscamos o que há de melhor, mas contentamo-nos em entregá-los a um processo de ensaio e erro quando se trata de sua educação. Gauthier (1998) pondera ainda que, para profissionalizar o ensino, é essencial identificar saberes da ação pedagógica válidos e levar os outros atores sociais a aceitar a pertinência desses saberes. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Ana Lúcia Amaral Mas como convencer a sociedade da pertinência desses saberes se os próprios docentes não se convenceram dela? Além dos saberes necessários à formação de bons professores, não podemos nos esquecer de que o ideário pedagógico brasileiro recebeu, nas últimas décadas, a influência de alguns pensadores estrangeiros voltados para a questão da prática. Destaco, entre eles, o americano Donald Schön, que se inspirou nos escritos de John Dewey para desenvolver um trabalho que centra sua concepção de desenvolvimento de uma prática reflexiva em três ideias centrais: “o conhecimento na ação, a reflexão na ação e a reflexão sobre a reflexão na ação” (SCHÖN, 2000). A concepção de profissional reflexivo elaborada por Schön pretendia, sobretudo, capacitar o profissional (em nosso caso, o professor) para lidar com as “incertezas” da prática. Não podemos nos esquecer, entretanto, de que uma boa formação inicial é aquela que reduz sobremaneira o leque de incertezas da prática. Uma boa formação profissional é aquela que procura garantir a aquisição de “equipamentos” (saberes) necessários à atuação eficiente do professor. É ela que permite ao professor chegar a seu campo de trabalho e enfrentar os desafios da prática com mais segurança, sem necessariamente se entregar a um processo de ensaio e erro, já mencionado, cujas chances de fracasso se sobrepõem às de sucesso. Entretanto, o conceito de reflexão que acabou dando origem ao que se consagrou como a epistemologia da prática incomodou e ainda vem incomodando muitos educadores (AMARAL, 2002; PIMENTA, 2002). Vejamos: [...] o saber docente não é formado apenas da prática, sendo também nutrido pelas teorias da educação. Dessa forma, a teoria tem importância fundamental na formação dos docentes, pois dota os sujeitos de variados pontos de vista para uma ação contextualizada, oferecendo perspectivas de análise para que os professores compreendam os contextos históricos, sociais, culturais, organizacionais e de si próprios como profissionais (PIMENTA, 2002, p. 24). 49 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país Assim, não se pode refletir nem analisar a própria prática ou a de outrem sem uma sólida base teórica, sem o que corremos o risco de permanecer no que Gauthier chamou de saber experiencial, aprendendo por meio das próprias experiências o que significa viver um momento particular, que leva o professor a elaborar uma jurisprudência particular feita de truques que ele acredita que funcionam... Conclusão em gotas... 50 • A Pedagogia é a ciência da Educação. • Embora embasada em grande número de outras ciências, que enxergam a Educação pelo viés de seu corpo teórico, é ela que tem a visão de totalidade do fenômeno educativo. • Para ter essa visão de totalidade, a Pedagogia não pode se valer apenas dos fundamentos das outras ciências que a compõem; ela precisa consolidar e expandir as suas próprias pesquisas. • Como cientistas da Educação, os pedagogos não podem se limitar a ter uma visão de totalidade do fenômeno educativo; além de enxergar o fenômeno, eles têm de nele intervir: não apenas olhar a Educação, refletir sobre ela, mas, sobretudo, fazer Educação. • Para fazer educação, é preciso adentrar o universo da escola básica: unir escola e universidade! • Para ganhar espaço e prestígio no campo universitário, os pedagogos precisam se convencer de que, se o futuro de uma nação está, incontestavelmente, ligado à qualidade de sua educação, o futuro do nosso país está, incontestavelmente, ligado à qualidade de seus pedagogos, sejam eles especialistas ou professores, ou ambos. • Para ganhar espaço e prestígio junto a outros profissionais e junto à sociedade, é preciso que o pedagogo acredite em si mesmo e no seu trabalho. Se não está convencido do seu valor, como convencer a outros? • Para ganhar espaço e prestígio junto a outros profissionais e Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Ana Lúcia Amaral junto à sociedade, é preciso que os cursos de Pedagogia ofereçam aos pedagogos, verdadeiramente, ensino de qualidade. • Para que a Pedagogia possa realmente trabalhar por ensino de qualidade, é preciso que seus saberes sejam tanto teóricos quanto práticos (ressalte-se a necessidade de estágios efetivos). • Para ganhar espaço e prestígio junto a outros campos e junto à sociedade, é preciso que a Pedagogia atraia para si os melhores candidatos nos processos seletivos. • Para ganhar espaço e prestígio, os pedagogos precisam batalhar por uma carreira claramente definida, melhores salários e melhores condições de trabalho. • Para que esse ciclo se feche, é preciso, sobretudo, que o pedagogo tenha orgulho de ser pedagogo!!! 51 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país Referências AMARAL, A. L. A pseudo-democratização da Escola Normal. Um estudo no Instituto de Educação de Minas Gerais. 1985. Dissertação (Mestrado em Educação - área de Concentração Metodologia de Ensino). Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais - FaE/UFMG, Belo Horizonte, 1985. ______. A adjetivação do professor: uma identidade perdida? In: VEIGA, I. P. A. e AMARAL, A. L. (Orgs.) Formação de professores: políticas e debates. Campinas, SP: Papirus, 2002. p. 131-154. ______. Avaliação Educacional em Minas Gerais nas décadas de 1920 a 1950. In: DALBEN, A. I. L. de F. (Org.). Avaliação Educacional. Memórias, trajetórias e propostas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. p. 84-106. ______. Significados e contradições nos processos de formação de professores. In: DALBEN et al. (Orgs.) Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente. XV Endipe. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. p. 24-46. BLOOM, HASTINGS & MADAUS. 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Professor Reflexivo: construindo uma crítica. In: PIMENTA; GHEDIN (Orgs.) Professor Reflexivo no Brasil: gênese e crítica de um conceito. São Paulo: Cortez, 2002. p. 17-52. 53 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 Reflexões em gotas sobre a trajetória da Pedagogia no país Drops of reflections on the Pedagogy trajectory in this country Abstract: This paper deals with the Pedagogy trajectory in Brazil, moreover in the last forty years, viewed from the perspective of the author, whose extensive and diversified career was always connected to her condition of a pedagogue. Having occupied different positions in state and federal levels, the author performed under different pedagogical models, seeing them emerge, gain hegemony and, facing the appearance of a new paradigm, be summarily discharged. Facing a large number of educational proposals, Pedagogy had demonized its theoretical field, also invaded in the last decades by Sociology and Political Science, in a process of accusation of pedagogues as those responsible for schooling failure. Accusation and consequent invasion of the Pedagogy field were not enough to change the picture of Education in the country: the theories mentioned talked about Education, destructing pedagogical knowledge, but were not able to create a new knowledge that allowed them to do Education. Keywords: Pedagogy; pedagogues; theoretical fields; pedagogue’s knowledge; teacher’s knowledge. 54 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 37-54 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento1 Maria Amélia Santoro Franco2 [email protected] José Carlos Libâneo3 [email protected] Selma Garrido Pimenta4 [email protected] Resumo No texto discute-se a especificidade epistemológica do campo científico e profissional da Pedagogia, definindo-o como a teoria e a prática da educação, compreendendo educação em seu sentido lato e pluridimensional. Desse modo, a variedade de práticas educacionais na sociedade resulta numa diversidade de práticas pedagógicas, entre elas a educação escolar. Afirma-se a distinção entre Pedagogia e Didática, aquela com maior amplitude conceitual do que esta, em que a docência se apresenta como modalidade peculiar da atividade pedagógica. Partindo-se da compreensão da práxis educativa – como objeto da ciência pedagógica - como ação intencional, reflexiva e transformadora dessa práxis, são explicitadas três dimensões da Pedagogia, a epistemológica, a prática e a disciplinar. Palavras-Chave: epistemologia da Pedagogia; práxis educativa; Pedagogia e Didática; Teoria Pedagógica. 1 Este texto foi apresentado com modificações na Conferência de Abertura do IV Fórum Nacional de Pedagogia (FONAPE), proferida por Selma Garrido Pimenta em 21 de setembro de 2011, em Belo Horizonte. 2 Profa. Titular da Universidade Católica de Santos - UniSantos. 3 Prof. Titular da Universidade Católica de Goiás - UCG. 4 Profa. Titular da Universidade de São Paulo - USP. 55 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento Considerações iniciais A Pedagogia como teoria, campo investigativo ou atividade prática está, hoje, longe de obter uma posição de consenso sobre seu significado, dificultando sobremaneira a definição do que seria a essência do proceder pedagógico. Na tradição da investigação pedagógica na Alemanha desde Comênio e Herbart, refletida de alguma forma em outros países europeus como a Itália e a Rússia, e de modo direto na Pedagogia católica, a missão da Pedagogia está na formação mental, moral e estética do indivíduo em sua vida subjetiva e social. Herbart perguntava em uma de suas obras: “o que pode chegar a ser o sujeito particular que procura educação?” (2003, p. 24). Trata-se de educar os indivíduos para o desenvolvimento de sua individualidade, de sua autonomia, de seu autogoverno, de modo a se fortalecerem contra o domínio unilateral de fins objetivos postos pelo Estado, pela Igreja, pela ciência, pelas classes sociais. O critério pedagógico que vai persistindo nos pedagogos clássicos como Rousseau, Pestallozi, Montessori continua sendo a formação do ser humano, agora reconhecidas as diferenças entre adulto e criança. Em concordância com Herbart, H. Nohl (1948) acrescenta, dentro da concepção historicista, que tudo o que for exigido da criança pela cultura objetiva e pelas relações sociais vigentes em dada sociedade precisa subordinar-se ao seguinte critério: que sentido têm estas exigências em conexão com a vida desta criança para sua formação e para o enriquecimento de suas forças, e que meios possui esta criança para satisfazê-las. Revela-se nisso a tensão entre o individual e o social, entre a subjetividade e as condições e fins objetivos postos pela sociedade. Nessa polaridade se entrecruzam as diversas situações e atos pedagógicos. Escreve Nohl: 56 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 A criança não é meramente um fim em si, ela também está sujeita às estruturas e fins objetivos para os quais é educada. Tais estruturas não são apenas meios educativos para a estrutura individual; elas têm seu Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta próprio valor, de modo que a criança não pode ser educada apenas para si, mas também para o trabalho cultural, para a profissão e para a comunidade nacional (NOHL, 1948, p. 42). A compreensão de Pedagogia legada pelos clássicos está, portanto, vinculada à ação formativa ou educativa em todas as circunstâncias da vida, de modo que a Educação expressa a forma do desenvolvimento humano em contextos culturais. Também as concepções críticas da Educação, entre elas as inspiradas no marxismo, sem retirar da Educação sua missão de formação do indivíduo, destacam a estreita vinculação da Educação com a sociedade, ressaltando o caráter político-social da Educação e mantêm a tradição da especificidade da ciência pedagógica.5 Em desacordo com o tom notoriamente axiológico e prescritivo da Pedagogia geral devido à incompatibilidade com a visão cientificista e pragmática, estudiosos da Educação, na segunda metade do século XIX, tanto na França como nos países de língua inglesa, pretenderam afirmar a cientificidade da Educação ao entender que os fatos humanos podem ser investigados dentro do paradigma científico positivista, desvinculados de juízos de valor e prescrições (DURKHEIN, 1985). A Pedagogia passa a ser pensada como ciência ao modo de outras ciências positivas, e, conforme Dewey (1968), nos países anglo-saxônicos o termo Pedagogia é substituído por Ciência da Educação6. Anuncia-se já aí a necessidade do concurso da Psicologia, da Sociologia, da História para dar substância ao estudo do fenômeno educativo e superar a ideia de Pedagogia apenas como relação educador-aluno ou da Pedagogia dos conselhos humanistas edificantes, o que resultou mais tarde na adoção do termo Ciências da Educação e sua 5 Tal afirmação encontra respaldo em Suchodolsky (1977; 1979), Schimied-Kowarzik (1983), Visalberghi (1983), entre outros autores. 6 A Pedagogia científica e a Pedagogia experimental, segundo Cambi, “vêm delinear um novo modelo de Pedagogia, radicalmente inovador no seu estatuto epistemológico e aberto a um crescimento cumulativo como é o das ciências empíricas; a Pedagogia liga-se, assim, à lógica da ciência como também se nutre de sua ideologia, mas se consolida como um dos saberes-chave da modernidade [...]” (CAMBI, 1999, p. 501). 57 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento introdução como disciplina na universidade em 1967. Ou seja, o fenômeno educativo deverá ser compreendido também em sua contextualização histórica, social e institucional; ele não poderia ser objeto de uma disciplina, mas de um conjunto de disciplinas. Na França, foi se constituindo também a concepção de Pedagogia como teoria e prática do ensino, muito próxima do que na tradição brasileira herdada da Alemanha conhecemos por Didática. Por exemplo, Altet assim define a Pedagogia: O campo da transformação da informação em saber pela mediação do ensino, pela comunicação, pela ação interativa numa situação educativa dada. [...] A Pedagogia concorre para a transformação da informação em Saber pelas mudanças cognitivas e socioafetivas, dos métodos postos em prática pelo professor por meio de interações, retroações (sic), de modos de ajustamentos, de adaptações interpessoais que facilitam e permitem a aprendizagem durante o tempo real da intervenção (ALTET, 1997, p. 11). 58 O pedagogo, então, é o que facilita a transformação da informação em saber por meio de uma prática relacional e da ação do professor na sala de aula, organizando situações pedagógicas para o aprendiz, ou seja, formas de comunicação que favoreçam a aprendizagem dos alunos. Já a Didática, para essa mesma autora, trata da estruturação do saber e gestão dos conteúdos pelo professor e de sua apropriação pelo aluno. As formas de gestão dessa articulação dialética ensinaraprender podem ser realizadas de maneira diferente, originando-se daí as distintas correntes pedagógicas. Com base nessa dessa noção de Pedagogia e Didática e, principalmente, para romper com um tipo de Pedagogia ora edificante, ora demasiamente prescritiva, e até com os excessos psicologizantes tomados pela Psicopedagogia, desenvolvemse, também, na França, ao final dos anos 1960, as didáticas das disciplinas escolares voltadas basicamente para as questões de ensino e aprendizagem de conteúdos de uma disciplina. Em anos Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta recentes, em meio à polêmica mal resolvida entre os franceses sobre os significados de Pedagogia, Ciências da Educação e Didática, surgiu um grupo de “novos pedagogos”7. Entre esses, Houssaye (2004, p. 12) define a Pedagogia como uma reflexão sobre a prática educativa, articulando na ação pedagógica a teoria e a prática: “o que deve haver em Pedagogia é certamente uma proposta prática, mas ao mesmo tempo uma teoria da situação educativa referida a essa prática, ou seja, uma teoria da situação pedagógica”8. No Brasil, certamente se fazem presentes todos os significados considerados em relação ao estudo da educação, já que nossas concepções de educação são herdadas de várias culturas e de várias tradições epistemológicas, europeias ou norte-americanas. Conforme escreve acertadamente Hameline (2005, p. 707), “uma palavra como Pedagogia, independentemente do que se diga ou se faça, é produto de uma cultura...”. É assim que em nossas instituições de formação de educadores incidem posições que identificam os estudos sobre o fenômeno educativo ora como Pedagogia geral (Ciência Pedagógica), ora como Ciência da Educação ou Ciências da Educação e até a identificação da Pedagogia com o ensino. Uma breve incursão na história da educação brasileira mostraria que até o início dos anos 1980 dominava o entendimento da Pedagogia como ciência da educação, devido à forte influência da educação católica na concepção dessa disciplina9. A movimentação política ocorrida no Brasil nessa mesma década 7 Designação dada por Hameline a um grupo de investigadores que se voltam para a Pedagogia no seu sentido de “teoria prática”, mencionando, entre outros, Philippe Perrenoud, Philippe Mieirieu, Jean Houssaye, Charles Hadji, Francis Imbert (HAMELINE, 2005, p. 712). 8 Para Houssaye, a Pedagogia e a didática, mais do que campos complementares, são uma e mesma coisa, como demonstra em seu artigo “Didactique et pedagogie: l’illusion de la difference - l’exemple du triangle” (1995). Embora não seja essa a posição que defenderemos neste texto, ao menos ela possibilita evitar a diferenciação artificial frequentemente encontrada em autores franceses, como Altet e Joannaert. Por exemplo, para Joannaert, “a visão do pedagogo permite compreender a dinâmica das interações entre os alunos. […] o didata tenta antes compreender os conhecimentos que são veiculados nesse diálogo” (JOANNAERT, 2002, p. 63). Ora, precisamente é dessa ilusão de separação entre Pedagogia e Didática que se ocupa Houssaye em seu artigo. 9 É relevante, no Brasil, considerar a influência da Pedagogia católica na formulação do referencial teórico e científico da Pedagogia, fortemente inspirado nos pedagogos clássicos alemães a partir de Herbart, do que é um exemplo a obra de Otto Willmann (1970). A presença da Pedagogia católica, da Pedagogia de Herbart e da Pedagogia marxista na história da educação brasileira é investigada amplamente em Libâneo (1990). 59 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento provocou o questionamento do formato curricular dos cursos de formação de professores provocado, em boa medida, pela introdução do pensamento marxista na Educação associada à incorporação da teoria da reprodução de Bourdieu e Passeron e da teoria dos aparelhos simbólicos de Estado de Althusser, conforme nos indica Saviani (1983). Nesse momento, a Pedagogia é criticada pelo seu lado “reprodutor”, conservador, razão que levou algumas instituições formadoras a assumir a formulação francesa de “Ciências da Educação”. Em pouco tempo, essa formulação perdeu espaço e, por influência da teoria marxista da divisão do trabalho, os estudos pedagógicos sistematizados foram substituídos por estudos sobre docência, assumindo-se que a base da formação de todo educador é a docência (ENCONTRO NACIONAL DA ANFOPE, 6., 1992, Belo Horizonte)10. No contexto da polêmica que se abriu no país sobre a ênfase a ser dada nos currículos de formação de professores, adversários dessa posição criticaram, nas propostas da ANFOPE, o enfraquecimento dos estudos pedagógicos, uma vez que os cursos de Pedagogia deixaram de formar o “pedagogo” em sentido estrito e passaram a formar, exclusivamente, o professor para a educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental11. Assumimos a Pedagogia como um campo de estudos sobre o fenômeno educativo, portadora de especificidade epistemológica que, ao possibilitar o estudo do fenômeno educativo, busca a 60 10 Observe-se que, a despeito da crítica que aqui se faz à redução do curso de Pedagogia a um curso de formação de professores, a identificação da Pedagogia com a docência não é uma criação dos militantes da ANFOPE. Embora os militantes dessa associação não justifiquem sua tese pela experiência francesa, é fato que na França desenvolveu-se e se mantém uma definição de Pedagogia que a aproxima da docência. Vimos, anteriormente, que M. Altet define Pedagogia como a ação na sala de aula. Em outro lugar, ela escreve: “O professor-profissional é antes de tudo um profissional da articulação do processo de ensino-aprendizagem em situação, um profissional da interação de significações partilhadas” (JONNAERT, 2002, p. 42). Ora, se a Pedagogia atua na interação professor-alunos e na gestão da situação pedagógica, então o professor seria um pedagogo, e o curso de formação desses professores seria o curso de Pedagogia (ENCONTRO NACIONAL DA ANFOPE, 6., 1992, Belo Horizonte). 11 A ANFOPE foi a associação profissional que resultou de movimento encetado por professores e pesquisadores em favor de mudanças na legislação sobre formação de educadores. Após mais de 20 anos de debates em meio à polêmica sobre a natureza do curso de Pedagogia, as teses da ANFOPE foram incorporadas integralmente pela Resolução n. 1 do Conselho Federal de Educação, de 2005, que legisla sobre as diretrizes curriculares do curso de Pedagogia. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta contribuição de outras ciências que têm a Educação como um de seus temas. Assim, a Pedagogia é a ciência que tem por objeto a educação humana nas várias modalidades em que se manifesta na prática social. Trata-se, pois, da ciência da educação que investiga a natureza do fenômeno educativo, os conteúdos e os métodos da Educação, os procedimentos investigativos. Entendemos que a Educação, em suas várias modalidades, se caracteriza como processo de formação das qualidades humanas, enquanto que o ensino é o processo de organização e viabilização da atividade de aprendizagem em contextos específicos para esse fim. Em síntese, o termo Pedagogia designa um determinado campo de conhecimentos com especificidade epistemológica, cuja natureza constitutiva é a teoria e a prática da Educação ou a teoria e a prática da formação humana, e a Didática, o ramo da Pedagogia que trata do processo de ensino e aprendizagem. Desse modo, a formação profissional de pedagogos extrapola o âmbito escolar formal devendo abranger, também, esferas mais amplas da Educação, a não-formal e a informal, ou seja, toda atividade docente é atividade pedagógica, mas nem toda atividade pedagógica é necessariamente atividade docente. Para além do dilema posto entre o pedagogo que faz escola e o pedagogo que pensa a Educação, avançamos para um entendimento mais interativo dessas posições, aproximando-nos da posição de Houssaye (2004) sobre o trabalho de pedagogo: aquele que procura conjugar a teoria e a prática a partir de sua própria ação. Trata-se de uma posição em que a Pedagogia é por um lado ciência, mas, por outro, arte e também uma orientação para a ação educativa, ou seja, na expressão de Hameline (2005, p. 710), “um misto de idéias (sic) e de experiência, de constatação e de contestação, de rejeição e projeto”, ou seja, uma teoria prática, da qual se socorre a Didática. Portanto, cumpre registrar que nossa compreensão opõe-se à posição dominante entre os educadores da ANFOPE e também à recente legislação que define as diretrizes curriculares nacionais 61 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento para os cursos de Pedagogia, elaborada com base nas propostas dessa Associação. A dimensão epistemológica 62 A dimensão epistemológica da Pedagogia refere-se à definição do seu objeto, de seus procedimentos investigativos, dos requisitos que a constituem como ciência. Recorrendo a Mialaret (1991, p. 9), a Pedagogia “é uma reflexão sobre as finalidades da educação e uma análise objetiva de suas condições de existência e de funcionamento. Ela está em relação direta com a prática educativa que constitui seu campo de reflexão e análise, sem, todavia, confundir-se com ela”. Na tradição das teorias sociocríticas, a prática educativa constitui-se sempre como prática social, e, no caso da Pedagogia, uma prática social humanizadora. A Educação, assim, seria uma ação e um processo de possibilitar aos sujeitos realizarem-se como seres humanos, portanto, inseridos no processo civilizatório. A Pedagogia apresentou historicamente configurações que demarcaram sutis diferenças em sua abrangência, mas profundas alterações em sua epistemologia. Uma das razões dessas alterações (em sua epistemologia) é o fato de ter sido teorizada por diferentes óticas científicas conferindo-lhes quer uma multiplicidade de abordagens conceituais, quer diferentes configurações reducionistas de sua especificidade e de sua possibilidade como ciência na construção do conhecimento pedagógico, frequentemente descaracterizando seu status de ciência, e até criando a sensação de sua desnecessidade como espaço científico fundamentador da práxis educativa. No caso brasileiro, esse cenário histórico retirou a Pedagogia do palco, desprestigiou o protagonismo dos pedagogos e, em seu lugar, foram se instalando os tecnólogos da prática, que foram, aos poucos, reduzindo o objeto específico de investigação dessa ciência, qual seja, a educação concretizada em práticas educativas. Ao invés disso, seu objeto foi focando apenas os Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta aparatos tecnológicos do processo de instrução e, dessa forma, a formação docente passou a ser apropriada como treinamento de habilidades, o que contribuiu para apequenar a função social dos professores, que passaram a ser tratados como mero ensinadores, de conteúdos arbitrária e previamente selecionados. O crescimento desses significados e representações das finalidades da Educação, que supervalorizaram a organização da instrução e subestimaram os destinos e valores educativos, levaram ao enfraquecimento e à alteração da identidade da Pedagogia, fazendo-a distanciar-se de seus ideais político-transformadores e encerrando-a nas salas de aula, onde seu papel passou a ser apenas o de racionalizar ações para qualificar a eficiência do ensino, na perspectiva instrumental. Nesse sentido, a Pedagogia foi sendo subsumida à docência e, assim, como enfatiza Libâneo (1998, p. 126), “a formação pedagógica foi significando, cada vez mais, a preparação metodológica do professor e, cada vez menos, campo de investigação sistemática da realidade educativa. Estes fatos deram espaço para aprofundar o dilema já referido entre o pedagogo que faz escola e o pedagogo que pensa a educação”. À medida que a ciência pedagógica foi sendo considerada como a ciência da organização da instrução educativa, numa configuração que se pode denominar técnico-científica e, diga-se, sua mais forte e talvez consensual representação, sua atuação foi se tornando instrumental, tecnicista, tecnológica. Distanciou-se dos sentidos da intencionalidade da prática e centrou-se no que Carr (1996) denomina de tecnologia da prática, utilizando-se do conceito de poiesis para expressar um saber fazer não reflexivo que destrói a imanência da intelegibilidade da práxis, impedindo a interpretação dessas práticas e a possibilidade de integrar sujeito e ação, ampliando os vácuos decorrentes da não articulação de teorias com as práticas referentes. Quando a ciência pedagógica incorpora a possibilidade de vincular-se ideologicamente à realidade educacional construindose como um saber alinhado, ou um saber engajado, numa abordagem 63 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento 64 que se pode denominar de crítico-emancipatória, realça-se a focalização da práxis educativa como objeto dessa ciência num movimento que integra intencionalidade e prática docente; formação e emancipação do sujeito da práxis. A Pedagogia assim assumida permite vislumbrar a construção de passarelas articuladoras entre as teorias educacionais e as práticas educativas. Nessa perspectiva, a Pedagogia revela-se como uma ação social de transformação e de orientação da práxis educativa da sociedade, onde desvela as finalidades político/sociais presentes no interior da práxis e reorienta ações emancipatórias para sua transformação. Sabe-se da enorme complexidade desse objeto, e sabe-se também que a educação configura-se, estabelece-se, estrutura-se em diversas dimensões. Sua dimensão privilegiada é a prática educativa, vista como prática social intencionada. Nela confluem as intencionalidades e as expectativas sociais em que se determinam os contextos da existência humana num determinado grupo social, no qual se concretiza a realidade subjetivada, num processo históricosocial que se renova continuamente. Assim, consideramos que o objeto da Pedagogia como ciência será a práxis educativa. A práxis da educação será assim apreendida como a realidade pedagógica a ser investigada, práxis que é ativa, é vida, que dá movimento à realidade, transforma-a e é por ela transformada. Os estudos que historicamente tivemos sobre a prática educativa, que se utilizaram de metodologias que desconsideravam a realidade da práxis, informaram-nos sobre a tecnologia da prática, sobre as ações visíveis e observáveis dessa prática, sobre impressões que se construíram sobre o visível das práticas. Mas seu sentido latente, dinâmico, elaborado e transformador em processo não foi captado. Utilizou-se outro conceito da práxis, tal como mostrou Kosik (1976, p. 218): “a práxis se identificou com a técnica, no sentido mais amplo da palavra, e foi entendida e praticada como manipulação, técnica do agir, arte de dispor de homens e coisas, em suma, como poder e arte de manipular o material humano ou as coisas”. Entender o sentido de práxis como transformação e criação Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta é compreender um novo sentido de homem, absorver uma nova concepção de mundo e poder vislumbrar uma nova dimensão ao campo conceitual da Pedagogia. A práxis educativa, objeto da ciência pedagógica, caracteriza-se, assim, pela ação intencional e reflexiva de sua prática. Ela é distinta de outras práticas sociais, que até podem funcionar, em certos momentos, como práticas educativas, mas que prescindem dessas condições e que, por não serem organizadas intencionalmente, não serão objeto de estudo da Pedagogia, apesar de estarem incluídas no contexto amplo da Educação. A práxis educativa ocorre prioritariamente em locus formais, especialmente na escola, mas não exclusivamente, pois ocorre na família, pode acontecer no trabalho, nos processos de comunicação social, entre muitos, onde houver uma intencionalidade a se concretizar, permeada por um processo reflexivo de fins e meios. A ação teórico-prática dessa ciência, a Pedagogia, sobre seu objeto, que é a práxis educativa, poderá ser compreendida como a práxis pedagógica. A práxis pedagógica será o exercício do fazer científico da Pedagogia sobre a práxis educativa onde quer que ela aconteça. Assim, poderemos estabelecer que o objeto da Pedagogia, como ciência da educação, será o esclarecimento reflexivo e transformador dessa práxis. Para bem compreender esse entendimento, será necessário pressupor que: a) cada práxis educativa corresponde uma teoria implícita que fundamenta essa práxis; o mesmo ocorrerá com a práxis pedagógica; b) as práticas educativas e pedagógicas só poderão ser transformadas a partir da compreensão dos pressupostos teóricos que a organizam e das condições dadas historicamente; c) a prática, como atividade sócio-histórica e intencional, precisa estar em constante processo de redirecionamento, com vistas a se assumir em sua responsabilidade social crítica; d) caberá à Pedagogia, como ciência da educação, ser a interlocutora interpretativa das teorias implícitas na práxis e também a mediadora 65 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento 66 de sua transformação, para fins cada vez mais emancipatórios. Caberá à Pedagogia ser a ciência que transforma o senso comum pedagógico, a arte intuitiva presente na práxis, em atos científicos, sob a luz de valores educacionais, garantidos como relevantes socialmente em uma comunidade social. A Pedagogia assim constituída poderá superar a dualidade inicial entre ser arte ou ciência da educação para ser a ciência que transforma a arte da educação, o saber fazer prático intuitivo em ação educativa científica, planejada, intencional. Há de se realçar que a realidade da prática educativa se faz por meio de ações artesanais, espontâneas, intuitivas, criativas, que vão se amalgamando, em cada momento de decisão, em ações refletidas, apoiadas em teorias, organizadas por intermédio de críticas, autocríticas, de expectativas de papel. Nesse sentido, no exercício da prática educativa convivem dimensões artísticas e científicas expressas pela dinâmica entre o ser e o fazer, entre o pensar e o realizar, entre o poder e o querer realizar. A Pedagogia como ciência deverá se exercer sem descaracterizar seu objeto de estudo, portanto sem deixar de considerar, na práxis educativa, a presença concomitante, atávica, imanente da ciência e da arte. Cabe-lhe cientificar essa situação esclarecendo, respeitando, desvelando, dando oportunidades para transformações desse universo da prática educativa. Pode, assim, requisitar seu espaço de sua autonomia como ciência, pois para realizar essa tarefa ela terá que possuir um sistema único, mas não estático, de fundamentos, metodologias e ações próprias no qual estarão incluídos saberes de diversas ciências. Como ciência, espera-se que a Pedagogia organize fundamentos, métodos e ações para retirar da práxis a teoria implícita e cientificála a posteriori, juntamente com seus protagonistas, dentro de uma ação crítica pautada na responsabilidade social de uma prática pedagógica. Essa ação requer a autonomia do olhar pedagógico, mas carece de todos os saberes “explicativos” de outras ciências. Dessa forma, resgata-se à Pedagogia não apenas seu espaço Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta de autonomia, mas e principalmente seu caráter essencial de ciência crítico-reflexiva que, consideramos, foi-lhe tirado quando da emergência da cientificidade moderna, que impregnou o fazer educativo-pedagógico com estratégias que visavam um “modo correto de fazer as coisas” ou, mais tarde, na busca de “competência técnica”, distanciando dela sua possibilidade de se fazer ciência da práxis para a práxis, por meio de um processo contínuo de reflexão transformadora. A prática foi se transformando em aplicação de modos de fazer, cativa da teoria, cabendo à Pedagogia, historicamente, escolher culpados de um processo educativo fracassado e sobre eles elaborar teorias... Nesse caminhar, na construção intermediada entre práxis e epistemologia, a Pedagogia precisa enfrentar e superar alguns dilemas e confrontos que foram se impondo historicamente. Este momento histórico requer o enfrentamento dos dilemas de forma lúcida e corajosa, buscando a reinvenção da profissionalidade pedagógica, criando novas condições de humanização das práxis e de convivência solidária com as gerações futuras. Dimensão prática - A Pedagogia como saberes Consideramos que o conhecimento prático resulta de uma conjugação de saberes necessários à ação, que se organizam e se reconstroem dialeticamente com o conhecimento teórico num processo crítico interpretativo que vai se estabelecendo nas relações sujeito-existência. Clandinin (1986) considera que a concepção de conhecimento prático pessoal é a de um conhecimento experimental, carregado de valor e orientado para a prática. O conhecimento prático pessoal vai se construindo num processo histórico, o que implica contínuas transformações e, assim, não pode ser entendido como algo fixo, objetivo e sem alteração... Diz o autor que “o conhecimento prático pessoal implica um ponto de vista dialético entre a teoria e a prática” (CLANDININ, 1986, p. 20). 67 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento 68 Consideramos, ainda, que os conhecimentos educacionais constituídos nem sempre expressaram essa realidade complexa do fenômeno educativo, ou melhor, esse processo marcado pela dialética do fazer e fazer-se em situação. As teorias educacionais, muitas vezes, não traduziram o sentido implícito das práticas cotidianas e, assim, nem sempre essas teorias atribuíram sentido ao saber-fazer dos educadores, impedindo a possibilidade de utilização dessas teorias como suporte enriquecedor das ações práticas educativas. A teoria que o sujeito leva à prática nem sempre é a teoria estruturada como conhecimento pedagógico. Essa situação foi se dando pelas dissonâncias que historicamente marcaram os desencontros das três dimensões da Pedagogia que aqui analisamos. Talvez esteja aí uma possível explicação da grande distância que foi se estabelecendo entre a teoria e a prática educativa. Ou seja, os estudos científicos sobre a Educação, de cunho positivista, ao se utilizarem de olhares e suportes científicos, característicos de outras ciências, separaram sujeito e objeto de pesquisa, desprezaram as subjetividades inerentes à ação humana, distanciaram os interesses entre pesquisadores e pesquisados, recortaram artificialmente o contexto da pesquisa deixando, portanto, de apreender a essência do sentido dessas práticas, congelando interpretações fragmentadas. Essas interpretações, captadas de forma parcial pelo olhar redutor dos pressupostos da ciência clássica, retiraram da cena educativa o significado original das práticas, expresso e vivido pelos protagonistas, impedindo que os resultados desse trabalho científico fossem percebidos pelos sujeitos como expressão de sua ação. Ou seja, conforme o pedagogo Söetard (2004, p. 51), “as ciências da educação continuam sendo construções teóricas que não conseguem encontrar a passagem para o real e instrumentar realmente a prática”. Essa situação da inadequação histórica dos suportes científicos da Pedagogia produziu muita dificuldade na interpenetração da teoria com as práticas educacionais, impedindo a fertilização Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta mútua entre os dois polos da atividade educativa, reafirmando a esterilidade de muitas teorias e a inadequação de muitas práticas. Sabe-se que quando os sujeitos não constroem sentido, não conseguem realizar a apreensão cognitiva/emocional dos conhecimentos teorizados e, assim, não percebem a relação entre os conhecimentos teóricos e suas ações cotidianas. Ao considerar a fragmentação de saberes na formação de professores e as flutuações de sentido da Pedagogia como ciência, que ao restringir-se ao campo aplicado das demais ciências perde seu significado de ciência prática da prática educacional, Houssaye (1995) aponta como caminhos de superação a necessidade de que os educadores se empenhem em construir saberes pedagógicos a partir de necessidades pedagógicas postas pelo real, para além dos esquemas apriorísticos das ciências da educação. O retorno à Pedagogia só ocorrerá se as ciências da educação deixarem de partir de diferentes saberes constituídos e começarem a tomar a prática dos profissionais como o ponto de partida e de chegada. Portanto só há um caminho: reinventar os saberes pedagógicos a partir da prática social da Educação. Nesse sentido, Pimenta (1999) afirma que os saberes sobre a Educação e sobre a Pedagogia não geram os saberes pedagógicos. Estes só se constituem a partir da prática que os confronta e os reelabora. Mas os práticos não os geram apenas com o saber da prática. As práticas pedagógicas se apresentam na educação com estatuto frágil sendo reduzidas a objetos de análise de diferentes perspectivas: histórica, psicológica, antropológica etc. É preciso conferir-lhes um estatuto epistemológico. A Pedagogia, integrando as três dimensões que tratamos neste texto, poderá preocupar-se com as possibilidades de construção de teorias a partir da prática, criando estratégias didáticas e investigativas que auxiliarão na composição de possíveis saberes pedagógicos que poderão servir de apoio para a compreensão e transformação das práticas. Franco (2006) considera que os saberes pedagógicos só são possíveis em um sujeito que vai gradativamente assumindo 69 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento uma posição política frente ao compromisso de ser professor, engajando-se criticamente em suas circunstâncias, cercando e acercando-se de sua realidade existencial, transformando-a em direção às suas intencionalidades. Assim, esse sujeito vai fazer uso do necessário conhecimento didático, metodológico, cultural, servindo-se desse aparato teórico-prático para ir construindo em ação seus saberes disciplinares, didáticos, metodológicos. A capacidade de articular o aparato teórico-prático, a capacidade de mobilizá-lo na condição presente, a capacidade de organizar novos saberes a partir da prática, essas capacidades em conjunto estruturam aquilo que chamamos de saberes pedagógicos. A Pedagogia como ciência precisará assimilar o papel de integradora e disponibilizadora dos saberes produzidos pelos práticos, promovendo a situação comunicativa proposta por Habermas a partir de uma perspectiva emancipatória, ou seja, valorizando os saberes dos práticos, permitindo-lhes criar e transformar o sentido de seu cotidiano. Para tanto, requer-se da Pedagogia como ciência um caráter de autorreflexão que inclui sempre a crítica por princípio e a intersubjetividade como ponto de partida na compreensão da subjetividade, tendo como finalidade emancipar o sujeito da opressão da racionalidade burocrática dos sistemas escolares. A dimensão disciplinar - A Pedagogia como curso 70 As dimensões apresentadas vão constituindo, em cada tempo e lugar, a dimensão disciplinar à medida que formam o conteúdo dos estudos pedagógicos, antes de tudo o que diz respeito à natureza e aos elementos constitutivos do fenômeno educativo e, logo, o referente aos saberes da prática. O curso de Pedagogia consolida, pois, aquele conjunto organizado de saberes, arranjados e rearranjados entremeio às exigências de formação geral e formação especializada, ora com disciplinas independentes, ora transversais, dentro da tendência à flexibilidade curricular e à interpenetração de saberes e práticas. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta O que são ou devem ser os saberes pedagógicos é assunto já bastante investigado em vários países resultando em vários mapeamentos, por sua vez reproduzidos no Brasil com maior ou menor criatividade nos formatos curriculares encontrados nos vários cursos de formação de educadores, conforme afirmações de Gauthier, Housseye, Tardif, Franco, Pimenta, entre outros autores. A síntese de Pimenta (1999) - saberes da teoria da educação, saberes sobre relação educação-sociedade, saberes sobre organização da escola e sobre o processo de ensino e aprendizagem - parece contemplar a classificação que tem sido acordada entre os vários autores: saberes teórico-científicos, saberes procedimentais (em parte decorrentes dos primeiros) e saberes práticos (procedimentos decorrentes da própria ação). Há que se considerar, ainda, que os saberes pedagógicos convertidos em disciplinas se prestam a duas funções. A primeira, a de compor o rol de conhecimentos e práticas da formação do pedagogo stricto sensu (no Brasil denominado, também, ora de técnico, ora de especialista em Educação); a segunda, a de estabelecer os saberes pedagógicos necessários à formação de professores para os vários níveis de ensino, juntamente com os saberes das disciplinas específicas. A despeito do fato de que a legislação educacional brasileira atual sobre a formação de educadores ignore a formação específica do pedagogo12, assumimos aqui a posição de que a formação de educadores se realize em dois cursos distintos: o curso de Pedagogia e o curso de formação de professores. O curso de Pedagogia destina-se à formação de pedagogos especialistas por meio de estudos teóricos de Pedagogia, visando preparar profissionais para a investigação científica e para 12 Libâneo (2006, p. 873) critica essa legislação nos seguintes termos: “O esfacelamento dos estudos no âmbito da ciência pedagógica, com conseqüência (sic) subsunção do pedagogo especialista no professor, e a improcedente identificação dos estudos pedagógicos a uma licenciatura talvez sejam dois dos mais expressivos equívocos teóricos e operacionais da legislação brasileira, no que se refere à formação do pedagogo no Brasil”. Também Franco discorda da identificação entre pedagogo e professor. Mantida a formação apenas de professores, excluindo a formação específica do pedagogo, ela pergunta: “Qual será o profissional que está pensando, investigando, propondo, refletindo sobre esta formação? Qual é o profissional que irá direcionar o debate crítico sobre a formação docente; qual será o profissional que irá investigar metodologias de formação? Qual será o profissional que estará 71 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 As dimensões constitutivas da Pedagogia como campo de conhecimento o exercício profissional no sistema de ensino e em outras instituições educacionais, inclusive as não-escolares. O curso de formação de professores para a Educação Básica, em ligação direta com o curso de Pedagogia, destina-se à formação de professores para a Educação Básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio). Considerações finais O curso de Pedagogia, portanto, destinado a formar o pedagogo stricto sensu, integra as três dimensões de Pedagogia assinaladas. A dimensão epistemológica fundada na tradição teórica e nos saberes da prática se funde com as condições históricas atuais, para definir os elementos para a elaboração da legislação educacional visando normas para a criação e funcionamento dos cursos de Pedagogia. Tais elementos, já realçados na produção de diversos educadores13, dão as bases para a estruturação da Pedagogia como ciência voltada à prática educativa, contribuindo para que legisladores e intelectuais compreendam a especificidade da Pedagogia e o papel dos pedagogos no aprimoramento da escola brasileira. Desse modo, o curso de Pedagogia tem por especificidade proceder à análise crítica e contextualizada da educação e do ensino como práxis social, formando o profissional pedagogo com formação teórica, científica, ética e técnica para atuar no estudo da teoria pedagógica, na pesquisa educacional e no exercício de atividades pedagógicas específicas. O posicionamento que nos move é a crença no poder social e político da escola, tendo como base o direito de todos, em condições iguais de oportunidades de acesso aos bens culturais, ao desenvolvimento das capacidades humanas, à formação da cidadania, à conquista da dignidade humana e da liberdade intelectual e política. 72 avaliando, de modo emancipatório e transformador, as práticas educativas e docentes usuais, tirando delas o essencial à reflexão? Quem organizará e articulará os diversos saberes que convergem na prática docente? Quem organizará reflexões sobre a seleção de conteúdos que poderão compor as estruturas curriculares?” (FRANCO, 2006). 13 Especialmente os trabalhos de Pimenta (1996; 1997; 1998), Libâneo (1996; 1997; 1998 a e b) e Franco (2001; 2003). Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 Maria Amélia Santoro Franco, José Carlos Libâneo, Selma Garrido Pimenta Referências ALTET, M. Les pédagogies de l´apprentissage. Paris: PUF, 1997. CLANDININ, J. 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Keywords: epistemology of Pedagogy; educational practice; Pedagogy and Didactics; pedagogical theory. 78 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 55-78 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente Leda Scheibe1 [email protected] Zenilde Durli2 [email protected] Resumo O objetivo do artigo é analisar a trajetória do curso de Pedagogia no Brasil para melhor compreender as perspectivas que apresenta para o desenvolvimento do campo educacional brasileiro. Explicita a sua inserção no interior das disputas mais amplas que sempre estão presentes nas definições educacionais de uma nação. Sua história é abordada considerando o contexto sociocultural no qual esteve imerso e a jurisprudência presente nas leis educacionais, orientadores dos currículos que caracterizaram diferentes perfis profissionais aos egressos do curso. São tomadas como referência principal três momentos da trajetória do curso: o movimento dos educadores das décadas de 1920 e 1930, focalizando duas experiências de formação do professor primário em nível superior; o período que compreende a história do curso desde sua criação em 1939, até as mudanças impetradas no contexto das leis 4.024 de 1961, 5.540, de 1968 e 5.692, de 1971 e, ainda, o período caracterizado por intencionalidades antagônicas a respeito 1 Doutora em Educação, professora voluntária no PPGE de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e no corpo permanente de professores do Programa de Mestrado em Educação da UNOESC (Universidade do Oeste de Santa Catarina). 2 Doutora em Educação e professora nos cursos de licenciatura na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). 