REVISTA DA
ABRALIN
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA
REVISTA DA
ABRALIN
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA
ISSN 1678-1805
REVISTA DA ABRALIN
VOLUME ELETRÔNICO
NÚMERO ESPECIAL
1ª PARTE
2011
REVISTA DA
ABRALIN
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA
CONSELHO EDITORAL
Aryon Dall'Igna Rodrigues (UnB)
Bruna Franchetto (UFRJ/Museu Nacional)
Carlos Alberto Faraco (UFPR)
Charlote Marie C. Galves (UNICAMP)
Daniel Vanderveken (Quebéc Trois-Rivières)
Dermerval da Hora (UFPb)
Dino Preti (USP)
Eduardo Guimarães (UNICAMP)
Eleonora Cavalcante Albano (IEL-UNICAMP)
Elsa Gomes-Imbert (Toulouse 2)
Emilio Bonvini (CNRS-LLACAN-Paris)
Eni de Lourdes P. Orlandi (IEL-UNICAMP)
Esmeralda Negrão (USP)
Fábio Alves (UFMG)
Gessiane Picanço (UFPará)
Gillian Sankoff (University of Pennsylvania)
Gregory Guy (York University)
Ida Lúcia Machado (UFMG)
Ieda Maria Alves (USP)
Ilza Maria de Oliveira Ribeiro (UFBA)
Ingedore Grunfeld Villaça Koch (UNICAMP)
Ingrid Finger (UFRGS)
Ivone Panhoca (PUCCAMP)
Kazué Saito Monteiro de Barros (UFPe)
Laura Álvarez (ISPLA - Univ. de Estocolmo)
Leda Bisol (PUC-RS)
Leo Wetzels (Vrije Univ. Amsterdan)
Leonor Scliar-Cabral (UFSC)
Letícia Maria Sicuro Corrêa (PUC-RIO)
Lorenzo Teixeira Vitral (UFMG)
Luiz Carlos Cagliari (UNESP Araraquara)
Luiz Carlos Travaglia (UFU)
Luiz Marcuschi (UFPE)
Luiz Paulo da Moita Lopes (UFRJ)
Maralice de Souza Neves (UFMG)
Márcia Cançado (UFMG)
Marcus A. Rezende Maia (UFRJ/Mus. Nac)
Margarida Basílio (PUC_Rio)
Maria Aparecida Torres Morais (USP)
Maria Bernardete Abaurre (UNICAMP)
Maria Carlota do Amaral Rosa (UFRJ)
Maria Eugênia Lamoglia Duarte (UFRJ)
Maria da Graça Krieger (UNISINOS)
Maria Helena Mira Mateus (Univ. de Lisboa)
Maria Helena M. Neves (UNESP-Araraquara)
Maria Izabel Magalhães (UnB)
Maria Luiza Braga (UFRJ)
Maria Manoliu (UC-Davis)
Maria Marta Pereira Scherre (UnB)
Maximiliano Guimarães (UFPR)
Oswaldo Ducrot (EHESS - Paris)
Palmira Marrafa (Univ. de Lisboa)
Rosane de Andrade Berlinck (UNESP)
Ruth Elisabeth V. Lopes (UNICAMP)
Sérgio Moura Menuzzi (UFRGS)
Tereza Cabré (Universidade de Barcelona)
Teresa Cristina Wachowicz (UFPR)
Thaís Cristófaro Silva (UFMG)
CAPA E PROJETO GRÁFICO
Lúcio Baggio
REVISÃO E NORMALIZAÇÃO DE TEXTOS
Prof. Dr. Rodolfo Ilari
Profa. Dra. Teresa Cristina Wachowicz
FORMATAÇÃO
Patricia Mabel Kelly Ramos
COMITÊ EDITORAL
EDITOR-CHEFE
EDITOR ADJUNTO
Prof. Dr. Rodolfo Ilari
Profa. Dra. Teresa Cristina Wachowicz
Universidade Estadual de Campinas
Universidade Federal do Paraná
Prof. Dr. Dermeval da Hora
Profa. Dra. Kazuê Saito Monteiro de Barros
Universidade Federal da Paraíba
Universidade Federal de Pernambuco
Profa. Dra. Thaís Cristófaro Silva
Profa. Dra. Maria Carlota Amaral P. Rosa
Universidade Federal de Minas Gerais
Universidade Federal do Rio de Janeiro
REVISTA DA
ABRALIN
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA
REVISTA DA
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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA
R454
Revista da Abralin / Associação Brasileira de
Linguística. Vol 1. n1 (jun.2002 - . - Curitiba,
PR: UFPR, 2002-.
Vol.Eletrônico, n.Especial (1ª parte 2011)
Semestral
ISSN 1678-1805
1. Lingüística - Periódicos. 2. Gramática comparada e
geral. 3. Palavra - Linguística. I. Universaidade Fedral do
Paraná. II. Associação Brasileira de Linguística. III.
Título.
CDD: 415
Bibliotecário: Arthur Leitis Junior - CRB9/1548
SUMÁRIO
ARTIGOS
COLEÇÃO COLETIVAS DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS: REFLETINDO SOBRE A EXPERIÊNCIA
BRASILEIRA............................................................................................................................... 13
Ataliba T. de Castilho - Universidade de São Paulo (USP)
GRAMÁTICA: REFLEXÕES SOBRE UM PERCURSO DE ELABORAÇÕES DE MANUAIS................ 33
Maria Helena de Moura Neves - Universidade Presbiteriana Mackenzie Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - CNPq
CONSTRUÇÃO DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS ......................................................................... 53
Maria Helena Mira-Mateus - Profª Catedrática Jubilidada (FLUL e ILTEC)
LAS MACROGRAMÁTICAS COLECTIVAS. LENGUA-I Y LENGUA-E: DATOS, TÉCNICAS Y
TEORIAS IMPLÍCITAS ................................................................................................................ 71
Violeta Demonte- Consejo Superior de Investigaciones Científicas, España (CCHS- CSIC)
A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E O PAPEL DOS FATORES LINGUÍSTICOS, SOCIAIS E
ESTILÍSITICOS ........................................................................................................................... 91
Maria Eugênia Duarte - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) /CNPq/FAPERJ
Maria da Conceição Paiva - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) /CNPq
A VARIAÇÃO LINGUÍSTICAS E O PAPEL DO FATORES SOCIAIS: O GÊNERO DO FALENTE
FOCO ...............................................................................................................................121
Maria Marta Pereira Scherre - Universidade Federal do Espirito Santo (UFES) Universidade de Brasília (UnB)/CNPq
Lilian Coutinho Yacovenco - Universidade Federal do Espitiro Santo (UFES)
EM
A VARIAÇÃO LINGUÍSTICAS E AS RESTRIÇÕES ESTILÍSTICAS/LINGUISTIC VARIATION AND
THE
STYLISTIC CONSTRAINTS ...............................................................................................147
Dermeval da Hora - Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Léo Wetzels Vrije Universiteit – Amsterdam
DESENVOLVIMENTO LINGUÍSTICO NA AQUISIÇÃO DE PORTUGUÊS L2 (ESCRITO) POR
SURDOS: A ESTRUTURA DO SINTAGMA NOMINAL ...............................................................189
Heloisa Maria Moreira Lima Salles - Universidade de Brasília (UnB)
Lilian Coelho Pires - Universidade de Brasília (UnB)
A DESCRIÇÃO DAS LÍNGUAS ’EXÓTICAS’ E A HISTORIOGRAFIA LINGUÍSTICA ....................209
Cristina Altman - Universidade de São Paulo (USP)
TWO SORTS OF BARE NOUNS IN BRAZILIAN PORTUGUESE.................................................231
Roberta Pires de Oliveira- Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)/CNPq
Susan Rothstein - Bar-Ilan University
AU NOM DE NON, PERSPECTIVES DISCURSIVES SUR LA NEGATIVITÉ ...............................267
Dernis Bertrand - Université Paris 8 - Vincennes - Saint-Denis
O DISCURSO DA GRAMÁTICA DO PORTUGUÊS .....................................................................291
Diana Luz Pessoa de Barros - Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) - Universidade de
São Paulo (USP) /CNPq
MELODIC ANALYSIS OF SPEECH (MAS): APLICACION EN LA COMPARACIÓN DE LENGUAS
(CONFERÊNCIA) ............................................................................................................333
Dolors Font-Rotchés - Laboratori de Fonètica Aplicada - Universitat de Barcelona
A EXPRESSÃO VARIÁVEL DO FUTURO VERBAL NA ESCRITA: BRASIL E PORTUGAL EM
CONFRONTO .........................................................................................................................367
Josane Moreira de Oliveira - Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
O FUTURO NAS LÍNGUAS ROMÂNICAS .................................................................................385
José Luiz da Veiga Mercer - Universidade Tuiuti do Paraná
A REPRESENTAÇÃO DO TEMPO FUTURO EM TEXTOS ESCRITOS: UMA ANÁLISE
DIACRÔNICA .........................................................................................................................395
Rita do Carmo Polli da Silva - Faculdade Internacional de Curitiba (FACINTER)
ANÁLISE AUTOMÁTICA DA MORFOLOGIA VERBAL DO PB: PLATAFORMA CHILDES ..........431
Leonor Scliar Cabral - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)/CNPq
Vera Vasilévski - (PNPD CAPES)
ARTIGOS
CONSTRUÇÃO COLETIVA DE
DESCRITIVAS:
REFLETINDO
EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
GRAMÁTICAS
SOBRE
A
Ataliba Teixeira de CASTILHO
Assessor linguístico do Museu da Língua Portuguesa
Universidade de São Paulo (USP)
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Introdução
A moderna Linguística fixou-se no Brasil a partir dos anos 70. Até
então, os brasileiros interessados nessa disciplina tinham apenas três
possibilidades para estudá-la: as aulas de Joaquim Mattoso Câmara Jr. na
Universidade do Brasil, hoje UFRJ, as de Theodoro Henrique Maurer
Jr. na Universidade de São Paulo, ou, aqui, em Curitiba, as aulas de Raul
Farâni Mansur Guérios.
De lá para cá muita coisa mudou. Apenas para lembrar: o I Seminário
de Linguística de Marília, realizado em 1967, reuniu todos os linguistas
brasileiros de então, escassamente uns 15 ou 20. A ABRALIN, fundada
em 1969, por proposta apresentada naquele seminário, tem hoje centenas
e centenas de associados. Isso, sem falar nas muitas associações regionais
de Linguística.
Como todo movimento científico que estreia, a Linguística brasileira
precisava escolher um inimigo. Escolheu dois: a Filologia, entendida
como edição crítica de textos, e a gramática tradicional. A primeira
voltou, felizmente, trazida pelo ressurgimento da Linguística Histórica,
e a segunda resiste ainda em alguns grotões.
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 13-31. 1ª parte 2011
CONSTRUÇÃO COLETIVAS DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS: REFLETINDO SOBRE A
EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
Passadas as primeiras horas de emoção, ficou claro que os linguistas
brasileiros precisariam definir seus caminhos. Vou me fixar num deles:
a documentação e a descrição do português brasileiro falado. Depois
de quebrar a cabeça com as transcrições de conversas, pelo menos dois
rumos derivaram desses esforços: a análise da conversação e a descrição
gramatical.
Mas a malhação da gramática tradicional exigia, como contraparte,
que se demonstrasse que poderíamos dispor de boas gramáticas
descritivas, em que não se encontrassem aqueles erros todos com que
nos indignávamos em nossos seminários.
Foi assim que começamos a escrever gramáticas, donde a relevância
desta mesa-redonda, em que foram reunidos uma linguista portuguesa,
uma linguista espanhola e dois brasileiros, escritores de gramáticas,
competentemente presididas por Rodolfo Ilari, que também é do ramo.
Juntamente com os integrantes desta seção, agradeço à Diretoria da
ABRALIN por ter patrocinado este encontro.
1. Gramáticas escritas por linguistas
Tomada a decisão de escrever gramáticas, duas opções ocorreram
entre os linguistas-gramáticos brasileiros.
Uns optaram pelo trabalho individual. Pela ordem cronológica, temos
nesta categoria primeiramente Mário Alberto Perini, com sua Gramática
descritiva do Português, de 1995, a que se seguiram a Modern Portuguese, a
reference Grammar, de 2002, e a Gramática do Português Brasileiro, de 2010.
Logo depois, veio Maria Helena Moura Neves, com sua monumental
Gramática de Usos do Português, de 2000, com 1037 páginas, fundamentada
num vasto corpus de análise.
Outros optaram por iniciativas coletivas. Maria Helena Mira Mateus
deu início a esta forma de elaboração de gramáticas, em Portugal, em
1983, com sua Gramática da Língua Portuguesa, de que se tiraram 4 edições.
Em 1999, ela e as demais autoras – lembremo-nos de que esta gramática
14
Ataliba Teixeira de Castilho
foi escrita exclusivamente por mulheres! – decidiram “preparar uma nova
edição, amplamente revista, com maior pendor descritivo, com um estilo menos tecnicista
e com uma cobertura linguística mais ampla”. A quinta edição, publicada em
2003, é de fato uma nova obra, do alto de suas 1127 páginas. A vizinha
Espanha não ficou atrás, e em 1999 saiu a enorme Gramática descriptiva de
la Lengua Española, editada por Ignacio Bosque e Violeta Demonte, com
3 volumes, mais de 5000 páginas, escritas por 73 autores! Sem dúvida, a
mais completa gramática de uma língua românica.
Deixando de lado a Grande grammatica di consultazione, de Lorenzo
Renzi e Giampaolo Salvi, de 3 volumes, e a A Comprehensive Grammar of
English Language, de Randolph Quirk e associados, retorno ao Brasil, e
passo a fazer algumas considerações sobre a Gramática do Português Culto
Falado no Brasil, que teve início em 1987. Em seguida, apresento algumas
reflexões teóricas baseadas nos achados dessa gramática, terminando
minha intervenção com um pedido à ABRALIN.
Naquele ano de 1987, quatro anos depois da iniciativa de Maria
Helena Mira Mateus, e a convite da Profa. Maria Helena de Moura
Neves, apresentei ao Encontro Nacional da Associação Nacional de
Pesquisa e Pós-Graduação em Letras e Linguística, ANPOLL, realizado
na Universidade Federal do Rio de Janeiro, o “Projeto de Gramática do
Português Falado”, (PGPF), voltado para a preparação coletiva de uma
gramática do português falado.
Tendo havido boa receptividade à ideia, convoquei em 1988 o
I Seminário desse projeto, no qual se debateu o plano inicial, que era
o de “preparar uma gramática de referência do português culto falado no Brasil,
descrevendo seus níveis fonológico, morfológico, sintático e textual”.
Reconheceu-se nesse primeiro encontro que seria impossível
selecionar uma única articulação teórica que desse conta da totalidade
dos temas que se espera ver debatidos numa gramática descritiva, numa
gramática de referência, como a que se planejava escrever. As primeiras
discussões cristalizaram esse reconhecimento, tendo-se decidido dar
livre curso à convivência dos contrários no interior do projeto. Como
15
CONSTRUÇÃO COLETIVAS DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS: REFLETINDO SOBRE A
EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
forma de organização, distribuíram-se os pesquisadores por Grupos de
Trabalho (GTs), sob a coordenação de um deles. Cada GT traçou o
perfil teórico que pautaria suas pesquisas e organizou sua agenda de
pesquisas. Os textos que fossem sendo preparados e discutidos em seu
interior seriam posteriormente submetidos à crítica da totalidade dos
pesquisadores, reunidos em seminários plenos. O corpus utilizado foi uma
seleção de entrevistas do Projeto NURC/Brasil, organizada segundo as
características desse projeto.
Trinta e dois experimentados pesquisadores atuaram no PGPF,
ligados a 12 universidades brasileiras, distribuídos pelos seguintes GTs:
(1) Fonética e Fonologia, coordenado inicialmente por João Antônio de
Moraes, e posteriormente por Maria Bernadete Marques Abaurre; (2)
Morfologia Derivacional e Flexional, coordenado por Margarida Basílio
e Ângela Cecília de Souza Rodrigues, respectivamente; (3) Sintaxe das
Classes de Palavras, coordenado inicialmente por Rodolfo Ilari, que
preside esta sessão, e posteriormente por Maria Helena de Moura
Neves; (4) Sintaxe das Relações Gramaticais, coordenado inicialmente
por Fernando Tarallo, e posteriormente por Mary Aizawa Kato; (5)
Organização Textual-Interativa, coordenado por Ingedore Grunfeld
Villaça Koch.
Entre 1988 e 1998 foram realizados dez seminários plenos, ao longo
dos quais os textos apresentados eram reformulados e publicados em
uma série própria, editada pela Unicamp, em 8 volumes: Castilho (org.
1990, 1993), Ilari (org. 1992), Castilho / Basílio (orgs. 1996), Kato (1996),
Koch (org., 1996), Neves (org. 1999), Abaurre / Rodrigues (orgs. 2003).
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo financiou
as atividades, também apoiadas pelo Conselho Nacional de Pesquisas.
A partir de 1990, solicitou-se ao Prof. Mílton do Nascimento, então
da UFMG, que conduzisse os debates dos problemas teóricos suscitados
pelos trabalhos apresentados, na qualidade de assessor acadêmico do
PGPF. Isso ocorreu sistematicamente no último dia de atividades, a
partir do IV Seminário, resultando daí os textos de Nascimento (1993
a, b).
16
Ataliba Teixeira de Castilho
Encerrada a agenda do PGPF, deu-se início em 2000 à consolidação
dos ensaios e teses publicados entre 1990 e 2000, projetando-se uma série
de 5 volumes, de que se publicaram 3 até esta data: vol. I - Construção
do texto falado: Jubran / Koch (orgs. 2006), 557 págs; vol. II – Classes
de palavras e processos de construção: Ilari / Neves (orgs. 2008), 1167
págs; vol. III – A construção da sentença, Kato / Nascimento (orgs.
2009), 340 págs. Estão em fase final de preparação o vol. IV, a construção
morfológica da palavra, por Ângela Cecília de Souza Rodrigues e Ieda
Maria Alves, e o vol. V, a construção fonológica da palavra, por Maria
Bernadete Marques Abaurre.
A articulação teórica desses volumes consta das respectivas
Apresentações, escritas por seus organizadores. Isso já tinha acontecido
anteriormente, na série dos 8 volumes de ensaios. Preparei uma síntese
desses debates todos, que saiu como Apresentação do volume I, da série
de consolidação: Jubran / Koch (orgs. 2006: pp. 7-26)
Não se preocupem, não vou reproduzir aqui todos esses argumentos.
Nenhuma tecnologia manteria acordada nossa assistência, caso o
tentasse. Optei então pela síntese que se segue.
Duas perspectivas inconciliáveis à altura separavam os pesquisadores:
a perspectiva formal e a perspectiva funcional sobre a linguagem. Depois
de algumas tentativas iniciais de catequese, todas frustradas, combinouse que os formalistas, abrigados nos GTs de Sintaxe, de Morfologia e
de Fonologia, e os funcionalistas, abrigados nos GTs de Organização
textual-interativa e no de Classes de palavras, seguiriam seu caminho,
encontrando-se anualmente nos seminários plenos, para compartilhar
os resultados obtidos.
Ocorreu, entretanto, uma inesperada convergência. E é que a maior
expectativa que as pessoas alimentam ao consultar uma gramática de
referência é encontrar ali, devidamente hierarquizados, um conjunto
de produtos linguísticos, o chamado enunciado, disposto em planos
classificatórios mais ou menos convincentes.
Ora, a Gramática do Português Culto Falado no Brasil deixou de lado
essa estratégia, tendo buscado identificar os processos acionados para
17
CONSTRUÇÃO COLETIVAS DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS: REFLETINDO SOBRE A
EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
a produção do enunciado. Indo nesta direção, Nascimento (1993b)
propôs que o texto é o lugar onde é possível identificar as pistas indicadoras das
regularidades que caracterizam a atividade linguística do falante. A esse respeito,
ele fez as seguintes afirmações, que gozam de certo consenso entre os
pesquisadores:
a)
Uma concepção da linguagem como uma atividade, uma
forma de ação, a verbal, que não pode ser estudada sem se
considerar suas principais condições de efetivação.
b)
A pressuposição de que, na contingência da efetivação da
atividade linguística do falante/ouvinte [na produção e
recepção de textos] temos a manifestação de sua competência
comunicativa, caracterizável a partir de regularidades que
evidenciam um sistema de desempenho linguístico constituído
de vários subsistemas.
c)
A pressuposição de que cada um desses subsistemas
constituintes do sistema de desempenho linguístico [o
discursivo, o semântico, o morfossintático, o fonológico...]
é caracterizável em termos de ‘regularidades’ definíveis em
função de sua respectiva natureza.
d)
A pressuposição de que um dos subsistemas constituintes
desse sistema de desempenho linguístico é o subsistema
computacional, [entendido como uma noção mais ampla que
a de Língua I], definível em termos de regras e/ou princípios
envolvidos na organização morfossintática e fonológica dos
enunciados que se articulam na elaboração de qualquer texto.
e)
A pressuposição de que o texto é o lugar onde é possível
identificar as pistas indicadoras das regularidades que
caracterizam o referido sistema de desempenho linguístico.
Outros pontos de convergência tinham sido assinalados por Mary
Kato, na introdução ao vol. V, por ela organizado: Kato (org. 1996).
18
Ataliba Teixeira de Castilho
O fato é que, em suma, procurando os produtos, toparam os
pesquisadores com os processos constitutivos da língua. É por isso que
todos os volumes da série de consolidação têm por subtítulo a palavra
“construção”: construção do texto, da sentença, das classes de palavras,
construção morfológica da palavra, construção fonológica da palavra.
2. Abordagem multissistêmica da linguagem
Tendo acompanhado esse projeto em todas as suas fases, fui
desenvolvendo paralelamente algumas generalizações, que em
nada comprometem os pesquisadores. Dei a essas generalizações a
denominação de “abordagem multissistêmica” da linguagem: Castilho
(1998 a,b, 2002, 2003 a,b, 2004 a,b,c, 2007, 2009 a,b,c, 2010 a,b,c,d, 2011).
Primeiramente, chamaram minha atenção certas propriedades da
língua falada, que ampliaram as convicções do grupo sobre as línguas
naturais, fazendo naufragar as técnicas de análise então disponíveis.
A língua falada é extremamente dinâmica, pois documenta a uma só
vez o momento do planejamento e o momento da execução linguística,
dada sua dialogicidade constitutiva. Os seguintes traços comprovam
a dinamicidade da língua falada: (i) sua não linearidade, documentada
por sua sintaxe biaxial, (ii) a ocorrência simultânea de propriedades dos
enunciados, traço que desaconselha uma descrição separada por níveis
de análise, (iii) a alta frequência de elipses, anacolutos e segmentos
epilinguísticos, desqualificando a sentença como unidade única de
análise.
A observação desses e de outros traços me levaram a propor a
abordagem multissistêmica da linguagem. Essa perspectiva assenta
na epistemologia das ciências complexas e na retomada de um debate
teórico que começou no séc. XIX.
As ciências complexas, ainda não apropriadas pela Linguística, tanto
quanto saiba, podem ser definíveis a partir dos seguintes pressupostos:
19
CONSTRUÇÃO COLETIVAS DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS: REFLETINDO SOBRE A
EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
(1)
(2)
(3)
(4)
(5)
Os componentes dos sistemas complexos exibem um tipo de
ordem sem periodicidade, em fluxo contínuo, em mudança.
Os sistemas não são lineares, são dinâmicos, exibem um
comportamento irregular, imprevisível; a competição entre
eles é mais importante que sua consistência.
Os elementos dos sistemas complexos exibem relacionamentos
simultâneos, não são construídos passo a passo, linearmente.
As anomalias identificadas pela abordagem clássica
exemplificam fenômenos vitais para o entendimento do
problema, e não deveriam ser descartadas como aberrantes.
Uma nova topologia do impreciso, do vago, do aproximativo,
precisará ser proposta.
A aplicação desses pressupostos à análise linguística implicará em
que aceitemos que
(1)
(2)
(3)
Do ângulo dos processos, as línguas são definíveis como um
conjunto de atividades mentais, pré-verbais, organizáveis
num multissistema operacional, ou seja, a lexicalização, a
semanticização, a discursivização e a gramaticalização.
Do ângulo dos produtos, as línguas são um conjunto de
enunciados dispostos em sistemas, definidos por categorias
próprias e organizadas igualmente num multissistema, ou seja,
o léxico, a semântica, o discurso e a gramática.
Um dispositivo sociocognitivo comanda os sistemas
linguísticos. Ele pode ser descrito em termos de ativação,
reativação e desativação das propriedades que constituem os
sistemas linguísticos. Esse dispositivo é social porque decorre
da observação das estratégias conversacionais, e é cognitivo
porque assenta nas representações linguísticas das categorias
cognitivas.
20
Ataliba Teixeira de Castilho
O princípio de ativação, ou princípio de projeção pragmática, é
o movimento de seleção de propriedades. No Léxico, a ativação é a
escolha das categorias cognitivas e de seus traços semânticos que serão
representados nas palavras. A ativação das propriedades semânticas
tem o papel de escolher as expressões necessárias à representação da
dêixis, da referenciação, da predicação, da foricidade e da conexidade.
No sistema discursivo, a ativação seleciona as expressões necessárias à
constituição e à hierarquização dos tópicos, à construção das unidades
discursivas e sua conexão, etc. Mais conhecida na Gramática, em que
tem sido denominada “transitividade”, “princípio de projeção”, a
ativação é responsável pela construção dos sintagmas, pela organização
da estrutura argumental das sentenças, pela ordenação dos constituintes
no enunciado, pela concordância entre eles, pelos processos de adjunção,
etc.
O princípio de reativação, ou princípio de correção, é o movimento
mental por meio de que rearranjamos as propriedades dos sistemas,
retomando a construção do enunciado. Esse princípio encontra seu
fundamento no sistema de correção conversacional. A reativação
produz no Léxico novas representações das categorias cognitivas. Na
Semântica, a reativação provoca a paráfrase, ou recorrência de conteúdos,
apresentados por expressões formalmente diferentes. No Discurso, a
reativação abre caminho à repetição dos enunciados para assegurar a
coesão do texto, a alteração do eixo argumentativo, etc. Na Gramática,
pelo menos dois rótulos têm sido utilizados na literatura para captar
os efeitos desse princípio: poligramaticalização e reanálise. A reanálise,
dada como um dos princípios da gramaticalização, decorre do princípio
de reativação. Reanalisam-se sintagmas e sentenças, o que acarreta
mudanças da fronteira sintática, entre outros fenômenos.
O princípio de desativação, ou princípio do silêncio, é o movimento
de abandono das propriedades e das palavras que estavam sendo ativadas.
Este princípio mostra que o silêncio é igualmente constitutivo da
linguagem. Também este princípio assenta nas práticas conversacionais,
21
CONSTRUÇÃO COLETIVAS DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS: REFLETINDO SOBRE A
EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
quando ocorre a chamada “despreferência”, que consiste em verbalizar
o que não é esperado, violando-se o princípio de projeção pragmática.
Isso ocorre quando respondemos a uma pergunta com outra pergunta,
quando recusamos um convite, etc. Nestes casos, cria-se na conversação
um “vazio pragmático”, segundo Luiz Antonio Marcuschi. O princípio
de desativação promove no Léxico a morte das palavras. No sistema
semântico, ele está por trás das alterações de sentido presentes nas
metáforas, nas metonímias, na especialização e na generalização
de sentidos, por meio dos quais “silenciamos” o sentido anterior e
simultaneamente ativamos novos sentidos. No sistema discursivo,
a desativação produz a alteração da hierarquia tópica, levando os
locutores a manobras tais como os parênteses e as digressões, que são
desativações da estruturação tópica do texto. Na Gramática, o princípio
de desativação é responsável pelas rupturas sintáticas, pelos anacolutos,
e pelas categorias vazias, de que se encontram exemplos na Fonologia
(sílaba com núcleo vocálico omitido), na Morfologia (morfema flexional
zero) e na Sintaxe (elipse de constituintes sentenciais, ou categoria vazia).
É importante entender que esses princípios operam ao mesmo tempo,
não sequencialmente. Assim, a desativação ocorre simultaneamente com
a ativação, e esta com a reativação, o que compromete o princípio da
unidirecionalidade. A mente humana parece funcionar como um sistema
complexo, e precisaremos sem dúvida entendê-la como tal – tarefa que
certamente ocupará os linguistas nos tempos por vir.
Em suma, postulo as línguas naturais como um conjunto articulado
de quatro sistemas, cada um deles configurado por um conjunto de
categorias, suficientemente fortes para representar os processos e os
produtos de que esses sistemas são feitos. Assim, qualquer expressão
linguística se compõe de quatro conjuntos de propriedades e seus
processos: (i) Léxico e lexicalização, (ii) Semântica e semanticização,
(iii) Discurso e discursivização, (iv) Gramática e gramaticalização. Essas
propriedades atuam simultaneamente, não sequencialmente. Nenhum
desses sistemas é postulado como o centro da língua, de que derivariam
os outros.
22
Ataliba Teixeira de Castilho
Aliás, por que os linguistas têm procurado o “sistema central da
língua”, e por que têm postulado a “determinação de um sistema sobre
outro”? Num rápido percurso sobre as ideias linguísticas, não deixa de ser
curioso constatar que tanto formalistas quanto funcionalistas costumam
eleger um sistema como o centro da língua, o qual determinará os
demais sistemas. Ao longo dos estudos linguísticos, ocuparam esse trono
a Fonética para os neogramáticos, a Fonologia para os estruturalistas,
a Sintaxe para os gerativistas pré-minimalistas, e o Discurso e/ou a
Semântica para os funcionalistas.
Acredito que esse raciocínio decorre da adoção das ciências clássicas
como fundamento epistemológico. Aplicadas às línguas naturais, essa
epistemologia nos levou a acreditar que os signos linguísticos ordenamse linearmente, integrando níveis de análise, ou camadas, ou hierarquias.
Esses signos são identificados por operações de contraste entre eles,
excluindo-se sua polifuncionalidade, e o fato de que eles se dispõem
num continuum categorial.
Ora, como já mencionei aqui, as descrições sobre a oralidade
desmentiram fortemente a percepção da língua como uma linha,
constituída por realidades que se sucedem no tempo. É verdade que o
produto, o érgon, é linear, tanto na língua falada quanto na língua escrita.
Mas se quisermos identificar o processo, a enérgeia que se esconde por trás
desses produtos, teremos de abandonar a ideia da língua-linha. Os fatos
da língua falada não nos autorizam a aceitar que nossa mente funcione
pobremente, através de impulsos sequenciais, lineares, uns depois dos
outros. Não é isso o que se vê durante uma conversação. Não há dúvida
que as pesquisas sobre a oralidade estão alterando em nosso país nossa
percepção sobre a linguagem. Essas pesquisas poderão moldar novos
hábitos científicos. Minha proposta segue por aqui.
23
CONSTRUÇÃO COLETIVAS DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS: REFLETINDO SOBRE A
EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
3. A nova gramática do português brasileiro
Mas era necessário testar a abordagem multissistêmica mais
amplamente, o que fiz em minha Nova gramática do português brasileiro,
publicada em abril de 2010.
Mesmo denominada “gramática”, este livro afasta-se deliberadamente
desse gênero:
(1)
(2)
Não redigi uma gramática-lista, que se detém nas classificações,
em que não se vê uma gramática, não a língua. Em lugar disso,
procuro olhar o que se esconde por trás das classificações,
identificando os processos criativos do português brasileiro
que conduziram aos produtos listados.
Esta não é uma gramática a-teórica. Nada poderemos fazer
em matéria de pesquisa linguística se não dispusermos de
alguma teoria, pois lidamos com um objeto escondido em
nossas mentes, como Saussure já havia reconhecido. Teorias
linguísticas há muitas. Mas faz falta uma teoria que postule
a língua em seu dinamismo, como um conjunto articulado
de processos – abundantemente reconhecidos e descritos
pelos pesquisadores do PGPF. Enfrento esta questão nesta
gramática. Quando falamos ou quando escrevemos, uma
intensa atividade é desencadeada em nossas mentes. Isso
ocorre com enorme rapidez, acionando os sistemas linguísticos
já mencionados. A teoria multissistêmica aqui exposta tem
um forte conteúdo funcionalista-cognitivista. Reconheço que
ainda é impossível descrever todos os movimentos mentais
envolvidos na atividade linguística. Mas não há dúvida de
que em cada som emitido, em cada sinal gráfico lançado ao
papel, toma corpo um enorme conhecimento linguístico que
foi ativado, permitindo o milagre da compreensão mútua por
meio de tão poucos sons e letras, e de tão escassas palavras e
construções. Para visualizar esse conhecimento, precisaremos
24
Ataliba Teixeira de Castilho
(3)
(4)
valorizar os indícios da maquinaria linguística. A língua falada
revela uma fartura desses indícios.
As gramáticas resultam habitualmente do trabalho individual,
fundamentando-se na língua literária. Também aqui esta
gramática tomou outro rumo. Para começo de conversa, não
acho que os escritores trabalham para nos abastecer de regras
gramaticais. Eles exploram ao máximo as potencialidades
da língua, segundo um projeto estético próprio. Ora,
as regularidades que as gramáticas identificam devem
fundamentar-se no uso comum da língua, quando conversamos,
quando lemos jornais, como cidadãos de uma democracia. Isso
não exclui a fruição das obras literárias, mas é uma completa
inversão de propósitos fundamentar-nos nelas para descrever
uma língua. A presente gramática se insere nesse quadro
de preocupações. Filtrei aqui as pesquisas das últimas três
décadas a partir de uma ótica própria, propondo seguidamente
ao leitor que se envolva nas pesquisas, transformando-se no
linguista-gramático dele mesmo. Seguindo esse impulso, esta
gramática dá voz a muitos desses pesquisadores, tanto quanto
às aulas que fui ministrando ao longo de 47 anos de magistério.
Meus alunos me ajudaram muito, com sua curiosidade e com
sua recusa a explicações não convincentes. Havia também
uns poucos tomados de um grande tédio. Esses também me
ajudaram, pois me mostravam que a aula estava um bocado
chata, ou seja, eu não tinha conseguido naquele espaço de
tempo desvelar as maravilhas da linguagem.
O ritmo expositivo de nossas gramáticas adota o que se poderia
chamar de “estilo revelação”. O gramático se transforma
numa espécie de Moisés que desce dos altos montes e brada
aos povos estupefatos... o que está certo e o que está errado
em sua linguagem! Também aqui me distanciei disso. Imaginei
para tanto a seguinte estratégia: compus dois textos articulados,
25
CONSTRUÇÃO COLETIVAS DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS: REFLETINDO SOBRE A
EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
um expositivo, e outro indagativo. Na exposição, falo eu,
interpretando os achados da ciência atual. Nas indagações,
falam os leitores, por meio das perguntas que imagino que eles
estejam formulando. O objetivo dessa estratégia é transformar
os leitores numa espécie de coautores, recusando que entre
eles e a língua que praticam seja obrigatória a interposição de
um intérprete, de uma espécie de despachante para problemas
gramaticais. Para dar conta desse lance meio calvinista,
apresentei perguntas e mais perguntas nas páginas da Nova
Gramática do Português Brasileiro, ao lado de informações sobre
o conhecimento disponível e o fornecimento de pistas sobre
como achar novas respostas. Para evitar uma aborrecida
listagem de opiniões, que poderia obscurecer o objeto, optei por
interpretar os resultados obtidos à luz da já mencionada teoria
multissistêmica da língua. Depois disso, apresento algumas
generalizações sobre o retrato do português brasileiro assim
obtido. Novas perguntas conducentes à reflexão gramatical
foram formuladas no capítulo 15.
As línguas naturais são o ponto mais alto de nossa identidade
como indivíduos e como participantes de uma sociedade. Que o digam
os quinhentos mil visitantes anuais do Museu da Língua Portuguesa
localizado em São Paulo! Tem sido proveitoso testemunhar a emoção
desses visitantes por se verem ali representados, por toparem ali com
sua identidade. De certa forma, todo mundo sai meio linguista daquelas
instalações. Busquei repercutir essa emoção em minha gramática.
Conclusões
Para finalizar esta fala, apresento uma proposta à ABRALIN: que
ela constitua uma comissão para a elaboração de teorias fundadas no
vasto conhecimento sobre a realidade linguística brasileira, desenvolvido
26
Ataliba Teixeira de Castilho
a partir dos anos 70. Sabemos que teoria e empiria são percursos de
mão dupla. Mas acredito que chegou a hora de investir mais no percurso
empiria à teoria, construindo generalizações fundamentadas no
conhecimento atualmente disponível.
Na fase de implantação da Linguística entre nós, instalou-se o hábito
de agarrar algum linguista americano ou europeu pouco conhecido, ler
sua obra, traduzi-la para o português, fazer pesquisas a partir das ideias
ali colhidas, orientar alunos, e apresentar-se nos congressos como uma
espécie de representante tropical da figura.
Dá até para entender esse tipo de caçada, afinal, precisávamos
produzir conhecimento linguístico sobre o Brasil. País multilíngue,
pouco sabíamos sobre as línguas indígenas e sobre o português brasileiro
– para o qual ainda não tinha sido cunhada a sigla PB. O caminho era
esse. Entretanto, muitos esforços e seminários depois, dispomos hoje de
um conhecimento notável sobre esses campos, mesmo havendo ainda
muito o que fazer.
É desagradável verificar que a enorme produção científica brasileira
não tem sido lida, não tem sido avaliada, não tem sido criticada. Basta
ouvir a leitura de trabalhos em nossos congressos, para ver o que está
rolando. Continuamos importando...
A atual geração de linguistas deveria conduzir a Linguística brasileira
à sua maioridade, desenvolvendo reflexões teóricas, mantendo a
interação com os centros mundiais, mas estabelecendo com eles duas
mãos de direção. Afinal, a ciência é e sempre será uma espécie de pátria
desterritorializada.
Estou convencido de que se esse passo não for dado, corremos
o risco de cair na irrelevância. Sem descontinuar nosso diálogo com
a Linguística mundial, precisamos sem dúvida investir na elaboração
de teorias. A ABRALIN será o melhor fórum na busca desses novos
caminhos.
Muito obrigado!
27
CONSTRUÇÃO COLETIVAS DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS: REFLETINDO SOBRE A
EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
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31
GRAMÁTICA: REFLEXÕES SOBRE UM PERCURSO
DE ELABORAÇÃO DE MANUAIS
Maria Helena de Moura NEVES
Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) - Universidade Estadual
Paulista Júlio de Mesquita Filho / CNPq.
RESUMO
Como parte que é de uma mesa denominada “Construção de gramáticas descritivas”, composta
por autores de gramáticas descritivas de língua, este texto apresenta uma reflexão pessoal que
busca recuperar as questões centrais que me têm desafiado na execução desse tipo de tarefa..
Para isso, faço um percurso histórico da definição dos rumos que segui na construção de dois
manuais de gramática da língua portuguesa, e paralelamente recolho, em outras obras que
elaborei, indicações que podem explicitar as diretrizes tomadas. Por um vezo de formação e de
atuação, dirijo as reflexões para a destinação central que sempre pensei para essas obras, que
é a destinação escolar, algo que posso resumir em uma busca de entender o que deva constituir
um trabalho com a “gramática”, na escola.
ABSTRACT
As part of a round table entitled “Construction of descriptive grammars”, with authors of
descriptive grammars of the Portuguese language, this text presents a personal reflection that
seeks to recover the key issues that have challenged me in this kind of work. In order to do
this, I recover the historical route of the decisions I took in the construction of two manuals
of Portuguese grammar and, at the same time, I gather, in other works I have written,
information that can explain the guidelines adopted. Being consistent with my background
and with my praxis, I offer some thoughts towards the fundamental proposition I have always
considered such works to have, which is the school destination, something I can summarize in
the question of what should constitute a work with the “grammar” at school.
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 33-51. 1ª parte 2011
Gramática: Reflexões Sobre um Percurso de Elaboração de Manuais
PALAVRAS-CHAVE
Gramáticas descritivas. Gramática de usos. Gramática na escola
KEY-WORDS
Descriptive grammars. Usage Grammar . Grammar at school.
Introdução
Com certeza, o que esperam de nós, nesta mesa, é uma espécie de
depoimento sobre o que vimos fazendo, na elaboração de gramáticas. Foi
assim que, pensando no que seria a exposição, fui fazendo mentalmente
um percurso de minha vivência, meus estudos e meu pensamento
sobre linguagem/gramática, buscando verificar por que fiz o que fiz,
exatamente como fiz. É assim que minha fala vai nessa direção.
Parto de um percurso histórico da definição dos rumos que segui na
construção de dois manuais de gramática da língua (Neves, 2000; 2010a;
Neves, no prelo). Isso envolve uma definição do domínio da gramática,
com opção por um determinado procedimento de “criação” e descrição
de fatos, o que, no meu caso, envolve o exame dos usos reais. São usos
observados especialmente em um banco de dados elaborado para tal
tipo de trabalho (e para a elaboração de dicionários, como explicitarei
logo a seguir) e também observados em textos correntes, de variadas
modalidades, escritos e falados, que se encontraram disponíveis.
Em primeiro lugar faço a indicação histórica (documental) do projeto
que levou à elaboração da Gramática de usos do português (2000). E
nessa incursão está um primeiro preito que quero render.
Nos idos de 1990, na UNESP de Araraquara, meu professor de
Linguística de todo o curso de Graduação em Letras, o grande mestre
Francisco da Silva Borba, sabendo que eu iniciava a elaboração de um
manual de gramática de usos, convidou-me para empreendermos um
grande projeto de elaboração de um dicionário e uma gramática dessa
34
Maria Helena Moura Neves
natureza (unidos, pois, por princípios comuns). Iniciamos, então, a
confecção de um córpus de língua escrita que hoje está com mais de
200 milhões de ocorrências. A Gramática ficaria por minha conta, e
o Dicionário teria uma equipe de elaboração (com 5 pessoas, entre
elas eu e o próprio Borba, cada autor com 20% das tarefas). Tudo
foi feito. O início da coleta de usos foi de grande dificuldade, tudo
muito artesanal. Lembro-me especialmente da minha alegria quando
consegui da Fundação UNESP os recursos para adquirir um aparelho
leitor de caracteres (hoje jurássico, peça de museu), e da FAPESP os
recursos para pagar digitadores, que, na tarefa de coleta de textos,
simplesmente (e jurassicamente) copiavam trechos de obras dos cinco
campos que o Professor Borba instituiu como formadores do nosso
banco: Literatura, Jornalismo, Oratória, Dramaturgia e Obras técnicodidáticas (inicialmente, apenas da segunda metade do século XX).
Pouco tempo depois a responsabilidade de elaboração do córpus passou
para o Professor Borba, exclusivamente, e com ele está até hoje – no
Laboratório de Lexicografia que ele fundou na UNESP de Araraquara
–, agora recuando no tempo para abranger obras de todos os séculos de
produção no Brasil.
Infelizmente, um dos propósitos de nosso projeto inicial não foi
levado adiante: era que as duas obras (a Gramática de usos do português e o
Dicionário de usos do português) saíssem em conjunto, até com a mesma capa
(como ocorreu com o COLLINS-COBUILD). Por razões da própria
elaboração e por contingências editoriais, minha Gramática foi publicada
em 2000 e nosso Dicionário em 2002, e por editoras diferentes (Editora
da UNESP e Ática, respectivamente).
1. A tomada de decisões
Vou lembrar, aqui, especialmente – e dentro do tema desta mesa
– minha história de lida com a entidade “gramática”, buscando o que
constituiu o fundamento na tomada de decisões para a elaboração de
35
Gramática: Reflexões Sobre um Percurso de Elaboração de Manuais
uma Gramática de usos do português (duas obras: 2000 e no prelo).
Para tal exame, neste ponto de minha trajetória, vou apresentar um
recorte de afirmações que andei fazendo em algumas de minhas obras,
enquanto lidava com os fatos de língua segundo a diretriz que conduziu
a observação dos usos linguísticos, o modo de tratamento dos dados, a
instituição dos fatos de análise. E inicio com o histórico.
1)
2)
3)
Começo com minha ligação visceral com aquilo que
representou, para a história do pensamento ocidental, a
emergência de uma disciplina gramatical na Grécia. No livro
A vertente grega da gramática tradicional: uma visão do
pensamento grego sobre a linguagem (1987; reformulação em
2005), e em muitos artigos subsequentes, procurei construir
uma linha de reflexão sobre as condições de nascimento da
gramática ocidental, evidenciando a natureza intrínseca da
obra produzida bem como a natureza e o valor desse tipo de
obra em um contexto sociopolítico. Concluo pelo inegável
peso dessas determinações num exame que busque avaliar as
análises linguísticas em contexto de situação e em contexto
de cultura, ou seja, na realidade do uso, que é o que está em
minhas duas gramáticas descritivas. Ora, a gramática grega
incipiente é produto claro de uma realidade.
No livro Gramática na escola (1ª edição em 1990), refleti
sobre a disciplina Gramática, buscando um diagnóstico sobre
o ensino da língua portuguesa nos diversos níveis, e buscando
sempre apontar a necessidade de apoio em princípios teóricos
consistentes, para tratamento da disciplina Gramática na
escola. Tenho sempre forte essa destinação, em meu trabalho
com a gramática
No livro A gramática funcional (1ª edição em 1997), reuni,
didaticamente, as bases da teoria funcionalista da linguagem,
que considero poder orientar o exame da língua em uso.
36
Maria Helena Moura Neves
4)
5)
6)
7)
Explicitei os principais temas envolvidos no exame do uso
linguístico: competição de motivações, sistematicidade e
funcionalidade, percurso metafórico, força metonímica,
gramaticalização, iconicidade, etc. São temas centrais no
desenvolvimento dos estudos que vêm sustentando a minha
elaboração de gramáticas.
No livro A gramática: história, teoria e análise, ensino (2002)
busquei conciliar reflexões voltadas ao tema “gramática”, em
algumas direções consideradas básicas, desde a própria história
da disciplina gramatical no Ocidente até a missão de “ensino”
da gramática, passando pela análise de fatos gramaticais e pela
explicitação de bases teóricas que sustentam as reflexões.
No livro Guia de uso do português: confrontando regras
e usos (1ª edição em 2003) apresentei um confronto entre
as normas prescritivas e o uso efetivo das formas da língua
portuguesa, observado em corpus. A problemática é crucial
no reconhecimento da variação linguística, e de sua aceitação,
especificamente quanto ao reconhecimento de uma identidade
linguística vista como unidade na diversidade, na descrição
dos usos.
No livro Que gramática estudar na escola? (1ª edição em
2003), assentei a necessidade de uma gramática escolar que,
legitimada pela sua relação com o uso efetivo da língua, dê
conta dos usos correntes atuais, não perdendo de vista o
natural e eficiente convívio de variantes, incluída, aí, a norma
tradicionalmente considerada padrão.
No livro Texto e gramática (1ª edição em 2006), reuni reflexões
sobre os “processos de constituição do enunciado”, dirigindo
sempre a atenção para a gramática, que organiza as relações,
constrói as significações e define os efeitos pragmáticos que,
afinal, fazem do texto uma peça em função.
37
Gramática: Reflexões Sobre um Percurso de Elaboração de Manuais
8)
9)
10)
11)
No livro Estudo de língua e vivência de linguagem
(2010b), reforcei uma proposta de tratamento da gramática que
não se isole da vivência da linguagem. Essa visão representa
olhar reflexivamente a língua que se manifesta pela ativação
da linguagem, representa ver a gramática da língua como
a responsável pelo entrelaçamento discursivo-textual das
relações que se estabelecem na sociocomunicação, sustentadas
pela cognição.
Nos 3 dicionários de português em que já atuei como
coautora, com coordenação do Prof. Francisco da Silva
Borba (Dicionário gramatical de verbos do português
contemporâneo do Brasil, 1ª edição em 1990; Dicionário
de usos do português, 2002; Dicionário UNESP do
português contemporâneo, 1ª edição em 2004), e no que
está em elaboração (o Grande dicionário do português
do Brasil), o que se procurou – e se procura – observar e
descrever é a lexicogramática dos itens em função. Entendese, aí, que o dicionário é, ao lado do manual de gramática,
um espaço essencial de revelação do assentamento potencial
das categorizações, tema central no projeto da organização
gramatical.
Tenho de apontar, ainda, o dicionário grego-português, em 5
volumes (publicações em 2006, 2007, 2008, 2009, 2010), que
coordenei na UNESP – Campus de Araraquara, juntamente
com duas colegas, e que colaborei, juntamente com professores
de grego de diversas universidades do país, repetindo nele
aquela experiência de explicitação de uma lexicogramática,
especialmente na visão da potencialidade das relações
construcionais e no tratamento das palavras gramaticais.
Não quero deixar de falar de minha atuação no grande projeto
de Gramática do português falado do Professor Ataliba
Teixeira de Castilho, uma experiência de pesquisa coletiva
38
Maria Helena Moura Neves
12)
13)
que muito pesou nos rumos de minha visão de gramática.
É o segundo preito que eu rendo a um chefe de equipe de
trabalho intelectual a que pertenci ou pertenço. Nesse projeto
fui, por anos – continuando o trabalho do Professor Rodolfo
Ilari –, coordenadora de uma das equipes, aquela que buscou,
especialmente, ligar classes e funções no exame de itens da
língua e de processos implicados no seu uso, em córpus oral,
o do NURC-Norma Urbana Culta (Ilari; Neves, orgs, 2008).
Desse projeto, nesta mesa, fala aqui o próprio comandante.
Apenas direi que o exame desse córpus particular (gravado)
fez ressaltar o que representa, no contexto de uso da língua
em função, a valorização dessa modalidade primeira do uso
linguístico.
E agora vou propriamente às minhas duas obras que
constituem, de certo modo falando, “manuais de gramática”
(a segunda, no prelo).
Na obra Gramática de usos do português (1ª edição em
2000, 1037 páginas; 2ª edição em 2011, revisada, 1005 páginas)
descrevi o funcionamento dos itens da língua portuguesa
segundo seu uso efetivo no amplo córpus escrito disponível,
com ocorrências de diferentes registros, como já apontei.
Entendi e entendo que a avaliação dos usos é o objeto e a
meta natural de uma gramática que envolva os componentes
da interação.
Na obra Gramática de usos da língua portuguesa: lições
(no prelo, cerca de 1300 páginas), a pretensão é levar lições de
gramática, de uso potencial no ensino, ao mesmo universo que
é da ciência e é da história, que requer raciocínio e também
requer arte, que traz lição e traz vivência. A diretriz central é,
com sustentação em textos, e com foco no tratamento escolar
da gramática, falar da língua portuguesa falando da linguagem
em uso, bem como dos procedimentos de constituição dos
enunciados.
39
Gramática: Reflexões Sobre um Percurso de Elaboração de Manuais
Fica entendido que o termo gramática usado em minhas propostas
implica valorizar a explicitação dos usos na obtenção de resultados de
sentido em uma situação de interação verbal, ou seja, implica empreender
uma gramática de usos. Fica assentado que, buscando-se as destinações
funcionais da língua em função, privilegia-se uma direção teóricometodológica que permite avaliar a funcionalidade dos deslizamentos
categoriais e das superposições funcionais no estudo gramatical.
2. A elaboração dos manuais
Como já apontei, para avaliação de como se pode verificar a diretriz
traçada na elaboração dos manuais vou retirar, de algumas das obras,
afirmações que andei fazendo, para, com isso, reafirmar meu empenho
na obtenção de uma pesquisa linguística centrada na necessidade de
uma forte reflexão sobre as atividades de elaboração de obras (meta)
gramaticais e (meta)lexicográficas da língua1.
2.1. Sobre a natureza da GRAMÁTICA
Tenho repetido uma afirmação que fiz há mais de vinte anos,
estudando a origem da nossa vertente ocidental de gramática:
A gramática é uma disciplina que, pelas próprias
condições em que surgiu, aparece com finalidades
práticas, mas que representa um edifício somente possível
sobre a base de uma disciplinação teórica do pensamento
sobre a linguagem. (A vertente grega da gramática
tradicional: uma visão do pensamento grego sobre a
linguagem, p. 15)
1
Este item 2 volta a algumas considerações que fiz em conferência que pronunciei em 2008, em
Leipzig, Alemanha, por ocasião da homenagem aos 65 anos do Professor Eberhard Gärtner,
autor da Grammatik der portugiesischen Sprache (Gärtner, 1998). A conferência (publicada em
Neves, 2010c) versou sobre “A tarefa do gramático”, que é exatamente o tema que coloco em
questão neste trabalho. Também naquela ocasião parti de afirmações minhas publicadas (não as
mesmas, ressalvo), para conduzir as reflexões.
40
Maria Helena Moura Neves
De fato, a gramática não poderia ser escrita livre de uma teoria. É
ela que constrói os fatos, não se podendo conceber uma descrição de
gramática ateórica nem uma construção de fatos sem recurso a uma
teoria que os configure.
Assumindo essa visão, dirijo, agora, minhas reflexões por questões
que me têm desafiado na execução desse tipo de tarefa. Faço uma
avaliação dos propósitos que me vêm motivando e orientando no
preparo de trabalhos de análise e sistematização de fatos – fatos que a
teoria recorta – da língua portuguesa.
O que aqui ponho em foco é esse mister meio nebuloso de fazer
uma “gramática”, discussão que suscita uma série de questões pelas
quais passarei.
2.1.1. Sobre o conceito de gramática
Estas são perguntas que já fiz em uma de minhas obras, e a que
tenho voltado várias vezes, em minhas reflexões. Olhemos na história:
O que é a gramática? Arte? Técnica? Ciência?
Funcionamento ou descrição? Conhecimento ou
explicitação? Todos os que falam do uso linguístico
hão de se surpreender fazendo esse questionamento. (A
gramática: história, teoria e análise, ensino, p. 9)
Não cabe aqui definir o termo gramática. As diversas acepções
correspondem exatamente às diversas tarefas que um estudioso assume
na sua atividade de descrição. Pelas diversas assunções teóricas e pelos
diversos caminhos, sempre é possível chegar a descrições coerentes e
relevantes. Se se vai ao núcleo duro das relações, isto é, à sintaxe pura
(gramática da competência, extremamente rigorosa, com certeza),
chega-se a proposições e generalizações de grande rigor, mas de
aplicação específica; se se vai ao feixe de componentes que se implicam
41
Gramática: Reflexões Sobre um Percurso de Elaboração de Manuais
na enunciação enunciada (gramática da atuação, digamos), chega-se a
proposições mais fluidas, como fluida é a atuação, mas pode-se atingir
o feixe de funções que o uso opera. De qualquer modo, a gramática é o
suporte da relação entre a cadeia sonora e o significado, respondendo, no
fundo, pelos sentidos e pelos efeitos que a rede montada na linguagem
equaciona e revela.
No que respeita às incursões que tenho feito (e como exponho em
Neves, 2006), falo de uma gramática como “funcionamento”: a gramática
como organização das relações, como construção das significações,
como definição dos efeitos pragmáticos, enfim, como mecanismo que
faz do texto uma peça em função. Entende-se, assim, que produzir
linguagem nada mais é do que ativar processos que a gramática organiza,
entrecruzando-os, para compor textos, na interlocução.
2.1.2. Sobre o conceito de descrição gramatical
Este é um trecho da Apresentação que fiz à minha Gramática de
usos do português (p. 13):
A Gramática de usos do português constitui uma
obra de referência que mostra como está sendo usada a
língua portuguesa atualmente no Brasil.
E este é um trecho da 4ª capa da obra:
O que as lições fazem, portanto, é organizar numa
gramática da língua portuguesa as possibilidades de
construção que estão sendo aproveitadas pelos usuários
para a obtenção dos efeitos de sentido pretendidos.
Bem na linha desta mesa – sobre “gramáticas descritivas” –, creio
poder afirmar que o que se espera de um manual de gramática da língua
é exatamente a descrição dessa língua, seja com que intenção, direção,
42
Maria Helena Moura Neves
orientação e suporte for. Se o manual se dirige ao uso linguístico – o
que envolve uma integração dos componentes sintático, semântico
e pragmático, com todas as implicações que isso acarreta – , há de
predominar a lida com processos que se entrelaçam, na atividade
discursiva, e é por essa via que se chegará a categorias – mutuamente
relevantes que são, na ativação dos processos –, e ficará configurado um
sistema sempre equilibrado, mas nunca engessado.
Categorias e processos não se perfilam automaticamente, e muito
menos previamente, a não ser pela vocação de determinadas categorias
para determinadas funções. Nem se permite supor que a correspondência
seja um a um, ou que haja enquadramentos fixos, porque, se assim fosse,
a língua não funcionaria em linguagem, dada a multiplicidade de sentidos
e efeitos que a linguagem por natureza obtém no seu acionamento,
para que cumpra suas funções. A sua natural indeterminação, a
multifuncionalidade de seus itens, a fluidez de fronteiras, a existência
natural de permeações categoriais, isso é o que permite que a língua diga
aquilo que é necessário, que é bom, e que é relevante que se diga, bem
como aquilo que é belo e encanta com a palavra. Não se há de entender,
por aí, que o papel do gramático seja olhar e recolher fragmentos de
natureza escorregadia e descrever desequilíbrios. Cabe a ele descobrir
correspondências regulares que respondam pelo estabelecimento do
estatuto categorial dos diversos itens em funcionamento na produção
linguística.
2.1.3 Sobre o conceito de sistematização gramatical
Assim está em um livro em que confronto regras e usos, em exame
de corpus:
Esta obra busca, em primeiro lugar, informar
exatamente como estão sendo usadas pelos falantes as
formas da língua portuguesa. O ponto-chave é que o
uso pode contrariar as prescrições que a tradição vem
43
Gramática: Reflexões Sobre um Percurso de Elaboração de Manuais
repetindo, e o falante [....] terá de conhecer os dois lados
da questão: a) o modo como os manuais normativos
dizem que “deve ser” ou “não deve ser”; b) o modo
como, realmente, “é”. (Guia de uso do português:
confrontando regras e usos, p. 13).
A crítica à gramática e aos gramáticos – com respingos injustos
nos nossos precursores na gramática alexandrina – vai em geral para o
que se considera um imperdoável compromisso com a normatividade.
Essa avaliação, em geral imperfeita, assimila o oferecimento de quadros
ao oferecimento de paradigmas estanques, e, por aí, ao oferecimento
de modelos. Em geral, nos manuais, os modelos estão propriamente
nos exemplos (escolhidos dentre os “ótimos” exemplares para cada
caso), mas a avaliação corrente da gramática como normativa decorre,
realmente, daquela exposição de quadros que exibem, absolutamente
engessadas, as que seriam as peças de funcionamento da língua de
cada um. Oxalá alguma coisa houvesse, mesmo, nas escolas, que fosse
aproveitada para o conhecimento do que é a “norma” naquela língua,
naquele lugar e naquele tempo, para conhecimento do que é “normal”
na linguagem daquela comunidade. Isso, ao menos, responderia a uma
função de apoio social.
Mais uma vez, é necessário insistir no fato de que a finalidade de
qualquer gramática de referência é, sim, a busca das regularidades,
a especificação da sistematicidade da atividade linguística, o que com
certeza há de corresponder a quadros, no registro da sistematização.
Por mais que uma gramática se comprometa numa visão que capte as
instabilidades (sempre em equilíbrio) da linguagem, não se espera dela
uma banal descrição tópica de fatos avulsos, uma análise que ignore o
sistema igualmente regulador de todos os enunciados da língua, quaisquer
que sejam suas manifestações episódicas.
44
Maria Helena Moura Neves
2.1.4. Sobre a relação entre texto e gramática
Em um livro em que busquei mostrar a interdeterminação das
entidades texto e gramática, assim está:
A interação verbal é uma atividade estruturada (com
regras, normas e convenções), mas também é uma
atividade cooperativa, e, desse modo, ativam-se, na
linguagem (que é sempre uma interação), dois sistemas
de regras: as que regem a constituição das expressões
linguísticas (regras sintáticas, semânticas, morfológicas e
pragmáticas) e as que regem o modelo de interação verbal
no qual as expressões são usadas (regras pragmáticas).
(Texto e Gramática, p. 13)
Por aí vai a gramática do uso, que só pode partir da noção de uma
linguagem a descrever na enunciação e pela enunciação. O componente
pragmático é determinante, e não no sentido puro e simples de uma
perspectiva que se agregue, para valorização do discurso. Compreendase que o contexto de situação, inserido no contexto de cultura, projeta
diretrizes para a interação linguística – como relação humana que é –, e
compreenda-se, também, que a organização das porções informativas,
em seu fluxo, pertence a um componente eminentemente pragmático
(em correspondência com o conceptual).
Se a gramática ativa esses dois sistemas de regra (a reger os enunciados
e a própria atividade linguística), cria-se uma moldura pragmática dentro
da qual nascem as peças de linguagem: governadas por um núcleo duro
da gramática, que faz o amarramento morfossintático das cadeias; e
arranjadas textualmente por regras semântico-pragmáticas.
45
Gramática: Reflexões Sobre um Percurso de Elaboração de Manuais
2.1.5. Sobre as bases de uma gramática de usos
E chegamos à gramática na escola.
A escola não pode criar no aluno a falsa e estéril noção
de que falar e ler e escrever não têm nada que ver com
gramática. (Que gramática estudar na escola? p. 128)
A inserção é clara em uma teoria que, com base na noção de que a
linguagem é, por natureza, funcional, considera as estruturas linguísticas
exatamente pelo que elas representam como organização dos meios
linguísticos de expressão. Temos uma linguagem, que é o nosso “poder”,
temos uma língua particular que é o nosso “saber”, e temos as constantes
situações de uso linguístico, em que, com nosso “poder”, acionamos
o nosso “saber” exatamente pelo exercício das funções. No percurso
inverso, quem se puser a explicitar esse uso linguístico estará fazendo a
explicitação do próprio funcionamento da linguagem, a partir de uma
determinada instância. Essa é a missão do gramático: fazer ver que a
metalinguagem ativada em função dá conta do conjunto de atividades de
linguagem que criam sentidos e produzem efeitos.
Resta acoplar a absoluta determinação do componente conceptual
envolvido na ativação da linguagem, portanto na sua “gramática”, que
não cabe ao gramático explicitar, mas que não pode ficar desconsiderado.
Essa consideração é um seguro ponto de apoio para que nunca se perca
de vista a noção de que a “embalagem” linguística de um enunciado,
sempre linear e segmentável, responde naturalmente a um “pacote”
cognitivo global. É da “gramática” de cada um – acoplada a seu léxico
– a tarefa de “embalar” os conteúdos em segmentos que se alinhem
coesiva e coerentemente na produção de linguagem.
A gramática que vai à escola não pode descaracterizar-se por uma
inocente aceitação de que simples receitas e rótulos serão mais fáceis
de digerir do que fundas reflexões que revelem a verdadeira natureza da
linguagem, a qual, necessariamente, é complexa.
46
Maria Helena Moura Neves
3. Pesquisando a destinação
Assim se inicia a Apresentação de meu último livro, em que defendo
que o uso linguístico decorre da visão de língua, que, por sua vez, decorre
da vivência da linguagem:
Este livro se destina a todos os que se interessam por
uma proposta escolar de tratamento da gramática que
não se isole da vivência da linguagem, ou seja, que ponha
em estudo, realmente, a gramática da língua em função.
(....) Essa visão representa olhar reflexivamente a língua
(....) em contexto de situação e em contexto de cultura,
em inter-relações e em interfaceamentos. (Ensino de
língua e vivência de linguagem, p. 9).
Novamente vou à escola, escolhendo para comentário a destinação
escolar da proposta.
