ANA PAULA MARTINS PEREIRA
UM IDEAL DE PERFEIÇÃO: O CORTERSÃO E AS CORTES RENASCENTISTAS
ITALIANAS NO INÍCIO DO SÉCULO XVI
CURITIBA
2008
ANA PAULA MARTINS PEREIRA
UM IDEAL DE PERFEIÇÃO: O CORTERSÃO E AS CORTES RENASCENTISTAS
ITALIANAS NO INÍCIO DO SÉCULO XVI
Monografia de final de curso apresentada ao Curso
de História, Setor de Ciências Humanas Letras e
Artes. Departamento de História da Universidade
Federal do Paraná.
Orientadora: Profª Dra. Ana Paula Vosne Martins
CURITIBA
2008
ii
SUMÁRIO
RESUMO..................................................................................................................................iv
INTRODUÇÃO.......................................................................................................................05
CAPÍTULO 1 – A RENASCENÇA À ÉPOCA DE CASTIGLIONE................................10
1.1 O Renascimento..................................................................................................................11
1.2 O Livro................................................................................................................................20
CAPÍTULO 2 – A EDUCAÇÃO DO HOMEM DE CORTE.............................................23
2.1 Do Cavaleiro ao Cortesão...................................................................................................25
2.2 O Homem na corte.............................................................................................................30
2.3 O Cortesão como Profissão...............................................................................................33
CAPÍTULO 3 – O PAR PERFEITO....................................................................................37
3.1 O lugar da mulher...............................................................................................................37
3.2 A perfeição na União..........................................................................................................45
CONCLUSÃO.........................................................................................................................48
REFERÊNCIAS......................................................................................................................50
iii
RESUMO
O objeto desta pesquisa são as sociabilidades existentes nas cortes renascentistas italianas do final do século
XV e início do XVI tomando por base o livro "O Cortesão" de Baldassare Castiglione, publicado em 1528. O
referencial teórico utilizado é o conceito de processo civilizador desenvolvido por Norbert Elias, que entende
a sensibilização das emoções e do sentimento de vergonha como os responsáveis pelo refinamento dos
costumes, que, por sua vez, se configuram como um diferencial social. A pesquisa pretende analisar o ideal
de homens, mulheres e sociabilidade perfeitos existente na fonte, percebendo que foi um ideal de civilidade
largamente aceito pela Europa renascentista. E a partir do papel social que os indivíduos perfeitos ocupam,
problematizar a relação entre este ideal e o contexto renascentista presente na historiografia. Este tema
apresenta-se porque esta sociabilidade se configurou em um momento de transição, preservando
características medievais e influenciando a sociedade de corte do século XVII, em especial no que diz
respeito ao controle social. Além de ser o período que originou comportamentos em voga até hoje.
Palavras-chave: Renascimento, Cortesania, Civilidade.
iv
5
INTRODUÇÃO
Saber como agir corretamente em cada ambiente é uma dúvida que acredito todos
possuam. Seja no local de trabalho ou de lazer, cada espaço e cada grupo social exige um tipo
de comportamento que se torna necessário seguir quando se deseja ser aceito e conviver em
sociedade. Conhecer esta maneira de proceder é algo que intriga as pessoas há bastante
tempo.
Norbert Elias percebeu que o comportamento na sociedade ocidental se modificou
com o decorrer do tempo à medida que ocorria uma mudança estrutural nas “pessoas na
direção de maior consolidação e diferenciação de seus controles emocionais e, por
conseguinte de sua experiência e de sua conduta”1. O autor notou que à medida que os
sentimentos de vergonha e nojo foram aumentando, as características do comportamento
tornaram-se cada vez mais delicadas, desta forma ele observou uma evolução nos costumes
em direção ao patamar em que os encontramos atualmente. Este caminho foi denominado de
processo civilizador.
Elias constata que este processo se torna mais acentuado no final da Idade Média,
provavelmente devido ao advento da imprensa que fez com que tradições anteriormente orais
fossem publicadas perdurando para a posteridade. E de fato o Renascimento possuiu uma
vasta literatura que se preocupava em divulgar o comportamento considerado exemplar. Com
poucas exceções, os manuais de conduta se interessavam em retratar os ambientes da nobreza
como as cortes, proporcionando aos freqüentadores destes o aprendizado das atitudes
esperadas.
Ao entrar em contato com o livro O Cortesão2 pela primeira vez senti a preocupação
que o autor possuía em transmitir aos seus leitores uma idéia de convivência amistosa e
agradável, evidente não apenas nas falas de seus personagens, mas no próprio contexto em
que o diálogo se ambienta, pois seu texto nos leva a um universo em que todos os indivíduos
são altamente instruídos. Este livro foi escrito por Baldassare Castiglione humanista italiano
que viveu entre 1478 e 1529 e que durante este tempo serviu em diversas cortes e tornou-se
clérigo no final de sua vida. Sua obra teve a primeira edição publicada 1528, porém antes da
redação final foi reescrita várias vezes. A idéia para o livro partiu das experiências que
1
ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Uma História dos costumes. Vol.1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1994, p. 216.
2
CASTIGLIONE, Baldassare. O Cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
6
Castiglione teve nestas cortes, em especial na corte de Urbino, e da convivência com
inúmeros amigos humanistas, muitos dos quais se tornaram personagens do livro.
Desta maneira, O Cortesão foi o manual que se destacou por incorporar em seu texto
várias características humanistas e assim tentar alcançar o ideal de perfeição para homens e
mulheres. Dentre os aspectos humanistas encontrados no texto ressaltamos o diálogo que é
um gênero que tem como referência os diálogos platônicos, as inúmeras citações ao
pensamento de autores clássicos e a grande preocupação com as virtudes humanas. Os
próprios personagens são humanistas que viveram na Itália do começo do século XVI,
disseminando idéias muito semelhantes àquelas discutidas no livro, alguns escrevendo sobre o
mesmo assunto como é o caso de Pietro Bembo, autor Dos Asolani, que em sua fala n’O
Cortesão acaba por reproduzir as idéias sobre o amor platônico que estão em seu livro.
O Renascimento é de interesse dos historiadores há bastante tempo, assim como a
preocupação com a civilidade e o comportamento presentes naquela época. Segundo Burke3,
as transformações ocorridas no Renascimento, principalmente no campo da arte são do
interesse de estudo dos próprios contemporâneos. Contudo, é no século XIX que se lança um
olhar para o período enfocando as questões culturais se refletindo na sociedade da época com
o livro A civilização do Renascimento na Itália de Jacob Burckhardt4, escrito em 1860 e que
ainda é considerada uma das principais obras sobre este período, visto que é a Burckhardt que
se “associa a definição de Renascimento em termos do desenvolvimento do indivíduo e da
descoberta do mundo e do homem”5, além das questões discutidas no livro ainda hoje
instigarem os historiadores.
Ponto de muita discórdia se encontra na afirmação feita por Burckhardt no que diz
respeito à ruptura entre os períodos medieval e renascentista. Esta abordagem passa a ser
contestada no início do século XX por Huizinga6 que vê no Renascimento uma continuidade
da Idade Média. Esta tese é a mais aceita pelos historiadores atualmente, como é o caso de
Delumeau7 que não utiliza balizas temporais ou territoriais claras em seu trabalho. Ele
percebe o Renascimento como um momento em que a Europa conseguiu se reestruturar
perante as provações que havia passado nos séculos XIII e XIV, como as pestes, as guerras e
o aumento da mortalidade. E em conseqüência disso se tornou um período em que a
civilização européia conseguiu se desenvolver tecnicamente.
3
BURKE, Peter. O renascimento italiano. Cultura e sociedade na Itália. Nova Alexandria, cap. 2.
BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália. São Paulo: Cia das Letras, 1991.
5
BURKE, Peter. Introdução. IN A cultura do Renascimento na Itália. São Paulo: Cia das Letras, 1991, p. 13.
6
HUIZINGA, Johan. O declínio da Idade Média. Lisboa/Rio de Janeiro: Editora Ulisséia.
7
DELUMEAU, Jean, A civilização do Renascimento. Vol 1. Lisboa: Editorial Estampa, 1994.
4
7
Apesar de identificar um avanço tecnológico, Delumeau indica em seu trabalho que o
Renascimento não se dedicou apenas à criação e à beleza, mas se define também um lado
obscuro, com mortes e perseguições, desta maneira se distanciando um pouco mais da
abordagem de Burckhardt que se dedicou mais a um Renascimento idealizado, como por
exemplo, a referência que Burckhardt fez às mulheres como indivíduos que recebiam a
mesma consideração que os homens. Isso é claramente refutado pelos trabalhos de
historiadoras de gênero como Piponnier e Optiz8 que observam em suas pesquisas que as
mulheres não ganham destaque no cotidiano renascentista sendo sempre submissas aos
homens, explicando que este fato dificulta ainda mais a compreensão do papel social que a
mulher ocupava, devido à ausência de fontes escritas pelas próprias mulheres.
O avanço técnico ocorrido no Renascimento, explicado por Delumeau, possui suas
raízes no pensamento humanista que se desenvolveu no período. Como diz Dresdem9 não é
possível definir o que foi o pensamento humanista a partir de um grupo de características
exatas, visto que este foi um movimento que abrangeu uma grande variedade de autores e
idéias. Entretanto é possível determinar alguns aspectos principais, isto é, que foram
recorrentes em diversas obras da época, para que se possa obter um esboço do que foi o
humanismo. Dentre estas características encontramos o platonismo, a virtú, o estudo de
línguas como o grego e o latim, os estudos de proporção e harmonia, entre outros, todos estes
encontrados na obra de Castiglione, assim como em outras obras do período também
analisadas neste trabalho como A dignidade do homem de Pico della Mirandola, escrita em
1486, e Civilidade Pueril de Erasmo de Rotterdan10, de 1530. A primeira nos auxilia a
compreender o pensamento da época, em especial o lugar que o homem estava começando a
ocupar como aquele responsável pelas escolhas que faz e por aquilo que realiza. A segunda é
outro exemplo de manual de conduta, o que demonstra que as preocupações de Castiglione
estavam em pauta no início do século XVI.
A partir de Elias11 que analisou o processo civilizador, utilizando como fonte principal
essa obra de Erasmo, outros historiadores procuraram perceber o quanto os usos e costumes
influenciaram a vida durante a Renascença. Autores como Haroche, Courtine e Revel12,
8
PIPONNIER, Françoise. O universo feminino: espaços e objetos. OPTIZ, Claudia, O quotidiano da mulher no
final da Idade Média (1250-1500). In DUBY, Georges e PERROT, Michelle (Org.). História das mulheres no
Ocidente. Porto: Edições Afrontamento, 1990.
9
DRESDEM, Sem. O Humanismo no Renascimento. Porto/Lisboa: Editorial Inova/Portugália Editora, 1968.
10
Respectivamente: MIRANDOLA, Pico della. A dignidade do Homem. São Paulo: Editora Escala. ERASMO.
A civilidade Pueril. São Paulo: Editora Escala.
11
Op. Cit. ELIAS, N.
12
HAROCHE, Claudine. Da palavra ao gesto.Campinas: Papirus, 1998. ________ & Courtine, J.-J. História do
rosto.Lisboa: Teorema, 1995. REVEL, Jacques. Os Usos da civilidade. In. ARIÈS, Philippe & CHARTIER,
8
perceberam como as expressões corporais ganharam cada vez mais significado, em especial
no que diz respeito à contenção dos corpos, como um demonstrativo de civilidade. Haroche13,
por exemplo, sustenta que a constante máxima “controle de si para o controle dos outros”,
resgatada dos escritos clássicos de Platão, foi adquirindo cada vez mais importância até
chegar à sociedade de corte do século XVII, onde o monarca poderia ser reconhecido apenas
pelo andar.
Desta maneira percebemos que os manuais de civilidade possuíam grande importância
para a nobreza do Renascimento, não apenas na Itália, mas em toda a Europa, como um meio
de conhecer a melhor forma de ser aceito socialmente. O Cortesão obteve grande acolhimento
do público, segundo Burke14 ele foi lido em toda a Europa e teve reedições em diversas
línguas, ainda que nem sempre fossem cópias fiéis visto que por vezes a forma dialógica era
retirada se mantendo apenas as premissas do livro.
Assim, utilizando O Cortesão como fonte, o objetivo deste trabalho é reconhecer o
que os indivíduos que freqüentavam as cortes renascentistas italianas almejavam ser,
retratando o nobre cavaleiro letrado e a virtuosa dama palaciana e analisar as sociabilidades a
que estes indivíduos estavam sujeitos. Em seguida relacionar o ideal descrito na obra com o
contexto renascentista que encontramos na historiografia, para compreender como esses
indivíduos poderiam se enquadrar na realidade. Isto foi desenvolvido em três capítulos.
O primeiro, “A Renascença à época de Castiglione”, se dedica a analisar o contexto
em que a fonte foi redigida, ou seja, procura explicar as características do Renascimento,
assim como entender o que significava viver em uma corte renascentista italiana, observando
os papéis sociais dos indivíduos que ali conviviam. É no primeiro capítulo também em que há
a apresentação da fonte e de seu autor.
O segundo capítulo, “A educação do homem de corte”, se concentra no cortesão,
enfocando primeiramente sua formação como homem de armas e como humanista. Em
seguida procuramos identificar as atitudes permitidas a este indivíduo, que visavam uma
agradável sociabilidade entre seus pares e que evoluía para a relação política que se
estabelecia entre o cortesão e o príncipe.
Por fim, o terceiro capítulo, “O par perfeito”, é dedicado à dama palaciana
contrastando a mulher idealizada e quase igualada ao homem e a mulher submissa e devotada
Roger (Org.). História da vida privada. Da Renascença aos séculos das luzes.Vol.3. São Paulo: Companhia das
Letras, 1991, p. 174.
13
Op. Cit. Haroche, C., 1998.
14
BURKE, Peter. As fortunas d’O Cortesão. A recepção européia ao Cortesão de Castiglione. São Paulo:
UNESP, 1997.
9
à família. Como Castiglione oferece a esta mulher a capacidade de amar e de provocar o
amor, o último capítulo também fala deste sentimento como um amor sublimado e tornado
puro para unir dois seres perfeitos em um ideal ainda maior, concluindo assim o terceiro
capítulo.
Encontrar o ideal de civilidade dos séculos XV e XVI é um passo para compreender
porque o nosso comportamento chegou a sua configuração atual, visto que foi um momento
de transição entre o medievo e a modernidade, e como tal presenciou mudanças no
comportamento que se tornaram regras sociais até hoje.
10
Capítulo I - A RENASCENÇA À ÉPOCA DE CASTIGLIONE
Itália, 1506. Foi neste tempo e neste lugar que a corte de Urbino se reuniu para mais
um agradável encontro no qual homens e mulheres estavam presentes. Pessoas vindas de
várias partes da península italiana, e mesmo de fora desta, participavam de encontros abertos
a todos aqueles que comungassem dos ideais que ali eram discutidos, ideais esses que já
estavam em voga há mais de um século e que eram definidos pelo humanismo procurando
resgatar a virtude e a sabedoria de um tempo antigo, mas sem se desvincular de seu passado
mais recente.
