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©2015 Breno Machado dos Santos
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S2373 Santos, Breno Machado dos
Os jesuítas no Maranhão e Grão-Pará seiscentista: uma análise sobre os
escritos dos protagonistas da Missão/Breno Machado dos Santos. Jundiaí,
SP: Paco Editorial, 2015.
388 p. Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-8148-914-8
1. Maranhão e Grão-Pará 2. Companhia de Jesus 3. Epistolografia
4. Brasil Colonial. I. Santos, Breno Machado dos.
CDD: 981
Índices para catálogo sistemático:
História do Brasil – Período Colonial
Missões
Retórica Epistolar
IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Foi feito Depósito Legal
981.03
266
808.6
À memória de meus amados irmãos, Thiago e Tarso.
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais, por terem sempre acreditado em mim.
A Lívia, por ter caminhado lado a lado comigo com extrema
paciência e amor.
A Bia, pela orientação e suporte desde meus primeiros passos
na graduação.
Aos professores Fernando Torres-Londoño, Robert Daibert
Jr., Maria Cristina Bohn Martins e Sonia Cristina Lino, por
terem dedicado tempo e atenção ao meu trabalho.
Ao admirável e solícito professor Luiz Fernando Medeiros, por
ter aberto portas.
Aos professores do PPCIR, pelos ensinamentos.
A Antonio Celestino, pela solidariedade.
A Carlos e Heiberle, pela amizade durante todos estes anos.
A Terezinha, pelas preces.
À FAPEMIG, pelo financiamento.
Quem me dera poder agora chamar por seus nomes as almas
de todos aqueles que eu acompanhei, quando fui à missão do
Maranhão, e nela trabalharam e morreram gloriosamente!
Padre Antônio Vieira
Exortação I em Véspera do Espírito Santo, 1688.
Sumário
Prefácio
11
Introdução
17
Capítulo 1
Os escritos dos padres Luís Figueira e Manuel Gomes
e a construção da Missão do Maranhão e Grão-Pará
durante a primeira metade do século XVII
33
Capítulo 2
“A messe será abundante, contanto que não
faltem obreiros”: a empresa jesuítica no Estado
do Maranhão e Grão-Pará por meio das cartas
do padre Antônio Vieira (1652-1661)
133
Capítulo 3
247
Os jesuítas na Amazônia portuguesa na segunda metade
do século xvii: um estudo em torno da Crônica do
padre Bettendorff e de suas narrativas hagiográficas
Conclusão
361
Referências
365
PREFÁCIO
Entre textos e contextos:
uma viagem pelas missões
jesuíticas do Maranhão e
Grão-Pará
Em meados do século XIX, após uma longa viagem pelos
Estados Unidos, o francês Alexis de Tocqueville teve um insight:
se a infância é o momento privilegiado para se compreender
os desenvolvimentos da vida de um ser humano, isso poderia
também ser aplicado para entender os de uma nação.1 Certamente que, sendo ele um francês, jamais consideraria qualquer
possibilidade de abordar, por essa via, a história de seu país.
A infância da França, por sua antiguidade, era inapreensível.
Mas qual não foi sua surpresa durante a mencionada visita e
estudo sobre os recém-fundados Estados Unidos da América
do Norte na década de 1830! O país contava então com poucas décadas de existência e ainda era-lhe possível entrevistar
ou ter contato com alguns dos protagonistas que participaram
de sua fundação entre 1776 e 1790. Ou seja, estudar um país
em sua infância, retroagindo ao nascimento.
Aproprio-me dessa ponderação de Tocqueville para apresentar o excelente trabalho do jovem historiador Breno Machado dos Santos que conheci quando transitava entre a adolescência e a vida adulta, ingressando no curso de História da
UFJF em 2002. E na infância de seus estudos sobre os jesuítas.
Olhando agora para trás diria que a gestação deste livro talvez
tenha começado desde 2004, embora, claro, nem ele nem eu
tivéssemos ideia disso. Ou seria mais apropriado falarmos em
1. TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Belo Horizonte: Itatiaia;
São Paulo: EDUSP, 1977.
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Breno Machado dos Santos
gestações ao invés de gestação, apenas para distinguir a busca
de genealogias da busca por uma origem? De qualquer forma,
me sinto um pouco como Tocqueville ao apresentar este autor
e sua obra. É como se tivesse acompanhado, mais ou menos de
perto, a gestação e o parto deste trabalho, que ocorreu paralelamente ao amadurecimento do jovem autor. É mais factível
em alguém mais jovem do que em nós mesmos.