Se é difícil delimitar o conceito de gramática, não menos problemático
é entender o que deva constituir uma disciplina Gramática, ou um
conteúdo curricular a ela ligado, dentro da grade curricular escolar.
Cabe verificar o que representa trabalhar com gramática na escola,
ou “ensinar” gramática. Em primeiro lugar, como já apontei, tradicional
e historicamente, a gramática que a escola tem oferecido a seus alunos
não é a da “língua competência”, também não é a da “língua discurso”,
é simplesmente a sistematização gramatical fria e inerte do sistema
daquela língua particular, no nosso caso o português. E aí se considera
que fica cumprida a missão de oferecer aos alunos a gramática da língua
portuguesa com o simples oferecer de parâmetros tradicionalmente
instituídos: esquema de classes e subclasses, ou elenco de funções dentro
da estrutura oracional, nem sempre avaliadas as complexas relações entre
as classes e as funções.
47
Gramática: Reflexões Sobre um Percurso de Elaboração de Manuais
E todos os estudiosos que se têm dedicado a avaliar
o ensino vigente nas escolas têm acentuado o caráter
absolutamente “ritual” de que o ensino tradicional de
gramática se tem revestido. Foi também o que verifiquei
em pesquisa de campo que empreendi (Neves, 1990).
Concluindo, há lições fundamentais sobre o funcionamento da
linguagem que a escola tem esquecido, como venho acentuando em
várias oportunidades:
a)
b)
c)
d)
A gramática não é um corpo estranho à língua, apenas
dialogando com ela: o uso linguístico (a organização da fala)
constitui a ativação da gramática.
A gramática não é um aparato que temos guardado ao nosso
lado apenas para destrinçar frases, como se aí se esgotasse a
linguagem: essa não é a estrutura limite que devemos alcançar,
é apenas uma das organizações que a gramática provê para o
uso linguístico.
A gramática da língua em função não é uma peça pronta e
fechada em que iremos buscar, em determinado momento, para
atribuir a elementos ou a estruturas, entidades absolutamente
compartimentadas às quais possamos chegar mediante um
estoque de rótulos que tenhamos arranjados em prateleiras:
as entidades funcionais da língua não estão discretizadas e
amoldadas a priori, o acionamento dos processos é que vai
definir funções, e, por aí, vai amoldar classes.
Assim, não é legítimo reduzir a gramática a um esquema
taxonômico de categorias que esperam aplicação: não há
planos isolados que respondam pelo funcionamento da língua,
pela produção de linguagem.
48
Maria Helena Moura Neves
Considerações finais
Assim eu programei o livro em que trago uma gramática do uso da
língua portuguesa numa forma que classifiquei como de “lições”:
O livro se dirige pela noção de que o estudo da
gramática da língua pode e deve centrar-se em reflexões
sobre a linguagem. O que se pretende é que o estudioso
da gramática a entenda como a organização de princípios
que leva à produção textual-discursiva, e que, portanto,
leva à produção de sentido na interação linguística.
(Gramática de usos da língua portuguesa: lições, a
sair):
Falemos, pois de nós, assim chamados “gramáticos”. E mais uma
vez recolho ponderações que tenho feito insistentemente.
Parece que a sina é que a sociedade em geral olhe os gramáticos
como aqueles que, em um livro, fecharam questões. Mas fecharam tão
bem que nem com a chave – ou seja, com o livro na estante, ali, à mão
– o consulente resolverá suas pendências com a língua que usa. A partir
dessa terrível afirmação, encerro com perguntas, e não com respostas:
Não seria o caso de – em primeiro lugar – a escola (exatamente
a escola) começar a mostrar àqueles que se estão formando para a
sociedade que não é só nas aulas de matemática, física, química que o
aluno tem de pensar? Que são especialmente as aulas de Língua pátria
que têm de ser baseadas em atividades reflexivas, porque nelas está a
porta – e a chave da porta – de tudo? Que é por elas que o falante vai
chegar a saber, realmente, definir melhor suas pendências, escapando
da angústia de passar a vida tentando resolver pendências falsas (por
exemplo, as de adequação a uma etérea “norma”)? Que na explicitação
da gramática está o exercício fundamental sobre o cálculo de produção
de sentido na linguagem (que é o que resolve todas as pendências de
todos os ramos de conhecimento)?
49
Gramática: Reflexões Sobre um Percurso de Elaboração de Manuais
Afinal: Quando, sem linguagem, chegar a programar, por exemplo,
a aventura da “visita” a outros corpos celestes? Onde, sem linguagem,
chegar, por exemplo, à instituição de um programa nuclear (ou sequer ao
enriquecimento do urânio)? E como, sem linguagem, chegar a planejar,
por exemplo, estratégias de preservação do planeta – a bola da vez? Ou
seja (talvez sofismando): Como – afinal – sem linguagem, preservar a
própria linguagem, que é o que nos foi garantido pelo nosso próprio
estatuto de seres humanos, e que, na mão inversa, constitui a garantia
desse nosso estatuto?
Referências
BORBA, F. S. (org.) Dicionário gramatical de verbos do português
contemporâneo do Brasil. São Paulo: Editora UNESP. Dicionário de
usos do português. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
______. Dicionário UNESP do português contemporâneo. São Paulo:
Editora UNESP, 2004
GÄRTNER, E. Grammatik der portugiesischen Sprache. Tübingen:
Max Niemeyer, 1998.
MALHADAS, D.; DEZOTTI, M. C. C.; NEVES, M. H. M. (coords.).
Dicionário grego-português. São Paulo: Ateliê, 2006-2010. 5 v.
NEVES, M. H. M. Gramática na escola. São Paulo: Contexto, 1990.
_____. A gramática funcional. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
______. Gramática de usos do português. São Paulo: Ed. UNESP,
2000; 2ª ed. 2010a.
______. A gramática: história; teoria e prática; ensino. São Paulo: Ed.
UNESP, 2002.
______. Guia de uso do português: confrontando regras e usos. São
Paulo: Ed. UNESP, 2003.
50
Maria Helena Moura Neves
______. Que gramática estudar na escola? São Paulo: Contexto,
2003.
______. A vertente grega da gramática tradicional: uma visão do
pensamento grego sobre a linguagem. 2. ed. São Paulo: Ed. UNESP,
2005.
______. Texto e gramática. São Paulo: Contexto, 2006.
______. Ensino de língua e vivência de linguagem. São Paulo:
Contexto, 2010 (2010b).
______. A tarefa do gramático. In: DÖLL, C. et al. (Eds). De arte
grammatica. Festschrift für Eberhard Gärtner zu seinem 65. Geburtstag.
Frankfurt am Main: Valentia, 2010 (2010c).
______. Gramática de usos da língua portuguesa: lições. São Paulo:
Contexto, no prelo.
51
CONSTRUÇÃO DE GRAMÁTICAS DESCRITIVAS
Maria Helena MIRA-MATEUS
Profª Catedrática Jubilada FLUL e ILTEC
1.
2.
3.
A redação de gramáticas por linguistas: a experiência portuguesa
Gramáticas e recortes teóricos
Tipos de dados e fontes dos exemplos.
1. História: A primeira edição. O contexto de recepção
da Gramática
Quando em 1983, foi publicada em Portugal, pela primeira vez, a
Gramática da Língua Portuguesa da autoria de quatro mulheres linguistas, o
conceito de gramática sofreu um abalo. Não era aquele o tipo de livros
que se chamavam habitualmente Gramáticas. Apesar desta estranheza,
recebemos na altura algumas reações interessantes de entre as quais
retenho uma carta de felicitações de Paul Teyssier, uma outra de
Eduardo Prado Coelho que dizia ter encontrado na obra coisas que
não sabia, e que poderia aprender “de forma organizada e econômica”.
Recordo também uma longa missiva de um professor de português da
Universidade do Canadá (Toronto) que nos pedia para lhe mandarmos a
Gramática a fim de ver se seria de alguma vantagem no ensino da língua
portuguesa visto que, naquela cidade, o português “se falava muitíssimo
mal (…) e se escreviam muitíssimas calinadas”. Este era o bom tempo
em que as mensagens voavam em cartas de papel que, como estas, se
podiam guardar carinhosamente durante várias décadas.
A ideia de construir a Gramática nasceu em 1980, quando foi
publicado nos jornais pelo Instituto Português do Livro, ao tempo
dirigido pelo António Alçada Baptista, um Aviso aos Autores em que se
promovia “a elaboração e publicação de uma Gramática de Português
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 53-70, 1ª parte 2011
Construção de Gramáticas Descritivas
para o ensino da Língua Portuguesa, a nível universitário, em Portugal e
no Estrangeiro”. Nessa altura as quatro linguistas e amigas que faziam
investigação no quadro da Gramática Generativa – a Inês Duarte, a Ana
Maria Brito, a Isabel Hub Faria e eu própria – resolveram concorrer com
um projeto que definia assim o que pretendiam fazer:
“a)
“b)
apresentar uma descrição global e sistemática do Português
que tente, pela primeira vez, uma sistematização da dimensão
pragmática da língua e dos factores nela intervenientes” e
propor uma análise adequada e consistente das estruturas da
língua a nível sintáctico, morfológico, fonológico e lexical”.
Era nossa convicção que uma gramática com estas características não
podia ser uma obra individual mas exigia uma equipa que, no caso, tinha
uma história de investigação em áreas especializadas. Só podia ser, como
diz a Violeta Demonte num texto belíssimo sobre a nossa gramática, uma
obra “coral ou polifónica”. A detalhada explicitação e a fundamentação
do plano da obra foi convincente e o júri considerou que a proposta
“continha importantes inovações teoréticas e didácticas“ pelo que devia
ser oficialmente apoiada. Assim nos lançámos na elaboração da obra. A
primeira edição saiu a lume em 1983 na editora Almedina. A Gramática
da Língua Portuguesa recebeu na altura o Grande Prémio Internacional de 1982
atribuído pela Sociedade de Língua Portuguesa.
2. A segunda edição
A segunda edição da Gramática foi publicada em 1989 pela editora
Caminho que até hoje detém aos direitos de publicação. Esta edição
foi considerada por nós como uma recriação por termos introduzido
modificações em quase todos os capítulos e, inclusivamente, por termos
incluído um estudo inteiramente novo sobre morfologia lexical e
derivacional, da autoria de uma quinta linguista, a Alina Villalva.
54
Maria Helena Mira-Mateus
Na ocasião em que foi publicada esta segunda edição a imprensa
pronunciou-se. Sob o título ”Língua portuguesa tem nova gramática”
diz-se num jornal de 89: “Os estudantes universitários e os professores
de Língua Portuguesa dispõem, desde ontem, de uma gramática que
integra, pela primeira vez, o português tal qual se fala”. O tema com esta
formulação foi glosado em outras publicações: “Nova gramática da
língua portuguesa tal qual se fala”, “Gramática do português falado”,
“O português tal como é falado”, e ainda uma pequena nota do Diário
de Notícias a propósito da 2ª edição:
“Nunca uma reedição foi tão oportuna. Sugere-se o
envio urgente de uns quantos exemplares ao departamento
de locutores não só da RTP mas também das numerosas
rádios que por aí agora existem – e para as redacções de
alguns jornais também, convenhamos. Anda por aí quem
bem precise de lhe deitar uma olhadela, para aprender a
falar e a escrever, de forma gramaticalmente correcta, a
língua portuguesa”.
Ao olhar para o Prefácio da Gramática e para o seu conteúdo torna-se
difícil entender por que foi a obra publicitada na imprensa como tratando
do português tal qual se fala. A explicação mais óbvia tem que ver com
as expectativas de quem encontra um livro chamado “Gramática”. O
frequentador de livrarias dirá ao deparar com ele: ”Aqui está uma obra
que me vai dizer como devo falar e escrever corretamente”. Isto significa
que um livro assim denominado é imediatamente identificado como
uma “gramática normativa”. E no entanto tivemos a preocupação de
dizer nas palavras iniciais:
“A presente obra não é uma gramática normativa”.
Queremos com isto dizer que não é um instrumento
que assente “no conceito de que a condição para falar
55
Construção de Gramáticas Descritivas
“bem” uma língua é consequência do conhecimento da
sua gramática”. E mais explicitamente: “esta Gramática
insere-se na linha das gramáticas que têm como objectivo
principal o de descrever o modo como as línguas
funcionam”.
Uma primeira explicação para as notícias da imprensa pode provir
da confusão entre estes dois tipos de gramática. Mas existe uma outra
justificação para se empregar a deliciosa expressão “O português tal qual
se fala”. Se um possível utilizador teve algum tempo para folhear a obra,
acreditamos que nessa “olhadela” foi encontrando muitos exemplos da
língua oral (o português “tal qual se fala”) que não ocorrem habitualmente
nas gramáticas do “bom” uso. Por exemplo:
•
um grupo de frases com o mesmo significado apresenta
mobilidade dos elementos que o constituem: “A Inês vai
a Lisboa amanhã?”, “É amanhã que a Inês vai a Lisboa?”,
“Amanhã é que a Inês vai a Lisboa?”;
•
as interrogativas tag (termo pouco conhecido na época)
são frequentes na língua oral: “Vocês lembram-se, não se
lembram?”, “Vocês lembram-se, não é verdade?”, “Vocês
lembram-se, não é assim?”, “Vocês lembram-se, não é?”,
“Vocês lembram-se, não?”;
•
as chamadas expressões qualitativas, que muitas vezes criamos na
oralidade, são omissas nas gramáticas habituais: “O estúpido
do rapaz saltou do segundo andar.” “Um amor de miúdo
ofereceu-me uma flor.”, “Aquele cretino do guarda atirou
dois tiros”.
56
Maria Helena Mira-Mateus
Milhares destes exemplos que fazem parte do nosso quotidiano
falar se encontram na Gramática da Língua Portuguesa. Eles são o miolo,
e também o sal e a pimenta da Gramática. Eles são factos da realidade e
obedecem ao princípio epistemológico formulado no prefácio da edição
de 89, segundo o qual
“a ciência constrói os seus próprios objectos de análise
a partir dos dados da realidade: a realidade é ilimitada e só
existe para a ciência quando conceptualizada, teorizada e
racionalmente sistematizada.
Assim se compreende a necessária seleção que
nesta obra se faz dos dados empíricos analisados,
decorrente do nosso conhecimento e da observação da
língua portuguesa, e da perspectiva teórica em que nos
integramos”.
Ainda no mesmo prefácio, e vincando a ligação entre a obra e a
investigação centrada no paradigma generativo,
“entendemos que o desenvolvimento teórico da
linguística permite que sejam hoje considerados, na
gramática de uma língua particular, objectos de análise
que não eram habitualmente estudados, embora as
hipóteses apresentadas para explicação desses fenómenos
se encontrem ainda numa fase preliminar”.
Esta afirmação legitima uma apresentação da obra que saiu a público
na época: “Notícia de uma Gramática enquanto Obra Aberta” em que o
autor, ele próprio então linguista, afirma que se trata de uma Gramática
que se distingue de todas as outras até agora existentes pelo facto de
ter como objectivo fundamentador a apresentação do estado actual da
investigação linguística sobre as regularidades específicas do Português”.
(João Manuel Fernandes, RILP).
57
Construção de Gramáticas Descritivas
E por fim, lembrando as referências da imprensa à segunda edição
da obra, não posso esquecer uma longa conversa publicada em 83 no
Expresso, que, sob o título de Uma questão de “gramática” adiantava em
epígrafe:
“Pode uma gramática considerada “indispensável”
ser outra coisa que um manual utilitário para consulta
de estudantes apressados ou jornalistas em crise de
perícia sintáctica? Pode. É a nova “Gramática da Língua
Portuguesa”.
Para realizar a segunda edição da Gramática refletimos sobre a
recepção da obra e sobre a nossa própria experiência, e explicitámos
mais demoradamente, no prefácio, os princípios fundamentais que nos
orientaram. Julgámos de interesse fazer algumas afirmações teóricas e
metodológicas que nos nortearam e se mantêm até à última edição, das
quais destaco as seguintes:
•
a importância do progresso científico que representa a
teoria generativa para o esclarecimento das características
definitórias da linguagem humana e das línguas particulares;
•
a possibilidade de conjugar a descrição e a explicação do
funcionamento dos sistemas dos vários níveis da língua, e a
necessidade de considerar a inter-relação existente entre esses
sistemas, adoptando em cada circunstância os modelos mais
adequados;
•
a convicção de que a análise gramatical, ao descrever as
unidades básicas da língua, tem de tomar em conta “outros
factores que intervêm na actividade linguística – em especial
os objectivos comunicativos com que os falantes utilizam a
língua”;
58
Maria Helena Mira-Mateus
•
em consequência, as frases devem ser consideradas no
contexto linguístico em que são produzidas tendo-se em
conta “o discurso, ou seja, todo o conjunto de frases bem
e/ou mal formadas ou ambíguas, as pausas e, até, o próprio
silêncio”.
Sempre foi nossa intenção colocar a Gramática da Língua Portuguesa
na linha das gramáticas atuais que estudam uma língua particular e,
simultaneamente, introduzem o leitor nos conceitos fundamentais da
linguística. O percurso científico da linguística em que nos integramos
orienta-se para o estabelecimento de princípios e parâmetros universais.
Neste quadro teórico se insere a investigação que subjaz às propostas e
análises em sintaxe e semântica, em morfologia e fonologia da Gramática
da Língua Portuguesa. Uma gramática com estas características tem como
objectivo não só fazer uma descrição do conhecimento que o falante tem
da sua língua mas também propor uma explicação do funcionamento
dos fenómenos analisados.
Resta dizer que a variedade da língua contemplada nesta obra é a
norma padrão do português europeu, embora em muitas circunstâncias
se indiquem características de outras variedades nacionais e geográficas
e, sobretudo, variantes socioletais.
3. A Gramática publicada em 2003
Próximo do fim do século XX as autoras consideraram indispensável
fazer renascer a Gramática tendo em conta o desenvolvimento da
investigação própria nos últimos quinze anos, a pesquisa realizada por
muitos colegas e investigadores, o progresso da linguística e a experiência
de utilização da obra. Foram também ponderadas as críticas e sugestões
surgidas durante este intervalo. O aumento da cobertura linguística,
o aprofundamento das análises propostas para muitos fenómenos e
a necessária reformulação da estrutura inicial levaram à integração de
59
Construção de Gramáticas Descritivas
outras linguistas no grupo de autoras. Assim se preparou a 5ª edição
saída em 2003, em que colaboraram, nas áreas de semântica, sintaxe e
prosódia a Fátima Oliveira, a Gabriela Matos, a Sónia Frota e a Marina
Vigário.
O trabalho desenvolvido para esta edição assentou em três
preocupações fundamentais: extensão da cobertura linguística, ênfase
na descrição dos factos linguísticos e legibilidade do texto por um
público mais alargado – o que implicou, neste caso, um cuidado quase
pedagógico em muitas circunstâncias.
Como se diz no Prefácio desta edição, a reformulação a que se
procedeu não pôs em causa os princípios fundamentais que orientaram
desde o início a elaboração da Gramática; e os quadros teóricos em que
assentam as análises realizadas. Eles possuem um poder explicativo
satisfatório e sustentam investigações recentes sobre a língua portuguesa.
Com esta edição a Gramática renovou-se, cresceu e engordou (de 400
páginas passou a 1200), e por isso ganhou alguns apelidos (ou alcunhas).
Ela é a “Bíblia” para os entusiastas da linguística, o “Tijolo” para os
que carregam com ela, a “Gramática das Mulheres” para os homens
que gostavam de ter sido convidados. Um pequeno inquérito junto dos
jovens universitários indicou-me que a Gramática é obra de consulta
obrigatória em certos cursos e com determinados docentes. Alargando
o inquérito percebi que ela é estudada e consultada por investigadores
e linguistas no seu trabalho de pesquisa – mas também entendi que,
fora destes contextos, dificilmente serve de apoio, por exemplo, na
preparação de aulas dos professores de português do ensino secundário.
Isto é, depois do curso a Gramática não é utilizada pelos que a estudaram
por paixão ou obrigação, visto que (como me foi dito) não se trata de
um manual de consulta mas de uma obra de leitura para compreensão
dos mecanismos da língua.
60
Maria Helena Mira-Mateus
4. A Gramática da Língua Portuguesa na sua intimidade
O que contei até agora foi a história externa da obra. Nada disse
da sua intimidade, não falei da sua estrutura, das opções feitas no
desenvolvimento das diferentes partes, da forma como construímos o
nosso objeto de análise a partir dos dados da realidade, selecionados
e conceptualizados, enfim, não afirmei que é nossa convicção que
trabalhámos a gramática como uma área da ciência.
Permita-se-me que faça um pequeno excurso justificativo dessa
convicção. Começo por definir sucintamente o que entendo por
ciência: uma forma de conhecimento com que se pretende explicar o
que vulgarmente denominamos ‘o real’, elaborada essa explicação de tal
modo que seja possível a sua validação.
É indubitável que o conceito actual de ciência exige a construção
de uma teoria que permita (a) representar formalmente as estruturas, as
relações e as funções dos elementos que constituem o objecto a analisar
(neste caso, a língua portuguesa), (b) formular hipóteses explicativas
do funcionamento desses elementos e (c) proceder à verificação da
validade das hipóteses formuladas. A todas estas condições uma teoria
formal responde mais satisfatoriamente do que outros modelos, dadas
as suas capacidades de generalização e de verificação dos resultados
das hipóteses formuladas. Esta é uma razão por que a apresentação
das explicações formalizadas que incluímos na Gramática têm, do nosso
ponto de vista, um carácter científico. Julguei de interesse apresentar as
partes constitutivas da obra e, aqui e além, exibir uns quantos exemplos
para esclarecer afirmações e, quem sabe? entusiasmar os ouvintes.
A primeira parte da Gramática é essencialmente descritiva. Ela
fala da variação do português no tempo caracterizando brevemente os
períodos da história da língua. Apresenta a variação no espaço e, de
forma sumária, contrasta as duas variedades nacionais – português
europeu e brasileiro – e caracteriza diferenças dialetais, mostrando que a
variação é testemunho significativo da vitalidade da língua.
61
Construção de Gramáticas Descritivas
Olhada de outro ponto de vista, a variação, e a mudança que
dela decorre, são consequência do uso interactivo e dos objetivos
comunicativos do discurso linguístico, do conhecimento partilhado
pelos falantes de uma língua e do contacto constante com outras línguas
e culturas. Os atos ilocutórios, peça essencial do uso da língua no estudo
do discurso, são um dos fulcros da comunicação, e a sua análise foi
introduzida na segunda parte da Gramática. Eis alguns exemplos de atos
ilocutórios:
Os atos assertivos
Loc 1 - Achas que o Pedro vai chegar a horas?
Loc 2 - Claro!
Necessariamente!
Por que é que não há-de chegar?
Se ainda é o mesmo que eu conheci...!
O quê, o rei faz anos?
Os atos compromissivos
Juro dizer a verdade.
Tenciono passar aí por casa amanhã.
Os atos diretivos
- com verbos modais
Não é verdade que não se deve dar ouvidos a tolos?
Não achas que tens de comer a sopa toda?
Não sabes que não podes espreguiçar-te à mesa?
- com verbos declarativos
Não te disse para teres cuidado com o fogo?
Quantas vezes te proibi de gritar à frente das visitas?
Os atos expressivos
Agradeço-te a visita de ontem à tarde.
Congratulo-me com a vitória de Rosa Mota.
Peço desculpa por telefonar a esta hora.
Deploro as tuas atitudes machistas.
62
Maria Helena Mira-Mateus
É ainda na Parte II da Gramática que se estudam as ligações internas
dos elementos do texto e as formas como os falantes as manipulam. O
capítulo sobre coesão textual e temporal conectividade conceptual, a que
se acrescenta a estrutura temática e informacional do discurso, permite a
compreensão do que transmitimos quando falamos e como o fazemos.
Coesão interfrásica, o uso dos conectores, a omissão intuída são meios
de que nos servimos para construir o texto e transmitir informação, são
meios subtis de que não temos consciência. Os exemplos são longos
e representativos da organização textual, e por isso o capítulo indica
um grupo de fontes literárias e ensaísticas em que o texto é o objeto
de análise (a Ode Marítima de Álvaro de Campos ou Direitos Humanos e
Revolução de Soromenho Marques são algumas dessas fontes).
É na terceira parte que se estudam os aspectos semânticos da
gramática do português. O tempo e o aspeto (ou modo de ação,
aktionsart), a modalidade e o modo, e as múltiplas feições semânticas que
adquirem estas categorias na utilização das formas verbais são alguns
dos capítulos da gramática que têm recebido mais visitas.
Outros pontos desta terceira parte mostram a necessária combinação
de análises sintáticas e semânticas, como a predicação e os predicadores
verbais em que se inclui a estrutura argumental e os papéis temáticos
(ou papéis semânticos), que têm sido um must nas modernas gramáticas
(a propósito destas questões não posso deixar de referir a importância
da Gramática Simbólica de Óscar Lopes, publicada em 72 e de uma
extraordinária argúcia nas análises apresentadas).
No exemplo seguinte, em que se contrastam frases gramaticais com
agramaticais, observa-se como a sintaxe e a semântica interagem por
vezes na análise linguística. Essa interacção é necessária para explicar
a agramaticalidade das frases de (b) que resulta de não terem sido
respeitadas na construção sintática as propriedades de seleção semântica
dos verbos:
63
Construção de Gramáticas Descritivas
(a)
[SNO criminoso] assassinou [SN três automobilistas].
(b)
[SN A trovoada] assustou [SN as crianças].
(c)
[SN O João] pôs [SN o livro] [SP na estante].
(a)
*[SN A tempestade] assassinou [SN três automobilistas].
(b)
*[SN A trovoada] assustou [SN o telhado].
(c)
*[SN O João] pôs [SN o livro] [SP para a estante].
Também na referência nominal encontramos união entre sintaxe
e semântica, como nas operações de pluralização, ou de quantificação,
quando estão em causa nomes contáveis e não contáveis
(a)
Bebi vinho ao jantar.
(b)
Bebi pouco vinho ao jantar.
(c)
Bebi um copo de vinho ao jantar.
(d)
Bebi um decilitro de vinho ao jantar.
Vinho é um contínuo mas pode extrair-se dele uma porção ou
quantidade. Mais difícil é estabelecer a concordância verbal em frases
como as seguintes se não se entender “um bando” ou ”um grupo” como
um conjunto com propriedades semânticas que o tornam singular ou se
se entender apenas uma parte do sintagma que leva à pluralização.
(a)
Um bando de pássaros passou (passaram) no ar
(b)
Um grupo de crianças começou (começaram) a gritar.
A quarta parte, a mais extensa do livro, trata dos aspetos sintáticos
da gramática do português. Relações gramaticais, esquemas relacionais,
categorias sintagmáticas, lexicais e funcionais, estruturas e a sua
representação em árvore, todos os tipos de orações e de construções
são analisados pelo grupo das sintaticistas sem apelo nem agravo. Quer
isto dizer que nada ficou de fora neste estudo da sintaxe do português.
64
Maria Helena Mira-Mateus
Todos sabemos que é característica da gramática generativa a utilização
de uma formalização exigente e esclarecedora das análises realizadas. É
nestas seiscentas páginas que essa formalização faz uma certa aparição
sob o modo de esquemas, árvores e diagramas vários. Mas se se comparar
esta edição com a anterior, é evidente a simplificação que se procurou
– e que se conseguiu – na representação das análises. Dificilmente uma
gramática pode tratar, de forma tão extensa e aprofundada, as interrelações frásicas, as categorias sintáticas, as estruturas de coordenação e
subordinação, as construção de graduação, negação e comparação, o uso
e a diferente natureza dos clíticos, a tipologia das construções elípticas
e o estudo da anáfora e das expressões anafóricas. Não podemos
esquecer, aliás, que a sintaxe tem lugar de honra no quadro teórico em
que trabalhamos.
Não posso deixar de incluir alguns exemplos desta parte imensa da
gramática.
Todos lembramos os testes de depreensão das relações gramaticais.
Como se determina o Sujeito?
(i)
Substituição pelo pronome tónico
(a) [O miúdo que está a jogar à bola]SU comeu um gelado.
(b) [Ele]SU comeu um gelado.
(c) *[Ele] que está a jogar à bola comeu um gelado.
(ii)
Construção de uma estrutura clivada
(d) Foi [o miúdo que está a jogar à bola] que comeu um
gelado.
(e) *Foi [o miúdo] que que está a jogar à bola comeu um
gelado
(iii)
Construção de uma estrutura pseudo-clivada
(f) Quem comeu um gelado foi [o miúdo que está a jogar à bola].
(g) *Quem que está a jogar à bola comeu um gelado foi [o
miúdo].
65
Construção de Gramáticas Descritivas
(iv)
Formulação de uma interrogativa sobre o sujeito
(h) P:
Quem comeu um gelado?
R:
[O miúdo que está a jogar à bola]SU.
(i) P:
*Quem que está a jogar à bola comeu um gelado?
R:
[O miúdo].
Um outro tipo de exemplos que mostra a mobilidade dos elementos
dentro da frase é o seguinte com que se torna evidente que o Sintagma
Preposicional não é geralmente separável do núcleo:
(a)
O pai da Maria chegou.
(b)
Chegou o pai da Maria.
(c)
*O pai chegou da Maria.
(d)
*Da Maria chegou o pai.
Mas também este sintagma pode ser topicalizado e, então ocorre no
início da frase:
(a)
De seda, comprei uma camisa; de algodão, duas.
(b)
De história, comprei alguns livros; de matemática, só três.
As representações que incluem o verbo com a sua flexão são mais
complicadas, como se vê no exemplo seguinte (Flex representa os traços
da flexão; Conc são os traços de concordância):
66
Maria Helena Mira-Mateus
F (=SFlex ou Flex")
SN
Flex'
Flex
SV
+T (P.Perf)
+Conc (3ª sg.)
a amiga da Maria
V
SN
viu
o filme
Para terminar este conjunto de exemplos, veja-se a representação
de uma coordenação de orações (um sintagma conjuncional) com a
conjunção adversativa:
Sconj
Conj'
Sflex
O jantar está pronto
Sconj
Sflex
mas
ninguém vai para a mesa
Ficou por apresentar uma enorme quantidade de construções, todo
o estudo das elipses, a sintaxe das negativas, os pronomes clíticos, e mais
não direi porque julgo que a curiosidade pode levar algum ouvinte a
espreitar (ou consultar, ou estudar) esta consistente parte da Gramática
da Língua Portuguesa.
67
Construção de Gramáticas Descritivas
Mas as análises não se quedam na frase: a morfologia também tem
o seu lugar e constitui a quinta parte da Gramática. Os constituintes
internos da palavra – a estrutura morfológica básica – e a flexão nominal
e verbal introduzem a formação de palavras por afixação, uma área que
não tem tido suficientes cultores mas sem a qual não se pode levar a
efeito uma análise lexical esclarecedora e produtiva. Esta parte da
Gramática é a que mais se aproxima das gramáticas tradicionais, tem
uma organização transparente, é de fácil consulta e muito rica em dados
no que respeita à flexão nominal e verbal. No capítulo sobre formação
de palavras estão incluídos inúmeros afixos com que construímos
em português a derivação e a sufixação avaliativa, negativa, opositiva,
quantificadora. A composição morfológica e morfo-sintática tem uma
explicação em que se reconhecem princípios já referidos nas partes da
gramática atrás apresentadas.
Chegamos por fim aos aspetos fonológicos e prosódicos da
gramática do português. Os segmentos fonológicos – as mais pequenas
unidades da língua – e a sua distribuição em superfície são tratados
com instrumentos da linguística estrutural. O mesmo não pode dizerse quanto à sua organização em sistema e aos processos e regras a que
estão sujeitos.
A fonologia tem sido objeto de análises que permitiram um
progresso na teoria e na metodologia da gramática generativa. A
utilização dos conhecimentos em fonética – que provêm do período
experimental nesta área – deu origem aos traços fonológicos que
identificam os segmentos, os quais são manipulados de acordo com
os princípios da teoria generativa. Nos últimos anos, na sequência da
teoria autosegmental, desenvolveu-se o modelo da geometria de traços
e o princípio da subespecificação que permitiram, na gramática do
português, encontrar soluções elegantes e convincentes para as questões
postas pela estrutura interna da sílaba e para a alternância vocálica na
flexão verbal do português. Entendendo a existência de um segmento
flutuante na estrutura fonológica subjacente, é possível explicar essa
68
Maria Helena Mira-Mateus
alternância como uma consequência da harmonização vocálica com a
vogal temática dos verbos. A representação deste processo sobre uma
forma de base como dev+e+o (devo) faz-se no exemplo seguinte:
a)
X ]Tema
X
Tema
X
b)
X
X
Raiz da V1
Raiz da V3
=
Raiz da V1
Vocálico
Raiz da V2
Vocálico
Raiz da V3
Vocálico
Altura
⇒
Vocálico
Vocálico
Altura
A vogal temática é suprimida e o seu traço de altura fica a flutuar
(como o gato da Alice, o gato Chershire que desaparece ficando apenas
o seu sorriso). A altura vai projetar-se na vogal1 que é a vogal do radical.
É também dentro do modelo da fonologia generativa que se pode
explicar a diferença entre a estrutura silábica da mesma palavra nas duas
variedades, europeia e brasileira, de que são exemplo pneu/pineu, absurdo/
abisurdo, captar/capitar.
As últimas análises da Gramática incidem sobre a prosódia e os seus
constituintes, e estudam, como dizia Coelho de Carvalho, “a melodia
da fala”. Recém chegada à linguística, a prosódia apropriou-se dos
traços que a identificam, e que são conceptualizações de propriedades
inerentes ao som como o tom, o acento e a duração. A distribuição das
proeminências sonoras permite apreender aspetos semânticos, sintáticos
e morfológicos do discurso pela relação que estabelecem entre si os tons,
a duração e as pausas, como se pode observar na seguinte representação:
69
Construção de Gramáticas Descritivas
[As alunas]I [até onde sabemos]I [obtiveram boas avaliações]I
(Hi)
L*+HHi (Hi) L*+H Hi
H*
H+L*Li
Termino assim este longo passeio pela Gramática da Língua Portuguesa
em que integrei, não poucas vezes, a expressão do meu entusiasmo pelo
trabalho que realizamos, retomando as últimas palavras do prefácio das
primeiras edições:
“As descrições feitas, as hipóteses propostas e as
soluções encontradas não se consideram de modo
algum definitivas. Foi nosso objectivo e é nosso desejo
que elas sejam entendidas como ponto de partida para a
realização de trabalhos futuros em que outros linguistas
(e nós próprias), ao retomarem as hipóteses aqui
apresentadas, venham a demonstrar a sua pertinência ou
a sua inadequação”.
70
LAS
MACROGRAMÁTICAS
COLECTIVAS.
LENGUA-I Y LENGUA-E: DATOS, TÉCNICAS Y
TEORÍAS IMPLÍCITAS.1
Violeta DEMONTE
Consejo Superior de Investigaciones Científicas, España (CCHS-CSIC)
Introducción
Han transcurrido alrededor de tres décadas desde la aparición en
Europa de las primeras gramáticas descriptivas no-normativas concebidas
no como obras de un solo gramático sino como resultado de un trabajo
conjunto de muchos autores, de equipo, con directrices comunes, bajo
la dirección de una o varias personas responsables y con un plan previo
aceptado por todos. Denominaré “macrogramáticas” a las gramáticas
así planeadas y ejecutadas, aunque la dimensión, estructura y objetivos
de estas obras colectivas, como es natural, no sean siempre iguales. Tres
décadas dan quizá perspectiva suficiente para analizar la necesidad de
estos tratados, sus ejes, sus limitaciones y su virtualidad. Sin ninguna
pretensión apodíctica o didáctica, en este texto quiero hacer algunas
consideraciones, primero (sección 2), sobre el lugar y la naturaleza de la
propia noción de gramática en el momento actual de la teoría lingüística,
repasaré luego (sección 3), la saga de las macrogramáticas europeas y
me referiré, en la cuarta y última sección, a la cuestión de la relación
1
La elaboración de este trabajo ha sido parcialmente financiada mediante los proyectos de investigación FFI2009-07114 (subprograma FILO) y EDU2008-01268 ambos del Ministerio de
Ciencia e Innovación del Gobierno de España (Plan Nacional de I+D). Agradezco a Elena Castroviejo e Isabel Pérez-Jiménez sus permitentes observaciones y críticas a una primera versión
de este texto. Estoy muy agradecida asimismo a mis colegas de la sesión inaugural del VI Congreso
de ABRALIN por lo mucho que de ellos aprendí en aquella sesión de trabajo. Gracias muy especiales al Dr. Ataliba Teixeira de Castilho por proporcionarme tan generosamente materiales
bibliográficos que han sido esenciales para la revisión de aquella ponencia y redacción definitiva
de este breve texto.
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 71-90. 1ª parte 2011
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
entre teoría y datos, entre datos de intuición y datos de corpus, y entre
(supuesta) descripción neutral frente al papel de las hipótesis implícitas
y/o a la carta… en las macrogramáticas colectivas. Mi experiencia de hace
ya varios años como co-directora, con Ignacio Bosque, de la Gramática
descriptiva de la lengua española [GDLE] está sin duda en el sustrato de
estas páginas, pero querría situarme en una perspectiva más general y
personal.
1. La noción de gramática hoy: lengua-i – lengua-e
La gramática generativa [GG] resucitó, redefinió acaso, la noción de
gramática que había perdido novedad tras siglos de gramáticas emanadas
de la lógica y, en lo que a la morfosintaxis se refiere, tras décadas de
búsqueda y establecimiento de procedimientos para descubrir estructuras
de constituyentes, sea definidas por sus funciones, sea por las propiedades
construccionales, o por su lugar en la distribución de la información
dentro de la oración. La meta de la lingüística estructural era el análisis
de los sistemas de signos, de las relaciones forma-significado en esos
sistemas, y la “lengua” se definía aquí como un producto social de la
facultad del lenguaje (Saussure). La lingüística chomskiana de mediados
de los 50 definió la gramática en un sentido mucho más abstracto
como un sistema computacional (en el sentido de “preciso, formalizado
y capaz de enumerar cadenas de elementos”) previo a las estructuras
sintagmáticas producidas: el de las reglas que generan “todas y solamente
las oraciones gramaticales de las lenguas” (Chomsky, Aspectos) y que
representan “el conocimiento que el hablante tiene de su lengua”. En
la visión de la GG, ese sistema computacional constituye la LenguaI(nteriorizada), un componente de la mente humana, que debe ser
adquirido y que todos adquirimos por exposición a una o varias lenguas
en el período crítico. Una GG, entonces, es una teoría de la lengua-I.
Frente a ella, está la Lengua-E(xteriorizada) –la separación Lengua-ILengua-E es una precisa distinción de la lingüística chomskiana— que
72
Violeta Demonte
podemos caracterizar como una colección de proferencias, de actividades
lingüísticas, de emparejamientos forma-significado sea en el terreno de
las palabras, las construcciones o las oraciones… lo que normalmente
entendemos por fenómenos gramaticales, discursivos, de variación, etc.
Desde la lingüística chomskiana se ha señalado que la lengua-I es lo que
verdaderamente el lingüista puede estudiar de manera sistemática puesto
que solo los enunciados teóricos están sujetos a condiciones de verdad
restrictivas y bien especificadas. Asimismo, el estudio de la Lengua-I, entre
otras cosas, debería constituir un paso hacia la comprensión de la base
biológica del lenguaje, del organismo que lo hace posible. Este programa
de trabajo aun incipiente es el que se ha dado en llamar “biolingüística”.2
Este estudio de la lengua-I, asimismo, aspira a definir las condiciones
que hacen posible las lenguas-E y pretende llegar a establecer los límites
y la naturaleza de la diversidad lingüística. Si se puede resumir lo que es
ya un resumen: durante varias décadas la gramática generativa ha ido
aislando las propiedades de la lengua-I, de la facultad del lenguaje, y la
aspiración ahora es ir hacia lo que constituye la arquitectura orgánica de
esa facultad.
La lengua-E, en contraste con la lengua-I, es el conjunto de
actuaciones lingüísticas, de datos lingüísticos si se quiere, marcadas como
es natural por factores culturales, sociales, geográficos, individuales
e históricos. Así las cosas, frente al caso anterior parece configurar
un objeto más difícil de abarcar si se tiene en cuenta la manera de
trabajar de las ciencias (un químico no estudia el agua o el aceite sino
las propiedades de los elementos líquidos, las partículas mínimas que
los conforman, los procesos químicos posibles) y por ello la estrategia
seguida ha sido aislar los marcos de análisis de estos elementos de la
actuación lingüística (sociolingüística/ dialectología, lingüística histórica,
análisis del discurso, etc.) para ir haciendo aproximaciones parciales sobre
un conjunto complejo y diverso. La consecuencia de esta estrategia,
justificada en buena medida por razones prácticas, es que existe una gran
2
V. Anna Maria Di Sciullo y Cedric Boeckx (eds.): The biolinguistic enterprise; Oxford. OUP, 2011
para una serie de actuales y muy destacados estudios sobre el programa biolinguístico.
73
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
fragmentación en el estudio de la lengua-E y no parece obvio cómo se
podría construir un marco general integrador de esos estudios; menos
fácil aún parece relacionar esos resultados con los que arroje el estudio
de la lengua-I, estudio que, al menos programáticamente, aspira a ser
unitario. No obstante, no conviene dramatizar, esto no sucede solo en
el terreno de la lingüística: hay mucho que hacer aún sobre el complejo
asunto de cómo explicar y caracterizar los objetos histórico-sociales;
es evidente empero que, pese a las dificultades que he señalado, esos
objetos pueden ser descritos o interpretados con mayor o menor finura,
rigor, acierto o elegancia.
Volviendo a lo que aquí nos interesa, lo que normalmente se entiende
por gramática de una lengua es necesariamente una aproximación a
las propiedades de los objetos de la lengua-E: un conjunto de datos
(palabras, construcciones, oraciones, discursos) definidos como lengua
en virtud de parámetros no solo lingüísticos sino también históricos y
sociopolíticos. En sentido estricto, entonces, una gramática no puede ser
sino un conjunto de enunciados descriptivos, teleológicos, casuísticos…
sobre la lengua-E, con mayor o menor indicación, aquí está la decisión
del gramático, de cuál es su contenido, su forma o su contexto de uso.
Quiero decir que la expresión gramática descriptiva es en cierto modo una
tautología. Ello se debe a que hay muchas carreteras, no siempre fáciles
de separar, por las cuales puede discurrir ese conjunto de enunciados
descriptivos sobre la lengua-E. Esto significa que la noción de gramática
no es básica sino secundaria, las gramáticas pueden tener tantas formas
como el gramático quiera, mientras que la teoría de la lengua-I debe
satisfacer el requisito de “adecuación explicativa” (frente a “adecuación
descriptiva”, Chomsky), e integra por definición el estudio del sistema
computacional y de las interfaces con los sistemas de actuación, en tanto
en cuanto las unidades elementales, las operaciones y las condiciones de
interfaz constituyen los elementos mínimos que entran en el diseño de
la facultad del lenguaje. Se señala en ocasiones que la GG no concede
crédito suficiente a la noción de lengua o que considera que las lenguas
74
Violeta Demonte
no existen. Tras lo que acabo de decir (y daré otras precisiones a
continuación) puede advertirse que las cosas no son exactamente así. Lo
que sí se enfatiza –y eso sucede en cualquier teoría que se tome en serio
la seria distinción entre Lengua-I / Lengua-E- es que las lenguas son
objetos históricos y sociopolíticos (Lengua-E) no menos que objetos
biológicos (Lengua-I) y esta complejidad no debe soslayarse a la hora
de estudiar el lenguaje y las lenguas; si así no se procede corremos el
riesgo de situarnos en tierras de nadie. En todo caso, antes de hablar de
las macrogramáticas y sus características reales y posibles me interesa
hacer un repaso somero de los desarrollos en el conocimiento de la
teoría de la lengua-I y el contenido de las lenguas-E. El repaso será muy
general por falta de espacio, no pretendo que con ello se entienda un
intrincado panorama de teorías y técnicas cuya justificación y alcance
queda muy lejos de los objetivos de este texto; considero necesario, sin
embargo, referirme a ese panorama por lo que antes he dicho: porque en
el momento actual la construcción de las gramáticas y macrogramáticas
(descriptivas), objetos derivados, está muy influida por ese menú de
posibilidades tanto teóricas (marco base de la organización de los
hechos) como prácticas o técnicas (fines pedagógicos, investigadores,
normativos, etc.)
El estudio de la lengua-I ha significado un giro de la lingüística en
los últimos 50 años puesto que movió la disciplina desde el estudio de
constructos a una interpretación mentalista del estudio del lenguaje.
La aproximación mentalista supone una visión abstracta dirigida a
establecer generalizaciones y formular hipótesis sobre los principios de
la gramática universal [GU] (como en primera instancia se denominó a
la Lengua-I), fundamentalmente a través del estudio de varias lenguas
a la vez y, por lo tanto, en una perspectiva que, de una parte, presta
especial atención a los mecanismos subyacentes y, de otra, a la variación
entre las lenguas3 como manifestación de la interacción entre esos
3
Conviene recordar que este uso del la noción de “variación” (variación paramétrica, en términos de rasgos de las categorías funcionales) no es equivalente a lo que se entiende por variación
en la lingüística variacionista (Labov).
75
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
mecanismos. La biolingüística en la que se enmarca el estudio de la
lengua-I aspira a situar a la lingüística en el seno de las ciencias de la
naturaleza; no obstante, la viabilidad de la biolingüística dependerá de
que se articulen conceptos conmensurables (Popper) entre la lingüística
y sus disciplinas próximas.4 Los estudios lingüísticos de la lengua-I han
experimentado un crecimiento notable en las últimas décadas. Hagamos
un breve repaso. La empresa iniciada a finales de los 50, mediados de los
60 dio buenos resultados en el estudio de las gramáticas formalizadas
y de las propiedades sintácticas y léxico-sintácticas de las lenguas. El
modelo siguiente, el de los Principios y los Parámetros [PP], con algo
más de precisión, concibió la GU como el efecto de dos elementos
en interacción: unos “principios” fijos, comunes a todas las lenguas
(definidos técnicamente en el “modelo de la rección y el ligamiento”) y
unos “parámetros” susceptibles de ser escogidos por las lenguas en una
u otra versión y que constituyen los ejes en torno a los cuales las lenguas
varían. El resultado de este nuevo marco fue el perfeccionamiento de las
operaciones del sistema computacional (constreñidas por la restricción
que suponen los parámetros) y la incorporación de un número
considerable de lenguas al programa de análisis de la lengua-I, de la GU.
Así, en este período el aumento del conocimiento de las propiedades
formales de lenguas diversas fue, si se me permite, espectacular, y
esto se notará mucho en las macrogramáticas. Más recientemente, en
el giro que representa el Programa Minimalista [PM],5 como he dicho,
la gramática universal o sistema computacional subyacente se concibe
como un “diseño perfecto” y configura un componente mínimo (con
una sola operación: Fusión) que se relaciona con los niveles de actuación
mediante dos “interfaces”: el sistema conceptual-intencional (la “forma
lógica”) y el sistema perceptivo-articulatorio (la “forma fonética”). Para
4
Mientras el lenguaje teórico y el equipamiento formal de la lingüística y la biología sean tan
radicalmente distintos como lo son hasta ahora, la relación entre ellas parece difícil de articular,
salvo por el hecho innegable de que las propiedades que los lingüistas aíslan pueden arrojar pistas
sobre los mecanismos cerebrales que permiten la actividad lingüística.
5
Para una introducción en español a los objetivos y estructura del PM, véase Luis Eguren y Olga
Fernández Soriano: Introducción a una sintaxis minimista; Madrid, Gredos, 2004.
76
Violeta Demonte
ser precisos, el objetivo del programa minimista podría decirse que
no es tanto caracterizar la facultad del lenguaje per se sino describir las
condiciones que imponen sobre esa facultad (y viceversa) los sistemas
con los cuales interactúa. Se trata de un marco amplio, de un programa,
como tanto se ha insistido; la observación siguiente de Di Sciullo y
Boeckx (op. cit.) tiene mucho sentido e interés:
“Biolinguistics is a fairly broad research program
and allows for the exploration of many avenues of
research: formalist; functionalist; nativist and insisting
on the uniqueness of the language faculty; nativist about
general (human) cognition, but not about language per
se, etc. From Chomsky to Givón, from Lenneberg to
Tomasello—all of this is biolinguistics”. (Di Sciullo y
Boeckx 2011: 5)
En efecto, la GG no solo reabrió la carretera de la visión mentalista
del estudio del lenguaje, sino que también generó extensiones, réplicas,
alternativas totales o parciales, fuertes o débiles, que han enriquecido
notablemente el campo de los estudios del lenguaje a la vez que
han generado ruido y alguna confusión. Para situar metodológica y
conceptualmente las teorías alternativas sobre la lengua-I algunos autores
(Newmayer, recientemente Golumbia)6 establecen una distinción general
entre formalismo y funcionalismo, teorías formales y teorías funcionales.
La adoptaré como una manera de generalizar fácilmente, pero los propios
adherentes a cada una de esas supuestas grandes líneas se mueven a
veces sin grandes problemas en los terrenos de la otra línea, si bien
parecería que el criterio de demarcación claro entre los dos enfoques es
el de si se acepta o no la hipótesis de la autonomía de la sintaxis. Parece
haber también entre las dos líneas una diferencia o debate ‘fundacional’
6
V. Fred Newmayer: Language form and language use; Cambridge: MIT Press, 1998; Fred Newmayer: “Grammar is grammar and usage is usage”, Language 79, 682-707, 2003; y David Golumbia:
“Minimalism is functionalism”, Language sciences 32, 28-42, 2010.
77
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
pues ambos responden de distinto modo a la pregunta de ¿cómo surge
el lenguaje humano en el contexto de la evolución de los primates?
Ciertamente, si no me equivoco demasiado, hay por el momento pocos
elementos de juicio fuertes que permitan zanjar este debate. En términos
gruesos, las teorías funcionalistas –Halliday, Givón, Dik, Bybee, etc., quizá
la denominada gramática cognitiva que, por otra parte, es una versión
extendida (teñida de algunos conceptos de la teoría de la subjetividad, la
intencionalidad, etc.) de los modelos lexicistas de la GG– se inscriben
en la idea de que la razón de ser de las lenguas es la comunicación y,
en esta línea, en la suposición de que su diseño es un producto de la
selección natural moldeado por esas necesidades comunicativas. En una
interpretación trivial de esta suposición, que a veces no está siquiera
en los propios autores autodenominados funcionalistas, la forma y las
propiedades de las lenguas expresarían de una manera más o menos
directa esa función comunicativa del lenguaje. Las teorías formalistas
–la GG, las gramáticas léxico-funcionales, las gramáticas de unificación,
quizá la tipología lingüística– inciden en las propiedades intrínsecas del
lenguaje humano (recursividad, infinitud discreta, localidad, o marcadez
-“markedness”-, gramaticalización, etc.) más que de las lenguas y no en
las propiedades asociadas a las funciones de las expresiones lingüísticas;
sin que eso signifique negar las virtualidades comunicativas del lenguaje
humano (estas propiedades serían comunes a muchas especies: estarían
ya presentes en otros sistemas de signos del mundo animal desde hace
decenas de miles de años). En los casos en que esta cuestión se explicita
(en el PM, por ejemplo), se ha señalado que las lenguas humanas, un
producto natural reciente (de entre 50.000 y 100.000 años atrás), una
mutación que se añade a sistemas comunicativos preexistentes, comunes
a una gran variedad de seres vivos, surgirían tras un recableado del cerebro.
El lenguaje serviría para exteriorizar/ representar pensamiento, planes,
interpretaciones, imágenes del mundo,… ventaja selectiva evidente que
se articula después, mediante estos procedimientos de exteriorización,
pero que propiamente no está en la génesis del lenguaje humano. En
78
Violeta Demonte
esta visión, la función comunicativa del lenguaje adquiere también un
nuevo sentido en la medida en que se la relacione con los procesos de
exteriorización. Permítaseme una cita de Berwick y Chomsky (2010):7
“… Externalization is not a simple fact. It has to
relate two quite distinct systems one is the sensorymotor system that appear to have been basically intact for
hundreds of thousands of years; the second is a newly
emerged computational system for thought, which is
perfect insofar as the strong minimalist thesis is correct.
We would expect, then, that morphology and phonology,
the linguistic processes that convert internal syntactic
objects to the entities accessible to the sensory-motor
system—might turn to be quite intricate, varied, and
subject to accidental historical events. Parameterization
and diversity, then, would be mostly… restricted to
externalization. That is pretty much what we find: a
computational system efficiently generating expressions
interpretable at the semantic-pragmatic interface, with
diversity resulting from complex and highly varied
modes of externalization which, furthermore, are readily
susceptible to historical change.” (op. cit. 37-38)
¿Quiere esto decir –la afirmación, por ejemplo, de que
la exteriorización está sujeta a cambios históricos–, como
ha indicado Golumbia, que el minimalismo es un nuevo
funcionalismo? No parece ser exactamente así (aunque
Golumbia cualifica, cierto es, su aseveración) puesto
que lo que resulta más fácil de mostrar es que la función
comunicativa es una propiedad extendida de los sistemas
de signos; lo que la emergencia del sistema computacional
7
Robert Berwick y Noam Chomsky: “The biolinguistic program. The current state of its development”. En Di Sciullo y Boeckx, op. cit., 19-41.
79
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
añade es la función exteriorizadora. Esto en lo que se
refiere a las constricciones metodológicas; desde un
punto de vista práctico, los estudios funcionalmente
orientados se pueden incorporar al programa
biolingüístico en tanto en cuanto las propiedades que
ellos aíslen permitan entender las restricciones que la
sintaxis impone sobre otras capacidades combinatorias
paralelas. Por ejemplo, es sensato suponer que la sintaxis
no incluye la interpretación, que seguramente es el
producto de una capacidad combinatoria independiente
que la sintaxis, eso sí, restringe de manera crucial. Por
ello los semantistas formales han de determinar qué
viene de la sintaxis (lo que se expresa en el principio
de “composicionalidad”), cómo interacciona esta con
la interfaz CI y cómo pueden obtenerse las inferencias
posibles, o qué otras funciones semánticas pueden
añadirse sobre las computacionalmente previsibles.
Volviendo a nuestro asunto central, lo que he querido señalar hasta
aquí es que este panorama tan rico de visiones y aproximaciones ofrece
un caudal de posibilidades para la estructuración y la elaboración de las
gramáticas descriptivas y debería permitir plantearlas y llevarlas a cabo
con clara conciencia de en qué nivel se están situando las descripciones,
su interpretación y las observaciones sobre su uso, si las hubiere.
Como veremos, ese caudal se ha usado de manera fecunda en las
macrogramáticas.
Las posibilidades que emanan de los modelos teóricos se potencian y
amplían cuando advertimos que disponemos también de los resultados de
los estudios que abordan de manera directa la lengua-E, cuyo objetivo es
en cada caso un aspecto específico, determinado desde fuera podríamos
decir, del conjunto de enunciados que constituyen esta lengua-E. Sin
ánimo de exhaustividad, me refiero con ello sobre todo a los resultados
80
Violeta Demonte
de la dialectología y la sociolingüística, de la pragmática comunicativa,
diferente de la pragmática cognoscitiva –Sperber y Wilson—, que todos
situamos en el seno de los estudios de la lengua-I, a los incipientes estudios
sobre la oralidad y a la elaboración de grandes documentos de trabajo
como son los corpus, cada vez más extendidos y de fácil acceso. En todos
estos casos, lo que estos resultados nos proporcionan a los lingüistas
teóricos es una base empírica enriquecida importante sobre todo cuando
los datos son nuevos o poco conocidos y están estadísticamente bien
evaluados. Estos datos tienen relevancia para los estudios teóricos pues
pueden llevar a reanalizar propiedades previamente establecidas sobre
otros fundamentos empíricos. Estos datos, por supuesto, son también
importantes para las gramáticas descriptivas, aunque muchas de ellas no
los tengan en cuenta ya que suelen estar predeterminadas por lo que
podríamos llamar la visión internista de las lenguas.
Tras estas consideraciones generales que juzgaba necesarias para que
puedan entenderse mejor algunas observaciones de las dos secciones
que siguen me ceñiré ahora estrictamente a la cuestión de la historia,
naturaleza y contenido de las macrogramáticas que conocemos.
2. Breve historia de las macro-gramáticas europeas y
americanas. Características fundamentales
La saga de las “gramáticas grandes” (término este inventado, por
lo que se me alcanza, por L. Renzi) es la historia de un tranvía que con
los años se convierte en un tren articulado, como decimos con Ignacio
Bosque en un artículo publicado en la revista Lingüística de la ALFAL.8
En España, la primera macrogramática, la GDLE, apareció en 1999, pero
varias obras le habían precedido y otras la siguieron o van a seguirla. La
serie que ellas constituyen tiene dos puntos de partida fundamentales. En
8
Este apartado es en los aspectos más generales (no en el análisis interno de las obras) deudor
en parte de un artículo que escribí con Ignacio Bosque, co-director conmigo de la Gramática
descriptiva de la lengua española, en la revista Lingüística 15/16, 2003/2004: “Teoría y descripción en
la GDLE. Memoria y perspectivas”, 11-34.
81
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
el comienzo mismo está la Gramática da Lingua Portuguesa de la Editorial
Caminho, redactada por M. H. Mira Mateus, A. M, Brito, I. Duarte e I.
Hub Faria, que se publica por vez primera en 1983, obra colectiva que se
multiplica por tres en número de páginas (de 400 a 1200) en la edición
ampliada de 2003. Es esta una obra de mucho fondo teórico, ceñida al
trabajo de las autoras y,, como dije en la presentación de le reedición
de esta obra en Lisboa, en 2003: “Desde la estructura general hasta en
los detalles mínimos que se dan sobre los problemas, la obra contiene
aliento y voluntad de hacerse entender, y hacer más rica la comprensión
de la lengua portuguesa.”
Poco después, en 1985, se publicará la primera macrogramática
del inglés: A Comprehensive Grammar of the English Language (Londres:
Longman), escrita por R. Quirk, S. Greenbaum, G. Leech y J. Svartvik,
texto que cumple ya con la idea de que un proyecto general sacrifica lo
individual y lo que cada uno considera lo suyo. Estas dos gramáticas,
distintas entre sí, contienen la señal de la modernidad: son colectivas
y cambian las perspectivas de análisis y el alcance y contenidos de las
gramáticas. Abren el camino por el que luego transitarán la Grande
Grammatica italiana di consultazione dirigidos, respectivamente, sus tres
volúmnes, por L. Renzi; L. Renzi y G. Salvi; y L. Renzi, G. Salvi y A.
Cardinaletti (publicados por Il Mulino en 1986, 1991 y 1995); la Algemene
Nederlanse Spraakkunst (1997, Groninga: Martinus Nijhoff); la Gramática
descriptiva de la lengua española dirigida por I. Bosque y V. Demonte, y
publicada en 1999 (Madrid: Espasa Calpe), con varias reediciones
posteriores; la monumental, por tamaño y calidad, Gramàtica del català
contemporani dirigida por J. Solà con M. R. Lloret, J. Mascaró y M. Pérez
Saldanya (Barcelona: Empúries, 2002); y la más reciente aún The Cambrige
Grammar of the English Language, escrita por R. Huddleston y G. Pullum
y varios colaboradores (Cambridge University Press, 2002). La Gramática
da lingua portuguesa, como indiqué, tuvo una reedición ampliada en 2003.
En este camino se situarán en poco tiempo la gramática del portugués
europeo que preparan los investigadores del Centro Lingüístico de la
82
Violeta Demonte
Universidad de Lisboa, dirigida por el prestigioso lingüista E. Raposo,
y la gramática de la lengua francesa iniciada hace ya varios años bajo la
dirección de A. Abeillé y D. Godard.
No puedo dejar de mencionar –aunque sea salirme del ámbito
europeo– que desde antes, y a lo largo de todos estos años en que ven
la luz estas macrogramáticas, la actividad gramatical en Brasil es de
gran importancia y calado y se expresa fundamentalmente (aunque hay
también muchos otros trabajos gramaticales) a través de la obra colectiva
Gramática do português falado, coordinada por A. Teixeira de Castilho con
un amplio elenco de los mejores gramáticos y analistas del discurso
brasileños, publicada primero entre 1991 y 1996 y más recientemente en
versión consolidada (Gramática do português culto falado no Brasil [GPCFB],
Editora Unicamp, en tres volúmenes, desde 2006 a 2009), obra
monumental y distinta de las precedentes en varios respectos no fáciles de
resumir en breves líneas. Sin ánimo de exhaustividad, lo que caracteriza a
esta gramática en primer lugar y de manera destacada es la definición de
una base empírica inusual en los tratados gramaticales: la lengua hablada
recogida en un amplio corpus. Una segunda característica es la decisión
de optar explícitamente, indicándolo en cada caso y en función de los
contenidos que fueran a abordarse, tanto por explicaciones formalistas
(base conceptual y análisis próximos a la gramática generativa en los
capítulos de sintaxis) como funcionalistas (la lengua es un instrumento
de interacción social), e incluso la decisión de casar explicaciones
generativistas con otras de la teoría laboviana de la variación (volumen
III organizado por M. Kato y M. Nascimento).9
Las macrogramáticas europeas, como he sugerido, tienen
propiedades comunes pero tienen también muchos aspectos específicos
que se derivan naturalmente de la propia tradición en que cada una de
ellas se inscribe; también cada una de ella establece de manera propia la
relación entre las gramáticas tradicionales y los estudios lingüísticos de la
9
Véase la excelente “Apresentação” elaborada por el coordinador general de esta obra colectiva,
Ataliba Teixeira de Castilho, en el volumen I de la GPCFB: Construção do texto falado, Campinas:
Editora Unicamp, 2006, 7-26.
83
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
lengua-I.10 Veamos brevemente estas tres cuestiones.
En cuanto a las características comunes, en primer lugar están
influidas por los resultados de la investigación lingüística, ponen de
manifiesto avances sustantivos en el conocimiento de lo que es el
lenguaje y de cómo son las lenguas particulares: son resultado de la
“transferencia”, digamos, meditada de resultados teóricos y a la vez
impulso para nuevas precisiones. Las gramáticas “tradicionales”, las
que se inscriben en la tradición greco-latina, fueron durante siglos muy
parecidas entre sí: listas de categorías y de construcciones analizadas
someramente, con instrumentos a veces tomados de la lógica, a veces
más internos al lenguaje, y con una base semántica siempre extensional
o referencial más o menos intuitiva. En el mejor de los casos eran
breviarios que guiaban sobre ciertos conceptos básicos para entender la
forma y significado de las oraciones. Las gramáticas de finales del siglo
XX, y las del siglo XXI, al tener detrás las teorías sobre el conocimiento
y el uso del lenguaje, son redes de caminos de largo recorrido; ahora bien
en ellas se vuelve, quizá por ser inevitable cuando hacemos descripción,
al análisis de las categorías y las construcciones:11 de las clases de las
primeras y las “expansiones” que permiten en virtud de su significado,
de las relaciones forma-significado, quizá con un aparato semántico
algo más sofisticado, en el caso de las segundas. Por eso, estas nuevas
gramáticas aspiran a explicar cómo funciona la lengua (en ello enlazan
con la tradición anterior), pero también constituyen una ventana más o
menos ancha hacia el uso de la lengua e incluso hacia la organización del
discurso, hacia la semántica, la pragmática y las relaciones de significado.