Desde o final do século XV a corte de Urbino era vista como um lugar dos
humanistas, tendo como centro sua biblioteca iniciada por Frederico de Montefeltro e
considerada uma das mais completas. Já no início do século XVI, sob o comando de
Guidubaldo de Montefeltro e sua esposa Elizabeta Gonzaga a corte é descrita como um lugar
onde o ideal de perfeição se concretizava. Os homens e mulheres que ali conviveram foram
dignos dos maiores elogios por parte de Baldassare Castiglione que os imortalizou em seu
livro “O Cortesão”15. Assim, pela corte de Urbino ter se tornado um exemplo vivo para as
demais cortes renascentistas e pelo objetivo geral deste trabalho ser discutir o ideal de
cortesania presente nessas cortes, ela foi escolhida para o cenário principal deste trabalho,
através desta obra de Castiglione.
Os objetivos deste capítulo são retratar o contexto renascentista italiano, o pensamento
vigente, os atores sociais, passando então à explicação do processo civilizador que ocorre
naquele momento. Para tanto serão utilizadas fontes historiográficas tendo como ponto de
partida Burckhardt, Dresdem, Elias16, entre outros, e fazer uma apresentação geral da obra de
Castiglione que é a fonte primária deste trabalho.
15
CASTIGLIONE, Baldassare. O Cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
Respectivamente: BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália. Um ensaio. São Paulo: Cia
das Letras, 1997. DRESDEM, Sem. O Humanismo no Renascimento. Porto/Lisboa: Editorial Inova/Portugália
Editora, 1968. ELIAS. Norbert. O processo civilizador. Uma história dos costumes. Vol. 1. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1994.
16
11
1.1 - O Renascimento
O Renascimento é bastante visitado pela historiografia, que procura compreender este
momento de transição que se configura nos séculos XIV, XV e início do XVI. Através destas
abordagens historiográficas observamos inúmeras respostas para a especificidade daquela
época, enfim, o que teria sido este período. Embora, o tema tenha sido objeto dos próprios
contemporâneos, é na historiografia do século XIX que o assunto passa a ser discutido com
mais afinco a partir da obra de Jacob Burckhardt “A cultura do Renascimento na Itália”17.
Neste livro, escrito em 1860, o autor discute questões que instigam historiadores até hoje a
escrever sobre o Renascimento, seja concordando ou discordando de suas análises ou ainda
respondendo a perguntas que o autor não respondeu ou mesmo nem chegou a abordar. Desta
maneira o conceito de Renascimento acabou por possuir várias faces.
Para Burckhardt, o Renascimento se constitui de três idéias principais. A primeira é
vê-lo como um período predominantemente cultural, isto quer dizer, que tanto a política como
a religião são influenciadas pela cultura, diferente de outras épocas onde uma destas outras
duas esferas é que se sobrepõe às demais. É importante chamar a atenção para o fato de que já
no século XIX o que Burckhardt entende por cultura é algo bastante amplo, indo desde as
artes (plásticas, literárias e musicais), o vestuário, a língua, a etiqueta, os costumes, as
festividades e o pensamento da época18.
Mas a principal tese do autor é que o processo de individualização se inicia no
Renascimento, ou seja, o homem começa a se ver como parte única dentro da sociedade,
passando a ter consciência de sua pessoa em relação ao grupo social de que faz parte e em
relação ao mundo. Através desta dinâmica o mundo passa a ser descoberto pelo homem, que
vai buscar as explicações do funcionamento das coisas na natureza. Desta forma
“é a Burckhardt (...) que a posteridade associa a definição de Renascimento em
termos de desenvolvimento do indivíduo e da descoberta do mundo e do homem,
um veredicto justo, no sentido de que foi ele quem organizou todo o seu ensaio em
torno dessas idéias”19
Outra questão analisada pelo autor é como ele define o Renascimento, sendo este um
período onde houve o redespertar da antiguidade. Este retorno ao passado se deu através dos
17
Op. Cit. BURCKHARDT, Jacob.
BURKE, Peter. Introdução Jacob Burckhardt e o Renascimento Italiano. In. BURCKHARDT, Jacob. A
Cultura do Renascimento na Itália. Um Ensaio. São Paulo: Cia das Letras, 1997, p. 8 e 9.
19
Op. Cit. BURKE, P. In BURCKHARDT, J. p. 13.
18
12
autores clássicos que interessavam aos humanistas, autores antes quase esquecidos e que
passaram então a ser traduzidos e reeditados com a finalidade de que o acesso às suas idéias e
valores fosse cada vez maior. Essas idéias foram interpretadas de forma a se adaptarem ao
sistema de valores do Renascimento.
Entretanto, como já dito, algumas das idéias pioneiras de Burckhardt foram
contestadas. Skiner20, citando Kristeller, acredita que o Renascimento é uma continuidade da
Idade Média, refutando a idéia de que mudanças abruptas ocorreram neste momento. Da
mesma forma Huizinga21 coloca esta idéia, como demonstra claramente no título de seu livro
“O declínio da Idade Média”, o Renascimento como continuação do medievo, onde alguns
valores permaneceram, embora com uma nova roupagem.
Delumeau entende o conceito de Renascimento como um momento em que houve “a
promoção do Ocidente numa época em que a civilização da Europa ultrapassou, de modo
decisivo, as civilizações que lhe eram paralelas”22. Ou seja, foi um momento em que a técnica
e a beleza passaram a ter muita importância para a Europa, que aprofundou os estudos de
ambas fazendo com que o conhecimento da natureza, das ciências e das técnicas artísticas
evoluíssem.
Este autor coloca que parte desta evolução de fato ocorreu graças à busca pelos ideais
clássicos que aconteceu durante a renascença, essas pesquisas tendo sido iniciadas por
Petrarca. No entanto, ele não desconsidera a herança medieval, assim como também não
considera que a Idade Média tenha se desvinculado totalmente do período clássico, desta
forma ele observa que muitas vezes os humanistas buscavam as idéias clássicas nas reflexões
medievais.
Assim sendo, consideraremos o Renascimento como um período de evolução técnica,
já que, não podemos ignorar o interesse em conhecer a natureza. Também consideramos uma
época de continuidade da Idade Média e não de ruptura, pois se mantém muito dos valores
medievais, como o ideal de cavalaria e a cristandade, e de busca por ideais clássicos que
estimulam a produção de novos conhecimentos.
O terreno fértil do Renascimento foi a Península Italiana e as razões para que as idéias
se proliferassem ali foram tanto políticas quanto econômicas. É importante ressaltar que
embora o Renascimento e o Humanismo tenham se originado na Itália ele não se manteve
apenas ali, se espalhando por toda a Europa contando com humanistas ilustres como Erasmo
20
SKINNER, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Cia das Letras, 1996, p.123.
HUIZINGA, Johan. O declínio da Idade Média. Lisboa/Rio de Janeiro: Editora Ulisséia.
22
DELUMEAU, Jean. A civilização do Renascimento. Vol. 1. Lisboa: Editorial Estampa, 1994, p. 20.
21
13
de Roterdan, nos Países Baixos, por exemplo. Delumeau observa que muitos estudos no
campo das artes, como a perspectiva, foram iniciados pelos flamengos, seguindo mais tarde
para a Itália.
É claro que as mudanças políticas e econômicas, assim como o pensamento
humanista, não surgiram do dia para a noite, logo as configurações que geraram o
Renascimento nos séculos XIV, XV e XVI já estavam colocadas no século XII, quando a
Itália perde o seu caráter feudal, tendo seus principais centros em cidades-estados com
disposições republicanas, mesmo que fizessem parte do Sacro Império Romano Germânico.
Isto significa que com tal inclinação política as principais cidades da Itália iam contra a
tendência predominante, que era o poder monárquico.
Esta discórdia levou a inúmeras guerras entre o imperador e as cidades italianas, pois
estas desejavam sua liberdade política no sentido de escolher sua forma de governo e de tomar
suas próprias decisões, criando um sentimento de civismo nos italianos. Este sentimento
acaba por induzir o pensamento dos primeiros humanistas, chamados de humanistas cívicos, a
pensar tais questões, buscando argumentos nos escritos de Cícero, e a discutir o direito
romano, dando novas interpretações a ele, além das virtudes cívicas dos homens.
No entanto, o caráter republicano das cidades italianas foi se perdendo e no século XV
a maioria das cidades havia retornado ao sistema monárquico, mas sem perder a crença em
sua autonomia. Algumas dessas cidades como Florença e Veneza não abandonaram sua
inclinação republicana, mas “os outros três maiores poderes na Itália eram efetivamente
monarquias, duas hereditárias (Milão e Nápoles) e uma eletiva (os Estados Papais). Aí como
nos estados menores, tais como Ferrara, Mântua e Urbino, a instituição chave era a corte”23. É
neste momento que presenciamos outra fase do humanismo, quando as questões cívicas
deixam de ser o foco principal de suas discussões e vêm à tona questões culturais como as
artes e a educação. As cortes tentavam se destacar como lugares nos quais o gosto e a
distinção eram os diferenciais entre homens nobres e pessoas comuns.
Economicamente as cidades italianas estavam voltadas para as necessidades de outros
lugares, fossem esses no interior da Itália ou no restante da Europa. Burke coloca então três
tipos de economia possíveis nas cidades-estados. O primeiro tipo era de cidades comerciais,
como Veneza e Gênova, que faziam a ligação comercial entre a Europa e o Oriente. Depois as
cidades artesã-industriais, como Milão e Florença, que se ocupavam especialmente com
trabalhos de metal e tecidos, respectivamente, vendendo seus produtos para o restante da
23
BURKE, Peter. O Renascimento italiano. Cultura e sociedade na Itália. São Paulo: Nova Alexandria, 1999, p.
251.
14
Europa. E por fim as cidades de serviços, principalmente serviços bancários, feitos, sobretudo,
por Florença e Gênova, ou serviços de funcionários, como juízes, advogados, coletores de
impostos, etc, como fazia Nápoles24.
Desta maneira, a economia italiana estava voltada sempre para o exterior, realizando
contatos com várias partes do mundo possibilitando o acesso a várias culturas que
enriqueciam a cultura italiana. Ademais, Burke identifica que a arte costumava fazer o mesmo
caminho que as especiarias, importando e exportando artistas. Além disso, politicamente
observamos dois pontos em que os humanistas interessavam aos homens de poder,
primeiramente com a discussão cívica que ajudava a legitimar os ideais de “liberdade” dos
republicanos; e num segundo momento o desejo de se distinguir das pessoas comuns se
cercando de arte, literatura e filosofia.
São esses homens que freqüentavam as cortes e desejavam se aproximar da nobreza,
que se interessaram com mais afinco pelas artes e pelos estudos humanistas. Este interesse se
colocou como um divisor social entre aqueles que possuíam bom gosto e com quem se podia
conviver de maneira agradável, daqueles homens comuns e sem educação. E era para os
cortesãos que Castiglione e tantos outros autores escreveram manuais de boa educação e
convivência, para que eles conseguissem com mais facilidade alcançar seus objetivos. Esses
atores sociais são os príncipes, os cortesãos, as mulheres, os artistas e humanistas.
Esses atores com os quais trabalharemos nos interessam quando estão nas cortes, nos
séculos XV e, principalmente, XVI. As cortes se configuram, então, como um espaço social
onde questões governamentais eram resolvidas pelo príncipe e por seus cortesãos. Elas não
costumavam ter locais fixos, visto que os príncipes viajavam por toda a extensão de suas
terras, com o intuito de controlá-las, e de serem vistos. A intenção dos cortesãos que
freqüentavam as cortes era receber graças dos poderosos, de modo a conseguir riquezas e
status, desta forma, cria-se nestes locais, uma dinâmica que se torna cada vez mais rígida em
relação ao controle social, que é feito tanto do príncipe para com os súditos, como entre os
cortesãos. Normalmente as cortes eram muito numerosas, podendo contar com centenas ou
milhares de pessoas25, para distrair todo este pessoal à noite eram realizados jogos de azar,
poesias, músicas, cortejo de damas, tudo isso “favorecendo a transformação da corte em
centro cultural”26.
24
Op. Cit. BURKE, Peter, p. 266 e 267.
BURKE, Peter. O Cortesão. In GARIN, Eugene (Org.). O homem renascentista. Lisboa: Editorial Presença,
1991, p. 103.
26
Op. Cit. BURKE, Peter. In GARIN, Eugene (Org.), p. 107.
25
15
Contudo, para manter estas cortes os príncipes do Renascimento muitas vezes
utilizavam a violência, característica que coloca a maioria dos governos como tirânicos, que
eram capazes de tudo para se manterem no poder. Burckhardt27, no primeiro capítulo de “A
cultura do Renascimento na Itália”, nos relata inúmeras histórias de lutas entre soberanos pela
conquista de principados. Segundo John Law28 essa violência poderia ser usada não apenas
contra outros soberanos, mas também contra súditos e contra os próprios familiares. Essa
violência se explica em parte pela linhagem guerreira de muitos príncipes. Outra maneira de
manter o poder era através dos impostos, muitos deles de origem medieval, além da concessão
de mercês, ou seja, a distribuição de favores e títulos em troca da lealdade dos súditos. Essas
mercês eram fornecidas àqueles que estavam sob as vistas do príncipe, isto é, nas cortes.
Os homens que freqüentavam as cortes se caracterizavam ou por suas famílias nobres
ou pelos serviços artísticos prestados ao príncipe. Como um nobre cortesão o homem deveria
ser bastante distinto e educado, saber se portar diante das pessoas como alguém civilizado.
Possuir certas habilidades, como saber usar armas, dançar e cortejar damas, o auxiliaria a cair
nas graças do príncipe e dos demais cortesãos. Ademais, nos séculos XV e XVI ser versado
nas artes literárias e mesmo plásticas fazia com que a posição do cortesão se elevasse ainda
mais. Enfim, o homem que freqüentasse a corte deveria saber conviver com os demais, nem
que para isso fosse necessário mascarar levemente a verdade, de modo a agradar seus pares e,
em especial, ao príncipe, que é fonte de suas honras. Nas palavras de Burckhardt o cortesão
deveria se configurar como o ser social perfeito.
Para acompanhar este cortesão tão educado e distinto a dama palaciana deveria se
manter à altura. O Renascimento é um momento em que se inicia um longo processo de
enfraquecimento da misoginia, embora não tão acentuado como Burckhardt nos faz pensar
quando fala que a mulher “gozava da mesma consideração conferida ao homem”29. À mulher
ainda é dada pouca importância, pois ela não possui o mesmo valor por toda a sua vida,
dependendo da fase da vida que esteja lhe é dado um valor, por exemplo,
“a mulher-mãe, fecunda e produtiva, garantia a riqueza e a honra da família. A
velha-viúva aparecia como uma trabalhadora, uma dependente, uma mãe
degenerada que abandonara os filhos e a família, alguém que através de uma
aprendizagem mercenária adquirira riqueza ou, o que era ainda pior, como o
inimigo isolado da sociedade: a bruxa. A filha-virgem que era um temível fardo ou
27
Op. Cit. BURCKHARDT, Jacob.