Breno se apaixonou pela temática do índio e de sua catequese desde a graduação em História na UFJF, iniciada em
2002 e concluída em 2006. Nesse estágio fui sua professora de
História da América, disciplina da qual foi monitor. Em 2006 se
tornou meu bolsista de Iniciação Científica, atuando no projeto
“Jesuítas, Ilustração e a busca de uma identidade cultural para
o Brasil na segunda metade do século XVIII”. O interesse se
manteve durante o mestrado em Ciência da Religião na UFJF,
entre 2007 e 2009, sob minha orientação. Breno escreveu sobre
os jesuítas no “Brasil dos Felipes”, enfocando as distintas posturas do modus procedendi dos inacianos, dependendo da opção
pelas missões indígenas ou pelos colégios, a partir do estabelecimento da União Ibérica.2 Nesse estágio, era clara sua preferência pelo trabalho desses religiosos junto aos índios nas aldeias.
Mas já problematizava abordagens dicotômicas entre ambas.
O interesse pela heterogeneidade no interior da Ordem
permaneceu durante o doutorado na mesma instituição, entre 2009 e 2013, quando ocorreu um grande amadurecimento no “romântico” defensor da “ala missionária” jesuítica em
contraposição aos irmãos de hábito envolvidos com a atividade educacional nas cidades, em grande parte orientada
para os filhos das elites coloniais. Portanto, longe das missões
entre os índios. A pesquisa, as participações em congressos
nacionais e internacionais e muitas discussões com pesqui2. SANTOS, Breno Machado dos. Os jesuítas no Brasil dos Felipes: encontros e
desencontros de uma Ordem plural. 2009. Dissertação (Mestrado em Ciência
da Religião) – UFJF, Juiz de Fora, 2009.
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Os jesuítas no Maranhão e Grão-Pará seiscentista: uma análise sobre os escritos dos protagonistas da Missão
sadores especialistas sobre o tema o levaram a amenizar diferenças supostamente irreconciliáveis entre as duas opções.
O resultado foi uma abordagem equilibrada, que deu realce
aos escritos de alguns jesuítas que tiveram um papel-chave
no projeto da Companhia de Jesus na Amazônia portuguesa,
em sua tese de doutorado defendida em novembro de 2013,
agora publicada pela Paco Editorial.
Breno perseguiu não a suposta história real da Ordem no
Maranhão e Grão-Pará, de resto inapreensível, mas a versão,
ou representação, que os escritos de alguns jesuítas tentaram
dar à atuação dos membros do Instituto na região. A ênfase
maior, contudo, foi no empenho dos religiosos em convencer
as autoridades da Companhia de Jesus na Europa e na própria
Província do Brasil a enviar mais missionários para auxiliá-los.
Ele resistiu a tentações proselitistas ou denegridoras restringindo-se, o quanto possível, ao que a documentação lhe permitiu,
para identificar alguns dos principais propósitos desses escritos
e analisar as operações discursivas mobilizadas por seus autores.
A opção pelo uso de cartas como fontes historiográficas dá
o eixo da obra, sendo coerente com a valorização da escrita
epistolar que caracterizou os jesuítas desde a fundação da Ordem por Inácio de Loyola em 1540. São bem conhecidas, nos
estudos das cartas jesuíticas, as diferenças entre as públicas e
as privadas, entre aquelas escritas tendo em vista um público
mais amplo, normalmente enaltecedoras da ação da Companhia de Jesus, e muitas vezes destacando as dificuldades encontradas, e aquelas restritas a destinatários seletos.3 Breno se
embasa principalmente nas abordagens delas por Fernando
Torres-Londoño e Charlotte de Castelnau-L’Estoile, às quais
acopla sua própria interpretação, amparada em uma extensa
e qualificada bibliografia. Ainda que reconhecendo o espírito
de corpo da Ordem dos Jesuítas, demarca com precisão dife3. O’MALLEY, John W. Os Primeiros Jesuítas. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS; Bauru, SP: EDUSC, 2004.