10
Aunque sea ocioso decirlo, las gramáticas descriptivas se relacionan más con las teoría de la
lengua-I porque quieren presentar “los principios y reglas que gobiernan la forman y el contenido de las palabras, frases, cláusulas y oraciones” (Huddleston y Pullum 2002: 3) y porque
aspiran a presentar la lengua estándar.
11
A propósito del peso de la noción de “construcción” en las gramáticas actuales, véase la inteligente y fina reseña de Ángel Alonso Cortés a la Nueva gramática de la lengua española de la RAE
“Tradición y modernidad: la nueva gramática española”, Revista de Libros 171, marzo 2011.
84
Violeta Demonte
Estas macrogramáticas actuales, como señalábamos en el artículo
antes mencionado de la revista Lingüística, precisamente por tener
como marco de resonancia las columnas de la investigación, amplían
sus contenidos, su vocabulario teórico, los conceptos en los que basan
sus descripciones, y esta es su segunda característica más destacada. Van
así más allá de las categorías gramaticales clásicas en tanto en cuanto
incorporan nuevas categorías: tiempo, aspectos, determinantes, para
entrar a fondo en la estructura interna de las oraciones y llegar hasta
el uso, las condiciones de verdad o las implicaturas conversacionales.
Para hacer esto, a veces tienen que tomar nociones de la filosofía, como
la referencia o los eventos, o las modalidades deónticas o epistémicas,
pero las más de las veces lo que hacen es redefinir las nociones clásicas.
En otras ocasiones han de crear nuevos términos mediante metáforas:
como la de las islas interrogativas (metáfora de la gramática generativa),
o mediante símiles, como cuando hablamos de contextos opacos, de
árboles por representaciones jerárquicas, de principios. Pero no solo
hay muchos más conceptos, hay datos nuevos y construcciones nuevas.
Hay ciertamente una gran extensión del territorio del análisis de las
lenguas. Por último, en general –no es así en todos los casos– estas obras
procuran asemejarse en estilo expositivo a las obras tradicionales en el
sentido de presentar generalizaciones claras, evitar las polémicas, no
insistir demasiado en cuestiones de teoría y recorrer más las propiedades
de las categorías, construcciones y oraciones que los puntos de vista de
las polémicas de los lingüistas.
¿Cómo enlazan estas gramáticas con los resultados de las
investigaciones lingüísticas, mejor dicho, cómo se transfieren estos
resultados a las descripciones puesto que todas de un modo u otro
lo hacen? Es imposible desde luego analizar exhaustivamente una
cuestión tan compleja, daré solo algunos ejemplos. Para empezar, casi
todas estas gramáticas muestran de manera explícita las relaciones
con las investigaciones de la lingüística a través de la incorporación de
referencias bibliográficas. Hay una excepción: Huddleston y Pullum 2002
85
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
no lo hacen, aunque reconocen esas relaciones. En los demás casos las
referencias están, aunque de distinta manera. La gramática del italiano
contiene las referencias bibliográficas básicas al final de cada volumen;
la del español se refiere constantemente, dentro del texto y en las notas,
a las bases teóricas de las propuestas; la catalana da muchas referencias
bibliográficas, siempre en las notas. Si bien todas tratan de la morfología y
la sintaxis (la del catalán, a diferencia de todas las demás, tiene un amplio
y excelente volumen sobre fonética y fonología, lo cual la singulariza),
sus “índices”, en lo que a la sintaxis se refiere, son considerablemente
diferentes y ello refleja concepciones diversas que no es este el lugar de
analizar. La gramática italiana, muy influida por la gramática generativa
en concepción y autoría, es una gramática que gira en torno a los
sintagmas (las estructuras sintagmáticas); la del catalán (con autores que
vienen de la gramática generativa y otros modelos gramaticales recientes,
así como de la teoría formal del discurso), establece dos grandes zonas:
la de la oración simple y los procesos de elipsis y predicación (con clara
referencia a las funciones gramaticales), y la de las oraciones compuestas
y coordinadas, más las relaciones con el discurso; la del español tiene
como ejes las clases de palabras, las construcciones sintácticas, las
relaciones con la modalidad y la aktionsart y las relaciones con el discurso.
En la obra española, la de mayor número de autores (73), confluyen
generativistas, funcionalistas, gramáticos tradicionales, estudiosos de
la gramática cognitiva y de la pragmática, investigadores de gramática
histórica, etc.
Como señalaba más arriba, estas macrogramáticas poseen también
aspectos específicos que se derivan no ya de su estructura o de la fuente
teórica de los análisis sino de la tradición de estudio, en cada país,
de las lenguas que son objetos de descripción. Aún a riesgo de dejar
fuera cuestiones importantes, podrían quizá identificarse los siguientes
aspectos. Se advierte, por ejemplo, el peso de la más reducida tradición
gramatical (revitalizada en cambio por el grupo potente de los gramáticos
formales) y la fuerte tradición de estudios dialectales de los lingüistas
86
Violeta Demonte
italianos; podría percibirse la amplia y diversa tradición gramatical, a la
vez que la falta de una visión unitaria y de conjunto sobre la variación
dialectal, para el caso del español. En el caso de la lengua catalana, una
tradición gramatical y de estudios dialectales no muy desarrollada en el
pasado (por obvias razones históricas) pero, en cambio, un crecimiento
reciente de ambos campos potente y muy actualizado, con un aparente
consenso mayor que en los otros casos, permite encuadrar con más
novedad y menos restricciones una obra en verdad novedosa. La
gramática italiana es desigual en la fuerza de los análisis y clasificaciones
sintácticas y morfológicas –si bien siempre con un alto nivel de
conocimiento y exposición— pero acoge en cambio mucha información
sobre estilos y registros, no olvidemos que se redacta muchos años antes
que las demás, cuando no se dispone aún de tantos resultados como
hace diez o quince años. La obra española puede inducir la sensación de
heterogeneidad, y a veces de polémica, precisamente porque hay mucho
detrás (Bello, Gili Gaya, Alcina y Blecua, Alarcos, Fernández Ramírez,
las gramáticas de la RAE) y porque, deliberadamente, los redactores
pertenecían a perspectivas teóricas distintas (aunque se hizo un gran
esfuerzo por homogeneizar sus presentaciones). La gramática catalana
es seguramente la más conseguida en cuanto a homogeneidad, calidad
expositiva y buena estructura general. Son también las ventajas de ser la
última. Las gramáticas del inglés reflejan una experiencia muy sólida de
combinación de la teoría con la descripción.
3. Datos, técnicas y teorías implícitas
En la primera sección de esta nota definí las gramáticas descriptivas
estándar como conjuntos de enunciados descriptivos que organizan y
explicitan los elementos de la lengua-E. Me referí también al importante
desarrollo de las diversas teorías de la lengua-I y de la lengua-E que
establecen un fondo conceptual imposible de soslayar por los lingüistas
que se aboquen a la tarea de construir una gramática para una lengua
87
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
específica. La voluntad de neutralidad con respecto a ese fondo teórico,
o el ateoricismo como meta, pueden ser brindis al sol si pensamos en una
verdad evidente, al menos para los filósofos de la ciencia: no hay datos
sino teorías, las teorías son redes para aprehender el mundo visible e
invisible, en este caso las producciones lingüísticas de los seres humanos.
Es también frecuente reconocer que es mejor explicitar las teorías
(aunque sea en una versión débil) antes que pretender una neutralidad
que solo puede coadyuvar a dejar inconclusas algunas precisiones por
mor de no complicar técnicamente una presentación.
Ahora bien, la distinción que establecimos entre lengua-I y lengua-E
podría llevarnos a suponer que las gramáticas empíricas son imposibles,
en tanto en cuanto son caracterizaciones de la lengua-E, objeto difícil
de abarcar, por muchas razones, con las redes de la ciencia (teoría,
contrastación experimental, análisis de predicciones), como señalé.
Sin embargo, la realidad y la práctica –como se desprende creo que
nítidamente de la sección anterior sobre la saga de las macrogramáticas–
son mucho más complejas de lo que dejan ver la filosofía y la metodología,
y lo que no conviene perder de vista es que las gramáticas son también
objetos en buena medida artesanales y, sobre todo, culturales. Las
gramáticas descriptivas son necesarias y posibles por varias razones.
Primero, porque la tradición proporciona una horma, unos criterios
aceptados y unas prácticas disciplinarias que se seguirán aplicando
mientras no se considere que este tipo de tratados es innecesario por
razones independientes. Segundo, porque los nuevos análisis de las
propiedades de las palabras y las construcciones de las lenguas surgidos
de la lingüística teórica ofrecen muchas ideas para el enriquecimiento
de las descripciones en lo que concierne a las propiedades formales y
de uso de los objetos lingüísticos, por sencillo y mínimo que sea el uso
que hagamos de esas formalizaciones. Tercero porque los materiales que
surgen de las disciplinas más abocadas a la organización de los ricos
datos de la lengua-E (los análisis estadísticos de la lingüística variacionista
y de la lingüística de corpus, los mapas dialectales, las bases de datos
88
Violeta Demonte
léxico-sintácticas…) ofrecen muchos materiales para las gramáticas
descriptivas. Cuarto, porque el desarrollo de la semántica léxica, la
semántica de los eventos y la semántica de condiciones de verdad, o
el de la pragmática cognitiva y comunicativa, ofrece nuevos elementos
para ampliar las gramáticas de las categorías y las construcciones con
referencias a contextos impuestos por las propiedades semánticopragmático-informativas de las palabras y construcciones (por ejemplo,
los nombres de masa sin determinante no funcionan como expresiones
referenciales en posición de sujeto en la mayoría de las lenguas, el foco
es el último constituyente que recibe acento de intensidad en las lenguas
romances, etc.). Así las cosas, el buen diseño, la coherencia interna y el
rigor y exhaustividad descriptivos de los tratados gramaticales dependerá
de la capacidad del gramático (sea quien dirige o quien escribe) para
decidir cómo usar esa información teórica y posteórica en beneficio de
la descripción y de la eficaz estructuración de estos tratados
Por último, unas pocas palabras acerca de los datos pues entiendo
que estas son cuestiones muy conocidas y aceptadas por todos. En
poco más de cinco o seis décadas se ha producido un giro copernicano
en la concepción de cuáles son los datos que pueden y deben usar los
gramáticos. Hasta hace poco, las gramáticas más prestigiosas del español
(pensemos en el Esbozo de una Nueva Gramática de la Lengua española de la
RAE, 1973, o en la Gramática Española de Salvador Fernández Ramírez,
1951) basaban sus generalizaciones y sus análisis sobre todo en ejemplos
de la lengua escrita, en particular provenientes de textos literarios.
Con la gramática generativa entran en el mundo del análisis gramatical
dos supuestos metodológicos básicos: a) los ejemplos del gramático
(los que provienen de su intuición, de sus juicios de gramaticalidad),
son tan importantes como los que vienen de otras fuentes, y b) los
ejemplos gramaticales deben contrastarse con los casos gramaticalmente
imposibles (los casos de agramaticalidad) si se quiere definir la gramática
posible de una lengua y establecer una base de comparación con otras. Si
la gramática es una teoría que ha de caracterizar y explicar esa gramática
89
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
interiorizada, no hay veda para tipos de datos, ni sociales, ni de origen
geográfico, ni de tipos de textos, ni de oral frente a escrito (siempre
y cuando los ejemplos orales no tengan interferencias de restricciones
propias de la “actuación lingüística”), ni si proceden de experimentos
ad hoc o se encuentran en otras bases de datos… siempre y cuando
se respeten los principio de homogeneidad y coherencia que han de
exigirse a todo trabajo científico-académico serio. Más aún en un
momento en que la lingüística parece estar experimentando un giro
hacia la validación experimental de sus hipótesis, la utilización de datos
nuevos, la construcción de los análisis prestando mucha atención al rigor
y la solvencia cualitativa y cuantitativa de los juicios de gramaticalidad
y las generalizaciones a que den lugar dirá mucho sobre la validez de
los análisis que se propongan. En este aspecto, como en todos los que
hemos analizado lo largo de estas páginas, las macrogramáticas también
han dado pasos adelante respecto de la tradición.
90
A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E O PAPEL DOS
FATORES LINGUÍSTICOS
Maria Eugenia DUARTE
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)/CNPq/FAPERJ
Maria da Conceição PAIVA
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)/CNPq
RESUMO
Neste artigo, discutimos o papel dos fatores estruturais na variação linguística, procurando,
sobretudo, destacar a possibilidade de depreender princípios mais gerais acerca das restrições
que operam sobre fenômenos fonológicos e sintáticos e a forma como diferentes processos
se interrelacionam. No nível fonético-fonológico, retomamos a importância do contexto
subsequente e da classe gramatical na realização variável do ditongo [ey] e no apagamento
do rótico em coda. No nível sintático-semântico, focalizamos o efeito da manutenção/
mudança da função do antecedente e sua maior ou menor referencialidade nos processo de
implementação do objeto anafórico nulo e de preenchimento do sujeito pronominal. Com base
em resultados obtidos para esses fenômenos em diferentes comunidades de fala do português
brasileiro, apontamos a regularidade no comportamento desses fatores, o que permite inferir
tendências mais gerais de mudança no português brasileiro.
ABSTRACT
This article discusses the role of structural factors in linguistic variation in an attempt
to find more general principles which restrain phonological and syntactic phenomena
and to show how different processes are inter-related. At the phonetic-phonological
level, we emphasize the importance of the following context and the grammatical class
in the variable realization of the diphthong [ey] and in the deletion of the rotic in
syllabic coda. At the syntactic-semantic level, we bring out the effect of same/different
function of an antecedent and the degree of referentiality in processes of change in
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 91-120. 1ª parte 2011
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
direction of null/overt pronouns, using the results for the course of the implementation
of null objects and overt pronominal subjects. Results for such phenomena in several
speech communities show the regular effect of the mentioned factors and allows one to
infer more general tendencies in processes of change affecting Brazilian Portuguese.
PALAVRAS-CHAVE
Fatores estruturais. Fenômenos fonético-fonológicos. Fenômenos sintáticos. Variação
linguística.
KEY-WORDS
Structural factors. Phonetic-phonological phenomena. Syntactic phenomena. Linguistic
variation.
Introdução
Gostaríamos de iniciar este artigo com um trecho retomado de
SCHILLING- ESTES (2002: 203), que nos lembra que “de todos os
subcampos da Sociolinguística, o estudo da variação linguística talvez seja
aquele que enfatiza mais fortemente o lado linguístico da sociolinguística1.
Portanto, afirmar que fenômenos de variação e mudança são motivados
pela estrutura da língua é afirmar o óbvio. Desde o clássico texto de
WEINREICH, LABOV E HERZOG (1968), ficou bem assentado o
princípio de que os fenômenos de variação e mudança observados nas
comunidades de fala são controlados por fatores internos que atuam
de forma sistemática. Retomando LABOV (1994), muitas das questões
colocadas pela Sociolinguística Variacionista envolvem necessariamente
aspectos de âmbito fonético/fonológico, morfológico e sintático, que
fornecem as bases para respostas a algumas das questões centrais
acerca da mudança linguística, especialmente as que se relacionam às
1
“of all the subfields of sociolinguistics, the study of linguistic variation is perhaps the one with
the strongest emphasis on the “linguistic side” of “sociolinguistics” (SCHILLING- ESTES,
2002, p. 203).
92
Maria Eugênica Duarte e Maria da Conceição Paiva
restrições mais gerais ao uso e implementação de variantes linguísticas e
à interrelação entre mudanças aparentemente independentes.
Ao longo de mais de meio século em que se acumularam estudos
empíricos de variações nos diversos níveis da língua, em diferentes
comunidades de fala, a Sociolinguística Variacionista tem buscado
generalizações, ou seja, princípios que, relacionados entre si, permitam
esclarecer os mecanismos subjacentes a processos de variação e mudança
em geral. Em função dos objetivos e da própria natureza empírica da
pesquisa sociolinguística, esse objetivo pode parecer contraditório,
visto que qualquer mudança linguística está encaixada na estrutura
social da comunidade de fala. Retomando os termos de LABOV
(1994:3), “para entender as causas da mudança, é necessário conhecer
em que ponto da estrutura social a mudança se origina, como ela se
espalha para outros grupos sociais e quais os grupos que se mostram
mais resistentes a ela”2. Nesse caso, é procedente a seguinte pergunta:
em que medida é possível generalizar o efeito de fatores internos ou
estruturais, e, consequentemente, depreeender princípios de variação e
mudança, a partir do estudo de comunidades específicas? A resposta a
essa questão decorre, em grande parte, da própria dinâmica do trabalho
sociolinguístico, que permite, através do acúmulo de observações de
diferentes comunidades de fala, proceder a inferências e testar hipóteses.
Os estudos variacionistas levados a efeito no português brasileiro
têm contribuído de forma substancial para a dinâmica brevemente
esquematizada até aqui. Como já colocado em PAIVA e DUARTE (2007),
o desenvolvimento das pesquisas variacionistas no Brasil, contribuiu para:
(a) trazer à luz a configuração variável dessa variedade; (b) depreender
princípios teóricos mais gerais que explicam, em grande parte, a
generalização de diversos fenômenos e (c) apontar a interdependência
entre diversos processos de mudança. Neste artigo, queremos: (a) destacar
a regularidade/sistematicidade no efeito de algumas variáveis estruturais
2
“to understand the causes of change, it is necessary to know where in the social structure the
change originated, how it spread to other social groups and which groups showed most resistance to it” (LABOV, 1994: 3)
93
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
associadas a fenômenos fonológicos e sintáticos; (b) discutir a forma
como o efeito dessas variáveis estruturais pode explicar o encaixamento
de mudanças em curso na variedade brasileira do português (PB, daqui
em diante). Para tanto, retomamos alguns fenômenos de variação
fonética/fonológica e sintáticos largamente estudados no PB.
Dada a multiplicidade de fenômenos já estudados em diversas regiões
e diferentes amostras de fala, somos obrigadas a operar um recorte, que
reflete, em grande parte, interesses particulares das autoras. Assim, no
nível fonético-fonológico, nos concentramos em fatores que se mostram
significativos na realização variável do ditongo decrescente [ey] e no
enfraquecimento e apagamento do rótico em coda silábica. No nível
sintático-semântico, trataremos de fatores que aceleram ou retardam
mudanças relacionadas à expressão ou apagamento de pronomes nas
funções nominativa e acusativa. Considerando resultados obtidos em
diferentes estudos desses fenômenos, procuramos mostrar a forma
pela qual a dinâmica do estudo sociolinguístico permite depreender
tendências mais gerais no efeito de fatores estruturais. Como não é
possível focalizar todos os estudos já realizados sobre esses fenômenos
variáveis, tomamos por base o critério diatópico e selecionamos trabalhos
que representam variedades bastante distintas, quais sejam a variedade
nordestina, a variedade carioca e a variedade do sul do Brasil. Ainda
que discutível, esse recorte tem a vantagem de nos permitir enfatizar
um ponto que nos parece central, isto é, o acúmulo de evidências
independentes de influências diatópicas. Com o intuito de neutralizar
a intervenção de fatores como oral/urbano e assegurar a confiabilidade
da comparação, nos circunscrevemos a estudos baseados em variedades
urbanas, faladas em capitais brasileiras, embora os mesmos fatores se
mostrem atuantes em estudos feitos no interior dos estados e até mesmo
em comunidades rurais isoladas, remanescentes de quilombos.
94
Maria Eugênica Duarte e Maria da Conceição Paiva
1. A regularidade de fatores fonéticos
Em um artigo dedicado a um levantamento de variações fonéticofonológicas no inglês britânico, FOULKES (2006:4) destaca que, do
ponto de vista estritamente linguístico, a compreensão da variação
e mudança fonético-fonológica exige considerar fatores contextuais e
fatores gramaticais. Dentre os fatores contextuais, o autor inclui as restrições
fonotáticas (contexto antecedente e contexto seguinte) e a posição do
segmento na sílaba. Apenas a título de ilustração, podemos lembrar aqui
o processo de palatalização de /t/ e /d/ e a harmonização vocálica. Nos
dois casos, a assimilação de traços fonéticos da vogal seguinte explica
naturalmente a realização de /t/ e /d/ como africada (ver BISOL, 1986,
HORA 1993, ABAURRE e PAGOTO, 2002) e o levantamento da vogal
pretônica (BISOL, 1981; CALLOU, 1986 e PEREIRA, 2004).
No âmbito dos fatores gramaticais, destaca-se a forma como
propriedades de outros níveis da gramática interagem com a variação
fonético-fonológica e controlam a direcionalidade de um processo de
mudança. Tais restrições resultam naturalmente das interrelações entre
os diferentes níveis da língua, mas podem decorrer igualmente de contato
entre sistemas gramaticais distintos. Em função mesmo da polêmica em
torno da mudança fonético-fonológica, mais frequentemente, estudos
nesse nível têm procurado verificar a influência de variáveis como a
frequência de ocorrência dos itens atingidos, a formalidade ou extensão
da palavra assim como da sua classe gramatical (OLIVEIRA, 1995,
1997).
O ponto que nos interessa destacar é a possibilidade de generalizar
tendências de variação e mudança, a partir das convergências dos
resultados aferidos em diferentes estudos para fatores de natureza
fonotática, particularmente o contexto subsequente, e de natureza
gramatical, em especial a estrutura e classe do vocábulo.
95
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
1.1. Restrições ligadas ao contexto subsequente
Consideraremos aqui o efeito do contexto subsequente na realização
dos dois fenômenos fonológicos “eleitos” para discussão nesta
oportunidade:
a.
a realização variável do ditongo decrescente [ey] ou
monotongação de [ey]
cadeira ~ cadera
beijo ~ bejo
marceneiro ~ marcenero
deixo ~ dexo
b.
o apagamento do rótico em coda silábica
trabalhar ~ trabalhá
mulher ~ mulhé
beber ~ bebê
sargento ~ sagento
Diferentemente da realização de [ey], uma variável binária, a
realização do rótico em coda, envolve a concorrência de diversas
variantes, diatopicamente distribuídas (ver. CALLOU et alii, 1996).
Dessa forma, nos restringimos ao apagamento do rótico, um processo
largamente atestado em diferentes regiões brasileiras.
Os dois fenômenos apresentam, no entanto, diversas características
comuns: ao que tudo indica, remontam a estágios muito anteriores da
língua e são de natureza supradialetal no português brasileiro.
Em diferentes estudos variacionistas sobre a realização da semivogal
anterior no ditongo decrescente [ey], destacam-se, como primeiro
condicionamento da variante monotongada as propriedades fonéticas do
segmento seguinte ao ditongo: a semivogal [y] é quase categoricamente
suprimida quando seguida do tepe [r] (cadera, marcenero) e alcança índices
significativamente altos antes das fricativas alveopalatais (dexo, bejo)
(VEADO, 1983; BISOL, 1994; PAIVA, 1996, 2003; CABREIRA, 1996;
MOTA, 1998; ARAUJO, 1999; SILVA, 1997; LOPES, 2002). A título
de ilustração, reproduzimos, no gráfico 1, os valores obtidos em três
estudos sobre comunidades geograficamente distanciadas, tais como:
96
Maria Eugênica Duarte e Maria da Conceição Paiva
João Pessoa (SILVA, 2004), Rio de Janeiro (PAIVA, 1996) e Porto Alegre
(BISOL, 1994).
GRÁFICO 1: Efeito do contexto subsequente na monotongação de
[ey]
O efeito do tepe alveolar e das fricativas palatoaveolares sobre o
incremento da média de monotongação de [ey] é inquestionavelmente
regular: a semivogal anterior é apagada principalmente se precedida do
tepe e de fricativas palatoalveolares. Os demais tipos de consoantes e
vogais tendem a restringir ou mesmo bloquear o processo, como se
pode constatar, por exemplo, em leito. Uma interpretação da tendência
observada para a semivogal que precede fricativas é avançada por
BISOL (1991, 1994) para quem, nesse contexto, tem-se na verdade
falsos ditongos, gerados pelo espraiamento de traços da consoante
subsequente. Diferem dos verdadeiros ditongos em que a semivogal não
pode ser cancelada, como em peito ou meigo.
97
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
A generalidade das restrições contextuais sobre a monotongação de
[ey] é o que conduz, inclusive, alguns autores a uma análise separada
desses dois contextos, como procedem CABREIRA (1996) e PAIVA
(2003). Essa separação, aparentemente apenas metodológica, é reveladora
de aspectos mais amplos sobre a natureza fonológica da monotongação
de [ey], seu estatuto e direcionalidade no português contemporâneo.
No que se refere à direcionalidade da monotongação de [ey], PAIVA
(2003) mostra, através de um estudo da mudança em tempo real de
curta duração, uma retração do cancelamento de [y] frente a palatais, em
oposição a índices quase categóricos de supressão no contexto do tepe.
Em que medida essa inversão de direcionalidade se inscreve em uma
dinâmica que envolve outros fenômenos ligados à semivogal?
Uma explicação plausível é a de que a retração na monotongação
de [ey] no contexto das fricativas alveopalatais esteja relacionada a
outra tendência já atestada no PB, qual seja, a de inserção da semivogal
anterior em contextos como paysta, feysta, amoystra, em que, pelo menos
no dialeto carioca, a ocorrência desses segmentos em coda silábica
constitui evidência adicional para a hipótese de BISOL (1991, 1994),
ou seja, a de que o ditongo é gerado por um espraiamento do traço
vocálico desses segmentos alveopalatais. Essa explicação pode alcançar
igualmente a inserção da semivogal em contexto de outras fricativas,
tanto em posição tônicas, como vimos acima, em posição final (pays, deys)
ou em posições mediais pretônicas (nayscimento, deyscer), se admitirmos
a hipótese de que, as alveolares possuem, em sua forma subjacente, o
traço vocálico responsável pela geração do ditongo decrescente.
Passemos a seguir ao apagamento do rótico em coda. Como mostram
diferentes trabalhos, para esse processo, destaca-se, em primeiro lugar,
a posição do segmento na palavra (CALLOU, 1987; CALLOU et alii,
1996; SKEETE, 1996; OLIVEIRA, 1997; CALLOU et alii, 2001;
MONARETTO, 1997, 2000, 2002; GREGIS, 2002; PIMENTEL,
2003; HORA, PEREIRA e MONARETTO, 2003; CARVALHO, 2008;
BRESCANCINI e MONARETTO, 2009; HORA e WETZELS, 2010 e
98
Maria Eugênica Duarte e Maria da Conceição Paiva
SILVEIRA, 2010). Em relação à variável posição, o apagamento de /R/
é expressivamente mais recorrente em posição final do que na posição
medial da palavra, como mostram alguns resultados esquematizados no
gráfico 2:
GRÁFICO 2: Efeito da posição no apagamento do rótico em coda
silábica
100%
91%
80%
68%
60%
40%
20%
37%
9%
3%
2%
0%
Callou et al. (1996)
Hora e Monaretto
(2009)
posição final
Silveira (2004)
posição medial
Como se pode esperar, as restrições fonotáticas que operam sobre
a supressão do rótico em coda envolvem a posição desse segmento.
Considerando, por exemplo, a posição medial, SKEETE (1996), HORA
e MONARETTO (2003), HORA (1993), HORA e WEETZELS (2010)
destacam a importância do traço [+ - continuo] na realização/não
realização do rótico, que é cancelado muito mais frequentemente em
contexto de segmento [+ continuo] (força~foça, garfo~gafo, marcha~macha)
do que em contexto de segmento [- continuo] (parta, forca, arma), como
mostram os resultados de SKEETE (1996) e HORA e WETZELS
(2010), esquematizados na tabela 1:
99
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
TABELA 1: Efeito de contexto subsequente no cancelamento de
/R/ em posição medial (SKEETE, 1996; HORA e
WETZELS, 2010)
Contexto fonológico seguinte
Frequência
PR
[- continuo]
821/8289 = 10%
0,02
[+ continuo]
1353/1570 = 86%
0,90
1.2. A regularidade de fatores gramaticais
Consideremos neste ponto a importância de fatores gramaticais, nos
dois fenômenos fonológicos focalizados. No que se refere à realização
do ditongo decrescente, a natureza morfológica da semivogal, ou seja,
sua ocorrência no radical ou no sufixo, ganha interesse particular, visto
que a monotongação de [ey] no contexto de tepe envolve, em grande
parte, o sufixo derivacional <eiro>, o que permite levantar questões
relativas ao enviesamento da análise multivariacional.
Comparando trabalhos baseados em amostras de fala de três regiões
distintas, João Pessoa (SILVA, 2004; Rio de Janeiro (PAIVA, 1996) e
as três capitais do sul do Brasil (CABREIRA, 1996), observa-se que a
restrição gramatical sobre a supressão/realização de [y] possui um efeito
menos regular, como mostram os resultados do gráfico 3:
100
Maria Eugênica Duarte e Maria da Conceição Paiva
GRÁFICO 3: Efeito morfológico na monotongação de [ey] (em pesos
relativos)
0,80%
0,70%
0,60%
0,50%
0,40%
0,30%
0,20%
0,10%
0,00%
0,74%
0,70%
0,61%
0,38%
0,33%
Cabreira (1996)
0,28%
Paiva (1996)
radical
Silva (2004)
sufixo
No gráfico 3, salienta-se, por um lado, o paralelismo da tendência
atestada em João Pessoa e nas três capitais do sul do Brasil, com maior
supressão de [y] no radical (cadeira, beijo), em oposição ao Rio de Janeiro,
onde é atestada maior recorrência do processo no sufixo –eiro (verdureiro,
marceneiro). Evidentemente, é difícil afirmar, sem uma análise mais
cuidadosa, se essa divergência reflete a influência de particularidades
regionais ou a forma de análise dos dados, ligeiramente diferente nos
três trabalhos. Algumas evidências levam a crer, no entanto, que a
tendência depreendida por CABREIRA e por SILVA seja empiricamente
sustentável. CABREIRA (Op. Cit.) analisa separadamente os casos de
monotongação em contexto de palatais e de tepe e atesta a relevância
significativa da natureza morfológica de [y] na monotongação antes do
tepe alveolar (1o. grupo selecionado) e antes das fricativas palatoalveolares.
Evidências adicionais são fornecidas por outros trabalhos como o de
LOPES (2002), que verifica igualmente maior monotongação de [ey]
nos radicais do que nos sufixos.
101
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
No que diz respeito ao rótico em coda, evidentemente, a restrição
estrutural mostrada no gráfico 2 não é inteiramente independente da
classe gramatical da palavra, já que esse segmento se investe de valor
morfológico, como desinência do infinitivo. Como é de esperar, a classe
gramatical se destaca como restrição significativa na totalidade dos
trabalhos que consideram separadamente as posições interna e final. A
regularidade/sistematicidade desse fator gramatical pode ser observada
no gráfico 4, em que esquematizamos os resultados aferidos para a
década de 90 nos trabalhos de CALLOU et alii (1996), para o Rio de
Janeiro, e MONARETTO (2002), para Porto Alegre.
GRÁFICO 4: Efeito da classe gramatical no apagamento do rótico em
coda silábica (em pesos relativos)
0,90%
0,80%
0,82%
0,70%
0,60%
0,50%
0,40%
0,30%
0,33%
0,09%
0,20%
0,14%
0,10%
0,00%
Collou et al. (1996)
Monaretto (2002)
verbos
não verbos
A direcionalidade no efeito do fator classe gramatical é nítida: verbos
incrementam significativamente a média de apagamento do rótico, os
demais tipos de item lexical restringem o processo. Inquestionavelmente,
a tendência acima reflete, em grande parte, o comportamento particular
dos infinitivos, contexto de maior recorrência do apagamento.
102
Maria Eugênica Duarte e Maria da Conceição Paiva
Que inferências são possíveis a partir das regularidades destacadas
até aqui. Em princípio, o apagamento do segmento rótico poderia ser
interpretado sob a ótica de um princípio funcional mais amplo, segundo
o qual, a necessidade de preservação do significado opera no sentido
de restringir uma mudança fonológica. Os resultados esquematizados
acima contradizem, no entanto, essa expectativa. Eles colocam um fato
empírico incontestável e induzem a uma outra reflexão acerca dos limites
impostos por exigências funcionais à sistematicidade/regularidade da
variação e à implementação das mudanças. Nesse sentido, podemos
dizer que, se a análise de fatores estruturais é previamente direcionada
por uma forma de concepção do sistema linguístico, ela contribui para a
reformulação de princípios teóricos.
2. A regularidade de fatores sintático-semânticos
No nível sintático, um dos fatores que tem se destacado em caso de
apagamento ou de realização fonética de pronomes é a manutenção ou a
mudança da função sintática do antecedente, cujo efeito é destacado
no trabalho pioneiro de OMENA (1979) para a implementação do
objeto nulo no PB: um antecedente com idêntica função (objeto direto),
como ilustrado em (1), favorece amplamente o objeto nulo, tendência
confirmada por DUARTE (1989) para São Paulo, LUÍZE (1997) para
Florianópolis, MARAFONI (2004) para o Rio de Janeiro, HORA e
BALTOR (2007) para João Pessoa, entre muitos outros:
(1)
O Sinhozinho Malta está tentando convencer o Zé das
Medalhas a matar [o Roque]i. Mas ele é muito medroso.
Quem já tentou matar [Ø]i foi [o empregado da Porcina]k.
Ontem elej quis matar [Ø]i. A empregada é que salvou
[Ø]i. Elej estava prontinho pra dar o tiro, quando a Mina
chegou lá, passou um pito nele e convenceu [Ø]k que ele
não devia matar [Ø]i. (Duarte, 1989)
103
Las Macrogrmáticas Colectivas Lengua-i y Lengua-e: Datos, Técnicas y Teorias Implícitas
Tendência similar pode ser constatada para o sujeito pronominal:
um antecedente com a mesma função ainda é o contexto que permite
a identificação de um sujeito nulo, ou seja, possibilita o apagamento
num sistema que tende ao preenchimento, como destacado em análises
funcionalistas (PAREDES SILVA 1988, entre outros) ou em análises que
focalizam o parâmetro do sujeito nulo ((DUARTE 1995, BARBOSA,
DUARTE & KATO 2005, entre outros). Todas as análises sobre o
português falado no Brasil revelam que, embora em termos percentuais
todos os contextos sintáticos revelem altas taxas de sujeitos pronominais
preenchidos, estruturas em que um antecedente aparece na função de
sujeito na oração principal (exemplo 2a) ou na oração imediatamente
adjacente (exemplo 2b) constituem um contexto de favorecimento do
sujeito nulo. Tal tendência é posta em relevo nas análises de pesos relativo
e reforça a importância da manutenção da função do referente (línguas
de sujeito nulo prototípicas, como o espanhol, o italiano e mesmo o
português europeu preferem o sujeito nulo independentemente de um
antecedente com igual função):
(2)
a.
b.
[Ele]i tremeu quando [Ø]i foi tirar foto lá do cara. (Duarte,
1995)
Agora [as minhas filhas]i são mais preguiçosas. [Ø]i
Gostam muito de uma piscinazinha ou então malhar numa
academia. (Duarte, 1995)
Um fator de natureza semântica, a animacidade do antecedente,
é outra restrição cuja importância tem sido frequentemente apontada.
A já referida análise de OMENA aponta 95% de objetos nulos quando
o traço do antecedente é [-animado]. A regularidade dessa correlação é
evidenciada em todas as pesquisas realizadas sobre esse fenômeno nas
mais variadas regiões do Brasil3
3
Este é um fenômeno amplamente investigado no PB contemporâneo. Além dos já considerados acima, citem-se os trabalhos de Corrêa (1991), sobre a fala paulista; Pará (1997), sobre a
104
Violeta Demonte
Por outro lado, o traço [+animado] favorece o preenchimento do
sujeito, como mostram igualmente os diversos trabalhos empíricos
realizados por todo o país4. A importância do fator animacidade nos
processos de mudança em curso mencionados pode ser apreciada de
maneira mais efetiva, quando associado à especificidade do referente.
É o que propõe a hierarquia referencial apresentada em CYRINO,
DUARTE e KATO (2000), com o objetivo de buscar uma explicação
mais integrada para os sujeitos visíveis e objetos invisíveis no PB:
Hierarquia referencial
[não-argumento] [proposição]
[-humano] [+humano]
3 p.
2 p. 1 p.
[-espec./+espec.]
[-ref] < --------------------------------------------------------- > [+ref.]
(Cyrino, Duarte e Kato, 2000:59)
Essa hierarquia, construída sobre bases empíricas, resultou de duas
análises diacrônicas de peças teatrais brasileiras: a de Duarte (1993)
sobre a implementação do sujeito expresso e a de Cyrino (1994, 1997)
sobre a emergência e implementação do objeto nulo. A partir desses
resultados, Cyrino, Duarte e KATO observaram que os dois processos
de mudança seguiam caminhos opostos, obedecendo a uma mesma
hierarquia referencial.
fala de pescadores do norte fluminense; Malvar (1992), sobre a fala de Brasília; Averbug (1998),
Freire (2000) sobre diferentes amostras da fala carioca; Vieira (2004) sobre falares rurais afrobaianos; Neiva (2007) sobre a fala culta de Salvador. Nas análises com falantes não escolarizados,
o clítico se encontra absolutamente ausente. Sobre o português europeu, ver Freire (2005) e
Marafoni (2010).
4
A realização do sujeito pronominal é outro fenômeno largamente investigado no Brasil. Os
resultados encontrados para a fala culta carioca em Duarte (1995) não se distanciam dos apontados por Alencar (1998) sobre a fala de São Paulo e Porto Alegre; Cavalcante (2001) sobre a
fala de Alagoas; Laperuta (2003) sobre a fala de Londrina (PR); Paredes Silva (2003) e Duarte
(2003), sobre a fala popular carioca; Ferreira (2003) e Carvalho (2005), ambos sobre a fala do
Centro-Oeste, a primeira focalizando a fala rural da comunidade Kalunga e a segunda, a fala
da Baixada Cuiabana; Almeida (2005), com base em amostras da fala de três comunidades do
interior da Bahia.
105
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
A mudança em direção ao objeto nulo, como nos mostra a análise
de Cyrino (1994, 1997), se implementa da esquerda, ou seja, a partir
dos itens menos referenciais, afetando os objetos cujo antecedente é
uma proposição (uma oração ou uma porção maior do discurso). Tais
objetos podem ser retomados por um clítico neutro (o), um pronome
demonstrativo ou podem ser nulos, como mostra o exemplo (3a). Cyrino
(Op Cit.) mostra ainda a interação entre o traço de animacidade e o de
especificidade: o objeto nulo, atinge, a seguir, os antecedentes com o
traço [-h/-espec] (exemplo 3b), depois aqueles com o traço [-h/+espec]
(exemplo 3c) e encontra maior resistência quando o antecedente é [+h],
embora os dados de fala espontânea já revelem ampla ocorrência de
objeto nulo com esse traço (veja-se o exemplo em (1) acima, em que
os antecedentes são todos humanos em competição com o pronome
nominativo no exemplo (3d):
(3)
a. - Também [satirizaras]i, se souberas [Ø]i
([Ø] = satirizar) (Séc. 17, Gregório de Matos)5 (se o
souberas)
b. Uma agência me indicou [um sobrado]i na Praia Fermosa,
mas o dono não quis alugá [Ø]i (1891)
c. – Ela está lá dentro preparando [a jacuba]i
– Diga-lhe que traga [Ø]i, pois estou com muito calor.
(1837)
d. – E tu aceitou ele de volta? (1992)
No gráfico de Cyrino, publicado em Kato et al. (2006), pode-se
observar essa trajetória de implementação ao longo de três séculos,
com base na análise de peças de teatro: o preenchimento do objeto
proposicional por um clítico neutro já se encontrava em variação
com o objeto nulo na primeira metade do século XVIII, com 54% de
ocorrências, chegando à segunda metade do século XX com 92% nas
5
Nos exemplos de peças teatrais aparece entre parênteses o ano em que a peça foi escrita.
106
Maria Eugênica Duarte e Maria da Conceição Paiva
peças analisadas. Os objetos nulos com o traço [-animado], inicialmente
com tímidos 18%, crescem a partir do século XIX e chegam a 94%, na
segunda metade do séc. 20. Os objetos com antecedente [+h] resistem
ao preenchimento, exibindo índices que vão de 0% a 25%.
GRÁFICO 5: Efeito da hierarquia referencial na implementação do
objeto nulo
120%
0,82%
100%
54%
72%
46%
53%
40%
0,33%
32%
25%
18%
20%
9%
0%
7%
2%
0%
XVIII/1
XVIII/2
[+h]
94%
92%
76%
80%
60%
96%
94%
12%
0%
XIX/1
[-h]
XIX/2
XX/1
XX/2
[proposicional]
Em relação ao sujeito pronominal, a análise de Duarte (1993),
retomada em Cyrino, Duarte e Kato (2000) e aqui expandida, também com
base numa amostra de peças de teatro escritas por autores, que nasceram
e produziram sua obra no Rio de Janeiro, permite observar a atuação
da hierarquia referencial no preenchimento do sujeito. Os exemplos a
seguir ilustram sujeitos nulos e expressos, de primeira e segunda pessoa
(4a-d), de terceira (5a,b), de referência arbitrária (6a-e) e, finalmente, os
sujeitos proposicionais ou de “referência estendida”(7a,b), denominação
utilizada por PAREDES SILVA (1985), como tradução para “extended
reference subjects”, proposto por HALLIDAY e HASAN (1979):
107
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
(4)
a.
b.
c.
Quando [Øi] te vi pela primeira vez, [Ø]i não sabia que
[Ø]j eras viúva e rica. (1845)
Se eu ficasse aqui eu ia querer ser a madrinha. (1992)
Você não entende meu coração porque você ‘tá sempre
olhando pro céu e procurando chuva. (1992)
(5)
a.
b.
[Tua filha]i lamentar-se-á, [Ø]i chorará desesperada,
não importa (...) Depois que [Ø]i estiver no convento
e acalmar-se esse primeiro fogo, [Ø]i abençoará o teu
nome e, junto ao altar, no êxtase de sua tranquilidade e
verdadeira felicidade, [Ø]i rogará a Deus por ti. (1845)
Agora ele não vai mais poder dizer as coisas que ele queria
dizer. (1992)
(6)
a.
b.
c.
d.
e.
[Øarb]i Fez-sei a duplicata, foi aprovada pelo poder
competente, votou o Domingos, o seu compadre votou
cinco vezes. (1882)
No fundo, a fortuna é para quem sabe adquiri-la. [Øarb]
Pintam-na cega... Que simplicidade... (1845)
Ora, mamãe, é muito dinheiro Ainda mais com a situação
de reviravolta no País, você nunca vai receber esse
dinheiro É dinheiro demais! Eles não pagam! (1955)
Pois é, o choque das individualidades vai lhe levando a
fazer uma concessão atrás de outra vocêi vai se desfibrando
e depois de algum tempo já [Ø]i segue embalada pelo
hábito. (1975)
A senhora não devia ter falado com ela assim, Dona Irene
A gentei fica muito sensível quando [Ø]i está de barriga.
(1992)
108
Maria Eugênica Duarte e Maria da Conceição Paiva
(7)
a.
b.
Holly: [Eu serei Verônica!]i
Dona Irene: Issoi é um sacrilégio. Faça o favor de tirar
essa roupa. (1992)
(isso = o fato de Holly(um travesti) representar Verônica na
Paixão de Cristo)
Júlia: [Você esperou-o vestida de quê?
Cristina: De coelhinho da Playboy]i
Júlia: Não sei se [Ø]i foi uma boa idéia. (1975)
(Ø = esperar o marido vestida de coelhinho da playboy)
O Gráfico 6, a seguir, mostra como se dá a implementação do sujeito
expresso ao longo da hierarquia proposta6:
GRÁFICO 6: Efeito da hierarquia referencial na implementação do
sujeito pleno
90%
80%
70%
60%
50%
40%
0,82%
30%
20%
0,33%
10%
0%
1845
1a. pess.
1882
1918
2a. pess.
1937
3a. pess.
6
1955
1975
[arb.]
1992
[prop.]
O eixo horizontal exibe o ano em que a peça foi escrita: 1845 (Martins Pena); 1882 (França Junior) ; 1918 (Gastão Tojeiro); 1937 (Armando Gonzaga); 1955 (Millôr Fernandes); 1975 (Carlos
Eduardo Novaes) ; 1992 (Miguel Falabella).
109
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
Como se pode observar, a expansão do sujeito preenchido se faz mais
rapidamente pelos itens mais referenciais, ou seja, aqueles com o traço
inerentemente [+humano], localizados na extrema direita do continuum.
O sujeito de segunda pessoa (tu ou você), que exibe índice inferior a 10%
de expressão no primeiro período analisado, atinge 78% no último; o
de primeira pessoa parte de 30% para atingir 82% na peça de 1992. A
seguir, vemos a linha de terceira pessoa, aqui considerando apenas os
sujeitos de referência [+humana], que mostra uma trajetória mais lenta
embora ascendente: parte de 20% e chega a 47% 7.
A linha que representa os sujeitos de referência arbitrária parte de
3%, mas cresce de forma mais consistente, atingindo 55% e superando
a 3ª. pessoa (ver Vargas, 2010). Essa inversão se explica pela entrada
dos pronomes a gente e você, tomados da primeira e segunda pessoas, a
partir da segunda metade do século 20. Acrescente-se que tais sujeitos
têm igualmente o traço inerentemente [+humano]. Finalmente, os
sujeitos proposicionais, tal como mostra Cyrino para os objetos nulos
proposicionais, mostram, pelo menos no período analisado, uma variação
estável entre o uso do demonstrativo isso e um sujeito nulo (observamos
50% no primeiro texto e 46% no último).
Embora CYRINO, DUARTE e KATO (2000) e KATO et alii (2006)
não cheguem a relacionar as causas dos dois fenômenos – o avanço
do objeto nulo e do sujeito pronominal expresso – foi possível chegar
a importantes generalizações sobre o curso da mudança, ressaltando
a relevância de traços semânticos em processos envolvendo a
pronominalização. Mais recentemente tem sido possível investigar esses
fatos à luz da orientação parcial para o discurso, retomando os estudos
clássicos de Pontes (1987) e a noção de microparâmetros de variação
Baker (2008). Essas investigações permitem explicar a competição entre
sujeitos nulos não referenciais, no extremo esquerdo do contínuo, com
o preenchimento dessa posição através do alçamento de constituintes
7
Os dados de sujeitos com o traço [-animado] são raríssimos nas peças analisadas; pesquisa em
andamento amplia o número de peças da amostra e fornecerá evidências para o percurso do
processo refinando a atuação do traço [+/-animado], [+/-específico].
110
Maria Eugênica Duarte e Maria da Conceição Paiva
lexicais ou da inserção do demonstrativo (isso) ou do quase-expletivo
(você) (ver DUARTE 2007; 2010; BERLINCK, DUARTE e OLIVEIRA
2007; DUARTE e KATO, 2008.)
Conclusões
Pelo que foi discutido ao longo deste artigo, pode-se concluir que
o efeito de variáveis estruturais é replicável, ou seja, as tendências
observadas a partir do estudo de uma comunidade de fala se reproduzem
em outra, sinalizando, a ação de princípios mais gerais sobre a variação
e a mudança, a questão mais a importante, a nosso ver. Além disso,
fornecem evidências acerca da forma como se interrelacionam diferentes
processos de mudança em curso na língua. Portanto, podemos nos
perguntar: em que medida as generalizações destacadas acima contribuem
para a compreensão, por um lado, dos fenômenos de variação e, por
outro, da forma de funcionamento da língua? Obviamente, a resposta
a essa questão envolve uma relação dinâmica entre postura teórica e
análise empírica. Entretanto, seja qual for a postura teórica, o que parece
evidente é que, no que diz respeito a fenômenos variáveis no PB, o
segmento subsequente e a classe gramatical são tão importantes para
a variação e mudança fonético-fonológica quanto a função sintática e
fatores semânticos são para a variação e mudança sintática
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Maria Marta Pereira SCHERRE
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)/Universidade de Brasília
(UnB)/CNPq1
Lilian Coutinho YACOVENCO
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
RESUMO
Neste texto, retomamos discussões labovianas sobre o paradoxo do gênero em fenômenos de
variação e mudança linguística. Tomamos como base principal pesquisas sobre a alternância
entre tu/você nas regiões Sul, Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Ao final,
propomos que o efeito do gênero é orientado pelo princípio marcação.
ABSTRACT
In this paper, we review some labovian discussions about the gender paradox on linguistic
variation and change phenomena. We take as main basis some research of the variation
between tu/você in the Southern, Northern, Northeast, Southeast and Midwest of Brazil.
Finally, we propose that the gender effect is oriented by markedness principle.
PALAVRAS-CHAVE
Mudança com consciência social. Mudança sem consciência social. Princípio da Marcação.
Paradoxo do Gênero. Pronomes de 2ª pessoa. Variação e Mudança.
1
A primeira autora deste texto é pesquisadora IB do CNPq, de quem recebe bolsa de Produtividade em Pesquisa (PQ).
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 121-146. 1ª parte 2011
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
KEY-WORDS
Address pronouns. Change from above. Change from below. Gender Paradox. Markedness
Principle Variation and Change.
Considerações iniciais
A variação e a mudança linguística há muito são objeto de
pesquisadores em vários países, mas é na década de 1960 que surge um
modelo sociolinguístico forte, cuja compreensão é a de que a variação
e a mudança linguísticas são inerentes ao próprio sistema, podendo ser
controladas por restrições de caráter interno (estrutural) ou externo
(social, contextual, discursivo etc.). Weinreich, Labov e Herzog (2006
[1968]), em conhecido texto sobre o tema, propõem que, ao lado dos
aspectos internos, os fatores externos são de suma importância na
compreensão dos fenômenos variáveis e postulam que alguns deles
podem ser os responsáveis pela variação e pela mudança linguística.
Assim, a classe social, o sexo do falante e a sua faixa etária, por exemplo,
são variáveis recorrentes na análise e interpretação dos fenômenos
linguísticos variáveis. Papel importante tem sido atribuído também ao
efeito da variável estilística, em especial na sua inter-relação com o sexo
do falante (Labov, 2008 [1972]), discutido e rediscutido em termos do
gênero, em uma perspectiva social e cultural (Labov, 1990 e 2001).
Labov (1990; 2001) dá continuidade à efervescente discussão sobre
o papel do gênero em fenômenos linguísticos variáveis e assume uma
codificação necessária em função do sexo do falante, abordagem biológica,
para permitir comparabilidade entre as pesquisas, e interpretação em
função do gênero, abordagem sócio-cultural. Observa que o efeito do
gênero apresenta diferenças instigantes, conforme o tipo de mudança
(Labov, 2001: 262; 366), ao lado do comportamento conservador na
variação estável: em mudanças com consciência social (changes from above),
as mulheres usam mais as variantes de prestígio do que os homens.
Entretanto, em mudanças sem consciência social (changes from below), são
122
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
também as mulheres que mais usam as formas inovadoras. Considera
ser difícil conciliar este duplo comportamento e reconhece o Paradoxo
do Gênero assim formulado inicialmente: “as mulheres se conformam
mais fortemente do que os homens às normas sociolinguísticas que são
explicitamente prescritas, mas se conformam menos do que os homens
quando as normas não são explicitamente prescritas” (Labov, 2001: 293).
Labov (2001: 366) pondera que, mesmo assim, “permanece
o problema de saber por que razão as mesmas pessoas são às vezes
mais “conservadoras” e às vezes mais “progressistas”. Afirma também
que o problema fica ainda mais evidente se forem usados os termos
“conformista” (conforming) ou “não conformista” (nonconforming):
“em variáveis sociolinguísticas estáveis, as mulheres
mostram taxas mais baixas de variantes estigmatizadas
e taxas mais altas de prestígio do que os homens”,
apresentando
comportamento
conservador
e
conformista, ou seja, em conformidade com as normas
explicitamente estabelecidas (Labov, 2001: 266; 367)
“em mudanças from above [com consciência social e
externas à variedade em uso], as mulheres adotam formas
de prestígio com taxas mais altas do que os homens”,
apresentando comportamento inovador, mas que está
também em conformidade com as normas explicitamente
estabelecidas.” (Labov, 2001: 274; 366-367)
“em mudanças from below [sem consciência social e internas
à variedade em uso], as mulheres usam frequências
mais altas de formas inovadoras do que os homens”,
apresentando assim comportamento inovador, mas em
dissonância (nonconforming) com as normas explícitas
estabelecidas. (Labov, 2001: 292; 366-367).
123
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
Assim, o autor observa que, com uma mudança no Paradoxo
do Gênero, a terminologia associada ao maior uso de variantes de
prestígio (comportamento conservador) ou ao incremento de variantes
inovadoras (comportamento progressivo) parece melhor definida como
um comportamento conformista ou não conformista. Dessa forma, em
função da perspectiva do conformismo ou não conformismo, Labov
(2001: 367) considera que “o Paradoxo do Gênero poderia ser reformulado
como o Paradoxo da Conformidade, melhor estabelecido em termos do
contrário da conformidade, o desvio (deviation): mulheres desviam das
normas prescritas menos do que os homens, porém desviam mais do
que os homens quando os desvios não são prescritos.” Mudando de
forma sutil a forma de olhar, o autor afirma que o principal problema
a ser explicado passa a ser “por que mulheres com a mesma idade e da
mesma classe social aderem às normas prescritivas em um caso e se
desviam delas em outro” e busca respostas para este comportamento na
identificação dos líderes da mudança linguística, mas da mudança sem
consciência social (change from below), a mudança, segundo Labov (1994:
78-79; 2001: 279), interna, natural, sistemática, que desafia o nosso
trabalho científico.
Neste artigo, vamos polemizar um pouco mais as reflexões sobre
o papel do gênero nos fenômenos linguísticos, tendo em vista que
identificamos o duplo comportamento do gênero em um só fenômeno
variável no português brasileiro, a saber, nos pronomes de segunda pessoa
e, adicionalmente, vamos incrementar nossa argumentação com base em
dois outros fenômenos, o imperativo gramatical e a concordância verbal.
1. Sobre os pronomes de segunda pessoa no português
brasileiro
As formas de 2ª pessoa no português brasileiro apresentam-se de
maneira bastante diversa em várias regiões do Brasil e pelo menos seis
subsistemas podem ser identificados, tendo em vista as combinações
124
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
entre as variantes você, cê, ocê, tu e a concordância variável com o pronome
tu, cujo detalhamento pode ser encontrado em Scherre et alii (2009) e
Scherre (2010), mas foge aos objetivos do presente texto. Trazemos para
foco apenas as pesquisas que se ocuparam da análise do pronome TU
em alternância com VOCÊ. Quando sem concordância, o pronome
TU é predominantemente explícito e o pronome VOCÊ é o amálgama
das formas você e cê, predominantemente, com poucas ocorrências de
ocê, pelo que pudemos inferir do garimpo que realizamos. Além disso,
neste momento, consideramos basicamente as pesquisas que focalizam a
variável gênero do falante, com resultados estatisticamente significativos.
São elas: Loregian-Penkal (2004) e Ramos (1989) para a região Sul;
Oliveira (2005; 2007) para a região Nordeste; Martins (2010) para a região
Norte; Paredes Silva (2004) e Lopes et alii (2009) para a região Sudeste;
Lucca (2005), Dias (2007) e Andrade (2010) para a região Centro-Oeste.
Do garimpo empreendido nos textos das pesquisas acima, pudemos
observar o efeito do gênero de forma bastante clara na alternância entre
os pronomes TU e VOCÊ, em que se destaca o duplo papel das mulheres:
ora as mulheres usam mais o pronome TU do que os homens; ora as
mulheres usam menos o pronome TU do que os homens. Cabe, então,
aqui uma pergunta à luz das inquietações labovianas, agora exacerbadas:
por que as mulheres apresentam comportamento diversificado, com
relação a um mesmo fenômeno variável? É esta a pergunta que vamos
buscar responder.
1.1. Na região Sul
Pelas pesquisas de Loregian-Penkal (2004: 14-16; 81; 136-138; 167)
e de Ramos (1989: 26-35; 49-55; 64-67) para a região Sul, as mulheres
tendem a usar mais o pronome TU do que os homens. Vejamos a síntese
destas duas pesquisas na Tabela 1 com relação ao uso percentual de
TU vs. VOCÊ e da concordância com o TU em função do gênero, por
estado e cidades estudados.
125
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Linguísticos.
TABELA 1 - Percentual de TU alternando com VOCÊ e
concordância com o pronome TU em dois estados da
região Sul: Rio Grande do Sul (RS) – quatro cidades
- e Santa Catarina (SC) – cinco cidades: pesquisas
de Loregian-Penkal (2004) e Ramos (1989), com
adaptações.
PESQUISA DE LOREGIAN-PENKAL (2004: 136-138; 167-168): REGIÃO
SUL – Rio Grande do Sul e Santa Catarina
ConcorTodos
Mulheres
Homens
dância
(média)
com tu
Rio Grande do Sul / Corpus VARSUL / (entrevistas sociolinguísticas)
Porto Alegre 99%
80%
91%
Flores da Cunha
96%
68%
86%
Panambi
90%
79%
85%
São Borja
99%
89%
95%
Santa Catarina /Corpus VARSUL / (entrevistas sociolinguísticas)
Florianópolis
91%
59%
77%
43%
Chapecó
59%
41%
50%
0,8%
Blumenau
53%
14%
27%
38%
Lages
23%
10%
16%
14%
Santa Catarina / Corpus Brescancini / (entrevistas sociolinguísticas)
Ribeirão da Ilha (SC)
97%
96%
97%
60%
7%
2%
3%
5%
PESQUISA DE RAMOS (1989: 49; 67: REGIÃO SUL
Florianópolis
(fala motivada por
gravuras)
Mulheres
(acima
da
média)
Homens
(abaixo
da média)
Todos
(média)
Concordância
com tu
48%
33%
41%
70%
Pelos percentuais apresentados na Tabela 1, em dois estados da
região Sul, a saber, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, as mulheres
126
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
favorecem mais o uso do TU do que os homens de forma regular,
independentemente do maior ou menor percentual médio de uso de
TU e do maior ou menor índice de concordância com o pronome TU.
Exceto em Ribeirão da Ilha, em Santa Catarina, em que há 97% de uso
do pronome TU, todas as apresentam sistematicamente aumento de TU
em relação à média de uso de TU alternando com VOCÊ.
1.2. Nas regiões Nordeste e Norte
Pelas pesquisas de Oliveira (2005; 2007) para a região Nordeste, no
interior do estado da Bahia, e Martins (2010) para a região Norte, no
interior do estado da Amazônia, as mulheres tendem também a usar
mais o pronome TU do que os homens de forma igualmente regular.
Vejamos a síntese destas duas pesquisas na Tabela 2 com relação ao uso
percentual de TU vs. VOCÊ e da concordância com o TU em função do
gênero por região e localidades ou cidades.
TABELA 2:
Percentual de TU alternando com VOCÊ e
concordância com o pronome TU em um estado da
região Nordeste: Bahia (BA) – seis localidades (Oliveira,
2007, 2007) e um estado da região Norte (AM):
Amazônia – cidade de Tefé (Martins, 2010).
PESQUISA DE OLIVEIRA (2005, 2007: 12) – NORDESTE: Bahia
ConcorTodos
Mulheres Homens
dância com
(média)
tu
Corpus do projeto Vertentes
Localidades: Sapé,
Cinzento, Helvécia e Rio
de Contas (entrevistas
sociolinguísticas)
Localidades: Santo Antônio
e Poções (entrevistas
sociolinguísticas)
19%
7%
12%
0%
14%
11%
12%
0%
127
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
continuação tabela 2
PESQUISA DE MARTINS (2010: 71) – NORTE: Amazônia.
Corpus Martins 2009
Tefé (entrevistas
sociolinguísticas e gravações
ocultas consentidas)
71%
59%
65%
4%
Vejamos, novamente, que os percentuais médios de TU vs. VOCÊ
na região Nordeste são bem menores do que os percentuais da região
Norte, mas as relações referentes ao gênero dos falantes são as mesmas,
com as mulheres favorecendo mais o uso de TU. A pesquisa de Oliveira
(2005) evidencia que há diferença de frequência de TU por localidade:
nas comunidades Sapé (22% de tu); Cinzento (19%); Helvécia (7%) e
Rio de Contas (1%); nas comunidades Santo Antônio (20% de tu) e
Poções (9%), mas não apresenta as diferenças em função do gênero por
comunidade. Relembramos, também, que a variável gênero nas pesquisas
relatadas é estatisticamente significativa.
1.3. Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste
As pesquisas de Paredes Silva (2004) e de Lopes et alii (2009), para
o Rio de Janeiro, na região Sudeste, e as de Lucca (2005), Dias (2007)
e Andrade (2010) para o Distrito Federal, na região Centro-Oeste, por
sua vez, revelam comportamento contrário, ou seja, as mulheres tendem
a usar sistematicamente menos o pronome TU do que os homens. Os
percentuais de uso do TU em alternância com o pronome VOCÊ podem
ser vistos na Tabela 3.
Consideramos impressionante como esta sistematicidade se dá,
mesmo quando há baixo percentual de TU, da ordem de 6%, nos corpora
PEUL 1980 e PEUL 2000, constituídos de entrevistas sociolinguísticas
nos moldes labovianos, feitas pelo Programa de Estudos sobre o Uso
da Língua (PEUL) nas décadas de 80 e de 00, com um intervalo de 20
128
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
anos. O TU só se revela nos corpora do Rio de Janeiro especialmente
constituídos para capturá-lo, no sentido metafórico do termo. Trata-se do
corpus Paredes 1996, com 68% médio de uso de TU e do corpus Lopes
2009, com 35%. Também nestes dois corpora são as mulheres que usam
menos TU. Os detalhes destas duas pesquisas, todos muito interessantes,
podem ser vistos em Paredes Silva (2004) e em Lopes et alii (2009).
TABELA 3:
Percentual de TU alternando com VOCÊ e
concordância com o pronome TU na cidade do Rio de
Janeiro (RJ) - região Sudeste (Paredes Silva, Lopes et
alii, 2009) e no Distrito Federal - região Centro-Oeste,
em cinco regiões administrativas – RAs (Lucca, 2005);
Dias (2007); Andrade (2010).
PESQUISAS DE PAREDES SILVA (2004: 165-166) e
LOPES et alii (2009: 21-22): SUDESTE – Rio de Janeiro.
Mulheres
Homens
Todos
(média)
Concordância
com tu
Corpus PEUL 1980
(entrevistas
sociolinguísticas)
Paredes Silva (2004)
1%
11%
6%
0%
Corpus PEUL 2000
(entrevistas
sociolinguísticas)
Paredes Silva (2004)
2%
13%
7%
0%
Corpus Paredes 1996
(gravações ocultas
consentidas)
Paredes Silva (2004)
59%
69%
68%
0%
Corpus Lopes 2009 Lopes
et alii (2009) (gravações
anônimas)
16%
51%
35%
0%
Rio de Janeiro
129
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
continuação tabela 3
PESQUISAS DE LUCCA (2005: 80-84), DIAS (2007: 75-77) E ANDRADE
(2010: 91-96): CENTRO-OESTE – Grande Brasília ou Distrito Federal.