LAW, John. O príncipe do Renascimento. In GARIN, Eugene (Org.). O homem renascentista. Lisboa:
Editorial Presença, 1991.
29
BURCKHARDT, Jacob. A Cultura do Renascimento na Itália. Um Ensaio. São Paulo: Cia das Letras, 1997, p.
283.
28
16
um potencial elemento de troca na negociação da riqueza, uma criatura
completamente esquecida, ou um valor espiritual”30.
No entanto, nas classes mais elevadas as mulheres conseguiam obter uma educação
que lhes permitia conviver na corte com os homens, divertindo-os e conversando. Algumas
dessas mulheres podem ser consideradas mecenas, visto que presidiam reuniões onde
humanistas se encontravam para discutir assuntos como a arte e para terem momentos de
prazer ao lado de cortesãos, dançando e jogado, mulheres como Isabella d’Este, Caterina
Cornaro e Elizabetta Gonzaga, anfitriã da corte de Urbino descrita por Castiglione.
Embora muitos artistas sempre estivessem nas corte não eram todos que as
freqüentavam. No Renascimento os artistas recebiam a denominação de artesãos e artífices.
Desta maneira, seu ofício lhes era ensinado desde criança por um mestre e seu trabalho não se
resumia às belas telas e esculturas, mas eram os responsáveis também por fornecer diversos
objetos úteis como móveis, roupas, armas, etc. O artista não se permitia criar livremente, seu
trabalho era sempre feito por encomenda e mediante um contrato. Não necessariamente um
artista era de uma classe elevada da sociedade, mas através de sua obra ele poderia chegar a
um nível social mais alto do que o seu de origem. Entretanto, o status do artífice não era
constante na corte, como nos conta Cellini, em um momento era tratado como amigo pelo
príncipe, em outro tinha dificuldades de fazer o tesoureiro lhe pagar31. Como já dito, um
artífice não se concentrava em uma única atividade, na verdade era sempre estimulado a
aprender e se aperfeiçoar em diversos ramos. Então um artista poderia ser pintor, escultor,
escritor, poeta, arquiteto, decorador, inventor, cientista, ou seja, um intelectual completo,
normalmente educado nos preceitos humanistas.
Tais preceitos possuem suas referências na antiguidade clássica, “fontes do
pensamento e da beleza”32, desta forma o que aconteceu no Renascimento foi um resgate de
obras e autores, através de pesquisas realizadas pelos diversos humanistas com o intuito de
trazê-las à tona e reeditá-las. Para que estas pesquisas pudessem ser realizadas houve um
incentivo para o aprendizado não só do latim, que ainda era bastante utilizado, mas também
do grego e do hebraico, centrando estas pesquisas nos escritos romanos, gregos e judaicos. É
importante ressaltar que essas referências clássicas também foram encontradas nas
interpretações medievais, muitas vezes dos mesmos autores, como Ovídio, por exemplo, que
30
KING, Margaret L. A mulher renascentista. In. GARIN, Eugene (Org.). O homem renascentista. Lisboa:
Editorial Presença, 1991, p. 207.
31
Op. Cit. BURKE, Peter. In GARIN, Eugene (Org.), p. 114.
32
Op. Cit. DELUMEAU, Jean, p. 85.
17
era lido por monjas dos séculos XI e XII, mesmo que com algumas modificações de cunho
moral33.
É importante salientar que é bastante difícil definir as características do humanismo,
isto porque, as inúmeras referências e as divergências no pensamento desses filósofos torna o
humanismo um movimento intelectual heterogêneo. Contudo, como fez Dresdem34, é possível
observar características que se repetiram em várias obras da época e tentar traçar, em linhas
gerais, alguns dos aspectos mais marcantes do humanismo.
Como retorno aos autores antigos vamos visitar as idéias humanistas baseadas em
Cícero e Platão. A partir de Platão os ideais de perfeição e beleza ganharam força e passaram
a ser buscados em todas as questões humanas, desde as artes até as questões amorosas. A
procura pelo sublime torna-se constante na vida dos humanistas.
Os humanistas ao lerem Cícero perceberam que um de seus preceitos mais importantes
diz respeito à educação do homem. Esta educação deve ser pautada em filosofia moral e
retórica, pois ao se educar um homem não se deve desejar somente que ele saiba fazer
cálculos e conheça técnicas, sua educação deve servir para que ele se torne um homem
honrado (vir virtutis) e sábio, para que possa utilizar sua sabedoria nos negócios públicos
através da retórica que aprendeu.
A virtú então se torna a meta a ser alcançada pelos humanistas, pois se acredita que a
partir dela o homem chega a uma evolução espiritual, isto é, ao nível mais alto de excelência.
Esta virtú consiste, basicamente, nas virtudes ditas masculinas, como a honra, honestidade,
coragem e integridade. Por ser composta de virtudes masculinas a virtú era vista como um
caminho natural aos homens, entretanto, não era inatingível às mulheres. Estas, porém,
necessitariam realizar um esforço maior para alcançá-las.
Todas essas virtudes eram necessárias para que o ser humano conseguisse manipular a
deusa Fortuna, herança da antiguidade, que jogava com a vida dos homens de modo a lhes
trazer coisas boas ou fazer com que caíssem em desgraça. Um homem virtuoso poderia então
resistir aos jogos da deusa conseguindo escrever seu próprio caminho. A Fortuna é um
elemento encontrado com muita freqüência nos escritos humanistas. O próprio Castiglione ao
falar do Duque Guidubaldo, por exemplo, diz:
“mas a Fortuna invejosa de tanta virtude, com toda a sua força se opôs a tão
glorioso princípio, tanto que, ainda não havendo completado 20 anos, o duque
Guido adoeceu de gota, a qual, manifestando-se com dores atrocíssimas, em curto
espaço de tempo entrevou-lhe a tal ponto todos os membros que não podia nem
33
34
Op. Cit. DELUMEAU, Jean, p. 88.
DRESDEM, Sem. O humanismo no Renascimento. Porto/Lisboa: Editorial Inova/Portugália Editora, 1968.
18
ficar em pé nem se mover; e, assim, um dos mais belos e mais bem feitos corpos do
mundo ficou deformado e inútil em tenra idade”35.
É interessante observar que uma deusa pagã seja tão assídua nos escritos numa época
em que o cristianismo é muito presente na vida das pessoas. Daí que não podemos esquecer
de duas coisas, a primeira é que a Igreja condenava esta “crença” na Fortuna, tanto que o livro
de Castiglione foi para a lista do Index. Em segundo lugar é que mesmo com a inserção de
elementos pagãos em nenhum momento os humanistas deixaram de ser cristãos, pois “a
laicização e a humanização da religião não constituíram, nos séculos XV e XVI, uma
descristianização”36.
Portanto, acreditava-se que um homem muito virtuoso pudesse resistir aos desejos de
uma entidade sobrenatural, isto significa que surge uma crença de que o homem, por ele
mesmo possa ter o domínio dos caminhos que irá seguir. Pico della Mirandola37 explica isso
em sua obra “A dignidade do homem” dizendo que Deus fez todas as outras criaturas presas a
um lugar no mundo menos o homem, o qual Deus fez livre e inacabado, pois através do livre
arbítrio o homem deveria completar sua formação de maneira a se aproximar de Deus. O
autor explica essas questões numa versão pessoal sobre a criação bíblica do homem, onde
Deus diria:
“Eu te coloquei no centro do mundo, a fim de poderes inspecionar, daí, de todos os
lados, da maneira mais cômoda, tudo que existe. Não te fizemos nem celeste nem
terreno, mortal ou imortal, de modo que assim, tu por ti mesmo, qual modelador e
escultor da tua imagem segundo tua preferência e, por conseguinte, para a tua
glória, possas retratar a forma que gostarias de ostentar. Poderás descer ao nível dos
seres baixos e embrutecidos; poderás ao invés por livre escolha da tua alma, subir
aos patamares superiores, que são divinos”38.
Essa idéia de que o homem pode alcançar a virtú por seus próprios meios confronta as
idéias de Santo Agostinho, em voga durante a Idade Média. Para o Santo um homem não
chegaria à plenitude das virtudes devido sua natureza fundamentalmente decaída, sendo que
as virtudes que os homens conseguem são exclusivamente concedidas por Deus. Mas os
humanistas passam a acreditar na natureza humana e na capacidade de elevar seu espírito
através exclusivamente de suas ações. O caminho pensado pelos humanistas para que o
homem atinja sua dignidade é através da educação, como já diziam os ensinamentos de
Cícero. Esta educação procura formar um homem de várias habilidades, sejam elas de ordem
física, envolvendo competências como pegar em armas e dançar; de ordem artística, como
35
CASTIGLIONE, Baldassare. O Cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 14.
Op. Cit. DELUMEAU, Jean, p. 24.
37
MIRANDOLA, Pico della. A dignidade do homem. São Paulo: Editora Escala.
38
Op. Cit. MIRÀNDOLA, Pico della.
36
19
pintar, cantar e tocar instrumentos; e de ordem intelectual, como saber línguas e ser versado
nas humanidades.
Para tanto surgiram inúmeros manuais de educação de príncipes e fidalgos, mas um
dos mais famosos tem a intenção de ensinar meninos de todas as classes sociais, que é o
“Civilidade Pueril” de Erasmo de Rotterdan, publicado em 1530. Este manual, ao ensinar os
meninos as atitudes corretas e dizer quais são as incorretas, tem por objetivo ensinar que a
elevação do espírito pode se dar tanto de dentro para fora, ou seja, a alma refletida nas
atitudes, quanto de fora para dentro, isto é, as boas atitudes moldando a alma.
A partir desses manuais percebemos uma preocupação em relação à convivência e ao
comportamento perante os outros, aceitando na conduta do outro apenas aquilo que se
considerava civilizado, para que estes indivíduos sejam aptos a participar dos grupos sociais
fazendo parte da chamada civilização. Segundo Elias, esta civilização diz respeito à
consciência que o Ocidente tem de si mesmo e julga superior, seja em relação a outros povos
ou ao passado, assim “a sociedade ocidental procura descrever o que lhe constitui o caráter
especial e aquilo de que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o
desenvolvimento de sua cultura científica ou visão de mundo, e muito mais”39. Deste modo, o
momento presente sempre se configura como aquele onde a civilização está em seu patamar
mais elevado. Isto significa que o processo que modifica os hábitos e maneiras de um povo ou
de uma época está em constante movimento.
Elias, assim como Haroche, nos mostra que o processo civilizador se configura a partir
do momento em que a sociedade passa a desenvolver parâmetros de vergonha e repugnância,
ou seja, quando em dado grupo social certas atitudes passam a ser consideradas inadequadas
para a boa convivência de seus membros. Assim sendo, seus componentes passam a evitar
essas atitudes para não serem rejeitados pelo grupo. Haroche, citando Toqueville, nos fala que
este autor pensava que em todas as sociedades os costumes vêm primeiramente dos
sentimentos humanos e com o passar do tempo são institucionalizados e passam a reger a vida
dos homens40.
Essa questão do sentimento de vergonha incentivando o convívio pessoal pode ser
encontrado na mitologia romana, citada pelo senhor Gaspáro na última parte d’O Cortesão,
quando este conta que
“Júpiter, compadecendo-se da miséria dos homens, que não conseguiam se manter
unidos por falta da virtude civil e eram dilacerados pelas feras, enviou Mercúrio à
39
Op.Cit. ELIAS, Norbert, p. 23.
HAROCHE, Claudine. Civilidade e polidez: os objetos negligenciados da ciência política. In. _______. Da
palavra ao gesto. Campinas: Papirus, 1998, p. 21.
40
20
terra para levar a justiça e a vergonha, para que estas duas coisas organizassem as
cidades e unificassem os cidadãos”41.
O fato do processo civilizador ser dependente dos sentimentos significa que para ele
ocorrer em toda a sociedade deve acontecer primeiramente em cada indivíduo que, segundo
Elias, passa por fases semelhantes às que a sociedade passou, isto é, quando ainda se é uma
criança seria como se estivesse no estado de barbárie; ao aprender as regras de sociabilidade a
criança vai se civilizando e sendo aceita pela comunidade. Esta aceitação é um procedimento
constante, visto que por toda a vida o sujeito será submetido ao controle social, que acaba por
criar um ideal de comportamento que serve como parâmetro para que a sociabilidade gerada
seja agradável a todos. O processo civilizador tem, então, por objetivo o elevado grau de
sociabilidade.
1.2 - O Livro
Ao escrever O Cortesão, Castiglione nos mostra exatamente esse alto grau de
sociabilidade acontecendo na corte de Urbino. Demonstra ao longo de sua obra que para que
esta sociabilidade seja agradável é necessário que os indivíduos pertencentes ao grupo seleto
sejam educados de maneira a agradar a todos. Para tanto, ao se desenvolver a discussão dos
comportamentos e habilidades necessários a um cortesão perfeito, percebemos que os
próprios personagens do livro são dignos desse máximo grau de sociabilidade que é assim
apresentada:
Destarte, ali [na corte de Urbino], leves conversações e honestas facécias eram
ouvidas, e no rosto de cada um se via pintada uma jocosa hilaridade, de tal modo
que poderia chamar aquela casa de hotel da alegria; e não creio que em outro lugar
se apreciasse toda a doçura que deriva de uma querida e amada companhia, como
ali aconteceu um dia; pois, à parte a honra que era para cada um de nós servir a um
senhor como aquele que descrevi acima [Guidubaldo de Montefeltro], nascia no
ânimo de todos um imenso contentamento todas as vezes que nos reuníamos com a
senhora duquesa; e parecia que este contentamento criava uma corrente de amor
que a tal ponto unia a todos, que jamais existiu concórdia de vontade ou amor
cordial entre irmãos maior do que aquela que ali existia entre todos.42.
A formação desses personagens é um dos motivos que os fazem dignos de estarem ali
e de discutirem tema tão caro à época. O duque de Urbino é considerado homem honrado,
41
42
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare, p. 277.
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare, p. 16.
21
embora sua saúde não o permita grandes feitos, mas a tradição humanista de sua família já
vem de seu pai. A duquesa, como aparece nas palavras acima, é citada como mulher virtuosa
e honrada, que mesmo com a doença do marido não o desonra. Os principais personagens, ou
seja, aqueles a quem é dado o encargo de discorrer durante maior parte do livro são
humanistas bastante reconhecidos na época como, Bernardo Bibiena e Pietro Bembo.