79 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente do curso, a partir de meados da década de 1970, no qual os debates a respeito do curso levaram às definições atuais. Na análise buscamos evidenciar questões fundamentais nas quais se consubstanciaram os históricos dissensos em relação ao curso de Pedagogia e à identidade do pedagogo, situandoos frente aos projetos educativos em desenvolvimento. Palavras-chave: curso de Pedagogia; trajetória do curso; disputas de projetos; diretrizes curriculares nacionais. O curso de Pedagogia, no percurso de sua existência, talvez pela própria amplitude da área que o denomina, foi se amoldando aos interesses hegemônicos dos projetos educativos vigentes. A opção histórica que faz sentido configurar neste momento é aquela que resulta de um trabalho de mediação que não apenas contemple uma discussão conceitual, mas também a complexidade histórica do curso e seu papel no encaminhamento das questões educacionais (SCHEIBE; AGUIAR, 1999). Introdução 80 Escrever sobre as perspectivas que o curso de Pedagogia apresenta para o desenvolvimento do campo educacional brasileiro requer retomar o seu processo de construção e desenvolvimento no qual é possível encontrar não apenas os subsídios para melhor compreender sua constituição atual mas também suas potencialidades. As sete décadas de existência do curso revelam a procura de sua adequação aos projetos educacionais instalados no país, Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli embora tenha se instalado um debate mais acirrado sobre o curso no contexto do movimento reformista da educação e da formação de professores que vem ocorrendo desde os anos de 1990. A análise aqui pretendida requer, portanto, uma retrospectiva histórica do caminho percorrido que explicite a sua inserção no interior das disputas mais amplas que sempre estão presentes nas definições educacionais de uma nação. Abordaremos, portanto, sua história considerando, ainda que brevemente, o contexto sociocultural no qual esteve imerso e a jurisprudência presente nas leis educacionais, orientadores dos currículos que caracterizaram diferentes perfis profissionais aos egressos do curso. Levando em conta a legislação que normalizou o curso e também os estudos realizados por diversos autores, tomou-se como referência principal três momentos que sobressaem não apenas no seu percurso mas também na discussão da sua identidade: aquele que diz respeito ao movimento dos educadores das décadas de 1920 e 1930, no qual é possível focalizar duas experiências de formação do professor primário em nível superior; o período em que a história do curso de Pedagogia esteve estritamente vinculada à outorga do Estado, compreendendo sua gênese em 1939, as mudanças impetradas no contexto da lei 4.024, de 1961, e aquelas promovidas no final da década de 1960, no bojo das leis 5.540, de 1968, e 5.692, de 1971, período em que a formação do professor para o magistério dos anos iniciais de escolaridade não esteve ainda entre as funções prioritárias do curso e, ainda, o contexto marcado por intencionalidades antagônicas, a partir de meados da década de 1970, no qual as contendas a respeito do curso levaram às definições atuais, quais sejam: (i) a proposta de transformação radical do curso de Pedagogia inscrita nas indicações de Valnir Chagas, pelas quais se extinguiria o curso nos moldes em que fora até então organizado e (ii): as propostas construídas no âmbito da sociedade civil, especialmente por professores e acadêmicos, revitalizando o curso e atribuindo-lhe a função de formar os professores para o magistério dos anos iniciais de escolaridade. 81 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente Na análise buscamos evidenciar questões fundamentais nas quais se consubstanciaram os históricos dissensos em relação ao curso de Pedagogia e à identidade do pedagogo, particularmente situando-os frente aos projetos educativos em desenvolvimento. Primeiras experiências brasileiras de formação dos profissionais do magistério em nível superior As diretrizes políticas nacionais para a Educação foram implantadas progressivamente por meio de uma legislação que se organizou com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública em 19303 e, da mesma forma, com a criação do Conselho Nacional de Educação em 19314. O papel da Educação no contexto da modernização da sociedade brasileira foi aos poucos “afirmando-se como um serviço público e um importante instrumento para a construção de uma nova hegemonia” (SILVA, 2004, p. 31) em favor dos segmentos urbanos emergentes do processo de industrialização e urbanização que se desenvolvia no país. Esse processo, ao desenvolver-se no contexto de um capitalismo subdesenvolvido, dependente e importador de tecnologia, não deixou de demandar mão-de-obra qualificada, comprometendo o Estado com a expansão da escolarização. Conforme destaca Silva (2004, p. 31), passou-se a [...] reivindicar do Estado ações educacionais que garantissem a formação de funcionários adaptados às novas funções de gerência e a tarefas especializadas, bem como para a formação de seus intelectuais orgânicos. 82 3 Francisco Campos assumiu a direção do recém-criado Ministério da Educação e Saúde Pública, credenciado por sua atuação à frente dos assuntos educacionais de Minas. Promoveu, então, a reforma do ensino secundário e universitário no país. Deixou o Ministério em setembro de 1932. 4 Os conselhos de educação têm sua existência, no Brasil, datada do início do período republicano, quando são criados com o objetivo declarado de discutir e definir as políticas para a Educação. O primeiro deles denominou-se Conselho Superior de Educação e foi constituído em 1891. O segundo foi organizado pela Reforma Francisco Campos, em 1931, com funções consultivas e denominava-se Conselho Nacional de Educação (CNE). Em 1961, com o advento da Lei 4.024 (BRASIL, 1961), criou-se o Conselho Federal de Educação (CFE), extinto em 1994, no governo Itamar Franco. Em 1995, pela Medida Provisória no 1.159/1995, foi criado o Conselho Nacional de Educação (CNE), em atividade até os dias atuais. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli Além disso, segmentos da sociedade civil também reivindicaram a expansão das oportunidades educacionais. Por exemplo, desde o início do século XX o operariado defendia a redução da jornada de trabalho para, dentre outras, possibilitar o acesso da classe trabalhadora à educação e às classes médias como forma de ascensão social. A definição de um modelo nacional de educação, porém, não poderia deixar de expressar os conflitos de interesses entre educadores católicos e educadores laicos. Ao buscar manter seu desempenho na educação escolar, os educadores católicos tentaram impedir o envolvimento crescente do Estado neste campo. Defendiam, portanto, a manutenção de seu poder de intervenção por meio da introdução do ensino religioso nas escolas públicas, meta alcançada em 1931 no bojo da Reforma Francisco Campos. Já os defensores da educação laica, organizados a partir da IV Conferência realizada pela Associação Brasileira de Educação (ABE)5, em 1931, lançaram, no ano seguinte, o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” pautados no ideário escolanovista, que propunha a reestruturação do sistema educacional de modo a adequá-lo ao industrialismo emergente e a um projeto educacional democrático de sociedade (Cf. SHIROMA, MORAES, EVANGELISTA, 2000). Defendiam, segundo Silva (2004), a criação de um sistema educacional laico e público sob 5 A Associação Brasileira de Educação, criada em 1924, liderou, nos anos 1920 e 1930, os debates sobre as questões educacionais no país. Segundo Silva (2004), tanto liberais quanto católicos participavam da ABE, até a saída dos católicos no início da década de 1930 em decorrência do acirramento das disputas. Em 1933, os educadores católicos criaram uma associação própria, a Confederação Católica de Educadores (CUNHA, 1981). De acordo com Cunha (1981), a ABE realizou, entre os anos de 1927 e 1967, treze grandes encontros nacionais nos quais reuniu educadores e acadêmicos em Conferências e Congressos Nacionais de Educação, a saber: I Conferência Nacional de Educação – Curitiba, dezembro de 1927; II Conferência Nacional de Educação – Belo Horizonte, novembro de 1928; III Conferência Nacional de Educação – São Paulo, setembro de 1929; IV Conferência Nacional de Educação – Rio de Janeiro, dezembro de 1931; V Conferência Nacional de Educação – Niterói, dezembro-janeiro de 1932-1933; VI Conferência Nacional de Educação – Fortaleza, fevereiro de 1934; VII Congresso Brasileiro de Educação – Rio de Janeiro, junho-julho de 1935; VIII Congresso Brasileiro de Educação – Goiânia, junho de 1942; IX Congresso Brasileiro de Educação – Rio de Janeiro, junho de 1945; X Conferência Nacional de Educação – Rio de Janeiro, novembro de 1950; XI Conferência Nacional de Educação – Curitiba, janeiro de 1954; XII Conferência Nacional de Educação – Salvador, julho de 1956; XIII Congresso Nacional de Educação – Rio de Janeiro, novembro de 1967. 83 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente a responsabilidade do Estado, a expansão da escolarização, a elevação do nível intelectual de parcela significativa da população e a formação de um homem comprometido e preparado para o processo de modernização em curso. No Manifesto, a preocupação com a formação de professores foi explicitada da seguinte forma: Todos os professores, de todos os gráos, cuja preparação geral se adquirirá nos estabelecimentos de ensino secundario, devem, no entanto, formar o seu espírito pedagogico, conjunctamente, nos cursos universitários, em faculdades ou escolas normaes, elevadas ao nível superior e incorporadas às universidades (TEIXEIRA, 1984, p. 421). 84 Nesse contexto, adquiriram destaque duas iniciativas de formação de professores em nível superior: uma realizada no Instituto de Educação da Universidade de São Paulo (USP), criada e coordenada por Fernando de Azevedo em 1934; outra na Escola de Educação da Universidade do Distrito Federal (UDF), no Rio de Janeiro, criada e coordenada por Anísio Teixeira em 1935 (EVANGELISTA, 2002; DURLI, 2007; SILVA, 2004), ambas possibilitadas pelo Estatuto das Universidades Brasileiras (BRASIL, 1931), que instituiu o sistema universitário como forma preferencial para a organização do ensino superior fixando suas finalidades. A experiência realizada na USP ocorreu entre 1934 e 1938, no Instituto de Educação (IEUSP), incorporado pela sua Faculdade de Educação, Ciências e Letras. De acordo com Evangelista (2001), institucionalizou-se nessa experiência a primeira geração de professores universitários voltados à formação de professores primários e secundários. O IEUSP deu continuidade ao que ocorria nos cursos normais anteriormente existentes, mantendo até certo ponto o caráter técnico e profissionalizante na formação dos profissionais para o magistério. A demanda pela formação técnica do professor respondia, segundo Evangelista (2002), ao processo de modernização da sociedade brasileira, então em curso. Sobre isso diz a autora: Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli Abandonando o recorte “puramente” propedêutico e retórico, atrasado, da formação tradicional, sustentada à custa de forte centralização e fiscalização, a adesão à técnica soou como momento libertador do trabalho docente a ser desenvolvido dentro dos mais rigorosos preceitos científicos. Ser profissionalizante não significava, pois, estreiteza, mas sim ‘largueza de vistas’ e expressão de dedicação à ‘causa do magistério’ (EVANGELISTA, 2002, p. 29). Durli (2007) também destaca o que foi salientado por Evangelista a respeito do caráter técnico-profissionalizante então presente no projeto de formação e seu vínculo com uma particular compreensão de ciência na qual a conduta técnica se colocava em oposição à conduta política. A Universidade do Distrito Federal (UDF), instalada por Anísio Teixeira em 1935, abrigou uma Escola de Professores, que se transformou num campo de experimentação e testes de novos métodos e teorias e de estudos da criança e do adolescente. Essa escola tinha o objetivo de contribuir para a constituição de uma ciência pedagógica, adaptada às condições brasileiras e, assim, participar da construção de uma nova cultura profissional docente (VIDAL, 2001). Essas duas experiências implementadas na década de 1930 foram abortadas pelo golpe de 1937. As instituições de ensino superior sofreram forte repressão. A USP teve seu projeto inicial modificado com o esvaziamento da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e a extinção do IEUSP. Em seu lugar foi criada uma seção de Educação na Faculdade de Filosofia, o que alterou significativamente seu projeto de formação de professores (EVANGELISTA, 2003). Também a UDF foi extinta em 1939 e incorporada à Universidade do Brasil, em sua Faculdade Nacional de Filosofia. A Escola de Educação foi excluída na nova estrutura. Tais experiências voltadas à formação de professores para a escola primária no ensino superior foram pioneiras e prospectivas na 85 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente discussão sobre o curso de Pedagogia ocorrido nas últimas décadas. Ao ser criado em 1939, o curso de Pedagogia “pode ter resultado da ruptura, de caráter violento, com as propostas institucionalizadas na década de 30, a de Anísio Teixeira e a de Fernando de Azevedo, que não se referiam a Curso de Pedagogia, mas à Formação do Professor” (EVANGELISTA, 2002, p. 233). Sua instalação significou, sobretudo, uma recusa à formação superior para os professores da educação primária e, ao mesmo tempo, uma visão dicotomizada entre a formação dos professores e a teoria pedagógica. O curso de Pedagogia sob a outorga do Estado: da formação generalista e dos técnicos em Educação à formação do especialista 86 Pretende-se neste item apresentar uma breve retrospectiva do curso de Pedagogia, que vai desde sua criação em 1939 até as mudanças impetradas no contexto: i) da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - lei 4.024/ 1961; ii) das leis 5.540, de 1968, e da lei 5.692, de 1971. Esse período é o que estamos considerando como vinculado à outorga do Estado. Ao ser instituído pelo Decreto-Lei n. 1.190/1939, que criou a Faculdade Nacional de Filosofia no âmbito da Reforma Francisco Campos durante o governo autoritário de Getúlio Vargas, o curso de Pedagogia atendeu aos ditames de uma proposta universitária profissionalizante. Sua instalação se deu com duas finalidades centrais: formar técnicos em Educação para atuar junto à estrutura burocrática dos sistemas de ensino, mediante a titulação de bacharel alcançada após três anos de estudos e para o exercício da docência no ensino secundário e particularmente no normal, com o acréscimo de mais um ano de estudos então denominados de Didática. A Faculdade Nacional de Filosofia foi estruturada em quatro seções: Filosofia, Ciências, Letras e Pedagogia - e uma seção especial de Didática. Foram previstos os cursos de Matemática, Filosofia, Física, Química, História Natural, Geografia e História, Ciências Sociais, Letras Clássicas, Letras Neolatinas, Letras Anglo- Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli Germânicas e Pedagogia. As seções se constituíam de diferentes cursos, com exceção feita à Pedagogia, constituída por um único curso de nome idêntico ao da seção. Ao bacharel formado em qualquer um dos cursos, facultava-se a complementação pedagógica no curso de Didática, garantindo-lhe, assim, a titulação de licenciado. No curso de Didática, os egressos dos bacharelados se formavam para o exercício da docência no ensino secundário e normal. O bacharelado em Pedagogia com duração estabelecida em três anos focalizava disciplinas principalmente voltadas aos fundamentos da Educação. No curso de Didática, por meio do qual se obtinha a titulação de licenciado, eram ministradas as disciplinas de Didática Geral, Didática Especial, Psicologia Educacional, Administração Escolar, Fundamentos Biológicos e Sociológicos da Educação, distribuídas no período de um ano letivo. A separação bacharelado/licenciatura caracterizou uma organização curricular seriada, denominada de “esquema 3 + 1” (BISSOLI DA SILVA, 2003; CHAGAS, 1976; SAVIANI, 2004; SCHEIBE; AGUIAR, 1999; TANURI, 2000), na qual o bacharelado (três anos) constituía-se em pré-requisito à obtenção do diploma de licenciado (um ano). Eram, portanto, dois cursos com diplomação específica. Todo licenciado em Pedagogia, portanto, era também, e a priori, bacharel nesse campo de conhecimento. Formava-se, assim, o professor no bacharel. Em 1946, pelo Decreto-Lei n. 9.092, tentou-se substituir o esquema 3 + 1 pela obrigatoriedade de 4 anos de formação em faculdades de Filosofia, tanto para o bacharelado quanto para a licenciatura. A partir de então, os três primeiros anos do curso de Pedagogia passaram a ser integrados por disciplinas fixas e obrigatórias, e o quarto ano, por disciplinas optativas, acrescidas da formação em Didática teórica e prática, ou seja, o curso de Didática foi substituído por componentes curriculares voltados às discussões pedagógicas. Mas os diplomas continuavam separados, destinando-se o de bacharel aos que escolhessem somente as disciplinas optativas do quarto ano, e o de licenciado a quem optasse pelo esquema total com inclusão da formação pedagógica. 87 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente 88 O bacharelado permaneceu, portanto, como base da formação do pedagogo. Nesse mesmo ano, outro decreto-lei instituiu o cargo de orientador educacional a ser formado no curso de Pedagogia. Segundo Freitas (1996), a criação do curso de Pedagogia no bojo do Estado autoritário fez desaparecer a formação de professores primários das universidades, conforme propósito dos projetos realizados por Fernando de Azevedo (USP) e Anísio Teixeira (UDF) na década de 1930. A segunda regulamentação do curso de Pedagogia nesse período anterior à LDB/1996 é de 1962 e foi gerada a partir da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 4.024/1961 – LDB/1961. Essa legislação reflete, além do pensamento pedagógico produzido nas décadas de 1940 e 1950, o seu contexto social e político. No âmbito político, o período de 1945 – 1964 caracterizou-se pela ampla mobilização das forças democráticas e liberais contra a ordem autoritária do Estado Novo, encerrando-se, porém, com o Golpe Militar, que procurou impedir a crescente mobilização popular que pretendia ampliar os limites de uma democracia ainda restrita. As crescentes industrialização e urbanização que caracterizaram o período exigiam o treinamento e a qualificação da mão-de-obra, aumentando de forma significativa a demanda social por escolarização. Em 1946, foi nomeada pelo então Ministro da Educação uma comissão de educadores com a finalidade de propor um projeto de reforma geral da educação nacional que veio a se constituir, em 1961, na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira. Presidida por Lourenço Filho, essa comissão encaminhou um anteprojeto à Câmara Federal em 1948, iniciando um longo período de disputas que durou 13 anos. Em 1959 foi divulgado um novo manifesto, assinado por 189 intelectuais, educadores e estudantes, redigido também por Fernando de Azevedo em defesa da escola pública. A LDB homologada pelo Congresso em 1961, no entanto, segundo Romanelli (1978), mostrou-se submissa aos interesses da iniciativa privada. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli Durli (2007) destaca dois pontos na LDB/1961 relacionados à formação dos profissionais da Educação: no seu artigo 59 consta a determinação para que a formação de professores destinados ao ensino médio fosse feita em faculdades de Filosofia, Ciências e Letras e a de professores de disciplinas específicas de ensino médio técnico, em cursos especiais de educação técnica. Já nos artigos 63 e 64 estabeleceu a lei que a formação de orientadores educacionais para o ensino médio fosse realizada em cursos de especialização após a graduação e a de orientadores educacionais para o ensino primário, em nível pós-normal, nos institutos de educação. Mais significativas para a área da formação dos profissionais da Educação são as normalizações que foram apresentadas após a aprovação da lei. Destacam-se aquelas voltadas para o curso de Pedagogia, constantes dos seguintes documentos: (i) Parecer CFE 251/1962, que indicou as disciplinas que deveriam compor o currículo mínimo do curso de Pedagogia; (ii) Parecer CFE 292/1962 que fixou as matérias pedagógicas para a licenciatura e (iii) Parecer CFE 12/1967, que tratou da formação de professores para as disciplinas específicas do ensino médio técnico. O Parecer CFE 251/1962, de autoria do professor Valnir Chagas, estabeleceu para o curso uma organização curricular pautada no conceito de “currículo mínimo”, instituindo para a Pedagogia uma base curricular comum e uma parte diferenciada. A partir desse parecer e da Resolução CFE n. 62 que o acompanhou, o curso de Pedagogia passou a ter duração de quatro anos, três dedicados à base comum que compreendia sete disciplinas6 e mais um ano dedicado ao estudo da didática e da prática de ensino, tornadas obrigatórias, bem como de duas disciplinas optativas escolhidas em um rol de doze7. 6 O Parecer 251/1962 recomendou que o currículo mínimo do curso de Pedagogia passasse a ser constituído das sete matérias seguintes: Psicologia da Educação (Evolutiva, Aprendizagem Diferencial), Sociologia (Geral, da Educação), História da Educação, Filosofia da Educação e Administração Escolar. 7 As duas disciplinas optativas deveriam ser escolhidas entre as seguintes: Biologia, História da Filosofia, Estatística, Métodos e Técnicas de Pesquisa Pedagógica, Cultura Brasileira, Educação Comparada, Higiene Escolar, Currículos e Programas, Técnicas Audiovisuais da Educação, Teoria e Prática da Escola Primária, Teoria e Prática da Escola Média, Introdução à Orientação Educacional. 89 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente Já o Parecer CFE 252/1962, também de autoria do professor Valnir Chagas, estabeleceu mudanças nas matérias pedagógicas que passaram a compreender parte da formação oferecida no antigo curso de Didática e ainda as disciplinas de Psicologia da Educação (Adolescência e Aprendizagem), Elementos de Administração Escolar, Didática e Prática de Ensino sob a Forma de Estágio Supervisionado. Essa organização abarcava os princípios de hierarquia e da concomitância das matérias e a duração das mesmas em semestres letivos. O princípio da concomitância da parte pedagógica com a parte de conteúdo não se concretizou, permanecendo a oferta dos cursos vinculada à organização curricular do esquema 3 + 1: o bacharelado preparando o técnico em educação e a licenciatura formando o professor para o magistério no ensino secundário e normal. Embora a nova estruturação pretendesse dar maior especificidade ao curso reivindicou-se, por exemplo, um maior teor de especificidade em esquemas de formação diferenciados a partir de uma base comum. Discutiu-se a possibilidade de preparar o especialista no professor com experiência de ensino, qualquer que fosse a área de conteúdo (CHAGAS, 1976, p. 62) -, 90 a nova estrutura pouco diferiu daquela determinada já em 1939. Manteve-se a mesma duração fixa, o mesmo esquema de licenciatura e bacharelado e, em relação às matérias indicadas, a grande maioria já constava do antigo currículo (DURLI, 2007). No final da década de 1960 e início da década de 1970, sob o regime militar-tecnocrático, foi implantada uma profunda reforma do ensino no Brasil. O regime instaurado não poderia prescindir de um mínimo de consenso, de legitimação. Em razão disso, as políticas educacionais, notadamente as reformas relativas ao ensino superior (em 1968) e a reforma do ensino primário e médio (em 1971) tiveram ampla reformulação. Segundo Shiroma, Moraes e Evangelista (2000), essas reformas foram marcadas Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli especialmente pelo vínculo entre educação e mercado de trabalho e a modernização de hábitos de consumo. Foram marcadas também, segundo as autoras, pela necessidade de integração da política educacional aos planos gerais de desenvolvimento e segurança nacional, defesa do Estado e repressão e controle políticoideológico da vida intelectual e artística do país. Pautaram-se na economia da educação de cunho liberal, responsável pela elaboração da chamada “teoria do capital humano”, estabelecendo relação subordinada à produção. De acordo com Saviani (2004), os princípios de racionalidade, eficiência e produtividade então advogados, reordenaram o processo educativo de maneira a torná-lo objetivo e operacional, radicalizando-se a perspectiva de alcançar uma eficiência instrumental. Segundo o autor, a predominância do tecnicismo pedagógico e a crença no conhecimento técnico-organizacional foram responsáveis por introduzir a divisão do trabalho na escola. Tanto a lei 5.540, de 1968, chamada de Lei da Reforma Universitária, que reformou a estrutura do ensino superior, como a lei 5.692, de 1971, que reformou o ensino primário e médio, alterando inclusive sua denominação para ensino de primeiro e segundo graus, representaram uma forma de adequar a legislação educacional aos princípios do regime militar-tecnocrático instalado. As medidas decorrentes dessas duas leis integraram um conjunto de decisões tomadas no âmbito do governo militar de regime autoritário, sem deixar, contudo, de contemplar, no que diz respeito à estrutura e funcionamento do ensino, algumas das reivindicações que vinham sendo pleiteadas pelo movimento estudantil fortemente mobilizado no período pré-ditadura. Sob os princípios da racionalidade, eficiência e produtividade e das necessidades do mercado de trabalho, definiram-se os especialistas que atuariam nos sistemas de ensino e as funções a ser por eles desempenhadas. Os mínimos de conteúdo e a duração do curso de Pedagogia para sua formação foram fixados pelo Parecer CFE n. 252/1969 e a Resolução CFE n. 2/1969, de autoria 91 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente 92 ainda do professor Valnir Chagas. Por essa legislação pretendia-se possibilitar aos acadêmicos optarem pela trajetória curricular de acordo com as tarefas que iriam desempenhar. Permaneceu, no entanto, o currículo mínimo do curso com uma parte comum a todas as modalidades de habilitação e outra diversificada em função das habilitações. A parte diversificada do curso de Pedagogia correspondia a cinco habilitações básicas, desdobradas, na prática, em oito, a saber: (1) Magistério do Ensino Normal; (2) Orientação Educacional; (3) Administração Escolar: (i) Administração de Escola de 1º e 2º Graus, (ii) Administração de Escola de 1o Grau; (4) Supervisão de Ensino: (i) Supervisão de Escola de 1º e 2º Graus, (ii) Supervisão de Escola de 1º Grau; (5) Inspeção Escolar: (i) Inspeção de Escola de 1º e 2º Graus, (ii) Inspeção de Escola de 1º Grau. No que diz respeito à duração do curso, fixaram-se duas modalidades: a licenciatura plena, com duração de 2.200 horas e a licenciatura de curta duração, com 1.100 horas, destinada a formar os especialistas para atuar nas escolas de primeiro grau. Houve discordância em relação à titulação que deveria ser concedida aos egressos do curso; para o relator deveria ser uma só, a de bacharel. Já o plenário do CFE fixou como título único o de licenciado, por considerar que este é um especialista que recebeu formação para efeito de ensino. A base comum do curso, contudo, constituía-se das mesmas disciplinas do bacharelado definidas pela normalização de 1962. Destaca-se ainda como relevante nessa legislação o que se refere aos direitos concedidos aos portadores do diploma de licenciado em Pedagogia. A Resolução CFE n. 2/1969 estabeleceu o que se segue: a) ao exercício das atividades relativas às habilitações registradas em cada caso; b) o exercício de magistério, no ensino normal, das disciplinas correspondentes às habilitações específicas e à parte comum do curso; [...] c) o exercício de magistério na escola de 1º grau, na hipótese do Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli número 5 (cinco) do artigo 3º e sempre que haja sido estudada a respectiva metodologia e prática de ensino (BRASIL, 1969b). Durli (2007) destacou que essa legislação anunciou três possibilidades diferentes aos egressos: a de especialista, de acordo com a habilitação cursada; a de professor nas disciplinas pedagógicas dos cursos de formação de professores e, ainda, de professor primário em nível superior, desde que constassem do percurso formativo alguns estudos mínimos que compreendiam as cadeiras de Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1º Grau, Metodologia do Ensino de 1º Grau e Prática de Ensino na Escola de 1º Grau (estágio). Segundo Brzezinski (1996), às críticas iniciais ao curso denunciando um currículo sobretudo teórico e generalista juntaram-se outras relacionadas à fragmentação da formação, à divisão técnica do trabalho na escola, ao distanciamento entre teoria e prática. Scheibe e Aguiar (1999) chamaram a atenção para a divisão sofrida pelo curso, em dois blocos autônomos, colocando de um lado as disciplinas dos fundamentos da Educação e, de outro, as das habilitações específicas. Também Bissolli da Silva (2003, p. 70) considerou que: “[...] não se pode formar o educador com partes desconexas de conteúdos, principalmente quando essas partes representam tendências opostas em educação: uma tendência generalista e uma outra tecnicista”. Quanto aos chamados especialistas em Educação, sabemos que a sua atuação nas escolas, embora relevante em muitos sentidos, foi questionada pelos críticos devido à separação entre o trabalho de elaboração e o planejamento – reservado aos especialistas – e o trabalho de execução – de responsabilidade do professor (FREITAS, 1996). Pereira da Silva (2006) destacou dois aspectos na crítica aos especialistas, vinculados ao momento em que o Estado vivia um regime autoritário: seu papel como reprodutores das estruturas e relações de poder no interior da escola, representando os interesses do Estado e a crescente fragmentação do trabalho escolar, divisão de tarefas técnicas, imprimindo um caráter 93 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente tecnicista e pragmático à atuação do profissional da educação. A vigência do Parecer CFE n. 252/1969 e da Resolução CFE no 2/1969 perdurou até a aprovação da LDB 9.394/1996 tendo, portanto, vigorado por três décadas. Nesse período, no que diz respeito ao aspecto legal, o curso de Pedagogia voltou-se para dois objetivos principais: formar pessoal docente para o magistério nos cursos normais e formar especialistas para atuação nas escolas de 1º e 2º graus. A preparação do professor primário em nível superior figurava como um “apêndice” das demais funções do curso, mas viável legalmente e possível de ser implantada no campo prático-institucional. Entre a outorga e a autonomia – a LDB 9.394/1996 e a possível extinção do curso de Pedagogia O título deste item demarca o contexto das intencionalidades antagônicas que caracterizou o momento que antecedeu as atuais definições a respeito do curso: (i) a proposta de transformação radical do curso de Pedagogia inscrita nas Indicações de Valnir Chagas, pelas quais se extinguiria o curso nos moldes em que fora até então organizado; (ii) as propostas construídas no âmbito da sociedade civil, especialmente por professores e acadêmicos, revitalizando o curso e atribuindo-lhe a função de formar os professores para o magistério dos anos iniciais de escolaridade. A lei 5.692/1971 alterou a concepção e os objetivos do ensino primário e médio. A partir de então, o Conselho Federal de Educação, ainda por meio do conselheiro Valnir Chagas, preparou uma série de indicações, extinguindo o curso de Pedagogia no formato até então conhecido. Embora dedicada especificamente à regulamentação dos ensinos de 1º e 2º graus, essa lei preconizou um esquema de formação de professores diferenciados, assim enunciado no seu art. 30: 94 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Exigir-se-á, como formação mínima para o exercício do magistério: a) no ensino de 1º grau, da 1ª à 4ª séries, Leda Scheibe, Zenilde Durli habilitação específica de 2º grau; b) no ensino de 1º grau, da 1ª à 8ª séries, habilitação específica de grau superior, em nível de graduação, representada por licenciatura de 1º grau obtida em curso de curta duração; c) em todo o ensino de 1º e 2º graus, habilitação específica obtida em curso superior de graduação correspondente à licenciatura plena. §1º - Os professores a que se refere a letra “a)” poderão lecionar na 5ª e 6ª séries do ensino de 1º grau, se sua habilitação houver sido obtida em quatro séries ou, quando em três, mediante estudos adicionais correspondentes a um ano letivo que incluirão, quando for o caso, formação pedagógica. §2º - Os professores a que se refere a letra “b)” poderão alcançar, no exercício do magistério, a 2ª série do ensino de 2o grau, mediante estudos adicionais correspondentes no mínimo a um ano letivo. §3º – Os estudos adicionais referidos nos parágrafos anteriores poderão ser objeto de aproveitamento em cursos ulteriores (BRASIL, 1971). Segundo Durli (2007), a lei n. 5.692/1971 admitiu a existência de cinco níveis de formação de professores, a saber: formação de nível de 2º grau, com duração de 3 anos, destinada a formar o professor polivalente para as quatro primeiras séries do 1º grau; formação de nível de 2º grau, com um ano de estudos adicionais, destinada ao professor polivalente, com alguma especialização para uma das áreas de estudos, apto, portanto, a lecionar até a 6ª série do 1º grau; formação superior em licenciatura curta, destinada a preparar o professor para uma área de estudos e a torná-lo apto a lecionar em todo o 1º grau; formação em licenciatura curta mais estudos adicionais, destinada a preparar o professor de uma área de estudos com alguma especialização em uma disciplina dessa área, com aptidão para lecionar até a 2ª série do 2º grau; formação 95 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente 96 de nível superior em licenciatura plena, destinada a preparar o professor de disciplina e, portanto, a torná-lo apto para lecionar até a última série do 2º grau. A regulamentação dessa estrutura ocorreu pela Indicação n. 22/1973, que fixou os princípios e as normas a serem observados na organização dos cursos de licenciatura. Para isto, o legislador propôs a subdivisão dos cursos em habilitações. Três ordens de licenciaturas foram então propostas em função do conteúdo e da metodologia de ensino: a) licenciatura para as áreas de educação geral; b) licenciaturas para as áreas de educação especial; c) licenciaturas para as áreas de formação pedagógica. As normas para as primeiras foram propostas pelas Indicações n. 23/1973 e 36/1973 e fixadas pelas Resoluções n. 23/1973 e 30/1974. Na Indicação n. 67/1975, o conselheiro assumiu a tese da formação do especialista sobre uma base docente, conforme já havia anunciado no Parecer CFE n. 252/1969. Para a formação superior do professor dos anos iniciais de escolaridade postulou um curso de duração curta, aberto aos concluintes do 2º grau, pedagógico ou não. A educação especial foi delimitada como acréscimo de formação, de modo que o professor, misto de educador e especialista, vivenciasse a perspectiva da “normalidade” como fator de contraste. O curso de Pedagogia permitia agora tanto o preparo do profissional para início de escolarização como o do professor de educação especial e do especialista (CHAGAS, 1976, p. 70). A Indicação 70/1976 posicionou-se no sentido de estabelecer para o curso de Pedagogia o papel de habilitar o especialista no professor licenciado. Esse especialista seria o pedagogo, mas também um especialista em teoria e fundamentos da Educação (CHAGAS, 1976, p. 104). Com vistas ao preparo desse profissional, apresentou uma hierarquização de níveis de habilitação: o de pósgraduação, notadamente mestrado; o de mais uma habilitação como acréscimo a uma licenciatura; o de habilitação específica obtida em prosseguimento à licenciatura de curta duração; o de preparo sobre a atual formação pedagógica de 2º grau. Nesse Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli formato, o preparo de especialistas em Educação e dos professores destinados à docência no ensino de 2º grau, assim como o pedagogo em geral, poderia ser feito em habilitações acrescentadas a cursos de licenciatura. Foi definido também nessa indicação o currículo mínimo para cada habilitação, mantendo o princípio de uma parte comum a todas as habilitações e uma parte diversificada, incluída nela o estágio. Durli (2007) relata sobre a existência de documento elaborado pelo conselheiro Valnir Chagas, não aprovado pelo CFE, indicando como função do curso de Pedagogia a formação do professor para atuar nos anos iniciais de escolaridade. A autora considerou ser esse um indício de que não havia vontade política por parte do Estado no sentido de formar o professor para os primeiros anos de escolaridade em nível superior. As Indicações do conselheiro Valnir Chagas foram revogadas em 1979 pelo ministro da educação Eduardo Portella, já num contexto de incipiente mobilização dos educadores que se organizaram no sentido de intervir nas políticas de reformulação dos cursos de formação, marcadas pelas decisões do Conselho Federal de Educação. No bojo dessa mobilização organizou-se o Movimento Nacional pela Reformulação dos Cursos de Formação dos Educadores, iniciado com a criação do Comitê Nacional Pró-Formação do Educador (1980) e transformado em 1983 na Comissão Nacional de Reformulação dos Cursos de Formação do Educador – CONARCFE. Esta, por sua vez, resultou, em 1990, na criação da ANFOPE – Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação. Em 1980, durante a I Conferência Brasileira de Educação, realizada na PUC de São Paulo, foi criado o Comitê Nacional Pró-Formação do Profissional da Educação com o objetivo de mobilizar professores e alunos em torno da reformulação do curso de Pedagogia que, desde as Indicações de Valnir Chagas, estava em debate nacional. Esse Comitê teve intensa atuação de 1980 a 1983, mobilizando professores e estudantes do país nas discussões 97 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente 98 sobre a formação do educador. Em encontro realizado em Belo Horizonte, no ano de 1983, foi elaborado um documento considerado basilar, que expressou os princípios gerais que passaram a fundamentar as ações do Movimento Nacional pela Reformulação dos Cursos de Formação dos Educadores: entre os princípios, o que definiu a docência como a base da identidade profissional de todo o educador e a necessidade de definição de uma base comum nacional para todos os cursos de formação de educadores, independentemente da etapa ou modalidade de ensino. Algumas universidades passaram então a incorporar a formação docente para o início da escolarização como uma das possíveis habilitações do curso de Pedagogia e, em muitos casos, de acordo com Scheibe (2001, p. 2), “exigida como pré-requisito para as demais habilitações, quando não única habilitação do curso, numa perspectiva pautada na compreensão de que a docência constitui a base da identidade profissional de todo educador”. Mediante esse movimento que foi se ampliando, os cursos de graduação em Pedagogia passaram a se configurar em torno das duas modalidades: a oficial e a delineada pelo movimento dos educadores (FORUMDIR, 2003). Ao mesmo tempo em que os educadores do Movimento pela Reformulação dos Cursos de Formação dos Profissionais da Educação construíam propostas e desenvolviam nas suas universidades as primeiras experiências ancoradas em seus postulados, acentuava-se também, no país, a adesão de determinados grupos às determinações dos organismos internacionais, subordinadas aos preceitos neoliberais e a uma racionalidade acentuadamente técnica de formação. A década de 1990, também caracterizada como período das reformas educacionais no país, é marcada por essa subordinação e por intensa proliferação de legislações relacionadas à educação superior e à formação de professores, particularmente após a aprovação da nova LDB em 1996. A forte tendência neoliberal que assinalou essa década de reformas trouxe em seu bojo a criação de Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli uma variedade de instituições com possibilidade de oferecer essa formação, além da criação dos Institutos Superiores de Educação (ISE) como local preferencial na preparação de professores para atuar nos anos iniciais de escolaridade. Nesse contexto, as entidades ligadas à área da Educação, frente à declarada intencionalidade de retirar do curso de Pedagogia a função de formar professores para a Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental, mobilizaram-se na defesa da base docente como princípio de formação do curso de Pedagogia. Os parâmetros legais estabelecidos pela nova LDB/1996 colocaram-se na contramão do pleito que o movimento dos educadores articulara. No artigo 64, a lei indica para o curso de Pedagogia a condição de um bacharelado profissionalizante, destinado a formar os especialistas em gestão administrativa e coordenação pedagógica para os sistemas de ensino. Para a formação dos professores da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental foi criada uma nova figura institucional, o Instituto Superior de Educação (ISE), e o curso Normal Superior. Em sua tarefa de normatizar o curso de Pedagogia, o Conselho Nacional de Educação (CNE) defrontou-se com uma situação delicada, particularmente visível no momento da organização das diretrizes para o curso. De um lado, o percurso construído pelo movimento dos educadores e as práticas de formação que estavam se desenvolvendo no país; de outro, os preceitos estabelecidos pela lei. Potencialidade e desafios das novas diretrizes do curso de Pedagogia As atuais Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia (DCNP) foram instituídas pelos pareceres CNE/CP n. 05/2005 e CNE/CP n. 03/2006 e pela Resolução MEC/CNE n. 01/2006. Estudos como os realizados por Scheibe (2006) e Durli (2007) revelam que as diretrizes aprovadas constituíram o resultado de um processo que envolveu comissões internas do Ministério da Educação, Comissões Bicamerais do Conselho Nacional de 99 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente 100 Educação, Comissões de Especialistas de Ensino de Pedagogia, entidades e associações da área da Educação (ANFOPE, ANPEd, ANPAE, FORUMDIR, CEDES, entre outras). Esse processo envolveu, portanto, intelectuais como mediadores dos diferentes interesses presentes na arena de confrontação em que se constitui o Conselho Nacional de Educação. Nessa arena, estiveram mais direta e fortemente representados dois projetos de formação de professores/educadores: a proposta de formação construída e defendida pelo amplo movimento coordenado pela ANFOPE nas últimas duas décadas e a proposta de formação de professores articulada no contexto das reformas da Educação Básica e do Ensino Superior, implantadas pelo governo desde a década de 1990. Os embates vivenciados no processo de definição das diretrizes estiveram pautados no antagonismo das propostas apontadas. O que ocorre, no entanto, precisa ser compreendido na história da formação dos profissionais para a Educação no Brasil. A história do curso de Pedagogia evidencia tanto as necessidades que foram se colocando para a formação superior desses profissionais como também as tendências que se fizeram presentes no campo educacional em cada período da sua existência. A identidade do curso, portanto, foi sendo adaptada, não sem disputas, às indicações educativas que prevaleceram nos diversos momentos da história da Educação do país. Primeiro, ele serviu para formar os dirigentes educacionais do país, assim como os professores para os cursos normais de ensino médio que formavam os profissionais para a escolarização fundamental. O curso tinha esta identidade: pedagogo era o professor dos cursos normais e/ou o técnico em assuntos educacionais. Depois, ele passou a se identificar particularmente com a formação dos “especialistas” nos professores que vinham dos cursos normais ou mesmo de outras licenciaturas. A identidade do pedagogo passou a ser predominantemente a do especialista supervisor escolar, orientador educacional, entre outras especificidades. Tal identidade foi sendo aos poucos questionada no interior da crítica ao tecnicismo pedagógico, que foi adquirindo Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli corpo nas décadas de 80 e 90 nas universidades entre os educadores que defendiam uma formação ampla e multidimensional dos professores das séries iniciais e para a Educação Infantil, no ensino superior, entendendo que essa formação deveria ocorrer no curso de Pedagogia. Essa foi a identidade que obteve hegemonia na construção das novas diretrizes curriculares aprovadas em 2006, concorrendo com outras concepções. Quando foi solicitado à Comissão de Especialistas de Ensino de Pedagogia (SESu/MEC) a elaboração de um primeiro desenho das diretrizes curriculares em 1998, em atendimento à convocação feita pela Secretaria Superior do MEC (SESu/MEC), por meio do seu Edital 04/97, as instituições de ensino superior do país foram convidadas a apresentar suas sugestões sobre o assunto. Examinadas as respostas recebidas dos vários pontos do país e ainda incorporadas sugestões provenientes de discussão em reunião aberta efetuada com as entidades nacionais do campo educacional envolvidas com o curso de Pedagogia, a comissão divulgou um documento inicial em maio de 1999, denominado Proposta de Diretrizes Curriculares da Comissão de Especialistas de Pedagogia, posteriormente encaminhada pelo MEC ao CNE, na qual o perfil do pedagogo foi definido como profissional habilitado a atuar no ensino, na organização e gestão de sistemas, unidades e projetos educacionais e na produção e difusão do conhecimento, em diversas áreas da educação, tendo a docência como base obrigatória de sua formação e identidade profissionais (BRASIL, 1999, p. 1). A atual formulação oficial do curso que se encontra nas DCN aprovadas em 2006 traduz em grande parte esse direcionamento para uma normalização operacional do curso. Há, no entanto, grandes desafios para a sua organização, que precisam ser considerados pelos projetos pedagógicos. Para além de uma formação comum de aprofundamento pedagógico geral e de gestão, o percurso formativo precisa dar conta de constituir as bases docentes para 101 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente 102 a Educação Infantil nas suas especificidades e também para os anos iniciais do Ensino Fundamental. As experiências curriculares em andamento precisam ser acompanhadas pelas instituições formadoras e pelos pesquisadores da área educacional para possibilitar uma efetiva discussão das potencialidades colocadas pelas diretrizes e também para avaliar necessidades de acréscimos ou mudanças na legislação. A docência como base da formação do pedagogo é uma concepção em processo de aprofundamento. A compreensão histórico-crítica da Pedagogia como ciência da prática educativa e ainda o entendimento de que a especificidade da Educação, nas atuais relações sociais, passa a ser determinada pela forma escolar (SAVIANI, 1992) trouxe em seu bojo a concepção de que a docência constitui a base da identidade profissional de todo educador. A base docente é entendida, pois, como essencial para o exercício do trabalho pedagógico, e este é compreendido como ato educativo intencional (KUENZER, 1999). Os educadores que participaram da discussão e do processo de construção da proposição defendida pela ANFOPE têm o entendimento de que a preparação para a docência deve englobar todos os aspectos significativos da ciência pedagógica. Não é por outra razão que se defende uma formação mais ampla para todos os professores licenciados, pois todos deveriam ser pedagogos também. Há, portanto, implícita na “guerra de posições” que separa a formação do pedagogo da formação docente uma compreensão diferenciada do que vem a ser a docência. O curso de Pedagogia, numa concepção sócio-histórica defendida pela ANFOPE e entidades parceiras, funda-se em uma organização curricular estabelecida por sólida formação teórica e interdisciplinar oferecida em, no mínimo, 3.200 horas de estudos, distribuídas em pelo menos quatro anos letivos. Pauta-se também pela unidade entre teoria e prática, articuladas desde o início do curso, em um percurso curricular unificado, não prevendo habilitações e tendo a docência como base da formação. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Leda Scheibe, Zenilde Durli Essa docência, no entanto, é compreendida num sentido que vai além das funções de ensino na ação imediatamente submetida à sala de aula, mas incorpora as funções de professor, de gestor e de pesquisador. O profissional formado no curso de Pedagogia, desse modo, o pedagogo, é bacharel e licenciado ao mesmo tempo, formado para atuar no magistério, na gestão educacional e na produção e difusão do conhecimento da área da Educação. Engloba, portanto, de modo integrado, as funções de professor, de gestor e de pesquisador. A concepção inicialmente apresentada pelo CNE no Projeto de Resolução de março de 2005 incorporou o princípio da docência como base do curso, porém num sentido restrito de docência. O percurso curricular apresentado visava uma formação idêntica àquela já apresentada para o curso normal superior em consonância com uma perspectiva reducionista e pragmática de formação. Houve forte reação a esse projeto a partir das entidades mais envolvidas na discussão em processo, e o CNE reconsiderou e reelaborou sua proposta no sentido de atender de forma mais aproximada aos que reivindicavam as entidades do movimento dos educadores, ou seja, ampliando mais, no percurso curricular, a concepção de docência. As ambiguidades e indefinições, porém, que ainda persistem na legislação podem e devem ser consideradas como desafios a serem superados por todos aqueles educadores compromissados com uma educação de qualidade para todos os brasileiros. 103 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 Curso de Pedagogia no Brasil: olhando o passado, compreendendo o presente Referências BISSOLLI DA SILVA, C. S. Curso de Pedagogia no Brasil: história e identidade. Campinas: Autores Associados, 2003. BRASIL. Decreto-Lei n. 1.190, de 4 de abril de 1939. Organização da Faculdade Nacional de Filosofia. Diário Oficial da União, Brasília, 1939. BRASIL. 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Its history is discussed considering the sociocultural context in which it was immersed in, and the jurisprudence present in educational laws, curriculum guides that characterized different professional profiles of graduates of the course. Three moments on the trajectory of the course are taken as main references: the movement of educators in the 1920s and 1930s, focusing on two experiences of primary level teacher formation, the period covered by the history of the course since its inception in 1939 until changes filed in the context of laws 4.024, 1961, 5.540, 1968 and 5.692, 1971 and also the period characterized by antagonistic intentions regarding the course, from the mid-1970s, in which the debates about course led to the current definitions. The objective of this analysis is to highlight fundamental issues which are embodied in the historical disagreements in relation to Major of Education and the identity of the teacher, placing them in the face of educational projects in development. Keywords: major in education; course history; projects disputes; national curriculum guidelines. 