ConcorTodos
Mulheres
Homens
dância
(média)
com tu
Grande Brasília ou Distrito Federal
Corpus Lucca 2004-2005
Regiões Administra-tivas
(RAs): Ceilândia, Taguatinga Plano Piloto res-trito
– 13 a 19 anos (gravações
ocultas consentidas)
20%
77%
72%
0%
Corpus DIAS 2006-2007
Plano Piloto am-pliado
/ 13 a mais de 30 anos
(grava-ções ocultas e nãoocultas consentidas)
11%
15%
13%
0%
Corpus ANDRADE
2008-2009
Plano Piloto ampli-ado
/ 7 a 15 anos, com Vila
Planalto (gravações nãoocultas consentidas)
30%
45%
36%
0%
As pesquisas com dados do Distrito Federal, nas regiões
administrativas Ceilândia, Taguatinga, Plano Piloto restrito e ampliado,
em uma variedade em formação – a variedade brasiliense – revelam
também de forma sistemática que as mulheres tendem a usar menos
TU do que os homens. A pesquisa de Lucca (2005) foi feita com
brasilienses – os nativos da grande Brasília ou Distrito Federal – de 15
a 19 anos predominantemente do sexo masculino, o nicho do pronome
TU. Além disso, as gravações foram todas ocultas, mas consentidas. Por
esta razão, há alta frequência de uso do TU. Mesmo assim, as mulheres
desta amostra também usam menos TU do que os homens. A pesquisa
130
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
de Dias (2007) foi feita com uma amostra equilibrada em termos de
gênero e de faixa etária, com gravações ocultas e não ocultas. Neste
caso, a frequência de TU abaixa. Mas, ainda assim, observa-se menor
uso de TU na fala das mulheres. E a diferença entre homens e mulheres
é ainda maior quando se especifica a faixa etária, chegando à ausência
da ocorrência de TU, na fala das mulheres na faixa de mais de 30 anos,
como demonstra Dias (2007: 75-76). A pesquisa de Andrade (2010), com
a quarta geração de brasilienses, revela o incremento do TU na variedade
brasiliense em formação. Novamente, há também menos uso do TU
pelo gênero feminino. O fato é que a presença de TU na fala brasiliense
pode variar, nas amostras pesquisadas, de 13% a 73%, mas, sempre, com
menor índice na fala das mulheres, das moças e das meninas.
1.4. Faixa etária e aumento de uso do pronome TU
A expectativa das pesquisas no Sul, Nordeste e Norte era a de que
haveria um processo de mudança em direção a maior uso do pronome
VOCÊ, mas a quase totalidade das pesquisas consultadas indica, com
surpresa, que as faixas mais jovens apontam maior uso do TU, mesmo
em áreas onde o gênero (41% para as mulheres vs. 37% para os homens)
ainda não apresentou significância estatística, como no Maranhão
(Nordeste), segundo Alves (2010: 68; 92), mas com as mulheres também
ligeiramente à frente dos homens, à semelhança do que ocorre na Bahia
(Nordeste), no Norte e no Sul.
1.4.1. Homens à frente das mulheres na fala carioca e na fala
brasiliense
O efeito do gênero, além de não ser uniforme nas cinco regiões
pesquisadas, revela também que os homens, em algumas circunstâncias,
podem estar à frente das mulheres em todas as faixas etárias, nos termos da
pesquisa de Lopes et alii (2009), sobre a fala carioca – reversão da mudança;
e a de Dias (2007: 76), sobre a expansão do tu na variedade brasiliense –
aqui, um traço inesperado de focalização dialetal (cf. Scherre et alii, a sair).
131
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
GRÁFICO 1: Cruzamento de gênero e faixa etária: o TU carioca entre
vendedores e ambulantes (Lopes et alii, 2009: 22).
GRÁFICO 2: Gênero e faixa etária: o TU brasiliense – Fonte: Dias
(2007: 76), com adaptações.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Homens
Mulheres
13-19 anos
20-29 anos
132
Mais de 30
anos
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
1.5. Algumas sínteses sobre o pronome TU: Sul, Norte e
Nordeste vs. Sudeste e Centro-Oeste
A partir das pesquisas apresentadas, podemos sintetizar os resultados
da seguinte maneira: no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina (região
Sul), em que o TU é de fácil registro, isto é, em que é facilmente captado
nas entrevistas labovianas e em que há, também, uma forte ligação entre
o uso do pronome e o traço de identidade geográfica, podemos afirmar
que esse pronome é interno ao sistema e que o efeito da faixa etária está
associado à formalidade e intimidade (Loregian-Penkal, 2004: 141) ou
à polidez (Ramos, 1989: 65). Nesses casos, registra-se que há variação
estável entre as formas TU e VOCÊ.
Por outro lado, no interior da Bahia e no Maranhão (dois estados
do Nordeste brasileiro), o pronome TU, de fácil registro, embora às
vezes menos frequente e, também, um traço de identidade geográfica,
é igualmente interno ao sistema linguístico, mas a faixa etária,
diferentemente do que ocorre na região sul do Brasil, pode revelar
mudança de TU para ainda mais TU, isto é, há um acréscimo no uso
do pronome TU, conforme explicitado pelos resultados das faixas
etárias dos informantes no trabalho de Oliveira (2005: 10) e de Alves
(2010: 71). Esse uso foi ainda mais forte no Norte, em Tefé, Amazônia,
e foi associado por Martins (2010: 62) a uma semântica baseada na
solidariedade. Perguntamos, então, se não haveria, nas localidades
do Nordeste e do Norte estudadas, uma mudança abaixo do nível da
consciência social, dado o fato de ter sido colocada como hipótese inicial
a possibilidade de diminuição do uso do pronome TU nessas localidades.
Apesar de haver um comportamento diferenciado entre os falantes
das cidades do Sul, Nordeste e Norte pesquisadas, observamos que, em
caso de variação estável (Sul) e mudança abaixo do nível de consciência
social (Norte e Nordeste), há uma nítida tendência de as mulheres usarem
o pronome TU mais frequentemente do que os homens. Entretanto,
contrariamente ao proposto por Labov no Paradoxo da Conformidade,
não há uma associação clara de prestígio ou de desvio das normas pré133
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
estabelecidas em relação às formas TU ou VOCÊ. Esta associação se dá,
às vezes, à questão da não concordância com o pronome TU, mas não
claramente com a forma TU ou VOCÊ.
Inversamente ao que ocorre nas cidades do Sul, Nordeste e Norte,
no Centro-Oeste (representado pela grande Brasília ou Distrito Federal)
e no Sudeste (representado pela cidade do Rio de Janeiro), o pronome
TU é de difícil registro, isto é, não aparece com frequência em entrevistas
sociolinguísticas: as pesquisas com a fala brasiliense e com a fala carioca
tiveram de usar métodos outros para “capturar” o uso do TU. Também
não é visto como um traço de identidade geográfica, mas, sim, um traço
de interação solidária, intimidade ou relação simétrica (Lucca, 2005: 8792; Dias, 2007: 82-83; Andrade, 2010: 78-82), embora isto também possa
ocorrer nas regiões em que o TU é claramente um traço identitário, fato
inerente à oposição T/V, nos termos de Brown & Gilman (1960 [2003]).
Relembramos que, no Rio de Janeiro, as amostras com entrevistas
sociolinguísticas revelam baixo índice de TU (em torno de 6%) e que
o seu registro mais amplo só foi possível com gravações ocultas ou
anônimas. Mesmo assim, podemos ainda dizer que, nesta cidade, o
pronome TU também é interno ao sistema e que a faixa etária atua de
modo a enfatizar uma reversão de mudança de VOCÊ para TU, conforme
exposto por Paredes (2.003:166-167). Perguntamos se estamos diante de
uma mudança sem consciência social: esta questão não é ainda clara.
Em Brasília, o pronome TU, conforme dito acima, também é de difícil
registro, além de ser um traço de forte interação solidária. Entretanto,
ao contrário do que ocorre no Rio de Janeiro, não fazia parte do sistema
linguístico em 1992 (Andrade, 2004), e somente agora começa a se tornar
parte do sistema linguístico local – focalização dialetal. É importante
destacar que a faixa etária apresenta-se como uma variável importante,
que revela uma expansão dos usos de TU nas faixas etárias mais jovens
(Dias, 2007). Perguntamos se nos encontramos diante de uma mudança
com consciência social: esta questão não é igualmente clara
134
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
Destacamos que, em ambos os casos acima apresentados, a
tendência das mulheres é usar menos o pronome TU do que os homens.
Ressaltamos, ainda, que no Rio de Janeiro, há uma associação entre o
uso desse pronome com as diferentes classes sociais (Lopes et alii, 2009:
19), porém em Brasília não há ainda dados para se fazer esta afirmação.
Em suma: associamos o uso mais frequente de TU por parte das
mulheres (caso das localidades das regiões Sul, Nordeste e Norte),
quando esse pronome for um traço mais geral ou de fácil registro e
marcar a identidade geográfica dos falantes. Por outro lado, associamos
o uso menos frequente de TU por parte das mulheres (caso das
regiões Sudeste e Centro-Oeste), quando esse pronome for um traço
menos geral ou de difícil registro e não marcar a identidade geográfica
dos falantes, mas, sim, essencialmente, interação solidária ou de maior
proximidade entre os falantes (logo, os homens estão à frente, quando
esse pronome for um traço mais específico, marcando relações solidárias
entre grupos mais coesos).
2. Fatos adicionais: o imperativo gramatical (mudança
from below) e a concordância verbal no português
brasileiro (mudança from above)
A partir dos três fenômenos mencionados, os pronomes de 2ª
pessoa, o imperativo e a concordância verbal, pretendemos fazer
algumas generalizações sobre o efeito do gênero na variação e na
mudança linguística. Pudemos observar que a variação dos pronomes
de 2ª pessoa no português brasileiro apresenta características diversas,
a depender da comunidade analisada. Assim, em parte da região Sul do
Brasil (Rio Grande do Sul e Santa Catarina), em parte da região Nordeste
(em algumas comunidades da Bahia e no Maranhão) e em parte da região
Norte (Tefé-AM), o pronome TU pode ser considerado um índice de
identidade geográfica, diferente, ainda, do que ocorre em parte da região
Sudeste (Rio de Janeiro) e parte da região Centro-Oeste (grande Brasília
ou Distrito Federal), em que o TU é forte marca interacional.
135
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
O outro fenômeno observado, a variação do imperativo (Cardoso,
2007), apresenta uma reflexão interessante: em falantes nascidos em
Fortaleza e residentes na grande Brasília, local em que prevalece o
imperativo associado ao indicativo (olha/diz/vem), parece haver uma
mudança abaixo do nível da consciência social (change from below) em
direção à forma associada ao indicativo (olha/diz/vem), uma vez que a
forma que prevalece na cidade de Fortaleza é a do imperativo associado
ao subjuntivo (olhe/diga/venha).
Neste caso, Cardoso (2009: 108-109; Cardoso & Scherre, a sair)
observou que, ao lado da variável sócio-dentitária, com a maior identidade
com Brasília favorecendo o imperativo associado ao indicativo (fala), há
também a variável gênero, com as mulheres favorecendo mais do que
os homens as formas imperativas associadas ao indicativo, formas estas
igualmente menos marcadas em termos de frequência de ocorrência no
território brasileiro e de menor percepção por parte dos falantes.
TABELA 4:
Fatores
Movimento de 16 fortalezenses em Brasília em direção
ao imperativo associado ao indicativo (fala): o papel
de gênero do falante (Cardoso, 2007: 108-109), com
adaptações.
Percentual de uso do imperativo Peso relativo
associado ao indicativo fala/diz/vem
dos fatores
Mulheres
449/585 = 77%
0,59
Homens
215/387 = 56%
0,37
Total
664/972 = 68%
No caso da concordância verbal, a presença de concordância nas
áreas urbanas é, em 2000, também a forma mais recorrente em termos
médios, da ordem de 80% (Naro & Scherre, 2010: 82), com base em
dados extraídos do Corpus PEUL 2000. A forma com concordância
é também a menos marcada socialmente: fazer concordância é que o
136
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
esperado pela sociedade. Neste caso, também as mulheres estão à frente
dos homens nos processos de mudança da concordância em direção
à forma menos marcada, em especial quando se comparam dados
extraídos do Corpus PEUL 1980 e Corpus PEUL 2000. É o que se pode
ver no Gráfico 3, para os homens; e no gráfico 4, para as mulheres, em
que se apresenta curva de estabilidade para os homens e mudança para
as mulheres (Naro & Scherre, 2010: 83-84). É fundamental observar
que, neste caso, trata-se, no nosso entendimento, de uma mudança from
above, ou seja, mudança que envolve consciência social.
GRÁFICO 3: Efeito da faixa etária para os homens na presença
da concordância verbal: amostras de 1980 e 2000 de
falantes da cidade do Rio de Janeiro (Naro & Scherre:
2010: 83).
137
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
GRÁFICO 4: Efeito da faixa etária para as mulheres na presença
da concordância verbal: amostras de 1980 e 2000 de
falantes da cidade do Rio de Janeiro (Naro & Scherre,
2010: 84).
3. Em busca de generalizações subjacentes ao efeito do
gênero na variação e na mudança linguística
Com base nos três fenômenos apresentados, alternância de TU/
VOCÊ; alternância de imperativo associado ao indicativo (olha/diz/vem)
e imperativo associado ao subjuntivo (olhe/diga/venha); e concordância
verbal variável de terceira pessoa, podemos então fazer as seguintes
proposições:
1)
Traços linguísticos menos marcados, no sentido de serem
menos dependentes das relações interacionais ou mais
frequentes ou mais aceitos socialmente, tendem a ser
138
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
favorecidos pelas mulheres: o tu como índice de identidade
geográfica, o imperativo associado ao indicativo em contatos
dialetais, a presença da concordância verbal.
Generalização: em configurações menos marcadas - e não
necessariamente mais prestigiadas - as mulheres estão à frente na variação
ou na mudança.
2)
Traços linguísticos mais marcados, no sentido de serem mais
dependentes das relações interacionais ou menos frequentes
ou menos aceitos socialmente, tendem a ser favorecidos pelos
homens: o tu como índice de interação solidária; o imperativo
associado ao subjuntivo em contatos dialetais; a ausência de
concordância verbal.
Generalização: em configurações mais marcadas - e não
necessariamente menos prestigiadas – os homens estão à frente na
variação ou na mudança.
Assim, a questão do prestígio é apenas um dos aspectos da noção
de marcação. O princípio da marcação é que, a nosso ver, pode nos
trazer luzes para um entendimento do papel gênero nos fenômenos de
variação estável, de mudança sem consciência social (change from below) e
mudança com consciência social (change from above).
Embora tenhamos sempre em mente as palavras de Paiva (2003:
41), em seu texto “A variável gênero/sexo”, no sentido de que,
“evidentemente, qualquer explicação acerca do efeito da variável gênero/
sexo requer cautela, vistas as peculiaridades na organização social de
cada comunidade linguística e as transformações sofridas por diversas
sociedades no que se refere à definição dos papéis feminino e masculino”,
consideramos que a questão da marcação das formas linguísticas tem
de fazer parte de nossas reflexões, na busca do entendimento mais
integrado da variável gênero.
139
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
Assim, consideramos que as pesquisas aqui apresentadas mostram
que se faz necessária a proposição de uma agenda de trabalho voltada
para o entendimento do papel do gênero na variação e na mudança
linguísticas. A proposta acima explicitada, que remete ao Princípio da
Marcação Linguística e Social (Givón, 2005), também requer muita
cautela, uma vez que buscamos associar a variação estável e as mudanças
com e sem consciência social a esse princípio, em relativa contraposição
ao “Princípio da não conformidade” e ao “Princípio da não conformidade
construtiva” de Labov (2001: 216).
Labov (2001: 516), após profundas análises sobre o papel do gênero na
variação e na mudança linguística, em uma busca mais geral da localização
social das líderes da mudança linguística, como uma abordagem para
o entendimento das causas e motivações da mudança sem consciência
social, que, segundo ele, é a mudança natural e sistemática, propõe o
Princípio da não conformidade nos seguintes termos:
Mudanças linguísticas em andamento são emblemáticas
da não conformidade às normas sociais estabelecidas de
comportamento apropriado e são geradas no meio social
que mais consistentemente desafia aquelas normas.
Labov (2001) pondera, a seguir, que “é o comportamento não
conformista das mulheres que faz delas as líderes da mudança, não seu
gênero.” Reforçando sua tese, Labov (2001: 516) afirma, ainda, que não
é qualquer conformista que conduz a comunidade [no processo] de
mudança linguística; é o não conformista que é visto por seus vizinhos
como um modelo de ascensão social.
Essa relação entre mudança linguística e não conformidade é
ressaltada por Labov (2001: 514) por meio do Princípio da Idade do
Ouro (Golden Age Principle), que reflete, segundo ele, a crença do senso
comum de que “em algum lugar no passado, a língua estava em estado
de perfeição”. Para Labov (2001: 514), isso indica “que a mudança
140
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
linguística tem de ser interpretada como não conformidade às normas
estabelecidas e que as pessoas rejeitam as mudanças na estrutura
linguística quando tomam consciência delas.”
Observações finais
De tudo o que acabamos de dizer, consideramos oportuno estabelecer
tarefas e sugestões para uma agenda de trabalho para reflexões futuras
sobre nossa proposta de entendimento do papel do gênero, baseada no
Princípio da Marcação Linguística e Social (Givón, 2005), que busca dar
conta do gênero de forma mais integrada.
Seguem abaixo alguns aspectos que consideramos pertinentes
registrar:
1)
A importância da codificação da variável sexo na busca
do entendimento do papel do gênero – a questão da
comparabilidade dos resultados.
2)
A questão das amostras e dos gêneros discursivos: será que há
mesmo reversão de mudança ou apenas mais percepção do tu?
3)
A necessidade de amostras maiores para análises dos dados
dos homens e das mulheres separadamente.
4)
O controle do papel do indivíduo (tarefa metodologicamente
fácil) e das comunidades de prática (tarefa metodologicamente
difícil).
5)
A importância da relação entre os interlocutores no processo
de escolha dos pronomes de segunda pessoa.
6)
A difícil tarefa de considerar a questão das classes sociais no
Brasil e a importância dada por Labov (2001) à relação entre
gênero e classe social e os diversos momentos da mudança
linguística.
7)
O papel dos zeros: se o zero é fruto de conexão discursiva nos
termos de Paredes (1988) ou se é outra variante na referência
à segunda pessoa, nos termos de Ramos (1989), para dados de
141
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
8)
9)
10)
Florianópolis-SC-Sul; e de Martins (2010), para dados de TeféAM-Norte.
A importância do detalhamento das variantes você, cê e ocê e
suas inter-relações entre si e com o pronome tu em todas as
pesquisas já realizadas e por se realizar (tarefa relativamente
fácil, mas que implica tratamento eneário das variantes
estudadas).
Análise minuciosa dos trabalhos que estudaram a alternância
entre você/cê/ocê, na busca dos efeitos do gênero do falante
(tarefa que pode e deve levada a cabo também por estudiosos
mineiros, cariocas, capixabas e paulistas dedicados ao tema,
em especial, Jânia Ramos, Maria do Socorro Vieira Coelho,
Edenize Ponzo Peres, Clézio Roberto Gonçalves, Elba Nusa
Calmon e Ivanete Belém do Nascimento, com quem temos
mais contato).
Análise minuciosa de todos os trabalhos variacionistas sobre
outros fenômenos, na busca de verificar o papel do gênero em
uma gama mais ampla de fenômenos variáveis (tarefa também
de múltiplas mãos e mentes)
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A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E AS RESTRIÇÕES
ESTILÍSTICAS / LINGUISTIC VARIATION AND
THE STYLISTIC CONSTRAINTS 1
Dermeval da HORA
Universidade Federal da Paraíba (UFPB)/CNPq/CAPES
Leo WETZELS
Vrije Universiteit – Amsterdam
RESUMO
Os estudos sociolinguísticos desenvolvidos por Labov, nos anos 60 e subsequentes do século
XX, foram fundamentais para o início e a continuidade de outros estudos realizados em
diferentes partes do mundo. A partir da estratificação social das variáveis e observando
sua correlação com fatores estruturais, foi possível que se estabelecessem padrões sistemáticos
em vários aspectos da língua, principalmente no que tange aos fonológicos. Como atestam
os trabalhos implementados, ênfase maior foi dada às variáveis sociais e estruturais, com
pouca atenção à variável estilística. Nosso objetivo neste texto é avaliar diferentes propostas
(LABOV, 1966, 2001; BELL, 1984; ECKERT, 2000, 2005) que envolvam a relação
estilo/variação, utilizando dados oriundos de corpora diferentes. Em um primeiro momento,
utilizaremos apenas dados de falantes residentes em João Pessoa, avaliando o uso das oclusivas
dentais; em um segundo momento, falantes paraibanos que residem em São Paulo (capital) há
mais de cinco anos, avaliando o uso dos róticos. Por último, avaliaremos o nível de consciência
do falante em relação aos fenômenos linguísticos considerados acima.
1
Trabalho realizado durante período de Estágio Sênior na Vrije Universiteit (Processo BEX
3613/09-7 – CAPES), tendo como supervisor Leo Wetzels (NWO grant number 040.11.176). É
um trabalho que também resulta de uma parceria entre o Progama de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e o Programa de Linguística da Universidade
de São Paulo (USP), financiado pelo CNPq, Proc. 620020/2008-3.
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 147-188. 1ª parte 2011
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
ABSTRACT
The sociolinguistic studies developed by Labov in the 1960s and through the 20th century
were fundamental to other studies conducted worldwide. Owing to the social stratification of
variables and observations regarding their correlation to structural factors, it was possible to
establish systematic patterns in various aspects of language, especially with regards to the
phonology. As demonstrated by the work completed up to the present, emphasis was given to
social and structural variables, with little attention devoted to the stylistic variable. Our goal
in this paper is to evaluate different proposals (LABOV, 1966, 2001, BELL, 1984;
ECKERT, 2000, 2005) that involve the relationship between style and variation using
data from different corpora. The first stage of this endeavor involved only data from speakers
living in João Pessoa, and focused on evaluating the use of dental plosives. Subsequently, the
research expanded to include Paraiban speakers living in São Paulo city for a period greater
than five years to evaluate the use of rhotics. Finally, we evaluated the speakers’ level of
awareness of the linguistic phenomena considered above.
PALAVRAS-CHAVE
Audience design. Comunidade de prática. Estilo. Variação estilística.
KEY-WORDS
Style. Stylistic variation. Practice community. Audience design.
Introdução
‘Estilo’ pode conotar um grande número de significações que podem
estar atreladas a diferentes situações da vida. Aqui, interessa-nos aquela
relacionada ao uso da língua, correlacionando-o a formas variáveis de
determinados processos fonológicos em comunidades específicas.
Dessa forma, o estilo é visto como uma restrição que pode favorecer
ou não a escolha de uma dentre as diferentes variantes que constituem
uma variável. E, mesmo assim, o emprego da restrição “estilo” vai ter
conotações diferenciadas.
148
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
Por que falamos de “estilo” enquanto restrição? Ao tratá-lo assim,
estamos retomando um dos conceitos estabelecidos por Weinreich,
Labov, Herzog (1968), que, ao procurarem estabelecer os fundamentos
teóricos para uma teoria linguistica de base empírica, entendem ser “as
restrições” um dos cinco problemas a serem solucionados na análise
sociolinguística de um processo, seja ele fonológico ou gramatical.
Enquanto “restrições”, podemos pensar em um conjunto de fatores,
sociais ou estruturais, a que se correlacionam um determinado processo.
A esses devem ser somados os fatores estilísticos. É, pois, nessa
perspectiva que trataremos o ‘estilo’.
A variação estilística envolve variação na fala de falantes individuais
mais do que entre grupos de falantes, ou seja, ela está mais presente
intrafalante do que entre falantes, muito embora saibamos que, para
termos a primeira, necessariamente, teremos que ter a segunda.
Nosso objetivo neste texto é avaliar diferentes propostas (LABOV,
1966, 2001; BELL, 1984; ECKERT, 2000, 2005) que envolvem a relação
estilo/variação, utilizando dados oriundos de corpora diferentes. Em um
primeiro momento, utilizaremos apenas dados de falantes residentes
em João Pessoa, avaliando a palatalização das oclusivas dentais; em
um segundo momento, falantes paraibanos que residem em São Paulo
(capital) há mais de cinco anos, avaliando o uso dos róticos. Por último,
avaliaremos o nível de consciência do falante em relação aos fenômenos
linguísticos considerados acima. Vale destacar que não é nossa intenção
fazer, nesse momento, um estudo quantitativo. O que implica que as
análises serão, basicamente, de cunho qualitativo.
A escolha do processo que envolve a palatalização das oclusivas
dentais tem a ver com o fato de esta regra de palatalização ser inovadora
na comunidade pessoense, uma vez que a norma presente em João
Pessoa é a sua não aplicação. Assim, é padrão local a realização de tais
consoantes não palatalizadas, como em “[t]iro”, “lei[tI]”, “les[tI]” etc.
Tais realizações estão convivendo, aos poucos, com “[t]iro”, “lei[tI]”,
“les[tI]”, respectivamente. Isso nos leva a questionar: (a) será que
149
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
podemos relacionar a variação que envolve este aspecto fonológico com
a mudança de estilo, nos moldes proposto por Labov (2001), aplicando
seu modelo árboreo? (b) podem outros modelos, como os de Bell (1984)
e Eckert (2000), justificar o uso variável das oclusivas dentais, atrelando-o
à variação estilística? (c) até que ponto o falante tem consiciência da
alternância entre esses dois usos?
Em se tratando dos róticos, o que nos motivou sua escolha para
avaliar falantes paraibanos residentes em São Paulo (capital) foi o fato
de termos duas realizações bem diferenciadas entre João Pessoa e São
Paulo. Para a primeira comunidade, o padrão é a realização aspirada em
posição interna, como em “por[h]ta”, “co[h]da”, “co[h]po”, enquanto na
segunda, o padrão é o tepe: “po[]ta”, “co[]da”, “co[]po”. As mesmas
perguntas formuladas para as oclusivas dentais também valem para os
róticos. Um aspecto a ser considerado neste caso diz respeito à avaliação
do processo de acomodação dos falantes paraibanos ao dialeto paulista.
Será que isso ocorre?
Três hipóteses norteiam nossa proposta: (a) A mudança de estilo
do falante não está condicionada aos elementos da situação de fala
(formalidade ou audiência), mas ao uso de seus próprios recursos
estilísticos; (b) O falante usa sua fala para marcar sua identidade; (c) O
nível de consciência em relação ao uso das variáveis selecionadas está
correlacionado aos anos de escolarização do falante, ou seja, quanto
maior a escolaridade, mais consciência em relação à variação ele terá.
Para desenvolvermos tais ideias, assim estruturamos o texto: na
seção 1, apresentaremos uma contextualização da variação estilística; na
seção 2, trataremos de três modelos voltados para a variação estilística:
o de Labov (1966, 2001), o de Bell (1984) e o de Eckert (2000); na seção
3, analisaremos os dados relativos à palatalização das oclusivas dentais e
também aos róticos.
150
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
1. Contextualizando a variação estilística
Segundo Schilling-Estes (2004), tradicionalmente, os variacionistas
consideram que a mudança de estilo envolve mudança no uso dos traços
fonológicos e gramaticais, dispostos ao longo do continuum vernacular
– padrão, entre situações diferentes de fala, delimitadas ou de acordo
com a atenção prestada à fala (LABOV, 1966) ou de acordo com a
audiênica do falante (BELL, 1984). Nesse sentido, os estudos de variação
intrafalante encontram paralelo naqueles de variação entre falantes, em
que as variáveis fonológicas e gramaticais são investigadas entre diferentes
grupos de falantes. Porém, as investigações variacionistas de mudança de
estilo são muito diferentes das investigações de estilos de fala conduzidas
em décadas passadas em outros subcampos da sociolinguística. Por
exemplo, as abordagens taxonômicas de pesquisadores como ErvinTripp (1964), Halliday (1978) e Hymes (1972) consideraram a variação
estilística como algo que envolvia uma variedade muito maior de tipos de
variação, diferente do que conceberam os primeiros variacionistas. Além
disso, para aqueles estudiosos, a variação estilística era condicionada por
uma variedade mais ampla de fatores, incluindo não só a formalidade
da situação ou a composição da audiência, mas fatores como tópico,
ambiente, canal de comunicação (falado x escrito), propósito etc.
Nos últimos anos, os estudos variacionistas sobre mudança de estilo
têm divergido das abordagens iniciais e têm convergido, pelo menos de
alguma forma, para abordagens utilizadas por etnógrafos, antropólogos,
sociólogos etc. Já não é uma preocupação dos variacionistas investigar o
padrão de variação estilística, considerando apenas um ou vários fatores
sociais, mas, sim, uma variedade de fatores, que podem contribuir para
a variação intrafalante.
Além disso, mais do que examinar a variação baseada em
categorizações pré-estabelecidas da situação de fala como “casual”,
“formal” ou “cuidada”, ou em categorias sociais como “classe media
alta”/ “classe media baixa”, masculino/feminino, negro/branco, estão
sendo realizadas investigações etnográficas, a fim de encontrar formas
151
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
que possibilitem categorizar a língua, a pessoa e o mundo (ECKERT,
2000; KIESLING, 1996; MENDOZA-DENTON, 1997). Vale
acrescentar que as pesquisas variacionistas de estilo também estão se
tornando mais amplas, focando outros traços, indo do fonológico e
grammatical para o lexical e o pragmático/interacioonal (COUPLAND,
2001; SCHILLING-ESTES, 1999), também têm focado traços
paralinguísticos como entonação (ARNOLD et al., 1993), elementos não
linguísticos de estilo, tais como “cabelo, roupas, maquiagem, posição do
corpo, e uso do espaço (ECKERT, 2000).
Essas pequisas têm chamado atenção para dois aspectos
fundamentais: (1) os falantes não mudam o estilo meramente em reação
a elementos da situação de fala (se formalidade ou audiência), eles são
muito criativos em seu uso dos recursos estilístidos; (2) os falantes não
estão apenas limitados a elementos da situação externa, eles usam sua
fala para ajudar a estruturar e a reestruturar a situação externa, como
também suas realações interpessoais, e, principalmente, suas identidades
pessoais.
Como podemos ver, são dois aspectos que fogem às
propostas de Labov (1966) e Bell (1984), mas isso não invalida que a
variação estilística ainda seja abordada sob tais perspectivas.
Devido à grande diversidade de tipos de variação empregados
por falantes individuais, não é de se surpreender que os variacionistas
tenham, por décadas, se debatido exatamente sobre o que deve estar
relacionado à noção de variação estilística, como também a melhor
forma de estudar este fenômeno abrangente. Contudo, devemos
concordar que a variação intrafalante deve ter um importante papel no
estudo da variação. Afinal de contas, a variação intrafalante é pervasiva,
talvez mesmo universal, e nós não podemos esperar alcançar um
entendimento pleno do padrão de variação da língua, ou de uma língua
em geral, se não entendermos seu padrão dentro da fala dos indivíduos
como também entre grupos de falantes. Mais, visto que a variação
intrafalante repousa na interseção do individual e do comum (popular),
um melhor entendimento de seus padrões levará a valiosos insights sobre
152
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
como as duas esferas se interrelacionam – isto é, como os individuos
internalizam padrões linguísticos mais amplos na comunidade e como
esses padrões são estruturados e reestruturados pelos indivíduos na
interação conversacional do cotidiano.
As mudanças de estilo podem ser muito deliberadas e envolverem
o uso autoconsciente de traços que o falante e a audiência são muito
conscientes, ou podem ser inconscientes, envolvendo traços que as
pessoas nem mesmo sabem que estão usando. Além disso, as mudanças
podem ser muito rápidas, como quando um falante envolvido em uma
pesquisa sociolinguística momentaneamente muda para um estilo mais
vernacular durante uma breve conversação ao telefone; ou pode ser mais
longa, como parte da rotina diária. Além disso, padrões de longo tempo
de variação linguística podem vir a caracterizar uma pessoa ou um grupo
em geral, de forma que podemos falar de estilo do indiivíduo ou de vários
estilos grupais. Finalmente, a variação intrafalante pode envolver qualquer
nível de organização da língua, do fonológico e morfossintático ao lexical,
semântico, pragmático e discursivo. Consequentemente, podemos falar
de diferentes tipos de estilo, variando de um estilo formal, associado
com níveis de uso mais altos de determinados traços fonológicos e
morfossintáticos (frequentemente, mas nem sempre, aqueles associados
com uma variedade padrão) para um estilo conversacional, isto é, os
padrões interacionais mais amplos que caracterizam os discursos inteiros.
2. Abordagens sobre a variação estilística
Nesta seção, trataremos de três diferentes abordagens referentes
à variação estilística. Vale ressaltar que elas não são excludentes. Ao
contrário, buscam, progressivamente, avançar na busca pela compreensão
desse aspecto que nem sempre tem merecido atenção dos estudiosos,
talvez até pela sua complexidade, que é o estilo.
153
A Variação Linguística e o Papel dos Fatores Sociais: o Gênero do Falante em Foco
Inicialmente, apresentamos alguns aspectos da abordagem laboviana,
pelo fato de ser a precursora. Em seguida, tratamos da abordagem de
Alan Bell, e, por último, detemo-nos na proposta de Eckert, como
representativa que é de uma nova perspectiva sobre a variação estilística.
2.1. Labov: estilo como atenção prestada à fala
permitem avaliar possíveis indícios de mudança na língua quando o
estilo é alterado. Assim, ele esboça a entrevista sociolinguística de forma
que possa obter do falante, tanto quanto possível, uma fala que vá da
mais casual a mais formal.
Para Labov, a atenção prestada à fala está no centro da proposta. A
fala casual é facilmente detectada em situações em que o falante não a
esteja monitorando, como nas ruas, nos bares, na praia. O mesmo não
acontece em uma situação de entrevista formal, que define um contexto
de fala, onde, em geral, apenas um estilo ocorre, o estilo denominado
de fala cuidada. Então, a metodologia utilizada para amenizar o grau de
formalidade que, por si só, caracteriza a entrevista é decisiva.
Considerando a fala cuidada como o estilo mais simples de ser
definido dentro de uma entrevista, Labov utiliza algumas estratégias:
estilo de leitura, lista de palavras, pares mínimos. Todas estas estratégias
implicam que o falante preste mais atenção à maneira como utiliza
a língua. Para obter uma fala menos monitorada e mais casual, ele
estabelece situações contextuais em que o falante possa estar menos
atento a sua própria fala. Para isso, vale controlar aspectos como: fala
com uma terceira pessoa, fala não relacionada às questões estabelecidas,
questões voltadas para hábitos da infância e o mais conhecido “perigo de
morte”. Nesses dois últimos casos, como podemos ver, o fundamental
é o tópico; ao manipulá-lo, ele parte da hipótese de que alguns tópicos
podem desviar a atenção do falante em relação à fala.
Segundo Rickford e Eckert (2001, p. 3), o estudo de Labov (1966)
estabelece uma forte ligação entre o indivíduo e a comunidade – entre
o linguistico, o cognitivo e o social. Ele demonstrou que o uso das
154
Maria Marta Pereira Scherre e Liliana Coutinho Yacovenco
variáveis sociolinguísticas é estratificado socioeconomicamente, e que a
variedade estilística de cada falante cobre um continuo do uso na matriz
socioeconômica. Ao colocar o prestígio na parte mais alta da hierarquia
socioeconômica e o estigma na parte mais baixa, Labov caracterizou
cada continuum estilístico do falante em relação a esses dois polos. Ele
viu o prestígio da variedade do falante como o resultado da fala formal,
cuidada, e o estigma como o resultado da fala casual, não monitorada.
Portanto, a atividade estilística do falante estava diretamente ligada a sua
posição na hierarquia socioeconômica e nas estratégias utilizadas.
Ainda para os autores, enquanto a noção de prestígio desempenha
um importante papel no trabalho de Labov sobre estilo, é a atenção
prestada à fala que ele coloca como foco, presumivelmente porque a
atenção é o mecanismo cognitivo que liga o social aos fatores linguísticos.
Labov (2001, p. 87) afirma que a organização dos estilos contextuais
ao longo do eixo da atenção prestada à fala não foi planejada como
uma descrição de como a mudança de estilo é produzida e organizada
no cotidiano, mas como uma forma de organizar e usar a variação
intrafalante que ocorre na entrevista.
Com base nas entrevistas realizadas, Labov (2001) propõe um
modelo árboreo constituído de oito critérios, com o objetivo de analisar
a fala espontânea. Esses critérios se pautam em quatro contextos
categorizados como “fala casual” e quatro como “fala cuidada”, em
ordem decrescente de objetividade.
A análise das entrevistas permite que decisões sejam tomadas quanto
ao estilo utilizado. Podem ser encaixadas no estilo casual as passagens
que dizem respeito às narrativas, à participação de outras pessoas, a
passagens que tratam da infância e passagens tangenciais. Para o estilo
cuidado, são considerados: as respostas, questões que tratam de avaiação
da língua, opiniòes generalizadas (soapbox) e os resíduos que não se
encaixam em nenhum desses casos.
Inúmeras críticas são feitas à proposta de Labov. Aqui destacamos
algumas delas:
155
(a)
dificuldade de se quantificar a atenção prestada à fala;
(b)
dificuldade operacional de separar a fala casual da fala cuidada
a partir das situações contextuas;
(c)
caráter unidimensional da proposta, o que implica um
continuum formalidade vs. Informalidade;
(d)
o falante é visto como passivo, alternando sua fala em resposta
às mudanças na situação externa, mais do que creditando-lhes
a capacidade de agenciar seu uso dos recursos estilísticos.
Sobre sua proposta, vale questionar: (a) será que esses estilos se
aplicam fora do arcabouço da entrevista sociolinguística? (b) será que
é a atenção prestada a fala o fator que opera nos estilos propostos por
Labov como formais? (c) será que o falante tem consciência da mudança
de estilo?
2.2. Proposta de Alan Bell: “audience design”
As décadas seguintes ao trabalho seminal de Labov, que apresenta
uma proposta teórica e metodológica sobre estilo, presenciaram uma
mudança de foco. Estudos voltados para a teoria da acomodação,
principalmente os desenvolvidos por Howard Giles e colegas, procuraram
mostrar, dentre outras coisas, a importante influência sobre o estilo da
língua, condicionando-o à orientação do falante e à atitude em relação
ao destinatário. Outros estudos avaliaram o efeito do destinatário e da
“audiência” sobre a variação.
Alan Bell (1984) seguiu esses estudos, colocando a “audiência” como
o centro da produção estilística.
Segundo Bell (1984, p. 158), qualquer modelo de mudança de estilo
deve considerar que a variação intrafalante deriva e reproduz a variação
entre falantes. A primeira é uma resposta à última. Para ele, apenas um
único tipo de modelo pode satisfatoriamente considerar a mudança de
estilo. Tal modelo, de acordo com o autor, é latente em muitos estudos
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
de variação e explícito em outras vertentes da sociolinguística, como na
etnografia da comunicação.
A fim de justificar seu foco no ouvinte, Bell afirma que os
sociolinguistas estão acostumados a correlacionar a dimensão social da
variação linguística a características sociais mensuráveis de uma pessoa o falante - como ‘classe social’, ‘idade’ etc. Porém, se a dimensão estilística
é derivada da dimensão social, poderíamos também correlacionar a
dimensão estilística aos atributos da pessoa. E, nesse caso, eles seriam os
atributos, não do falante, mas do ouvinte. Com base nisso, ele afirma que
sua proposta “audience design” é elegantemente simples.
Ela considera que o falante ao modelar a sua fala leva em conta o
ouvinte, ou seja, a sua “audiência”, que é constituída não só do destinatário,
a segunda pessoa, mas de outras terceiras pessoas. O destinatário, a
segunda pessoa, é conhecido e ratificado, os demais não precisam ser,
necessariamente ratificados. Os interlocutores que são conhecidos e
ratificados, ele chama de “auditors”. Aqueles que o falante sabe que
estão lá, mas que não são participantes ratificados, são os “overhearers”.
Outros cuja presença é desconhecida são os “eavesdroppers”. De forma
sintética, a audiência é assim composta:
•
Addressee – ouvintes que são conhecidos, ratificados e
“addressed”
•
Auditor – ouvintes que não são diretamente “addressed”,
mas que são conhecidos e ratificados
•
Overhearer – ouvintes não ratificados, mas que o falante tem
consciência
•
Eavesdropper – ouvintes não ratificados e o falante não tem
consciência
Esses quatro papéis da audiência estão implicacionalmente ordenados
de acordo com o fato de eles serem ratificados e conhecidos, obedecendo
a uma hierarquia, cada um tendo seu papel, que é atribuído pelo falante,
157
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
e seu grau de saliência para a modelagem do estilo do falante é relativo
à distância do papel. Para Bell (1984), isto tem duas consequências
relacionadas para a variação sociolingística – uma qualitativa e outra
quantitativa.
Do ponto de vista qualitativo, ele defende que há uma escala
implicacional, segundo a qual uma variável mostrará variação segundo
os papéis da audiência. Do ponto de vista quantitativo, sua hipótese é de
que o efeito de cada papel sobre a variação linguística é menor do que o
efeito do papel mais próximo do falante.
Bell (1984) também vai defender em sua proposta que a influência
aparente da mudança de tópico se deve à associação dos tópicos aos
tipos de “audiência”. Uma vez que nem todas as mudanças estilísticas
são respostas óbvias aos participantes presentes, ele defende que o efeito
de grupos de referência ausentes, denominados por ele de “referees” é
fundamental, e pode, sim, ter influência na variabilidade da língua, pelo
fato de estarem presentes na mente do falante.
Para sua análise de estilo, Bell elenca uma série de princípios,
transcritos a seguir:
(1)
Estilo é o que um falante individual faz com a língua em
relação a outras pessoas. Com isto, fica claro que o estilo se
focaliza na pessoa e é essencialmente algo social. Estilo é o
reflexo da variação entre falantes, é interativo e ativo.
(2)
O Estilo deriva seu significado da associação dos traços
linguísticos com grupos sociais específicos. A avaliação do
grupo é transferida para os traços linguísticos associados ao
grupo. Dessa forma, o estilo deriva da variação linguística entre
grupos, a partir da avaliação social. A avaliação está sempre
associada com a mudança de estilo, e a mudança de estilo com
a avaliação. Ele considera, portanto, que o signficado social
da variação linguística entre grupos sociais é primário e que a
158
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
(3)
variação linguística é o uso secundário ou o desenvolvimento
dessa variação.
O falante modela seu estilo principalmente por sua “audiência”
e em resposta a ela. Este é o cerne da proposta “audience
design”. Normalmente, o falante muda seu estilo para se
acomodar ao da pessoa com quem está falando. Com isso, fica
clara a relação entre essa proposta e a Teoria da Acomodação.
A resposta é o modo primário da mudança de estilo, mas esta
é uma responsividade ativa.
(4)
“Audience design” se aplica a todos os códigos e níveis de um
repertório linguístico, monolíngue ou multilíngue. Além disso,
“audience design” não se refere apenas à mudança de estilo,
ela envolve outros traços, sejam eles estruturais ou não.
(5)
A variação na dimensão do estilo na fala de um só falante
deriva da variação que existe entre falantes na dimensão
social e a reproduz. Este princípio se refere às concepçoes
convencionais da proposta variacionista. O estilo é visto como
uma dimensão da variação separada da dimensão social.
(6)
Os falantes têm uma refinada habilidade para modelar seu
estilo para uma variedade de destinatários, como também para
outros membros da audiência. Para Bell, esta é a descoberta
clássica do modelo da acomodação. O falante acomoda seu
estilo de fala aos seus ouvintes, a fim de obter aprovação.
(7)
A mudança de estilo de acordo com o tópico ou com o
ambiente deriva seu significado e direção da mudança da
associação subjacente aos tópicos ou ambientes com membros
típicos da audiência.
159
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
(8)
Bem como a dimensão responsiva do estilo, há a dimensão
‘iniciativa’, onde a própria mudança de estilo inicia uma
mudança na situação, mais do que resultando de uma tal
mudança.
(9)
As mudanças de estilo iniciativas são em essência “referee
design”, pelo qual os traços linguísticos associados com
um grupo de referência pode ser usado para expressar
identificação com aquele grupo. Aqui há uma ligação ente
estilo iniciativo e metafórico com a audiência. Os juízes são
terceiras pessoas não usualmente presents na interação, mas
que são importantes para os falantes e capazes de influenciar
seu estilo de falar, mesmo em sua ausência. O estilo, portanto,
torna-se um problema de identificação com a potencialidade
de grupos não presentes.
(10) Pesquisa em estilo exige seus próprios modelos e metodologias.
Isto tem a ver com o papel periférico que o estilo sempre tem
assumido nas pesquisas variacionistas.
Finegan e Biber (1994, p. 339) creditam a Bell a explicação sobre a
relação entre variação estilística e variação social, mas não a sistematicidade
interna de cada categoria. Para eles, a explicação é funcional e defendem
que “a variação social do dialeto depende da variação do registro, e a
variação do registro é formada por restrições comunicativas inerentes a
situações específicas”.
Onde Bell focalizou a audiência, Finegan e Biber
focalizaram a situação mais ampla, e buscaram estabelecer
uma ligação das próprias variáveis às situações em
que elas eram usadas e, finalmente, à hierarquia
socioeconômica. Eles começaram com o argumento
de que variáveis estratificadas socialmente tendem a
160
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
envolver algum tipo de redução ou simplificação e que
a complexidade da forma linguística se correlaciona com
o status socioeconômico. Eles defendem que as formas
lingísticas mais complexas são usadas em situações mais
“letradas”, como uma função, tanto das tarefas que
estão sendo consideradas nessas situações como da falta
relativa de contexto compartilhado. Eles, então, atribuem
a estratificação social do uso da língua à estratificação
do acesso a esses tipos de situação (RICKFORD E
ECKERT, 2001, p. 4).
Para Rickford e Eckert (2001, p. 4), a proposta de Alan Bell não
só introduziu uma visão coerente de mudança de estilo, mas também
integrou uma variedade mais ampla de descobertas sociolinguísticas
anteriormente díspares, e colocou novas generalizações e previsões
teóricas testáveis sobre a relação entre a variação estilística e a social.
Tais ideias contribuíram para uma nova visão de estilo, e elas têm sido
objeto dos estudos de variação. Eckert (2000) e outros têm explorado o
papel da variação na construção ativa dos estilos pessoais e de grupos,
vendo as variáveis individuais como recursos que podem funcionar na
construção de novas personalidades.
Sobre a proposta de Bell (1984), reproduzindo o que a literature
afirma, podemos dizer que: (a) é um modelo que mantém a dimensão
responsiva ainda muito forte, apesar de também prever a dimensão
iniciativa do falante; (b) como a proposta laboviana, é também
unidimensional, com preocupação fundamental na audiência.
2.3. Penelope Eckert: comunidade de práticas
Diferentes dos modelos anteriores, a proposta de Eckert (2000,
2005) se baseia em uma abordagem construcionista social, assim como
as de Coupland (1985, 2007); Mendonza-Denton (1997); SchillingEstes (1998, 1999). Nessa concepção, a língua e a sociedade são vistas
161
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
como co-constitutivas: os traços linguísticos e os padrões de uso dos
falantes não são meras reflexões da identidade estática, como definida
nos primeiros estudos.
Para Eckert, os estudos variacionistas, ao longo dos anos, podem ser
vistos como verdadeiras ondas. Assim pensando, ela os reúne em três
ondas.
Os primeiros deles, ou seja a primeira onda, usa o modelo
quantitativo para examinar a relação entre variabilidade linguística e
restrições sociais, a exemplo de sexo, idade, classe social, etnia.
O foco nesses estudos está em capturar o vernáculo, procurando
encontrar os padrões na fala não consciente e também a fonte da
mudança linguística regular.
De forma sintética, a primeira onda assim se caracteriza:
-
estudo de comunidades geograficamente definidas;
hierarquia socioeconômica como um mapa do espaço social;
variáveis como marcadores de categorias sociais primárias,
conduzindo traços de prestígio/estigma;
estilo como atenção prestada à fala, e controlado por orientação
relativa ao prestígio/estigma.
Neste estudo, os dados coletados na Paraíba (VALPB) refletem esse
momento que Eckert denomina de primeira onda.
Outro momento que norteia os estudos sociolinguísticos diz respeito
ao que foi denominado de “segunda onda” (Eckert, 2005), caracterizado
pelos estudos etnográficos. Estes têm como foco comunidades
menores e objetivam identificar categorias sociais que são salientes na
comunidade. Os estudos etnográficos mostraram como as formas de
falar estão carregadas com o significado local.
A segunda onda, para Eckert, estabeleceu uma conexão com a
primeira onda e a dinâmica local, e assim se caracteriza:
162
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
-
estudos
etnográficos
de
comunidades
definidas
geograficamente;
categorias locais como links para as demográficas;
variáveis como categorias de indexação localmente definidas;
estilo como atos de afiliação.
A “terceira onda” focaliza o significado social das variáveis. Ela
vê o estilo, mais do que as variáveis, como associado diretamente às
categorias identitárias, e explora as contribuições das variáveis para
os estilos. Assim, ela parte da abordagem baseada no falar das duas
primeiras ondas, e vê as variáveis como localizadas em comunidades de
práticas. Uma comunidade de prática, segundo Eckert (2005, p. 16) é
um agregado de pessoas que, reunidas de forma regular, se engajam em
alguma iniciativa (uma família, uma classe linguística, um time esportivo,
mesmo uma pequena vila). Ao longo do engajamento, a comunidade
de prática desenvolve práticas. E essas práticas envolvem a construção
de uma orientação compartilhada para o mundo ao seu redor – uma
definição tácita delas mesmas em relação ao outro, e em relação a outras
comunidades de prática.
Para a autora, o indivíduo não existe isolado da matriz social, mas
a ela está ligado através de formas estruturadas de engajamento. O
indivíduo constrói uma identidade – um sentido de lugar no mundo
social – equilibrando a participação em diferentes comunidades de
prática, e em formas de participação em cada uma dessas comunidades.
E a chave para este processo inteiro de construção é a prática estilística.
Até agora, nos estudos de variação, o estilo tem sido tratado como
ajustamentos situacionais do falante no uso de variáveis individuais. O
outro lado do estilo é como os falantes combinam variáveis para criar
formas distintivas de falar. Estas formas de falar são uma chave para
a produção das personae, e as personae, por sua vez, são tipos sociais
particulares que se localizam de forma explícita na ordem social. Ao
estudar indivíduos, geralmente, os linguistas se impacientam. No entanto,
163
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
os indivíduos constituem algo muito importante sobre os quais temos
que aprender, e só na comunidade de prática é que se pode entender
sua prática individual. Por sua vez, o estudo etnográfico que busca
fornecer explicações para padrões de variação maiores deve selecionar
comunidades de prática que são de grande valor para esses padrões.
Uma vez que a “terceira onda” toma o significado social como
primário, ela examina não só as variáveis que são de interesse primário
para os linguistas, mas qualquer material linguístico que sirva como
um propósito social/estilístico. E, na mudança, ela desloca o foco das
categorias do falante para a construção da persona.
Quando pensamos sobre a relação entre variação e grupos sociais,
geralmente não são identificadas variáveis individuais. O significado da
variação está em seu papel na construção dos estilos, e estudar o papel
da variação na prática estilística envolve não simplesmente localizar
variáveis nos estilos, mas em entender esta localização como uma parte
integral da construção do significado social.
A terceira onda, então, leva o estudo da variação para uma nova
direção. Mais do que definir a variação em termos dos falantes que
usam as variáveis, ela busca os significados que motivam desempenhos
particulares.
A terceira onde pode ser assim caracterizada:
-
estudos etnográficos das práticas das comunidades;
categorias locais resultantes da construção de estâncias
comuns;
indexação de variáveis a estâncias, atividades, características;
estilo como construção da persona.
A proposta de Eckert é estudar o papel da variação na prática
estilística. Isto envolve não simplesmente localizar as variáveis nos
estilos, mas em entender esta localização como uma parte integral da
construção do significado social. Isto tem várias implicações para sua
164
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
visão de variação. Primeiro, as variáveis não se associam a um estilo com
um significado fixo, específico, mas assume o significado no processo
de construção do estilo. Isso leva a um segundo ponto: o estilo (como
a língua) não é uma coisa, mas uma prática. Ele é a atividade em que as
pessoas criam o significado social, o estilo é a manifestação visível do
significado social.
3. Análise e discussão dos dados
No Brasil, os vários projetos de base sociolinguística nunca deram
atenção às restrições estilísticas, sempre favoreceram as restrições
estruturais e sociais.
Apesar de não ter como objetivo estudos de cunho puramente
variacionista, o Projeto NURC foi um dos poucos que, na sua concepção
e implementação, contemplou possíveis estilos. Suas gravações foram
divididas em quatro tipos:
•
1º - Diálogo espontâneo (GS): 40 horas (10%);
•
2º - Diálogo entre dois informantes (D2): 160 horas (40%);
•
3º - Diálogo entre o informante e o documentador (DID):
160 horas (40%);
•
4º - Elocuções Formais (EF): 40 horas (10%).
•
Fonte: http://www.fflch.usp.br/dlcv/nurc/
Como podemos perceber, fica clara a diferença entre os estilos
casual e cuidado. Desconhecemos, entretanto, estudos decorrentes dessa
classificação que tenham avaliado como o estilo pode ter influenciado
esta ou aquela variação.
165
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
Outros Projetos, como PEUL, VARSUL, VALPB, ALIP, não
consideram, em sua coleta de dados, diferenças estilísticas, mas elas
podem ser detectadas a partir das entrevistas, que contemplam aspectos
formais e casuais, seguindo a proposta de Labov (1966).
No caso específico do VALPB, podemos encontrar questões que
contemplam o que Labov (2001) propõe em seu modelo arbóreo. Temos
as modalidades de uso formal e também casual. Resta saber se, para o
falante, ao longo da entrevista, são percebidas as variações estilísticas.
3.1. Sobre a palatalização das oclusivas dentais
Para este trabalho, utilizamos os dados do VALPB, elegendo quatro
informantes, sendo dois do sexo masculino e dois do sexo feminino,
estratificados quanto à escolaridade. Dessa forma, temos dois com mais
de onze anos de escolarização e dois com nenhum ano de escolarização.
Da entrevista, selecionamos duas passagens: uma que contempla o
estilo formal, falando acerca da “língua”, e outra, o casual, tratando
de questões de caráter bem pessoal. Com isso, pretendemos, em um
primeiro momento, ver se a palatalização das oclusivas dentais ocorre
variavelmente de acordo com o estilo suposto. É de se esperar que, ao ir
do estilo casual para o formal, o falante alterne as variantes dentais [t,d]
para [t,dʒ]. Em um segundo momento, interessa avaliar se o falante tem
consciência da variação que envolve essa variável.
Labov entende que a variação linguística pode ser detectada quando
as pessoas falam ‘menos cuidadosamente’ em alguns pontos da entrevista
mais do que em outros pontos. Quando elas estão mais relaxadas, elas
utilizarão traços do vernacular com maior frequência.
O primeiro informante é do sexo feminino, tem mais de onze anos
de escolarização e está na faixa etária de 15 a 25 anos. Ela não apresenta
nenhuma oscilação quanto ao uso das oclusivas dentais.
Esperávamos que ao falar sobre o uso da língua, o que na perspectiva
de Labov representa o estilo formal, ela se policiasse para usar a forma
palatalizada, uma vez que essa está relacionada ao padrão nacional.
166
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
Assim, no Excerto 1, transcrito a seguir, todos os ambientes favoráveis
à palatalização, a exemplo de “diferente”, “norte”, “tipo”, “diariamente”,
“corretamente”, “depende” etc., não foram considerados, e a realização
dental foi categórica.
Excerto 1: Estilo Formal
E*2 Você fala diferente?
I* Como assim diferente?
E* Diferente do pessoal do sul do país do norte do país?
I* Eu Eu acho que eu falo [dif-] eu acho que eu falo a a língua que é
do do do meu da do meu estado, né? Que é o é seø paraibana, se eu falo
diferente eu algumas coisaø que eu falo diferente, mas eu não sei o que
é alguma algum algumas rimas que eu falo diferente algum algum tipo
assim de palavra que eu sempre falo diariamente.
E* O que você acha da sua forma de falar?
I* O que é que eu acho da minha forma de falaø? Eu acho que eu
falo corretamente apesaø que eu às vezeø erro erro um pouco sabe? Mas
no início é erraø é humano, né? Nós não somos perfeitos em nadas.
E* Você acha que fala diferente das outras pessoas?
I* Se eu falo diferente das outras pessoas? Depende se foø se foø as
pessoas que com quem eu convivo eu acho que eu falo igual as pessoas
com quem eu convivo, se foø pessoas de alta sociedade. Se foø pessoas
de alta sociedade então é, são pessoas bem se foø, (hes) pelo menos
na no na minha na no meu estado eu falo, as pessoas a a com quem eu
convivo eu falo de acordo com elas, agora de outros de outros de outros
estados eu acho que eu falo diferente, porque eu já eu já fui em um
estado que eu falei diferente a o sotaque é diferente, as palavras, puxa
muito o “T” com com o “H”, eu falo diferente, ela fala de outro eles eles
acham interessante, eu acho também interessante, tem uns que mangam,
outros que não, aceita. Infelizmente, o pessoal num aceita o sotaque de
outro, né? Até aqui também na Paraíba existe isso, mays eu não ligo pra
essas coisaø não.
2
E* refere-se ao Entrevistador e I* ao Informante.
167
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
E* Você acha que todos os Brasileiros falam diferente?
I* Fala. Cada um tem uma maneira de se falaø, né? Eu acho que você
tem que aceitaø a maneira de cada um tem que se falaø. Se o carioca
fala dum dum jeito, o paulista fala de outro, o Gaúcho já fala de outro,
o paraibano já fala de outro, o pessoal, o Brasil em si, né? Os Paulistas,
os os cariocas achaø que o Paraibano é... são as pessoas que falam mais
erradas, diferentes mays, mais erradas eu não acredito nisso, se eles
viessem pra cá, eles se acostumavam com as com o sotaque daqui e
iam gostaø e iam deixaø de falaø carioca, mays eu respeito todos os os
sotaques, as palavras das pessoas.
Interessante observar que a informante tem consciência de que a
oclusiva dental existente em outras comunidades sofre mudança, o que
a diferente da sua. Para ela, a palatalização é representada quando se usa
um “t” seguido de um “h”.
A informante também tem consciência de que, no Brasil, temos uma
variedade de falares que marca as diferenças regionais. O sotaque para
ela não é algo que deva ser considerado errado, pois ele caracteriza as
diferentes comunidades.
A mesma informante não altera o uso das oclusivas dentais quando
utiliza o estilo considerado casual.
Excerto 2: Estilo casual
E* Numa situação dessa (hes) você já esteve alguma vez em uma
uma situação em que tivesse dito, estivesse correndo sério perigo de
vida, sério perigo de vida e tenha dito “chegou a minha hora”?
I* Já ocorreu. Foi no dia que eu fui assaltada um cara botou (risos)
uma faca em cima de mim e eu disse pronto chegou minha hora, quando
ele botou aquela faca em cima de mim eu já vi meu caixão ali pronto,
mays Graças a Deus. Eu eu deveria teø confiado em Jesus, mays não
confiei, mays ele ele achou que eu não [devi-] não era minha hora de
morreøainda e me salvou desse desse lamentável acidente.
168
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
E* Numa situação dessa algumas pessoas dizem: “Seja o que Deus
quiser”. O que você acha disso?
I* O que que eu acho do que dessa palavra, dessa frase “Seja o que
Deus quiseø”. Se ela disse seja o que Deus quiseø, pelo que ela vai agiø,
se ela achaø que é [cor-] que é correø então é isso que ela acha que é
correø, eu acho que Deus apesaø de tudo tá ali ajudando ela né? Mays às
vezes as pessoas acham seja o que Deus quiseø em vão, não acredita em
Deus, então acho quando ela diz “Seja o que Deus” se foø uma pessoa
que confia em Deus. Reza reza todos os dias é... Fala com ele é... pede a
nas horas mais difíceis, [rez-] fayz as suas orações, seus pedidos, eu acho
que essa pessoa quando diz “Seja o que Deus quiseø” ela tá seguro que
tá dizenøo e sempre Deus ajuda, agora se foø uma pessoa que joga o
nome de Deus em vão então essa pessoa não vai se saiø bem de uma
situação dessa, né?
Neste Excerto, que corresponde ao que Labov denominou de
“Perigo de morte”, a informante fala de suas experiências pessoais em
frente a uma situação de perigo. Com isso, a tensão em relação ao uso
da língua é bastante minimizada devido ao envolvimento com a própria
narrativa.
Palavras como “dia”, “disse”, “acidente”, “acredita”, “difíceis”,
“pedidos” etc. são todas realizadas sem o uso da palatalização das
oclusivas dentais [t,d].
O segundo informante é do sexo feminino, está na faixa etária entre
15 a 25 anos e nunca foi escolarizada. Apesar disso, ela tem consciência
de que pessoas de diferentes regiões falam diferentemente.
Excerto 1: Estilo formal
E* Você acha que fala diferente das pessoas de João Pessoa?
I* Se eu acho se eu falo diferente?
E* Hum, hum?
I* Sabe que eu nem reparei (risos). Eu num reparo pøa isso não. Eu
acho bonito o povo que fala pøa aqueles ladoø lá de baixo, né? Que o
povo chama é, o Riø de Janeiro; que tem aquele povo mesmo, gaúcho,
né? Que nasceu em em Porto Alegre, né? Aqueles. Acho muito bonito
169
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
mayø + eu num ligo, não. Num tenho nada contra [minha] meu jeito de
falar, não.
E* Hum, hum. E você acha que todos os brasileiros falam do mesmo
jeito?
I* Ah, fala nada! É como eu tô lhe dizenøo, né? O povo do Riø de
Janeiro fala carioca, o povo lá de Poøto Alegre, o povo que diø que é
gaúcho, né? E eles falaø assim meio atrapalhado. O povo de interioø,
Ave-Maria! É a maioø vergonha, todo mundo sabe. É aqueles negócioø
assim bem puxado, né? O povo de Recife, o povo diø que é meio
choroso. Não, mas quem fala mais feio é baiano, ô povinho que fala
feio, viu? Aquele é triste! E fala um negócio assim meio, parece que tá
assim meio, tudo cheio [de] dessas coisaø que o povo fuma agora, né?
Maconha, esses negócioø. O povo fica assim, meio assim, doidão. Eu
acho engraçado. Até os cantoø mesmo, né? E olhe que eu escuto muito
ráydo, aí, as músicaø quando toca, aí as voz dele é tudo diferente da do
povo. Acho é engraçado.
E* Você conhece alguém que fala diferente de você?
I* A minha patroa, que ela num é daqui, não minha patroa. Ela é de
Minas. Ela fala muito “UAI”, tudo dela é “UAI”, tem hora que enche,
sabe? Mas a gente num pode dizeø nada, né? E tem umas muléø lá da
rua também fala diferente, só porque foi pøo Rio de Janeiro, passou dois
mês, aí chegou falanøo carioca. Chegou assopranøo, quem já se viu isso?
Se pelo menos tivesse passado cinco anoø, oito anoø, mayø não. Vai,
passou dois mês lá na favela e veio assopranøo pøo lado da gente ,é um
povo besta!
A informante tem consciência de que há traços que diferenciam
os falares, tais traços vão de marcadores discursivos, como o “uai”
dos mineiros, a traços prosódicos, como quando se refere ao falar
das pessoas de Recife e da Bahia. Quando se refere ao falar do Rio
de Janeiro, menciona algo bastante interessante. Embora não utilize a
terminologia adequada, ela tem consciência de que a palatalização das
fricativas é uma marca dessa comunidade. Esse processo é identificado
como “assoprano”.
170
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
Em relação ao uso das oclusivas dentais, mesmo em ambientes que
favoreceriam a aplicação da reagra de palatalização, como “diferente”,
“dizeno”, “di”, “triste”, “gente”, “tivesse” etc., a variação não se dá. A
preferência é sempre pela forma dental.