Embora Castiglione não seja um dos personagens de seu livro também era um
humanista freqüentador não só da corte de Urbino, mas de outras cortes pela Itália, inclusive
no Estado Pontifício. Sua trajetória inicia-se já com sua família que servia aos Gonzaga, da
Duquesa Elizabetta, em Mântua. Seu pai o manda estudar na corte de Milão, mas com a morte
dele Castiglione volta para servir militarmente Francesco Gonzaga. Aos 26 anos é mandado
para servir na corte de Urbino, onde conhece os principais personagens de seu livro. Mais
tarde, aos 35 anos, ocupa em Roma o cargo de embaixador de Urbino. Aos 43 anos toma o
estado eclesiástico e oito anos depois, em 1529, morre de peste.
O Cortesão foi publicado um ano antes de sua morte, no entanto o livro passou por
várias redações antes de sua publicação. A primeira redação do livro começou a ser escrita em
1508, ano da morte do Duque Guidubaldo e teve sua primeira versão concluída em 1516. Dos
22 anos que separam as vivências do jovem Castiglione do momento em que publica seu
livro, a obra passa por diversas transformações, assim como o próprio Castiglione. Segundo
Burke as revisões feitas a partir de 1520 fizeram com que a obra ficasse “mais séria com a
remoção de algumas piadas e a adição de um quarto livro que fala de amor espiritual e o dever
do cortesão de aconselhar o príncipe”43.
A obra é dividida em quatro partes, acrescido da apresentação do livro para Dom
Michel da Silva, a quem o livro é dedicado. Cada parte corresponde a uma das quatro noites
de 1506 passadas em Urbino. Nesses dias estavam presentes cerca de 21 convidados que para
se entreterem inventam o jogo de discutir e definir como deve ser o cortesão perfeito. O livro
foi escrito em forma de diálogo, entretanto em cada parte é designado um interlocutor
principal, os escolhidos para falar são Conde Lodovico de Canossa, Federico Fregoso,
Bernardo Bibiena, Giuliano de Médici, Ottaviano Fregoso e Pietro Bembo44, que se
distribuem cada um falando de assuntos diferentes.
43
BURKE, P. Fortunas d’O Cortesão. São Paulo: UNESP, 1997, p. 48.
Conde Lodovico de Canossa foi Bispo de Bayeux. Federico Fregoso nasceu em 1480 em Gênova e morreu
em 1541 na Perugia; sacerdote de Salerno e autor do “Tratado da Oração”, publicado em 1542. Bernardo
Bibiena ou Bernardo Dovizi; nasceu em 1470, em Bibiena, e morreu em 1520; conhecido por ter escrito a
primeira comédia em prosa em língua italiana , “La Calandria”, aproximadamente em 1507. Giuliano de
Médice ou Magnífico Iuliano nasceu em 1479 e morreu em 1516; foi príncipe de Florença entre 1512 e 1516.
Otaviano Fregoso irmão de Federico Fregoso, nasceu em 1470 e morreu em 1524; foi doge de Veneza em 1513.
44
22
Os assuntos abordados são assim divididos: no primeiro livro são tratados os
problemas referentes à formação do cortesão perfeito, isto é, o que ele deve saber fazer, desde
as habilidades ligadas ao combate, até saber escrever e em que língua isso deve ser feito. O
segundo livro trata da arte da convivência, conversas e brincadeiras que lhe são permitidas ou
não. O terceiro se dispõe a falar sobre as virtudes que a dama deve possuir para que seja apta
a acompanhar o cortesão descrito no primeiro livro. O quarto livro, por fim, trata a questão
das relações entre o cortesão e o príncipe a que serve e termina com um elogio ao amor
espiritual.
O ideal que se discute no livro tornou-se um guia de bom comportamento e boa
convivência para as pessoas. Embora escrito em forma de diálogo, deixando assim algumas
questões sem resposta45, a obra foi recebida como um manual que simplesmente dizia o que
era certo e errado de se fazer na corte. Burke observa que em algumas edições posteriores do
livro modificações foram feitas de modo a retirar o dualismo de algumas passagens dos
diálogos. O Cortesão foi uma obra muito bem aceita na época, não apenas na Itália, mas em
toda a Europa, visto as traduções para várias línguas. Burke localizou 156 edições do livro
entre 1528 e 185046, sendo que 137 delas foram feitas nos séculos XVI e XVII. O mesmo
autor observa ainda um declínio no sucesso do livro de Castiglione a partir do século XVIII
que podemos associar com as críticas que aparecem à sociedade de corte como sendo uma
sociedade de aparências e frivolidades.
O Cortesão estava longe de ser uma obra original, pois muitos outros manuais da
época faziam as mesmas discussões propondo as mesmas regras a serem seguidas. É bastante
provável que ao ler O Cortesão o que as pessoas buscavam era uma afirmação dos
comportamentos que elas já conheciam. Por esse motivo este livro foi escolhido como fonte
primária para este trabalho, pois, levando-se em consideração a divulgação que o livro teve,
observa-se que o ideal de perfeição nele contido era largamente aceito por aquela sociedade.
Nos próximos capítulos nos prenderemos mais a análise da fonte. O capítulo dois tem
por objetivo fazer a análise da fonte no que diz respeito ao papel do cortesão, ou seja, sua
formação, suas ações e sua posição frente ao príncipe.
Pietro Bembo cardeal e estudioso, nasceu em 1470, em Veneza, e morreu em 1547; autor de Gli Asolani, obra
sobre o amor platônico publicada em 1501.
45
Como por exemplo, a discussão se a mulher é capaz ou não de ser virtuosa, que mesmo tendo defensores
ferrenhos no livro, que fazem muitos elogios nem todos os participantes se convencem por completo disso da
virtuosidade das damas.
46
Esses dados com a localização de tais edições podem ser encontrados na obra de BURKE, P. Fortunas do
Cortesão. (São Paulo: EDUSP, 1997, p. 179 a 184 ) no Apêndice I e foram retiradas da tradução d’O cortesão
feita por Leonard Opdycke de 1901 e conta com edições em várias línguas.
23
Capítulo 2 - A EDUCAÇÃO DO HOMEM DE CORTE
Ao escrever seu livro Castiglione tinha como objetivo discutir os ideais que tornariam
um cortesão perfeito. Para tanto ele não escreveu um manual que impusesse preceitos a serem
seguidos, ao contrário ele escolheu esculpir seu cortesão perfeito em forma de diálogo, clara
referência aos textos de Platão. Desta forma, os preceitos colocados são passíveis de
discussão, alguns chegando a conclusões claras, outros, entretanto, sendo discutidos até às
últimas páginas do livro.
Pelo teor humanista do diálogo não era possível a Castiglione escolher qualquer lugar
para que ele se passasse, nem mesmo esperar que qualquer pessoa fosse capaz de
compreender a importância de uma discussão como esta. Por isso Castiglione escolhe como
cenário a corte de Urbino, que há muito tempo era um espaço humanista, visto a biblioteca
formada pelo pai do Duque Guidubaldo, considerada uma das mais completas da época. Além
disso, outro motivo que levou o autor a escolher Urbino foi sua experiência naquela corte, o
que pode comprovar que as idéias humanistas tinham terreno fértil naquele contexto.
Os personagens, assim como a corte, também foram reais, alguns deles amigos íntimos
de Castiglione, e todos humanistas respeitados por suas obras. Isto foi levado em consideração
por Castiglione que não escolheu os interlocutores aleatoriamente. No último capítulo Pietro
Bembo discursa sobre o amor perfeito, pois este humanista havia composto Os Asolani, obra
na forma de diálogo inteiramente dedicada ao amor.
Em uma corte como Urbino a vida cultural era muito valorizada, ou seja, era costume
que os cortesãos se reunissem para compartilhar momentos de prazer proporcionados pela boa
convivência e pela prática das artes, como a música, a poesia ou a dança. Em Urbino, essas
práticas aconteciam ao cair da noite, quando os cortesãos se reuniam nos aposentos da
Duquesa Elizabetta para se divertirem com jogos e música. No livro, ajudando a anfitriã a
organizar toda a diversão encontramos a figura de Emília Pia, num posto que a coloca como
segunda voz de comando, sendo ela quem decide as brincadeiras e os oradores, sujeitando sua
vontade apenas às idéias da duquesa.
O livro inicia em uma dessas noites, no ano de 1506, nos aposentos da Duquesa, onde
surge a questão de o que fazer para se divertir. Dona Emília Pia propôs que cada convidado
deveria sugerir uma brincadeira, sendo a mais interessante a escolhida para as conversações
daquela noite. Várias propostas são feitas, muitas delas tendo em vista o auto conhecimento
24
dos participantes, o que enfatiza o teor humanista da obra como, por exemplo, pensar nas
loucuras a que estariam sujeitos ou imaginar os defeitos que justificariam o desprezo da
pessoa amada. Mas é a sugestão de Federico Fregoso que é aceita não apenas por Emília Pia e
pela Duquesa, como por todos os presentes, após o mentor da idéia pronunciar o seguinte
discurso:
“(...)digo que aquele que desejasse louvar nossa corte, deixando ainda de lado os
méritos da senhora duquesa, (...) bem poderia dizer sem suspeita de bajulação que na
Itália quem sabe com quanto esforço se encontrariam outros cavaleiros tão
singulares, e, além de preeminente profissão da cavalaria, tão excelentes em diversas
coisas, como agora aqui se encontram; porém, se em algum lugar existem homens
que mereçam ser chamados de bons cortesãos e que saibam julgar aquilo que
compõe a perfeição da cortesania, com boas razões havemos de pensar que aqui
estejam. Portanto, para refutar alguns tolos, que por serem presunçosos e ineptos
acreditam conquistar fama de bons cortesãos, gostaria que o jogo desta noite fosse
de molde a escolher alguém do grupo e a ele se atribuísse a tarefa de modelar com
palavras o perfeito cortesão, explicando todas as condições e qualidades particulares
exigidas de quem merece tal nome; e sobre aquelas coisas que não parecem
convenientes seja permitido a cada um divergir, como nas escolas de filósofos que
se discute publicamente.”47
A questão que Federico Fregoso coloca para iniciar seu discurso, de que os homens ali
presentes são os cortesãos e cavaleiros de maior valor que ele conhece é fundamental, pois é o
que valida as opiniões presentes no livro, visto que todos os personagens são reais e
conhecidos da época, isto é, a existência dos personagens indica a possibilidade de se chegar à
perfeição discutida no livro.
Essa discussão sobre o cortesão perfeito se estende no livro durante quatro noites, mas
fica subentendido que a discussão continuará em outros encontros do grupo. Durante estas
noites vários temas foram abordados, inicialmente se fala de como o cortesão deveria ser, suas
virtudes e habilidades, a seguir de como ele deve se comportar, incluindo uma discussão sobre
as brincadeiras que poderia fazer, depois entra a discussão sobre a dama palaciana perfeita,
sua educação, se é dotada ou não das virtudes, seu comportamento e sua postura frente ao
amor. Após se falar da dama a atenção retorna para o cortesão e a obra fala sobre a relação
deste com o príncipe e encerra falando sobre o sentimento de amor ideal. Na maneira como
são abordados os assuntos percebemos uma clara diferença entre as características do
cortesão, como um ser mais racional, ligado às coisas mais práticas, e as da dama palaciana,
mais subjetiva sendo muito importantes as questões relacionadas aos sentimentos, em especial
ao amor.
47
CASTIGLIONE, Baldassare. O Cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 25.
25
Este capítulo pretende analisar as discussões que o livro faz no que se refere
exclusivamente ao cortesão, ou seja, sua formação, que mescla a figura do cavaleiro e do
cortesão; seu comportamento, frente a uma posição humanista de contenção e transparência,
resultando em uma civilidade que se consolida; e sua posição frente ao príncipe, que pode ser
encarada como uma profissão ou como um dos principais objetivos na vida do cortesão.
2.1 - Do Cavaleiro ao Cortesão
No livro o jogo começa com Dona Emília Pia escolhendo o conde Lodovico de
Canossa para descrever o perfeito cortesão. Este, meio incerto do que dizer, inicia sua fala
dizendo que uma das característica de um bom cortesão são suas habilidades como cavaleiro.
A primeira característica definida por Castiglione para o seu cortesão é a que vai permear todo
o livro no que diz respeito a sua personalidade e profissão. Todo o tempo ela será recordada e
muitas das habilidades necessárias ao cortesão serão a ela relacionadas. Tendo por princípio o
ideal cavaleiresco é que Castiglione ramificará os assuntos a serem discutidos sobre as
aptidões do cortesão.
Esse aspecto retoma uma tradição medieval, pois durante a Idade Média a cavalaria
era um estilo de vida extremamente valorizado. Segundo Huizinga esse sistema cavaleiresco
tinha suas idéias baseadas na “ficção de que a cavalaria governava o mundo”48, ou seja, o
ideal de cavalaria como um motriz para a História. A cavalaria era vista como uma maneira
sublime de vida secular, na qual prevaleceriam a honra e os ideais éticos descritos nos
romances cavaleirescos, responsáveis em reforçar a concepção do cavaleiro-herói, do homem
incorruptível, logo as ações desses homens indicavam o curso certo a ser seguido. E é
exatamente esse ideal que Castiglione resgata e incorpora ao seu cortesão.
48
HUIZINGA, Johan. O declínio da Idade Média. Lisboa/Rio de Janeiro: Editora Ulisseia, p. 69.
26
Embora esse ideal devesse reger a vida, pelo menos da nobreza, não era comum que o
modelo cavaleiresco saísse das páginas dos romances e se tornasse realidade. Os próprios
autores dessas histórias denunciam violência, cobiça e crueldade que presenciaram entre os
nobres de seu tempo49. Essa crítica apenas elevava ainda mais a questão da honra cavaleiresca
que era a principal característica do herói.
A honra se relaciona diretamente à nobreza do cortesão. Essa nobreza, no entanto,
possui dois significados na Renascença. Primeiramente a nobreza que consiste na linhagem
familiar, nas posses e títulos, ou seja, uma classe dominante baseada nos valores medievais e
que centra suas atividades na cavalaria. Contrastando com este significado de nobreza
encontramos aquele adequado aos preceitos humanistas que diz respeito à grandeza de
espírito, que não leva em consideração a origem familiar do indivíduo, mas suas atitudes
frente ao mundo. Essa questão é rapidamente discutida por Castiglione, na primeira parte de
seu livro, usando como interlocutor o Conde Lodovico, que ainda que concorde com seus
colegas no que diz respeito aos valores de homens não nobres, insiste na idéia de que um
cortesão em sua perfeição deveria ter sua origem na nobreza, até para que o dever de honrar
sua família se configurasse como um incentivo a mais para as atitudes virtuosas esperadas em
sua vida cavaleiresca.
Burckhardt50 nos fala que a nobreza originada do caráter do indivíduo era muito
valorizada pelos humanistas, que consideravam a vida dos nobres que se dedicavam apenas à
cavalaria e aos torneios como vazias, sem conseguir atingir objetivos mais elevados. Se a
nobreza de espírito se configurava em um fator tão importante aos preceitos humanistas,
principal guia das atitudes do cortesão descritas no livro, o que fez Castiglione rapidamente
descartar este preceito e concluir com as palavras de Conde Lodovico, sem que em momento
algum do livro volte a se falar no assunto, que o cortesão perfeito deveria nascer nobre?