109 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 79-109 110 Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai? Luana Costa Almeida1 [email protected] Maria Márcia Sigrist Malavasi2 [email protected] Resumo O trabalho é fruto da pesquisa de mestrado que se dedicou a investigar a formação do profissional egresso do curso de Pedagogia de uma universidade pública paulista. O estudo foi pautado metodologicamente pela perspectiva qualitativa, utilizando para coleta de dados a análise documental e as entrevistas semiestruturadas com egressos e professores do curso. Embora a análise feita possibilite mais discussões, optamos por examinar a relação entre teoria e prática na formação do pedagogo, questão historicamente posta, mas com implementações práticas nem sempre coerentes com as propostas idealizadas. A partir dos dados, observamos que as dimensões teoria e prática tanto são percebidas como associadas entre si como dissociadas, tendendo à percepção dissociada, o que parece estar vinculado a uma implementação não efetivada de importantes dimensões da proposta curricular, sejam elas a interdisciplinaridade, o trabalho docente coletivo e os estágios supervisionados. Palavras-chave: práxis; pedagogo; curso de Pedagogia. 1 Doutoranda e bolsista FAPESP da Faculdade de Educação da UNICAMP. 2 Doutora em Educação, docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, pesquisadora do LOED (Laboratório de Avaliação) e coordenadora do curso de Pedagogia da FE-UNICAMP. 111 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai? Apresentação O presente texto é fruto de uma das possíveis análises propiciadas pela pesquisa de mestrado que se dedicou a investigar a formação do profissional egresso do curso de Pedagogia de uma universidade pública paulista (ALMEIDA, 2008), a qual teve como propósito identificar as marcas de formação3 produzidas no egresso pelo curso a partir de sua formação inicial. A pesquisa pautou-se metodologicamente pela perspectiva qualitativa; para que a análise proposta pelo trabalho fosse possibilitada, optou-se por fazê-la a partir do olhar do egresso e tomando como ponto de apoio os documentos que definem a formação no curso e a percepção dos professores que participaram tanto da idealização do projeto curricular quanto de sua implementação4. A partir da percepção dos egressos acerca da formação do pedagogo, pudemos levantar algumas características acerca desse profissional: um profissional com sólida formação teórica, crítico e preocupado com a continuidade da formação. Entretanto, além dessas indicações mais amplas apresentadas pelos sujeitos quando questionados especificamente sobre as características do pedagogo formado pelo curso, e sendo constituídas por elas ou as constituindo, pudemos observar outras características que foram sendo apontadas, direta ou indiretamente, e que foram se configurando como os indícios que nos permitiram identificar as marcas produzidas pelo curso no profissional formado. Como nossa preocupação não se restringia à análise da formação individual dos egressos, mas ao todo constituído por eles, partimos do sujeito e de suas marcas individuais para o todo, 112 3 Marcas de formação foi um termo cunhado para expressar a compreensão da formação do pedagogo não restrita ao curso de Pedagogia, mas com marcas produzidas por essa formação. Para mais detalhes ver Almeida (2008). 4 Fizemos entrevistas semiestruturadas com 53 egressos do curso (32,3% do universo delimitado) e com os professores que compuseram a Comissão para Reformulação do Curso e lecionavam durante o período de graduação dos egressos, assim como analisamos os documentos referentes à proposta curricular ora discutida, sendo eles a Proposta de Reformulação Curricular, o Projeto Político-Pedagógico e o Catálogo dos Cursos de Graduação da universidade pesquisada. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Luana Costa Almeida, Maria Márcia Sigrist Malavasi a fim de identificarmos e compreendermos as marcas recorrentes e potencialmente generalizáveis ao grupo. Embora sejam diversos os aspectos possibilitadores de discussão a partir das marcas encontradas, gostaríamos de nos deter, no presente texto, à análise da percepção apresentada pelos egressos acerca da dicotomia entre teoria e prática, pois mesmo sendo a superação dessa dicotomia anunciada como um dos princípios da proposta curricular do curso ora estudado, ela não aparece na fala dos egressos como um objetivo plenamente efetivado. Dicotomia teoria e prática na formação do pedagogo: questão histórica O curso de Pedagogia, desde sua criação e no decorrer de sua história (no Brasil), é ameaçado pela incerteza quanto a sua finalidade e, dessa forma, pela incerteza acerca de qual profissional deveria formar. Deveria ocupar-se da formação de professores (magistério)? Deveria ocupar-se da formação de especialistas (curso técnico)? Deveria ocupar-se da formação de professores e de especialistas (habilitações)? Ou deveria ocupar-se da formação de professores/ especialistas (educadores cuja base de formação é a docência5)? Em decorrência dessas dúvidas, muitas foram as propostas e as implementações desde sua criação, na década de 1930, até os dias atuais, as quais foram forjando os cursos de Pedagogia nacionalmente (por meio de implementações legais) e pontualmente (dentro das Faculdades e Centros de Educação em proposições próprias). No entanto, essas propostas historicamente se apresentam pautadas na lógica fragmentada e disciplinar da organização desses cursos, enfatizando os pares dialéticos - teoria/prática, ensino/ pesquisa - de forma separada e, quando muito, apenas justapostas. Quando se reporta à história, apreende-se que os diferentes significados históricos da Pedagogia e do Curso de Pedagogia materializados no currículo basearam-se, 5 Indicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia (2006). 113 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai? numa tendência maior, na justaposição entre teoria-prática, conteúdo-forma e objetosujeito (AGUIAR; MELO, 2005a). Nessa perspectiva, tornou-se latente, desde o início da discussão da formação do pedagogo pelo movimento de educadores, as dimensões da teoria e da prática na formação desse profissional, sendo pauta de luta a necessidade de uma formação profissional que ultrapassasse a polarização da formação ora no teoricismo, ora no praticismo6, que pudesse garantir a formação não fragmentada do pedagogo. A relação entre teoria e prática pode ser encontrada em diferentes acepções na visão dicotômica – teoria versus prática - e na visão de unidade – união e vinculação entre a teoria e a prática que estariam em relação simultânea e recíproca de autonomia e dependência, conforme afirmam Candau e Lelis (2001). Vislumbrando a superação da dicotomia entre teoria e prática, Vasquez (1977, p. 3) propôs a práxis a qual, ao lançar mão da relação entre as duas dimensões, seria “a atividade material do homem que transforma o mundo natural e social para fazer dele um mundo humano”. Para o autor, o concreto pensado seria uma das formas de superação da separação entre a teoria e a prática. Ele afirma que o “método que permite elevar-se do abstrato ao concreto nada mais é do que o modo como o pensamento se apropria do concreto sob a forma do concreto pensado. Mas não é de modo algum o próprio concreto” (VASQUEZ, 1977, p. 204). Segundo Fávero (apud CANDAU; LELIS, 2001, p. 60), essa perspectiva é essencial para o professor, pois é ela que permitirá fluidez em seu fazer cotidiano. Num comprometer-se profundo, como construtor, organizador e pensador permanente do trabalho educativo que o educador se educa. Em particular, a partir de sua prática, cabe-lhe construir uma teoria, 114 6 Consideramos teoricismos a polarização no campo da teoria sem diálogo com o campo prático e o praticismo a polarização no campo da prática sem diálogo com o campo teórico. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Luana Costa Almeida, Maria Márcia Sigrist Malavasi a qual, coincidindo e identificando-se com elementos decisivos da própria prática, acelera o processo em ato, tornando a prática mais homogênea e coerente em todos os seus elementos . Nessa perspectiva e tomando como ponto de análise a formação do pedagogo no Brasil, evidencia-se a necessidade de se formar esse profissional numa visão relacional entre teoria-prática, na perspectiva da “Pedagogia Histórico-Crítica”, conforme termo cunhado por Saviani (2003), em que ultrapassássemos a fragmentação do trabalho pedagógico em direção a uma unicidade que possibilitasse a atuação crítica e transformadora do pedagogo na sociedade. Esta discussão principal – a relação teoriaprática –, no entanto, não é mero exercício filosófico de diletantismo acadêmico. Pelo contrário, nelas se expressam as diferentes concepções de conhecimento, resultado da contradição inerente ao modo de produção capitalista: a divisão social do trabalho, a separação entre trabalho manual e trabalho intelectual, a separação entre teoria e prática. [...] O processo de formação de nossos alunos exige o enfrentamento da dicotomia teoria-prática, que perpassa a estrutura propedêutica dos nossos cursos, buscando as relações necessárias para que esta articulação se efetive em uma perspectiva de unidade, como dois componentes indissolúveis da práxis7 (FREITAS, 1996, p. 35-36). A exigência de uma formação que ultrapasse essa dicotomia é resultado do que tantas vezes se observa no cotidiano educacional, especialmente nas escolas, em que “alguns” (poucos) pensam para “outros” (tantos) executarem. Essa divisão de trabalho que frequentemente é percebida e aceita pela maioria dos envolvidos com a escola (por conveniência, 7 Práxis que é, na verdade, “atividade teórico-prática, ou seja, tem um lado ideal, teórico, e um lado material, propriamente prático, com a particularidade de que só artificialmente, por um processo de abstração, podemos separar, isolar um do outro” (VASQUEZ apud FREITAS, 1996, p. 36). 115 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai? desinformação ou ideologia) traz resultados desastrosos, uma vez que a perspectiva de decisão coletiva e a apropriação do processo do trabalho se esvaem. Os resultados de um cenário fragmentado como esse repercutem em todos os segmentos da escola, inclusive nos que aparentemente estão mais distantes, como as famílias dos estudantes, já que desconhecer a origem dos processos decisórios ou desconhecer porque tantos obedecem pacientemente decisões impostas demonstra claramente um projeto pedagógico artificial disforme e não correspondente às necessidades da construção de uma escola emancipadora. Relação teoria e prática no curso estudado: limites para implantação da almejada práxis 116 O projeto do curso analisado demonstra sua interação com a perspectiva nacional na luta pela quebra da desarticulação entre teoria e prática nos cursos de Pedagogia, já que não só traz elementos teóricos que evidenciam essa posição como coloca como um de seus objetivos a práxis. No documento elaborado pela comissão ampliada para reformulação do curso pesquisado está especificado que a formação do pedagogo necessita ser realizada sob uma visão relacional entre teoria e prática em que se ultrapassasse a fragmentação do trabalho pedagógico que se daria no interior das próprias disciplinas, na relação entre elas e no elo que algumas delas, dispostas verticalmente na grade curricular, fariam com as demais durante todo o desenvolvimento do curso. Entretanto, embora seja perceptível, a partir dos dados, que a formação no referido curso seja pautada nessa perspectiva de formação profissional mais ampla, que visa à superação da dicotomia entre teoria e prática, a análise das entrevistas evidenciou tanto a fragilidade da dimensão prática do currículo quanto a percepção dos sujeitos acerca da necessidade da relação entre teoria e prática, mas sem ser implementada como objetivado pelo curso. Nesse sentido, a partir da fala dos egressos pudemos identificar Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Luana Costa Almeida, Maria Márcia Sigrist Malavasi tanto a dimensão almejada pela proposta curricular, reafirmada pelos professores e apropriada à discussão teórica da área (associada), em que haveria no interior do curso uma tensão entre teoria/prática, não havendo sobreposição entre elas, mas uma associação, quanto uma dimensão distinta da defendida (dissociada), em que na tensão teoria/prática a teoria prevaleceria em detrimento da prática, havendo uma dissociação entre as duas dimensões, o que evidencia a reprodução da separação entre a dimensão teórica e prática durante o processo de formação. É necessário evidenciar, no entanto, que a percepção de que essa relação se dá de forma dissociada no curso é mais presente entre os egressos, estando associada à percepção da fragilidade da dimensão prática do currículo, como evidenciam os trechos transcritos a partir das entrevistas com os egressos: [Ao falar em pontos fracos] Em relação a algumas disciplinas, ao conteúdo de algumas disciplinas, principalmente as disciplinas de prática, de estágio, as que lidam com a prática me preocupam, pois elas acabam não conseguindo articular a teoria com a prática e então, ou se discute muito a prática e não se consegue ultrapassar esse limite da prática, ou se separa a teoria sem fazer a articulação necessária (Egresso entrevistado 24.) Vamos falar primeiro dos pontos fracos: o ponto fraco é a dissociação entre a teoria e a prática. [...] E acho que aqui tem uma dissociação nesse sentido; acho que deveria ter mais aproximação da teoria com a prática, de se observar mais e de entrar mais na prática educacional nos diversos níveis (Egresso entrevistado 43). À menção do entendimento da relação teoria/prática de forma dissociada na formação do profissional, soma-se a alta porcentagem de sujeitos que citam a questão da prática como uma das fragilidades do curso (73,5%) e o apontamento dos profissionais egressos com sólida formação teórica e despreparados para a prática, evidenciando de forma ainda mais contundente a 117 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai? dicotomia entre as duas dimensões nessa formação. Parece haver uma série de determinantes, citados por egressos e professores, que atuariam como impeditivo da superação dessa dicotomia; entre eles, a aparente incapacidade de trabalho coletivo, a percepção de que o trabalho fragmentado (que a proposta pretendia superar) teve continuidade e uma propensão ao distanciamento das questões práticas da formação do pedagogo. A gente tem aqui uma cultura em que, por via de regra, o docente trabalha sozinho. Tem muita estrela aqui, todo mundo se acha estrela; é difícil sentar junto para planejar disciplina, organizar projeto, essas coisas coletivas (Docente entrevistado 3). Outra coisa é a falta de articulação do corpo docente; acho que um dos problemas do currículo daqui não ter sido colocado em prática é que há uma falta de articulação, ou pelos professores não quererem, ou não conseguirem, talvez, mas não tem muito diálogo, não tem muito entrosamento e cada grupo de pesquisa se fecha em si. E isso é um problema porque se as pessoas não conseguem se articular, não há como haver um projeto coletivo, não há como ter uma visão mais coletiva (Egresso entrevistado 20). Nesse sentido, o que poderíamos vislumbrar é a possibilidade de colocarmos a dimensão prática em perspectiva no curso, fazendo um movimento relacional com a dimensão teórica, de forma a consolidar como real a almejada práxis na formação do pedagogo, para o que seria essencial o trabalho coletivo dentro do curso. Todavia, não queremos inferir que não houve avanços nessa questão, já que a própria organização pensada para o currículo impôs algumas mudanças, como um eixo prático durante todo o período do curso e um bloco de disciplinas organizadas como “Núcleos Temáticos”8 ao final. Por outro lado, queremos 118 8 Conjunto de disciplinas exigidas para conclusão do curso, que são oferecidas pelos diferentes departamentos e grupos de pesquisa da faculdade com viés interdisciplinar, segundo o interesse dos alunos. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Luana Costa Almeida, Maria Márcia Sigrist Malavasi apontar que alguns pontos são indicativos da necessidade de mudanças mais substanciais. Entre eles, a questão dos estágios e da interdisciplinaridade. Nessa perspectiva, os dados demonstram que o estágio, indicado tanto pelos professores quanto pelos egressos como a disciplina naturalmente articuladora das dimensões teórica e prática, é percebido pelos sujeitos como uma disciplina que necessita ser repensada para que, efetivamente, garanta essa articulação e a vivência da dimensão prática pelo estudante de forma dialogada. [...] Ou talvez essa coisa da prática, pois por outro lado falta, por exemplo, nos estágios, experimentar mais, pois o que é experimentado é uma coisa pequena e não dá conta do curso todo. [...] Acho que o estágio deveria acrescentar outras coisas; a gente está muito presa na coisa do acadêmico e não está lá vendo tudo no dia-a-dia da escola, porque a discussão no estágio é feita com base na experiência que cada um traz, e como só ficamos na sala de aula [universidade], nossa discussão fica por ali (Egresso entrevistado 30). A questão dos estágios não é, na verdade, um problema específico deste projeto, ele é um problema da formação do pedagogo, e desde que eu entrei aqui nós temos um problema com eles. [...] Na minha opinião, nós temos que ter um estágio organizado e estruturado seja onde for em que esse estudante tem que estar, mesmo num curto tempo, exercendo a tarefa de docente, pois estágio para mim é, por definição, a possibilidade do aluno exercitar a profissão com supervisão (Docente entrevistado 3). Esses trechos nos remetem à observação e à defesa do estágio como espaço de vivência prática e, necessariamente, o espaço da práxis, mesmo porque em muitos casos os estágios são vistos pelos estudantes como a última esperança de algum contato com 119 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai? o “saber fazer”, com a prática durante o curso de Pedagogia (FREITAS, 1996). Contudo, o que podemos perceber, com base nas afirmações de Freitas, é a desvalorização historicamente produzida dos estágios no interior dos cursos de Pedagogia, a qual estaria ligada à sua natureza voltada à dimensão prática [...] Sendo reflexo da desvalorização da prática como contraposição à teoria. Revelase como parte da desvalorização do trabalho manual, em relação ao trabalho intelectual no processo de divisão do trabalho na sociedade capitalista (FREITAS apud BRZEZINSKI, 1996, p. 86). Isso nos direciona à reflexão sobre a necessidade de retomada da dimensão prática representada nos estágios, de forma a encontrarmos nela um importante espaço para a efetivação da práxis almejada pelo curso. Dessa forma, os estágios são, em última análise, “[...] uma parte importante da relação trabalho-escola, teoria-prática, e eles podem representar, em certa medida, o elo de articulação orgânica com a própria realidade” (KULCSAR, 1991, p. 64). Acerca da interdisciplinaridade, os dados coletados de professores e egressos demonstram a compreensão dessa temática como substancial para a efetivação da proposta curricular, embora ela não ocorra como planejada no projeto do curso, o que traz a percepção de que as disciplinas não estabelecem diálogo entre si. 120 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Acho que, talvez, um ponto negativo é o da necessidade de uma articulação maior das disciplinas entre elas, das de fundamento e das voltadas para a prática, das disciplinas voltadas para a prática (metodologias) entre si, pois embora elas falem da mesma coisa, elas não tinham ligação. Talvez um projeto mais integrado entre as disciplinas, mais interdisciplinar... Acho que isso era um ponto que tinha de ser visto (Egresso entrevistado 27). Luana Costa Almeida, Maria Márcia Sigrist Malavasi Tais informações nos levam à reflexão proposta por Freitas (1995), na qual se discute que a questão da interdisciplinaridade é uma temática central exatamente para a mudança da forma como se dá a produção do conhecimento dentro dos cursos de Pedagogia, já que essa dimensão permitiria o trabalho coletivo do corpo docente numa perspectiva dialética em que a práxis seria efetivada. Nesse sentido, uma vertente importante que os dados coletados junto aos professores nos evidenciam é a relação direta entre a dificuldade de implementação da dimensão interdisciplinar da proposta e a conjuntura histórica em que ela se efetiva. Eles apontam que não há uma cultura de trabalho coletivo dentro da faculdade que abriga o curso e que essa reformulação chega num momento em que há acúmulo de trabalho docente na instituição, determinado pelo aumento de vagas e diminuição de professores na faculdade. Eu acho que os Núcleos Temáticos encontraram dificuldades; alguns se realizaram dentro do que a gente, mais ou menos, tinha como modelo e outros encontraram dificuldades de contingência de trabalho nosso: dificuldade de horário e dos alunos para propor coisas diferentes, dificuldade com carga horária... Acho que isso é uma coisa importante porque esse currículo é idealizado, é proposto e começa a ser implementado, ao mesmo tempo em que as condições de trabalho, aqui dentro da Faculdade de Educação, se deterioram bastante, em que a gente se vê assoberbado (Docente entrevistado 4). Todavia, a partir dessa fala, além da dimensão das condições de trabalho do corpo docente em que o currículo é implementado e da ausência do trabalho coletivo, podemos destacar a má utilização, ou não incorporação pela faculdade, dos Núcleos Temáticos. Esse apontamento é importante para a compreensão da discussão proposta, pois, por princípio, esses Núcleos seriam um espaço para a efetivação da interdisciplinaridade e do aprofundamento nas diferentes temáticas presentes nas áreas de atuação do egresso. 121 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai? Os Núcleos Temáticos seriam, dessa forma, o espaço reconhecido e oficialmente destinado para desenvolvimento de temas/eixos que fossem tomados sob uma perspectiva interdisciplinar, possibilitando diferentes reflexões a partir de diversas possibilidades de análise. Seria um espaço curricular em que a dimensão interdisciplinar fosse posta em perspectiva de maneira intencional, exigindo não só o diálogo entre o corpo docente como entre as diferentes dimensões necessárias à formação do pedagogo. Os Núcleos não são feitos por um conjunto de professores que se sequenciam numa proposta de trabalho, mas ele é um trabalho que exige o compartilhar, o trabalhar junto (Docente entrevistado 4). Interessa dizer, no entanto, que embora haja a indicação específica da dificuldade em relação à implementação da interdisciplinaridade, ao serem questionados sobre o que, em relação ao curso, mais utilizam em sua prática profissional, 84,9% dos egressos citam que é o conjunto das disciplinas, justificando que é a partir desse todo constituído por elas que a construção de suas concepções (de homem, sociedade, escola, etc.) vão sendo possibilitadas, determinando sua atuação profissional. Essa aparente contradição pode evidenciar que o curso não esteja atuando de forma interdisciplinar em suas manifestações curriculares ou no trabalho coletivo do corpo docente, mas evidencia também que é latente a reflexão acerca da importância do tema, a qual pode não ter sido feita de forma dirigida e intencional, mas se manifesta na fala de nossos sujeitos de forma a evidenciar sua potencialidade. Dessa forma, a almejada práxis dentro do curso de Pedagogia dependeria tanto de relações já estabelecidas quanto de outras a serem desenvolvidas ou apenas postas em prática, como a implementação e/ou utilização de espaços para a efetivação dessa articulação. 