O mesmo vai ocorrer quando passa para o estilo casual, como no
Excerto 2.
Excerto 1: Estilo casual
E* Você já esteve em uma situação difícil que precisou da ajuda de
alguém?
I* Já.
E* Como foi?
I* Foi lá na casa da minha patroa. O: bujão de gás, né? Eu fui trocaø
aí eu sei lá o que foi que eu mexi lá errado que. É, logo quando eu +
comecei a trabalhaø. Aí o bujão lá, né? Faltou o gáys, tava a panela no
fogo, a panela de pressão, né? Tava nesse dia eu tava fazenøo uma fava.
Ela ia chamaø uns amigoø dela pøa lá, né, tudinho pøa comeø, quando
veø faltou o gáys, aí eu fui veø se eu trocava, né? Tirei o bujão acabado
e peguei o cheio, mayø eu num sei num sei se foi a rosca [do] + da
manguêra do bujão, né? Eu num sei como é que chama aquilo, sei lá o
que foi que deu na na rosca! Eu sei que começou a saiø aquele catingão
por dentøo de casa e começou a fazeø aquele barúi, né? aquele “xiii”! Eu
sai danada gritanøo, chamei a muléø assim da casa vizinha, aí a muléø
correu, aí “Abra a janela! Abra a janela!” pøo gáys saiø, né? Vai que
qualqueø coisa ali dava o maior incêndio. Aí eu peguei corri pro meio
da rua, fiquei gritando, chamandøo os homeø, né? Pøa veø se parava
alguém pra ajudarø a gente; e a muléø lá dentøo sozinha! Eu, com um
medo danado, deixei a muléø lá. Quando veø, num sei se você já passou
ali num tem o quartel? Aí fica os guardaø, né? Passanøo.
Palavras como “dia”, “tudinho”, “tirei”, “catingão”, “gente” não
sofrem aplicação da regra de palatalização.
171
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
Comparando a fala dos informantes do sexo femininos, observamos
que, no que concerne ao uso das oclusivas dentais e as diferenças de
estilo, não há o que assinalarmos, uma vez que, na passagem do estilo
formal para o casual, não há implementação da regra considerada padrão
nacional, mesmo que dela tenha consciência a falante com mais de onze
anos de escolarização.
A partir dos excertos selecionados aleatoriamente, retomamos uma
de nossas questões: sera que os falantes têm consciência de que estariam
diante de estilos diferenciados, o primeiro como formal e o segundo
como casual? Nossa resposta à pergunta é não. A avaliação da mudança
de estilo, nesse caso, é percebida apenas pelo pesquisador.
Vejamos, a seguir, como se comportam os informantes do sexo
masculino.
O primeiro deles tem mais de onze anos de escolarização e está na
faixa etária correspondente a mais de 50 anos.
Excertos selecionados têm as mesmas características daqueles
selecionados para os informantes do sexo feminino.
No que concerne à aplicação da regra de palatalização, o informante
não a aplica em nenhum momento, mesmo quando o ambiente é
favorável, como em casos do tipo “exigente”, “de”, “diz”, “dizer”,
“tipo”, “ambiente” etc. O fato de estar usando um estilo considerado
formal não interfere no uso.
Excerto 1: Estilo Formal
E* O que você acha da sua forma de falar?
I* A minha forma de falar é tão simples, moça. Eu não gosto de
complicar as coisas não. Eu gosto de falar as coisas que vêm de dentro.
Agora, pra escrever eu sou mais exigente comigo mesmo, eu sou mais
mais caprichoso. Mas pra falar eu eu eu falo assim simples, às vezes eu
falo até até como se chama, gíria. Eu falo gíria, vicio de linguagem eu
uso. Porque quando eu tô, ás vezes num determinado setor que eu vejo,
que a pessoa diz uma palavra, que é a palavra, que eu [conhe] que eu vejo
mais é que diz assim: “Ai, essa coisa tá tão rim!”. Rim, eu acho que rim
172
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
(gaguejo) é esse órgão que a gente tem né? Mas ninguém sabe aprender
dizer ruim. Mas se eu quiser dizer na hora, eu digo é [rui] eu aí eu paro.
Aí eu tenho que dizer rim também. Quer dizer é esse tipo de coisas. Que
eu conheço muitas palavras e que eu não uso, a não ser que eu esteja
dentro dum dum setor seleto, que peça, que exija, aí eu falo do jeito que
o ambiente me permitir. Mas se não for isso eu não falo comumente.
Acho que você vai ver na entrevista como eu falo, né?
Se deixarmos de considerar a proposta laboviana para a variação
estilística, observamos nesse excerto que a fala do informante se encaixa
tanto na proposta de Bell (1984) quanto na proposta de Eckert (2000).
Ele tem consciência de que pode alterar sua forma de falar de acordo
com o ambiente. Ou seja, de acordo com a audiência, o que também
pode ser entendida como uma possível comunidade de prática.
Essa flexibilidade consciente, ao contrário do que vimos
anteriormente com as falantes do sexo feminino, denota que o falante
tem domínio sobre a variação estilística.
Ao mudarmos do estilo formal para o casual, não houve alteração
quanto ao uso das oclusivas dentais, uma vez que a regra de palatalização
não foi aplicada.
Excerto 2: Estilo casual
E* Você já perdeu alguém muito querido?
I* Já.
E* Como foi?
I* Dentro de dentro de um mês eu perdi duas pessoas queridas.
Primeiramente, perdi meu pai em Setembro, vinte e um de setembro de
oitenta e quatro. Meu pai foi fazer uma operação, ela já com oitenta e
três anos e faleceu. Quando foi em outubro, vinte e um, a minha esposa
já tava hospitalizada no Prontocor. Perdi também esposa. E com seis
meses eu perdi um irmão, que era fotógrafo lá do IPEP; trabalhava no
IPEP, naquele setor de raio X. Mas meu irmão morreu de graça, porque
ele não se protegia. Ele batia na radiografia, mas não se protegia com
aquele com aquele colete de de chumbo. Foi as três pessoas que que [ain]
173
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
hoje ainda tenho memórias deles. Ainda e a gente ainda chora, às vezes
[ain] nas horas vagas nós chora por eles. Dez anos, né?\
Palavras como “perdi”, “primeiramente”, “vinte”, “batia” etc. têm
sempre as oclusivas dentais realizadas como tais, sem aplicação da regra
de palatalização. Isto nos leva a crer que, para o informante, a mudança
de estilo não é percebida ou que o fenômeno linguístico controlado lhe
é indiferente, podendo, assim, estar abaixo do nível de consciência.
O segundo informante não é escolarizado e está na faixa etária de
15 a 25 anos.
Pelo excerto selecionado, classificado como estilo formal,
constatamos que, em palavras como “diferente” e “educadamente”, não
foi aplicada a regra de palatalização.
Fica evidente pelo excerto, que o falante não tem consciência de
qualquer aspecto segmental que identifique os falares brasileiros, como
aconteceu com os falantes anteriores. A sua concepção de falar bem
está atrelado à forma educada de falar. Sua avaliação, pois, está ligada a
questões mais estéticas do que de qualquer outra ordem.
Excerto 1: estilo formal
E* Você acha que fala diferente das ô0tras pessoas daque de João
Pessoa?
I* Que eu falo diferente? Eu me0mo não. Num acho não.
E* E do resto dos brasileiros, você fala diferente?
I* Não. É mai0 me0ó0 fica0 falan0o do que fica0 sen0o mudo, fica0
calado.
E* O que você mudaria no seu jeito de falar?
I* Eu? Eu num + num mudaria nada. Minha voyz é bonita, eu acho minha
voy0 bonita + só.
E* Todos os brasileiros falam do mesmo jeito?
I* Fala0. Fala0, eu acho que fala0. Fala, brasile0ro é brasile0ro.
E* Você conhece alguém que fala diferente de você?
I* Não, ãh. ãh.
174
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
E* O que é falar bem para você?
I* Fala0 bem? Fala0 bem é a pessoa fala0 direito cum as pessoa0, fala0
bonito. Fala0 educadamente.
O mesmo comportamento podemos constatar no Excerto 2 em
palavras como “tinha”, “sete”, “gente” etc.
Excerto 2: estilo casual
E* Como foi a sua infância?
I* Infância? Eu comecei logo quan0o eu,parece que eu tinha uns +
sete ano0. Eu comecei logo lavan0 carro, é: vô0 dize0 logo p0á você aqui,
que isso vai fica0 só prá gente me0mo + rô0bei um pô0quinho, ali no
Centro Administrativo, ali sabe? E agora tô nisso. Comecei a trabalhá0.
E* Que brincadeiras você mais gostava na infância?
I* Futebol.
E* E que estória você mais gostava de ô0vir? Contar estória de: que
pessoal mais velho contava?
I* Ah! Era de umas vaca0, umas vaca0 que tinha0 lá, umas vaca0 +
umas vaca0 que tinha uns bezerro0. Fay0 tanto tempo, may0 era uma
coisa de uma vaca aí que tinha uns bezerro0 aí de repente + o bode
queria também mama0 na vaca aí aconteceu um bocado de coisa aí,
may0 fay0 tanto tempo.
E* Conte alguma aventura da sua infância.
I* Ah! Foi quan0o eu rô0bei a prime0ra veyz. Le:vei uma carre0ra +
Foru0 me de0xa0 quase em casa, a polícia ainda deu umas pancada0 em
mim, sabe, porque eu me0mo, eu me0mo cheguei cheguei, aí a senhora
+ vô0 dize0 mai0 como foi. Eu cheguei, a senhora tava passan0o, eu fui
e peguei a bolsa dela, saí corren0o. Aí o policial + sairu0 corren0o atray0
de mim, meteu o cacetete na minha boca que quebro0 meu dente. Aí: foi
a pió0 aventura. Pió0 aventura que eu [tamb] passei foi essa.
Considerando o processo de palatalização das oclusivas dentais entre
os informantes selecionados, constatamos que ele não é aplicado por
nenhum deles, o que significa que o uso da variante detal é categórico.
175
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
Assim, a mudança de estilo, no moldes labovianos, não condiciona a
aplicação da regra.
Dos quatro falantes avaliados, apenas um, o informante do sexo
feminino e com mais anos de escolarização, demonstra ter consciência
de que a palatalização das oclusivas dentais é um traço diferenciador de
falares. Os demais não demonstram ter consciência dois possíveis usos
presentes na comunidade.
Retomando as hipóteses formuladas na Introdução, um dos falantes,
aquele do sexo masculino e com mais anos de escolarização ratifica,
em parte, a hipótese de que a mudança de estilo do falante não está
condicionada aos elementos da situação de fala, mas ao uso de seus
próprios recursos estilísticos. Ele tem consciência de que a formalidade
e a audiência podem moldar a sua maneira de falar, e, além disso, usa
seus recursos variáveis dependendo do ambiente em que esteja. Dessa
forma, ele também ratifica a segunda hipótese, quando usa sua fala para
marcar sua identidade.
Quanto a essa segunda hipóstese, além deste último informante,
também os informantes do sexo feminino a ratificam. As duas falantes
marcam suas identidades usando suas maneiras de falar características de
uma determinada comunidade.
Em relação à terceira hipótese, aquela que diz respeito à consciência
correlacionada aos anos de escolarização, em parte ela é ratificada, uma
vez que dos quatro informantes, três demonstram ter essa consicência.
O que concluímos em relação à análise do processo de palatalização
das oclusivas dentais é que, embora estejamos diante de uma regra que
se aplica em boa parte do território brasileiro, ela pode ainda estar abaixo
do nível de consciência dos informantes na comunidade paraibana.
Também abaixo do nível de consciência pode estar a variação estilística,
se a considerarmos apenas na perspectiva laboviana.
Não podemos deixar de frisar que os aspectos contextuais e
situacionais podem ter uma forte influência na seleção do uso, como
bem demonstra o segundo informante, que utiliza a língua para construir
a sua identidade.
176
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
3.2 Sobre o uso do rótico
Para análise do rótico, utilizamos dados de quatro paraibanos
residentes em São Paulo há mais de cinco anos. Desses, dois são do sexo
masculino e dois do sexo feminino. A idade varia entre 36 e 52 anos. Dos
quatro, dois têm Curso Fundamental Incompleto (um do sexo feminino)
e outro do sexo masculino). Dos outros dois, o do sexo masculino tem
o segundo grau completo e o do sexo feminino tem Curso Superior
completo. A ideia é opor os que têm mais anos de escolarização aos que
têm menos anos.
Como em relação ao uso das oclusivas dentais, selecionamos
excertos caracterizados de acordo com a abordagem laboviana sobre
estilo, classificando-os como casual e formal. Os referentes ao estilo
casual tratam de situações cotidianas, e os referentes ao estilo formal
dizem respeito ao uso da língua.
A esses dados aplicamos os mesmo pressupostos utilizados em
relação às oclusivas dentais, buscando responder às perguntas formuladas
na Introdução e testar as hipóteses que ali se encontram.
O primeiro informante é do sexo masculino, tem 36 anos e concluiu
os segundo grau. Vive em São Paulo há 23 anos.
Uma avaliação geral dos excertos selecionados nos permitem
concluir que ele não altera o uso do rótico, substituindo a forma
aspirada, marca do falar paraibano, pelo tepe, marca do falar paulistano.
Independentemente de o estilo ser casual ou formal, seu uso é categórico.
Isto nos leva a concluir que, pelo menos em relação ao rótico, não se deu
ainda um processo de acomodação.
Excerto 1: estilo casual
Doc3 – O que te fez vir pra cá?
Inf – Olha, eu, eu tinha um sonho bobo de criança, assim, era criado
pelo meus avós, e... no sítio aonde não tinha luz, a luz era lampião, fogo
3
Nas entrevistas dos paraibanos residentes em São Paulo, “Doc” corresponde a documentador
e “Inf ” corresponde a informante.
177
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
de conzinhar era fogo a lenha, essas coisas assim né, e o meu maior
sonho era possuir uma televisão, o qual eu lembro até uma uma coisa
que... tinha uns vizinho... uns vizinho mais ou menos uns quinze vinte
quilômetro dali, de distância, que a gente ia lá pra gente assistir, só que
o dono não gostava muito que era muita criança (es)tava indo querendo
assistir, então ele colocava a gente pra fora e a gente ficava disputando
a fresta da da porta, nem sei eu tinha o que, uns sete ano por aí, então
era aquela brigaiada da molecada, imagina só aqueles moleque tudo
brigando pelo um buraquinho, pa cada um assistir um pouquinho, e isso
o cara abria a porta, corria atrás da gente, era uma loucura, então eu fui
crescendo e a minha imaginação era de um dia possuir uma televisão
pra mim sozinho. Então, quando o os meus pais morando aqui éh...
éh... fez um convite pra mim passar umas férias aqui, eu vim no intuito
de... trabalhar, de comprar essa televisão e de ir embora de volta né, que
meus meus avós (es)tava lá, eu era acostumado a morar com eles, então
eu vim e realmente eu comprei a televisão, mas nesse meio-termo foi
aonde faleceu o meus avós e então eu não tive mais... éh gosto de voltar
a morar lá.
Palavras como “porta”, que aparece duas vezes, e “termo” são
realizadas com o rótico aspirado. O mesmo acontece com a realização
de palavras como “forma”, “vergonha”, “conversando”, “participar”
que estão presentes no Excerto 2 relativo ao estilo formal.
Excerto 2: estilo formal
Doc – Quando você conversa com alguém (vo)cê presta atenção no
jeito que a pessoa fala?
Inf – Sim, sim. Eu aprendi muito aqui na na Letras, porque assim,
você, como eu te falei, tem uma variação linguística que você trabalha
na, sa/ trabalhei em obras, trabalhei de auxiliar no no Mappin, então,
tudo tem uma forma de de expressão, e quando eu trabalhei na Letra,
na, aqui na USP, a variação ela ela é totalmente mais consistente, mais
correta, então nesse ponto aí, eu, toda vez eu fui atencioso, mas aqui...
eu sou mais.
178
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
Doc – E conversar com professores também, né.
Inf – Exatamente, mas aí aquela coisa, éh você... que tem aquela, a a
minha variação em casa é uma e aqui é outra, mas você chega uma hora
que você tem que falar... a tua, do do teu jeito, desde que seja correto, né.
Que é claro, tem, conhece palavras que significa várias palavras, então é
o seguinte, eu falo do meu jeito desde que seja correto, claro dou uma
pensadinha e falo o o correto, e não tenho vergonha, o eu antigamente
eu tinha, sentar assim (es)ta(r) conversando com você, com algum
professor, e o que me ajudou foi participar dessas comissão, dessas
coisa, ter chefe de de, da todas as áreas (tosse). Então, éh, outro sotaque,
então você vai, (vo)cê vai prestando atenção e isso eu tenho melhorado
muito a forma de de, sabe, de lingüisticamente (es)ta(r) conversando
entre professores, às vezes, assim em casa eu (es)to(u) conversando, olha
“mas que é isso que (vo)cê (es)tá falando?” (...), assim, aí eu volto (tosse),
mas é muito bom isso.
Se observarmos o excerto 2, o falante assume que, em ambientes
diferenciados, utiliza a língua também de forma diferente. Isso respalda
tanto a proposta de Bell (1984) quanto a de Exckert (2000). Seu ambiente
de trabalho e sua casa constituem duas comunidades de práticas
diferentes, e, por sua vez, seus destinatários também o são.
A sua alternância não está, podemos inferir, vinculada a aspectos
segmentais, mas, principalmente, a aspectos lexicais, considerando
que seus familiares não devem ter o domínio do mesmo léxico que ele
emprega quando está no ambiente de trabalho.
Algo também interessante a acrescentar é o fato de o informante
ter consciência de que aqueles que o rodeiam no ambiente de trabalho
têm sotaque diferente do seu, e ele o avalia poistivamente, o que pode
conduzir a uma possível mudança futuramente.
O segundo informante, também do sexo masculino, tem 30 anos,
possui o Curso Fundamental Incompleto e reside em São Paulo há
quinze anos.
179
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
Diferente do informante anterior, ele alterna o uso do rótico, tanto
no estilo casual, em palavras como “verdade”, “porque”, “irmão”,
“divergência”, como no estilo formal, a exemplo de palavras como
“porque”, “firma”, “argentino”, nordestina”. Para esse mereceria uma
avaliação quantitativa, o que não fizemos.
Excerto 1: estilo casual
Inf: É, na verdade a minha vida na Paraíba ela foi um pouco meio
complexa né, porque a minha mãe teve um... eu fora do casamento dela
e foi o último filho dela, então isso criou tipo uma... como se dize(0)
assim uma rejeição pelos outros irmão por não ser do mesmo pai e da
mesma mãe
Doc: Ahã
Inf: E nesse meio tempo a gente... o meu pai também não quis
saber de mim, minha mãe também não desamparou, aí eu fiquei com a
minha mãe até os quinze e desde os nove saí pra trabalhar pra também
ajudar minha mãe que o outro pai também deixou pelo fato dela ter...
acontecido essa divergência né...
Doc: Hum hum
Inf: Enfim, daí a gente... eu comecei a trabalhar desde os nove e
aos quinze vim pra São Paulo pra casa da minha cunhada, vim passear,
conhecer... aí fiquei por aqui
Uma avaliação mais cuidadosa desse informante leva-nos a concluir
que ele tem sofrido forte influência dos diferentes ambientes em que
vive, principalmente referente ao trabalho. O seu relacionamento com
pessoas de origens diversas pode ser um fator que o está conduzindo
mais rápido a um processo de mudança, como pode ser observado no
Excerto 2.
Excerto 2: estilo formal
E: Entendi, e aqui no Brasil, qual é o sotaque que você mais gosta,
quando você ouve alguém falando assim do sul, do norte, do nordeste...
180
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
I: Eu acho assim... aqui em São Paulo eu acho muito difícil você
ter um sotaque específico. Porque você trabalha com gente de todos os
país, de todos os lugares... tem, tem... na firma tem japonês, coreano,
argentino... que a gente não gosta, que devia ta lá na Argentina e não
aqui no Brasil, mas tem em todo lugar, então não tem assim uma cultura
específica, uma cultura específica que eu prezo muito é a minha cultura
de ... das minhas comida nordestina que são tradição, que eu não deixo
de comer não tem como
E: Mas quando você ouve alguém falando você assim, você gosta
mais do sotaque da Paraíba do que de são Paulo?
I: Eu acho que assim... eu não.... o que eu gosto mais do sotaque é
do paulista, porque eu acho que o paulista fala malh/ melhor, fica até
mais fácil de você até falar com uma pessoa que fale melhor, que você
entende mais.
Interessante salientarmos que ele preza a cultura nordestina, mas
avalia negativamente a maneira como seus conterrâneos falam. Sotaque
e língua para ele se confundem. O fato de ele gostar do sotaque paulista
contribui para o processo de acomodação. Considerando que o uso
do rótico pelo paulistano é bem diferente daquele empregado por
paraibanos, isso pode ser mais um fator para justificar o processo de
variação desse informante.
Mais uma vez, a comunidade de prática a que o falante pertence
pode ser um fator decisivo no processo de variação, muito mais do que
o nível de formalidade ou informalidade da língua empregada.
O terceiro informante é do sexo femino, tem 45 anos, possui Curso
Superior Completo e reside em São Paulo há mais de cinco anos.
Independentemente de o estilo ser casual ou formal, ela não usa,
em momento algum, o rótico paulistano. Categoricamente, seu uso
é sempre o rótico aspirado, como falado na Paraíba. Palavras como
“acordo”, “porque”, “mercado”, “acordou”, com contextos favoráveis
ao emprego do tepe, e encontradas no Excerto 1, classificado como
estilo casual, são realizadas com o rótico aspirado.
181
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
O mesmo acontece com palavras como “percebo”, “percebe”,
“porta”, presentes no Excerto 2, classificado como estilo formal.
Excerto 1: estilo casual
Inf. Eu vim pra São Paulo por pelo pelo coração né? É que eu casei
e... tinha essa indefinição de de ou eu vinha morar aqui ou P. ia morar lá e
ficou a gente a gente entrou em acordo que ficaria melhor que eu viesse
porque era mais fácil de eu arrumar emprego aqui do que ele arranjar lá
porque a área dele lá é muito restrita qualquer área a minha também era
mas eu já tinha um emprego lá mas o meu emprego assim em qualquer
lugar eu podia arranjar o dele é muito especifico e lá não tem muito
mercado então a gente acordou que ao invés de ele ir pra lá eu vinha
morar aqui em São Paulo
Essa informante tem plena consciência de que o “rótico” é a
caracteristica mais marcante da fala de São Paulo, como podemos ver no
Excerto 2, mas ela se mantém fiel àquele empregado na sua comunidade
de origem.
Excerto 2: estilo formal
Doc: Como é o da Paraíba? Você saberia descrever pra mim como é
o sotaque da Paraíba?
Inf: Acho que é arrastado é assim é bem cantado né? É diferente
do baiano né? Não sei se você já viu. O baiano ele fala como é que
o baiano fala é diferente o da gente o meu é bem arrastado quando
eu ouço eu falando eu não percebo muito mas quando eu ouço um
paraibano falando na televisão a gente percebe né? Olha só a gente fala
assim mesmo arrastadinho assim meio cantado
Doc: E do pessoal de São Paulo o que você acha do que eles falam?
Inf: Acho bonito acho bonito. Eu acho bonito e é como eu te falei
eu não acho que o paulista tenha muito sotaque
Doc: Que que vocês acha que é a característica mais marcante da
pessoa aqui de São Paulo na fala?
182
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
Inf: Na fala? É é o r que tem o som de /re/ né? É por exemplo
poRta né que eu digo poRta ai aqui diz porta né?
Avaliando o Excerto 2, podemos constatar que a informante tem
consciência da diferenciação prosódica que caracteriza os diferentes
falares. Seu uso linguístico é consciente, e o fato de não discriminar
falares, avaliando-os sempre positivamente pode estar contribuindo
para que ela não assimile a marca local. Diferente, por exemplo, do que
acontece com o segundo informante.
O quarto e último informante é do sexo feminino, tem 52 anos,
possui Curso Fundamental Incompleto e reside em São Paulo há 16
anos.
Essa informante, como o segundo, alterna o uso do rótico, entre o
tepe e o aspirado, independentemente de o estilo ser casual ou formal.
Palavras como “parque”, “parquinho”, “jardim”, “carpe”,
“guardinha” etc., presentes no Excerto 1, ilustram o processo de variação.
Assim, como “porque”, “norte”, “certa”, “certo”, “porta”, presentes
no Excerto 2, característico do estilo formal. Essa informante também
merecia ter seus dados tratados quantitativamente.
Excerto 1: estilo casual
Inf:Fica aqui no Parque do Pedroso, não tem o Parquinho do
Pedroso, ele trabalha do lado.
Doc: E o que que ele faz como jardineiro?
Inf:Ele faz jardim, carpe, p(r)anta...
Doc.:E faz tempo que ele trabalha aí
Inf.: Faz vinte e sete anos
Doc:Vinte e sete anos? Como jardineiro?
Doc: E as suas filhas, trabalham?
Inf: Ah, essa agora casou não tá trabalhando e essa outra também ela
fez a guardinha, trabalhou dois anos, agora ela, ela saiu, né, completou
os dois ano, não tinha vaga pra ela ficar trabalhando, aí ela ficou
aguardando, agora tá esperando eles chamarem de novo pra trabalhar.
183
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
Aí ela fez entrevista a semana passada tá esperando pra ver se vai chamar
pra traba(i)ar...
A informante avalia negativamente o falar do “norte”, que
corresponde ao falar “nordestino”, mas tem dificuldade de dizer o que
o torna diferente do falar paulistano. Quando o faz, refere-se ao léxico,
ilustrando com a forma “butar”, muito comum entre paraibanos.
Excerto 2: estilo formal
Doc.: Você presta atenção no quê? No jeito que elas pronunciam as
letras?
Ent.: É, no jeito que elas... eu presto atenção assim no jeito que elas
fala, né, pra gente não falar errado, né, porque o povo assim
do norte fala muito errado, né, muita coisa errada, né
Doc.: O que que é errado?
Ent.: Palavra errada, não fala a, não pronuncia a palavra certa, né...
eles sempre pronuncia a palavra errada
Doc.: Vamos pensar numa palavra que pode... que o pessoal fala
errado...
Ent.: É tem, que é mais fácil assim que a gente lembra é esse negócio
assim que aqui a gente fala “ah, vou por, vou botar essa coisa
aqui”, né, lá não, lá eles fala é...ai, como que é...é “butá”, é
“butá”, você acha que “buta” tá certo “butá”? É, não sei, eu...
Ent.: É, é mais o que eu lembro assim, né
Doc.: Por exemplo “por”...
Entr.: É, “por” pra eles lá é galinha, né, não tem .... lá não existe, né.
Doc.: Não se usa lá?
Ent.: Não, não usa
Doc.: É “butá”
Ent.: É, tem que “butá”
Doc.: E...deixa eu ver...como que você chama isso daqui? Como que
você fala isso daqui?
Ent.: Ah... é armário.
184
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
Doc.: É, todo ele é o armário, e essa parte?
Ent.: Ah...
Doc.: Só essa parte aqui...
Ent.: Ah...
Doc.: Isso que eu fecho...
Ent.: Ah... é a porta
Doc.: Então...aquele é o armário, esse aqui é a...
Ent.: A porta ... lá a gente chama porta, né, não sei como é porta, né
Doc.: É, é porta, né. E aqui em São Paulo,como falam?
Ent.: Não é porta também?
Doc.: É, é o mesmo nome, né
Ent.: Abridor, né
Doc.: Não, é o mesmo nome, mas você acha que pronuncia igual?
Ent.: Ah...eu acho que é igual, né?
Doc.: É igual? Fala de novo?
Ent.: É porta, né
Podemos constatar a partir do Excerto 2, que a informante não
demonstra ter consciência da variação dialetal entre as comunidades
paraibana e paulistana, quando questionada sobre o uso do rótico na
palavra “porta”. Isso pode ser um indício de que a sua variação no uso
está abaixo do nível da consciência.
Em relação ao uso dos róticos pelos paraibanos residentes em São
Paulo há mais de cinco anos, constatamos que aqueles com mais anos
de escolarização são os que não o empregam variavelmente, ao contrário
daqueles com menos anos de escolarização.
São também os que têm mais anos de escolarização que demonstram
ter consciência de que o rótico tepe é uma marca do falar paulistano.
Outro aspecto que constatamos é que a variação estilística entre os
falantes menos escolarizados não influencia a alternância de uso, ela
ocorre independentemente de o estilo ser casual ou formal.
185
A Variação Linguística e as Restrições Estilísticas/Linguistic Variation and the Styistic Constraints
A postura dos informantes sobre o uso da língua, principalmente os
do sexo masculino, é um forte indício de que o contexto social é um dos
principais favorecedores na escolha da variação estilística.
Considerações finais
Os dados avaliados nos levam a concluir que o fato de o estilo ser
formal ou casual não condiciona a escolha de uma ou outra variável,
isto tanto em relação às oclusivas dentais entre paraibanos residentes em
João Pessoa, como em relação aos róticos entre paraibanos residentes
em São Paulo (capital).
Dos dados observados, fica clara a diferença de postura avaliativa
entre falantes com mais e com menos anos de escolarização. Aspectos
segmentais que envolvem, por exemplo, os róticos e as oclusivas
dentais são percebidos mais facilmente pelos falantes com mais anos
de escolarização. de escolarizados. Os menos escolarizados, por sua
vez, percebem com mais facilidade aspectos prosódicos que marcam as
diferenças dialetais.
A alternância de uso, como alguns informantes demonstraram, está
muito mais correlacionada ao ambiente, à situação, ao contexto social.
Isto ratifica a proposta de Eckert e, em parte, a proposta de Alan Bell.
O que podemos concluir do que avaliamos é que a compreensão da
variação estilística passa pela necessidade de buscar outras explicações
alternativas, associadas, por sua vez, ao que norteia a teoria da acomodação
e os estudos atitudinais. Isso associado a uma postura metodológica
específica.
186
Dermeval da Hora e Leo Wetzels
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188
DESENVOLVIMENTO
LINGUÍSTICO
NA
AQUISIÇÃO DE PORTUGUÊS L2 (ESCRITO) POR
SURDOS: A ESTRUTURA DO SINTAGMA NOMINAL
Heloisa Maria Moreira Lima-SALLES
Universidade de Brasília (UnB)
Lilian Coelho PIRES
Universidade de Brasília (UnB)
RESUMO
O estudo examina a interlíngua de sinalizantes da Língua de Sinais Brasileira aprendizes
de português como segunda língua, considerando, em particular manifestação de definidos
(no singular e no plural) e de nominais nus (no singular e no plural). A alta frequência de
nominal nu no singular é analisada como transferência de L1, já que a LSB não possui
artigos (definidos). Partindo-se da hipótese de que a categoria de número é interpretável no
DP definido, propõe-se que o desenvolvimento linguístico ocorre mediante o mapeamento de
propriedades morfo(fono)lógicas do artigo definido (plural) na projeção do núcleo funcional
Número.
ABSTRACT
The study examines the so-called interlanguage of learners of Portuguese as a second
language (L2) who have the Brazilian Sign Language (LSB) as their native language
(L1), considering the occurrence of definite (singular and plural) and bare nouns (singular
e plural). The high frequence of singular bare nouns is analysed as a transfer of L1
properties, given that LSB does not have definite articles. We assume the hypothesis that only
interpretable (formal) features are accessible in (second) language acquisition, the mapping of
the morphophonological properties of the DP being obtained through the Number category,
which is as interpretable.
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 189-208. 1ª parte 2011
Desenvolvimento Linguístico na Aquisição de Português L2 (Escrito) por Surdos: A Estrutura
do Sintagma Nominal
PALAVRAS-CHAVE
Aquisição de Segunda Língua (AL2). Definitude. Língua de Sinais Brasileira.. Nominal
Nu. Número.
KEY-WORDS
Bare Noun. Brazilian Sign Language. Definiteness. Number. Second Language Acquisition
(AL2).
Introdução
Neste trabalho, examinamos a estrutura do sintagma nominal/
determinante (DP) na interlíngua de sinalizantes da Língua de Sinais
Brasileira (L1), na aquisição de português (escrito) como segunda língua
(L2). Os dados foram obtidos por meio de atividade didático-pedagógica
com 30 alunos do Ensino Médio, sinalizantes da LSB, em três escolas
da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. A atividade
consistiu em uma produção escrita em português, em que se abordava
tema extraído do componente curricular Biologia. Todos participantes
surdos são fluentes na LSB. O conhecimento de português (L2) (escrito),
por sua vez, é obtido no contexto da educação formal, no processo
de escolarização. O problema lógico da aquisição de L2 formula-se
com base na hipótese de que o conhecimento linguístico dos falantes
não-nativos, definido como as gramáticas subjacentes da interlíngua,
exibe propriedades das línguas naturais (cf. WHITE, 1989, 2003), o
que permite supor que seja determinado pela Gramática Universal (cf.
CHOMSKY, 1986).
Em particular, é examinada a interlíngua do surdo (aprendiz de
português L2) em relação à estruturação do DP, em que se identificam o
nominal nu no singular e no plural), e o nominal definido, no singular e
no plural, conforme ilustrado em (1) a (4):
190
Heloisa Maria Moreira Lima-Salles e Lilian Coelho Pires
(1)
(2)
(3)
(4)
[(...) peixe morreu tudo acabou peixe não tem nada peixe]
(SE27p)
[Lá no Lagoa Paranoá tem muitos peixes morrendo, porque
tem cheio de esgotos (...)] (SEp17)
[O peixe prescisa de água saldavel para sobrevive e no
momento não tinho foi por isso que aconteceu o mal cheiro, a
poluiçâo e a mortalidade do peixes.] (SCp16)
[As algas gostam muito das esgotos, se as algos alimentar os
esgotos e poderá aumentar a taxa de crescimento e aumentar
a substância tóxica, e os peixes podem morrer (...)] (SE11p)
Constata-se, nos dados, alta frequência do nominal nu (singular e
plural), a qual é analisada como efeito da transferência da L1, já que a
LSB não possui artigos. Na sequência decrescente da taxa de frequência,
consta o nominal definido plural e por último o definido singular.
Os dados do grupo controle foram colhidos em evento semelhante,
envolvendo ouvintes, falantes nativos de português, matriculados no
1º. Ano do Ensino Médio, em contexto de ensino-aprendizagem do
componente curricular Biologia, identificando-se igualmente uso variável
da estrutura do DP, a saber o nominal nu, no singular e no plural, e o
nominal definido, no singular e plural, conforme ilustrado nos exemplos
(5) a (8):
(5)
(6)
(7)
(8)
[petroleo caro, aumenta a produção de fumaça por pessoas
pobres] (EO7p)
[(...) os preços do petróleo influencia porque eles querem
conpar e pagan caro e eles usam para abastecer carros]
(CO22p)
[Quando o preço do petróleo diminui as fábricas tendem a
usar mais o petróleo (...)] (EO3p)
[O aumento do preço nos postos de gasolina faz com que a
população utilize os ônibus e menos os carros. (CO17p)
191
Desenvolvimento Linguístico na Aquisição de Português L2 (Escrito) por Surdos: A Estrutura
do Sintagma Nominal
Na análise dos dados de AL2, adota-se a hipótese de Tsimpli (2003),
segundo a qual os padrões de opcionalidade da interlíngua na aquisição
da L2 podem ser explicados em termos da oposição entre traços formais
interpretáveis e não-interpretáveis – uma versão fraca da hipótese que
postula não ser possível refixação de valores paramétricos, estando o
aprendiz deterministicamente limitado a operar com os parâmetros da
L1 (acesso parcial), em associação com mecanismos de aprendizagem
(cf. TSIMPLI; ROUSSOU, 1991; SMITH; TSIMPLI, 1995). Nessa
abordagem, o mapeamento de traços formais abstratos na estrutura
morfo(fono)lógica na AL2 é restrito a um subconjunto de traços, a saber
aqueles em que se identifica aporte de interpretatibilidade. Inversamente,
traços formais não-interpretáveis resistem à refixação paramétrica.
Nesse sentido, em relação a traços gramaticalizados na língua alvo
e não na L1 (ou marcados para valores paramétricos diferentes na L1
e na L2), a previsão é a de que serão encontrados padrões diferenciais
de desenvolvimento na aquisição de traços formais não-interpretáveis,
quando comparados com traços interpretáveis. Os dados da interlíngua
dos sinalizantes examinados no presente estudo vêm confirmar essa
hipótese: assumindo-se que o traço formal de número é interpretável
no DP, propõe-se que o desenvolvimento linguístico ocorre mediante
o mapeamento de propriedades morfo(fono)lógicas do artigo definido
(plural) na projeção do núcleo funcional Número1.
A discussão será estruturada como a seguir: na seção 1, apresentase o quadro teórico, particularmente no que se refere às condições de
estruturação do DP; na seção 2, examinam-se as propriedades do DP
em libras e em português, consideradas, respectivamente, a L1 e L2 do
1
Nesse enfoque, o estudo retoma estudo de Salles e Chan-Vianna (2010), no que se refere à
metodologia de coleta de dados e recorte temático, por um lado, e ao enquadramento teórico,
por outro, sendo os resultados comparáveis (parcialmente). Além de ampliar a base de dados,
a presente análise confirma a hipótese adotada no estudo anterior. Ressalta-se, porém, que o
presente estudo amplia a discussão, detalhando aspectos como o tipo semântico do nominal, no
que se refere à cardinalidade, considerando a oposição contável vs. não-contável, tendo em vista
o papel atribuído à categoria formal de Número na análise dos dados.
192
Heloisa Maria Moreira Lima-Salles e Lilian Coelho Pires
aprendiz; na seção 3, são discutidos os dados da interlíngua, e na seção
4, são apresentadas as considerações finais.
1. Quadro teórico
Conforme mencionado, a análise fundamenta-se na hipótese de que
a interpretabilidade dos traços formais que constituem o léxico funcional
afeta a aquisição das propriedades morfossintáticas da língua-alvo, de que
resulta a transferência das escolhas paramétricas da L1 para a gramática
da L2. Em particular, assume-se, seguindo Tsimpli (1999, 2003), Tsimpli
e Stavrakaki (1999), Lopes e Quadros (2005), que a interpretabilidade dos
traços formais das categorias sintáticas envolvidas produz uma assimetria
na AL2: traços não-interpretáveis na L1 resistem à refixação de seus
valores, enquanto traços interpretáveis gramaticalizados na L2, mas não
na L1, e traços interpretáveis que apresentam gramaticalização diferente
na L1 e na L2 são adquiridos, mediante etapas de desenvolvimento, a
serem determinadas no âmbito da pesquisa.
Assume-se que o nominal nu envolve licenciamento gramatical, o
que implica a presença de categorias funcionais na projeção estendida
do NP, conforme proposto em vários estudos (cf. SCHMITT; MUNN,
1999, 2003). Nesse sentido, a presença de categorias funcionais
na projeção do nominal nu pressupõe, por hipótese, as condições
necessárias para o licenciamento das diferentes configurações do DP.
Tal abordagem desenvolve-se no âmbito da chamada ‘hipótese DP’,
em que se postula a projeção da categoria D (determinante), cujas
propriedades estão associadas à definitude e à codificação da referência
do nominal realizado pelo NP na posição de complemento (cf. ABNEY
1987; LONGOBARDI 1994, entre outros). Assume-se ainda a projeção
sintática de traços phi (de pessoa, gênero e número), em categorias
funcionais – Agr e Num –, conforme indicado em (9):
(9)
[DP D [AgrP Agr [NumP Num [NP N ]]]]
193
Desenvolvimento Linguístico na Aquisição de Português L2 (Escrito) por Surdos: A Estrutura
do Sintagma Nominal
Nessa configuração, é projetada a estrutura do ‘definido genérico’,
sendo o artigo definido uma categoria expletiva realizada no núcleo D
(cf. LONGOBARDI, 1994). Seguindo Alexiadou et al. (2007), assume-se
ainda que a categoria Número é capaz de contribuir para a determinação
da referencialidade do nome, ao indicar que um conjunto de entidades
tem uma cardinalidade. Em particular, na interpretação de kind, o nome
comum é uma propriedade, e como tal não define a cardinalidade do
nominal. Inversamente, quando a atomizado, o nominal deixa de
denotar kind. Nesse sentido, a categoria Número manifesta aporte de
interpretabilidade.
Propõe-se que a ocorrência do artigo definido na interlíngua do
surdo aprendiz de português (L2) é um estágio do desenvolvimento
linguístico, que pressupõe a manifestação da categoria funcional Número
na estrutura do DP. Tal abordagem encontra sustentação na hipótese
de que AL2 desenvolve-se com base em categorias que manifestam
aporte de interpretabilidade, o que se verifica em relação ao Número,
conforme mencionado anteriormente. Evidência para essa proposta é
obtida na análise dos dados discutidos no presente estudo, conforme
será demonstrado.
2. Valores paramétricos da L1 (LSB) e da L2 (português)
na projeção de sintagmas Determinantes
Nesta seção, fazemos uma comparação entre o português e a LSB, no
que diz respeito à sintaxe do DP. A discussão tem por objetivo investigar
as implicações do contraste paramétrico entre essas línguas para os
padrões de realização do artigo definido na interlíngua de sinalizantes
da LSB na aquisição de português (escrito) como segunda língua (L2).
2.1. O sistema DP no português brasileiro
No português do Brasil (PB), o sistema DP compreende artigos
definidos e indefinidos – além de demonstrativos e numerais.
194
Heloisa Maria Moreira Lima-Salles e Lilian Coelho Pires
Conforme observado anteriormente, artigos definidos ocorrem em
DPs interpretados como referenciais e não-referenciais (estes últimos
designados definidos genéricos). Para o presente estudo, é relevante a
ocorrência do DP com artigo (definido), que contrasta com o nominal
nu (no singular e no plural). Por hipótese, a ausência do artigo não
implica a ausência do sistema DP, assumindo-se que um expletivo nulo
pode ocorrer na posição D, com propriedades semelhantes às do artigo
(definido) na configuração do definido genérico (cf. (10)).2
(10) [DP (a)/(as) .... [NP criança(s)]] é/são inquieta/(s)]]
Nominais introduzidas por artigos indefinidos são sintagmas que se
caracterizam ora por estabelecer referência, apresentando especificação
(inerente) para referencialidade, ora por ocorrer em sentenças
interpretadas como genéricas, o que pressupõe operação de quantificação
genérica, em que o sintagma indefinido introduz a variável sobre a qual
se efetua a generalização, sendo essa variável interpretada no escopo de
um quantificador genérico (a respeito do PB, veja-se MÜLLER, 2002). A
esses aspectos acrescenta-se que o determinante em português concorda
em gênero e número com o nome a que se vincula.
onsiderando-se as propriedades citadas, e assumindo-se que são
gramaticalizadas estruturalmente, pode-se então afirmar que o DP
em português compreende projeções que codificam referencialidade/
definitude e propriedades de concordância, admitindo-se, ainda, a
presença de formas expletivas.
2
Em Munn & Schmitt (1999), o nominal nu singular no PB em função argumental denota
espécie (kind); em Müller (2002), nominais nus sem número em posição argumental não são
expressão de referência a espécie – pelo fato de serem excluídos de contextos com predicados de
espécie, como em *Onça está ameaçada de extinção (p. 343); a leitura genérica da sentença com nominais nus no singular em posição argumental é obtida pela ação de um quantificador genérico que
prende as variáveis sobre as quais se efetua a generalização (conforme proposto em KRIFKA
ET AL. (1995); HEIM (1982), citados por MÜLLER (2002)). Interessa ao presente estudo essencialmente o estatuto genérico da interpretação, diante das implicações para o uso variável dos
padrões de estruturação do DP.
195
Desenvolvimento Linguístico na Aquisição de Português L2 (Escrito) por Surdos: A Estrutura
do Sintagma Nominal
2.2. O sistema DP em LSB
Conforme referido na literatura, uma característica tipológica/
paramétrica da LSB é a ausência da categoria artigo (definido e indefinido)
(cf. FERREIRA-BRITO (1995); QUADROS E KARNOPP (2004)).
Uma decorrência dessa propriedade é que sintagmas nominais sem
determinante (aberto) codificam tanto a interpretação referencial como
a genérica. Considerando-se que a informação relativa à referência não
é inerente ao nome, assume-se que D está relacionado à codificação
da referência, mesmo em contextos em que o argumento é realizado
sem determinante expresso (fonologicamente). Nesse aspecto, LSB
distingue-se de línguas que têm D realizado morfofonologicamente, em
que, conforme proposto em Longobardi (1994), D nulo é licenciado sob
condições restritas.
Acrescente-se que a leitura genérica, em oposição à referencial,
pode ser obtida por processos de quantificação e pelo uso de dêicticos e
determinantes (demonstrativos e pronomes pessoais/ possessivos), bem
como pelo estabelecimento de relações anafóricas, conforme ressaltam
Quadros e Karnopp (2004) (cf. também FERREIRA BRITO, 1995).
Em particular, a referência aos participantes no discurso é feita por meio
da apontação ostensiva no espaço de sinalização (dêixis) e do uso de
formas ditas ‘flexionadas’ (como os chamados verbos de concordância, com
a incorporação de marcas de pessoa na realização do sinal). Conforme
Quadros e Karnopp (2004), os pontos no espaço relacionam-se ao
referente, e introduzem o NP. Em relação ao sistema de pronomes
pessoais, além de codificar a categoria pessoa (pela apontação ostensiva),
distingue ainda número e caso (pela oposição com as formas do
possessivo (cf. FERREIRA BRITO, 1995; QUADROS; KARNOPP,
2004). Relações anafóricas são estabelecidas por meio de processos
gramaticalizados de orientação do olhar, do corpo, da cabeça na direção
de referentes previamente introduzidos no espaço de sinalização, entre
outros.
196
Heloisa Maria Moreira Lima-Salles e Lilian Coelho Pires
A categoria D é ainda lexicalizada em configurações com os
chamados índices pré- e pós-nominais. Tais posições distinguem
operações de referenciação/ determinação, por um lado, e processos
dêiticos, por outro, com implicações para o estatuto da categoria
relevante, respectivamente determinante e locativo adverbial. Seguindo
a análise de Neidle et al. (2000:31) para a ASL, segundo a qual locais no
espaço definidos por índices pré-e pós-nominais são traços phi (abertos),
de pessoa e número, em categorias D do tipo pronome e determinante,
assume-se que, em LSB, a projeção dos traços phi é inseparável da
projeção de determinantes (definidos e indefinidos) no núcleo D (cf.
Chan-Vianna 2008). A configuração relevante está indicada em (11).
(11)
DP
D[+/-def]/Agr[phi]
NP
(IX)
COBRA
Na seção a seguir, passamos a discutir os dados coletados no que
diz respeito à realização do sistema DP na interlíngua do surdo aprendiz
de português (escrito). Para tanto, assume-se a hipótese de Tsimpli
(2003), segundo a qual aprendizes cuja L1 não possui artigo (definido)
em seu sistema vão encontrar dificuldade em adquirir as propriedades
morfofonológicas dessa categoria. Nesse sentido, na ausência de
artigos em LSB, a previsão é a de que haverá resistência na aquisição
da categoria artigo no português (L2) por surdos, independentemente
da interpretação genérica ou referencial do sintagma introduzido pelo
artigo (definido).
197
Desenvolvimento Linguístico na Aquisição de Português L2 (Escrito) por Surdos: A Estrutura
do Sintagma Nominal
3. Os dados e a análise
3.1. Experimento e participantes
Os dados foram coletados em três escolas vinculadas à Secretaria de
Estado de Educação do Distrito Federal (SEE/DF), que atendem alunos
do 1º, 2º e 3º anos do Ensino Médio e possuem salas de Atendimento
Educacional Especializado (AEE) para surdos e outros estudantes
com necessidades especiais. Os surdos estudam em classes inclusivas
e são acompanhados, no horário regular de aulas, por intérpretes de
língua de sinais (LSB)-português, em todas as disciplinas. A coleta
dos dados ocorreu em evento didático-pedagógico, realizado em duas
etapas distintas, com cada um dos dois grupos, que totalizaram 118
participantes: 30 sinalizantes da LSB (grupo experimental) e 60 falantes
do português (grupo controle).3
A atividade didático-pedagógica abordava tema extraído do
componente curricular Biologia, do Ensino Médio, adotando-se
metodologia baseada na utilização de ‘modelos’ e ‘simulações’. Definemse modelos como representações das propriedades do mundo, em que se
manifestam relações de causa e efeito, os quais dão suporte ao raciocínio,
contribuindo para aumentar a compreensão de fenômenos (cf. Bossel
(1986), apud Bredeweg et al. (2006b)). Seguindo essa ferramenta didáticopedagógica, os professores e colaboradores apresentaram aos alunos
(surdos e ouvintes) modelos que demonstravam relações causais relativas
às seguintes assertivas: (i) “Os preços do petróleo têm grande influência
na poluição atmosférica e trazem consequências para a saúde humana”;
(ii) “As ações humanas provocam o aquecimento global e isso afeta a
vida dos ursos do Pólo Norte”; (iii) “A poluição provoca o ‘bloom de
3
Agradecemos a colaboração dos educadores e a participação dos estudantes das escolas Centro
Educacional 06 de Taguatinga (CED06), Centro de Ensino Médio Elefante Branco de Brasília
(CEMEB) e Centro de Ensino Médio 02 de Ceilândia (CEM02). Agradecemos ainda aos parceiros do projeto DynaLearn, a saber Paulo Salles e Mônica Rezende, vinculados ao Programa de
Pós-Graduação em Ensino de Ciências da UnB, pelos dados coletados e cedidos.
198
Heloisa Maria Moreira Lima-Salles e Lilian Coelho Pires
algas’ e consequentemente afeta os peixes do Lago Paranoá”. Após
abordagem desses conteúdos e aplicação do modelo, foram aplicados os
testes escritos para cada grupo.
Os dados para o presente estudo são fruto de uma produção
textual solicitada entre os testes realizados, cujos enunciados descrevem
implicações de causa e efeito relacionados a fenômenos descritos nos
modelos causais. Contabilizados os dados, obtivemos o total de 174
produções textuais e um total de 594 ocorrências de sintagmas nominais
próprios para a análise do DP, sendo 288 dessas ocorrências produzidas
pelos sinalizantes da LSB e 306 pelos falantes da língua portuguesa.
Foram desconsiderados da análise os sintagmas nominais complexos
(ex.: bloom de algas, mortalidade dos peixes), pois o segundo termo ocorre
como restritor do primeiro.
Passemos agora à análise dos resultados, com o objetivo de verificar
a realização do DP na interlíngua dos sinalizantes da LSB (L1) em
aquisição do português escrito (L2).
3.2. O DP na interlíngua dos sinalizantes
São consideradas as seguintes possibilidades de estruturação do
DP: (i) nominal nu singular (peixe; veneno); (ii) nominal nu plural (peixes;
venenos); (iii) nominal definido singular (o peixe; o veneno); (iv) nominal
definido plural (os peixes; os venenos). A análise dos dados parte da hipótese
de que há diferença na escolha do tipo de DP na produção escrita de
sinalizantes da LSB (português L2) e falantes nativos do português (L1),
tendo em vista as diferenças paramétricas entre as duas línguas. Assim,
supõe-se que sinalizantes da LSB, ao produzirem sintagmas nominais no
português escrito, tenderão ao uso do nominal nu, dadas as circunstâncias
de interferência de sua primeira língua (LSB), considerando-se a
existência de quatro tipos de DPs na língua portuguesa e a inexistência
da categoria artigo na LSB (cf. seção 3). Por outro lado, o uso do DP
introduzido pelo artigo na produção escrita deve corresponder a um
estágio do desenvolvimento linguístico na aquisição da língua alvo.
199
Desenvolvimento Linguístico na Aquisição de Português L2 (Escrito) por Surdos: A Estrutura
do Sintagma Nominal
Conforme mencionado anteriormente, a investigação do
desenvolvimento linguístico é orientada pela hipótese de Tsimpli
(2003), segundo a qual, na AL2, o mapeamento de traços formais
abstratos na estrutura morfo(fono)lógica é determinado por um
subconjunto de traços, a saber aqueles em que se identifica aporte de
interpretatibilidade. Em relação ao DP, propõe-se que a aquisição das
propriedades morfofonológicas do artigo (definido) é determinada
pelo mapeamento da flexão de número na categoria funcional Número
(Num), considerando-se a existência de aporte de interpretabilidade
nesse projeção. A previsão é a de que haverá preferência pelo DP
marcado pela flexão de plural, nos dados da interlíngua.
É o que se observa na frequência relativa dos diferentes tipos de
DPs (nominal nu singular e plural e definido singular e plural). Constatase, na interlíngua, a preferência pelo nominal nu, singular (44,1%), o
que pode ser atribuído à transferência dos valores paramétricos da L1
(LSB) na aquisição de português (L2) (escrito), correspondendo à etapa
inicial da aquisição. Confirma-se também a segunda previsão, pois,
somados, os nominais nus no plural (19,1%) e os definidos no plural
(32%) ultrapassam os nominais definidos no singular ((18,8%). Tais
resultados mostram-se significativos, na comparação com os dados dos
falantes do português, uma vez que se constata um padrão diferente, em
que predomina o definido singular (55%), seguido do definido plural
(32%), enquanto os nominais nus no plural e no singular ocorrem com
frequências bem reduzidas (6,2% e 6,8%, respectivamente).4
4
Tais resultados estão confirmados em estudo prévio (Salles e Chan-Vianna 2010).
200
Heloisa Maria Moreira Lima-Salles e Lilian Coelho Pires
TABELA 1:
Realização do DP em produções escritas em português
(L2) por sinalizantes da LSB (L1)
Produção dos
Sinalizantes da LSB
Produção dos
Falantes do
Português
Total de Dados
127 (44,1%)
21 (6,8%)
148
Nu Plural
55 (19,1%)
19 (6,2%)
74
Definido Singular
Definido Plural
54 (18,8%)
52 (18,0%)
168 (55%)
98 (32%)
222
150
Total
288
306
594
Tipos DPs
Nu Singular
Cabe ressaltar que a ocorrência de nominal nu, singular, analisada
como transferência dos valores paramétricos da L1, no estágio inicial da
AL2, supõe que a configuração do DP apresenta as categorias funcionais
da LSB, distinguindo-se, portanto, da situação em que o nominal nu
corresponde a uma projeção da gramática alvo (no caso o português), o
que implica a manifestação de categorias funcionais na projeção estendida
do NP conforme previsto na língua alvo. Em particular, assume-se com
Schmitt e Munn (1999) que a estrutura de nominais nus em português
compreende a projeção separada dos núcleos de concordância (Agr) e
Número (Num).5 Acrescente-se que a opção pelo nominal nu, singular
é também reduzida nos dados dos falantes do português (6,8%),
5
Adotando a hipótese DP, Schmitt e Munn (1999, 2003) assumem que NPs devem ter alguma
estrutura funcional para serem sintaticamente licenciados. Em relação ao PB, postulam a realização separada de Agr e Num (Split Agr/Num Hypothesis), diferentemente de línguas como
o inglês, em que tais núcleos sofrem fusão. Assim, em contexto predicativo, com interpretação
existencial, a previsão é a de que, em línguas românicas, o nominal nu singular possa predicar
de um nome no plural, sendo Agr projetado, mas não Num (interpretável); diferentemente, no
inglês, em que Num é selecionado com Agr, o plural no nome, sendo interpretável, requer que
o predicado seja flexionado no plural, admitindo-se o singular somente com o artigo indefinido,
conforme (i) e (ii), respectivamente:
(i)
Encontrei cachorros de rabo curto
(ii) I found dogs, with long tails/ *(a) long tail
(adaptados de Schmitt; Munn (2003:X)
201
Desenvolvimento Linguístico na Aquisição de Português L2 (Escrito) por Surdos: A Estrutura
do Sintagma Nominal
contrastando com a maior frequência do definido, singular (55%). Cabe
então indagar por que o uso do determinante fonologicamente expresso
(no caso, o artigo definido) é favorecido nos dados do grupo controle –
uma questão que deixamos em aberto, para pesquisa futura.
Assumindo-se que nominais que denotam kind/ espécie são
inespecificados para número, conforme proposto em Chierchia
(1998), buscou-se então identificar em que medida a ocorrência da
flexão de plural é evidência para a projeção de Num, com aporte de
interpretabilidade. Em particular, partiu-se da observação de que existe
restrição para a manifestação da flexão de número com nominais nãocontáveis (ou massivos), em oposição a nominais contáveis.6
Diante disso, realizou-se a subdivisão dos dados em nomes
contáveis e não-contáveis (massivos). O objetivo era o de verificar se
tal distinção teria implicação para a manifestação dos tipos variáveis
de DP, com implicações para a ocorrência do DP marcado pelo traço
morfofonológico de número: a previsão é a de que nominais contáveis
ocorrem como maior frequência como DPs (definidos) no plural.
Em (1)/(3) e (5)/(6), extraídos dos dados do grupo de sinalizantes de
LSB (aprendizes de português L2) e do grupo dos falantes nativos de
português, respectivamente, e repetidos como (11)/(12) e (13)/(14),
ilustramos a ocorrência de sintagmas nominais contáveis (peixe; carros) e
sintagmas nominais não-contáveis (o mal cheiro; a poluição; petróleo).
(11) [(...) peixe morreu tudo acabou peixe não tem nada peixe]
(SE27p)
A oposição contável e não-contável descreve dois tipos de entidades no mundo, as
que denotam entidades discretas e entidades contínuas, respectivamente. De acordo
com Camacho et al. (2008: 58), “a suscetibilidade à pluralização é um dos comportamentos gramaticais que identificam substantivos contáveis (....) os não contáveis são,
por definição, também não-singulares, já que, quando usados no singular, não constituem a contraparte de um substantivo no plural.”
6
202
Heloisa Maria Moreira Lima-Salles e Lilian Coelho Pires
(12) [O peixe prescisa de água saldavel para sobrevive e no
momento não tinho foi por isso que aconteceu o mal cheiro, a
poluiçâo e a mortalidade do peixes.] (SCp16)
(13) [petroleo caro, aumenta a produção de fumaça por pessoas
pobres] (EO7p)
(14) [(...) os preços do petróleo influencia porque eles querem
conpar e pagan caro e eles usam para abastecer carros]
(CO22p)
A tabela 2 demonstra a realização do DP de acordo com a subdivisão
dos dados em nominais contáveis e não-contáveis.
TABELA 2:
Tipos
de DPs
Nu S
Nu P
Def S
Def Pl
Total
Realização do DP em produções escritas em português
(L2) por sinalizantes da LSB (L1)
Produção dos Sinalizantes
da LSB
Total
127
(44,1%)
55
(19,1%)
54
(18,8%)
52
(18%)
288
Cont.
50
(17,3%)
46
(15,9%)
24
(8,3%)
40
(13,8%)
160
Não-C.
77
(26,7%)
9
(3,1%)
30
(10,4%)
12
(4,1%)
128
Produção dos Falantes do
Português
Total
21
(6,8%)
19
(6,2%)
168
(55%)
98
(32%)
306
Cont.
4
(1,3%)
15
(4,9%)
33
(10,8%
66
(21,5%)
118
Não-C.
17
(5,5%)
4
(1,3%)
135
(44,2%)
32
(10,4%)
188
Total
S/F
148
74
222
150
594
Constata-se que a frequência mais alta corresponde a nominais
nus não-contáveis no singular, encontrada na produção do grupo dos
sinalizantes da LSB (26,7%). Comparada com a produção do grupo de
falantes do português, verifica-se que o mesmo tipo de nominal (nãocontável) tem frequência muito baixa como nominal nu no singular
(5,5%), sendo a frequência maior associada à configuração de nominal
203
Desenvolvimento Linguístico na Aquisição de Português L2 (Escrito) por Surdos: A Estrutura
do Sintagma Nominal
não-contável definido, singular (44,2%). Há de se observar que o nominal
nu não-contável, singular possui uma denotação neutra para singular e
plural (cf. MÜLLER (2002)), o que está de acordo com Chierchia (1998),
para quem nomes massivos possuem denotação neutra para singular e
plural.
Em relação aos demais resultados a previsão é confirmada nos dados
da interlíngua: nominais contáveis ocorrem com maior frequência como
DPs no plural (seja o definido plural (13, 8%), seja o nominal nu plural
(15,9%)) do que como DPs definidos no singular (8,3%). Nos dados
do grupo controle, a despeito da alta incidência de nominais definidos,
em oposição a nominais nus, observada anteriormente, a distribuição
segue o padrão observado nos dados da interlíngua, visto que nominais
contáveis tendem a ocorrer com mais frequência como DPs (definidos)
no plural (21, 5%), do que como DPs (definidos) no singular (10,8%).
A presença de um padrão coincidente entre os dois grupos no
que se refere à manifestação da flexão de plural, associada a nominais
contáveis, é considerada neste ponto evidência adicional para o estatuto
interpretável da categoria de número associada ao traço de cardinalidade,
no contraste entre nomes contáveis e não-contáveis, com as implicações
para o desenvolvimento linguístico, conforme previsto pela métrica da
AL2.7
Partindo-se da observação de que o traço de número é mapeado na
matriz morfo(fono)lógica do artigo juntamente com o traço de gênero,
este último um traço não-interpretável, propõe-se que o mapeamento
das propriedades morfo(fono)lógicas do artigo na categoria Num é
associado à operação de concordância (Agree). Nessa configuração
manifesta-se o fenômeno de opcionalidade, no que se refere à manifestação
da flexão de gênero, a qual, por hipótese, deve manter-se residual, tendo
7
De acordo com Chierchia, (1998), o aparato cognitivo humano vê o mundo como contendo
tanto entidades singulares quanto entidades plurais. Assim, a extensão de nomes contáveis singulares é representada por um conjunto de singularidades, e que a extensão de tais nomes no plural
é representada por um conjunto de pluralidades
204
Heloisa Maria Moreira Lima-Salles e Lilian Coelho Pires
em vista que não existe aporte de interpretabilidade em sua ocorrência
na projeção do determinante/artigo.
Considerações finais
O estudo examinou a interlíngua de sinalizantes da LSB aprendizes
de português (escrito) como segunda língua, considerando, em particular,
a manifestação de definidos (no singular e no plural) e de nominais nus
(no singular e no plural). Constatou-se alta frequência de nominal nu no
singular e no plural, nos dados da interlíngua, o que foi analisado como
uma situação de transferência dos valores paramétricos L1, já que a LSB
não possui artigos. Propôs-se que a ocorrência do nominal definido (no
plural e no singular) indica a existência de desenvolvimento linguístico.
Assumindo-se que o mapeamento de traços formais nas matrizes
morfo(fono)lógicas restringe-se aos traços interpretáveis, argumentouse que a ocorrência de tal configuração está crucialmente associada à
presença do núcleo funcional Num na estrutura do DP. Nesse sentido, o
artigo definido no plural pode ser considerado uma categoria morfológica
default na AL2, pela qual o traço formal (interpretável) de número é
mapeado na categoria Num, com implicações para a manifestação da
operação Agree na projeção do DP. Essa análise sustenta-se pela taxa de
frequência alta de nominais contáveis (definidos) no plural – nos dados
da interlíngua e do grupo constituído por falantes nativos, considerado
de controle na relação com o grupo experimental.