Segundo Burke, há indícios de que a obra fosse uma “resposta a uma época de crise
política e mudança social”51. Assim, o cortesão sendo definido como um nobre pelo seu
nascimento se enquadraria como uma tentativa de redefinir o papel desta classe que se via
ameaçada, fosse pelos novos rumos tecnológicos que as guerras estavam tomando, como o
advento da pólvora; fosse pela ameaça de novos regimes políticos como a república e,
principalmente, a monarquia centralizada de nações estrangeiras, como França e Espanha, que
caracterizavam as cortes de uma maneira diferente que, mais tarde, se transformou em um
49
Op. Cit. HUIZINGA, Johan, p. 69.
BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália. Um ensaio. São Paulo: Cia das Letras, 1997, p.
262, 263.
51
BURKE, Peter. As fortunas do Cortesão. São Paulo: Editora UNESP, 1997, p. 47.
50
27
modelo de hierarquia social e extrema dependência do rei. Ademais o público alvo de
Castiglione eram pessoas que já freqüentavam as cortes e que, se supunha, já conheciam as
“orientações” presentes no livro, o que pode reforçar a idéia de que Castiglione pretendia
preservar o modo de vida das cortes renascentistas italianas.
Nestas cortes renascentistas o cortesão deveria ser um nobre cavaleiro, atributo não
incomum na nobreza italiana. Afinal, não se pode esquecer que a origem de muitos cortesãos
renascentistas era de homens ligados à guerra, os chamados condottieri, ou seja, guerreiros
mercenários que provinham, normalmente, de famílias nobres. Apesar de mercenário o
condottiero se via em posição bastante admirada e honrada. Ele estava submetido a regras
previstas em contrato, que lhe forneciam não apenas vantagens e pagamento, mas também
previam punições caso acontecesse uma traição. Como recompensa esperava-se alguma mercê
dos príncipes, “uma vasta propriedade ou um feudo e um rendimento garantido, mais do que o
controle senhorial de uma cidade, eram a ambição máxima do condottiero médio, em meados
do século XV”52
Além dos rendimentos materiais, outra questão muito valorizada por esses homens
eram as honras e o prestígio que a profissão proporcionava. O prestígio e honra adquiridos em
anos de guerra, eram diversas vezes retratados nas pinturas e mesmo na arquitetura, que se
voltava muito para as questões militares. Isso fazia com que os mercenários se
caracterizassem também como mecenas das artes renascentista. Desta maneira, o homem
nobre renascentista que desejasse se destacar o conseguiria incorporando tanto as habilidades
guerreiras, que avançado os séculos já não eram mais tão necessárias na prática, como o
incentivo e exercício das artes, plásticas, escritas e mesmo musicais. Sendo assim, “o ideal
guerreiro era uma parte integrante da cultura italiana (...); o homem de armas e de letras
tornou-se o ideal humanístico do indivíduo”53.
Desta forma, em um momento em que a cultura e as artes estavam em destaque, o
cortesão, além de cavaleiro, também precisava ser instruído e letrado. A língua, tanto escrita
quanto falada, tornou-se de extrema importância para os humanistas italianos, visto que ela
era a maneira de expressar os sentimentos, o conhecimento e a sociabilidade existente
naquelas cortes. Assim, o Magnífico Iuliano diz que de um cortesão tão perfeito se espera que
saiba se expressar bem tanto ao falar quanto ao escrever54. A escrita era considerada por
Castiglione como uma forma da língua falada, mas que por perdurar durante anos deve ser
52
MALLETT, Michael. O condottiero. In: GARIN, Eugene (Org.). O homem renascentista. Lisboa: Editorial
Presença, 1991, p, 47.
53
Op Cit. MALLETT, Michael, p. 55.
54
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. p. 49
28
mais clara, visto que o autor não estará presente para responder às dúvidas do leitor. Com esta
discussão sobre a língua observamos claramente um retorno aos estudos ciceronianos sobre
retórica e eloqüência, ou seja, a arte de convencer através da palavra.
O louvor dedicado às letras também se justificava pela necessidade do cortesão
possuir conhecimento, desta forma sugere-se que não apenas se soubesse a língua vulgar
corrente na Itália, como também idiomas como o latim e o grego que possibilitariam a leitura
de autores antigos. Outro uso que se coloca para a língua é o estímulo à glória que as histórias
de grandes homens podem causar nos guerreiros. Desta maneira vemos a crítica aos franceses
através da fala do Conde Lodovico quando diz que “é supérfluo dizer-vos isso, pois bem sei
que todos vós compreendeis quanto se enganam os franceses ao pensarem que as letras são
nocivas às armas”55, reforçando a idéia de que a perfeição se daria a partir da união do
guerreiro e do pensador.
Desta maneira a língua escrita é colocada como um mecanismo para a divulgação do
conhecimento humanista ou mesmo antigo. Já a língua falada é essencial para a sociabilidade
que se torna mais agradável quando o indivíduo conhece poetas, oradores e historiadores que
“além do contentamento que ele próprio terá com isso, nunca lhe faltarão prazerosos
entretenimento com as mulheres que em geral apreciam tais coisas”56. Nas cortes, a língua
aparece então nas conversas e também na diversão dos demais com verso e prosa escritas pelo
próprio cortesão.
Mas, além de ser versado nas armas e nas letras era importante ao cortesão ter outras
habilidades para que nas cortes sua presença fosse desejada. Para uma sociabilidade agradável
era interessante que o cortesão possuísse aptidões como a música, o desenho e a pintura que
eram consideradas artes nobres e dignas57, e não apenas financiassem as mesmas. Como na
Itália do século XVI as guerras já não exigiam a presença dos nobres italianos, a questão da
educação guerreira era exigida, mas um cortesão humanista era mais valorizado que um
indivíduo que se mostrasse mestre apenas nas artes da guerra. Assim, as artes e o
conhecimento ganharam cada vez mais valor. A dança passou a receber especial atenção nas
cortes renascentistas, pois ela exigia o mesmo controle corporal que os exercícios com armas.
O autodomínio era uma das principais virtudes de um cortesão segundo Castiglione, e é
preciso ver com atenção que a contenção dos corpos era um preceito humanista resgatado dos
antigos gregos, como é possível verificar nas obras de Platão.
55
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. p. 66
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. p. 67.
57
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. p. 75.
56
29
Muito deste controle se caracterizava pela humildade do cortesão, que consistia em
não se vangloriar de seus atos, além de possuir certa graça ao realizar suas ações,
independente de qual fosse. Essa graça era tida como inata ao indivíduo e por isso ela
dificilmente poderia ser ensinada. A graciosidade nos atos se baseava em realizar as coisas de
forma que elas aparentassem naturalidade, sendo feitas com simplicidade. No entanto,
Castiglione diz que o indivíduo, embora não aprendesse a graça, poderia aprender a realizar as
ações com perfeição, mediante muito treino e bons mestres, visando reter o que cada mestre
soubesse melhor.
O conceito que Castiglione emprega para referir-se aos atos realizados com
graciosidade é sprezzatura, que na edição da Martins Fontes, utilizada nesse trabalho, é
traduzida como displicência. Burke identifica este conceito com o significado de “não dar
valor a”58, ou seja, as ações deveriam ser realizadas de modo que o cortesão não demonstrasse
que sua atenção estava voltada para aquilo. A graça está no fato de os atos parecerem
absolutamente naturais e sem importância.
É através da graça ou da sprezzatura que identificamos a preocupação de Castiglione
no que diz respeito ao comportamento do cortesão em relação ao corpo. Além do cortesão
fazer os exercícios que o preparariam para a guerra era necessário que ele contivesse seus atos
para que estes não fossem exagerados, mas sim modestos, naturais e agradáveis, isto é, “o
cortesão é, ele próprio, uma obra de arte que oculta a arte sob a aparência da
espontaneidade”59.
No humanismo essa preocupação com o corpo é diretamente ligada ao espírito, sendo
o primeiro o reflexo da alma. Isto significa que um cortesão deveria a partir de seus gestos e
atos demonstrar o seu interior instruído e nobre. Apesar de não ser possível aprender a graça,
a educação dos corpos era fundamental para a sociabilidade. Não apenas Castiglione percebeu
isto, Erasmo de Rotterdan dedicou seu livro Civilidade Pueril60 a ensinar os jovens a dominar
seus corpos.
Partindo do princípio que os corpos refletem a alma, Erasmo acreditava que o inverso
também se faria real, ou seja, se houvesse o aprendizado da contenção do corpo isto se
refletiria no interior do indivíduo e este se tornaria mais completo. Conseqüência do interesse
pela evolução da alma, o domínio do corpo resulta na aproximação dos indivíduos e em uma
sociabilidade mais agradável.
58
BURKE, Peter. As fortunas d’O Cortesão. A recepção européia a O Cortesão de Castiglione. São Paulo:
Unesp, 1997, p. 43.
59
Op. Cit. BURKE, Peter, p. 44.
60
ERASMO DE ROTTERDAN. De Pueris (dos meninos)/A Civilidade Pueril. São Paulo: Editora Escala.
30
A alma de um perfeito cortesão devia então ser alimentada pelos preceitos humanistas,
como a crença na capacidade humana de, através da virtú e do conhecimento, evoluir seu
espírito, sendo auxiliado pela retórica e pela eloqüência. Seu corpo deveria ser moldado pelos
mesmos preceitos, fosse pela sua forma física, atlética e ágil para as lutas, fosse pelo
comportamento natural com que exercia suas atividade.
2.2 - O Homem na Corte
No Renascimento novas formas de pensamento estavam surgindo, antigos pensadores
estavam sendo revisitados e incorporados em uma nova maneira de pensar, a corte se tornou
um ambiente fundamental para a divulgação de idéias. É nesse ambiente que percebemos uma
nova maneira de convivência, o relacionamento interpessoal ganha cada vez mais
importância, despertando sentimentos, como a vergonha, que se sobressaem às atitudes, às
vezes involuntárias, do corpo. O comportamento ganha importância e se torna um diferencial
no que diz respeito à civilização.
Neste momento o nobre é introduzido em uma nova rede de relações sociais. Embora
ainda carregue consigo o espírito aventureiro e guerreiro do cavaleiro, não é mais essencial
nas batalhas, fincando cada vez mais suas raízes no ambiente da corte, ao lado do príncipe.
Apesar de manter algumas virtudes do homem de armas, como a coragem e a honra, o
cortesão se vê em um mundo novo onde suas menores atitudes são notadas, em um mundo em
que as pessoas estão muito próximas umas das outras, sendo facilmente perceptíveis às ações
desagradáveis dos indivíduos, sejam elas voluntárias ou não. Haroche e Courtine falam que
com a civilidade surge como imperativo a observação das posturas exteriores do corpo61
Este sentimento de vergonha é o responsável por induzir o homem civilizado a conter
seus atos tendo em vista não apenas a reserva de sua intimidade, mas também o bem estar de
seu companheiro, poupando-o de cenas e situações desagradáveis, como aquelas emitidas pelo
corpo. Portanto, um bom cortesão deveria primeiramente ter total controle de seus atos, como
nos diz Federico Fregoso ao iniciar o segundo livro d’O Cortesão, no qual discutirá como o
cortesão deve utilizar todas as habilidades anteriormente referidas a ele pelo Conde Lodovico.
Dentre as inúmeras atitudes que Federico atribui ao cortesão, seguido pelo seu companheiro
61
COURTINE, Jean-Jaques; HAROCHE, Claudine. História do rosto . Lisboa: Teorema, 1995. P. 21
31
Bernardo Bibiena que fala sobre a conversação e em especial do fazer rir, percebemos que o
segundo livro dedica-se a mostrar as várias possibilidades que o cortesão possui de se
demonstrar civilizado. Muito embora esse termo não seja mencionado, o livro ensina as
principais premissas para que um indivíduo não se mostre inconveniente, se manifestando
como um ser ambientado nas cortes e nas rodas humanistas.
Desta forma, estar na corte já era um primeiro passo para a civilidade, pois lá o sujeito
deveria seguir o comportamento considerado polido para que fosse bem aceito, esta polidez
estava representada tanto no conhecimento de vários assuntos para longas e produtivas
conversas, como no asseio e contenção do corpo. Bom registro de que a contenção dos
instintos corporais passou a representar um grau maior de civilidade é a obra, já citada, de
Erasmo, Civilidade Pueril, em que este ensina aos meninos as boas maneiras, no que se refere
a cada parte de seu corpo, seja na expressão ou nos gestos.
É vasta a literatura que fala sobre as expressões dos indivíduos e seus significados, ou
seja, no Renascimento se inicia um estudo sobre leitura corporal. Erasmo nos fala, por
exemplo, dos olhos que “penetrantes denotam irascibilidade, os olhos vivos e muito loquazes
veiculam lascívia. Importa, que os olhos sejam o reflexo de um espírito tranqüilo com
respeitosa afetuosidade”. Desta mesma maneira segue falando dos lábios, das mãos e das
expressões.
Haroche e Courtine62 discutem como a expressão poderia revelar os pensamentos e
sentimentos de um indivíduo. Estes autores observam que no Renascimento a cabeça era
considerada a morada da alma, e como tal o rosto tornava-se uma janela por onde as demais
pessoas poderiam vê-la. Assim como Erasmo fala das expressões, Courtine e Haroche
analisam a suposta ciência que desvendaria as reais intenções de um indivíduo a partir da
observação da fisionomia: a metoposcopia. Semelhante a quiromancia, a metoposcopia foi
uma arte muito apreciada, e dita até indispensável, nas cortes dos séculos XVI e,
principalmente, XVII, quando poderia ser usada para revelar traidores. Frente a este artifício,
vemos claramente como tanto Castiglione, como Erasmo, aconselham que o homem, o
cortesão, deveria demonstrar apenas aquilo que ele realmente é, neste caso um humanista
íntegro e cheio de virtudes.
Refletir seus atos antes de executá-los, observar aqueles com quem se fala, se homem,
mulher, nobre ou plebeu, é o que Castiglione indica fazer em presença de outras pessoas.
Assim como Erasmo que propõe que ao educar o corpo se educa a alma, Castiglione atenta
62
Op. Cit. COURTINE, J-J.; HAROCHE,C.
32
para a relação entre ser e parecer, não esperando que seus cortesãos apenas hajam de maneira
civilizada, mas que todas as suas ações sejam realizadas de modo a refletirem o que o cortesão
realmente é. O autor não imagina em seu cortesão uma disparidade entre o ser e o parecer.
Ainda que não possua todas as habilidades de um homem perfeito, ainda que não tenha
nascido com a graça necessária para mostrar a displicência de seus atos, é importante que as
habilidades que irá aprender mesmo com dificuldade, sejam baseadas em virtudes e sejam
seus princípios de vida em sua alma. Apenas quando esses princípios e virtudes estivessem
nas mentes dos cortesãos é que naturalmente a contenção dos atos se realizaria.