122 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Luana Costa Almeida, Maria Márcia Sigrist Malavasi Considerações finais Historicamente, vemos que o curso de Pedagogia sofre com a indefinição acerca de sua identidade e da identidade do profissional formado9, que nos parece relacionada à própria indefinição acerca da Pedagogia, não havendo uma dedicação ao “exame dos aspectos mais substantivos referentes ao próprio significado e conteúdo da pedagogia, sobre cuja base cabe estruturar o curso correspondente” (SAVIANI, 2007, p. 113). Nesse sentido e tomando a estruturação do curso, acreditamos na necessidade de se formar o pedagogo sob uma perspectiva relacional entre teoria-prática, na perspectiva da “Pedagogia Histórico-Crítica” proposta por Saviani (2003), em que ultrapassemos a fragmentação do trabalho pedagógico (FREITAS, 1996) em direção a uma unicidade que possibilite a atuação crítica e transformadora do pedagogo na sociedade. No contexto da necessária relação entre teoria-prática dentro da formação do pedagogo, insere-se também a necessidade da interdisciplinaridade e da reestruturação dos estágios como possibilidades reais de formação para esse profissional. É na relação entre as diferentes disciplinas de um currículo, na articulação entre elas e na possibilidade de pensá-las a partir do real que a relação entre teoria e prática se torna possível, possibilitando a formação crítica na perspectiva de unidade apontada por Freitas (1996). A partir disso e retomando a análise do referido trabalho, observamos a necessidade de revisão de algumas práticas do curso a fim de propiciar a superação dos limites da proposta ora implementada, assim como a ampliação de suas possibilidades; entre elas: • a reorganização dos estágios de forma a cumprir seu papel de articuladores com a prática profissional; • a reorganização das exigências de diálogo entre as disciplinas 9 Como podemos ver por meio de sua história, entre outros, nos trabalhos de Brzezinski (1996) e Silva (2003). 123 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Formação no curso de Pedagogia: e a práxis, como vai? de forma a caminhar para uma prática interdisciplinar. Pelas propostas apresentadas, um aspecto a ser considerado e que parece relevante para o início da apropriação pelo curso dos princípios já postulados em seus objetivos seria o trabalho coletivo e interdisciplinar, pois sua inexpressividade ocasiona a dificuldade do diálogo entre as disciplinas, acarretando a perpetuação de velhas práticas no curso que, mesmo idealizadas em modelos diferenciados, não encontram espaço para se efetivar, como no caso dos Núcleos Temáticos. Apontando na direção de futuras análises, acreditamos ser necessária uma investigação que compreenda se e em que momentos e espaços a relação teoria-prática como “associada” é construída pelos egressos, identificando, dessa maneira, as formas de organização que a privilegiam, pois conseguir compreender o tempo e o espaço em que essa perspectiva é produzida permitiria uma proposta curricular mais efetiva, para além de indicativos gerais, possibilitando perceber quais ações do curso estariam acertadas a esse fim, o que promoveria a ampliação das experiências bem sucedidas e a modificação daquelas que não se manifestassem como tal. Atualmente, na mesma instituição está em curso uma política de estágio com a finalidade de superar as questões postas; entretanto, ainda não temos elementos que nos permitam observar a superação das contradições apontadas, revelando o risco de o pedagogo continuar sendo formado numa perspectiva que não articula a indispensável relação entre a teoria e a prática. 124 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Luana Costa Almeida, Maria Márcia Sigrist Malavasi Referências AGUIAR, M. A. S.; MELO M. M. O. Pedagogia e diretrizes curriculares: polêmicas e controvérsias. Linhas Críticas Revista da Faculdade de Educação UnB, Brasília, v. 11, 2005a. Disponível em: <http://www.fe.unb.br/linhascriticas/n20/ Pedagogia%20e%20as%20diretrizes%20curriculares%20do%20 curso%20de%20pedagogi.html>. Acesso em: 1 nov. 2007. ALMEIDA, L. C. Curso de Pedagogia da UNICAMP: marcas de formação. 2008. 199 f. Dissertação (Mestrado em Educação) FE-UNICAMP, Campinas, 2008. BRZEZINSKI, I. 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Acesso em: 19 jul 2007. SILVA, C. S. B. Curso de Pedagogia no Brasil: História e Identidade. Campinas: Autores Associados, 2003. VASQUEZ, A. S. Filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. 126 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 Luana Costa Almeida, Maria Márcia Sigrist Malavasi Formation in the Pedagogy course: the praxis, how is it going? Abstract This work is product from the graduate research in Master’s level dedicated to investigate the formation of the professional who concluded the Pedagogy course at a public university in São Paulo state, Brazil, and was methodologically based on a qualitative perspective, employing the documental analysis and semi-structured interviews with graduates and professors for data collection. Whilst the analysis developed in this study makes deeper discussions possible, the relation between praxis and theory in the pedagogue formation was focused, a matter historically discussed, but commonly with practical applications not consistent with the idealized proposals. Based on the collected data the dimensions theory and praxis are perceived as both associated and dissociated, but prevailing the last, which seems to be bind to a non-effective implementation of important dimensions of the curriculum, considering interdisciplinarity, the collective teaching work and the supervised internships. Keywords: praxis; pedagogue; Pedagogy course. 127 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 111-127 128 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais1 Rubens Barbosa de Camargo2 [email protected] Márcia Aparecida Jacomini3 4 [email protected] Resumo: No presente texto apresentam-se aspectos sobre carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica em alguns documentos internacionais e na legislação brasileira, com foco nas Constituições Federais e leis infraconstitucionais. Verifica-se que orientações legais sobre carreira e salário do professor estão presentes na legislação nacional e em documentos internacionais há bastante tempo, denotando certa compreensão sobre a importância do professor no oferecimento de uma educação de qualidade. No entanto, não 1 Este artigo é parte da pesquisa nacional “Remuneração de professores de escolas públicas da educação básica: configurações, impactos, impasses e perspectivas”, financiada segundo o Edital nº. 001/2008 da CAPES / INEP / SECAD – Observatório da Educação, realizada junto ao Centro de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas de Educação (CEPPPE) da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e coordenada nacionalmente pelo Prof. Dr. Rubens Barbosa de Camargo. Tal pesquisa está sendo desenvolvida em doze estados: São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraíba, Piauí, Roraima, Pará, Minas Gerais e Rio Grande do Norte, envolvendo nove programas de Pós-Graduação em Educação, quais sejam os da USP, UFPA, UFPI, UFPB, UFRN, UEMG, UFMS, UFPR, UNISUL e contando, ainda, com quatro grupos colaboradores de pesquisa: USP-RP, UNIFESP, UFMT, UFRGS. 2 FEUSP 3 UNIFESP - Diadema 4 Embora a responsabilidade pelo artigo seja dos autores, ele contou com contribuições da equipe de pesquisadores de São Paulo: Profa. Dra. Lisete Regina Gomes Arelaro (USP), Profa. Dra. Maria Angélica Pedra Minhoto (UNIFESP), Ms. Adriana Inácio Yanaguita (DoutoradoUNESP/Marília), Ana Paula Santiago do Nascimento (Mestrado - USP), Flávio Pinto Silva (IC-USP, até outubro/2010), Nilson de Souza (Mestrado - USP), Kátia Aparecida Santos (Auxiliar de Pesquisa – Profa. Rede Municipal/SP), Renata Rodrigues de Amorim Medina (IC-USP, desde julho/2010) e Cláudia Alves Pereira (Auxiliar de Pesquisa – Professora Rede Estadual/SP, após outubro/2010). 129 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais se pode falar de continuidade acerca das propostas, pois se percebem movimentos contraditórios em relação à garantia e aos avanços de direitos e à construção de uma carreira e de um salário condigno à condição docente. No Brasil, observa-se que maior preocupação com a carreira e o salário docentes, prescritos na legislação, ocorreu em períodos democráticos, tal como acontece com a vinculação constitucional relativa ao financiamento da educação. A partir da Constituição Federal de 1988, observa-se uma intensificação de legislações sobre carreira e salário de professores, com o estabelecimento do dever de estados e municípios elaborarem planos de cargo, carreira e salários para os profissionais da educação básica. Palavras-chave: educação básica; salário de professor; carreira docente. Introdução: Neste texto pretende-se expor e analisar alguns aspectos legais, entendidos como importantes demarcações para as discussões sobre os planos de carreira e de salários do pessoal docente da educação básica5 e que são evidenciados a partir da segunda metade do século XX. Tais discussões, é preciso salientar, ocorreram no marco da ampliação do acesso à escola e do debate sobre qualidade do ensino, tanto em termos nacionais quanto internacionais. Nesse sentido, constata-se tanto a ampliação física das redes públicas (e privadas) de ensino quanto o aumento dos quadros necessários para tal atendimento. Concomitantemente, há uma expansão das tensões relativas às questões salariais, às condições de trabalho, às propostas pedagógicas, entre outras. Tais conflitos, que se apresentam inicialmente como fruto da manifestação organizada de reivindicações por meio de movimentos e ações 130 5 Para efeito deste artigo, embora se façam menções a diferentes documentos internacionais, entende-se o conceito de Educação Básica como aquele que envolve a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini sindicais (ou mais amplas), se expressam também em diferentes configurações administrativo-políticas, na forma de leis, regulamentos, estatutos, decretos etc. A legislação neste texto é entendida como expressão da síntese dos projetos e interesses em disputa e da correlação de forças existente em cada momento histórico, ou seja, a documentação legal, de forma específica, expressa os conflitos engendrados pelos interesses diferenciados entre quem trabalha na escola (em geral, o agente da ação docente) e os empresariais ou governamentais. Infelizmente aqui não se tratará da dinâmica que envolve os fatores e os agentes em disputa. O texto se apresenta em três partes: a primeira destaca documentos e discussões internacionais a respeito da temática; a segunda demarca a presença da mesma nas Constituições Brasileiras e legislação infraconstitucional antes da Constituição Federal de 1988 (CF/88); a terceira evidencia aspectos sobre os planos de carreira e salários do pessoal docente no período pós CF/88. 1- Documentos e discussões internacionais sobre a carreira e o salário do pessoal docente É importante fazer referência ao fato de a valorização do magistério ser discutida em termos internacionais após uma forte desvalorização da profissão docente, ocorrida, principalmente, na segunda metade do século XX. Pierre Furter, na obra “Os sistemas de formação em seus contextos: introdução a um método de educação comparada”, resgata uma parte dessa história ao explanar as articulações realizadas pela OIT e a UNESCO6 antes e após organismos proporem a “Recomendación relativa a la situación del personal docente”, assinada por 26 membros, em 1966, numa conferência governamental: Recordemos em primeiro lugar o essencial dessa iniciativa excepcional. A OIT há muito se preocupava com as condições de 6 Organização Internacional do Trabalho (OIT); Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). 131 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais trabalho do corpo docente, considerando [que] a penúria de professores poderia ser conseqüência (sic) de condições insatisfatórias no exercício da profissão. Com a UNESCO e o BIE*, o esforço se desenvolveu durante duas décadas: 1952 - A OIT solicita a constituição de uma comissão consultiva de empregadores e de trabalhadores intelectuais. 1954 - A OIT apresenta seu primeiro relatório, que põe em relevo níveis insatisfatórios de remuneração e condições medíocres de emprego. O relatório sugere uma reunião interorganizações. 1958 - A OIT, o BIE e a UNESCO organizam uma reunião tripartite de especialistas que estudam três pontos: os problemas da remuneração; a segurança social; e os problemas sócio-econômicos (sic). 1963 - Uma reunião de especialistas faz um primeiro balanço da discussão, que compreende novos pontos: duração do trabalho; remuneração; folgas; locais e efetivos escolares; cuidados médicos; aposentadoria; alojamento; direito à organização e à participação na definição da política da educação e de formação dos docentes etc. 1964 - Uma conferência tripartite estabelece uma Recomendação sobre a condição do pessoal docente. 1966 - Esta Recomendação é aprovada por unanimidade por uma conferência governamental que compreendia 26 países. Resta ainda ratificá-la, particularmente pelas autoridades suíças. A recomendação cobre o conjunto dos problemas da condição docente, isto é: o preparo do pessoal docente (inclusive sua seleção); seu aperfeiçoamento; as condições de acesso à profissão e a organização de uma carreira profissional (ascensão, promoção, estabilidade no 132 *BIE ou IBE – International Bureau of Education – Organismo da UNESCO responsável pela organização e produção de informações sobre Educação. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini emprego, medidas disciplinares etc.); os direitos e as obrigações do corpo docente; as condições necessárias para um ensino eficaz (n°. de alunos por classe, o material didático, as horas de trabalho, as férias, as folgas pagas, o intercâmbio de professores, os edifícios, a situação particular dos professores no meio rural); a segurança social; a penúria dos professores (Lüscher, 1965). Para que se tenha uma idéia (sic) da distância que existe ainda entre esses objetivos e a realidade, podem ser consultadas diferentes enquêtes sobre a situação do pessoal docente na Europa (OCDE, 1968; Les enseignants, 1965 e 1967). 1970 - Primeiro balanço das conseqüências (sic) dessa Recomendação, mostrando que não se conseguiu avançar em relação a três pontos maiores: as restrições orçamentárias; os problemas de disciplina e de crise de autoridade que provocam fenômenos de aumento de rigidez; e a incerteza do recrutamento. As aplicações da Recomendação tal como são consignadas nos relatórios das organizações (1970 e 1976) deixam poucas ilusões. Não seria útil, a este respeito, fazer alguns estudos regionais - a exemplo daquele iniciado na AL por Lorenzo (1969) – em que seriam examinadas as aplicações, pelos Estadosmembros, das resoluções tomadas? Estas enquêtes permitiriam melhor confrontar o que se (isto é, a sociedade, o sistema social) espera dos corpos docentes com aquilo que os corpos docentes visam ou desejam realizar a partir de suas formações e do que vivem cotidianamente (FURTER, 1980, p. 236 e 237). É útil perceber, nessa longa citação, que no período pós-guerra, conhecido como período dos “anos dourados” do desenvolvimento econômico, político e social em termos mundiais, a OIT e a UNESCO já chamavam a atenção mundial para a penúria salarial e as condições de trabalho a que os docentes estavam submetidos 133 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais em termos internacionais. Além disso, chama a atenção o destaque que o autor dá ao fato de que, num primeiro balanço do processo de implantação das recomendações, perceberam-se dificuldades por conta de restrições orçamentárias, de crise de autoridade do professor e de recrutamento de docentes. 1.1- A Recomendação da OIT/UNESCO de 1966 134 O reconhecimento da necessidade de os profissionais da Educação terem planos de carreira está presente na “Recomendación relativa a la situación del personal docente”, aprovada em 1966. De acordo com os princípios gerais da Recomendação, o progresso e a qualidade da Educação dependeriam “primordialmente das qualificações e competências do corpo docente”, e a realização das finalidades e objetivos da Educação exigiria “que os professores desfrutem de uma condição justa e que a profissão docente goze do respeito público que merece” (OIT/UNESCO, 1966, p. 26). Diante disso, a OIT e a UNESCO estabeleceram um conjunto de orientações que deveriam ser consideradas pelos países quando da elaboração dos planos de carreira dos profissionais da Educação Básica do setor público e privado. Antes de apresentar o conjunto de orientações, o documento esclarece o significado dos termos “pessoal docente” ou professores e “condição docente”. Pessoal docente e professores refere-se a toda pessoa encarregada da educação dos alunos. Condição docente refere-se tanto à posição social (competências e condições de trabalho) conferida segundo o grau de importância da função quanto à remuneração e demais benefícios em comparação com outras profissões. Os princípios gerais da Recomendação têm como pressuposto que uma educação de qualidade, entendida como direito de todos, demanda qualificações e condições de trabalho que permitam ao pessoal docente a realização de um bom ensino e a dedicação exclusiva às suas funções profissionais. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini Em consonância com os princípios gerais, a Recomendação adverte sobre a importância da participação das organizações dos professores na formulação das políticas educacionais e a observância da não discriminação por razões de raça, cor, sexo, religião, opiniões políticas, origem nacional ou social e situação econômica na formação e contratação do pessoal docente. Dada a importância dos recursos financeiros para a realização de políticas educacionais que garantam a educação como bem público, fundamental ao desenvolvimento social e individual, a Recomendação sugere que cada país destine parte dos recursos de seus orçamentos para o financiamento da Educação. Deveria dar-se especial prioridade, nos orçamentos da cada País, à atribuição de uma parte suficiente do rendimento nacional para o desenvolvimento da educação, tendo em conta que o êxito na consecução dos fins e objetivos da educação depende em grande parte dos recursos econômicos com que esta pode contar (OIT/UNESCO, 1966, p. 28-29). Apesar da importância da indicação de destinação de recursos financeiros públicos para a realização do conjunto de recomendações do documento de 1966, num primeiro balanço sobre sua implantação, realizado em 1970, verificou-se que eles continuavam sendo um limitador à realização das Recomendações (FURTER, 1980, p. 237). Embora no marco de recomendações gerais, a Recomendação expressava preocupação acerca do tratamento que os países deveriam despender às questões educacionais como política de Estado. O reconhecimento da importância do pessoal docente para a realização do direito à educação é explicitado, entre outras, na discussão sobre a escassez de professores. As autoridades deveriam reconhecer que o melhoramento da situação econômica e social dos professores, das suas condições de vida e de trabalho, dos termos do seu contrato de trabalho e das suas perspectivas 135 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais de carreira é o melhor meio de obstar a escassez de professores competentes e experientes e atrair e reter no ensino um número importante de pessoas plenamente qualificadas (OIT/UNESCO, 1966, p. 50). O documento alerta para a necessidade de as políticas de formação de professores estarem atentas à necessidade de uma formação inicial atrativa, de forma a assegurar um número suficiente de professores com condições acadêmicas adequadas ao exercício do magistério. Para tal, os candidatos a futuros professores deveriam receber bolsas de estudos 7 que lhes possibilitassem dedicar-se aos estudos e galgar boa formação acadêmica. Além disso, deveria ser assegurado aos egressos dos cursos de formação de professores o acesso a empregos compatíveis com a sua formação. O documento destaca também como fundamental a garantia de formação continuada para o aperfeiçoamento profissional, com vistas à melhoria do conteúdo e das técnicas pedagógicas do ensino. Ainda, ele sugere a adoção do reconhecimento, em nível internacional, da titulação/formação que assegura o direito à docência, com base em normas aprovadas nos diferentes países. Entretanto, a despeito disso, de acordo com Furter (1980), o recrutamento de docentes também foi apresentado como um dos aspectos com dificuldade para a implantação das Recomendações no balanço de 1970. Em relação à carreira profissional, destacam-se os seguintes aspectos: 1- Estabelecimento de políticas claras de recrutamento, definidas em acordo com as organizações de professores. 2- Existência de período experimental no início da carreira (estágio probatório). 136 7 Nesse sentido, é interessante lembrar a experiência dos Centros Específicos de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério (CEFAMs), onde se formavam professores em nível médio com Habilitação Específica para o Magistério, que na década de 1980 e 1990 em São Paulo tinham um projeto pedagógico claramente definido e funcionavam em período integral com bolsas mensais de estudos para todos os alunos. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini 3- Possibilidade de ascensão e promoção profissional de acordo com as qualificações requeridas. 4- Critérios objetivos para as promoções, devidamente negociados com as organizações dos professores. 5- Estabilidade e segurança no emprego. 6- Participação de pessoas da mesma categoria profissional no julgamento de medidas disciplinares. 7- Reconhecimento da jornada de trabalho em tempo parcial. 8- Liberdade acadêmica aos professores. 9- Realização de consultas às organizações dos professores sobre: política educacional, organização escolar e mudanças no sistema de ensino. 10-Negociações entre as organizações de professores e as entidades patronais para o estabelecimento da remuneração e das condições de trabalho dos professores. 11-Número adequado de alunos por turma, de forma que o professor possa prestar atenção às necessidades e às dificuldades de cada um. 12-Jornada de trabalho do professor tendo em conta os diversos fatores que determinam o volume de trabalho: a) o número de alunos de que se ocupará por dia e por semana; b) o tempo que se considera necessário para a boa preparação das aulas e correção dos exercícios; c) o número de cursos diferentes a dar por dia; d) o tempo exigido ao professor para participar em pesquisas, em atividades extracurriculares e para supervisar e orientar os alunos; e) o tempo que seria desejável aos professores para informar os pais dos alunos ou encarregados de educação do progresso dos alunos (OIT/UNESCO, 1966, p. 40). 13-Composição da jornada prevendo horas destinadas ao aperfeiçoamento profissional. 14-Licenças com remuneração total ou parcial para realização de estudos. Os períodos de licença para estudos devem contar para 137 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais 138 fins de antiguidade e aposentadoria. 15-Licenças pagas para participação nas atividades das organizações dos professores. 16-Direito à licença por doença e maternidade. Licença suplementar, não remunerada de, no máximo, um ano para as professoras com filhos (OIT/UNESCO, 1966). De fato, ainda atualmente (2011), poder-se-ia afirmar que esse conjunto de recomendações, caso realmente observado, poderia concorrer positivamente para a construção de planos de carreira que atenderiam as demandas da profissão, numa perspectiva de valorização do magistério. Infelizmente, pouco foi realmente discutido e estabelecido no que se refere à legislação brasileira sobre a condição docente nas últimas décadas. Em relação à remuneração dos professores, na Recomendação são feitas as seguintes orientações: 1- Os professores devem ter remuneração similar à de outras profissões que exijam qualificações equivalentes ou análogas. (Grifos nossos) 2- A remuneração de professores em período probatório ou em regime de contrato temporário não deve ser inferior à dos professores titulares. 3- A remuneração dos professores deve assegurar-lhes para si e seus familiares a manutenção de um bom nível de vida e permitir a continuidade de sua formação e aperfeiçoamento profissional. 4- As diferenças na remuneração devem ser baseadas em critérios objetivos, tais como: “nível de qualificação, anos de experiência ou grau de responsabilidade”. A maior e a menor remuneração devem ser mantidas dentro de limites aceitáveis. (OIT/UNESCO, 1966, p. 45) 5- O intervalo para aumento da remuneração no interior de cada categoria deve respeitar intervalos regulares, de preferência anuais. 6- “A progressão da remuneração entre o mínimo e o máximo da escala estabelecida não deveria exceder um período de 10 a 15 anos”. (OIT/UNESCO, 1966, p. 45) 7- Os professores em período experimental ou contratados temporariamente devem ter aumento da remuneração de Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini forma periódica. 8- A remuneração dos professores deve sofrer revisões periódicas tendo em vista o aumento do custo de vida, a elevação do nível de vida geral e o aumento generalizado de salários e remuneração. 