205
Desenvolvimento Linguístico na Aquisição de Português L2 (Escrito) por Surdos: A Estrutura
do Sintagma Nominal
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208
A DESCRIÇÃO DAS LÍGUAS ‘EXÓTICAS’ E A TAREFA
DE ESCREVER A HISTÓRIA DA LINGUÍSTICA
Cristina ALTMAN
Universidade de São Paulo (USP)
Introdução
Do ponto de vista da história do conhecimento sobre a natureza da
linguagem, ninguém negaria que o contato do homem europeu com a
diversidade linguística ao longo dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX
trouxe uma contribuição considerável ao alargamento — quantitativo
e qualitativo — do conhecimento empírico sobre as línguas (cf.
Swiggers 1997, Law 2003). Ao longo de quatro séculos, franciscanos,
dominicanos, agostinianos e, principalmente, jesuítas participaram da
empresa colonial americana com o objetivo de exercer a dupla função
do trabalho missionário: catequese e ensino da leitura e escrita. Não por
acaso, já que a condição, oficial ao menos, para que tanto Portugal quanto
Espanha pudessem expandir seus domínios territoriais era ampliar a fé
católica, o que significava granjear fiéis em cada canto do mundo e, por
suposto, em cada língua. A missão de conversão religiosa passava, pois,
pela tarefa prévia de fazer a mensagem religiosa ser compreendida pela
população ‘infiel’, fosse através da tradução da bíblia e do auxílio de
intérpretes — estratégia preferida pelos protestantes — fosse através
da aprendizagem e utilização da língua nativa — estratégia preferida do
missionário católico.
Em consequência, e diferentemente do Budismo e do Islamismo,
que também enfrentaram em outros séculos o desafio de propagarem
sua fé (v. Ostler 2003), as missões cristãs, principalmente as católicas,
se tornaram bastante sofisticadas na tarefa de elaborar instrumentos
pedagógicos para o estudo das línguas dos territórios a serem colonizados,
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 209-230. 1ª parte 2011
A Descrição das Línguas ’Exóticas’ e a Historiografia Linguística
sobretudo gramáticas, vocabulários, dicionários, catecismos. Em muitos
casos, essa documentação é o único testemunho que temos da existência
de centenas de línguas, muitas delas hoje extintas, tanto da América,
quanto da África, da Ásia e das ilhas do Pacífico.
Podemos vislumbrar o volume do trabalho desses missionários
através dos números apresentados por Wonderly & Nida (1963: 117)
sobre a produção hispano-americana. Só para o século XVI afirmam ter
registrado 212 trabalhos de missionários. Desses, 30 sobre línguas sulamericanas; 27 sobre línguas da América Central e 155 sobre o México,
sendo que o Náhuatl clássico, língua dos astecas do México central, foi a
mais representada, com 92 trabalhos. No século XVII, registraram mais
de 250 trabalhos sobre as mesmas línguas; no XVIII, 210. Se incluirmos
nessa conta as gramáticas missionárias escritas no período colonial sobre
as línguas asiáticas (por ex.: japonês, chinês, vietnamita; línguas filipinas:
tagala, bisaya, pampango, iloko, pangasinán, ibanag; indianas: tamil),
além das africanas e australianas, esse número cresce sensacionalmente
(cf. Ridruejo 2000; Zwartjies & Hovdhaugen 2003. Zwartjes & Altman
2005, Zwartjes, James e Ridruejo 2007). Trata-se de uma produção
respeitável.
Entretanto, quando se buscam informações em nossa historiografia
oficial sobre a eventual contribuição para a linguística geral dos três ou
quatro séculos de copiosa coleta de dados de ‘línguas exóticas’, levada
a cabo pelos missionários sul-americanos, nos surpreendemos pela
parcimônia das referências. Raras são, nos manuais tradicionais de história
da linguística, isto é, naqueles elaborados por linguistas não especialistas
em americanística1 referências mais detalhadas sobre as contribuições,
por exemplo, do Saggio di Storia Americana (Roma, 1780-1784, 4 vols.),
de Filippo Salvadore Gilij (1721-1789), ou sobre o monumental Catálogo
(1a. ed Cesena, 1785), de Lorenzo Hervás y Panduro (1735–1809) que,
1
Há, sem dúvida, uma respeitável literatura bibliográfica sobre a produção americanista — por
ex. Backer & Backer 1869-1876, Mendiburu 1874-1890, Muñoz y Manzano 1892, Pastells 19121915, Leite 1938, Tovar 1961, Meliá et al. 1987 — que não supre , entretanto, o interesse em se
preservar um corpus de textos e não oferece (e nem é seu objetivo oferecer) uma discussão sobre
sua configuração teórica.
210
Cristina Altman
ao compilar exaustivamente a produção gramatical jesuítica, constituiu
um precioso banco de dados de línguas do mundo todo.
Neste sentido, um dos desafios do historiógrafo interessado nas
tradições linguísticas latino-americanas é tentar reconstruir e, se possível,
explicar, como e por que, no processo de seleção das idéias e práticas
linguísticas que efetua, certas tradições de estudo, como, por exemplo,
o da chamada linguística missionária, teriam sido subestimadas (para
não dizer excluídas, em uma interpretação mais forte) da historiografia
linguística canônica, pelo menos até a segunda metade do século XX.
Na presente intervenção, a partir de um conjunto de reflexões que
tenho acumulado ao longo de todos esses anos dedicados ao estudo da
linguística feita no Brasil (especialmente Altman 1993, 1996a e b, 1997a
e b, 1998a e b, 2001, 2003, 2007 e 2009) chamo a atenção para certos
aspectos pertinentes, a meu ver, à tarefa de escrever sua historiografia.
Meus parâmetros de observação serão, principalmente, aqueles relativos
às inevitáveis pressões das visões do momento sobre o linguista
interessado em historiografar o passado da sua disciplina.
Algumas notícias sobre a produção linguística ‘colonial-missionária’ sulamericana.
No que diz respeito especificamente à América Portuguesa, ainda
que seus interesses e os da América Espanhola fossem em grande parte
coincidentes ¾ ao menos oficialmente formaram uma só coroa sob o
domínio espanhol entre 1580 e 1640 ¾ a produção linguística de ambas
as colônias foi bastante desigual. As gramáticas da América Espanhola
foram bem mais numerosas, certamente devido a uma política de
ensino de línguas indígenas bem mais agressiva (cf. os três Concílios
Limenses em 1551, 1567 e 1582–1583) do que a da América Portuguesa,
cujos interesses estavam, neste momento, mais a Oriente. Observe-se,
ainda, que a cidade do México possuía imprensa própria desde 1539
(Sedola 1994: 86) e Lima (=Ciudad de los Reyes) já contava com uma
Universidade desde 1551, com uma cátedra de língua indígena desde
1580 e, desde 1582, também com imprensa própria (Cerrón-Palomino
1997: 198).
211
A Descrição das Línguas ’Exóticas’ e a Historiografia Linguística
O Brasil, ao contrário, só teria sua própria casa impressora no início
do século XIX, e uma cátedra para o estudo do Tupi antigo só no século
XX. Não é de se estranhar, pois, que, das eventuais centenas de línguas
originalmente existentes em território português nos séculos XVI e XVII
(Rodrigues 1993, 1994), só tenhamos tido a descrição gramatical de duas
delas, como é sabido: do Tupi (=Tupinambá), elaboradas pelos jesuítas
José de Anchieta (1534–1597), e Luís Figueira (1575–1643) e do Kiriri,
elaborada pelo também jesuíta Luis Vincencio Mamiani (1652–1730)
(cf. Anchieta 1990[1595]; Figueira 1621 e Mamiani 1877 [1699]), todas
escritas em português e publicadas, pela primeira vez, em Portugal.2
Guardadas as devidas proporções, entretanto, é razoável imaginar
que, para ambas as Américas, tanto a Espanhola quanto a Portuguesa,
as línguas locais das várias ‘nações’ americanas também fossem alvo
de curiosidade por parte dos europeus e, em consequência, objeto de
coleções, ao lado de plantas, animais, costumes e instituições ‘exóticas’
(cf. a extensa literatura dos viajantes em Gimenes 1999). O domínio de
todas essas línguas era indispensável ao sucesso da empresa colonial,
o que favoreceu a implantação de uma série de medidas que visassem
ao conhecimento (e, por extensão, ao controle) da heterogeneidade
linguística das Colônias. Na medida em que os missionários foram
sentindo a necessidade de também documentar a dialetação das línguas
2
Há referências a um trabalho conjunto dos P. José de Anchieta e P. Manuel Viegas (1533–1608)
sobre a língua dos índios maromomi (= maromemim, marumimi, guarumimim, guarulho) de que não
restou cópia (Rodrigues 1998: 61). Quanto aos vocabulários, seria preciso acrescentar a este
elenco: Anônimo. 1938[1621]. Vocabulário na língua brasílica. Manuscrito Português-Tupi do séc.
XVII coord. e pref. por Plínio Ayrosa. São Paulo: Departamento de Cultura. (2a ed., Boletins 137
e 164 da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 1952 e 1953.);
Anônimo. 1771 (ms. inédito). Dicionario da lingua geral do Brasil que se falla em todas as villas, lugares
e aldeas deste vastissimo Estado. [Escrito na cidade do Pará, anno 1771]. Coimbra: Universidade de
Coimbra, ms. 81; Anônimo. 1751 (ms. inédito). Dicionário português-brasiliano e brasiliano-português.
Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, ms. I-1, 1, 14; Anônimo. 1795 (1ª. edição). Dicionário português-brasiliano e brasiliano-português. Lisboa: Officina Patriarcal; Ayrosa, Plínio. 1934. Dicionário
português-brasiliano e brasiliano-português. [Reimpressão da 1ª. parte da edição de 1795 (Lisboa: Officina Patriarcal, ano MDCCXCV. Com licença, sem designação do autor), seguida da 2ª. parte, até
então inédita, ordenada e prefaciada por Plinio M. da Silva Ayrosa]. Revista do Museu Paulista. São
Paulo: Imprensa Oficial do Estado, tomo XVIII.
212
Cristina Altman
gerais, ao longo do século XVII e início do século XVIII, bem como
a diversidade das línguas regionais e locais, várias outras gramáticas de
outras línguas sul-americanas surgiram nos mesmos moldes. O Catálogo
de Hervás, na sua versão espanhola de 1800, menciona 218 designações
diferentes, relativas a línguas e a dialetos que hoje situaríamos no
território sul-americano. (Parada 2002). Em quatro séculos, a empresa
missionária colonial acumulara informação sobre a diversidade linguística
americana o suficiente para notar o quanto poderia haver de ‘afinidade’
e de ‘divergência’ entre as línguas: na pronúncia, no vocabulário e, nos
termos de Hervás, também no seu ‘artifício gramatical’.
Com efeito, a produção gramatical do período dito renascentista
se caracterizou, de maneira geral, pela procura de princípios ou regras,
i.e., pela busca de regularidades nas variedades a serem descritas; pela
transferência do modelo gramatical latino — já parcialmente adaptado,
por sua vez, da gramática grega — à descrição dos vernáculos, e
readaptados, ainda uma vez, à descrição das chamadas línguas exóticas;
pela mesma estruturação atribuída à fonologia e à morfologia, que
se completa pela descrição de uma rotina de uso da língua (usage) (v.
Swiggers 1997, Auroux 1992a e b):
As gramáticas das línguas ‘exóticas’, sejam americanas ou asiáticas,
não constituíram exceção a esse cânone. Às regras de pronúncia das
línguas, seguiam-se, com poucas variações, regras de declinação dos
nomes, adjetivos e pronomes; regras de formação e conjugação de
verbos e uma lista das ‘outras partes da oração’, via de regra constituída
de preposições, advérbios, interjeições e conjunções. O estudo da palavra
no contexto dessas gramáticas assumiu a feição de uma morfossintaxe e
a sintaxe propriamente dita consistiu, frequentemente, em uma prática
cujas ‘regras’ se reduziam a hábitos de repetição, de ‘maneiras de dizer’
que era preciso memorizar.
Esse mesmo procedimento aplicado à descrição das variedades
nacionais européias, das línguas africanas, asiáticas e americanas
viabilizava, por hipótese, pela primeira vez, o cotejo de dados equivalentes
213
A Descrição das Línguas ’Exóticas’ e a Historiografia Linguística
de línguas, mesmo que geográfica ou historicamente dispersas. Adequada
ou não, a prática missionária de registrar as línguas nativas americanas em
forma de vocabulários e gramáticas, nos mesmos moldes, possibilitou a
Hervás, trezentos anos depois das primeiras descrições dessas línguas,
compará-las, classificá-las, e colocá-las em perspectiva histórica. Para
este autor, e para o tipo de estudo comparativo que efetuou, seria preciso
verificar, além da história dos povos que falaram essas línguas, também
seu vocabulário fundamental e as regras de estrutura gramatical (Parada
2002 e Parada e Altman 2000). Tarefa perfeitamente viável, já que a
concentração de jesuítas expulsos de todos os territórios espanhóis e
portugueses em Roma a partir de 1759, onde já se encontrava Hervás,
significou também a concentração privilegiada, em um único lugar, de
trezentos anos de know how de descrição gramatical.
1. O registro dessa produção em nossa historiografia
linguística
Na sua Introdução às Línguas Indígenas Brasileiras (Mattoso Câmara
1977), que reúne o conjunto de dez palestras que proferiu em 1960 no
Museu Nacional, Mattoso Câmara descartou essa herança descritiva
do nosso horizonte de retrospecção, na medida em que qualificou —
não sem certa dose de razão — essa linguística missionária de utilitária,
centrada na comunicação com os nativos para fim de propaganda
religiosa, diferente daquela que seria feita por um linguista moderno,
objetiva e desinteressada em seus propósitos (p. 101). Na sua avaliação,
o contexto colonial era favorável ao surgimento de uma língua franca,
variedade simplificada da língua originalmente falada no Brasil, que fora
o objeto das primeiras descrições dos jesuítas, cujo intento último era
o ‘disciplinamento’ da língua da terra que ascenderia, dessa maneira, à
desejável estrutura da língua latina. O resultado foi, na interpretação de
Mattoso, uma língua quase artificial: o Tupi Jesuítico, ou Missionário,
214
Cristina Altman
distanciado do Tupi natural que lhe serviu de base. Nos seus termos: “o
missionário linguista foi catequético tanto quanto o missionário religioso. Da mesma
sorte que se queria melhorar os costumes, o espírito, a moral, a religião do índio,
também se pretendia melhorar-lhe a língua”, moldando-a ao latim (Mattoso
Câmara 1977: 102). O campo de estudo das línguas indígenas dividia-se,
assim, para Mattoso, entre uma linguística Tupi, “ou estudo objetivo da língua
em todas as suas manifestações e especialmente as orais,” ainda por ser feito, e
uma filologia Tupi, “interessada na literatura de intenção religiosa criada em Tupi
pelos missionários.” (id. ib. 106)
Por um lado, é inegável que as gramáticas coloniais, aí inclusas as
gramáticas missionárias, se organizaram como reza certa tradição latina.
Não poderia ser diferente, aliás, dado o momento histórico em que foram
produzidas. Embora os missionários-linguistas da tradição gramatical
em língua portuguesa não tenham explicitado o modelo que lhes serviu
de referência — ao contrário dos seus colegas espanhóis que sempre
renderam tributo explícito à Elio Antonio de Nebrija (1441/44–1522)
— o que especialistas geralmente admitem (cf. Rosa 1995, Zwartjes 2002,
Tashiro 2003) é que a principal referência dos missionários-linguistas
da tradição portuguesa3 tenha sido o De Institutione grammatica, 1ª. ed de
1572, de Manuel Álvares, S. J. (1526–1582), escrita sob encomenda para
a Ordem, embora não se possam descartar outras possibilidades, como a
gramática de Johannes Despauterius (c.1460–1520), que logo substituiria
a de Álvares na preferência dos jesuítas (Zwartjes 2002: 29). Seja como
for, o modelo de gramática que regeu a tradição descritiva do Tupinambá
— e que designaremos aqui, de forma genérica, como ‘modelo latino
de referência’— é aquele que se erige em oito partes da oração: nome,
pronome, verbo, particípio, preposição, advérbio, interjeição, conjunção,
basicamente o mesmo proposto por Donatus (metade séc. IV), Priscianus
3
A despeito do fato de Anchieta ser, a rigor, espanhol, uma vez que nasceu, em 1534, em Tenerife. Mas estudou em Coimbra entre 1548 e 1551 (Rodrigues 1997: 373) e, uma vez no Brasil, aos
19 anos, reportou-se sempre ao ramo português da Cia. de Jesus, até sua morte em Lisboa, em
1597.
215
A Descrição das Línguas ’Exóticas’ e a Historiografia Linguística
(final séc. V, início séc. VI), Nebrija (1981[1481]) e Despauterius (1528),
embora não obrigatoriamente nesta mesma ordem de apresentação,
nem com exatamente o mesmo número de ‘acidentes’ (Robins 1986;
Colombat 1988).4
Acrescente-se, ainda, que reconhecer o modelo latino como forma a
partir da qual todas essas gramáticas se constituíram não deve implicar,
entretanto, que havia um modelo ‘latino’ único. É interessante notar neste
sentido que, diferentemente de Portugal e Espanha, a linha de reflexão
sobre a linguagem em boa parte da Europa, neste momento, ia na
direção de uma gramática filosófica, escolástica, baseada na lógica — cf.
inter alia os gramáticos-filósofos de Port Royal e, por exemplo, Francisco
Sánchez de las Brozas (1523–1601), El Brocense, de leitura proibida,
aliás, na Ibéria do final do século XVI (Zimmermann 1997: 14). Neste
quadro de trabalho, como se sabe, a questão da diversidade linguística se
colocou de outra maneira. Aqui emergiram programas de investigação
que propunham a construção de sistemas universais de comunicação, ou
de sistemas de organicidade perfeita (v. Eco 1995), ou a construção de
teorias dos elementos comuns, universais a todas as línguas, para além
do seu uso individual e histórico. Não houve interesse, nesta tradição
‘universalista’, na comparação linguística ‘empírica’, a não ser já ao final
do século XX, quando a diversidade estrutural, intra-sistêmica, também
foi considerada uma propriedade universal a todas as línguas.
4
Do ponto de vista do número e hierarquia das partes de que se compõe a gramática, Anchieta
(1990 [1595]) é, relativamente, o mais ‘livre’ em relação ao modelo de referência. Desenvolvida
em dezesseis capítulos, sua gramática se inicia com um apanhado geral das letras, ortografia, pronunciação e acento (1-9), seguido da exposição das propriedades da morfologia dos nomes (910v), dos pronomes (10v-17) e dos verbos, de longe a parte mais extensa da gramática (17v-40;
46-58v), intercalada com uma enumeração das preposições (40-46). Não há capítulos especialmente dedicados aos advérbios (embora a eles se faça menção em alguns pontos da gramática),
às interjeições e às conjunções. Já a gramática de Figueira (1621), que teria, entre outros, o mérito
de ter ajustado a gramática de Anchieta ao cânone latino adotado pela Cia. de Jesus (Rosa 1995:
280) é a que segue, de fato, bem de perto, o modelo prisciano das 8 partes do discurso.
216
Cristina Altman
Nada em comum entre essa orientação filosófico-universalista e
os processos envolvidos na codificação de uma língua geral, ao menos
tal como se deram em contexto sul-americano (v. Rosa 1995, Altman
1997a e b). A descrição de línguas tipologicamente tão diferentes sob
um ‘mesmo’ molde abriria margem, a um tempo, para a relativização
da universalidade deste molde (Altman 2002) e para uma apreciação,
também relativa, das diferenças linguístico-culturais (v. Zimmermann
2005). Não para a criação de uma língua artificial como um ‘Tupijesuítico’ (Mattoso Câmara 1977: 102-103; mas v. também Edelweiss
1969: 40), ou para uma ‘gramática geral’ das línguas gerais.
Mas não foi esse o ideário reproduzido no Brasil por Mattoso
Câmara, em meados do século XX, a quem cabe novamente a autoria
do único manual brasileiro de história da linguística, suficientemente
abrangente, publicado até a década de oitenta.5 Mesmo assim, tratase de um conjunto de palestras destinadas a um curso de ‘história da
linguística’, originalmente escritas em inglês, para um público não
brasileiro que, somente alguns anos depois, seriam vertidas para o
Português e publicadas em forma de livro, postumamente, em 1975.6.
Mesmo constituindo, como afirma o autor na sua ‘Advertência
prévia,’ apenas “... um resumo à vol d’oiseau das grandes idéias linguísticas até
nossos dias...” o livro cresce em significado ao ser qualificado pelo próprio
Mattoso como um complemento aos seus Princípios de linguística Geral (1a.
5
Outros manuais de História da Linguística entraram no país até os anos oitenta, em versão
brasileira portuguesa, espanhola ou argentina e tiveram alguma recepção nos cursos de graduação da década de setenta: principalmente, Thomsen 1945 (versão espanhola; até onde pude
verificar, nunca traduzido para o português); Machado 1942 (orig. português); Leroy 1963; Guevara & Llorente 1967 (orig. espanhol); Vilanova & Lujan 1950 (orig. espanhol); Coseriu 1980;
Malmberg 1964 [1959]; Mounin 1970[1967], 1972; Robins 1967; Lepschy 1971.
6
Nas palavras do autor: “Este despretensioso livrinho teve sua origem num curso sobre ‘História
da Linguística’, que dei no verão de 1962 na Universidade de Washington, em Seattle, Wash.,
como professor visitante para o Instituto Linguístico organizado por aquela Universidade em
cooperação com a Sociedade Linguística da América. Elaborei, para isso, minuciosas súmulas
em inglês, que, a pedido dos alunos, foram datilografadas e mimeografadas e despertaram certo
interesse dentro e fora da Universidade.” (Mattoso Câmara s/d, ‘Advertência prévia’ ao seu História Sumária da Linguística, manuscrito inédito). Agradeço a Angela Maria Ribeiro França que me
cedeu cópia de parte do manuscrito inédito de Mattoso Câmara.
217
A Descrição das Línguas ’Exóticas’ e a Historiografia Linguística
ed. 1941, reimpressa em 1942), princípios esses que nortearam em grande
parte as primeiras gerações de scholars envolvidos na institucionalização
da disciplina linguística no Brasil. Neste sentido, a releitura da sua ‘História
Sumária da linguística’ (título que originalmente lhe deu) é de fundamental
importância para a elucidação da percepção que teve Mattoso, tanto das
tradições linguísticas que o antecederam na cronologia da disciplina,
quanto do que denominou ‘correntes contemporâneas’.
E, na sua percepção, “A linguística é uma ciência muito nova [que]
começou a existir na Europa em princípios do século XIX sob o aspecto de um estudo
histórico,..”(Mattoso Câmara, 1975:13), não apenas distinta da Filologia,
que definiu como o estudo dos textos antigos que visa à compreensão
dos traços linguísticos obsoletos a fim de captar a mensagem artística
que encerram (cf. id.:11), mas também distinta da investigação dos
aspectos biológicos relacionados à faculdade de linguagem, abordagem
que denominou biológica, e da tradição filosófica grega, que denominou
de estudo lógico da linguagem.
A Filologia, ao lado da tradição normativa (Do and Don’t study) e do
estudo motivado pelas situações de contato linguístico (Foreign Language
study) constituíam, para Mattoso, o campo dos estudos pré-linguísticos, “...
isto é, algo que ainda não é linguística.” (id.:13). O estudo lógico (filosófico) e o
estudo biológico, por sua vez, por não fazerem parte do que considerou
o domínio da linguagem propriamente dito, constituíam um domínio
a ele limítrofe, na sua denominação, paralinguístico. Na retrospecção do
pensamento linguístico a que se propôs Mattoso, antes do século XIX,
só era possível encontrar na tradição ocidental, estudos do tipo que
denominou pré-linguísticos e paralinguísticos, e, na tradição oriental, mesmo
entre os que considerou os “... países mais adiantados de então, ou seja, a
China e a Índia antigas.” (id.ib.), não houve qualquer tipo de linguística (sic).
A visão parcial e fortemente restrita de Mattoso da história do
pensamento linguístico que, para ele, a rigor, não começou senão na
Europa do século XIX, não é tão importante quanto o fato de ter
sido esta a visão divulgada dentre aqueles que considero a primeira
218
Cristina Altman
geração de pesquisadores brasileiros que então buscavam afirmar sua
autonomia enquanto linguistas. Como a pré- linguística e a paralinguística
não se interromperam, segundo Mattoso, com o advento da linguística (cf.
Mattoso Câmara, 1975:14), excluir essas tradições do então novo campo
de estudos que apenas se inaugurava no Brasil era uma consequência
inevitável. Ser linguista brasileiro significava naquele momento, filiar-se
a uma tradição ocidental, iniciada na Europa do século XIX, e excluir-se
da tradição normativa, da investigação da linguagem enquanto fenômeno
biológico, da tradição do pensamento filosófico grego e, principalmente,
da tradição filológica, então dominante. Como consequência, qualquer
reflexão sobre a história do pensamento linguístico no contexto brasileiro
encontrava (e encontrou), pois, no limiar do século XIX europeu, senão
depois, o limite do seu horizonte de retrospecção.
A título de considerações finais
O contexto estruturalista no qual estava inserido Mattoso Câmara
nos anos sessenta, que enfatizava a especificidade estrutural das línguas
naturais, em consequência, irredutíveis umas às outras, o levou a
interpretar a tradição descritiva missionária como uma tentativa ‘bem
sucedida’ de criação de uma língua artificial, em que as especificidades
estruturais e dialetais das línguas indígenas foram propositadamente
desprezadas. Nada mais distante, a meu ver, do que nos revelam essas
gramáticas, quando revistas no seu contexto específico de produção,
isto é, a linguística colonial renascentista. (Para uma crítica recente v.
Rodrigues 1996, Leite 2003 e 2005 e Altman 2007).
Não se pode afirmar, entretanto, que descrever centenas de línguas
sob o mesmo modelo latino de referência, o que tornou possível a
Hervás cotejá-las e compará-las trezentos anos depois, tenha sido
a intenção inicial dos missionários, e que todos os passos que deram
foram, inequivocamente, nesta direção. Ao contrário, o conhecimento
linguístico parece ser um processo complexo, pluridirecional, cujas
continuidades (e descontinuidades) só podem ser restabelecidas pelo
219
A Descrição das Línguas ’Exóticas’ e a Historiografia Linguística
historiógrafo da linguística, a posteriori, e muitas vezes, tentativamente,
como no presente texto, a partir da perspectiva privilegiada do presente
histórico.
Seja como for, feitas por missionários e para missionários, o impacto
dessa produção linguística na esfera civil e do estado foi, de um lado —
é preciso reconhecer — pequeno para alterar conceitos (arraigados) da
inferioridade linguística do índio, a que corresponderia sua inferioridade
social e política. De outro, foi insuficiente para se fazer visível a uma
linguística européia voltada, principalmente a partir do século XVIII,
para a elaboração de uma gramática universal, desinteressada, como
consequência, das questões sobre diversidade linguística. Se essas
gramáticas contribuíram para a formação de uma cultura linguística nova,
como acredito, de base experimental, não mais estritamente ‘ocidental’ e
‘clássica’, nossa historiografia canônica não registrou.
Some-se a isso a retórica de ruptura da linguística (alemã e
dinamarquesa) do século XIX que dividiu o conhecimento linguístico
entre um período pré-científico, aquele que a antecedeu, e um período
verdadeiramente científico, aquele que inaugurou com o método
histórico-comparativo. Independentemente, pois, do seu valor descritivo,
a produção linguística missionária permaneceu circunscrita ao mundo
do ‘exótico’, da fé religiosa, da não-ciência, excluída dos projetos
europeus que almejavam conferir ao estudo histórico e comparativo das
línguas indoeuropéias o estatuto de uma ciência natural, e excluída, por
extensão, da historiografia oficial que legitimou a Neue Philologie alemã
como a ‘verdadeira’ ciência da linguagem.
Se é verdade que o linguista individual pode prescindir da dimensão
histórica da sua disciplina para exercer seu ofício, também é verdade
que é o passado que informa continuamente o presente. Os conceitos
e os procedimentos de pesquisa que o linguista utiliza são produtos
históricos. Se uma das tarefas da historiografia linguística é (re)estabelecer
os pressupostos, nem sempre explicitados, com que os linguistas do
220
Cristina Altman
passado sustentaram suas práticas, bem como as consequências das suas
proposições para o desenvolvimento do conhecimento que produzimos
sobre a linguagem e as línguas, a investigação das condições passadas de
produção e recepção do conhecimento linguístico, aí inclusas aquelas
da chamada linguística missionária, é um passo importante para nosso
entendimento das ciências contemporâneas da linguagem e das suas
metodologias como um todo.
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230
TWO SORTS OF BARE NOUNS IN BRAZILIAN
PORTUGUESE
Roberta Pires de OLIVEIRA
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) /CNPq
Susan ROTHSTEIN
Bar-Ilan University
It is a consensus in the literature that the so called Bare Singular (BS,
from now on) in Brazilian Portuguese (BrP) is not semantically singular
(Munn & Schmitt 1999, a.o.), but a number neutral count noun. In this
paper, we explore the hypothesis that it is not a count noun. We reach
such a conclusion by comparing the bare singular with both the bare
mass noun and the bare plural count noun. We show that the behavior
of the bare singular in BrP does not parallel that of the bare plural, but
strongly parallels that of the bare mass noun. Based on such facts we
propose that there are just two sorts of bare nouns in BrP: Bare Mass and
Bare Plural. The Bare Mass denotes either the kind or a mass predicate,
whereas the Bare Plural always denotes a plural predicate. These different
semantics explain their different behavior. As conclusion, we show some
unexpected results from our approach.
The outline of the paper is as follows. We begin by showing that
the prima facie arguments against treating bare singulars as mass nouns
are not valid. Our claims are based on the fact that the literature has
compared bare singular nouns with non-atomic mass nouns, and has
shown that they behave differently with respect to the relevant tests.
However, comparing bare singulars with naturally atomic mass nouns
such as mobília ‘furniture’ gives different results. We then show, in section
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 231-266. 1ª parte 2011
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
2, that the bare singular displays the same distributional restrictions as
the bare mass noun both in episodic and generic contexts, a fact that,
as far as we know, has gone unnoticed in the literature. This strengthens
the case for treating them alike. In section 3 we give a semantics for
mass nouns and count nouns in the framework of Rothstein 2010a, b
which allows for a unified analysis of bare singulars and mass terms, that
differs from that attributed to the bare plural. In section 4, we explain
the data from earlier sections in the light of the analysis, and propose a
semantics for bare plurals which explains their behavior in BrP. Finally,
we also show that our account predicts that so called ‘bare singulars’ can
occur with mass determiners, and we give arguments to show that this
prediction is correct. Moreover its behavior in comparative contexts also
supports our hypothesis that it is a mass.
1. Reciprocals, reflexives and and distributivity
In general the literature on the bare singular in BrP (Munn &
Schmitt 2005, Schmitt & Munn 1999, Müller 2002 and Paraguassu &
Müller 2008, Dobrovie-Sorin & Pires de Oliveira 2008), despite their
different theoretical perspectives, takes for granted that the bare singular
cannot be treated as mass, because the two forms do not show the same
behavior with respect to individuating predicates: reciprocals, reflexives,
and distributive predication. The accepted view in the literature is that
the bare singular in BrP is a number neutral count term, so it does
not behave like a mass noun. This is taken to support the rejection
of Chierchia’s 1998 proposal that mass nouns denote atomic Boolean
algebras, and the basis for the commitment to Link’s 1983 hypothesis
that the mass domain is ontologically distinct from the count domain
because it is atom-less.
These authors argue that the bare singular does not behave like bare
mass nouns in contexts which ask for some sort of individuation or
distributivity, as with reciprocals and reflexives. This result is expected
232
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
under the view the predicate must distribute over a set of atoms, and
since mass nouns are not generated by sets of atoms, they are not
compatible with these operations. On the other hand, it is argued that
the bare singular, because it is associated with a count predicate (though
number neutral) is generated by a set of atoms. This is illustrated by
the examples in (1) and (2), from Munn & Schmitt 2005. Sentence (1)
is fine, because criança ‘child’ is count. On the other hand, sentence (2)
is ungrammatical. This is because the distributive predicate pesa duas
gramas ‘weighs two grams’ cannot distribute over the bare mass noun
ouro ‘gold’, since this substance has no atoms in its denotation. (Munn &
Schmitt 2005, Schmitt & Munn 1999, also in Paraguassu & Müller 2008):
(1)
Criança (nessa idade) pesa 20 kg.
Child (at-this age) weighs 20 kilos.
“Children weigh 20 kilos at this age.”
(2)
* Ouro pesa duas gramas
Gold weighs 2 grams.
Further supporting their claim, these authors argue that the same
contrast shows up when we combine the bare singular and bare mass
nouns with predicates like ‘one after the other’ that also distribute over
individual atoms as exemplified below (all the examples are from Schmitt
& Munn 1999):
(3)
Elefante cai um atrás do outro.
Elephant falls one behind of-the other.
“Elephants fall down one after the other”
(4)
* Ouro cai um atrás do outro.
Gold falls one behind of-the other.
Intended meaning: “Pieces of gold fall down one after the
other”.
233
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
The contrast exemplified in (3) and (4) is repeated when the reciprocal
is in argument position. In (5) and (6), the reciprocal is fine with the
countable bare singular, but not with bare mass nouns. Similarly, the
cliticized reciprocal is acceptable with a bare singular subject argument.
Schmitt & Munn 1999 argue that this is because the reciprocal must
distribute over atomic individuals, and take it as evidence that the bare
singular has atomic individuals in its denotation, whereas the mass noun
does not.
(5)
Criança briga uma com a outra.
Child fights one with the other.
“Children fight with one another.”
(6)
* Ouro realça um ao outro.
Gold enhances one to the other.
Intended meaning: “Pieces of gold enhance each other.”
(7)
Criança se lava sozinha.
Child self alone
“Children wash themselves alone.”1
The examples discussed in the literature are all prototypical mass
and count nouns, that is mass nouns which denote substances and count
nouns which denote inherently individuable entities, that is objects where
what counts as one N is part of the meaning of N. Thus gold does not
come in natural units, but children do, since if you know the meaning
of child, you should in the normal case know what counts as one child.
1
We did not find a plausible minimal contrast with (7) with a bare mass subject (and neither,
apparently did Schmitt & Munn). We hypothesize that this is because typical mass nouns are
non-animate, while se verbs typically ascribe some kind of animacy to their subjects. Thus the
concatenation of a mass noun with a se reflexive is not felicitous independent of issues of
atomicity.
234
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
However, as Rothstein 2010a argues, this prototypicality provides
neither necessary nor sufficient conditions for characterising either
mass or count terms semantically. There are mass nouns which denote
sets of inherently individuable entities, such as furniture and silverware (as
argued by Gillon 1992 and Chierchia 1998) and there are count nouns
which denote sets of entities where the choice of atoms is contextually
determined, such as fence or line. For example, suppose Figure 1 represents
the situation in which 4 farmers have land adjoining a common field, and
they each build a fence between their land and the field on the relevant
side. We call the four farmers A, B, C, and D:
FIGURE 1:
A
B
The field
C
D
When we count the number of fences in Figure 1, we come to
different numbers, depending on what we choose to count as “one
fence”. Suppose we choose as “one fence”, the outcome of a minimal
building-a-fence event. Since each farmer built a fence, there will be
four fences, one on each side of the field. If, however, we assume that
a continuous stretch of fencing counts as one fence, then there is only
one fence which encloses the field. And if A and B jointly financed
their fence-building from one source while C and D jointly financed
their fence-building from a different source, then there are plausibly two
fences. This variety of answers to the question “How many fences are
there” is possible because fence is not a naturally atomic predicate, and
the choice of what counts as one is contextually determined. 2
2
Rothstein 2010a shows that there may be different possible answers to the question “how
many children are there in the room?”, but that this is because of borderline vagueness, or
under-determinedness as to who is a child (whether or not a sixteen year-old counts as a child
depends on context-dependent age-restrictions), and not because of under-determinedness as
to what counts as ‘one.’
235
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
Rothstein 2010a argues that it is essential to distinguish natural atomicity
from semantic atomicity (a claim we return to in section 5). Natural atomicity
is a characteristic of predicates such as furniture and child which denote
sets of inherently individuable entities and thus, naturally atomicity can
in principle be a property of both mass and count predicates. Semantic
atomicity, on the other hand, is a property of count nouns, which
denote sets of atoms indexed for the context in which they count as
atomic. Thus the contextual parameter is encoded grammatically. The
set of atoms denoted by a naturally atomic count noun such as child (in
English) may not vary from context to context in the same way that the
denotation of fence varies, but since both are grammatically count nouns,
the contextual parameter must be grammatically encoded in both cases.
(We explain this in detail in section 3.) This theory allows for both nonprototypical mass and count nouns, i.e. naturally atomic mass nouns like
furniture and silverware, and non-naturally atomic count nouns like fence
and line. Rothstein 2010a shows that different grammatical operations
may be sensitive to either natural atomicity or semantic atomicity or
both.
On closer examination, we see that the effect of combining nonprototypical nouns, (naturally atomic mass nouns and non-naturally
atomic count nouns) with reciprocals, reflexives and individuating
predicates leads us to the conclusion that these predicates are sensitive
not to the mass and count distinction, but to the distinction between
naturally atomic and non-naturally atomic predicates. Ouro ‘gold’ is not
naturally atomic, but mobília ‘furniture’ is naturally atomic, although a
mass noun. Criança ‘child’ is naturally atomic, but cerca ‘fence’ or reta
‘line’ are not naturally atomic, although they are count in the sense that
the stem may combine directly with plural morphology and numerals.
The following examples show that bare mass nouns which are naturally
atomic behave like bare count nouns with respect to distributivity,
reflexivity and reciprocity, and while non-naturally atomic bare singulars
pattern with non-naturally atomic mass nouns:3
3
See de Braga et al 2010 for empirical evidences concerning the evaluation of native speakers of
236
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
(8)
a.
b.
Mobília (nesta loja) pesa 20 kilos.
Furniture (in+this store) weights 20 kilos.
“Furniture (in this store) weighs 20 kilos.”
Bijuteria (nesta loja) custa 3 reais.
Jewellery (in+this store) costs 3 reais.
“Jewelry (in this store) costs 3 reais.”
Contrary to Schmitt & Munn 1999 and Paraguassu & Müller’s
2008 expectations, which we shall call the canonical view, sentence
(8) is not ungrammatical, although mobília ‘furniture’ is mass. It is not
ungrammatical because furniture has natural atoms; over which the
predicate pesa 20 kilos distributes. The same reasoning explains its
acceptability with reciprocals as indicated in (9):
(9)
Mobília (dessa marca) encaixa uma na outra.
Furniture (of+this brand) fits one in+the other
“Pieces of furniture (of this brand) fit into each other.”
On the other hand, linha ‘thread’ and reta ‘line’ are countable, but
not naturally atomic, since what counts as one fence or one (piece of)
line varies from context to context. As (10)-(11) show, they do not easily
combine with distributive predicates and reciprocals, contrary to the
predictions of the canonical view, although they are count nouns as (12)
and (13) show:
(10) ?? Cerca (nesse terreno) tem 2 metros.
Fence (in+this property) has 2 meters.
“Fences in this property has 2 meters”
BrP with respect to these sentences. The authors shows that speakers do not behave as predicted
by Schmitt & Munn 1999, since they accept bare mass nouns with distributive predicates given
that the noun has natural atoms, and do not accept bare singular nouns with distributive predicates if the noun has no natural atoms.
237
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
(11) ?? Reta cruza uma com a outra.
Line cross one with the other.
Intended meaning: “Stretches of line cross with each other.”
(12) Tinha muitas cercas quebradas.
Has-imperfective many fences broken.
“There were many broken fences.”
(13) Ele desenhou quarto retas numa página.
“He drew four lines on a page.”
These data show that there is good reason to reject the arguments
of the canonical view that bare singulars are prima facie not mass nouns
and allows us to reopen the question of whether bare singular are really
mass nouns. In the following section we investigate this further and
show that there are many parallels between them.
2. Distributional Parallelisms between bare mass nouns
and bare singulars
In this section we examine various contexts in which the bare singular,
the bare mass noun and the bare plural can be used, and we see that bare
singulars behave more like bare mass nouns than like bare plurals both
in terms of distribution and interpretation. First, we show that the bare
plural is always ambiguous between a generic and an existential reading,
whereas the bare singular and the bare mass noun are never ambiguous;
both can only be interpreted generically. Then we show that both the
bare singular and the bare mass noun show restrictions in where they
can be used, in particular in combination with perfective aspect, whereas
the bare plural show no such constraints.
Although it is controversial whether the bare singular can be in
subject position of kind predicates (Schmitt & Munn 1999, a.o. argue
238
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
that it can, whereas Müller 2002 claims that it cannot), Pires de Oliveira
et. al 2010 found empirical evidence in corpora analysis that at least for
some dialects of BrP the bare singular combines with kind predicate.
Thus, the first observation is that both the bare singular and the bare
plural noun phrases can be the subject of generic sentences, in particular
they may be in subject position of kind predicates like estar em extinção
‘to be in the verge of extinction’. However, they do not mean the same.
(14) is ambiguous between the kind reading, where it asserts that all
sub-kinds of whales, thus the genus, are on the verge of extinction, and
the taxonomic reading, discussed in Krifka et al. 1995, in which the bare
plural denotes a set of sub-kinds of whales and the sentence asserts that
some sub-kinds of whales are in the verge of extinction (not the genus);
a reading that is not available for the bare singular. The sentence in (15)
does not have the interpretation of sub-kinds, it has only the kind/genus
reading.
(14) Baleias estão em extinção. (taxonomic / kind readings) Whales
are in extinction.
“Whales (in general) are on the verge of extinction” OR
“Some kinds of whales are on the verge of extinction”
(15) Baleia está em extinção. (only kind reading)
Whale is in extinction.
“Whales/the whale is on the verge of extinction.”
It is difficult to find unambiguously genus-level predicates which
apply to mass nouns. Exteberria 2010 treats to be abundant as a genus
predicate for mass. Suppose this is so. Sentence (16) shows exactly the
same behavior as a kind predicate applied to a bare singular: in (16) we
see that it can be applied only to the substance as a whole, and cannot be
used to make an assertion about sub-kinds of the substance – like low
quality oil, for instance:
239
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
(16) Petróleo é abundante nessa região. (only kind reading)
Oil is abundant in+this area.
“Oil is abundant in this area.”
In subject position of a kind predicate, the bare mass noun, like the
bare singular, only shows a kind reading.
The same contrast in interpretation appears when the bare noun
phrases are in subject position of invent-passive sentences, as exemplified
in (17):
(17)
a.
b.
c.
Computadores foram inventados por Babbage.
(taxonomic / kind readings)
“Computers (in general) were invented by Babbage.”
“Some kinds of computers were invented by Babbage.”
Computador foi inventado por Babbage. (only kind
reading)
“Computers (in general) were invented by Babbage”.
Bronze foi inventado pelos sumérios. (only kind reading)
“Bronze (the kind of substance) was invented by the
Sumerians”.
However, a different type of contrast appears when we observe the
object position of invent predicates. (18a), with a bare plural direct object,
is acceptable and the bare plural is interpreted as denoting sub-kinds,
types of computers.4 However, sentences (18b), with the bare singular,
and (18c), with a bare mass noun, are just ungrammatical:
(18)
a.
Babbage inventou computadores.
(only taxonomic reading)
Babbage invented computers
4
Krifka et al. 1995 argues that this is the only reading available for the comparable sentence in
English.
240
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
b.
* Babbage inventou computador.
Babbage invented computer
* Os sumérios inventaram bronze.
The Sumerian invented bronze
Thus the bare singular and the bare mass nouns pattern alike in that
they cannot be the object of invent predicates.
In object position of dispositional predicates a parallel distinction
occurs: the bare plural can have either an kind or an existential reading,
while the bare singular and the mass noun have only a kind reading.
(19)
a.
b.
c.
João gosta de cachorros.
(kind / existential readings)
João likes of dogs.
“João likes dogs in general” OR
“João likes some individual dogs”.
João gosta de cachorro (only kind)
João like of dog.
“João likes dogs”.
João gosta de leite (only kind)
João likes of milk
“João likes milk.”
Following the same pattern, the famous English sentences about the
firemen, brought about by Diesing 1992, also show the same contrast:
the bare plural is ambiguous between an existential and a kind reading,
whereas both the bare singular and the bare mass noun phrases only
display a genus interpretation:
241
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
(20)
a.
b.
c.
Bombeiros são prestativos.
(kind / existential readings)
Firemen are helpful.
“Firemen in general are helpful”
OR “Some plumbers are helpful”
Bombeiro é prestativo. (only kind reading)
Firemen is helpful.
“Firemen in general are helpful.”
Petróleo é útil. (only kind reading)
“Oil is useful.”
Schmitt & Munn 1999 observe that the bare plural when in object
position of a sentence in which the subject is plural may give rise to
“specific readings”, as exemplified below:
(21)
Os alunos estão procurando artigos de linguística para
apresentar (ambiguous)
The students are looking-for articles of linguistics to present
“The students are looking for linguistics articles to present.”
(Schmitt & Munn: 8, example (15a))
Sentence (21) is three ways ambiguous: (a) there are articles which all
the students are looking for; (b) each student may have specific articles
that she or he is looking for; and, (c) the students are all looking for
unspecified linguistics articles. As the authors also observe, the bare
singular only has the non-specific reading:
(22)
Os alunos estão procurando artigo de linguística para
apresentar.
242
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
The students are looking-for article of linguistics to present
“The students are looking for linguistics articles to present.”
(Schmitt & Munn: 8, example (15b)
Although not noticed in the literature, the bare mass noun shows no
ambiguity: leite ‘milk’ below only has non-specific reading:
(23) Os alunos estão procurando leite para beber.
The students are looking+for milk to drink.
“The students are looking for milk to drink.”
In fact, it seems that both the bare singular and the bare mass cannot
but have the non-specific reading, whereas the bare plural is ambiguous.
The last piece of evidence that the bare plural is ambiguous between
kind and existential readings come from the contexts exemplified below.
We should note beforehand that both the bare singular and the bare
mass nouns only occur as subject of perfective predicates if the noun
phrase is focalized. However, the contrast seems to be independent
of the focus issue, because the bare plural subject alunos ‘students’ in
(24), even if focused, is ambiguous between a quasi-universal and an
existential reading; i.e. it may be understood as asserting either that
students in general were on strike last year or that some students were on
strike. Sentences (26) and (27), with the bare singular and the mass noun
subjects respectively, only have a kind reading, i.e. the class of students
was on strike, and the genus milk:
(24) No ano passado, alunosF entraram em greve.
(existential / “universal” readings)
In+the year last, students entered in strike.
“Last year, students (as a group)were on strike.”
“Last year, some students were on strike.”
243
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
(25) No ano passado, alunoF entrou em greve.
(only kind reading)
In+the year last, student entered in strike.
Only: “Last year, students were on strike.”
(26) No ano passado, leiteF desapareceu do mercado.
(only kind reading)
In+the year last, milk disappeared of+the market.
Only: “Last year, milk (in general) disappeared from the
market.”
We now move to the constraints. As we have already said, another
parallel between bare singular and mass nouns shows up in subject
of positions of episodic sentences that are not about the kind. As
Schmitt & Munn 1999 pointed out, (see also Doron 2003 for Modern
Hebrew), the bare singular can freely occur in the subject position of
generic sentences, but it cannot be the subject of episodic sentences,
unless it gets a list interpretation or is focalized, as shown by (27a). This
constraint does not apply to the bare plural; sentence (27b) is naturally
grammatical:
(27)
a. ?? Mulher usou saia ontem.
Woman usedPerfective skirt yesterday.
“Women wore skirts yesterday.”
b. Mulheres usaram saia ontem.
Women usedPerfective skirt yesterday.
“Women wore skirts yesterday.”
244
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
There are two issues left unnoticed in the literature: (i) the constraint
disappears as soon as a kind reading is available, as showed below in (28),
where the modification of the adverb denotes a time span that allows
for a kind reading. The same modification with the BP gives rise to a
ambiguous reading: the bare plural may be interpreted either generically
or existentially, i.e. as an assertion about some women who used to wear
skirts:
(28)
a.
b.
Mulher usou saia na década de 30. (only kind)
Woman usedPerfective skirt in+the decade of 30.
“Women wore skirts in the 30’s.”
Mulheres usaram saia na década de 30.
(kind / existential interpretations)
Women usedPerfective skirt in+the decade of 30.
“Women wore skirts in the 30’s.”
“Women in general wore skirts in the 30’s” or “Some
women wore skirts in the 30’s.”
(ii) the bare mass noun shows the same restriction as the bare
singular: it cannot be in the subject position of episodic sentences,
unless it is focalized or receives a list interpretation, (29a), though it is
plainly fine in the subject position of generic sentences, as shown by
(29b) and (29c) respectively:
(29)
a.
b.
?? Cerveja custou caro.
Bier costPerfective expensive
“Bier was expensive”.
Cerveja custa caro. (kind reading)
Bier costs expensive.
“Bier is expensive.”
245
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
c.
Cerveja custava caro na década de 30.
(only kind reading)
Bier costImperfective expensive in+the decade of 30.
“Bier used to be expensive in the 30’s.”
Thus, it seems that neither the bare singular nor the bare plural may
combine with episodic events, unless they are about the genus, as shown
below; once again the bare plural is ambiguous between sub-kinds and
kind readings, as shown in (30c):
(30)
a.
b.
c.
Cavalo entrou no Brasil com os portugueses.
(only kind)
Horse enteredPerfective in+the Brazil with the+plural
portugueses
“Horses arrived in Brazil with the Portuguese.”
Arroz entrou no Brasil com a imigração japonesa.
(only kind)
Rice enteredPerfective in+the Brazil with the immigration
Japanese.
“Rice arrived in Brazil with the Japanese immigration.”
Cavalos entraram no Brasil com os portugueses.
(taxonomic / kind)
HorsesenteredPerfective in+the Brazil with the+plural
portugueses
“Horses arrived in Brazil with the Portuguese.”
Let us summarize what the above data shows us: (i) the BP is always
ambiguous between kind and existential readings; (ii) the bare singular
and the bare mass always denote the kind; (iii) only the BP may be the
subject of episodic sentences that are not about the kind; (iv) only the
BP is ambiguous between specific and non-specific readings, the bare
singular and the bare mass are always non-specific.
246
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
3. Rothstein’s approach to mass and count nouns
The claim that bare singulars in many languages are best treated
as mass nouns denoting kind terms was made in Rothstein 2010b. In
this section we present a summary of the theory of the mass/count
distinction elaborated there, which is itself based on Rothstein 2010a.
In section 4 we will use this theory to explain the data presented in the
previous two sections.
Rothstein 2010a, b assumes, following Chierchia 1998, that nominals
are interpreted with respect to a complete atomic Boolean algebra M.
Intuitively, M is the mass domain. UM, the sum operation on M, is the
complete Boolean join operation i.e. for every X ⊆ M: UMX ∈ M. (⊆M is
the part of relation on M). The set of atoms A of M is not fully specified,
but may remain vague5. All nominals are associated with an abstract root
noun, which denotes Nroot a subset of M. More precisely, Nroot is the
Boolean algebra generated under UM from a set of atoms AN ⊆M (so
root noun denotation Nroot has the same 0 as M, its atoms are AN, and
its 1 is UM(AN)). Root nouns are thus lexically plural in Chierchia’s sense.
However, root nouns, never appear as lexical items.6 Mass noun
and count noun denotations are derived from root noun meanings.
Mass nouns denote ∩Nroot, i.e. the kind associated with Nroot. Following
Chierchia 1998, kinds are defined via the maximal entity in the denotation
of Nroot. They are functions from worlds/situations onto the maximal
entity instantiating Nroot in that world/situation. Thus for any Nroot and
world/situation w the following holds:
(31)
∩
Nroot = λw. U¬M(Nroot ,w)
5
Rothstein (2010a) points out nothing hangs on this choice and that the theory can be adapted
to fit different accounts of mass semantics.
6
Note that in this respect Rothstein (2010b) differs from Rothstein (2010a). In the latter paper,
mass noun denotations are identical to root noun denotations i.e. they are predicates. Rothstein
(2010b) argues that mass nouns denote kinds. In this paper, we follow Rothstein (2010b).
247
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
Since we can restrict ourselves to extensional contexts in this paper,
we can assume that the denotation of a kind term is (∩Nroot )(w0) (with
w0 ¬the world of evaluation). Kind terms are thus expressions denoting
individual entities of type k.
(32) Mass nouns:
a. the denotation of a mass noun is
Nmass = MASS(N¬root) = (∩Nroot)(w0)
b.
is the function from kind(-extensions) to sets of
individuals such that for every kind(-extension)
d(w0): ∪(d(w0)) = λx. x ⊆M d(w0)
Fact: for every root noun Nroot: ∪(∩Nroot(w0)) = Nroot
∪
So mass nouns denote the kind associated with the root noun, while
the predicative use of a mass noun can be recovered by the ∪ function.
The ∪ function, when applied to the kind term, will give back the original
meaning of the root noun, i.e. the set of instantiations of the kind term
in w.
Count nouns differ from mass nouns because they allow direct
grammatical counting. Rothstein (2010a) argues that counting entities is
dependent on a contextually determined choice as to what counts as one
entity. As we saw in section 2, this is shown by nouns such as fence, wall
and bouquet, which are count nouns and therefore must denote sets of
countable atoms, but which nonetheless denote different sets of atoms
depending on context.
The choice of what counts as one entity is encoded the notion of
(counting) context k:
(33) A context k is a set of objects from M, k ⊆ M, K is the set of
all contexts.
248
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
The set of count atoms determined by context k
is the set Ak = {<d, k>: d ∈ k}
Singular count nouns are derived from root nouns by a count
operation COUNTk ¬ ¬ ¬which applies to the root noun meaning Nroot
and picks out the set of ordered pairs
{<d, k>: d ∈ N ∩ k}, i.e. the set of entities in Nroot which count as
one in context k.
(34) For any X ⊆M: COUNTk(X) = {<d, k>: d ∈ X ∩ k}
The interpretation of a count noun Ncount in context k is:
COUNTk(Nroot).
Nk is the count noun denotation derived by COUNTk(Nroot). Plural
count nouns are derived by applying the standard plural operation to the
first projection of Nk. “The n-th projection of Nk” is defined using the
π function as in (41). PL applied to Nk is defined in (42):
(35) π1(Nk¬) = {d: <d ,k> ∈ Nk}
π2(Nk¬) = k
(36) In default context k: PL(Ncount) = *Nk = {<d,k>: d ∈*π1(Nk¬)}
Examples:
STONEmass= MASS(STONEroot) = ∩STONEroot
= stone
STONEcount = COUNTk (STONEroot)
= {<d, k>: d ∈ STONEroot ∩ k}
So STONEmass and STONEcount are different kinds of entities in wo
and are of different types. STONEmass denotes the kind in wo, type d i.e.
the maximal quantity of stone in wo. STONEcount denotes a set {<d, k>:
d ∈ STONEroot ∩ k} of type < dxk, t> i.e. the set of indexed entities
249
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
which count as one in context k. We see that crucially root, mass and
count terms are of different types. Root terms denote subsets of M
and are of type <d,t>. Mass terms denote kinds and are of type d.
Predicates derived from mass terms via ∪ are of type <d,t>, and have
denotations equivalent to root nouns. Count terms, which denote sets
of pairs in M x K, are of type <dxk, t>.
One of the advantages of this theory, as argued by Rothstein (2010a,
b), is that it allows us to distinguish between natural atomicity and semantic
atomicity. Semantically atomic predicates are the denotations of singular count
predicates. i.e. sets of pairs <d,k>. These are sets of indexed entities
bearing the identical index indicating the context in which they count as
one. Naturally atomic predicates are predicates which denote sets of inherently
individuable entities. These sets may be either singular or plural (where
the plurality maybe either lexical or grammatical). A set denoted by a
naturally atomic predicate is a naturally atomic set. A singular naturally
atomic predicate denotes a set of inherently individuable singularites,
while a plural naturally atomic predicate denotes a set generated under
sum from a naturally atomic set of singularities. Naturally atomic mass
nouns and naturally atomic count nouns are defined as follows: A mass
noun denoting the kind ∩Nroot is naturally atomic if the Nroot it is derived
from is naturally atomic. A count noun denoting Nk (or *Nk) is naturally
atomic if π1(Nk) or π1(*Nk) is naturally atomic.
In a mass/count language such as English canonical mass nouns
such as water and mud are not naturally atomic, but some mass nouns
such as furniture, cutlery, jewellery, company are naturally atomic. Conversely,
many count nouns are naturally atomic, but some count nouns are not
naturally atomic. Examples of these were noted in Mittwoch 1988,
Krifka 1992, Rothstein 1999, 2004, 2010a, and include fence, wall, lawn,
sequence, line, plane, twig. As Rothstein 2010a argues, both natural and
semantic atomicity are grammatically relevant for quantity judgment, for
certain distributive predicate and for some instances of anaphora. To
give just one example here, Rothstein 2010a shows that big distributes
over natural atoms of furniture when predicated of mass nouns.
250
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
(37)
a.
b.
c.
d.
e.
The furniture in our house is big.
In a department store: “The big furniture is on the third
floor.”
To movers who are emptying the house: “Take the big
furniture down first, please”
“Don’t buy big furniture; the stairs are too narrow to
carry it up”.
“Baggage in excess of 70 pounds (32 kilograms) or 115
linear inches (292cm) (total length + width + height) will
not be accepted as checked baggage.” (www.continental.
com: excess baggage).
Rothstein (2010b) argues that in the default case in English either
the rule deriving mass nouns applies to Nroot or the rule deriving count
nouns applies to Nroot, but not both. This is formulated in (39):
(38)
Default principle of exclusive choice for lexical noun derivation (for
English):
Either COUNTk or MASS applies to a root noun, but not
both.
In a limited set of cases, namely with foodstuffs such as apple and
substances such as stone both rules may apply, and in these cases the
language has both mass and count forms of the same root lexeme.
Rothstein (2010b) suggests that languages vary as to whether the default
principle set out in (38) applies. She suggests that if a language generally
allows bare singulars alongside count predicates, this is because the
principle in (38) does not apply. Bare singulars are thus mass nouns,
which are derived alongside the count form of the lexeme. Brazilian
251
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
Portuguese is a good example of such language. On this account, bare
singulars in Brazilian Portuguese denote kind terms (just as other mass
nouns do). Thus the mass form of menino is hypothesized to have the
denotation ∩BOY, while the count nominal denotes the set of ordered
pairs {<x, k>: x ∈ BOY ∩ k}.
In the following section, we show how this semantic analysis
explains the properties of bare singulars in Brazilian Portuguese that we
discussed in sections 1 and 2.
4. First steps into understanding the Brazilian data
It is not our aim to present an exhaustive explanation for the
behavior of Brazilian Bare Noun Phrases; in particular, we shall not
deal extensively with the object position. But rather to explore a new
explanation which relies on the hypothesis there are just two sorts of
bare nouns in BrP: Bare Mass nouns and bare plurals. We will see in the
next section that this hypothesis leads to surprising correct predictions.
In this section, we show how an explanation for the facts raised in
sections 1 and 2 may be explained taking Rothstein’s as starting point.
Let us begin by explaining the data discussed on section 1, where
we showed that the predictions of the ‘canonical view’, according to
which distributive predicates – reciprocals, reflexives and distributive
predicates like pesar 20 kg ‘to weight 20 kg’ - were to combine only with
bare singulars, because only they have atoms, were not confirmed if we
consider non-prototypical count and mass nouns. Distributive predicates
do not combine naturally with count nouns that have no natural atoms
such as cerca ‘fence’, and bare mass nouns that have atoms - mobília
‘furniture’ for instance - are acceptable when they are combined with
individuating predicates, contrary to the predictions of the canonical
view. These findings give support to Rothstein’s hypothesis that natural
atomicity should be kept apart from semantic (grammatical) atomicity,
and that it plays a role in grammar. As it was already said, naturally
252
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
atomic predicates denote sets of inherently individuable entities, whereas
semantic atomicity is the characterizing property of a count expression,
i.e. an expression of type <dxk, t>.
Now, since what was called bare singulars were build from count
nouns, which are prototically naturally atomic, they naturally fit as
arguments of these distributive predicates. But since canonical mass
nouns such as mobília ‘furniture’ are equally felicitous as arguments of
these predicates, this cannot be evidence that the bare singulars are
not mass. And, as we saw in (10) and (11), non-naturally atomic bare
singular correlates of count nouns do not take distributive predicates.
This further supports the claim that co-occurrence with distributive
predicates distinguishes between naturally atomic and non-naturally
atomic nouns and not between mass and non-mass expressions. Note,
by the way, that there is cross linguistic variation as to whether these
distributive predicates are sensitive to natural or semantic atomicity.
In Brazilian Portuguese reciprocals are sensitive to natural atomicity
as well as semantic atomicity, and (9), repeated here, is acceptable. In
English, reciprocals allow only semantically atomic expressions as their
antecedents. The correlate of (9), given in (39a) is ungrammatical, while
(39b) is perfectly acceptable.
(9)
Mobília (dessa marca) encaixa uma na outra.
Furniture (of+this brand) fits one in+the other
“Pieces of furniture (of this brand) fit into each other.”
(39)
a.
b.
*Furniture is stacked on top of each other.
Pieces of furniture/chairs were stacked on top of each
other.
These data show that there is no foundation for the generalization
that bare singulars are atomic while bare mass nouns are not, and this
means that while distributivity is sensitive to (natural) atomicity, it does
253
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
not distinguish between bare mass and bare singular expressions, and
thus there is no prima facie reason for treating them as separate classes
of expressions.
We turn now to the data presented in section 2 that may be summarized
as: (i) the BP is always ambiguous between kind and existential readings
– including taxonomic readings are some sort of existential; (ii) the BP
is ambiguous between specific and non-specific readings; (iii) the bare
mass and the singular always denote the kind; and finally (iv) they are
never specific. Before presenting our hypothesis we should make clear
that many issues will be raised here that will not be discussed, since our
aim is just to sketch a possible solution.
In order to explain our facts we have to assume a assymmetry between
the external argument position and the internal argument position. This
is a hypothesis widely assumed by several authors: for instance, Kratzer’s
neodavidsonian approach to the agency or Carlson’s (2003) claim that
weak determiners cannot be in the external argument position. Our
hypothesis is that the bare mass noun phrases, when in external position,
i.e. a position that is adjoined, always denote the kind via the application
of the down operator. Thus, the only individual a bare mass noun can
denote as a kind. As formally stated in (31), the down operator applies
to the root noun, and results in the maximal sum in each world. Baleiaroot
‘whale’ denotes the set of whales that is not atomically specified, i.e.
it does not have semantic atoms, though it does have natural atoms.
The down operator applies ∩Baleiaroot and denotes for every world the
maximal entity instantiating the whale property in that world. The same
derivation applies to a root noun as Petróleoroot ‘oil’: it denotes the set
of non-atomic individuals; the down operator applies to it resulting in
the intensional individual, the kind Oil. Thus, the bare singular and the
bare mass noun phrases denote intensional individuals, type <s, d>, a
function from worlds to the maximal sum in each world, when they are
agents. They are in Carlson’s 1977a, b terms proper names; they rigidly
designate the kind.