Essa contenção vai muito além de reter os impulsos do corpo, ela se caracteriza
também nas questões sociais como as vestes dos cortesãos e das damas, que, novamente,
deveriam estar de acordo com o íntimo de cada indivíduo. Visto que este íntimo deveria se
revelar sóbrio e honrado, as roupas deveriam acompanhar estes aspectos. Para tanto a afetação
é uma característica muito criticada por Castiglione que assinala como exemplos inadequados
homens e mulheres que davam importância excessiva para a aparência, usando maquiagens
exageradas e roupas extravagantes. Assim, as vestimentas eram alvo de críticas morais e
religiosas, sendo que mulheres muito produzidas eram comparadas a meretrizes; e que ambos
os sexos quando muito ornados eram acusados de desvirtuar a obra de Deus.
Enfim, as vestes de um cortesão, assim como todo o resto de seu comportamento,
deveriam estar de acordo com os usos do grupo social a que pertencia, e que ele desse
preferência a roupas mais sóbrias e contidas, “fazendo com que as roupas ajudem-no a ser
bem considerado mesmo por quem não escute sua voz nem o veja fazer nada”63.
Além das vestes, o cortesão deveria moderar também suas palavras, tanto no que diz
respeito a falar de seus feitos, vangloriando-se, como nas brincadeiras impróprias ou em
momentos inadequados. A conversação deveria observar não apenas os assuntos, mas também
a companhia, para que gafes não fossem cometidas com seus companheiros.
Para o perfeito cortesão, sem dúvida, este espaço social que eram as cortes
renascentistas italianas, se configura como o seu habitat natural, um lugar onde ele podia
desenvolver suas habilidades físicas, como a dança, intelectuais, com as discussões
filosóficas, ou simplesmente se divertir em boa companhia, com jogos de azar. Assim, o
cortesão deveria saber distinguir os momentos de seriedade dos momentos de alegria e
diversão. Desta forma, Burckhardt64 apresenta o cortesão renascentista ideal como o ser social
63
64
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare, p. 114 e 115.
Op. Cit. BURCKHARDT, Jacob, p. 278 e 279.
33
perfeito, possuindo inúmeras habilidades e sendo educado para conviver na forma mais
elevada de sociabilidade.
A linguagem é outro ponto explorado por Castiglione. A língua a ser falada, os termos
a serem utilizados era um diferencial do homem civilizado. Conhecer várias línguas, entre
elas o latim e o grego era fundamental para o aprofundamento dos estudos humanístico e para
o conhecimento das obras antigas em seu idioma original. Saber utilizar a palavra escrita era
outro indicativo de civilidade. Esta era utilizada não apenas para escrever tratados humanistas,
mas também para escrever versos, que agradassem e emocionassem as damas palacianas, pois
fazer a corte a elas era um momento de descontração bastante utilizado nas cortes.
Desta forma “a civilidade manifesta-se nas maneiras, mas também na conversação”65.
O saber como falar e quando falar, ou como agir e quando agir denotam uma experiência e
uma distinção em corte, que passa a ser respeitada pela agradável sociabilidade que
proporciona. Ao se observar à formação que o cortesão possuía, este deveria ser capaz de
diversificar a conversa de maneira a se adaptar com qualquer um com quem estivesse falando.
Entretanto, era necessária certa ponderação até mesmo com os assuntos escolhidos,
conduzindo a conversa para um ponto onde houvesse um conhecimento considerável do
assunto discutido, nunca tentando tratar com profundidade temas pouco conhecidos.
Mas a proximidade com o príncipe ou mesmo a liderança de tropas em tempos de
guerra demonstram uma outra vertente da medida dos atos. Seguindo as análises de Elias e
Haroche, percebemos que mais que um encontro agradável com outros humanistas, a
contenção se mostra como um instrumento político. Uma maneira sutil de exercer certo
domínio sobre os demais indivíduos, que inicia nas cortes renascentistas italianas, mas que vai
se intensificando até chegar à sociedade de corte do século XVII, onde um andar mais lento
podia significar a majestade de um indivíduo.
2.3 - O Cortesão como profissão
O cortesão perfeito ganha forma nas palavras de Castiglione. Homem íntegro,
virtuoso, corajoso, enfim, homem de armas. Homem polido, letrado, instruído, um humanista.
65
Op. Cit. COURTINE, J-J; HAROCHE, C. P. 20
34
Essas habilidades “necessárias” ao cortesão renascentista por si só se justificariam, previam
uma melhoria espiritual, cunhando um ser agradável em sociedade. Entretanto, Castiglione
sugere uma última atividade ao cortesão, que presume uma sociabilidade especial: o
relacionamento com o príncipe.
Castiglione nos mostra dois momentos desta relação. Em primeiro lugar, o segundo
livro trata da relação de servidão de um para com o outro. Num segundo momento, no quarto
livro, essa servidão ganha certa paridade entre estes personagens, quando o cortesão recebe a
tarefa de se dedicar ao príncipe como seu mestre.
Como subalterno o cortesão deveria voltar suas atenções especialmente para o
príncipe, de modo a conhecer seu lugar frente a ele sendo sempre, mas especialmente em
público, “modesto e prudente, usando sempre (...) aquela reverência e respeito que convêm ao
servidor em relação ao seu senhor”, desta maneira, cuidando para não se tornar inconveniente,
mesmo possuindo a confiança do príncipe.
Neste momento do livro é perceptível que Castiglione deixa os princípios humanistas
de seu cortesão à parte, colocando-o em uma posição de servidão, onde o que importa são os
desejos e o bem estar do príncipe. Desta forma, amar seu príncipe acima de praticamente tudo
se tornou o principal elemento para que o cortesão fosse um bom súdito. Apesar da tênue
linha que separa a bajulação da postura do cortesão, o autor deixa claro que o desejo de ver
seu príncipe satisfeito não deveria ser associado às mercês que o príncipe poderia conceder66.
Isto significa que o bom cortesão se destacava frente aos demais súditos porque para ele era
fundamental o bem estar do príncipe. Inclui-se nesse bem estar evitar os inconvenientes em
público e os problemas particulares.
Entretanto, as mercês oferecidas não deveriam ser negadas. E se essas eram
concedidas normalmente àqueles homens mais próximos do príncipe, ou seja, àqueles que
eram vistos pelo mesmo, se preocupar com o príncipe resultava em uma melhor condição
social. Amar seu príncipe e cuidar de seus interesses resultava em benefícios para ambas às
partes, embora o sucesso só existia, segundo Castiglione, se da parte do cortesão fosse
desinteressado.
Contudo, no último livro d’O Cortesão o autor retoma a temática da relação
príncipe/cortesão com uma visão um pouco diferenciada, dando muita importância à
formação humanista do cortesão, modificando o sentido da servidão que ele devia dedicar ao
príncipe.
66
Op, Cit. CASTIGLIONE, B., p. 103, 104.
35
No último capítulo do livro é possível perceber uma mudança no texto, mais contido,
com poucas divergências e a fala de Otaviano Fregoso é conduzida por perguntas em sua
parte final. Isso se deve ao fato desta última parte ter sido redigida anos depois do restante da
obra. Neste capítulo Castiglione fez uma reflexão sobre as formas de governo existentes na
época, chegando à conclusão de que a monarquia é a melhor delas. Ao mesmo tempo fez uma
dura crítica aos tiranos e àqueles que utilizavam o poder de forma inadequada.
Para conter esses maus governantes Castiglione pretende que seu perfeito cortesão seja
o responsável em compartilhar sua sabedoria humanista com o príncipe. Sua servidão agora
não se dedica apenas ao bem estar do mesmo, mas em contribuir para que ele se torne um
bom governante, ou seja, sua atitude possui um caráter cívico.
Transformando-se em mestre o cortesão transmite ao príncipe os princípios
humanistas, em especial o controle corporal. Observamos que a contenção passa a ter um uso
político, o controle de si para o controle dos outros. Esse controle não se realiza apenas das
posições superiores (príncipe) para as inferiores (cortesãos), mas também entre os pares, que
observavam o comportamento e a partir deste incluíam ou excluíam certo indivíduo das redes
de sociabilidade.
O controle de si era uma forma de impor respeito e admiração pelo cortesão, mesmo
por aqueles que não o conheciam. Em uma relação de poder, como no caso do príncipe, se
percebe um “estreito laço entre os princípios da ação política e aqueles que regem a conduta
pessoal”67 É essa conduta pessoal que durante todo seu livro Castiglione tenta moldar em seu
cortesão perfeito, ensinando-o a educar seu corpo com exercícios e sua alma com virtudes,
pretendendo que ao vivenciar a conduta correta o cortesão saiba ensiná-la e desta forma “ser
mestre de si, para ser mestre dos outros”68
O cortesão então recebe sua missão final do autor, a finalidade pela qual ele foi
esculpido como um ideal. Seu objetivo, ou sua profissão, deve ser o de transmitir a sabedoria
àquele que possui autoridade para levar a cidade a um patamar melhor. Portanto deve ensinar
ao príncipe os mesmos preceitos existentes n’O Cortesão.
Castiglione presume que um indivíduo conhecedor dos preceitos humanistas teria a
coragem e a maneira correta de ensinar um príncipe sem ofendê-lo, mostrando seus erros e
indicando um caminho correto. Da mesma maneira ele vê num príncipe humanista um bom
67
68
HAROCHE, Claudine. Da palavra ao gesto. Campinas: Papirus, 1998, p. 37.
Op. Cit. HAROCHE, C. p.40.
36
governante que levaria para suas decisões políticas os pensamentos de um homem cheio de
virtudes, sendo mais difícil de se tornar um tirano.
Um homem de corte precisava ter várias facetas. A multiplicidade destas deixa claro o
momento de transição em que O Cortesão foi escrito. Pois exige um homem medieval, o
cavaleiro; um homem moderno, o indivíduo civilizado; e um humanista mestre de seu
príncipe, que apenas a sociabilidade das cortes renascentistas italianas permitia ser. Mas este
homem tão perfeito não se encontrava sozinho. Ele estava acompanhado nas cortes pelas
damas palacianas, responsáveis pela diversão e pelas belas poesias a elas dedicadas. Sua
presença, no entanto, não se resume apenas a momentos de prazer. Ela é um elemento
necessário para que o cortesão se torne um homem completo, unindo o racional ao subjetivo.
Castiglione dedica um livro de sua obra para falar sobre a dama palaciana e é a ela a quem o
próximo capítulo é destinado.
37
Capítulo III - O PAR PERFEITO
Durante toda sua a obra, Castiglione mostra que a figura feminina é de extrema
importância para as sociabilidades nas cortes renascentistas italianas. Isso é percebido na
companhia feminina presente nas quatro noites descritas no livro, essa companhia
representada principalmente pelas personagens da Duquesa, anfitriã e conciliadora, e de
Emília Pia, porta voz da primeira. Embora a presença dessas personagens seja importante,
dando uma linha a ser seguida pela discussão, ou indicando o interlocutor principal, elas não
participam efetivamente das discussões que se apresentam. Contudo, é no final do segundo
livro quando o senhor Gaspáro e o Dom Bernardo discutem sobre as brincadeiras que se
poderiam ou não fazer com as mulheres, que a figura feminina ganha destaque na obra.
É esta discussão que leva ao objeto do terceiro livro, incluindo a mulher no contexto
das cortes renascentistas como alguém merecedora de atenção. Nesta discussão, que segue por
todo o terceiro livro, a mulher é apresentada a partir de duas principais referências: Maria,
incentivadora e mãe dos homens, e Eva, pecadora e desvirtuadora. Desta maneira, O Cortesão
coloca dois pontos de vista, um deles misógino, presente no pensamento renascentista,
herança bastante antiga, o outro respeitoso em relação às mulheres, este sendo condizente com
as sociabilidades que se configuravam naquele momento. É a essa discussão que debate a
natureza da mulher que o terceiro livro da nossa fonte se dedica, nos proporcionando fazer
uma análise do papel que a figura feminina possui nessa sociabilidade que se formou nas
cortes renascentistas italianas e a visão mais corrente do papel da mulher durante o
Renascimento. Finalizando com a importância do amor que liga a dama palaciana ao cortesão.
3.1 - O Lugar da Mulher.
No século XIX, ao falar da posição que a mulher ocupava no Renascimento
Burckhardt utiliza como fonte O Cortesão e diz que “para a compreensão das formas mais
elevadas de sociabilidade presentes no Renascimento é, por fim, essencial saber que a mulher
gozava da mesma consideração conferida ao homem”69, isto é, a visão que este autor tinha era
a de uma mulher que freqüentava as cortes, participando dos círculos humanistas. Para tanto
69
BURCKHARDT, Jacob, A cultura do Renascimento na Itália. Um Ensaio. São Paulo: Cia das Letras,1991 p.
283.
38
esta recebia a mesma educação que os homens e que por esse motivo estes as consideravam
como alguém digna de acompanhá-los. Por outro lado, estudos mais recentes, como os de
Cláudia Optiz70, mostram que mesmo nas classes mais elevadas da sociedade, onde a mulher
poderia obter alguma instrução, ainda assim ela estava sempre submetida aos homens, fosse o
pai, o marido, ou mesmo o confessor.
A autora diz que um obstáculo ao historiador é que a maioria das fontes que mostram
alguma faceta do cotidiano feminino foram redigidas por homens, ainda que durante a
Renascença tenha existido mulheres humanistas que conseguiram publicar algumas obras,
como Cristina de Pisano. Esse mesmo aspecto em relação à parcialidade das fontes, no que
diz respeito ao estudo das atribuições e atividades femininas é encontrado por Françoise
Piponnier71, que coloca a mulher como pertencente a uma das ordens da Idade Média, a dos
guerreiros, a dos trabalhadores ou a dos que oravam, sendo, por isso, “submetidas à vigilância
e à direção dos homens de sua ordem”72. É interessante ressaltar que esta autora procurou
fontes iconográficas para tratar de seu objeto de estudo, por considerar que este tipo de fonte
traz uma carga menor de parcialidade, visto que, não possuíam o objetivo de mostrar
especificamente o quotidiano feminino.
A idéia de submissão feminina aparece constantemente nos estudos mais recentes,
sendo este comportamento encontrado em todos os momentos da vida da mulher, um exemplo
disso era o casamento, onde o cônjuge era escolhido pela família, raramente a mulher
podendo opinar sobre o pretendente. Deixando a casa do pai depois do casamento, segundo os
preceitos religiosos e de moral laica, a mulher deveria se submeter ao seu marido, sendo
obediente e fiel, o que não era necessariamente esperado do homem. Para controlar a esposa
ao marido era permitido utilizar meios como a violência, visto que o poder deste sobre sua
mulher era considerado absoluto, sendo de responsabilidade dele as atitudes da esposa.