9- “Não deveria ser instituído ou aplicado sistema algum de remuneração com base no mérito, sem prévia consulta e aceitação por parte das organizações do pessoal docente interessadas”. (OIT/UNESCO, 1966, p. 45, 46). Novamente, algumas questões sobre a remuneração dos professores chamam a atenção se comparadas às práticas ou às discussões atuais. Entre elas, destaca-se a questão da remuneração por mérito, pois a Recomendação já definia uma perspectiva muito distinta das que são apresentadas como “novidades” nas legislações mais recentes em vários sistemas educacionais no Brasil (que estão sendo implantadas sem qualquer discussão com as organizações docentes) e que geralmente implicam a “culpabilização” dos professores sobre a questão da qualidade da Educação. 1.2 Orientações internacionais das Conferências Mundiais de Jomtien (1990) e Dakar (2000) Outros documentos internacionais também trouxeram contribuições para a questão da carreira e da remuneração docente. A “Declaração Mundial sobre Educação para Todos”, aprovada pela Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada em Jomtien, Tailândia, de 5 a 9 de março de 1990, que almejava a satisfação das necessidades básicas de aprendizagem, ao mesmo tempo estabelecia, no art. 7º, que as autoridades responsáveis pela Educação dos níveis nacional, estadual e municipal tinham a obrigação prioritária de proporcionar educação básica para todos em articulação com diferentes setores sociais, destacava nessa articulação o papel especial dos professores, dos administradores e do pessoal que trabalha em educação; entre os órgãos educacionais 139 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais e demais órgãos de governo, incluindo os de planejamento, finanças, trabalho, comunicações, e outros setores sociais; [...]. É particularmente importante reconhecer o papel vital dos educadores e das famílias. Neste contexto, as condições de trabalho e a situação social do pessoal docente, elementos decisivos no sentido de se implementar a educação para todos, devem ser urgentemente melhoradas em todos os países signatários da Recomendação Relativa à Situação do Pessoal Docente OIT/UNESCO (1966). (UNESCO, 1998). No artigo 21, no qual são definidas as estratégias específicas orientadas concretamente para melhorar as condições de escolaridade, entre outras medidas, indicava que a formação dos educadores deve estar em consonância aos resultados pretendidos, permitindo que eles se beneficiem simultaneamente dos programas de capacitação em serviço e outros incentivos relacionados à obtenção desses resultados; currículo e avaliações devem refletir uma variedade de critérios, enquanto que os materiais, inclusive a rede física e as instalações, devem seguir a mesma orientação. Em alguns países, a estratégia deve incluir mecanismos para aperfeiçoar as condições de ensino e aprendizagem, de modo a reduzir o absenteísmo e ampliar o tempo de aprendizagem (UNESCO, 1998). Porém é no artigo 33 que a Declaração reconhece, com todas as letras, a importância da carreira e da remuneração docente para a implantação de uma educação de qualidade: 140 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 O proeminente papel do professor e demais profissionais da educação no provimento de educação básica de qualidade deverá ser reconhecido e desenvolvido, de forma a otimizar sua contribuição. Isso irá implicar a adoção de medidas para garantir o respeito Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini aos seus direitos sindicais e liberdades profissionais e melhorar suas condições e status de trabalho, principalmente em relação à sua contratação, formação inicial, capacitação em serviço, remuneração e possibilidades de desenvolvimento na carreira docente, bem como para permitir ao pessoal docente a plena satisfação de suas aspirações e o cumprimento satisfatório de suas obrigações sociais e responsabilidades éticas (UNESCO, 1998). Dez anos depois, a “Cúpula Mundial de Educação”, realizada em Dakar, Senegal, de 26 a 28 de abril de 2000, em seu documento final, ofereceu bem menos indicações a respeito da condição docente – talvez porque não reforçasse a Declaração de Jomtien indicando uma mudança mundial de rumos –, pois somente no artigo 8º faz alguma menção explícita – em termos muito genéricos e aparentemente descontextualizados – quanto aos compromissos dos governos, organizações, agências, grupos e associações representadas na Cúpula Mundial de Educação para atingir seus objetivos da seguinte forma: [...] iv. desenvolver sistemas de administração e de gestão educacional que sejam participativos e capazes de dar resposta e de prestar contas; [...] viii. criar ambientes seguros, saudáveis, inclusivos e eqüitativamente (sic) supridos, que conduzam à excelência na aprendizagem e níveis de desempenho claramente definidos para todos; [...] ix. melhorar o status, a auto-estima (sic) e o profissionalismo dos professores; [...] (UNESCO, 2000, p. 2). Nota-se no documento final de 2000 a falta de menção ao reforço ou à explicitação da necessidade de planos de carreira ou de remuneração digna para os docentes, ou seja, aconselha, apenas de modo genérico, a “melhorar o status, a autoestima e o profissionalismo dos professores”. 141 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais 2- Breve exposição histórica sobre planos de carreira e de salários do magistério na legislação nacional Sem pretender esgotar toda a rica documentação e estudos sobre a temática, é possível se afirmar que não é matéria recente que alguns elementos que constituem o que se configuram atualmente como planos de carreira e de remuneração docente estejam presentes na legislação nacional. Já na primeira lei de Educação do país – a que mandava “criar escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império” –, que foi estabelecida por Decreto Imperial8 de D. Pedro I, em 15 de outubro de 1827 (vem daí a data de comemoração do Dia do Professor9), havia vários elementos interessantes quanto à ideia de uma carreira e de salário docente. Entre eles, alguns se destacam: • No artigo 3º já se afirmava quanto à questão salarial que: “os presidentes, em Conselho, taxarão interinamente os ordenados dos Professores, regulando-os de 200$000 a 500$000 anuais10, com atenção às circunstâncias da população e carestia dos lugares, e o farão presente a Assembléia Geral para a aprovação” (BRASIL, 1827). • Quanto à questão da formação inicial: “os Professores que não 142 8 Obtido no endereço: http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/decreto-lei_imperial.htm, acessado em 20/10/2010. 9 “[...] O Deputado Estadual Paulista, Dr. Antonio Carlos de Salles Filho, no mandato 1947/51, é o autor do Projeto de Lei que instituiu tal homenagem, em âmbito do território do Estado de São Paulo e, mais tarde, já como Deputado Federal, no mandato 1955/59, o fez com espectro e abrangência nacional, passando os abnegados professores a, pelo menos isto, terem seu dia especial, 15 de outubro [...]”, informação disponível em http://www.arteducacao.pro.br/ homenagem/queridomestre.htm, acesso em 20/12/2010. 10 No site http://www.arteducacao.pro.br/homenagem/queridomestre.htm, acessado em 20/12/2010, o professor Vicente Martins, da Universidade Estadual Vale do Acarau, Sobral(CE), afirma que o “economista Antônio Luiz Monteiro Coelho da Costa, especialista em cotação de moedas, atendendo à solicitação dos autores, por e-mail, fez a conversão dos réis, de 1827, em reais, de 2001 (discutíveis), e, segundo Luiz Monteiro, 200$000 equivaleriam a aproximadamente R$ 8.800,00, isto é, a um salário mensal de R$ 680 (considerando o 13º), e 500$000 a aproximadamente R$ 22.000 (R$ 1.700 por mês).” Em termos de valores em Reais de julho de 2010, corrigido pelo INPC do IBGE (mesmo indicador econômico do Fundeb), isso representaria R$ 18.592,35 no ano ou R$ 1.407,10 por mês no menor valor e R$ 46.480,87 no ano e R$ 3.575,45 por mês no maior valor. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini tiverem a necessária instrução deste ensino, irão instruir-se em curto prazo e à custa dos seus ordenados nas escolas das capitais” (BRASIL, 1827). • Quanto à questão do processo de seleção de candidatos ao cargo de professor estabelecia no artigo 7º: “os que pretenderem ser providos nas cadeiras serão examinados publicamente perante os Presidentes, em Conselho; e estes proverão o que for julgado mais digno e darão parte ao Governo para sua legal nomeação” (BRASIL, 1827). • As condições legais para a contratação de professor exigiam que só fossem: “admitidos à oposição e examinados os cidadãos brasileiros que estiverem no gozo de seus direitos civis e políticos, sem nota na regularidade de sua conduta” (BRASIL, 1827). • Bem como reforçava a ideia da necessidade de aprovação em “concurso público” quando estabelecia no artigo 9º que: “os Professores atuais não serão providos nas cadeiras que novamente se criarem, sem exame de aprovação, na forma do Art. 7º” (BRASIL, 1827). • Pode-se entender como uma “antecipação histórica” das atuais gratificações e “avaliações de desempenho” do trabalho docente o que estava preconizado no artigo 10, ou seja: “os Presidentes, em Conselho, ficam autorizados a conceder uma gratificação anual que não exceda à terça parte do ordenado, àqueles Professores, que por mais de doze anos de exercício não interrompido se tiverem distinguido por sua prudência, desvelos, grande número e aproveitamento de discípulos” (BRASIL, 1827). • Na mesma lei não haveria discriminação de gênero, (grifos nossos) pois previa que “as Mestras vencerão os mesmos ordenados e gratificações concedidas aos Mestres” (BRASIL, 1827). • A garantia de irredutibilidade de salário e de “estabilidade” no emprego estavam dispostas no artigo 14, quando ele assegurava: “Os provimentos dos Professores e Mestres serão vitalícios; mas os Presidentes em Conselho, a quem pertence a fiscalização das escolas, os poderão suspender e só por sentenças serão demitidos, 143 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais 144 provendo interinamente quem substitua” (BRASIL, 1827). No decorrer do Império (D. Pedro I e D. Pedro II), várias reformas da incipiente Educação Nacional foram propostas (em geral no âmbito do Governo Geral para as Províncias). Entre elas constavam diferentes medidas que tentavam dar conta da condição do trabalho docente, em particular as que buscavam estabelecer garantias de remuneração, formação inicial, regras para processos de seleção, entre outras, para a realização do trabalho do professor nas escolas públicas. Uma rápida visão sobre alguns artigos das Constituições Federais do período Republicano também pode nos fornecer alguns dos elementos presentes ainda hoje em planos de carreira e salários de professores. A primeira Constituição da República, a dos Estados Unidos do Brasil, de 1891, pouco abordou a questão da Educação Pública Nacional, porém estabeleceu em sua Declaração de Direitos, mais precisamente no § 6º do artigo 72, que “será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos”, como uma clara demarcação sobre a posição do Estado em relação à Igreja. Ao compreender a ação docente numa perspectiva liberal e aberta a todos os brasileiros, como forma de seleção de cargos públicos, pode-se entender que aquela Constituição consagrou a ação docente, no § 24 do mesmo artigo, por meio da expressão “é garantido o livre exercício de qualquer profissão moral, intelectual e industrial”, bem como no artigo 73, ao estabelecer que “os cargos públicos civis ou militares são acessíveis a todos os brasileiros, observadas as condições de capacidade especial que a lei estatuir, sendo, porém, vedadas as acumulações remuneradas”. Já a Constituição de 1934 se apresenta com grande aproximação à temática da Educação Nacional, certamente sob a influência do documento que veio a ser conhecido como “Manifesto dos Pioneiros” de 1932. Esse documento representava, na prática, uma grande proposta de Plano Nacional de Educação (o qual está, pela primeira vez, previsto na Constituição de 1934). Nela estão Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini expressos vários artigos, incisos, parágrafos e alíneas a respeito da questão educacional (destaca-se inclusive a primeira vinculação constitucional de recursos para a educação) e, no que diz respeito à questão da condição docente, faz algumas menções específicas: • No capítulo “Dos Direitos e das Garantias Individuais” é apresentada, no artigo 36, a interessante determinação de que “nenhum imposto gravará diretamente a profissão de escritor, jornalista ou professor” (grifo nosso). • No parágrafo único do artigo 150, que previa que “O plano nacional de educação constante de lei federal [...] obedecerá às seguintes normas:” havia alíneas específicas relativas ao trabalho docente onde dispunha: “c) liberdade de ensino em todos os graus e ramos, observadas as prescrições da legislação federal e da estadual”; [...]; e) limitação da matrícula à capacidade didática do estabelecimento [...]; f) reconhecimento dos estabelecimentos particulares de ensino somente quando assegurarem a seus professores a estabilidade, enquanto bem servirem e uma remuneração condigna” (grifos nossos). • No artigo 155 estabelecia-se que “é garantida a liberdade de cátedra”. • A forma de seleção de docentes prevista no artigo 158 situava a obrigatoriedade dos concursos para o magistério oficial, as exceções, entendidas como as contratações temporárias – verificadas até hoje nas redes públicas – e as garantias oferecidas para o exercício do cargo, da seguinte forma: É vedada a dispensa do concurso de títulos e provas no provimento dos cargos do magistério oficial, bem como, em qualquer curso, a de provas escolares de habilitação, determinadas em lei ou regulamento. § 1º Podem, todavia, ser contratados, por tempo certo, professores de nomeada, nacionais ou estrangeiros. § 2º - Aos professores nomeados por concurso para os institutos oficiais cabem as garantias de vitaliciedade e de inamovibilidade nos cargos, sem prejuízo do disposto no Título VII. Em casos 145 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais de extinção da cadeira, será o professor aproveitado na regência de outra, em que se mostre habilitado (BRASIL, 1934, art. 158). 146 Completando essas disposições, há no capítulo “dos Funcionários Públicos” uma série de elementos que também irão compor direitos dos quadros docentes das redes públicas, tais como: estabilidade; ingresso exclusivo por concurso público; férias; licenças, procedimentos nos casos de aposentadoria e invalidez; vedação de acúmulo de cargos; necessidade de estabelecimento de estatutos que consolidassem seus direitos e deveres, entre outros. É nesse capítulo que também se encontra a disposição sobre acúmulo de cargos públicos e que diz respeito diretamente ao professor, pois definia: “Excetuam-se os cargos do magistério e técnicocientíficos, que poderão ser exercidos cumulativamente, ainda que por funcionário administrativo, desde que haja compatibilidade dos horários de serviço” (BRASIL, 1934). Na Constituição de 1937, outorgada por Getúlio Vargas, que estabeleceu a Ditadura do Estado Novo, o número de itens relativos à Educação Nacional foi bem menos significativo. Embora destacasse que era dever da União, dos estados e municípios suprir aos que não apresentassem recursos suficientes, não havia mais a garantia de recursos vinculados para a Educação. Esse documento não possuía mais a ideia de elaborar e implantar um Plano Nacional de Educação, entre outros dispositivos anteriores. Apesar de também existir um capítulo para a Educação Nacional, praticamente não havia menções a quaisquer direitos dos professores, a não ser o fato de que o Ensino Religioso não poderia “constituir objeto de obrigação dos mestres ou professores, nem de frequência compulsória por parte dos alunos”. Quanto aos dispositivos relativos ao funcionalismo público, a Constituição de 1937 praticamente repete os itens presentes na Constituição de 1934, com a exceção de que no artigo 159 se estabelece claramente que é vedada a acumulação de cargos públicos remunerados da União, dos estados e dos municípios. Na Constituição de 1946 é retomado um número de importantes Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini aspectos relativos à Educação Nacional, já presentes na Constituição de 1934. Alguns desses aspectos são a vinculação constitucional, a inspiração na liberdade e nos ideais da solidariedade humana, a obrigatoriedade, a gratuidade, entre outros. Quanto à condição docente, no artigo 168, inciso IV, previa-se que as empresas industriais e comerciais são obrigadas a ministrar, em cooperação, aprendizagem aos seus trabalhadores menores, pela forma que a lei estabelecer, respeitados os direitos dos professores;[...] VI - para o provimento das cátedras, no ensino secundário oficial e no superior oficial ou livre, exigir-se-á concurso de títulos e provas. Aos professores, admitidos por concurso de títulos e provas, será assegurada a vitaliciedade; VII - é garantida a liberdade de cátedra (BRASIL, 1946, art. 168). (grifos nossos) No capítulo “dos Funcionários Públicos”, artigos 185 e 186, além de diversos direitos e responsabilidades definidas, também se fazia menção à possibilidade de acúmulo de cargos pelo magistério, dentro das condições estabelecidas – dois cargos de magistério ou um de magistério com outro técnico ou científico –, contanto que houvesse correlação de matérias e compatibilidade de horário, bem como se definia que a “primeira investidura em cargo de carreira e em outros que a Lei determinar efetuar-se-á mediante concurso, precedendo inspeção de saúde”. No artigo 203, destacava-se ainda que “nenhum imposto gravará diretamente os direitos de autor, nem a remuneração de professores e jornalistas” (BRASIL, 1946). Ainda com relação a salário dos professores, a Lei Orgânica do Ensino Normal, Decreto-Lei n. 8.530 de 1994, previa que “aos professores de ensino normal será assegurado remuneração condigna” (artigo 49). Ela também previa que o provimento dos professores em caráter efetivo deveria ser por meio de concurso público. A Lei Orgânica do ensino primário, Decreto-Lei n. 8.529, de 1946, não fazia referência ao salário e à carreira dos professores, mas estabelecia, no artigo 35, que “os poderes públicos 147 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais 148 providenciarão no sentido de obterem contínuo aperfeiçoamento técnico do professorado das suas escolas primárias”. A Constituição de 1967, a da República Federativa do Brasil, promulgada simultaneamente pelas Mesas das Casas do Congresso Nacional (estabelecida em período ditatorial militar), definiu que cabia à União estabelecer o Plano Nacional de Educação (e de Saúde) e legislar sobre as diretrizes e bases da Educação Nacional e as condições de capacidade para o exercício das profissões liberais e técnico-científicas. Em termos do funcionalismo público, entre outras disposições, estabelecia a necessidade de concursos públicos e admitia o acúmulo de cargos (artigo 97) somente nos casos de juiz e um cargo de professor, de dois cargos de professor e de um cargo de professor com outro técnico ou científico. No capítulo da Educação, além de não mais estabelecer a vinculação constitucional, permitir o acesso a verbas públicas ao setor privado, definir que o acesso aos níveis posteriores ao primário seria gratuito somente para aqueles que demonstrassem falta de recursos, entre outras disposições, no que diz respeito aos docentes, ela estabelecia como um de seus princípios que “o provimento dos cargos iniciais e finais das carreiras do magistério de grau médio e superior será feito, sempre, mediante prova de habilitação, consistindo em concurso público de provas e títulos quando se tratar de ensino oficial” (inciso V) e, contraditoriamente, o inciso VI garantia a liberdade de cátedra. Numa condição de excepcionalidade, a Emenda Constitucional n. 1, de 1969, outorgada por uma junta militar que se utilizou das atribuições que lhes conferia o artigo 3º do Ato Institucional n. 16, de 14 de outubro de 1969, combinado com o § 1º do artigo 2º do Ato Institucional n. 5, de 13 de dezembro de 1968, provocou pouca mudança nos dispositivos constitucionais relativos à Educação. Há, inclusive, a manutenção de praticamente as mesmas condições para o funcionalismo (já apresentadas anteriormente) que também alcançavam o magistério. Além disso, no inciso VI do § 3 do artigo 176, estava repetido o que constava na Constituição de 1967 a Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini respeito do provimento de cargos via concurso. No entanto, no inciso VII do mesmo artigo estabeleceu-se de modo explícito “a liberdade de comunicação de conhecimentos no exercício do magistério, ressalvado o disposto no art. 154”, alterando o conceito de liberdade de cátedra vigente desde 1934, pois ao se verificar o conteúdo do artigo 154, encontra-se o seguinte: O abuso de direito individual ou político, com o propósito de subversão do regime democrático ou de corrupção, importará a suspensão daqueles direitos de dois a dez anos, a qual será declarada pelo Supremo Tribunal Federal, mediante representação do Procurador Geral da República, sem prejuízo da ação cível ou penal que couber, assegurada ao paciente ampla defesa (BRASIL, 1969). Sem retornar demasiadamente ao passado, na legislação infraconstitucional, em termos nacionais, na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei n. 4024/61) previamse alguns aspectos relativos à carreira e à remuneração docente. Logo de início, no artigo 16, estabelece-se como uma das condições para o reconhecimento do funcionamento dos estabelecimentos pelos sistemas de ensino a “garantia de remuneração condigna aos professores”. Na Lei há diferentes destaques quanto à questão da formação inicial para a docência e para as demais funções de magistério. Porém, de modo alternativo à necessidade de estatutos e regimes jurídicos ligados à esfera estatal para a incumbência do ensino público, no artigo 21 estava previsto que o ensino, em todos os graus, “poderia ser ministrado em escolas públicas, mantidas por fundações cujo patrimônio e dotações sejam provenientes do Poder Público, ficando o pessoal que nelas servir sujeito, exclusivamente, às leis trabalhistas” (BRASIL, 1961, art. 21). Há ainda na Lei um grande destaque quanto à necessidade de registro de professores mantido pelo Ministério da Educação e Cultura. Entretanto, não há menção explícita à necessidade de planos de carreira e de remuneração para o magistério oficial. 149 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais 150 Somente no artigo 60 estava fixado que “o provimento efetivo em cargo de professor nos estabelecimentos oficiais de ensino médio seria feito por meio de concurso de títulos e provas” e que o “magistério nos estabelecimentos de ensino médio só poderia ser exercido por professôres (sic) registrados no órgão competente” (BRASIL, 1961, art. 61). Na mesma Lei (BRASIL, 1961), no capítulo relativo ao financiamento da Educação, há dispositivos que resguardam recursos para a ação docente na medida em que considerava como despesas de Educação as verbas utilizadas para o aperfeiçoamento de professores, incentivo à pesquisa e realização de congressos e conferências. Bem como prescrevia a União como responsável pela cooperação financeira ao ensino sob a forma de assistência técnica, mediante convênio visando ao aperfeiçoamento do magistério, à pesquisa pedagógica e à promoção de congressos e seminários. Na lei 5.692/71, os aspectos ligados à carreira, ao salário e ao financiamento da condição docente estão muito mais explícitos. Nela estão contemplados os aspectos ligados à formação inicial dos professores e das demais funções de magistério que se apresenta articulada ao modelo de formação superior estabelecido pela lei 5.540/68. Essa lei trata das licenciaturas curtas, licenciaturas plenas, departamentalização, sistemas de créditos, entre outros, bem como dos registros profissionais exigidos e mantidos pelo MEC conforme o artigo 40, que determinava que “será condição para exercício de magistério ou especialidade pedagógica o registro profissional, em órgão do Ministério da Educação e Cultura, dos titulares sujeitos à formação de grau superior” (BRASIL, 1971, art. 40). Há na lei 5.692/71 outros artigos importantes a serem lembrados. A título de exemplificação, no artigo 34 estava previsto que a admissão de professores e especialistas no ensino oficial de 1º e 2º graus seria feito “por concurso público de provas e títulos, obedecidas para inscrição as exigências de formação” constantes da própria Lei. O artigo 35 definiu que “não haveria Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini qualquer distinção, para efeitos didáticos e técnicos, entre os professores e especialistas subordinados ao regime das leis do trabalho e os admitidos no regime do serviço público.” (BRASIL, 1971). De modo muito claro, no artigo 36 havia o dispositivo que determinava que em cada sistema de ensino haveria “um estatuto que estruture a carreira de magistério de 1º e 2º graus, com acessos graduais e sucessivos, regulamentando as disposições específicas da presente Lei e complementando-as no quadro da organização própria do sistema” (BRASIL, 1971, art. 36), e para a rede privada estabelecia, no artigo 37, que ela deveria obedecer “às disposições específicas desta Lei, às normas constantes obrigatòriamente (sic) dos respectivos regimentos e ao regime das Leis do Trabalho”. No artigo 38, previa-se que “os sistemas de ensino estimularão, mediante planejamento apropriado, o aperfeiçoamento e atualização constantes dos seus professores e especialistas de Educação” e, finalmente, determinava-se que os sistemas de ensino deveriam “fixar a remuneração dos professores e especialistas de ensino de 1º e 2º graus, tendo em vista a maior qualificação em cursos e estágios de formação, aperfeiçoamento ou especialização, sem distinção de graus escolares em que atuem” (BRASIL, 1971, art. 39). Caso houvesse alguma condição que prejudicasse o professor com o estabelecimento da lei 5.692/71, o artigo 86 garantia que ficariam “assegurados os direitos dos atuais professores, com registro definitivo no Ministério da Educação, antes da vigência desta Lei” (BRASIL, 1971, art. 86). Inclusive no que diz respeito ao auxílio financeiro da União aos sistemas estaduais de ensino havia certas condicionalidades, pois esses sistemas deveriam propor planos com duração de quatro anos, aprovados pelos respectivos Conselhos de Educação e em consonância ao planejamento nacional da Educação. Os recursos então viriam para corrigir as diferenças regionais tendo em conta, também, o respectivo estatuto do magistério, bem como a remuneração condigna e pontual dos professores. 