254
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
If this is so, we immediately explain that they may combine with
kind predicates such as estar extinto ‘to be extinct’, as in example (15),
and ser abundant ‘to be abundant’, in example (16). The same reasoning
applies to the examples (17b) and (17c) where the bare mass nouns are
names of kinds, because they are in subject position of invent passive
sentences. The examples in (20) – the firemen cases - show that the
bare mass nouns cannot have existential readings. When in the position
of agency, bare mass nouns can only denote the kind. Thus, we explain
why in contexts as exemplified by the sentences in (20) only the kind
reading is available. If the predicate is not about the kind, the bare
mass is blocked, because there is a crash between the predicate which is
about the specimens, and the subject which denotes the kind. This is the
explanation for the behavior of the bare mass nouns when in episodic
sentences that are not about the kind, as exemplified in sentences (27a)
and (29a). The bare nouns in these examples are in external argument
position, so they can only denote kind entities, but the predicates ask
for stage level individuals, i.e. specimens, and the acceptability of the
sentence is blocked. As soon as the predicate is raised to the kind level,
the sentence is fine. Focus seems then to be a way of raising the predicate
to the kind level, an issue we will leave aside.
In internal argument position the bare mass noun denotes a mass
predicate, i.e. a predicate that denotes a lattice without semantic atoms.
We propose that this is the reason why the bare mass noun cannot be
in object position of invent predicates: when in object position they are
mass predicates, and as such they cannot denote a particular entity;
though they may denote a set of instantiations of the kind. We are
thus proposing that the Bare Mass either denotes the individual kind
or it denotes a mass predicate, by which we mean a predicate that has
no semantic atoms. The main issue with this approach is the examples
in (19) with dispositional predicates, which could be understood as
counter-examples to our explanation. However, if Kratzer’s suggestion
that dispositional predicates allow the scrambling of their object in
255
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
the logical form is correct, then the bare mass nouns are not in object
position, but rather in an external position, where they must denote an
individual, and the only individual they can denote is the kind. Thus, the
only option is that the bare mass denotes the kind. And this is precisely
the interpretation that we have for (19b) and (19c).
Thus, our proposal is that when in internal argument positions, the
bare mass nouns are property denoting expressions, as such they undergo
some type of incorporation; thus, they cannot denote a particular
individual. In (22) and (23) the students are in an activity of ‘linguisticpapers-searching, and of ‘milk-searching’. They undergo incorporation
because they denote a predicate where no operation of semantically
individuation has taken place.
Let us explain the distinct behavior of the bare plural. The
generalization is that the bare plural is always ambiguous between kind
and existential readings, understanding taxonomic readings as some sort
of existential reading. We propose that the bare plural always denotes a
plural predicate. The derivational process that gives raise to the bare plural
in Brazilian Portuguese relies on a contextual operation of constituting a
semantic individual, that is, an individual that counts as a unit. The count
operation applies to the root noun if there is a contextually given unit, as
stated from (33) to (35). We saw on section 3 that the singular predicate
is engendered by pairing a contextual unit and an individual. Thus,
its type is <dxk, t>, where k is the contextually given unit. Semantic
atoms are then indexed individuals. A pluralized predicate, like meninos
‘boys’, denotes the set of indexed plural individual. Now an operation
of type shifting must apply so that the bare plural may be in argument
position. Since the plural predicate is constituted of indexed individuals,
all the operators may apply. Applying the down operator will give us
the kind interpretation. Existential closure explains their existential
interpretations. The BP may have stage level interpretations when in
subject positions because it denotes a set of semantic individuals that
may occupy the external position. Thus, there are two alternative: either
256
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
the down operator applies resulting in the maximal sum of individuals,
the kind, or the up operator applies to the indexed individuals, and the
result is the existential reading. This is indeed a good result, because it
explains the data presented in section 2. As we have seen throughout
the examples, the bare plural in Brazilian Portuguese may denote the
kind or it may have existential interpretations. Moreover it explains why
the bare plural shows no restriction with respect to being in the subject
position of episodic predicates. In such contexts, it will denote indexed
individuals, an alternative that is blocked for the bare singular and the
bare mass because they do not have semantic atoms in their denotations.
5. Some Surprising Predictions
In this section we will further explore our proposal, showing
that it correctly predicts some facts that were not even noticed in the
literature. We shall explore two data: (i) the combination of the bare
singular with mass quantifier, a surprising fact given that the literature
has always claimed that the bare singular is bare; (ii), the bare singular in
comparative sentences.
The literature on bare singular has always stressed that it is bare,
that it always show up without any quantifier. This is the reason why it
is said to be bare. Nonetheless, if our hypothesis is sound, and the bare
singular is mass, then we expect that it may be under the scope of mass
quantifiers. In Brazilian Portuguese, mass nouns combine with muito/
muita ‘much’, whereas plural count nouns only combine with muitos/
muitas ‘many’:
(40)
a.
Tinha muito óleo na maionese.
Hadimperfective much oil in+the mayonnaise
“There was too much oil in the mayonnaise.”
257
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
b.
Tinha muitos/*muito alunos na sala.
Hadimperfective many/much students in+the room.
“There were too many students in the room.”
Muito always agrees with its complement in gender and number.
When it takes a bare plural form it agrees in gender and is marked plural.
With the bare singular it agrees with the complement in gender and
there is no surface mark of plurality. However, the predicate cannot be
singular, because muito cannot apply to a semantic atom. Thus, the only
possibility is that the predicate is a root noun.
In order to ask for quantities, BrP uses the wh-expressions quanto or
quantos: quanto ‘how much’ is used with mass predicates, whereas quantos
‘how many’ appears with plural count nouns:
(41)
a.
b.
Quanto óleo vai na massa?
How oil goes in+the dough
“How much oil goes in the dough?”
Quantos livros ele comprou?
Hows books he bought
“How many books did he buy?”
But we also have quanto with the bare singular, which again cannot be
the singular predicate, thus it must be the root noun.
Consider now the following context: João is travelling and has a
huge amount of books on his hands. His mother can make the following
remarks:
(42)
a.
Quanto livro você acha que pode levar!?
Much book you think that can to carry
Intended meaning: “What quantity of book can you
carry?”
258
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
b.
É muito livro pra você levar.
Is much book for you to carry?
Intended meaning: “The volume of books is too much
for you
to carry.”
In (42a) the mother is commenting on the volume of book that he
is carrying, not on the cardinality of books. The sentence may be true
even if he has few books, provided that the books are thick or heavy.
Her comment in (42b) is also about the volume, the weight of the books
is too much for him to carry. Here again, (42b) may be true in a situation
where he has only few books but they are all very heavy.
In contrast with (42a), the sentence in (41b) cannot but be about the
number of books that he bought; it cannot be about the volume. The
same restriction appears with muitos ‘many’. The sentence below is only
about the units of books; it is then false in a situation in which he has
bought few books, even if they are thick ones:
(43) João comprou muitos livros.
João boughtperfective many books.
“João has bought many books.”
On the other hand, sentence (44) may be used to ask the volume or
the weight of the books, as when we buy books by kilo:
(44)
?? Quanto livro você comprou?
How book you boughtperfective.
Intended meaning: What quantity of books did you buy?”
Thus, contrary to the traditional view, the bare singular does not
always have to be bare, but it can occur with mass quantifiers, a prediction
of our theory.
259
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
Another unnoticed fact in the literature about the bare singular
which also supports our approach is that the bare singular may appear
with a partitive preposition, which cannot occur with the bare plural, but
may with the bare mass:
(45)
a.
b.
c.
Quanto de livro eu posso carregar?7
How of book I can carry
Intended meaning: “What quantity of book can I carry?”
Quanto de leite eu ponho no bolo?
How of milk I put in+the cake
“How much milk should I put in the cake?”
* Quanto de livros eu posso carregar?
How of books I can carry
Finally, we shall comment on the behavior of the bare singular in
comparison sentences. Bale & Barner 2009 argue that the best test to
distinguish mass from count nouns is their behavior in comparison
sentences: comparing count nouns amounts to comparing the cardinality,
whereas mass nouns may access different scales. Comparing mobília
‘furniture’, for instance, may be comparing the volume or the number of
pieces , because furniture has natural atoms; whereas comparing meninos
‘boys’ can only be a comparison of cardinalities. The comparative
judgments shift according to the syntactic status of the noun as mass
or count. Given our hypothesis we expect that the bare singular behaves
like mass: it may be interpreted as comparing units or as comparing
according to some other dimension.
These uses are attested in corpora: O quanto de livro se escreveu e vendeu, ou, quantas
pregações se realizaram nos meios de comunicação ou fora deles.
<http://www.guiame.com.br/v4/11832-1526-Coluna-Pr-Heliel-Carvalho-Arrependei-vos.html>
7
260
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
(46)
a.
b.
Esse jardim tem mais pedra do que aquele.
This garden has more stone of+the that other.
“This garden has more stone than the other one.”
João tem mais corda que Pedro.
João has more rope than Pedro.
“João has more rope than Pedro.”
(46a) may be interpreted as stating that the volume of stones in
one garden is greater than in the other or that there are more units of
stones in one garden than in the other. The ambiguity disappears with
the bare plural which can only be interpreted as comparing number of
units – example (47a). (46b) may be true in two different situations: if
João has more units of ropes than Pedro has or if the length of the rope
that João has is wider that the length of Pedro’s rope. Here again there is
no ambiguity with the bare plural: (46b) compares the number of units
that they have:
(47)
a.
b.
Esse jardim tem mais pedras do que aquele.
This garden has more stones of+the that other.
“This garden has more stones than the other one.”
João tem mais cordas que Pedro.
João has more rope that Pedro.
“João has more rope than Pedro.”
As our theory predicts, the bare singular behaves like mass: it may
access different scales. Another argument to show the same conclusion
is that people may disagree about the interpretation of a comparative
sentence when it has a bare singular. Suppose two fishermen go to a
store to buy living earthworms for fishing, and they are comparing cans
with living worms:
261
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
(48)
a.
b.
c.
Essa lata tem mais minhoca do que aquela.
This can has more earthworm of+the that that.
“This can has more quantity of earthworm than tha one.”
Não. Essa tem 10 e aquela tem 12 minhocas.
No, this has 10 and that has 12 earthworms.
“No, this can has 10, and the other one has 12
earthworms.”
Mas essa pesa mais.
But this weights more
“But this one is heavier.”
If Bale & Barnes are correct, the bare singular behaves like mass,
as expected by our approach.
Conclusion
The aim of this paper was to explain the distributional parallelisms
between the bare singular and the bare mass noun in contrast with the
bare plural, which were so far unnoticed in the literature. We rejected the
canonical view according to which the bare singular is not mass because
they do not behave alike in distributive contexts. We have shown that the
canonical generalization according to which the bare singular is acceptable
in such contexts whereas the bare mass is not does not hold when non
prototypical mass and count nouns are taken into consideration. Mass
nouns which denote sets of natural individuals behave like count nouns:
they are acceptable with distributive predicates. On the other side, atomless count nouns behave as mass: they are rejected in such contexts. The
contrast between prototypical bare singulars and bare mass nouns in
distributive contexts is explained by the speakers’ sensitivity to natural
atomicity.
262
Roberta Pires de Oliveira and Susan Rothstein
In section 2, we presented several distributional parallelisms between
the bare singular and the bare mass noun and showed that the bare
plural does not have the same behavior. The empirical generalization is
that the bare singular and the bare mass noun always denote the kind,
whereas the bare plural is ambiguous between a kind or an existential
interpretation. Based on Rotsthein 2010a, b our proposal is that the bare
singular and the bare mass always denote the kind: the root noun is
lowered to an intensional individual via the down operator. Since the root
nouns do not denote indexed individuals, they cannot be in the external
argument position. The bare singular and the bare mass only denote
kind. This explains why the bare singular and the bare mass noun cannot
occur in episodic contexts, unless the predicate is about the kind. The
derivation of the bare plural explains the fact that it may have existential
interpretations: it is derived from the singular predicate, which denotes
indexed atomic individuals. Since it denotes indexed individuals, it may
be in the external argument position. We have briefly argued that the
bare singular and the bare mass in object position are predicates, which
are interpreted as denotating instantiations of the kind.
Finally, in the last section we showed that our theory predicts correctly
two facts: (i) contrary to what is taken for granted in the literature, the
bare singular is not always bare, it may be bound by mass quantifiers, and
(ii) in comparative sentences, the bare singular behaves as mass, since it
does not necessarily access the cardinal scale.
Our analysis has raised at least as many questions as we have
answered, and central among them is the question of the relation between
perfective aspect, episodic event predicates and the interpretation of
bare nouns. We leave these questions for further research.
263
Two Sorts of Bare Nouns in Brazilian Portuguese
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AU NOM DE NON, PERSPECTIVES DISCURSIVES
SUR LA NEGATIVITÉ
Denis BERTRAND
Université Paris 8-Vincennes-Saint-Denis
Introduction
« Au nom de non ». En français « nom de nom! », avec un « m » à la
finale du deuxième nom, est un juron, comme « nom de Dieu! », mais en
plus faible… L’interjection « Nom de nom! » s’emploie, entre autres, pour
signifier la difficulté d’une tâche. Parler du négatif en effet n’est pas une
tâche simple, d’où ce jeu de mots pour introduire une ou deux années de
réflexions actuelles et à venir sur cette problématique. Mais aussi, c’est au
nom de « non » et plus largement d’un travail collectif sur le négatif que
sont présentées ici quelques réflexions sémiotiques. Le point de départ
de cet exposé est en effet le sujet du Séminaire Intersémiotique de Paris
pour l’année 2010-2011: La négation, le négatif, la négativité.
Ce thème pose, comme d’autres, la question de la position de la
sémiotique dans le champ des sciences du langage et plus largement
des sciences humaines. Une discipline « jeune » doit toujours justifier
son territoire! Cette question, chaque année, se pose lors du choix d’un
sujet pour ce séminaire jugé, à tort ou à raison – en raison de sa filiation
greimassienne –, comme moteur pour les recherches sémiotiques. La
sémiotique se situe à la croisée de la linguistique, de l’anthropologie et
de la philosophie – plus précisément de la phénoménologie. Quel est
donc son lieu propre? On a vu récemment le problème se poser lorsque
le séminaire s’était donné pour thème « éthique et sémiotique ». Que
pouvait apporter la sémiotique à la question éthique sans se confondre
avec le même domaine dans le champ philosophique? Et que pouvait
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 267-289. 1ª parte 2011
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
apporter, en retour, la question éthique aux avancées théoriques de la
sémiotique? Le résultat n’a pas été absolument convaincant. L’originalité
des réponses sémiotiques, et donc de sa position disciplinaire, était
plus forte quand nous avons abordé les thématiques du temps ou de
l’espace. L’enjeu d’un tel problème se trouve peut-être plus redoutable
encore avec le thème abordé cette année. C’est pourquoi nous avons
tenu au triptyque: « la négation, le négatif, la négativité ». La négation
fait référence à la langue, le négatif s’élargit à toute forme de langage,
la négativité s’étend comme une isotopie sous-jacente à l’univers des
discours.
Lorsque nous avons, avec Jean-François Bordron, cherché à poser
les premiers linéaments de cette question, nous avons fait un inventaire
des horizons théoriques qui présentaient une image du négatif, et qui
en proposaient un traitement selon les objets et les démarches qui leur
étaient spécifiques. Il y a de quoi donner le vertige! Nous avons ainsi
inventorié une quinzaine de perspectives différentes. Je les rappelle
en allant du plus fondamental ou du plus existentiel vers le plus
superficiel ou le plus occurrentiel: le sens ontologique du négatif d’abord
(qui s’exprime dans le rien, dans le non-être), le sens théologique ensuite
(celui de la théologie négative selon laquelle Dieu ne se peut définir que
négativement), le sens logique (avec son principe de non-contradiction qui
fait que quelque chose ne peut être affirmé et nié en même temps d’un
même objet), le sens mathématique (qui s’exprime dans la logique formelle
du calcul), le sens dialectique (triomphant avec Hegel, où le négatif
médiatise le passage d’un argument à un autre), le sens phénoménologique
(dans la perception, avec la suspension du savoir et du croire, l’épokhè, la
mise entre parenthèses comme négation), le sens psychanalytique (le travail
du négatif, la dénégation, le lapsus), le sens axiologique (prégnant dans le
champ éthique, comme l’atteste le « négationnisme » par exemple, mais
aussi dans le champ esthétique, avec la laideur ou la figure du « poète
maudit »…), le sens linguistique (où les termes de la négation définissent
268
Denis Bertrand
un type de proposition, un « ne pas » différent du sens logique), le sens
narratif (la négation narrativisée dans le manque et dans le conflit, ou
encore envisagée d’un point de vue pragmatique et adversatif), le sens
passionnel (celui du rejet, de la répulsion, du dégoût ou de l’aversion…),
le sens cognitif (qui s’exprime dans l’ignorance, le « nul n’est censé ignorer
la loi », …), le sens méréologique (le trou, la lacune, le vide, l’absence), le sens
sociologique (dans le refus, la résistance, la révolte), le sens physique lui-même
(en électricité, en photographie: les négatifs). « Vertige d’une liste », que
l’on sait ni close, ni exhaustive… Et le négatif, c’est encore la moitié
du langage, peut-être la première moitié. Il se dissémine partout, bien
au delà des seules formes de la négation… elles-mêmes si modulables.
Bref, immense domaine, immense chantier, dont la complexité est sans
nul doute la donnée première. Et pourtant, comment nier l’évidence du
négatif en sémiotique? Le négatif est évident parce qu’il est au fondement
même du concept de structure ; et il est si évident dans la conception du
sens articulé et dans son développement au sein de la théorie qu’on ne
l’apercevait plus comme titre de problème. Le négatif comme titre de
problème: c’est bien là la justification première de cette thématique qui
fait du « non » une question. Ou une suite de questions, d’une part pour
faire passer la sémiotique au filtre du négatif: qu’en est-il de la négation
dans le parcours génératif ? Comment la tensivité la module-t-elle?
Quelle part y ont les instances de discours? Et d’autre part, inversement,
pour faire passer la négativité au filtre de la sémiotique: quelle est la part
du catégorique et du graduel dans la négation? Comment les différents
champs du discours s’approprient-ils la négativité?
Il me semble possible, pour esquisser quelques réponses à ces
questions, d’envisager en quatre points successifs le parcours sémiotique
du négatif:
1.
L’assomption radicale et opérationnelle du négatif au
fondement du structuralisme sémiotique.
2.
La plurivalence du négatif, qui nous met à la croisée des
langages.
269
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
3.
4.
La question des relations entre la négativité et le mal, qui pose
le problème de la narrativité.
La question de la négation dans l’énonciation, enfin, au niveau
des instances de discours.
1. Tout commence par l’assomption radicale et
opérationnelle de la « négativité » au fondement de la
théorie sémiotique du langage
Greimas s’est exprimé à ce sujet lors de la séance de clôture de la
décade consacrée à son œuvre, qu’avaient organisée à Cerisy-la-Salle
Jean-Claude Coquet et Michel Arrivé en août 1983. Ses propos ont été
publiés dans Sémiotique en jeu, sous le titre «Algirdas Julien Greimas
mis à la question ». Il disait ceci:
« Quel serait l’acte de jugement premier qui serait un geste fondateur
de l’apparition du sens? (…) La perception, c’est être placé devant un
monde bariolé. Quand l’enfant ouvre les yeux devant le monde pendant
les deux premières semaines de sa vie, il perçoit un mélange de couleurs
et de formes indéterminées: c’est sous cette forme que le monde se
présente devant lui. C’est là qu’apparaît ce que j’appelle le sens négatif,
c’est-à-dire les ombres de ressemblances et de différences, les plaques ou
les taches qui affirment une sorte de différence (…). »1 Le sens négatif
est donc envisagé ici au foyer même de la signification perceptive. Mais
c’est ensuite la logique du négatif qui est développée à propos de la
structure élémentaire, au sein du carré sémiotique – fondant l’existence
sémantique « comme une pure idéalité » selon l’expression de l’auteur.
« Pour moi, dit Greimas, le geste fondateur c’est la négation de ces
termes différentiels, négateurs eux-mêmes. (…) L’acte du jugement, c’est la
1
Jean-Claude Coquet et Michel Arrivé, Sémiotique en jeu. A partir et autour de l’œuvre d’A. J.
Greimas, Paris-Amsterdam, Hadès-Benjamins, 1984, p. 313-314.
270
Denis Bertrand
négation du négatif qui fait apparaître la positivité. Dans cette perspective,
le concept de relation peut être compris comme un phénomène positif
et non pas négatif. » C’est ainsi que Greimas pose alors la contradiction
comme relation fondatrice dans le carré sémiotique. La contradiction ne
doit pas être comprise comme une structure privative de type présence/
absence, car, dit-il, « c’est la sommation du terme S1 qui fait apparaître
le terme contradictoire non S1. (…) C’est l’absence faisant surgir la
présence: non S1 est déjà le premier terme positif. » Le foyer du négatif,
ce qu’est la contradiction, comprend donc le principe de la positivité. De
plus, en surgissant, le terme contradictoire fait disparaître S1 et impose
du même coup la discontinuité. On comprend alors que la relation de
contradiction détermine un double phénomène fondateur du sens, celui
de la positivité et celui du discontinu. Mais du même coup, Greimas
introduit la complexité du négatif et son ambiguïté essentielle, au sein
même de la relation élémentaire qui l’incarne. C’est cette complexité qui
constitue, me semble-t-il, une des données essentielles de l’interrogation
sur la négation, le négatif et la négativité.
Parce que si le sémioticien reprend, en apparence, le principe
fondamental, le célèbre « principe négatif qui est au fond de la langue »
et qui définit la différence, comme l’affirme Saussure, il le prolonge, le
développe et suggère une nouvelle articulation dans son opération même:
le positif est inhérent au négatif. On s’éloigne ainsi de la radicalité du
négatif chez Saussure. François Rastier a réuni, dans un article intitulé
« Signe et négativité. Une révolution saussurienne » publié en espagnol
en 2007, un florilège de citations qui montrent avec quelle détermination
Saussure affirme ce primat de la négativité. La langue, écrit-il, « s’avance
et se meut à l’aide de la formidable marche de ses catégories négatives,
véritablement dégagées de tout fait concret » (Ecrits de Linguistique
Générale, I, § 26, p. 76). Ou encore: « La langue consiste (…) en la
corrélation de deux séries de faits: 1˚ ne consistant chacun que dans des
oppositions négatives ou dans des différences, et en des termes différents
271
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
offrant une négativité en eux-mêmes, 2˚ n’existant chacun, dans leur
négativité même, qu’autant qu’à chaque instant une DIFFÉRENCE
du premier ordre vient s’incorporer dans une différence du second et
réciproquement » (Ecrits de Linguistique Générale, I, § 24, p. 73). Ou
encore: « Tout (…) est NÉGATIF dans la langue — (tout) repose sur
une opposition compliquée, mais uniquement sur une opposition, sans
intervention d’aucune espèce de donnée positive. » (22b. [XVIII])
Cette radicalité du négatif est au cœur de la linguistique structurale. Le
postulat du négatif est la condition première du principe d’immanence: il
détermine l’observable et délimite le champ de l’analyse. Or, modulé ou
sur-articulé comme le montre l’analyse de la positivité de la relation de
contradiction chez Greimas, le négatif révèle, presque paradoxalement
pourrait-on dire, sa plurivalence. Alors même que la négation apparaît
comme l’opérateur tranchant de toute catégorisation, la plus nette des
découpes au sein du langage, on constate qu’elle émerge plutôt d’une
véritable nébuleuse sémantique. C’est le foisonnement négatif qui
se manifeste déjà entre le négatif « contradictoire », qui repose sur
l’exclusion logique de deux énoncés rivaux, et le négatif « contraire »
qui implique une interaction et une transformation permettant, selon
les contextes discursifs où il apparaît, le renouvellement sans fin des
phénomènes et de leurs liaisons. (cf. F. Jullien, Du mal / du négatif,
p. 128). Quittons donc la question du négatif comme fondement du
langage pour en venir, deuxième point, à la plurivalence du négatif qui
nous met à la croisée des langages.
2. La plurivalence du négatif: à la croisée des langages
Cette plurivalence est à la base du court traité de Kant Essai pour
introduire en philosophie le concept de grandeur négative (1763). Herman Parret
est venu récemment présenter au séminaire un exposé remarquable sur
272
Denis Bertrand
ce texte2. Kant opère une série de distinctions. Tout d’abord, il distingue
le négatif de l’opposition logique et celui de l’opposition réelle. Le premier
concerne le principe logique de contradiction (l’impossible affirmation
et négation simultanées sur un même objet, qui n’est d’ailleurs pas la
même chose que la relation de contradiction du carré sémiotique). Mais
il ne s’arrête pas sur cette opposition logique, dont l’intérêt est surtout
de faire ressortir, par différence, la seconde opposition, l’opposition
dite « réelle », la seule qui intéresse les « grandeurs négatives ». Celleci concerne l’opposition entre deux prédicats « qui ne sont pas
incompatibles l’un avec l’autre, mais qui indiquent des tendances
inverses, également affirmatives », écrit Hermann Parret. La navigation
avec vent contraire est négative par rapport à la navigation avec vent
portant, la chute est négative par rapport à l’élévation, le coucher est
négatif à l’égard du lever, etc. Or, Kant distingue, à l’intérieur de cette
opposition réelle, deux formes: l’opposition par privation, dans le cas
où le négatif surgit d’une force qui lui est égale et opposée (comme
dans la navigation), et l’opposition par manque dans le cas où le négatif
ne relève que de l’absence d’un principe positif adverse qui lui serait
opposable (comme le repos d’une pierre, par opposition au repos contre
la fatigue). Levons l’ambiguïté sur le mot « manque »: l’état de manque
de la narrativité en sémiotique, celui qui déclenche le processus narratif
en vue de sa liquidation, relève bien de l’opposition privative. Le manque
dont parle Kant, celui de l’opposition dite « défective » caractérisée par
l’absence d’une force opposable, relève plutôt, comme le souligne Parret
d’un « fantasme logico-mathématique » (p. 3). Car seul le négatif des
oppositions privatives marque la solidarité de deux tendances affirmatives
qui s’affrontent: l’attraction et la répulsion, le désir et l’aversion, le plaisir
et le déplaisir. Dans tous ces couples s’imbriquent deux principes positifs
polaires, comme dans l’amour et la haine, l’éloge et le blâme ou la beauté
2
H. Parret, “Les grandeurs négatives: de Kant à Saussure”, exposé présenté le 26 janvier 2011.
Le texte est disponible sur le site Internet des Nouveaux Actes Sémiotiques.
273
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
et la laideur. Le négatif ne naît que de leur implication réciproque: la
beauté est une laideur négative comme la laideur est une beauté négative.
Ainsi, la force privative est aussi positive. Et le processus de négativité
ne s’effectue qu’en vertu d’une « expérience intérieure », du « sentiment
de soi-même ». C’est ce qui provoque l’asymétrie du négatif par rapport
au positif: le négatif est plus marqué, il est comme accentué par rapport
au positif. Dans l’argumentation, dans le débat politique ou militant,
le « non » a besoin d’être expliqué, comme l’a observé Juan Alonso3.
L’assentiment du « oui » peut se passer d’explication – qui ne dit mot
consent –, mais l’expression du « non » exige une rhétorique réfutative
– et du courage!
On voit ainsi se former la plurivalence du négatif, donnée liminaire
de son appréhension. Elle se manifeste à tous les étages de la négativité,
depuis les formes les plus variées de l’expérience jusqu’aux expressions
en langue qui en attestent la présence ou même jusqu’aux formes
visuelles. Indiquons quelques variations à ce sujet.
Le psychanalyste André Green, dans son livre Le travail du négatif,4
cherche à délimiter cette catégorie en analysant ses différents aspects:
sémantique, linguistique, psychique. Et il en circonscrit la polysémie en
isolant quatre acceptions, issues de la praxis, qu’on peut résumer de la
manière suivante:
1.
Le négatif « polémique » qui attribue au négatif une dimension
première de refus. C’est « l’opposition active à un positif » qui
le caractérise alors, et qui se traduit par les configurations de
la résistance, du conflit, de la destruction, dans une relation
territoriale duelle de « lutte pour une prééminence virtuelle ».
C’est le négatif « vécu ».
3
Juan Alonso, “Dire non. De la résistance”, exposé au Séminaire Intersémiotique de Paris, le 8
décembre 2010.
4
André Green, Le travail du négatif, Paris, Minuit, “Critique”, 1993, p. 29-31.
274
Denis Bertrand
2.
3.
4.
5
Le négatif de « symétrie », hors de tout contexte de conflictualité,
qui met en regard deux grandeurs opposables et équivalentes,
dont le rapport d’inversion ou de permutation est soumis à une
simple convention. Le négatif présuppose alors un point de
vue externe, celui d’une position « neutre » à partir de laquelle
les positions, positive ou négative, peuvent être qualifiées.
C’est le négatif « observé ».
Le négatif d’« absence », rapporté à la perception et aux
phénomènes de virtualisation liés à ce qui est sélectionné dans
la perception, et qui occulte du même coup ce qui ne l’est
pas. Ce type de négatif renvoie aux modes d’existence et au
mouvement qui assure le passage d’un des modes à l’autre. On
peut rapprocher ce négatif d’une sémiotique de la présence et
des modes de co-présence. On comprend que cette acception
intéresse bien entendu au premier plan la psychanalyse: les
représentations inconscientes à faire advenir relèvent du
négatif d’absence. C’est le négatif des « modes d’existence ».
Le négatif enfin du « rien », dont la catégorie ne se construit
pas par opposition à une adversité contraire, ou à une
inversion symétrique observée ou à une présence potentielle
dissimulée, mais par rapport à un « n’être pas », par relation
avec l’aporie d’un « néant », une sorte de « négatif absolu »
en somme. Négatif absolu? Rappelons-nous ce qu’observe
Schopenhauer, à propos du « néant », dans Le monde comme
volonté et comme représentation. Il écrit: « le concept du néant
est essentiellement relatif ; il se rapporte toujours à un objet
déterminé dont il prononce la négation. »5 Et plus loin: « Tout
néant n’est qualifié de néant que par rapport à une autre chose ;
tout néant suppose ce rapport, et par suite un objet positif. La
contradiction logique elle-même n’est qu’un néant relatif. » Ce
qui confirme l’étrange plurivalence du négatif, même dans sa
forme supposée la plus absolue.
Schopenhauer, Le monde comme volonté et comme représentation, Paris, PUF, 1978 (trad.), p. 512-513.
275
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
Cette mosaïque des « négatifs » en forme de typologie rend
néanmoins sensible la polysémie du négatif, et sa gradualité. Et si on
se situe à un autre point de vue, non plus macroscopique comme le
fait le psychanalyste, mais microscopique comme le fait le grammairien,
on retrouve, sous d’autres formes, le même phénomène de plurivalence
flottante de la négation.
Qu’est-ce que le « non », d’un point de vue grammatical? L’identité
labile de ce terme est bien connue. Le « non » est généralement identifié,
faute de mieux, comme un adverbe – mais certains grammairiens
préfèrent parler plus prudemment, et de manière tautologique, de
« marqueur de la négation ». En tout cas, le « non » peut être modalisé,
ou intensifié ou affaibli, à l’aide de locutions adverbiales (« pas du tout »,
« certainement pas », « pas tout-à-fait », « pas vraiment »…). Il peut avoir
également le statut d’un « nom » (« pour un oui, pour un non », « tous
ces non me fatiguent! »), et il peut jouer le rôle d’un préfixe négatif (« la
non-violence », la « non-personne », le « non-lieu », le « non-sujet »).
Plus largement, l’énoncé négatif sollicite des termes qui appartiennent à
différentes catégories grammaticales, comme si la négativité s’emparait
de tout l’arsenal des formes disponibles pour se dire: des pronoms
(« personne », « rien »), des déterminants (« aucun »), des adverbes (« ne…
pas »), etc. Plus encore, une préfixation négative peut être sollicitée
pour signifier une valeur positive, comme « ex- » dans « ex-istence », ou
« in- » dans « infans » (« enfant »), sans parler des moyens lexicaux et des
formes diverses de la relation d’antonymie nominale ou adjectivale. Et la
résistance du « non » à la négativité pure se constate encore à travers le
ressort positif de la figurativité qui est à l’origine, en français, des « pas »,
des « point », des « mie » (« je n’y vois mie », qui vient de miette), des
« goutte » (« on n’y voit goutte », qui vient de goutte d’eau), autant de
termes qui entrent dans la composition des expressions négatives et qui
renvoient à une expérience sensible positive. Cette expérience n’est donc
276
Denis Bertrand
pas celle de la non-valeur, mais celle de la minimisation d’une valeur
positive: ce sont ces petits rien – les petits pas, les petits points, les petites
miettes, les petites gouttes – qui, en français, ont donné consistance à la
négation en s’ajoutant à son élément moteur « ne ». Ils attestent que
dans le négatif, il y a quelque chose, et quelque chose de concrètement
positif!6 Enfin, plus largement encore, le négatif s’exprime par tous les
moyens lexicaux, phraséologiques ou textuels qui peuvent installer une
isotopie de la négativité. Dans Djinn (1981), roman policier pédagogique
pour l’enseignement du français, Alain Robbe-Grillet a introduit, dans
un chapitre consacré à l’apprentissage de la négation et par delà sa seule
morpho-syntaxe, des scènes plus profondément frappées du sceau de
la négativité: il n’y est question que d’ombre, de déclin, de faiblesse, de
tristesse, de méchanceté…
Un dernier exemple, tiré du langage visuel, peut encore montrer
cette variabilité fluctuante du négatif. Je veux parler du négatif en
photographie, ou là encore on ne peut le saisir qu’en couplant les deux
termes et en parlant de « positif-négatif ». Si on en croit du moins ce
qu’observe le philosophe sémiologue anthropologue belge Henri Van
Lier dans sa Philosophie de la photographie7. Dans le paragraphe intitulé:
« L’empreinte positive-négative: le battement », Il écrit: « En fin de
compte, une épreuve positive (au sens photographique bien entendu)
est un négatif de négatif. Tout tirage conserve de cette double conversion
une hésitation de l’obscur et du clair, de l’opaque et du transparent, du
convexe et du concave, qui lui confère une sorte de battement. Battement
qui ajoute une nouvelle forme d’abstraction, le positif invitant à se lire
comme négatif, et inversement. C’est ce qui (…) explique la fascination
particulière des contre-jours, qui sont des négatifs de négatifs de
négatifs. » Fin de citation. Ce que Van Lier appelle « battement » peut aussi
être compris comme procès récursif. Et c’est une première conclusion à
6
Cf. Martin Riegel, Jean-Christophe Pellat et René Rioul, Grammaire méthodique du français, Paris,
PUF, 1994, pp. 410-425.
7
Henri Van Lier, Philosophie de la photographie, Bruxelles, Les impressions nouvelles, 1983, p. 20
277
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
laquelle on peut parvenir au terme d’une interrogation sur la plurivalence
du négatif: la négativité a quelque chose à voir avec la récursivité. Comme
si ce phénomène syntaxique, dont le discours acceptable se protège si
efficacement en limitant à trois étages les possibilités récursives (« le fils
de l’oncle du frère de mon beau-père… »), était définitoire de la négation
elle-même et expliquait que toute négation, dans sa négociation continue
avec le positif, s’ouvre sur un abîme.
Mais avançons d’un pas dans cette expansion de la négativité pour
aborder, en se rapprochant du discours en acte, les « perspectives
discursives sur le négatif » annoncées dans le titre de cet exposé. J’en
retiendrai deux, particulières, mais dont l’éclairage a, me semble-t-il,
une portée d’ensemble sur la problématique de la négativité: la relation
oppositive entre le négatif et le mal, tout d’abord, dans la perspective de
la narrativité ; la relation entre la négation et les instances de discours,
ensuite et pour conclure, dans la perspective de l’énonciation.
3. Entre la négativité et le mal: le problème de la narrativité
Pour aborder cette question centrale pour la sémiotique – narrativité
oblige –, je prendrai appui sur l’ouvrage de François Jullien, Du mal / du
négatif8. Dans ce livre, l’auteur pose d’emblée la catégorisation du négatif
sur un horizon axiologique en opposant le « négatif » et le « mal ».
La thèse de François Jullien consiste à interroger la proximité, la
parenté, l’attraction qui semble inéluctable entre ces deux notions, au
point qu’on les confond souvent: le négatif et le mal. Il va s’employer à
les disjoindre en parcourant l’histoire conceptuelle de ces deux grands
« motifs » de la pensée dans les philosophies occidentale et orientale, et en
mettant en évidence les conséquences considérables de leur différence.
Le titre original de son livre L’ombre au tableau indique bien l’équivoque:
« l’ombre au tableau », c’est, en tant que métaphore ordinaire en français,
8
François Jullien, Du mal / du négatif, Paris, Seuil, 2004.
278
Denis Bertrand
la tache d’un mal à exclure, à proscrire, à éradiquer ; mais, littéralement et
visuellement, cette ombre au tableau, « ombre au revers du lumineux »,
est aussi, écrit-il, « le négatif coopérant à l’économie d’un tout et servant
à le promouvoir »9.
Pour lever cette équivoque entre le négatif et le mal, François Jullien
propose un ensemble de distinctions que j’interprète librement, et que
je reformule en les intégrant au méta-langage sémiotique – non par
coquetterie, mais pour bien montrer le lien que cette équivoque entretient
avec la narrativité. Il y reconnaît ainsi:
• Une distinction modale, tout d’abord, articulée selon les deux
versions de la nécessité, le « devoir être » et le « ne pas pouvoir
ne pas être »: le mal renvoie à un « devoir être » supposé,
qui est nié (dans la souffrance, dans l’imperfection ou dans
le péché) au nom de valeurs positives, déontologiques, à
atteindre: le bonheur, la perfection ou la vertu ; le mal a ainsi
partie liée avec l’intentionnalité qui s’exprime dans la norme
et la morale. Le négatif, lui, renvoie à l’autre version modale
du déontique, le « ne pas pouvoir ne pas être »: il est lié à
la simple fonctionnalité du monde tel qu’il va, il relève de
l’effectuation des choses en dehors de toute intentionnalité.
•
9
Une distinction actantielle, ensuite: le mal implique le point de
vue d’un sujet, agent ou patient, ou plus exactement d’un
Destinateur de la sanction, exerçant une fonction punitive et
répressive certes, mais plus encore une fonction « initiatrice »
lorsqu’il est intériorisé (l’épreuve du mal est au service du
dépassement) ; le mal s’inscrit donc dans une logique de
l’action et de la passion. Le négatif, lui, renvoie à la logique
d’un procès, comme l’élémentaire procès de la parole, avec
la simple effectuation des opérations d’affirmation et de
négation, ou encore des opérations mathématiques où la
Ibid., p. 10.
279
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
qualité du positif et du négatif n’est qu’affaire de convention
formelle, en dehors de toute actantialité hiérarchisée.
•
Une distinction quantitative, en troisième lieu: le mal isole une
singularité. Il met en question la figure individuelle d’une
personne, d’un acte, d’une histoire toujours particulière.
Alors que le négatif a affaire à une globalité, il exprime un
rapport à l’intérieur d’un ensemble au sein duquel il apparaît,
il sélectionne des parties dans un tout.
•
Une distinction relationnelle ensuite: le mal instaure la dualité de
termes extérieurs l’un à l’autre. Des termes qui se rejettent sur
la base d’un jugement d’exclusion: le bien vs le mal, le bien
ou le mal, le Bien abolissant le Mal par exemple. Le négatif
suppose une différence interne à un système où deux termes
polaires, positif et négatif, sont opposés parce qu’ils vont de
pair: l’un ne peut aller sans l’autre. Les termes se caractérisent
alors, comme dans le concept structural de relation où le –
est solidaire du +, par une com-préhension en vue d’une
intégration.
•
Une distinction axiologique enfin: le mal est non seulement
inscrit dans un système défini de valeurs, mais il constitue
une visée négative au sein de ce système. Il est idéologique.
D’où son caractère dramatique sur le fond de cet idéal
visé et renversable: il est l’objet d’une plainte, il est l’enjeu
d’un combat, il se déploie dans les parcours passionnels de
l’acharnement. Mais il est aussi confronté à l’énigme d’une
origine supposée (d’où vient le mal?). Nous dirions qu’il
est d’emblée narratif. Le négatif quant à lui repose sur des
valeurs d’ordre logique: il se soumet à des règles qui assurent
à la fois la séparation et la coordination. Nous dirions qu’il est
d’emblée descriptif. Comme l’écrit François Jullien: « J’exclus
en tant que mal, j’inclus en tant que négatif. »
280
Denis Bertrand
Sur la base de ces distinctions formelles, on en arrive à un paradigme
d’oppositions: l’affrontement et le salut sont du côté du mal, la résorption
du conflit et la sagesse sont du côté du négatif. Mais, et c’est là ce qui
nous intéresse, la logique négative du mal tourné vers sa libération, le
Salut, implique, comme on l’a dit, un récit, comme celui de la chute et
de la rédemption. Son objet est le muthos. Alors que la sagesse issue du
négatif est sans récit: elle se contente de découvrir un rôle au négatif
dans l’économie des choses dont elle cherche, à travers lui, à reconnaître
la co-hérence. Son objet est le logos. François Jullien, qui aime bien les
formules frappées, écrit encore: « Si je raconte, je mets du drame ; si je
décris, je mets de l’ordre. »10
Je ne développerai pas, naturellement, les positions des écoles
philosophiques qui incarnent respectivement l’un et l’autre pôle, avec
leurs arguments: le Manichéen qui radicalise le Mal, moteur d’Histoire,
et le Stoïcien qui l’appréhende en simple négatif, d’où il cherche à faire
émerger la positivité qui s’y cache. « Si le Stoïcien traite le mal en négatif,
écrit Jullien, c’est qu’il le considère comme accompagnant nécessairement
le positif, donc s’intégrant avec lui dans un fonctionnement commun. »11
Je n’évoquerai pas non plus la transculturalité qui fait se rejoindre la
pensée stoïcienne et la pensée confucéenne, ni la théodicée qui, en
justifiant le monde tel qu’il est, justifie aussi Dieu qui l’a fait ainsi. Je
conclurai seulement en indiquant qu’à travers ces vastes distinctions, on
peut rapprocher le mal d’une logique syntagmatique, et le négatif d’une
logique paradigmatique: « Le Manichéen raconte une histoire, le Stoïcien
donne à regarder l’univers. » écrit encore François Jullien.
Or, cette réflexion présente, à mes yeux, un intérêt majeur pour
la sémiotique. Elle permet en effet d’interroger le statut du négatif
dans la conception générative de la signification. Le négatif, en effet,
se manifeste à ses différents étages, donnant leur élan aux structures
signifiantes. Mais il est facile de constater qu’il reçoit, selon la strate
10
11
Ibid., p. 35.
Ibid, p. 32.
281
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
où on l’appréhende, une signification singulière. Comment passe-t-on
d’un négatif à l’autre? Quel supplément de sens lui est attribué dans ce
passage aux différents niveaux d’articulation? Je pense évidemment en
premier lieu à la conversion des structures fondamentales aux structures
sémio-narratives: deux formes du négatif semblent s’y manifester. Si la
négativité est bien au principe des structures élémentaires comme à celui
de la narrativité, la liaison entre leurs statuts respectifs reste passablement
opaque: le négatif « logique » de la relation fondatrice de contradiction –
de même que celle, différente, de contrariété –, dans le carré sémiotique
par exemple, est-il de même nature que la « négation » qui s’exprime dans
les structures polémico-contractuelles des schématisations narratives?
Le négatif comme opération fondatrice postule une co-présence
définie par un impératif de réciprocité, une coopération des formes,
une mutualité des grandeurs que la tensivité va dilater. Son passage
au négatif comme opération d’élimination dans le conflit s’exprime à
travers les concepts de disjonction et de conjonction. A ce niveau va
s’introduire la transformation. Parallèlement à la dynamisation du sens
et en raison de son orientation finalisée (téléologique), un paramètre
axiologique intervient alors, qui transforme la définition même de la
négation. Quel est donc le lien de nécessité entre le négatif logique et le
négatif axiologique? Le premier, selon François Jullien est « un négatif
qui coopère », le second est « un négatif qui nuit ». La narrativité comme
socle de la signification discursive viendrait ainsi d’une bifurcation de
la négation logique. On peut concevoir qu’une autre bifurcation aurait
pu conduire, en cohérence avec le statut logique du négatif dans les
structures élémentaires, à une autre définition de la strate supérieure
d’articulation du sens, celle qui aurait pu, par exemple, accorder un
primat au descriptif sur le narratif. Une telle bifurcation aurait pu alors
donner lieu à une sémiotique fondamentale de la contemplation contre
celle de la transformation, celle-ci devenant alors un avatar particulier
de la négation. Je me demande si les propositions d’Eric Landowski12,
12
Eric Landowski, Passions sans nom, Paris, PUF, “Formes sémiotiques”, 2006.
282
Denis Bertrand
demandant de substituer le concept d’« union » au couple discrétisant
et dramatisant de « conjonction/disjonction » ne constitue pas une
contribution dans ce sens. Mais la contemplation, fondée sur l’état des
choses et des sujets qui montent à la rencontre des autres sujets, et sur
l’alliance consentie du positif avec le négatif, n’est-elle pas de nature à
générer l’ennui?
On aperçoit en tout cas un des enjeux du négatif. La distorsion entre
les deux versions de la négation, entre les structures fondamentales et
les structures narratives de surface, conduit à une remise en question, ou
au moins à une interrogation, sur une des assomptions centrales de la
sémiotique: la narrativité comme donnée permanente du sens articulé,
comme condition immanente, sous-jacente à la saisie discursive du sens.
Un petit texte de Charles Cros, que j’ai étudié il y a longtemps
pour faire apparaître les conditions minimales de la narrativité13, vient
à point nommé pour illustrer cette problématique: ce texte a pour titre
« Autrefois ». Il traite du négatif, sur un registre à la fois humoristique et
tragique, à travers le leitmotiv du « pas de ». En voici le début.
« Autrefois »
Il y a longtemps – mais longtemps, ce n’est pas assez pour vous donner l’idée…
Pourtant, comment dire mieux? Il y a longtemps, longtemps, longtemps ; mais
longtemps, longtemps.
Alors, un jour… non, il n’y avait pas de jour, ni de nuit, alors une fois, mais
il n’y avait… Si, une fois, comment voulez-vous parler? Alors il se mit dans la tête
(non, il n’y avait pas de tête), dans l’idée… Oui, c’est bien cela, dans l’idée de faire
quelque chose.
Il voulait boire. Mais boire quoi? Il n’y avait pas de vermouth, pas de madère,
pas de vin blanc, pas de vin rouge, pas de bière Dréher, pas de cidre, pas d’eau! C’est
que vous ne pensez pas qu’il a fallu inventer tout ça, que ce n’était pas encore fait, que
le progrès a marché. Oh! le progrès!
Ne pouvant pas boire, il voulait manger. Mais manger quoi? (…)
13
Cf. Denis Bertrand, Précis de sémiotique littéraire, Paris, Nathan, 2000.
283
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
Etc., etc. la déclinaison du négatif se poursuit jusqu’au dernier
« vouloir », après le « Alors mourir! Oui, il se dit (résigné): Je veux mourir.
Mourir comment? Pas de (…), pas de (…), pas de (…) »…
Alors il ne voulut rien! (Plaintif) Quelle plus malheureuse situation!... (Se
ravisant) Mais non, ne pleurez pas! Il n’y avait pas de situation, pas de malheur.
Bonheur, malheur, tout ça c’est moderne!
La fin de l’histoire? Mais il n’y avait pas de fin. On n’avait pas inventé de fin.
Finir, c’est une invention, un progrès. Oh! Le progrès! Le progrès! (Il sort, stupide.)
Plaidoyer pour la narrativité? Ce texte en effet manifeste la résistance
du narratif à ce qui tend à le nier. D’abord parce que ce qui est nié est
asserté, et donc promu négativement à une existence positive. Mais ensuite
parce que l’analyse des inventaires lexicaux montre qu’ils obéissent à un
ordre du sens sous la forme de micro-programmes d’action, induits par la
lexicalisation, d’une part, et dans les suites lexicales elles-mêmes, d’autre
part. Par exemple, la première liste, celle des boissons, est structurée par
des objets-valeur qui s’ordonnent selon un degré de décomplexification,
ou de simplification progressive des opérations de leur élaboration
(du vermouth et du madère au vin, du vin à la bière et au cidre, du
cidre à l’eau enfin). On assiste à une tentative de dénarrativisation. Une
positivité orientée résulte ainsi de la suite des négations, comme si, au
sein même de la négativité, cette positivité devait – « comment voulezvous parler? » –, ou plutôt « ne pouvait pas ne pas » se faire jour. Comme
si cette positivité parvenait, en dépit d’un absolu négatif, à se manifester
comme une règle plus profonde que la négativité elle-même. En somme,
le négatif n’arrive pas à se nier, il n’arrive pas à l’effacement total, il ne
parvient pas au bout de la négation!
Le négatif se présente alors comme la condition de la processualité,
ce qui est une justification du narratif. Il est ce à partir de quoi s’ordonne
du pensable, et il sert de borne au devenir. Plus profondément, François
Jullien observe que si le positif n’existe qu’en relation avec le négatif,
c’est qu’il doit être appréhendé, non pas comme la manifestation d’une
284
Denis Bertrand
dualité extérieure, mais comme « différence de soi-même », au sein
de soi-même (p. 120). Il écrit: « Finalement, c’est le phénomène luimême qui est négativité, différence de soi-même avec soi-même » (id.).
C’est ce phénomène que nous pouvons élever au niveau de l’instance
de discours, ou plutôt, en d’autres termes, nous pouvons inclure dans
ce phénomène les instances discursives. Et voici mon dernier point:
négation et instances de discours.
4. La négation dans l’énonciation: les instances de
discours
Un mot sur la trame de la négativité, à travers le cas du français: la
négation s’y distribue en deux formants: ne… pas (« il ne veut pas »).
Et la cheville ouvrière du négatif est bien dans le « ne » plus que dans
le « pas »: c’est lui qui autorise les modulations du négatif, sur le mode
de la restriction: « ne… que… » (« il ne veut que… »), sur le mode
du révolu: « ne… plus » (« il ne veut plus… »), ou sur le mode de la
temporalité: « ne… jamais » (« il ne veut jamais… »). Envisageons donc
la gouvernance du « ne » (qui serait, paraît-il, en voie de disparition)…
J’ai lu les analyses de Lacan sur le négatif. Je pense notamment au
célèbre passage sur les « traces de pas » de Vendredi qui permettent à
Lacan de définir le signifiant. Comment arrive-t-il au renversement des
« traces de pas » en « pas de trace »? Voici comment on peut, en simplifiant
bien sûr, le comprendre: Robinson découvre des traces de pas dans le
sable, signe d’une présence humaine sur l’île déserte. Ce ne sont pas ces
traces qui, en elles-mêmes, constituent le signifiant. Robinson, en effet,
efface les traces, effaçant du même coup la signification de la trace: il y
a un autre homme sur l’île. Mais il marque l’endroit de leur effacement,
d’un trait, d’une croix. C’est cette marque de l’effacement éliminant le
réel de la trace, c’est cette localisation qui va constituer le signifiant. La
négation est ainsi porteuse du signifiant: elle est dans le « pas de trace »,
qui est la marque du sujet.
285
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
Or, ce serait cette marque indirecte du sujet qui se manifeste dans
le « ne ». Lacan, pour analyser ce « ne » fait référence à la distinction
établie par le grammairien et psychanalyste Edouard Pichon (Damourette
et Pichon) entre ce qu’il appelle la négation « forclusive » et la négation
« discordante ». La négation forclusive, celle du rejet absolu, rejoint
celle que les grammairiens appellent traditionnellement la négation
totale (« elle ne vient pas »). Mais la négation « discordante », celle qui
serait trace du sujet, réside dans le « ne », lorsque celui-ci se manifeste
isolément. C’est le fameux « je crains qu’elle ne vienne », qui signifie
« je crains qu’elle vienne » et non « qu’elle ne vienne pas ». Pourquoi ce
« ne »? Les grammaires parlent alors de « ne explétif », explication qui
n’en est pas une. Le mot « explétif » signifie « remplissage », et on pense
alors que le « ne » ne fait que remplir un vide, il fait du remplissage ; il
est, comme dit le dictionnaire, ce « qui est usité sans nécessité pour le
sens ou la syntaxe d’une phrase » (Petit Robert). En réalité, il remplit bien
quelque chose, il donne une consistance à quelque chose, il remplit un
rôle. Puisqu’il ne fait pas porter sa négation sur le prédicat (« venir »),
c’est qu’il la fait remonter vers le sujet. Il articule le rapport entre le sujet
de l’énonciation et son énoncé. Il dénonce une attitude de réserve, ou de
crainte, ou de refus: il donne corps à l’instance sujet, ou à une instance
du sujet. Ce « ne » de conjuration, qui ne porte donc pas sur le prédicat
mais sur l’état du sujet, invite à rapporter la négation à la problématique
des instances énonçantes. Je fais ici référence aux travaux de Jean-Claude
Coquet, sur la sémiotique des instances. Et mon interrogation porte
alors sur la part possible de la sémiotique des instances énonçantes dans
l’approche du négatif. Mon hypothèse est que le négatif implique, dans
ses potentialités de modulation mêmes – et c’est ce qui se révèle au plus
près de la langue dans le « ne » discordant –, la présence des instances de
régulation et de prise en charge du discours.
286
Denis Bertrand
J’ai cherché, de mon côté, à préciser cette problématique des
instances qui me paraît essentielle en sémiotique. Et je l’ai fait dans
le prolongement des travaux de Jean-Claude Coquet, mais finalement
de manière assez différente. Ce qui m’intéresse, c’est la pluralisation
fondamentale des instances dans l’énonciation – et si je dis « instances
dans l’énonciation », c’est qu’elles ne sauraient être réduites au seul « je »,
trace de la personne. Au contraire, comme le dit Merleau-Ponty, c’est
tout le langage qui bourgeonne de subjectivité: « Nous vivons dans le
langage. Nous ne sommes pas seulement Je, nous hantons toutes les
personnes grammaticales, nous sommes comme à leur entrecroisement,
à leur carrefour, à leur touffe. »14 « Je est un autre » disait Rimbaud, « Je
est n’importe quel autre, je est foule » insistait Henri Michaux.
Cette « touffe » de subjectivité peut être approchée, et même
décrite, à l’aide du concept d’instance. Elle permet même d’envisager
une approche tensive de l’énonciation. Observons l’étymologie:
« In-stans », ce qui se tient là et qui est en attente. Le terme signifie,
originellement, la « demande pressante ». Il est traversé par la question
des modes d’existence qui se spécifient en aspectualisations. Ainsi,
l’instance, virtuelle et en attente d’actualisation, se définit à travers les
traits aspectuels de « proximité » spatiale et « d’imminence » temporelle.
« Instance », au sens de « sollicitation pressante » se spécialise dans une
acception juridique avec la valeur de « mise en attente ». Le mot définit
en psychanalyse les « composantes de la personnalité »: le ça, le moi,
le sur-moi où se lisent aisément les non-sujet, sujet, et tiers-actant de
Jean-Claude Coquet. Si l’instance peut être adoptée pour désigner un
constituant de l’énonciation, cela présuppose sa pluralisation. C’est là le
statut des « instances énonçantes », qui rejoignent le fonds sémantique
premier du terme: ce qui se tient là, à la fois virtualisé et pressant ; ce qui
réclame ses droits à advenir. Il y a à la fois de l’absence – du négatif – et
de l’insistance – du positif – dans le concept d’instance.
14
Maurice Merleau-Ponty, « Notes de cours sur Claude Simon », Genesis, 6, 1994, cité par JeanClaude Coquet, Phusis et logos, Saint-Denis, Presses Universitaires de Vincennes, 2009, p. 135.
287
Au Nom de Non, Perspectives Discursives Sur La Negativité
Le sujet et le non-sujet, par exemple, ne cohabitent-ils pas dans
l’exercice du discours, entre assomption personnelle et récitation
stéréotypée? Leurs relations sont-elles seulement d’opposition
catégorielle – voire d’exclusion – comme semble le suggérer le trait de
négation? Je ne le crois pas. Il me semble au contraire possible d’envisager
la pluralisation des instances dans une perspective tensive. Leurs modes
de co-présence et de cohabitation, sur le clavier des modes d’existence
sémiotiques, déterminent un jeu négatif-positif de sélection-relégation,
tel qu’il se manifeste dans les réalités discursives du conflit intérieur, dans
la délibération, dans l’hésitation, dans le choix, et finalement dans ce que
les politiques appellent la « décision difficile ». Je pense par exemple à
Titus dans Bérénice de Racine: déchirement d’instances avant d’aboutir à
la répudiation de la belle Bérénice.
La négation ne se présente donc plus comme une coupure radicale,
comme la découpe d’une catégorisation, comme le tranchant d’un acte.
Elle fait appel à une gradualité, elle exprime de la co-appartenance en
mouvement, en tant qu’elle est rapportée au discours, à l’énonciation en
acte, et par là aux modulations de son sujet partagé entre ses diverses
instances. Toute instance, en se manifestant et en s’appropriant la
conduite du discours, nie donc celle ou celles qui pourraient se manifester
au même instant à la même place et qui restent latentes – resurgissant
inopinément, par exemple, dans le lapsus. Les modes d’existence de la
signification en acte deviennent ainsi le foyer de la négativité. Le sujet
se définit par la somme de ses négations: celles des instances qu’il a
momentanément refoulées.
288
Denis Bertrand
Pour conclure…
En concluant ces tentatives d’ouvertures du négatif, j’en rappellerai
le parcours: une remontée aux fondations de la structure, une extension
qualitative au sein des langages, une ambivalence du positif et du
négatif, une cohabitation problématique avec le narratif et, finalement,
une implantation au sein des instances de discours. Le négatif traverse
de part en part la saisie sémiotique des significations. François Rastier,
dans « Signe et négativité. Une révolution saussurienne » déjà évoqué,
revendique également cette remontée vers les instances à travers la
problématique qu’il promeut. Il écrit: « La problématique rhétorique /
herméneutique considère que les structures ne sont plus des formations
ontologiques stables, mais des lieux et moments de parcours énonciatifs
et interprétatifs. » C’est-à-dire, selon moi, que le négatif qui présidait à
l’avènement des structures commande, in fine, à travers la diversité de
ses formes, les modes d’actualisation du sens dans l’activité énonciative.
289
O DISCURSO DA GRAMÁTICA DO PORTUGUÊS
Diana Luz PESSOA DE BARROS
Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)/Universidade de São Paulo
(USP)/CNPq
Introdução
Neste texto, que foi apresentado como conferência no Congresso
da ABRALIN, tratamos de gramáticas do português, examinadas como
discursos, na perspectiva da semiótica discursiva de linha francesa. Tratase de projeto de pesquisa que vem sendo desenvolvido nos últimos anos,
com bolsa do CNPq.
Pretendemos apresentar aqui, em primeiro lugar, alguns dos
resultados obtidos com esse tipo de análise, salientando a importância
dos estudos discursivos para a construção da história dos estudos
linguísticos e das idéias linguísticas, em geral, e no Brasil em particular,
e em segundo lugar, abordar, nessa perspectiva, mais especificamente as
gramáticas brasileiras do século XX.
1. O discurso da gramática
Nessa pesquisa sobre o discurso da gramática, estudam-se gramáticas
do português (portuguesas e brasileiras), do século XVI à atualidade, na
perspectiva da semiótica discursiva de linha francesa, tal como já foi
mencionado. Examinam-se os procedimentos de construção do discurso
da gramática e as relações desse discurso com outros discursos sóciohistóricos, para mostrar como, em momentos diversos, os diferentes
discursos gramaticais constroem laços entre língua e nação, criando
impérios coloniais e identidades nacionais, ou relações entre língua e
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 291-332. 1ª parte 2011
O Discurso da Gramática do Português
sociedade, estabelecendo, por meio do ensino gramatical da língua, a
ordem social. Mudam os discursos da gramática, alteram-se os modos de
ver e de explicar o funcionamento da língua, mas as gramáticas asseguram
sempre seu papel na produção das relações políticas, históricas e sociais.
Construir impérios, criar identidades nacionais, garantir a ordem social,
ensinar a língua, há sempre um papel político e social para a gramática,
que, dessa forma, tem seu discurso justificado e renovado.
Os fundamentos teóricos gerais do projeto são as proposições de
Sylvain Auroux (1988) sobre o papel da gramatização das línguas na
constituição das “línguas nacionais”. O projeto caracteriza-se, além
disso, pelo fato teórico-metodológico de conceber as gramáticas em
exame como discursos e de pretender, portanto, construir a história das
idéias linguísticas no Brasil a partir de discursos. O projeto tem dois
objetivos mais gerais:
– estabelecer a organização discursiva das gramáticas e os diferentes
conceitos e imagens de norma e de língua construídos;
– verificar se os discursos da norma são diferentes nas gramáticas
portuguesas e brasileiras e indicar, assim, alguns dos caminhos
percorridos, do século XVI até hoje, para a constituição da “língua
nacional” no Brasil.
O discurso da gramática emprega um conjunto de procedimentos
para levar o destinatário a acreditar na verdade e na necessidade de
certos usos linguísticos. Examinamos três desses procedimentos: a
modalização dos usos; o emprego das categorias de pessoa e de tempo
do discurso; os diálogos com outros discursos sociais, que estabelecem
as relações sócio-históricas das gramáticas.
A partir, sobretudo, do exame da modalização, foram propostos três
tipos de norma e de língua: a norma única ou “natural”, determinada pela
modalização do ser ou modalização de existência dos usos e que produz
o efeito de sentido de uso natural ou normal da língua e a imagem de
uma língua homogênea, sem variação (esse discurso da norma e essa
concepção de língua ocorrem, por exemplo, nas gramáticas de Fernão
292
Diana Luz Pessoa de Barros
de Oliveira e de João de Barros, no século XVI, nas de Reis Lobato e de
Contador de Argote, no XVIII, e nas gramáticas brasileiras do século
XIX, entre outras); a norma prescritiva, caracterizada pela modalização
pelo dever, mas também pelo querer e pelo poder, e que determina que
um uso deve ser e que outros não devem ser, porque são desqualificados,
não têm prestígio, são errados, e que cria, então, a imagem de uma língua
heterogênea, mas em que os usos são hierarquizados (o segundo tipo
de modalização é o das gramáticas de Jerônimo Soares Barbosa, no fim
do século XVIII, ou de Celso Cunha, no século XX, entre outras); uma
espécie de ausência de norma, quando todos os usos são modalizados
pela existência, todos existem, e de que decorre a imagem de uma língua
heterogênea, mas em que os usos não são hierarquizados, salvo pela
frequência dos usos (é o caso da gramática de usos de Maria Helena de
Moura Neves, no século XX, no Brasil, entre outras).
O quadro 1 abaixo apresenta um resumo do que acabamos de dizer
sobre os três tipos de norma, segundo as modalizações discursivas:
QUADRO 1:
norma única,
“natural”
modalização pela
existência, pelo ser
(de um único uso)
língua homogênea,
sem variação
norma prescritiva
norma usual, de
frequência de uso
modalização pelo querer,
dever e poder-ser e fazer
modalização pelo ser (de
diferentes usos)
língua heterogênea, com
variantes hierarquizadas
(obrigatórias, possíveis,
proibidas)
língua heterogênea,
com variantes não
hierarquizadas, a não ser
pela frequência dos usos
É preciso, ainda, observar que são, sobretudo, os elementos
metalinguísticos das gramáticas que explicitam as modalizações e os
usos das pessoas e do tempo do discurso, que, por sua vez, constroem o
293
O Discurso da Gramática do Português
discurso da norma. Foram examinados assim os prefácios, as introduções,
as dedicatórias, os comentários, as observações, as notas de rodapé, os
primeiros e últimos capítulos. Os exemplos e as relações intertextuais
mostradas, finalmente, permitiram que se estabelecessem as relações
sócio-históricas dos discursos das gramáticas.