Outra questão a que a mulher era submetida no casamento diz respeito à sua
sexualidade, que deveria ser guardada apenas para o marido e sempre vista no sentido da
procriação, sendo, por outro lado, tolerada a infidelidade dos homens, como também seus
filhos bastardos. Nesse sentido vemos uma grande contradição entre O Cortesão e outras
fontes do período utilizadas por essas historiadoras. Pois na sociabilidade perfeita de
Castiglione o que observamos é uma importância bastante grande dada à questão do amor no
70
OPTIZ, Claudia, O quotidiano da mulher no final da Idade Média (1250-1500). In DUBY, Georges e
PERROT, Michelle (Org.). História das mulheres no Ocidente. Porto: Edições Afrontamento, 1990.
71
PIPONNIER, Françoise. O universo feminino: espaços e objetos. In DUBY, Georges e PERROT, Michelle
(Org.). História das mulheres no Ocidente. Porto: Edições Afrontamento, 1990.
72
Op. Cit. PIPONNIER, Françoise, p. 441.
39
momento de se decidir um casamento, muito embora a submissão da mulher ao marido exista.
Essa questão sobre o papel do amor será discutida mais à frente.
Como já dito, O Cortesão traz duas visões possíveis da mulher no período
renascentista sendo contrapostas o tempo todo. A primeira é misógina, defendida
principalmente pelo senhor Gaspáro, auxiliado pelo senhor Ottaviano, uma visão com raízes
clássicas, como os escritos de Aristóteles, e que se conservou por todo o período medieval.
Thomasset justifica essa misoginia como sendo proveniente de um temor dos homens em
relação aos segredos das mulheres. Segredos esses relacionados aos corpos femininos, que se
configuravam como um mistério, e ao conhecimento das mulheres sobre o ato sexual. O
desconhecimento do universo feminino produziu nos homens um temor que resultou na figura
maléfica da feiticeira, da bruxa. Além deste sentimento de medo, o desprezo pela condição
feminina também se concretizou a partir da visão da mulher como um ser ligado às coisas
materiais, especialmente ao sexo, visto que sua principal finalidade estava na procriação73.
A segunda visão é aquela onde a mulher é capaz de possuir virtudes que elevem seu
espírito ao estágio elevado que os humanistas tanto desejavam, ou seja, embora a procriação
ainda seja sua principal competência, sua vida não se resume apenas a isto. Ela devia ser
educada de maneira a cultivar o conhecimento e as artes fundamentais para uma vida
contemplativa, além de virtudes para que conseguisse agir com honra e honestidade. Estes
preceitos juntos, ação e contemplação, atingiam os objetivos humanistas de aperfeiçoamento
individual. Essa visão é defendida principalmente pelo Magnífico Iuliano, que tem o apoio da
maioria dos participantes daquele encontro na corte de Urbino.
No entanto, apenas educação não era o suficiente para a mulher, pois há o consenso
entre os personagens de Castiglione de que a natureza feminina era diferente da masculina.
Desta maneira a mulher precisava realizar um esforço muito maior para atingir esta vida plena
considerada pelos humanistas. A visão que se tinha da natureza feminina era a de um ser fraco
e imperfeito. Imperfeito nas questões físico-anatômica, emocional e espiritual. Neste
momento creio que é importante aprofundar um pouco a explicação sobre a visão que se tinha
da natureza feminina, porque é essa idéia que permeia a discussão no terceiro capítulo, pois se
Gaspáro
não
considerasse
a
mulher
como
um
ser
inferior
ele
facilmente aceitaria a concepção da dama palaciana perfeita imaginada nas palavras de
Iuliano. Ou seja, uma mulher de virtudes igualadas as dos homens e de comportamento
perfeito frente à sociedade.
73
THOMASSET, Claude. Da natureza feminina. In DUBY, Georges e PERROT, Michelle (Org.). História das
mulheres no Ocidente. Porto: Edições Afrontamento, 1990, p. 87 e 88.
40
No que diz respeito à questão emocional e espiritual as mulheres eram vistas como
crianças inseguras e irracionais, levadas sempre pela emoção, sendo assim muito inconstantes.
Sua inconstância se dava por seu espírito ser relacionado diretamente às coisas materiais. Em
uma explicação de mundo como a de Pico della Mirandolla74, quando o homem se encontra
entre a Divindade e o animal, precisando se esforçar para sair de seu patamar terreno e se
aproximar de Deus, as mulheres então se localizariam em um patamar abaixo dos homens.
Não eram vistas como animais, mas sua ligação com o plano terreno se fazia mais forte que a
dos homens, por causa de seus corpos cuja principal função é conceber filhos.
No que se refere à questão do corpo, segundo Laqueur no Renascimento ainda pairava
a noção de corpo único, pensamento este de origem antiga e que perdurou durante a Idade
Média e Moderna. Esse corpo único significa que há a existência de um único sexo, no caso o
masculino. As explicações que surgiram sobre a anatomia mostravam o corpo feminino
exatamente igual ao masculino, entretanto aquele seria invertido, ou seja, a vagina seria o
pênis e o útero o saco escrotal. Esta idéia nos traz novamente a imperfeição feminina, visto
que transforma a mulher em um homem mal formado75. Mas as explicações medievais e
renascentistas tinham por princípio encontrar uma finalidade para tudo, sendo assim, “as
palavras reservadas para definir a mulher servem unicamente para evocar a sua função
principal: até a sua fraqueza física, garantia de submissão ao homem, favorece a procriação”76
Por serem as mulheres muito ligadas à matéria, se considerava que seu corpo era o
responsável pelo seu humor, este sentimento estava então intimamente ligado ao útero,
principal representante de um conjunto de órgãos responsáveis pela concepção dos filhos. A
idéia mais corrente era a de que havia uma deslocação vertical do útero no abdômen feminino
conforme sua “vontade” de gerar filhos, desta maneira quando deslocado de sua posição
natural ocasionava histeria nas mulheres77.
Mas não era apenas na anatomia que se explicava a imperfeição feminina. Para essas
explicações e para tantas outras sobre o microcosmos (Homem) e o macrocosmos (Universo)
o Renascimento herdou uma escala de valores que relacionava os elementos da natureza (ar,
fogo, terra e água), suas características (seco, quente, úmido e frio) e os temperamentos
humanos. Para essa escala de valores tudo aquilo que mais se aproximava do quente e seco
era mais perfeito, e o que se afastasse disso mais imperfeito. Desta forma, “os humores frios e
74
MIRANDOLA, Pico dela. A dignidade do homem. São Paulo: Editora Escala.
LAQUEUR, Thomas. Inventando o sexo. Corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará,
2001.
76
Op. Cit. THOMASSET, Claude. p. 65.
77
Op. Cit. THOMASSET, Claude. p 71.
75
41
úmidos [eram] considerados dominantes no corpo da mulher [resultando nas] suas
características sociais – mentira, mutação, instabilidade – e os humores quentes e secos,
[dominantes] nos homens [seriam os responsáveis pela] sua suposta honra, bravura, tônus
muscular, fortaleza geral de corpo e espírito”78
Essa questão da mulher fria e úmida se contrapondo ao homem quente e seco é
colocada na obra de Castiglione de duas maneiras, seguindo as duas linhas defendidas pelos
personagens. Primeiramente o senhor Gaspáro coloca esta idéia da imperfeição das mulheres,
vendo-as mesmo como um erro da natureza79, sendo, desta forma, incapazes de atingir a
perfeição que é o homem, argumentando que prova da perfeição deste e da imperfeição
daquela é o desejo que as mulheres sentiam de se tornarem homens80. Isto sendo relacionado à
concepção do corpo único, já falado anteriormente, nela a mulher adquire sua forma ainda no
ventre, onde não produziu os elementos necessários para expandir seus órgãos e se tornar um
homem de maneira suficiente, sendo o principal elemento ausente o calor.
Rebatendo essas afirmações o Magnífico Iuliano não nega o quadro de valores
colocado pelo senhor Gaspáro, mas não vê as mulheres como um erro da natureza,
argumentando que sem elas a humanidade já teria se extinguido, ou seja, a natureza as faz
necessárias. E explica que a frieza das mulheres lhes dá uma temperança que o temperamento
dos homens não permite por serem quentes. O Magnífico Iuliano também coloca um outro
valor em pauta: o de que a perfeição máxima não estaria no quente, mas sim nos corpos
temperados que seriam perfeitíssimos81, isto é, a excelência só poderia ser então encontrada
no equilíbrio das coisas, necessitando desta maneira a união entre o homem e a mulher para
surgir a perfeição.
Desta maneira, Iuliano reconhece a necessidade das mulheres no mundo, não apenas
como responsáveis pela procriação, mas como elemento fundamental para o equilíbrio da
natureza e mesmo do Universo. Esse equilíbrio era essencial para que os objetivos humanistas
de elevação do espírito fossem atingidos. A união que leva ao equilíbrio ocorre
principalmente através do amor, que não precisa necessariamente ser vivenciado fisicamente,
resultando em herdeiros, embora estes possam ser considerados uma das manifestações desta
união, pois resulta em um milagre divino que é a vida. Mas que pode ser vivido em sua
plenitude espiritual e ainda assim ser completo, contribuindo para o crescimento de cada
78
Op. Cit. LAQUEUR, Thomas.p. 131.
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. P. 199.
80
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. P. 202.
81
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. P. 204.
79
42
indivíduo envolvido na relação. Neste sentido não basta que a mulher seja vista apenas como
um corpo, é preciso considerar suas virtudes, as quais auxiliaram os homens em suas jornadas.
Mas a discussão sobre as virtudes femininas se inicia quando os personagens de
Castiglione concordam com o princípio de que a finalidade da mulher é a perpetuação da
espécie. Pois, Dom Bernardo coloca que os homens criaram uma “lei segundo a qual, [nos
homens] a vida dissoluta não é vício, nem erro, nem infâmia, enquanto nas mulheres é
extremo opróbrio e vergonha”. E o senhor Ottaviano acrescenta que pela natureza imperfeita
da mulher, que a faz ter menos domínio de seus atos, em especial no que diz respeito às
relações sexuais, foi necessário lhes impor limites, através da infâmia e da vergonha para se
ter o controle da legitimidade dos filhos82. Essa questão introduz a discussão sobre as virtudes
femininas porque se por um lado o senhor Ottaviano coloca que se dependesse simplesmente
das mulheres essa contenção não existiria por ser a natureza delas mais propícia às questões
sexuais, por outro Dom Bernardo diz que apenas a contenção dos desejos sexuais já bastaria,
mas que ela é ainda mais virtuosa justamente porque a prática do ato causa vergonha, e esta
vergonha está na honra perdida.
Mas antes de entrar na questão das virtudes femininas, é interessante analisar esta
questão do ponto de vista prático que o senhor Ottaviano coloca que é o da legitimidade dos
filhos. Essa questão ultrapassa os preceitos morais da mulher, pois vivendo em uma sociedade
patriarcal, onde existe a possessão de bens privados esta mulher tem o papel de gerar não
apenas filhos para a perpetuação da espécie, mas principalmente herdeiros de uma linhagem.
Assim, a quantidade de parceiros teve que ser controlada por razões econômicas e políticas,
para que fosse possível identificar as famílias para as quais os bens materiais, ou o poder,
seriam transmitidos sem se perderem na comunidade.
Desta maneira a submissão das mulheres não possui caráter simplesmente natural,
como se podia pensar no que diz respeito a um ser mais forte controlando o mais fraco, mas é
carregada de uma carga social. Essa carga social é então configurada como um aspecto moral,
ou seja, a vergonha em praticar atos libidinosos, resultando na contenção. Esta contenção é
vista como uma virtude, em especial pelos humanistas que consideram o controle como uma
qualidade em um sentido mais amplo, que engloba não apenas a questão sexual, mas todas os
outros aspectos que relacionam o homem com o mundo terreno, por exemplo, a comida.
Ponto crucial utilizado em defesa das virtudes femininas na obra de Castiglione são os
inúmeros exemplos de preservação da honra feita por muitas mulheres. Contudo ter sua honra
82
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare.p. 177
43
preservada podia bastar para as mulheres comuns, mas para a dama palaciana perfeita era
necessário mais. A dama deveria possuir virtudes análogas às masculinas, como a honra, a
coragem, a honestidade, ou seja, uma mulher se assemelharia aos homens em sua dignidade,
alimentando virtudes, como a nobreza e a graça, e evitando os vícios, como a afetação.
Entretanto, a aparência da mulher, isto é, suas maneiras deveriam ser delicadas e ternas,
repletas de feminilidade83. Isso nos mostra que a mulher idealizada por Castiglione era aquela
cujo espírito não se limitava a sua condição de dona de casa, era aquela mulher que buscava
seu enriquecimento espiritual, mas que suas atitudes não fugissem desse seu papel de
cuidadora, de mãe, fundamental na sociedade renascentista.
Em passagens rápidas, mas insistentes, Castiglione fala desse papel a que a dama
palaciana perfeita não deveria se desvencilhar, falando que a mulher deveria “saber
administrar os bens do marido, a casa e os filhos quando é casada”84. Essa fala se junta a
outras características da mulher que da maneira como foram escritas se pressupõe que fossem
de conhecimento de todos, sendo apenas lembrado que no meio de tantos atributos que a
dama palaciana perfeita deveria possuir, os seus deveres não deveriam ser abandonados. Os
afazeres domésticos como cuidar da casa, do marido e dos filhos era, no Renascimento, o
papel principal da mulher, como nos diz Casagrande, King e Optiz85. Todas essas autoras nos
falam do papel social da mulher no sentido de ser mãe e esposa, isso significa que quem
ficava responsável por ela não era mais o pai e sim o marido. Em contrapartida ficava a cargo
da mulher os cuidados com a casa, mantendo-a limpa, organizada e cuidando para que as
provisões estivessem sempre bem guardadas. Além de realizar seu principal objetivo na
sociedade, o de ser mãe, sendo de sua responsabilidade gerar, cuidar, nutrir e educar seus
filhos.
Essa questão dos deveres sociais da mulher implica na questão de sua educação. A
mulher desde jovem é educada para conhecer seu lugar na sociedade. Na visão dos
reformadores católicos essa educação deve acontecer compreendendo ao menos a leitura e o
catecismo, pois se vê na menina uma potencial mãe e educadora, ou seja, a responsável por
transmitir a seus filhos uma educação religiosa e de moral católica86. Mas não apenas os
reformadores católicos se preocupavam com a educação das meninas, o protestantismo
83
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. P. 192.
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. P. 192.
85
CASAGRANDE, Carla. A mulher sob custódia. In DUBY, Georges e PERROT, Michelle (Org.). História das
mulheres no Ocidente. Porto: Edições Afrontamento, 1990. Op. Cit. OPTIZ, Claudia. KING, Margaret L. A
mulher renascentista. In. GARIN, Eugene (Org.). O homem renascentista. Lisboa: Editorial Presença, 1991,
p.193 e 198.
86
SONNET, Martine. Uma filha para educar. In DUBY, Georges e PERROT, Michelle (Org.). História das
mulheres no Ocidente. Porto: Edições Afrontamento, 1990, p. 144 e 145.