151 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais 3- Os planos de carreira, cargos e salários dos profissionais da Educação Básica na legislação brasileira pós CF/88 A valorização dos profissionais da Educação como um dos princípios sob os quais o ensino deve ser ministrado foi consolidada na Constituição Federal de 1988 (CF/88). Entende-se, assim, que a existência de planos de carreira do magistério público constitui aspecto importante na realização do direito à Educação. O artigo 206, inciso V, da CF/88 diz que: O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: [...] V- valorização dos profissionais do ensino, garantido, na forma da lei, plano de carreira para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, assegurado regime jurídico único para todas as instituições mantidas pela União (BRASIL, 1988, art. 206). Em 1998, a Emenda Constitucional n. 19/98 modificou o inciso V do art. 206, no que se refere ao regime jurídico único para as instituições de responsabilidade da União, mantendo, no entanto, a necessidade de estados e municípios elaborarem planos de carreira para os profissionais do ensino. O ensino deve ser ministrado com base nos seguintes princípios: [...] V- Valorização dos profissionais do ensino, garantidos, na forma da lei, planos de carreira para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos (BRASIL, 1998, art. 206). 152 A Emenda Constitucional n. 14, de 24 de dezembro de 1996 (EC 14/96), deu nova redação ao artigo 60 do Ato das Disposições Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini Constitucionais Transitórias da CF/88, estabelecendo o ensino fundamental como prioridade e destinando, no mínimo, 60% dos recursos que financiam a Educação à manutenção e desenvolvimento do ensino fundamental. Nos dez primeiros anos da promulgação desta Emenda, os Estados, o Distrito Federal e os municípios destinarão não menos de sessenta por cento dos recursos que se refere o caput do art. 212 da Constituição Federal à manutenção e ao desenvolvimento do ensino fundamental, com o objetivo de assegurar a universalização de seu atendimento e a remuneração condigna do magistério (BRASIL, 1996). Além disso, a lei n. 9.424/96, que regulamentou o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) – alegando estabelecer mais valorização do magistério –, estabeleceu no artigo 7º que dos impostos que viriam a compor o fundo, incluída a complementação da União, quando for o caso, “serão utilizados pelos Estados, Distrito Federal e municípios, assegurados, pelo menos, 60% para a remuneração dos profissionais do Magistério em efetivo exercício de suas atividades no ensino fundamental público” (BRASIL, 1996, art. 7). A mesma Lei estabeleceu prazo para que estados, municípios e Distrito Federal elaborassem novos planos de carreira para o magistério. Art. 9º - Os Estados, o Distrito Federal e os municípios deverão, no prazo de seis meses da vigência desta Lei, dispor de novo Plano de Carreira e Remuneração do Magistério, de modo a assegurar: I- a remuneração condigna dos professores do ensino fundamental público, em efetivo exercício no Magistério; II- o estímulo ao trabalho em sala de aula; III- a melhoria da qualidade do ensino. § 1º - Os novos planos de carreira e remuneração 153 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais do Magistério deverão contemplar investimentos na capacitação dos professores leigos, os quais passarão a integrar quadro em extinção, de duração de cinco anos. § 2º - Aos professores leigos é assegurado prazo de cinco anos para a obtenção da habilitação necessária ao exercício das atividades docentes. § 3º - A habilitação a que se refere o parágrafo anterior é condição para ingresso no quadro permanente da carreira conforme os novos planos de carreira e remuneração (BRASIL, 1996). Esse prazo não foi necessariamente cumprido por todos os estados e municípios, mas a tentativa era, mais uma vez, de gerar a necessidade dos entes federados de elaborarem planos de carreira para os profissionais de suas redes de ensino, o que tem sido feito a muito custo, de forma paulatina, nas últimas décadas. Ainda em relação à questão do plano de carreira, o artigo 10 da lei n. 9.424/96 estabelece que “Os Estados, o Distrito Federal e os municípios deverão comprovar: [...] II- apresentação de Plano de Carreira e Remuneração do Magistério, de acordo com as diretrizes emanadas do Conselho Nacional de Educação, no prazo referido no artigo anterior” [...]. Além do exposto na CF/88, a valorização dos profissionais da Educação foi tratada na LDB/96 no artigo 67 do Título VI, no qual são estabelecidos os itens que devem ser assegurados nos estatutos e planos de carreira do magistério público: 154 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 I- ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos; II- aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com licenciamento periódico remunerado para esse fim; III- piso salarial profissional; IV - progressão funcional baseada na titulação ou habilitação e na avaliação de desempenho; V- período reservado a estudos, planejamento e avaliação, incluído na carga de trabalho; VI- condições adequadas de trabalho. Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini Parágrafo único - A experiência docente é pré-requisito para o exercício profissional de quaisquer outras funções de magistério, nos termos das normas de cada sistema de ensino (BRASIL, 1996). Em cumprimento às suas atribuições e ao disposto na CF/88 e na LDB/96, a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE/CEB) estabeleceu as “Diretrizes para os novos Planos de Carreira e Remuneração do magistério dos Estados, Municípios e Distrito Federal” por meio da Resolução n. 3, de 8 de outubro de 1997. Nessa Resolução foram estabelecidos os aspectos que devem ser considerados pelos entes federados, na formulação ou reformulação dos planos de carreira dos profissionais da Educação Básica. No mês anterior, o CNE/CEB havia aprovado o Parecer n. 10/1997 com considerações e justificativas acerca do exposto na Resolução n. 3/97. Entretanto, antes do Parecer n. 10/97, homologado pelo ministro da Educação, e da Resolução n. 3/97, o CNE/CEB havia aprovado o Parecer n. 2, de 26 de fevereiro de 1997, cujo relator foi o Conselheiro João Antonio Cabral de Monlevade. Tal Parecer, porém, não foi homologado pelo então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, que solicitou novo parecer ao CNE/CEB. De acordo com o Parecer n. 2/97 estimava-se que o piso salarial nacional mensal do professor poderia estar entre R$ 400,00 e R$ 450,00. O Piso Salarial, numa perspectiva de carreira de variação de índice 100 para 300, onde o salário médio estaria por volta do índice 200, teria que ser necessariamente inferior a 50% do salário médio potencial nacional, portanto de R$ 496,80 para baixo. Os vencimentos iniciais de cada carreira poderão ser maiores, dependendo da arrecadação de cada estado ou município, do perfil dos componentes da carreira e de percentuais maiores de verbas vinculadas à educação. Mas o PSPN, para ser praticável por todos os sistemas, supondo-se a estrutura de suplementação prevista 275 155 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais pelo artigo 75 da Lei 9.394/96, que parte da “capacidade de atendimento” de cada sistema referenciado pelo “custo-alunoqualidade”, deve-se situar hoje, no nosso entendimento, entre R$ 400,00 e R$ 450,00, para sinalizar alguma valorização do Magistério (BRASIL, 1997, p. 274-275). No Parecer n. 10/97, a proposta de piso salarial foi estimada num mínimo de R$ 240,00 e num máximo de R$ 360,00. Notase que há diferença na compreensão do papel do Estado na valorização do magistério entre os Pareceres, conforme declaração de voto do conselheiro João Monlevade. 156 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 O Parecer 02/97 e o texto consensuado no Rio de Janeiro pelos novos redatores da matéria, constante das atas da CEB, embutiam no projeto de Resolução, não como mandamento legal, mas como recomendação política a que se poderiam referir os sistemas de ensino e os sindicatos de trabalhadores da educação, um referencial de vencimento inicial igual ou superior a um Piso Salarial Profissional Nacional que bem poderia se situar com as arrecadações de hoje e com o FVM em R$ 500,00 para jornada de 40 horas semanais com 25% de horas-atividade, o que elevava o potencial de atendimento de cada professor a 37,5 alunos no conjunto do sistema. E assegurava que a política de valorização do magistério passaria pelo estabelecimento de um custo-aluno qualidade, previsto tanto na LDB como na Lei 9.424/96, que regulamenta o artigo 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal. Estados e Municípios, obedecida a sua capacidade de atendimento nos termos do artigo 75 da Lei 9.394/96, que pudessem oferecer vencimentos iniciais maiores e proporção maior de horas-atividade, estariam livres e instados a fazê-lo, sem perigo de engessamento administrativo ou inviabilização financeira, pois o projeto de Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini Resolução estabelecia limites de progressão na carreira e sinalizava outras formas de financiamento dos inativos da educação, que hoje gravam inexoravelmente os recursos vinculados ao ensino (BRASIL, 1997b, p. 328-329). Ainda sobre a carreira do magistério e a remuneração docente, o Plano Nacional de Educação, lei n. 10.172/01 (PNE/2001), fruto de intensa disputa de projetos no Congresso Nacional – em que de um lado havia uma proposta elaborada pelos setores organizados da sociedade civil, materializado no denominado Plano Nacional de Educação - Proposta da Sociedade Brasileira, e de outro lado, uma proposta do MEC – propôs timidamente, entre os objetivos e as metas relacionados ao magistério da Educação Básica: a implementação de jornada de tempo integral para o docente, preferencialmente cumprida numa única escola; a destinação de 20% a 25% da carga horária dos professores para atividades de preparação de aula, correção de provas e reuniões pedagógicas; salário condigno, competitivo, no mercado de trabalho, com outras ocupações que requerem nível equivalente de formação; garantia, igualmente, de novos níveis de remuneração em todos os sistemas de ensino, com piso salarial próprio, de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação, assegurando a promoção por mérito, entre outras medidas. Em 2006, a Emenda Constitucional n. 53, de 20 de dezembro de 2006 (EC 53/06), que criou o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), deu nova redação ao inciso V do artigo 206 da CF/88, mudando a denominação de profissionais do ensino para profissionais da educação e visando a “valorização dos profissionais da educação, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos da rede pública”. Além dessa modificação, a EC 53/06 acrescentou o inciso VII, que trata do Piso Salarial Profissional Nacional (PSPN) para os profissionais da Educação Escolar Pública. 157 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais A lei n. 11.494/2006, que regulamenta o Fundeb, determina no artigo 22 que “pelo menos 60% (sessenta por cento) dos recursos anuais totais dos Fundos serão destinados ao pagamento da remuneração dos profissionais do magistério da educação básica em efetivo exercício na rede pública”. Em relação à carreira e ao piso dos profissionais da Educação, estabelece que: Art. 40. Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão implantar Planos de Carreira e remuneração dos profissionais da educação básica, de modo a assegurar: I - a remuneração condigna dos profissionais na educação básica da rede pública; II - integração entre o trabalho individual e a proposta pedagógica da escola; III- a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem. Parágrafo único. Os Planos de Carreira deverão contemplar capacitação profissional especialmente voltada à formação continuada com vistas à melhoria da qualidade do ensino. Art. 41. O poder público deverá fixar, em Lei específica, até 31 de agosto de 2007, piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica. (BRASIL, 2007). Apesar de o prazo estabelecido pela lei n. 11.494/07 ser agosto de 2007, a instituição do PSPN para os profissionais da Educação Básica pública ocorreu somente em 2008, com a lei n. 11.738/08. A Lei estabelece o prazo de um ano para que os Planos de Carreira e Salários sejam adaptados às novas condições previstas. Além disso, a Lei prevê que 158 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Art. 2º O piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica será de R$ 950,00 (novecentos e cinquenta reais) mensais, para a formação em nível médio, na modalidade Normal, prevista no art. 62 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini § 1º O piso salarial profissional nacional é o valor abaixo do qual a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios não poderão fixar o vencimento inicial das Carreiras do magistério público da educação básica, para a jornada de, no máximo, 40 (quarenta) horas semanais. [...] § 4º Na composição da jornada de trabalho, observar-se-á o limite máximo de 2/3 (dois terços) da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos (BRASIL, 2008). Infelizmente, após a sanção presidencial à lei 11.738/08, cinco governadores (dos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Ceará), com o apoio dos governadores de São Paulo e Minas Gerais, entraram com uma representação de inconstitucionalidade da Lei junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) por conta do valor do PSPN e da jornada a ele correspondente, o que retardou ainda mais a aplicação do PSPN. Até o momento, o STF aprovou os valores correspondentes ao PSPN (embora o entendendo como o total da remuneração percebida pelo docente) e ainda não se posicionou quanto à legalidade da jornada a ele correspondente). Em consideração à EC 53/06 e às leis n. 11.494/07 e 11.738/08 e pareceres anteriores, o CNE/CEB aprovou o Parecer n. 9/2009, que trata da revisão da Resolução n. 3/97 e da Resolução n. 2/2009, que fixa as novas diretrizes para os planos de carreira e remuneração dos profissionais do magistério da Educação Básica. É com base nessas legislações recentes que estados e municípios devem criar ou reformular os planos de carreira dos profissionais da Educação Básica. Breves considerações finais Para finalizar, é importante ressaltar que houve “mudanças” nas orientações de documentos internacionais, pois enquanto a Recomendação de 1966 era bastante detalhista e rica quanto aos 159 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Carreira e salário do pessoal docente da Educação Básica: algumas demarcações legais itens e disposições para a implantação de Planos de Carreira e Remuneração para os docentes nos diferentes países, o documento final da Conferência de Dakar de 2000 se apresenta de modo muito genérico, simplificador e pobre no trato da condição docente. Ressalte-se, também, que elementos do que podemos identificar como necessários ao estabelecimento de Planos de Carreira e Remuneração de professores estão expressos em legislações no Brasil desde o Império, seja em âmbito constitucional ou infraconstitucional. No caso das disposições constitucionais, percebe-se, quanto à presença de aspectos relativos à condição docente – necessidade de planos de carreira e remuneração para professores – uma dinâmica semelhante às vinculações das verbas para a Educação. Ou seja, nos períodos em que prevaleceram regimes democráticos, foram estabelecidas vinculações de percentuais de impostos para a Educação nas Constituições do país para suprir o conceito de manutenção e desenvolvimento da Educação conforme já identificado por vários autores como Melchior (1987), Arelaro (1999), Davies (2000), Oliveira (2007), Pinto (2000). Os mesmos períodos foram também aqueles em que se apresentaram de forma mais explícita os aspectos relativos à condição docente nas Constituições do país. Há uma espécie de “paralelo” nessa situação, denotando que nos períodos democráticos há uma ascensão das mobilizações docentes em termos da Educação Nacional, e as inscrições constitucionais, de certa forma, refletem tal configuração política. Em termos da legislação recente (após a CF/88), as determinações sobre a necessidade de se estabelecer ou rever planos de carreira e remunerações para os docentes foram frequentes, porém os diferentes interesses políticos, econômicos e sociais e a dinâmica das forças políticas em conflito nas diferentes esferas administrativas é que permitem aferir quando e onde eles foram e serão implantados de fato. 160 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini Referências ARELARO, L. R. Financiamento e qualidade da educação brasileira: algumas reflexões sobre o documento “Balanço do primeiro ano do Fudef - relatório MEC”. In: DOURADO, L. F. Financiamento da educação básica. 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Fixa Diretrizes para os Novos Planos de Carreira e de Remuneração para o Magistério dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Brasília, 1997. Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini ______. Parecer do CNE n. 10, de 3 de setembro de 1997. Estabelece as Diretrizes para os Novos Planos de Carreira e de Remuneração do Magistério dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Brasília, 1997. ______. Emenda Constitucional n. 14, de 1996. Modifica os artigos 34, 208, 211 e 212 da Constituição Federal e dá nova redação ao artigo 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ e1496.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2010.. ______. Emenda Constitucional n. 19, de 1998. 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Fixa as Diretrizes Nacionais para os Planos de Carreira e Remuneração dos Profissionais do Magistério da Educação Básica Pública, em conformidade com o artigo 6º da Lei n. 11.738, de 16 de julho de 2008, e com base nos artigos 206 e 211 da Constituição Federal, nos artigos 8º, § 1º, e 67 da Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e no artigo 40 da Lei n. 11.494, de 20 de junho de 2007. ______. Decreto-Lei Imperial, de 15 de outubro de 1827. Disponível em: <http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/ decreto-lei_imperial.htm>. Aceso em: 20 out. 2010. _______. Lei n. 10.172, de 9 de janeiro de 2001. Plano Nacional de Educação (PNE). Brasília: MEC, 2006. Disponível em: <www.mec.gov.br>. Acesso em: 18 jun. 2006. ______. Parecer CNE/CEB n. 2, de 26 de fevereiro de 1997. Diretrizes para a Carreira e Remuneração do Magistério Público. 164 ______. Emenda Constitucional n. 53, de 19 de dezembro de 2006. Dá nova redação aos arts. 7º, 23, 30, 206, 208, 211 e 121 da Constituição Federal e ao art. 60 do Ato das Disposições Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Rubens Barbosa de Camargo, Márcia Aparecida Jacomini Constitucionais Transitórias. Brasília, 2006. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ emendas/emc/emc53.htm>. Acesso em: 07 dez. 2010. DAVIES, N. Verbas da Educação: o legal x o real. Niterói, RJ: EdUFF, 2000. FURTER, P. Os sistemas de formação em seus contextos: introdução a um método de educação comparada. Rio de Janeiro: FGV/ IESAE, 1980. MARTINS, V. Como surgiu o Dia do Professor. In: Arte educação-Querido Mestre. Disponível em <http://www. arteducacao.pro.br/homenagem/queridomestre.htm>. Acesso em: 20 out. 2010. MELCHIOR, J. C. de A. O financiamento da educação no Brasil. São Paulo: EPU, 1987. OIT/UNESCO. 1966. 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In Brazil, it was in democratic periods that there were greater legal concern about teachers’ career and salary, such as the current constitutional linkage to finance education. From the last Federal Constitution (1988), it was possible to notice an increase in the number of legal provisions on teachers’ career and salary, due to the duty of states and municipalities to develop career plans for educationprofessionals. Keywords: Basic Education; teachers salary; teachers career. 167 Ano 14 - n. 17 - julho 2011 - p. 129-167 Normas para publicação A remessa dos originais deve seguir os seguintes critérios: 1. A revista Educação em Foco é uma publicação semestral do Centro de Comunicação da Faculdade de Educação, Campus Belo Horizonte, Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG. A publicação aceita para análise trabalhos científicos redigidos em português, espanhol ou inglês relacionados com educação. 2. O trabalho será submetido ao julgamento de especialistas do Conselho Científico, cujas áreas de competência estão relacionadas com o tema do texto. Os avaliadores não terão conhecimento do nome do autor e vice-versa. Serão publicados aqueles com pareceres favoráveis. 3. O trabalho reflete as opiniões de seu autor e não obrigatoriamente do Conselho Científico. Ele deve ser inédito. Uma vez publicado na revista Educação em Foco, o artigo pode ser reproduzido com a indicação da fonte original. 4. O trabalho - com suas ilustrações, gráficos, tabelas e referências bibliográficas - deverá ter entre 15 e 20 laudas digitadas em espaço 1,5, em fonte tipo Arial, tamanho 12, com 30 linhas de 70 toques (máximo 42mil caracteres). 5. Uma cópia impressa do artigo deverá ser encaminhada em uma única face e uma cópia digitada no programa Word for Windows, em CD, além de uma declaração, autorizando sua publicação na revista. 6. Os trabalhos não serão devolvidos ao autor. 7. Na página inicial, deverão constar o título do artigo, o nome do autor/ autores, titulação, instituição onde trabalha e endereço completo - inclusive e-mail. 8. Acompanhando o artigo, dois resumos, um em português e outro em inglês com, no mínimo 100 e no máximo 150 palavras cada um deles, além de título em inglês. Aos resumos devem se seguir três a cinco palavras-chave. 9. Ao final do artigo, deve ser colocada a referência pertinente, de acordo com a ABNT. 10. Três exemplares do número da revista em que seu trabalho for publicado serão fornecidos ao autor. 11. As colaborações deverão ser enviadas para o endereço: Educação em Foco Centro de Comunicação - CenC - da FaE/CBH/UEMG Rua Paraíba, 29 - sala 704 - Belo Horizonte - MG Cep: 30.130-140 - Telefone: (31)3239-5912 e-mail: [email protected] e [email protected] EDUCAÇÃO EM FOCO REVISTA DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO/CBH/UEMG Título do artigo: __________________________________________ ________________________________________________________ Número de páginas: _______________________________________ Análise do parecerista: _____________________________________ ________________________________________________________ Parecer n. ______ Recebido em: ___/___/___ Devolvido em: ___/___/___ CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS DO ARTIGO SIM NÃO Assunto tratado adequado à revista Claramente apresentado e bem organizado Referências adequadas e relacionadas ao trabalho Resumo informativo, cobrindo todo o conteúdo (100 a 150 palavras) Palavras-chave (máximo de cinco) Número de páginas satisfatório (máximo de 20 laudas) Conclusões justificadas Indique sua recomendação para esta matéria: ______ é aceitável ______ sem revisão ______ com revisão no teor ______ com revisão na forma ______ com sugestões ______ não é apropriado para a revista Se necessário, favor listar alguns comentários ou sugestões específicas em uma folha separada. Para obter mais informações sobre os títulos da EdUEMG, visite o site http://eduemg.uemg.br/ Esta revista foi composta em Belo Horizonte para o Centro de Comunicação - CenC da FaE/CBH/UEMG e impressa em papel off set 75g na tipologia Book Antiqua, corpo 10, entrelinha 14, capa em papel Triplex 250g.