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Breno Machado dos Santos
renças talvez pouco discerníveis a olho nu entre elas. Através
da epistolografia dos padres Luís Figueira, Manuel Gomes,
Antônio Vieira e da Crônica de João Felipe Bettendorff conduz
o leitor a uma viagem no espaço e no tempo. Somos transportados às missões do Maranhão e Grão-Pará no século XVII,
tais quais percebidas por esses quatro missionários de procedência europeia. Esses escritos misturam otimismo e pessimismo, biografias e hagiografias, política e religião.
Talvez a maior contribuição deste livro para os estudos jesuíticos seja o esforço de analisar os escritos desses quatro jesuítas
em ordem cronológica, a partir de um fio condutor pouco explorado: como a experiência e, consequentemente, a propaganda sobre a importância da permanência da Companhia de Jesus
no Maranhão e Grão-Pará foram representadas na mencionada documentação. Precisamente por isso, seria quase impossível
não mencionar muitos aspectos biográficos ou hagiográficos.
Mas o livro sugere também reflexões metodológicas ao estabelecer paralelos entre protagonistas conhecidíssimos – como
é o caso de Vieira – outros menos conhecidos – Luís Figueira
e João Felipe Bettendorff – e um praticamente desconhecido.
Esse é o caso do jesuíta Manuel Gomes, cuja importância no
projeto missionário na região Breno se empenha em realçar.
É também digno de menção o esforço do autor de traçar
ou perseguir os itinerários dos missionários tentando ouvir o
que os escritos podem ou não comprovar. Karl Popper dizia
que a ciência avança com especulações audaciosas, desde que
seguidas por refutações criteriosas.4 Como é difícil encontrar
as duas características, em equilíbrio, em uma só pessoa, diria
que Breno prioriza as refutações criteriosas. Mas só pode haver refutações criteriosas onde houve especulações. E elas estiveram e estão aqui. Mas o rigor com as demonstrações não as
desvela facilmente ao leitor neste texto preciso e detalhista que
se esforça e consegue fazer falar as fontes. Ele como que “tirou
leite de pedra”, como confessava às vezes agoniado, de cartas
4. POPPER, Karl. Conjecturas e Refutações. Brasília: Editora UnB, 1986.
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Os jesuítas no Maranhão e Grão-Pará seiscentista: uma análise sobre os escritos dos protagonistas da Missão
que seguiam um script, e que eram aparentemente monótonas
e repetitivas sem alguém competente para questioná-las.
O próprio autor inclui seu trabalho, com propriedade, no
campo da História Cultural, na linha proposta por Roger Chartier. Mas eu conjecturaria que seu livro poderia ser considerado
também um trabalho de História Intelectual, na medida em
que dialoga com o passado através de textos e de “contextos”,
eles próprios construídos e constituídos por textos.5 O historiador norte-americano Dominick LaCapra fornece instigantes
sugestões de análise de obras clássicas ou “textos complexos”
da tradição ocidental. A complexidade das obras à qual LaCapra se refere não diz respeito à dificuldade intrínseca do texto,
mas ao volume de interpretações e reinterpretações existentes
sobre ele. Por serem obras já muito lidas, relidas, interpretadas
e reinterpretadas. Ou seja, por serem clássicos. Ele rejeita, contudo, a tradicional separação entre texto e contexto. Contextos,
sempre no plural, seriam também produzidos por textos.
Este livro constrói alguns contextos amazônicos através da
escrita, ou dos textos, dos missionários jesuítas selecionados. A
inserção das cartas de Vieira na análise me parece em sintonia
com um dos seis contextos sugeridos por LaCapra: o que sugere
a comparação entre textos conhecidos e desconhecidos de um
mesmo autor. No caso em questão, das cartas de Vieira aqui estudadas tendo em consideração o conjunto da produção vieiriana.
Certamente que cartas, jesuíticas ou não, dificilmente seriam consideradas “clássicos”.6 Porém, entre as possíveis exceções a essa regra estariam exatamente algumas de Antônio
Vieira, que adquiririam esse caráter por serem parte do corpus
da produção do tão lido, relido e interpretado jesuíta. Embora
essa não tenha sido a opção principal de Breno, ela está no
trabalho. Até porque as cartas de Vieira são cartas de Vieira, e
não de um missionário mais ou menos conhecido ou influente
no interior ou fora da Ordem. Já a análise das missivas de
5. LACAPRA, Dominick. Rethinking Intellectual History: Texts, Contexts, Language. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1983.
6. CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
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miolo OS JESUÍTAS NO MARANHÃO E GRÃO