84
44
também exerceu grande influência nesta questão, afinal “se cada crente deveria se conciliar
diretamente com Deus, e se Deus falava através das Escrituras, então todos deveriam aprender
a ler”87. Desta maneira a religiosidade é a responsável pelo primeiro passo na educação das
moças, contudo esta educação não visava seu enriquecimento cultural, no sentido da mulher
conhecer as ciências e as artes, mas sim seu direcionamento moral e religioso, sendo um
instrumento para a difusão da fé.
Castiglione é um exemplo de preocupação com a educação da mulher que
desconsiderou em parte a questão religiosa e se centrou mais em uma educação que visava o
conhecimento. Assim, n’O Cortesão a dama deveria saber mais que apenas ler, suas
habilidades deveriam fazer com que a mulher fosse capaz de receber convidados de modo a
conversar com estes de maneira a perceber “a qualidade daquele com quem fala, para entretêlo gentilmente esteja informada de muitas coisas; e saiba ao falar, escolher coisas adequadas à
condição daquele com quem fala”88. Isto significa que a dama palaciana que freqüenta as
cortes renascentistas italianas deveria ser instruídas nos conhecimentos humanistas para que
sua convivência com estes homens se tornasse agradável, como prevê a sociabilidade descrita
n’O Cortesão. Isto nos faz pensar que Castiglione compartilhava das idéias de Juan Luis
Vives de que “não existem defeitos congênitos na mente das mulheres que impeçam a
obtenção do saber”89.
Esta educação que ultrapassava a formação de uma boa dona de casa, esposa dedicada
e boa mãe cristã era exclusividade das classes mais elevadas da sociedade, especialmente
daquelas mulheres da nobreza. Ainda que chamadas ao conhecimento pela obra de
Castiglione, raras foram as mulheres que seguiram pelo caminho da erudição. E mesmo as
que seguiram este caminho enfrentaram o preconceito dos próprios humanistas, que “embora
parecesse considerar necessário que as mulheres possuíssem um certo nível de educação,
também pensavam que uma instrução demasiado elevada as tornaria masculinas e
desagradáveis”90. Esta mesma crítica se encontra na fala do senhor Gaspáro, que justifica sua
recusa em ver uma mulher erudita no fato de sua natureza inferior91. Isto significa que se por
um lado, nas teorias humanistas, o conhecimento era visto como algo necessário para o
crescimento do ser humano, independente de gênero, por outro os hábitos e costumes da
época criavam uma barreira para que fosse aceita uma mulher dedicada ás ciências e ás artes.
87
Op. Cit. King, Margaret, p. 221.
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare. P. 194.
89
Op. Cit. King, Margaret, p. 219. Juan Luis Vives pedagogo que em 1523 escreveu o primeiro estudo sobre
educação feminina, La institución de las mujeres cristianas. Op. Cit. SONNET, Martine, p. 142.
90
Op. Cit. King, Margaret, p. 222.
91
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare.p. 198.
88
45
3.2 – Perfeição na União
Se fora da sociabilidade perfeita de Castiglione percebemos uma rejeição da mulher
intelectual tão forte a ponto de Castiglione fazer o senhor Gaspáro rejeitar esta idéia até o
final do livro, na Corte de Urbino encontra-se então outro lugar para as damas ao lado dos
humanistas, visto que em várias passagens a mulher é colocada como uma das grandes
responsáveis pelo esforço masculino em praticar as virtudes e a cortesania92. A visão que se
tem das mulheres pela ótica d’O Cortesão é aquela de que a mulher é necessária para o mundo
não apenas no seu papel de mãe, mas também como incentivadora das grandes realizações do
homem. Devido a este papel, atribuído por alguns humanistas, a mulher passa a ser vista
como necessária para se trilhar o caminho da perfeição, através da união do masculino,
quente, seco, viril, com o feminino, frio, úmido, delicado. Segundo Castiglione, quanto mais
perfeitas fossem as partes separadamente, no caso o cortesão e a dama palaciana, mais
próximos da perfeição se chegaria, o que explica a dedicação de um livro apenas para se falar
das mulheres.
Neste sentido a questão do amor ganha destaque na obra de Castiglione. Este
sentimento é identificado por Agnes Heller93 como tendo várias facetas durante o
Renascimento. Desde a abstração do sentimento feita por Petrarca, Dante e Marsílio Ficino,
passando pelo amor sensual de Bocaccio, até o amor sempre correspondido das obras de
Shakespeare. Enfim, durante o Renascimento o amor, assim como a amizade, segundo a
autora, apenas são possíveis graças ao sentimento de individualização que se inicia neste
período. Castiglione caracteriza o amor como sendo espiritual, podendo se concretizar no
amor físico ou não.
No terceiro livro é recomendado às damas terem cuidado com aqueles homens que
fingem o amor, pois esses têm o interesse apenas de ludibriar as jovens e obter prazeres
desonestos, desta forma para se protegerem destes homens é recomendado ás mulheres não
cederem a nenhum pedido de prova de amor94. No entanto, se esse amor fosse verdadeiro era
indicado aos jovens que vivessem este amor através do casamento, ou seja, para ser
verdadeiro o sentimento deveria ter um fundo espiritual, contudo após as devidas
providências, como o casamento, seu lado físico poderia ser vivenciado. Ainda que
Castiglione, Petrarca e Shakespeare relacionem o amor ao matrimônio, durante o
92
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare.p. 190 e 240.
HELLER, Agnes. O Homem do Renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1982.
94
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare.p. 243 a 248
93
46
Renascimento era mais comum que o casamento estivesse ligado a questões de interesse
social e econômico, sendo a escolha dos cônjuges uma opção das famílias, mais que dos
noivos.
Embora Castiglione fale de amor no terceiro livro, é na última parte do quarto livro
que o autor se mostra mais inspirado para falar sobre o amor. Nesta parte do livro, através de
Pietro Bembo inicia-se a fala sobre o amor espiritual, como a forma de amar mais sublime e
adequada ao cortesão, em especial ao cortesão de idade mais avançada, que já não deveria
viver grandes paixões, por não serem mais compatíveis com sua idade, mas em especial por já
ter sabedoria o suficiente para poder vivenciar esse amor aproveitando-o por completo, sem
haver a necessidade da conjunção carnal. A escolha de Pietro Bembo como interlocutor para
as questões de amor não é aleatória. Bembo é autor da obra Os Asolani que trata do mesmo
tema, inclusive muito do que aparece no livro de Castiglione está presente na obra de Bembo.
O tipo de amor que é descrito na fala de Bembo nos mostra uma das características do
humanismo que é a referência a Platão. Sendo o amor ideal para ser vivido pelo cortesão e
pela dama palaciana um sentimento livre de más intenções, totalmente puro e desapegado das
questões materiais, fazendo referência à diferença entre o inteligível perfeito e o plasmado
imperfeito. Esse amor perfeito se caracteriza pela visão que se resgatou da beleza como sendo
um ideal, desta maneira, “por intermédio da beleza realizou-se uma nova abordagem do
amor”95. Ademais a beleza passou a ser relacionada com o bom, o sublime, outra referência
aos clássicos platônicos. Heller relaciona o ideal da beleza com a questão das medidas e da
harmonia, presentes nas artes plásticas, pintura e escultura.
Ao cortesão era então permitido amar de uma maneira que apenas homens de vivência
honrosa e reta conseguiriam. Desta última forma de amar, que não envolvia relações físicas,
mas apenas espirituais vemos surgir entre homens e mulheres uma aproximação que não
precisa ser necessariamente amorosa. A sociabilidade que nasceu nessas cortes possibilitou a
aproximação entre homens e mulheres, assim como entre pessoas do mesmo sexo, no sentido
de algo muito próximo do que podemos chamar de amizade, ou seja, permitiu uma
convivência na qual pode existir o prazer, as brincadeiras, a troca de conhecimento, sem, no
entanto haver uma relação tão próxima, como a de marido e mulher. Heller nos fala de três
maneiras de amizades descritas por Aristóteles na Antiguidade:
“a que decorria do costume, a ligada a uma vantagem mútua e a que tinha origem na
virtude. Só a última era genuína e sublime. A segunda só podia florescer enquanto
existissem vantagens mútuas. A virtude como energeia, no entanto, só podia surgir
através da prática constante da atividade cívica, da defesa do país e da fruição das
95
Op. Cit. HELLER, Agnes. p. 221.
47
artes e das ciências – não podia, portanto aparecer entre aqueles que não tinham
acesso a tudo isso”96
Embora Heller fale que a amizade no Renascimento não siga essas três linhas de
Aristóteles, percebemos que o relacionamento descrito na corte renascentista italiana
idealizada por Castiglione se encaixa perfeitamente no terceiro tipo, onde a amizade se baseia
em preceitos e virtudes em comum, virtudes essas compartilhadas por todos aqueles
personagens do diálogo e principalmente naquele moldado no diálogo, o cortesão ideal.
Contudo, se Aristóteles não fala sobre as mulheres, Castiglione coloca a presença
feminina como a responsável pela alegria na corte97, pelo lúdico e pelos prazeres. A mulher é
vista como incentivadora dos grandes feitos masculinos, como as conquistas nos campos de
batalha. Entretanto ela também é a responsável pelas questões referentes ao comportamento
nas cortes renascentista, isto é, ela é a razão para que os cortesãos refinem suas maneiras e
muitas vezes as responsáveis pela dedicação destes no mundo das artes, em especial no que
diz respeito à poesia. A proximidade entre os sexos torna-se então necessária para a
civilização dos homens, pois é através do respeito ou do amor dedicados às mulheres que
surgia o desejo de saber dançar bem, escrever poesias ou simplesmente ser agradáveis tendo
assim uma boa convivência.
A civilização, segundo Elias, ocorre através de um procedimento que consiste na
observação mútua entre as pessoas, com a intenção de que ao ser observado um indivíduo aja
de tal maneira a não se sentir envergonhado pelos seus atos, conseqüentemente, seguindo um
conjunto de preceitos aceitos em um dado grupo social. Se o que se esperava do
comportamento das mulheres, durante o Renascimento, era que elas fossem recatadas e
contidas, era de se esperar que não presenciassem atitudes descorteses, obrigando, de certa
maneira, que os homens tivessem um controle maior de seus atos. Ainda que a discussão
sobre o valor das mulheres não convença a todos os personagens do livro, o respeito imposto,
no que se refere ao comportamento que os cortesãos deveriam ter na presença das damas não
era questionado, seja por este papel elevado de incentivadora, seja pelo seu tradicional papel
de mãe. Sendo então esta convivência entre cortesãos e damas um passo no que Elias chamou
de processo civilizador.
96
97
Op. Cit. HELLER, Agnes. p. 215.
Op. Cit. CASTIGLIONE, Baldassare.p. 190 e 240.
48
CONCLUSÃO
O Renascimento presenciou a formação de uma sociabilidade que, apesar de sua curta
duração, foi exemplo de um mundo onde os costumes tornaram-se cada vez mais refinados.
Esse refinamento dos costumes nos possibilita observar o processo civilizador pelo qual o
Ocidente vem passando. Processo este que se acentuou durante os séculos XIV, XV e XVI,
visto que alguns costumes que começaram a se consolidar neste momento estão presentes em
nossas vidas até hoje.
Este trabalho procurou compreender essa sociabilidade que se apresentou analisando
os costumes nela existentes a partir da civilidade das maneiras e atitudes que ali se
configuraram. Para isso foi utilizado o Processo Civilizador, onde Elias98 percebe que a
sensibilidade das emoções e do sentimento de vergonha caracteriza a civilidade e que esta se
torna um diferencial social, visto que grupos que delimitam seu comportamento tendem a
aceitar apenas àqueles indivíduos que seguem tais normas de conduta.
Como fonte foi utilizado o livro O Cortesão, de Baldassare Castiglione99. Obra que se
caracteriza como um manual de conduta, gênero literário que teve grande aceitação durante o
Renascimento. A obra relata o encontro de humanistas na corte de Urbino em 1506, no qual
para se distrair é decidido imaginar quais seriam as características de cortesão perfeito.
A partir da fonte este trabalho procurou responder as seguintes perguntas: Como se
configurava o ideal de homens e mulheres que deveriam viver nas cortes; e qual era o papel
social destes indivíduos nessa sociabilidade. Além de problematizar como esses ideais se
relacionam com o contexto renascentista que encontramos na historiografia.
Levando em consideração a grande repercussão que a obra teve por toda a Europa,
visto as inúmeras publicações e traduções encontradas100, entendemos que o ideal presente
n’O Cortesão era bastante aceito. Desta forma, percebemos que o ideal pautado em virtudes e
polidez, tanto masculino como feminino, era o que se esperava encontrar em uma corte,
ambiente em que a civilidade se destacava resultando em uma agradável sociabilidade e
diferenciando nobres de pessoas comuns.
98
ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Uma História dos costumes. Vol.1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1994.
99
CASTIGLIONE, Baldassare. O Cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
100
Foram encontradas cerca de 156 edições do livro entre 1528 e 1850, sendo que 137 delas foram feitas nos
séculos XVI e XVII. BURKE, P. Fortunas do Cortesão. São Paulo: EDUSP, 1997, Apêndice I.
49
O papel social da dama palaciana fica bem demarcado dentro da esfera da civilidade,
ela é encarada como um agente civilizador do homem, ou seja, sua presença é a responsável
pela contenção dos instintos masculinos, assim como por inibir atitudes que resultem no
sentimento de vergonha. Ademais ela é incentivadora da civilização, pois se caracteriza como
fonte de inspiração para as criações humanas, principalmente no campo da arte.
Já o papel do cortesão se estende além das questões do comportamento. Seu papel é
levar a civilização para a esfera política, assim sua obrigação cívica é a de repassar os
preceitos ideais para o príncipe de modo que este governe com justiça e sabedoria. Assim,
impedindo governos tiranos e prejudiciais.
Desta maneira, além do aperfeiçoamento pessoal, o indivíduo perfeito tem um papel
frente a uma formação social em que os preceitos humanistas são o principal guia para atingir,
nas palavras de Burckhardt101, a forma mais elevada de sociabilidade, onde a beleza desta
sociedade era ditada pela convivência e pelo decoro.
Enfim, ainda que o cortesão ou a dama palaciana idealizados não tenham se
concretizado, é possível perceber que o comportamento esperado nas cortes foi um passo
importante para o processo civilizador em direção a contenção dos corpos e a preocupação
com o bem estar, seja do outro que não presencia coisas desagradáveis, seja de si mesmo que
evita o sentimento de vergonha. Apesar da curta duração da formação social das cortes
renascentistas italianas seu estudo se faz importante por ser uma sociabilidade de transição
ocorrendo “após o afrouxamento da hierarquia social medieval e antes da estabilização da
moderna”102. Assim, elementos medievais e modernos se encontram, como o cavaleiro que se
transforma em cortesão, tornando-se influência para a sociedade de corte do século XVII,
mais rígida e preocupada com o controle social. Além de possuir um conjunto de costumes
civilizados que reconhecemos até hoje.
101
102
BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália. São Paulo: Cia das Letras, 1991.
Op Cit. ELIAS, Norbert. P.85.
50
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Download

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