2. As gramáticas brasileiras do século XX
Escolhemos duas das gramáticas brasileiras do século XX, que
consideramos bem diferentes uma da outra: a Gramática da Língua
Portuguesa, de Celso Cunha, publicada no Rio de Janeiro, em 1972,
e a Gramática de Usos do Português, de Maria Helena de Moura Neves,
publicada em São Paulo, em 2000.
O discurso da norma única ou natural e a imagem de uma língua
homogênea sem variação são, em geral, como foi visto, os das gramáticas
de Fernão de Oliveira e de João de Barros, no século XV, e das gramáticas
brasileiras do XIX.
Já as gramáticas brasileiras do século XX constroem, sobretudo, o
discurso da norma prescritiva e a imagem de uma língua heterogênea, mas
em que os usos são hierarquizados. Esse discurso da norma prescritiva
deve-se, a nosso ver, principalmente ao caráter didático e pedagógico
dessas gramáticas. As gramáticas do século XVI e as gramáticas brasileiras
do século XIX constroem o discurso da norma única, “natural”, e
da língua homogênea, que dialoga em conformidade com o discurso
nacionalista e colonialista português do século XVI e com o discurso
nacionalista brasileiro do XIX. As gramáticas portuguesas do século XVI
respondem às necessidades do império de ensinar a língua aos bárbaros,
aos estrangeiros (é uma espécie de caráter pedagógico “externo”), as
gramáticas brasileiras do século XIX têm papel importante na construção
do Estado-nação brasileiro, sobretudo devido à função significativa da
língua na formação das nações. O discurso da norma nessas gramáticas
294
Diana Luz Pessoa de Barros
é, assim, o discurso da norma única, natural e da língua homogênea,
que convém aos discursos de formação dos impérios e das nações, aos
discursos de identidade da língua e do estado, quer isso ocorra com as
gramáticas do renascimento europeu, quer com as gramáticas brasileiras
do XIX.
Ao contrário, o que predomina nas gramáticas brasileiras do século
XX, é o discurso da norma prescritiva e da língua heterogênea cujos
usos são hierarquizados, apropriado e necessário às funções pedagógicas
que as gramáticas assumem nesse período.
A sociedade de classes, fortemente hierarquizada, exige uma
concepção de língua em que os usos são, também eles, hierarquizados.
Trata-se de ensinar a “língua”, concebida como seu uso mais prestigioso
e qualificado, às camadas sociais que têm usos menos prestigiosos ou
mesmo considerados como usos desqualificados e incorretos. Buscase, com isso, conservar a “boa norma” e “salvar” a língua, “ameaçada”
pelos “maus usos”. Essas gramáticas são chamadas de gramáticas
“tradicionais” ou de gramáticas “normativas” no Brasil. Elas não
constroem mais os laços entre a língua e o império ou entre a língua e a
nação, e sim entre a língua e a sociedade hierarquizada, em que o ensino
tem seu lugar. Elas seguem a tradição das gramáticas do português desde
João de Barros, no século XVI (a tradição greco-latina).
Deve-se, entretanto, assinalar outra característica das gramáticas
brasileiras do século XX, que toma direção contrária: devido aos
diálogos que se estabelecem fortemente entre a gramática e o discurso da
linguística, em particular os da sociolinguística, as gramáticas brasileiras
do século XX propõem um número maior de graus intermediários
entre os usos proibidos e os usos prescritos, isto é, o número de usos
possíveis aumenta consideravelmente. Essas variantes linguísticas, então
aceitas ou permitidas, indicam que houve um alargamento dos limites
do uso, sempre permanecendo nos domínios da norma culta ou da “boa
norma”. Graças à influência da linguística, essas gramáticas anunciam as
gramáticas de uso que só aparecerão no fim do século.
295
O Discurso da Gramática do Português
Se o século XIX é o século da constituição do Estado brasileiro
(a independência de Portugal, em 1822, e a formação da República
em 1889) e se as gramáticas brasileiras do XIX se colocam, então, no
cruzamento dos discursos de construção da língua nacional e do Estadonação brasileiro e, consequentemente, de afastamento de Portugal,
a antiga metrópole, e dão sua contribuição e apoio à construção do
Estado-nação brasileiro, as coisas se passam de outra forma no século
XX e, principalmente, na segunda metade do XX.
No século XX, nossas diferenças linguísticas em relação a Portugal,
tão reforçadas nas gramáticas anteriores, estão já claramente estabelecidas
graças à fundação da Academia Brasileira de Letras (1897), aos acordos
ortográficos da língua portuguesa (1931, 1938, 1943, 1971, 1990), à
criação das Faculdades de Letras e à introdução obrigatória, a partir dos
anos 60, da disciplina de Linguística nos cursos de Letras, à elaboração e
à implantação da Nomenclatura Gramatical Brasileira – NGB, em janeiro
de 1959. A NGB cria certa homogeneidade terminológica nas gramáticas
que antes dela eram mais numerosas e empregavam terminologias e
perspectivas teóricas diversas.
As gramáticas que estamos aqui examinando são posteriores a esses
acontecimentos que mudaram o papel das gramáticas. Os diálogos
estabelecidos com a Linguística são, então, acentuados no período e
produzem, entre outras consequências, a que já observamos: um número
maior de usos considerados possíveis e aceitáveis.
As gramáticas brasileiras do século XX têm, assim, certa ambiguidade
ou dualidade, já que são prescritivas e, ao mesmo tempo, aceitam um
leque maior de usos. Esses usos são aceitos ou aceitáveis, mas não
prescritos.
Dessa forma, as gramáticas brasileiras do século XX se inserem, de
modo tímido, no quadro de valores do que Chauí (1993) chamou de
discurso racista da diferença, que se construiu a partir dos discursos
anti-racistas do século XX. As diferenças devem ser mantidas como
diferenças, mas separadas, segregadas, sem misturas.
296
Diana Luz Pessoa de Barros
Desses desenvolvimentos dos estudos linguísticos e dos cursos de
Letras decorrem, além disso, gramáticas mais descritivas, mais explicativas
e gramáticas de uso, de que trataremos na última parte deste texto.
3. Gramática da Língua Portuguesa, de Celso Cunha
(1972)
A Gramática da Língua Portuguesa de Celso Cunha foi escolhida para
este estudo porque foi muito empregada na escola em sua época, e
ainda hoje é utilizada. Foi publicada pela Fundação Nacional de Material
Escolar do Ministério da Educação e da Cultura do Brasil, o que lhe deu
um caráter de gramática quase “oficial”.
Conforme foi já observado, são os elementos metalinguísticos das
gramáticas que explicitam as modalizações e o emprego das pessoas e
do tempo do discurso. Na gramática de Celso Cunha foram examinadas
sobretudo as “observações”, que cobrem uma grande parte do texto,
e que oferecem citações de gramáticos, filólogos ou linguistas (p.278),
informações históricas (p.281), indicações bibliográficas, explicações
e aprofundamentos das noções teóricas, das discussões teóricas e da
metalinguagem empregada, e, finalmente, variações do uso.
Comecemos por observar como a Gramática apresenta seus fins
pedagógicos e como constrói o discurso da norma prescritiva; fins e
discurso que indicamos como sendo os das gramáticas do século XX. A
gramática de Celso Cunha não apresenta seus objetivos de modo claro.
A partir de seu exame, pode-se, porém, extrair os fins pedagógicos. Há,
por exemplo, um comentário sobre o caráter elementar da gramática
(p. 547) e outros sobre como facilitar a aprendizagem (“Para facilidade
de aprendizado, convém, no entanto, saber...” p. 199) e sobre artifícios
didáticos (“Como artifício didático para aprender-se o mecanismo das
conjugações...” p. 374), descrição e classificação dos fatos de língua (p.
141, 148, 256, 257).
297
O Discurso da Gramática do Português
Se a finalidade da gramática é a de ensinar o “bom e belo uso” da
língua, é preciso verificar quais são as estratégias persuasivas que o autor
emprega.
Segundo a definição de norma explícita de Aléong (s/d), que se
confunde com a da norma culta, as três características dessa norma
podem ser encontradas na gramática em exame:
1 – ela tem o referendo dos usuários de autoridade e de prestígio
(sobretudo escritores e gramáticos) (p. 409, por exemplo);
2 – ela constrói um “discurso da norma”, fundamentado,
sobretudo, nos valores éticos e estéticos (“Nesse caso é de
boa norma repetirmos o pronome” p. 302, ou também p. 244,
397, etc.);
3 – há um aparelho de divulgação da norma (no caso,
principalmente, escolas e administração pública).
Deve-se observar que para construir o discurso da norma prescritiva,
os gramáticos empregam o referendo dos usuários de autoridade e
prestígio, e para engendrar o discurso da norma única e natural, eles não
utilizam exemplos de escritores ou de outros usuários, mas, ao contrário,
se servem de seus próprios exemplos, de exemplos que criam. Em outras
palavras, para impor um uso, para dizer que ele deve ser, entre outros,
para garantir a hierarquia dos usos (da norma prescritiva), as gramáticas
precisam da confirmação da autoridade e do usuário de prestígio, mas
para dizer que os usos propostos são os únicos que existem, que eles são
naturais (na norma natural, única), basta exemplificá-los com palavras
ou frases do próprio gramático. Na gramática de Celso Cunha, os usos
têm o referendo dos escritores, havendo mesmo uma classificação dos
escritores em “grandes”, “modernos”, etc.
Como foi já observado, a modalização essencial da norma culta
é a do dever-ser ou fazer (com os verbos “dever” ou “não poder”, o
adjetivo “obrigatório”, o advérbio “obrigatoriamente” ou as expressões
“de regra”, “de norma”, entre outras) (p. 243, 603, 274, 289, 189, 296,
335, 263, 230, 266, 169, 207, 275, 168, 445, 226, 228, 290):
298
Diana Luz Pessoa de Barros
... e o escritor ou o locutor deverá usar daí por diante o
artigo definido (p. 243);
Por outro lado, não devemos empregar o pronome ele
(ela) para... (p. 289);
O subjuntivo é de regra nas orações adjetivas que
exprimem... (p. 445).
As outras três modalidades são o querer, o poder e o saber.
A norma culta é modalizada também pelo querer-ser ou fazer, isto
é, o discurso instala um sujeito que quer bem falar e escrever a língua ou
ser dela um bom usuário (p. 176, 460, 261, 263, 244, 461 – “querer” e
“preferir” são, em geral, empregados):
Quando se quer dar mais ênfase à frase, costuma-se...
(p. 167);
Advirta-se, ainda, que em Portugal a forma preferida
é mobilar, conjugada regularmente... (p. 405).
O saber, por sua vez, qualifica a existência e a competência dos
usuários cultos (p. 295, 377, 618), modalizando, sobretudo, o Prefácio da
gramática de Celso Cunha:
Sabemos que as formas oblíquas tônicas dos
pronomes pessoais vêm acompanhadas de preposição...
(p. 295);
... que deve ser conhecida para evitar-se a frequente
confusão que se estabelece nos poucos verbos em que as
formas são distintas. (p. 377).
299
O Discurso da Gramática do Português
O poder, finalmente, cria o regime da facultatividade, da exceção, de
tudo que é admitido, permitido, possível (p. 80, 167, 225, 305, 444, 228,
230, 305, 241, 247, 248, 298, etc.). Já mencionamos que o cruzamento do
discurso da gramática com os discursos da linguística, e, em particular,
com os da sociolinguística, levou a mudanças dos graus intermediários
entre os usos prescritos e proibidos, aumentando consideravelmente o
número de usos possíveis, isto é, que podem ser nessa gramática:
Nestes casos pode-se dispensar o artigo... (p. 225);
Hoje a concordância é facultativa... (p. 444);
Em princípio, as fórmulas comparativas podem
admitir a exclusão do artigo indefinido. (p. 247).
As variantes modalizadas pelo poder indicam os limites possíveis do
uso, para que se permaneça no domínio da norma culta. Elas asseguram
o conceito de falante culto como aquele que é capaz de empregar a
língua em diferentes situações e em todas as variações permitidas. São
sobretudo:
a)
variantes diacrônicas (português vs. latim, português moderno
vs. português antigo e/ou médio; língua atual vs. língua de
outrora);
b)
variantes de registro: linguagem culta, linguagem corrente,
coloquial ou familiar, linguagem popular, linguagem vulgar,
linguagem literária e erudita;
c)
variantes regionais, sobretudo dos usos do português do Brasil
e de Portugal;
d)
variantes de modalidade: língua escrita e falada.
300
Diana Luz Pessoa de Barros
Em relação às variantes diacrônicas, pode-se observar que Celso
Cunha não mais se ocupa das relações com o latim ou o faz apenas
no Capítulo 1, histórico. Distingue, porém, o português moderno e o
anti¬go ou médio (p. 354, 496, 304, 158, 317, 353, 361, 491, 521, 336) e dá
primazia à língua moderna, qualificando de artifi¬ciais, raros ou arcaicos
os empregos que alguns escritores fazem de fatos linguísticos em que há
desacordo diacrônico (p. 496, 531, 306):
Na língua culta de hoje, constrói-se, preferentemente
com...(p.491);
Na língua moderna, tem ele [pronome possessivo]
assumido valores variados...(p.317);
Esta construção, que não era rara no português médio,
só aparece modernamente em autores de expressão
artificial (p.354);
É raro nos escritores modernos, mas muito frequente
nos do português antigo e médio o uso do verbo haver,
como verbo principal (p.496)
A gramática examina então as diferenças entre a lín¬gua de hoje
e a de outrora, considerando-as como variantes em geral aceitáveis. A
variante atual é preferível, pois o uso ou a generalização de um certo
uso (p. 266, 246, 296) e o referendo dos escritores ditos modernos
autorizam a escolha (“Em alguns escritores modernos vai encontrando
guarida o emprego do fututro para indicar uma ação posterior a outra
no passado.” (p. 439). O referendo dos escritores é necessário no
discurso da gramáti¬ca de Celso Cunha, pois, como vimos, apenas o
uso não basta para a aceitação de um fato linguístico em uma gramática
prescritiva (p. 296).
301
O Discurso da Gramática do Português
Quanto aos registros, na Gramática da Língua Portuguesa, distinguemse, pela aspectualização quantitativa ou de intensidade de seus usuários, três tipos:
há usos na justa medida, os da boa norma, aí incluídos seus
registros distensos, isto é, a linguagem corrente familiar e
a coloquial (p. 338, 233, 467, 249, 437, 143, 295, 298, 301,
328, 355); os usos formais ou informais da boa norma são
prescritos ou bem aceitos na gramática:
Na linguagem coloquial, emprega-se a gente por nós e,
também, por eu. (p. 295);
Na linguagem corrente do Brasil evitam-se as formas
de sujeito composto que levam o verbo à 2ª pessoa do
plural... (p. 467);
Na linguagem coloquial do Brasil é corrente o
emprego do verbo ter como impessoal, à semelhança de
haver. (p. 143).
-
há usos excessivos, os eruditos e os literários (p. 437, 365);
na linguagem erudita e na literária, a correção da norma é
levada às últimas consequências, e por isso seus usos podem
ser criticados como artificiais ou elogiados como o “ponto
mais alto” da norma, ou seja, não apenas a correção, mas a
perfeição:
Na linguagem literária emprega-se, vez por outra, o
mais-que-perfeito simples em lugar de... (p. 437);
Os demais [multiplicativos] pertencem à linguagem
erudita. (p. 365).
302
Diana Luz Pessoa de Barros
-
há usos insuficientes, como os da linguagem popular e da
vulgar.
O caráter insuficiente da “linguagem corrente popular” coloca esses
usos em duas outras posições: como empregos no limite da aceitação
ou como usos fora da norma, ou seja, proibidos; os usos limítrofes são
os duvidosos, pois há usuários de prestígio que os aceitam e empregam,
devido à “realidade do uso corrente e popular”, e outros que os recusam,
seguindo a “tradição gramatical”; há gramáticas e dicionários que os
admitem e outros que os proíbem, por serem “viciosos, condenáveis e
se insinuarem” na boa norma (p. 298, 603, 483, 487, 491, 494, 302, 266),
quase como uma falta moral; as linguagens vulgares, que a gramática
condena, são aquelas que alguns usuários cultos empregam, mas que
não recebem o referendo institucional, e se apresentam, portanto, como
erros, incorreções, confusões ou usos proibidos. Ocorrem apenas seis
casos na gramática examinada (p. 66, 110, 296, 377, 483, 497) e neles
estão em jogo valores éticos do certo e do errado (“utilidade social”,
“desleixo”, “repercussões nefastas na vida prática”, “boa norma da
civilidade”) e estéticos da elegância e deselegância da linguagem, e há, em
decorrência, ameaças de punição. Às vezes, porém, o autor toma partido
do lado contrário e critica os gramáticos que “lutam contra a realidade
dos usos” (p. 402, 344). Seguem alguns exemplos do tratamento dado às
linguagens popular e vulgar na Gramática:
A tradição gramatical aconselha o emprego das
formas oblíquas tônicas depois da preposição entre (...).
Na linguagem coloquial predomina, porém, a construção
com as formas retas, sintaxe que se vai insinuando na
linguagem literária (p. 298);
303
O Discurso da Gramática do Português
Tal construção, considerada viciosa pelos gramáticos,
mas muito frequente no colóquio diário, já se vem
insinuando na linguagem literária, principalmente quando
o complemento de esquecer é um infinitivo (p. 487);
Na língua corrente é também esta a conjugação dos
verbos entupir e desentupir. Alguns gramáticos, porém, em
luta contra a realidade, pretendem que neles (...) só se
devem legitimar as antigas formas com u... (p. 402);
Construções do tipo (...) embora se documentem em
alguns dos melhores escritores da língua, especialmente
do século passado, não devem ser hoje imitadas (p. 497);
Além de sua função linguística, a pontuação tem uma
utilidade social. Um texto mal pontuado é de acesso
difícil e, em geral, deixa no leitor uma penosa impressão
de ignorância ou de desleixo daquele que escreveu. E dar
de si uma tal impressão pode ter repercussões nefastas
na vida prática (p. 618).
As variantes regionais são, por sua vez, aceitas como usos possíveis,
permitidos, no âmbito da “boa norma”. Há, porém, poucos casos de
variação entre as regiões do Brasil ou entre as regiões de Portugal. Bem
mais frequentes são as encontradas entre o português do Brasil e de
Portugal.
As variações regionais no Brasil aparecem sobretudo no capítulo
sobre fonologia (p. 174, 292). No entanto, mesmo nesse capítulo, o mais
comum é falar-se do “português normal do Brasil” ou simplesmente do
“português do Brasil”, mesmo que o uso em questão não se aplique a
todo o País (p. 55).
304
Diana Luz Pessoa de Barros
Quanto às diferenças entre o português do Brasil e de Portugal,
embora mais frequentes na gramática de Celso Cunha, poucas ainda são
apresentadas:
Pela simples entoação distinguimos, por exemplo,
a fala de um português da de um brasileiro e, entre
brasileiros, a de um carioca da de um nortista, de um
gaúcho, de um mineiro, etc (p. 174);
...com o pronome outro, possibilitando as aglutinações
estrouto, essoutro, aqueloutro, desusados no português
coloquial do Brasil (p. 328);
A colocação dos pronomes átonos no Brasil difere
apreciavelmente da atual colocação portuguesa e
encontra, em alguns casos, similar na língua medieval e
clássica” (p. 312);
A construção de estar (ou andar) +gerúndio, preferida
no Brasil, é a mais antiga no idioma. Na língua moderna
de Portugal predomina a construção, de sentido idêntico,
formada de estar (ou andar) + preposição a + infinitivo (p.
382);
Em lugar de menor usa-se também mais pequeno, que é
a forma preferida em Portugal (p. 263).
Há, na maior parte das vezes, identificação entre o português de
Portugal (para o qual não há quase menção de variação) e o português
culto “formal” do Brasil. As diferenças são apresentadas como próprias
do português informal, popular ou vulgar do Brasil. Há muito poucos
usos comuns ao português de Portugal e ao português popular do Brasil
(quando o uso popular se opõe ao culto):
305
O Discurso da Gramática do Português
Tomemos como exemplo o verbo incendiar (...). Os
demais verbos em –iar são regulares na língua culta do
Brasil (...). Há verbos, como agenciar, comerciar, que no
português de Portugal e na língua popular no Brasil se
conjugam pelo modelo de incendiar (p. 405).
Finalmente, em relação às modalidades escrita e falada na gramática
de Celso Cunha, parece-nos necessário dizer algumas palavras prévias,
especificamente sobre a existência de um discurso da norma da língua
falada.
Em estudos anteriores (Barros, 1997) pudemos concluir sobre a
questão da norma na língua falada que: existe um discurso da norma
para a fala, ou seja, os falantes têm consciência de que tanto a fala quanto
a escrita são regulamentadas por “regras do bem falar e escrever”,
como ocorre com os falantes do material do NURC, que procuram
construir seu papel social de falante culto, e que essas regras não são
as mesmas para a fala e a escrita; que o discurso da norma na fala, além
de prescrever certos empregos, permite um leque maior de usos, o que
leva à caracterização do falante culto pela maleabilidade de adaptação
a diferentes momentos e situações e pelo uso adequado da língua nas
variadas interações verbais. Restava verificar se a norma da fala era
também codificada institucionalmente por gramáticas, dicionários e
academias. Os resultados de pesquisa sobre as gramáticas (Barros, 2008
e 2009) mostraram que, nas gramáticas portuguesas do século XVI, do
XVII e do XVIII, não são consideradas as diferenças entre a modalidade
escrita e a falada, e que essa distinção começa a aparecer nas gramáticas
do século XIX e se torna realmente relevante no XX.
Nas gramáticas do século XIX, o traço de coloquialismo começa a
fazer parte da caracterização da linguagem popular. “Coloquial” definese nos dicionários Aurélio e Houaiss como “relativo a, ou próprio de
colóquio”, que, por sua vez, é “conversação ou palestra entre duas
pessoas”. As definições continuam: “diz-se do estilo em que se usam
306
Diana Luz Pessoa de Barros
vocabulário e sintaxe bem próximos da linguagem cotidiana” (Aurélio);
diz-se de variante da língua falada usada em situações informais ou de
pouca formalidade; diz-se de variante linguística ou registro cuja fonética,
morfologia, vocabulário e sintaxe são próprios da linguagem informal de
pessoas cultas” (Houaiss). Em outras palavras, no século XIX, a oralidade
já é mencionada explicitamente, ainda que seja apenas a fala cotidiana e
informal dos usuários cultos.
Já nas gramáticas do século XX, distinguem-se usos e normas para
as modalidades falada e escrita. Chama a atenção, na gramática de Said
Ali, no início do século, a presença da distinção entre as modalidades
falada e escrita, que não havia aparecido nas gramáticas anteriores.
A gramática de Celso Cunha ocupa-se das línguas falada e escrita, de
início, quando examina a entonação ou as regras de escritura (pontuação,
etc.). Nesses casos, porém, trata-se, simplesmente, de questões de
convenção ortográfica em que a escrita marca, indica ou representa um
elemento prosódico (p. 163).
Há, além disso, nessa gramática, um discurso da norma da língua
falada, claramente construído sobre dois pontos principais:
–
as regras que organizam os usos são diferentes na fala e na
escrita e disso resulta que o leque de possibilidades da língua
falada é maior que o da língua escrita, mais normatizada, tendo
a língua falada já aceitado certas mudanças linguísticas ainda
não incorporadas pela escrita;
–
nesse leque maior de possibilidades da língua falada, há:
a - usos modalizados como possíveis e colocados nos
limites da norma, que são permitidos na fala e que se vão
incorporando e sendo também aceitos na escrita (são os
usos correntes, informais, coloquiais):
307
O Discurso da Gramática do Português
Na linguagem coloquial do Brasil é corrente o
emprego do verbo ter como impessoal, à semelhança de
haver. Escritores modernos - e alguns dos maiores - não
têm duvidado em alçar a construção à língua literária (p.
143);
Esse pronome de interesse, também conhecido
por dativo ético ou de proveito é de uso frequente na
linguagem coloquial, mas por vezes aparece na pena de
escritores e, não raro, produzindo belos efeitos (p.301);
A construção com objeto direto de “pessoa” (...) é
a predominante na linguagem coloquial brasileira, razão
por que nossos escritores atuais não têm duvidado em
acolhê-la (p. 492);
Na linguagem coloquial, emprega-se a gente por nós e,
também, por eu: ‘Disse: - a gente tem cada cisma de dúvida
boba, dessas desconfianças...” (G. Rosa, PE, 13) (p. 295).
b - usos também aceitos na fala, pois são empregados
por alguns falantes cultos, mas recusados por certos
gramáticos e escritores, e, por conseguinte, proibidos
na escrita:
Substantivado, algum se usa, popularmente, na acepção
de “dinheiro”: Ter algum. Estar com algum (p. 337);
c - usos que só ocorrem em situações de fala e são
considerados “fora da norma”, tanto para a fala, quanto
para a escrita (são os usos vulgares e “incorretos”):
308
Diana Luz Pessoa de Barros
Na fala vulgar e familiar do Brasil é muito frequente
o uso do pronome ele (s), ela (s) como objeto direto em
frases do tipo: Vi ele; Cumprimentei ela. Embora esta
construção tenha raízes antigas no idioma (...), deve ser
hoje evitada (p. 290);
d - usos “excessivos”, mais raros, que são aceitos na língua
escrita e rejeitados na fala (certos usos eruditos ou
literários):
Vossa Excelência só se emprega... E assim mesmo
quase que exclusivamente na língua escrita e protocolar
(p. 293);
Quando a preposição antecede o artigo definido que
faz parte do título de obras (...), não há prática uniforme.
Na língua escrita, porém, deve-se evitar a contração...( p.
217);
Podem [ditongos crescentes], no entanto, ser emitidos
com separação dos dois elementos, formando assim um
hiato: gló-ri-a, cá-ri-e, vá-ri-o, etc. Ressalte-se, porém,
que na escrita, em hipótese alguma, os elementos desses
encontros vocálicos se separam no fim da linha...( p. 59).
O quadro 2 que segue mostra que as fronteiras da norma estão mais
afastadas na gramática de Celso Cunha, quando se trata da língua falada,
e que os graus intermediários entre os usos prescritos e os proibidos são
bem mais numerosos se as modalidades falada e escrita são consideradas:
309
O Discurso da Gramática do Português
QUADRO 2:
Língua escrita e língua
falada
a) Língua escrita e língua
falada
b) Língua falada
Língua falada
usos naturais ou prescritos (que são e
que devem ser)
variantes aceitas (que podem ser): variantes
diacrônicas, correntes e regionais
variantes aceitas na fala informal (coloquial)
e que começam a ser incorporadas na língua
escrita
casos duvidosos (que podem ser e que
podem não ser), aceitos na fala e recusados
na escrita: linguagem popular
sos proibidos (mas empregados na fala de
usuários “cultos”
usos que não estão incluídos na gramática
(que não são, que não existem)
Em síntese, podemos dizer que a Gramática da Língua Portuguesa de
Celso Cunha é um bom exemplo das gramáticas brasileiras do século
XX:
– segue a tradição das gramáticas portuguesas, segundo o
modelo de João de Barros no século XVI, e as direções dadas e
consolidadas pela NGB que, também ela, toma a mesma direção
da gramática tradicional;
– é uma gramática de sua época que estabelece diálogos proveitosos
com a Linguística e, mesmo buscando construir um discurso da
norma prescritiva, tenta descrever e explicar os fatos de língua;
constrói o discurso da norma da língua falada, distinguindo as
regras dos usos falados e escritos; apresenta um número maior
de usos possíveis entre os prescritos e os proibidos;
– é uma gramática com fins pedagógicos.
310
Diana Luz Pessoa de Barros
Por todas essas razões, podemos dizer que a gramática de Celso
Cunha faz escola ou mesmo que ela faz a escola no Brasil.
4. Gramática de usos do português de Maria Helena de
Moura Neves (2000)
Apresentaremos sucintamente as características da Gramática de usos
do português, de Maria Helena de Moura Neves, e, em seguida, falaremos
um pouco das gramáticas de usos e dos papéis que têm no Brasil no
século XX.
Examinamos sobretudo a apresentação da gramática, a introdução de
cada parte, as observações (Obs.) e os comentários (#).
A apresentação e as introduções apresentam a Gramática de usos do português
como uma gramática cujo objetivo é mostrar “como está sendo usada
a língua portuguesa atualmente no Brasil” (p. 43), isto é, a gramática
pretende “prover uma descrição do uso efetivo dos itens da língua”
(p. 14) ou da ‘língua viva”, em funcionamento. Trata-se, então, de uma
gramática diferente das precedentes, mesmo das do século XX, mas
que resulta também dos diálogos já mencionados entre o discurso da
gramática e o da linguística. A gramática de Neves é, nesse sentido,
também ela uma continuidade, mas marcada por rupturas, entre quais
deve ser colocada a definição de norma.
Três outras novas características da gramática são assinaladas na
apresentação e nas introduções de cada parte:
–
a gramática considera que a unidade maior do funcionamento
da língua é o texto (p. 15) e, dessa forma, que as categorias
linguísticas devem ser examinadas a partir de seu
comportamento no texto;
311
O Discurso da Gramática do Português
–
a gramática explicita sua perspectiva teórica, a da linguística
funcional, e, nessa direção, considera que os elementos
linguísticos são multifuncionais, ou seja, que eles realizam
funções diversas e que essas funções dependem dos diferentes
níveis e limites das unidades.
–
a gramática examina usos atestados na base de dados do
Centro de Estudos Lexicográficos da UNESP-Araraquara.
Os comentários (#) acrescentam informações a propósito do fato
gramatical descrito, como por exemplo:
# com verbo IR no passado, a indicação é de futuridade dentro
do passado (p. 65);
# observe-se que essas construções só ocorrem com adjetivos
participais (p. 282);
As observações, por sua vez, ocupam-se da organização da gramática:
Obs: Essas construções são examinadas na Parte II, O pronome
pessoal (p. 65)
Obs: Esta questão é retomada nas partes II e III sobre artigos,
(definido e indefinido). Aqui se faz uma exposição
genérica (p. 69);
Obs: Essa questão é desenvolvida em O adjetivo (1.3) (p. 73).
312
Diana Luz Pessoa de Barros
A gramática se dirige, de modo explícito, a dois grupos de
destinatários: de um lado, aos falantes “comuns” da língua e aos
estudantes (“para maior utilidade ao consulente comum” (p. 14); “para
facilidade de acompanhamento pelo público comum e estudantes”
(p. 14)), de outro, aos estudiosos da língua, que podem “assentar suas
explorações no conhecimento das investigações já efetuadas”(p. 14).
A modalização pelo poder, que nas gramáticas prescritivas cria os
usos possíveis ou não, na fronteira da norma, em uma gramática de usos
constrói a variação de cada uso que é, que existe (não apenas a que é
prescrita ou proibida). Ela opõe assim os usos comuns ou únicos (“...
com os nomes de processo, só a preposição de introduz argumento
A1” (p. 97)) aos usos que variam em certos casos (“Em alguns casos,
esses argumentos podem vir introduzidos pela preposição entre” (p.
49); “É possível tanto o A1 (subjetivo) como o A2 (objetivo) terem a
forma de + substantivo” (p. 97)), empregando para tanto expressões de
modalização do poder, tais como “só” ou “sempre”, no primeiro caso,
e “podem e “é possível”, no segundo. Para assinalar a variação de uso,
isto é, as variantes diferentes de um mesmo fato linguístico, a gramática
emprega também a expressão “há outros tipos” e sobretudo o verbo
“ocorrer” e o substantivo “ocorrência”(p. 40, 43, 106).
Uma das características de uma gramática de usos é a de mostrar,
então, que há variações de usos, mas, além disso, que essas variantes têm
papéis diversos nos textos, produzindo neles sentidos diferentes. Elas
não são nem melhores nem piores do que outras, elas são simplesmente
diferentes (p. 249, 250, 253, 320).
É preciso ainda dizer, sobre a norma, que as gramáticas de usos só
podem construir uma norma pela frequência dos usos. Trata-se da norma
mais usual, comum, frequente. A gramática de Neves não estabelece essa
norma usual pela frequência dos usos. O que mais se aproxima disso
são os usos determinados por expressões como “é mais usual”, “é mais
comum”, “é comum” (p. 30, 31, 94, 97), “é mais facilmente encontrado”
(p. 31), “é mais provável” (p. 57), “frequentemente”, “comumente”,
313
O Discurso da Gramática do Português
“com muito maior frequência” (p. 164, 96, 94) ou, ao contrário, pela
expressão “é muito raro” (p. 96). Seguem alguns exemplos:
Há três possibilidades de pluralização: nos dois
elementos ou em cada um deles. Entretanto, o mais
comum é que a palavra não varie (p. 229);
Posposto – Essa é a posição mais frequente na
linguagem comum, a menos marcada (...). Antesposto
– Essa é a posição mais marcada, e, por isso mesmo,
ela é bastante ocorrente nas obras literárias, já que dá
grande efeito de sentido, especialmente o efeito de maior
subjetividade (p. 201);
A frequência mencionada não resulta de um trabalho estatístico,
mas, tudo indica, da experiência da autora.
Em relação à classificação dos usos como variantes diacrônicas,
regionais ou de registros sociais, é preciso dizer que essa classificação
é feita sobretudo nas gramáticas prescritivas, que têm necessidade de
hierarquizar os usos. As gramáticas de usos descrevem e explicam
os usos, sem precisar classificá-los ou hierarquizá-los. Elas podem,
entretanto, fazê-lo, dizendo que se trata de um uso mais frequente em
uma dada região ou época. É possível que essas informações retomem,
de modo indireto, a hierarquização dos usos, já que ao dizer que uma
variante é mais usual no Nordeste do país ou na zona rural, pode-se, por
razões que não são linguísticas, desqualificar esse uso. A gramática de
Neves muito raramente indica essas relações. Ela faz referência apenas
a alguns usos regionais e a certas variações de registro, de formalidade e
de gênero textual, encontradas no corpus:
314
Diana Luz Pessoa de Barros
# Por outro lado, mesmo que o sintagma que
contém NENHUM venha antes do verbo da oração, a
marca negativa pode ocorrer, em linguagem coloquial ou
regional: (...) (p.544);
Pode-se escolher uma construção com verbo-suporte
num texto científico ou técnico por essa construção
pertencer ao jargão da área (p. 57);
Esses usos, que se referem a quantificadores,
pertencem a um registro mais distenso e são
considerados erros pela gramática normativa (p. 233);
Essa “negação dupla” ocorre especialmente em
linguagem mais popular e regional (p. 299);
Nessas ocorrências percebe-se que os sintagmas
objetos dos verbos-suporte caracterizam situações
informais (p. 58);
# Num registro bem popular, há casos de verbo no
indicativo (p. 297);
# Num registro mais informal ocorre oração
completiva de substantivo sem preposição: Não há
dúvida QUE irei embora daqui. (CCA) (p.361);
Num registro mais informal ocorre oração
completiva de adjetivo sem preposição: Alves cumpriu
instruções da direção do seu partido, desejosa Ø QUE ele conversasse
a sós com o ex-governador de São Paulo. (CRU) (p.362);
315
O Discurso da Gramática do Português
a) Nomes de pessoas conhecidas ou famosas
(especialmente no registro coloquial): A Neusa Sueli sabe
como eu sou. (NC) (...)
# Esse uso do artigo é, entretanto, ligado a
costume regional, familiar ou pessoal. Desse modo,
também é comum que o artigo definido não seja usado:
Achei Ø Elvira meio esquisita. (VN) (p.404);
# Especialmente não se usa artigo se o registro é
elevado, e se se trata de nome de pessoa famosa, mas
não popular: Ø Antero de Quental foi budista, asseverando
Ø Penha que Ø Junqueiro também o teria sido, (...) Ø
Darwin e Ø Tolstói (...) também o foram, inconscientemente.
(FI) (p.405);
O pronome oblíquo átono não-reflexivo de terceira
pessoa LHE e os pronomes oblíquos átonos de primeira
e de segunda pessoa do singular (ME e TE) podem
contrair-se com o pronome oblíquo átono não-reflexivo
de terceira pessoa O, numa forma que represente
ambas as funções sintáticas (MO, TO, LHO), embora
esse emprego se restrinja ao uso literário ou a um
registro mais formal (p.466);
# Menos comuns e restritas à linguagem coloquial
são as orações consecutivas que têm como antecedente
um sintagma nominal com o elemento cada, fazendo
intensificação, em posição adnominal ... (p.923);
# Por outro lado, mesmo que o sintagma que
contém NENHUM venha antes do verbo da oração, a
316
Diana Luz Pessoa de Barros
marca negativa pode ocorrer, em linguagem coloquial ou
regional: NENHUMAS ruindades deste mundo não têm poder de
segurar a gente pra sempre. (SA) (p.544).
Quanto à distinção entre a modalidade falada e a escrita, conforme
foi dito é ela uma das características das gramáticas do século XX. A
gramática de Neves trata, portanto, da questão, mas no âmbito de uma
gramática de usos e segundo os estudos sobre língua falada e escrita
desenvolvidos, nas últimas décadas, sobretudo pelos estudiosos do
discurso e do texto (Marcuschi, 1997; Barros, 2000). Em outras palavras,
descreve os usos atestados no corpus, sejam eles encontrados na fala
ou na escrita, aponta, sempre que possível, o fato de o uso ocorrer,
com mais frequência, em uma das modalidades, trabalhando com uma
distinção gradual entre fala e escrita. As citações que seguem mostram
essa forma de tratar as modalidades falada e escrita, em uma gramática
de usos:
Pode-se optar pelo verbo-suporte para se obter
maior adequação de registro, isto é, a construção com
verbo-suporte pode ser adequada, por exemplo, à fala
coloquial (p. 57);
Especialmente na linguagem falada, mas também na
língua escrita, em registro mais distenso, ocorre pronome
pessoal tônico como objeto direto, sem preposição,
construção que é condenada pela gramática tradicional
normativa (...) (p.614);
(...) ocorre frequentemente (embora mais especialmente
na língua falada), que se usem formas de segunda pessoa
em enunciados em que se emprega o tratamento VOCÊ, de
tal modo que se misturam formas de referência pessoal
de segunda e de terceira pessoa: (...) (p.458);
317
O Discurso da Gramática do Português
# A gramática normativa só admite que essas
formas ocorram como complemento se preposicionadas.
Entretanto, especialmente na linguagem falada, mas
também na escrita, ocorrem enunciados como: Não sei
respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há quinze anos.
Nunca vi ELE assim. (ANB) (...)
Na conversação essas formas são sempre usadas
quando sua posição na o enunciado tem de ser tônica.
(p.457);
# Esse uso ocorre especialmente na conversação
espontânea, e são abundantes os exemplos nos diálogos
de peças teatrais: Pode ditar o que VOCÊ quiser, eu escrevo.
Sei fazer contas, também. Eu já TE falei que meu nome é Érica?
(OMT) (p.458);
# A grande difusão, no Brasil, do emprego de
você, em vez de tu, para referência ao interlocutor, faz
que, muitas vezes (embora mais especialmente na língua
falada), se misturem formas de referência pessoal de 2a e
3a pessoa (p.472).
Observe-se, sobretudo, o emprego de “especialmente, “mais”,
“menos”, que indicam bem como a Gramática considera de modo gradual
a distinção entre fala e escrita, entre os usos nas duas modalidades.
Finalmente, deve-se dizer que há na Gramática alguns poucos usos
que são desqualificados, de acordo com a perspectiva teórica escolhida:
# Não tem justificativa o emprego de CUJO
iniciando constituinte de valor locativo, como ocorre nesta
passagem da literatura jornalística: A região vem passando por
uma transformação urbanística com a desocupação dos galpões
318
Diana Luz Pessoa de Barros
e antigas casas, em cujos locais há grandes possibilidades de
surgirem empreendimentos (FSP). A indicação locativa dentro do
constituinte relativo teria de ser expressa por ONDE ou EM
QUE/NO QUAL (p. 369);
# Ocorrem casos de introdução indevida de preposição
antes de pronome relativo que funciona como objeto direto, que não
encontra nenhuma explicação na estrutura argumental do
verbo”. Para ficar no bairro onde mora desde criança, excetuandose os períodos em que passou fora do país, Cléo gastou R$ 120
mil que levantou com a indenização na compra de sua nova casa
(FSP).
Nesses casos, para apresentar usos impossíveis, segundo a perspectiva
teórica escolhida, mas também para mostrar, a partir de um mesmo
exemplo, as variações possíveis e atestadas por outras ocorrências,
podem aparecer exemplos da própria autora:
Chico faz uma saudação à mulher, que vem
entrando, com dois pacotinhos de dinheiro e sai (AC).
Comparando-se, por exemplo, o último enunciado com
um correspondente de verbo pleno: Chico saúda a
mulher, que vem entrando, com dois pacotinhos de
dinheiro e sai (p. 59);
Observe-se, por exemplo, que, nas orações com
verbos implicativos negativos, não podem ocorrer
indefinidos negativos”. *Há interesse em EVITAR
nenhum incidente público. *Você DEIXOU DE ser
nenhum grande escritor verdadeiramente.
319
O Discurso da Gramática do Português
Em síntese, a gramática de Neves descreve a explica os diferentes
usos. Esses usos, como foi já observado, não são hierarquizados pela
frequência, não havendo assim uma norma “usual”. Além disso, a
gramática em geral quase não estabelece relações entre os usos e os
lugares, o tempo e as camadas sociais em que são empregados. Em lugar
dessas informações, ela indica os sentidos produzidos pela diversidade de
usos nos discursos, os papéis discursivos desses empregos na interação.
Trata-se, assim, de um tipo de gramática de usos, possível e mais próximo
dos estudos teórico-linguísticos do século XX.
Se as gramáticas que constroem o discurso da norma natural, única,
empregam exemplos do próprio gramático para apontar as regras
da língua, se as gramáticas prescritivas necessitam do referendo de
escritores e de outros usuários de autoridade e prestígio, as gramáticas de
usos empregam exemplos de usos atestados, encontrados, empregados
por diferentes tipos de locutores. São usos atestados, mas não apenas
por usuários de “autoridade e prestígio”. Os exemplos da gramática de
Neves são extraídos da base de dados de 200 milhões de ocorrências do
Centro de Estudos Lexicográficos da UNESP – Araraquara/São Paulo
(excetuados os raros casos acima mencionados), que foi organizado
segundo critérios de variação de gêneros textuais, de registros sociais,
de regiões, etc. É um corpus de língua escrita, mas que conta também
com usos muito próximos da fala (textos de teatro, textos jornalísticos,
entre outros), sobretudo se se adota, como foi já apontado, a perspectiva
teórica de uma diferença gradual entre fala e escrita (Marcuschi, 1997;
Barros, 2000). A autora, como foi dito acima, não trata explicitamente
das diferenças entre fala e escrita, mas aponta os usos atestados no
corpus, sejam eles mais usuais na fala ou na escrita (com base no textos
escritos próximos da língua falada):
320
Diana Luz Pessoa de Barros
Esse corpus abriga textos escritos de literatura
romanesca, técnica, oratória, jornalística e dramática,
o que garante diversidade de gêneros e permite a
abrangência de diferentes situações de enunciação,
incluindo a interação, sendo notável a representatividade
da língua falada, encontrada na simulação que dela fazem
as peças teatrais (p. 14).
# Esse uso ocorre especialmente na conversação
espontânea, e são abundantes os exemplos nos diálogos
de peças teatrais ...(p.458).
Para terminar esta apresentação resumida das características da
gramática de usos de Neves e das gramáticas de usos em geral, no
século XX, no Brasil, parece-nos necessário falar dos diálogos muito
frequentes estabelecidos entre a gramática de Neves e outras gramáticas
do século XX. Neves as chama, no início de sua obra, de “gramática
tradicional”, em seguida, de “gramática tradicional normativa”, e, no
final, de “gramática normativa”.
Desde a apresentação da gramática de Neves, esses diálogos são
explicitamente mencionados: “para maior utilidade do consulente comum
a norma de uso é invocada comparativamente, de modo a informar
sobre as restrições que tradicionalmente se fazem a determinados usos
atestados e vivos” (p. 14).
Os diálogos ocorrem sobretudo nos comentários e têm duas funções,
além da função informativa explicitada na apresentação: a de confirmar,
pela gramática “tradicional”, o uso descrito; a de se opor a essa gramática.
Seguem alguns exemplos:
# Quanto à regência particular do verbo esquecer (-se), cabe
observar que, de acordo com as lições da gramática tradicional, esse
verbo... (p. 41);
321
O Discurso da Gramática do Português
É com base nessa característica que a gramática tradicional
assenta a sua definição de substantivo como “a palavra que
designa ou nomeia os seres. De fato, considerados... (p. 68);
Quando se referem a número plural, esses nomes devem
pluralizar-se, segundo as normas da gramática tradicional.
Entretanto é frequente que o plural venha indicado apenas
pelos elementos que acompanham esses nomes (os adjuntos
adnominais) (p. 107);
# Embora a recomendação da gramática tradicional
normativa, nesses casos, seja que o substantivo empregado
para referência plural receba a marca de plural, é comum que a
pluralização seja feita apenas pelo determinado (p. 110);
# Quando se referem a número plural, nem sempre esses
substantivos se pluralizam, sendo o plural indicado apenas pelos
elementos que os acompanham (determinantes, por exemplo), o
que contrária as recomendações da gramática tradicional normativa
(p. 113).
Os dois primeiros exemplos mostram relações de concordância da
gramática de usos com a gramática “tradicionnal”, enquanto os três
últimos, graças sobretudo ao emprego de “entretanto”, de “embora”, de
“o que contraria”, assinalam o desacordo com a gramática “tradicional”
normativa. A oposição instala-se entre a norma prescritiva (a prescrição, a
“recomendação”) e o uso. Os exemplos que seguem mostram a extensão
e a predominância da polêmica nesses diálogos:
Encontram-se, entretanto, casos restritos de advérbio
flexionado em gênero e número. Esses usos, que se referem a
quantificadores, pertencem a um registro mais distenso e são
considerados erros pela gramática normativa: (p. 233);
322
Diana Luz Pessoa de Barros
Recomenda a gramática tradicional normativa que se use no
singular o substantivo determinado pela expressão um e outro.
Entretanto, o plural é bastante usado (p. 117);
# Entretanto, contrariamente ao que recomenda a gramática
normativa tradicional, a construção também ocorre sem artigo (p.
404);
# A recomendação da gramática normativa é que os
sobrenomes assim usados se pluralizem, mas isso nem sempre
acontece, usando-se, muitas vezes, no plural, apenas o artigo
definido (p. 406).
Algumas vezes, a autora não se manifesta claramente a favor ou contra
a gramática “tradicional” normativa, mas o faz de forma subentendida,
pois, nesses casos, a gramática opõe as recomendações normativas aos
usos atestados, vivos, ainda que eles apareçam como registros coloquiais
e informais:
Se o sujeito da oração completiva infinitiva é um
pronome pessoal, ele toma a forma oblíqua, segundo as normas
da gramática tradicional, mas é bastante ocorrente, na linguagem
coloquial, a forma reta: (p. 353);
O comparativo de superioridade de bem ou mal pode ser sintético
(...) ou analítico (...), embora a gramática normativa recomende o
emprego do comparativo analítico (p. 281);
Essa construção não é bem-aceita pela gramática normativa (p.
359). (o caso de “gostar que”);
Por outro lado, com o verbo fazer, que rege objeto direto,
pode ocorrer que o complementador seja precedido da preposição
COM, o que não é recomendado pela gramática normativa. (p.
359).
323
O Discurso da Gramática do Português
A gramática de Neves dialoga, da mesma forma, com os dicionários
e com o Formulário ortográfico:
# O substantivo jângal é apontado como masculino
nos dicionários, mas só ocorre no feminino (p. 154);
# Embora o Formulário ortográfico prescreva o uso
de hífen nesses casos, verifica-se que a grafia varia: (p.
175, 179).
Finalmente, é preciso dizer que, se os exemplos apresentados
mostram, principalmente, a discordância em relação à aceitação dos
usos, há também diferenças polêmicas entre os dois tipos de gramática
quanto a questões teóricas:
# A gramática tradicional coloca esses advérbios como
conjunções coordenativas (adversativas e conclusivas,
respectivamente), admitindo, assim, orações coordenadas
sindéticas conclusivas. Na verdade, são elementos em processo
de gramaticalização. (p. 241);
# A gramática tradicional não se mostra sensível à
diferença entre as subcategorias contável e não-contável dos
substantivos [com o verbo pedir]. Entretanto, são várias as
propriedades que distinguem essas duas subcategorias (p. 82).
Reforçamos sobretudo quatro características da gramática de Neves:
–
o tipo de gramática de usos: não é uma gramática da norma
usual, da frequência de uso, mas uma gramática sobretudo
linguística, de descrição e explicação dos usos;
–
uma gramática funcionalista, que apresenta claramente sua
fundamentação teórica;
324
Diana Luz Pessoa de Barros
–
–
uma gramática que examina a “língua viva”, em funcionamento
nos discursos e na interação entre os sujeitos;
uma gramática que mostra que os diferentes usos não são
certos ou errados, mas que eles existem e produzem efeitos de
sentido diferentes no discurso.
Considerações finais
As duas gramáticas examinadas compõem o quadro dos estudos
gramaticais no Brasil, no século XX: de um lado, uma gramática
“tradicional” ou segundo a tradição das gramáticas greco-latinas e das
gramáticas portuguesas desde o século XVI (desde João de Barros),
prescritiva e, antes de tudo, pedagógica, mas que dialoga com os estudos
linguísticos do século XX; do outro, uma gramática sobretudo descritiva
e explicativa, que escolhe e explicita uma teoria linguística determinada
para examinar os usos.
As gramáticas de Celso Cunha e de Neves constroem imagens
diferentes do enunciador e do enunciatário, ou, em outras palavras, cada
uma delas apresenta um éthos do enunciador e um páthos do enunciatário.
Na gramática de Celso Cunha, as estratégias discursivas empregadas
mostram o éthos do enunciador erudito, sábio, competente, com a
autoridade de alguém que conhece a língua e suas regras, mas também
benevolente, que quer e deve ensinar a língua aos que não sabem escrever
bem, ou mesmo falar bem, e também aos usuários cultos que cometem
“erros”. É o éthos de um “gramático”, segundo a imagem construída
de um gramático no Brasil, no século XX. O páthos do enunciatário é
o daquele que quer aprender a bem empregar a língua, que acredita na
gramática e que sabe que é preciso falar e escrever bem se se quer ocupar
um bom lugar na sociedade.
A escolha dos tempos e a das pessoas do discurso na gramática de
Celso Cunha são procedimentos relevantes da construção do éthos e do
páthos: há o emprego da 3ª pessoa e, sobretudo, a presença acentuada da
325
O Discurso da Gramática do Português
1ª pessoa do plural, com suas várias possibilidades de uso – 1ª pessoa
do plural como nós exclusivo (eles + eu: nós, os gramáticos); 1ª pessoa
do plural no lugar da 1ª pessoa do singular (plural de autor); 1ª pessoa
do plural em lugar da 3ª pessoa. São essas, geralmente, as escolhas do
discurso científico, são esses seus procedimentos característicos: o
emprego da 3ª pessoa produz efeitos de sentido de objetividade, próprios
da ciência (“Materialmente, a frase constitui uma cadeia sonora com seus
acentos principais e secundários” (p. 67-68)); o emprego da 1ª pessoa
do plural em lugar da 1ª pessoa do singular, denominado plural de autor,
produz o efeito de sentido de se falar em nome da ciência (“Apresentar
as consoantes fricativas como subdivisão das constritivas não nos
parece a melhor solução (...)” (p. 55), “(...) além do emprego a que nos
referimos (...)” (p. 434)); o emprego do nós exclusivo (eles + eu: nós, os
gramáticos) mostra a participação da gramática na tradição gramatical
de que já falamos. Os efeitos de sentido de objetividade da ciência, de
se falar em seu nome e de participação na tradição gramatical resultam
desses procedimentos. Por outro lado, o emprego acentuado da 1ª pessoa,
ainda que enfraquecido pelo plural e, em particular, por seu emprego em
lugar da 3ª pessoa, produzem efeitos de sentido de subjetividade e de
aproximação, sempre muito atenuada, entre o destinador e o destinatário
da gramática (“... se, no entanto, observarmos com atenção a pronúncia
...”(p. 56); “Dizemos, por exemplo, que as palavras gostosamente e
indubitavelmente são paroxítonas, porque sentimos que em ambas o
acento básico recai na penúltima sílaba” (p. 67)). Esse jogo de vozes
que se afastam e se aproximam é uma das características do discurso
pedagógico, que mistura os efeitos de cientificidade e os de cumplicidade
didática de uma interação sempre assimétrica entre professor e aluno. O
autor se apaga um pouco nesse ir-e-vir, mas a 1ª pessoa, ainda que do
plural, garante-lhe certa “propriedade” e “individualidade” de ponto de
vista.
O tempo é, em geral, o presente atemporal, gnômico, do discurso
científico.
326
Diana Luz Pessoa de Barros
A gramática de Maria Helena de Moura Neves constrói, também
ela, o éthos de autoridade e competência, mas se trata, principalmente,
da autoridade do linguista que, em nome da ciência da linguagem, deve
descrever e explicar a língua.
Na gramática de Neves, o emprego das pessoas e do tempo do
discurso é próprio do discurso objetivo da ciência: 3ª pessoa e presente
atemporal, gnômico. Quando a autora precisa da 1ª pessoa, para falar,
por exemplo, das contribuições que recebeu de outros linguistas, ela
emprega a estratégia de substituir a 1ª pessoa pela 3ª, dizendo “a autora”,
ou a da indeterminação do sujeito:
A autora obteve colaboração...(p. 19);
Obviamente, as imprecisões e impropriedades
remanescentes são de inteira responsabilidade da autora
(p. 20);
A partir dos pressupostos sobre os quais se assenta
a investigação pretendida, pode-se ilustrar com algumas
classes de palavras a discussão que se efetivou (p. 16);
A partícula negativa NÃO, como já se explicou
antes... (p. 289);
Os advérbios NUNCA e JAMAIS, como também já
se explicou em 2.1... (p 289).
Esses procedimentos escondem os efeitos de aproximação e as
marcas sensoriais e passionais da enunciação, próprias da 1ª pessoa,
sob a aparência do afastamento e da objetividade inteligível e racional
da indeterminação das pessoas do discurso e do emprego de um papel
temático, o da “autora”, no lugar do “eu” ou do “nós”.
327
O Discurso da Gramática do Português
O destinatário está também sempre na 3ª pessoa, o que reforça o
efeito de sentido de afastamento entre enunciador e enunciatário. A
cumplicidade entre a autora da gramática e seu leitor constrói-se então
por meio de outros procedimentos, sobretudo os de “facilitação” da
gramática e de sua leitura. As numerosas comparações, os muitos
exemplos e as relações com a gramática “tradicional” são algumas dessas
estratégias de cumplicidade e facilitação.
As duas gramáticas examinadas contribuem assim para a formação
da parte gramatical do rosto brasileiro do século XX. Rosto que os
estudos dos diferentes discursos, entre os quais o gramatical, deixam ver
e sentir. Se as gramáticas do século XX não têm mais o papel primordial
de construir laços entre língua e nação, criando impérios coloniais e
identidades nacionais, elas criam relações entre língua e sociedade e
estabelecem, sobretudo as tradicionais, a ordem social.
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332
MELODIC ANALYSIS OF SPEECH (MAS):
APLICACIONES EN LA COMPARACIÓN DE
LENGUAS
Dolors FONT-ROTCHÉS
Laboratori de Fonètica Aplicada. Universitat de Barcelona.
RESUMEN
En este artículo, presentamos un análisis comparativo de la entonación de las preguntas
absolutas del español, del catalán y del portugués de Brasil a partir de las investigaciones que
se han llevado a cabo en los últimos años por el grupo Entonación y Habla de la Universitat
de Barcelona. Se trata de una comparación formal entre los diversos patrones que utiliza
cada lengua para producir este tipo de preguntas. Para realizar esta investigación, nos hemos
basado en el método Melodic Analysis of Speech (MAS), descrito por Cantero (2002),
revisado y ampliado por Font-Rotchés (2007) y, posteriormente, establecido por Cantero
y Font-Rotchés (2009), después de haber sido aplicado en distintas investigaciones sobre
descripción de la entonación de distintas lenguas e interlenguas.
ABSTRACT
In this paper, we present a comparative analysis of the intonation of absolute questions in
Spanish, Catalan and Brazilian Portuguese based on research carried out during the last
few years by the group Intonation and Speech from the University of Barcelona. This is a
formal comparison between the different patterns that each language uses to produce this
type of question. For this research we have used the Melodic Analysis of Speech method
(MAS) described by Cantero (2002), revised and extended by Font-Rotchés (2007) and
subsequently established by Cantero and Font-Rotchés (2009), after having been applied to
different research projects regarding the description of intonation in different languages and
interlanguages.
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 333-366. 1ª parte 2011
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
PALABRAS-CLAVE
Catalán. Entonación. Español. Preguntas absolutas. Método Análisis Melódico del Habla.
Portugués de Brasil.
KEY-WORDS
Absolute questions. Analysis of Speech method. Brazilian Portuguese. Catalan. Intonation,
Spanish. Melodic
Introducción
El estudio de la entonación de las lenguas es de gran interés porque
tiene aplicaciones en el campo del análisis, síntesis y reconocimiento de
la voz, en los sistemas de diálogo, en fonética forense, en fonética clínica
(reeducación de la voz, trastornos del habla) y también en la descripción
lingüística y en la enseñanza de lenguas. Es en este último campo en
el que el grupo Entonación y Habla de la Universitat de Barcelona se ha
especializado.
Para realizar el análisis de la entonación de las lenguas, utilizamos el
método Melodic Analysis of Speech (MAS), también llamado Análisis Melódico
del Habla, propuesto por Cantero (2002), revisado y ampliado en Font
Rotchés (2007) y establecido en Cantero y Font-Rotchés (2009) y FontRotchés y Cantero (2009). Se trata de un método muy adecuado para
este tipo de investigaciones, cuyos resultados son útiles para desarrollar
aplicaciones didácticas en la enseñanza de primeras y segundas lenguas.
Frente a otros métodos de análisis de la entonación, ofrece un criterio
de segmentación de las melodías del habla exclusivamente fónico y
presenta un sistema de procesamiento de los datos acústicos que nos
permite obtener los valores relativos que constituyen las melodías, para
compararlas, clasificarlas, reproducirlas con toda fidelidad, experimentar
con ellas mediante la síntesis de voz, someterlas al análisis perceptivo y
hacer generalizaciones lingüísticas.
334
Dolors Font-Rotchés
Así pues, podemos contar con múltiples informantes y un gran
número de contornos, que nos han servido para establecer con precisión
los patrones entonativos de una lengua: español (Cantero y FontRotchés, 2007), catalán (Font-Rotchés, 2007), así como el estudio de la
interlengua: español hablado por taiwaneses (Liu, 2005), por brasileños
(Fonseca y Cantero, 2011), por italianos (Devís, en prensa), por suecos
(Martorell, en prensa) o catalán hablado por húngaros (Pálvölgyi, 2010),
por citar algunos de los estudios que se están llevando a cabo.
En este artículo, presentamos las características esenciales del
método acompañadas de un ejemplo de las aplicaciones que se pueden
desarrollar: la descripción de los patrones interrogativos de tres lenguas,
español, catalán, y portugués de Brasil, y la comparación formal entre
ellos. Por consiguiente, hemos podido establecer las semejanzas y
diferencias que tienen los patrones interrogativos de estas tres lenguas
románicas, gracias a las características del método: se obtienen patrones
melódicos con unos márgenes de dispersión expresados en valores
exactos, en porcentajes, con lo cual tenemos la información necesaria
para desarrollar aplicaciones didácticas en el ámbito de la enseñanzaaprendizaje de primeras y segundas lenguas y de lenguas extranjeras.
1. El método Melodic Analysis of Speech (MAS)1.
En nuestros trabajos de entonación, hemos desarrollado un modelo
teórico que nos permite identificar con toda precisión las unidades fónicas
del habla, independientemente de cualquier otro nivel de análisis. Ello
nos permite describir la entonación de un corpus de habla no preparado
ni inducido, totalmente ajeno a la intervención de los investigadores, con
informantes anónimos y con habla espontánea genuina.
Este planteamiento es diferente al que mantienen los estudios
de la entonación que se elaboran a partir de un corpus de “habla de
laboratorio” (frases preparadas y leídas o, como mucho, inducidas por
1
Este apartado sigue de cerca el protocolo expuesto en Cantero y Font-Rotchés, 2009.
335
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
el investigador) y conlleva un tipo de análisis que no puede describir la
realidad lingüística tal cual es, sino únicamente una realidad lingüística
creada en el laboratorio, que, obviamente no es muy “real”.
El modelo teórico, expuesto en Cantero (2002), se basa en el concepto
de jerarquía fónica, según el cual el habla está formada por unidades
fónicas trabadas, bien jerarquizadas: la sílaba, el grupo rítmico (o palabra
fónica) y el grupo fónico. La unidad de análisis de la entonación es el
grupo fónico (con una melodía determinada); la unidad de análisis del
ritmo es el grupo rítmico (cuya melodía también es relevante dentro del
contorno); y la unidad de análisis de la melodía es el segmento tonal (es
decir, el valor tonal, relativo, del núcleo silábico: la vocal). Cada vocal,
entonces, constituye un segmento tonal, excepto las vocales tónicas, que
pueden constituir una inflexión tonal, es decir, dos (o más) segmentos
tonales: como ocurre en el acento de frase, que es el núcleo del grupo
fónico y, por tanto, también el núcleo de la melodía. La presencia de una
inflexión tonal será el criterio formal que utilizaremos para delimitar el
grupo fónico.
Ante un corpus de habla espontánea, y en un primer momento,
conviene seleccionar los enunciados que coinciden con un turno de
palabra del diálogo (normalmente breves y fáciles de identificar) hasta
que el investigador no haya adquirido la suficiente confianza en la
identificación de los grupos fónicos y en la delimitación de las melodías
del habla.
Una vez identificadas las unidades melódicas (los grupos fónicos),
hay que tratarlas como enunciados autónomos. Cada una contendrá, en
unas ocasiones, sintagmas más o menos definidos y, en otras, oraciones
más o menos completas gramaticalmente (ya que trabajamos con lengua
oral espontánea): pero en ningún caso dependemos de estas unidades
gramaticales para el análisis, porque las unidades que analizamos son
unidades fónicas (contengan o no unidades gramaticales, enteras o
no). Nosotros creemos que son más bien las unidades gramaticales las
que ubican y se adaptan a su contenedor melódico, que es el auténtico
estructurador del discurso oral: lo que llamamos entonación prelingüística.
336
Dolors Font-Rotchés
1.1. Fase acústica: determinación de los valores fre-cuenciales
relevantes y estandarización
Utilizando Praat (Boersma & Weenink, 1992-2010), la aplicación de
análisis acústico y síntesis con gran aceptación dentro de la comunidad
investigadora, determinamos la media de los valores de F0 de la vocal de
cada enunciado (en Hz), o el valor central cuando es lo suficientemente
estable. Cuando se trata de una vocal tónica que contiene una inflexión
tonal, hemos de determinar el valor de los dos segmentos tonales
que constituyen la inflexión (o de los tres segmentos, si la inflexión
es circunfleja). Estos valores se calculan de los valores extremos de la
inflexión. Otras veces, la inflexión tonal final comienza en una vocal
tónica y acaba en la vocal átona, como ocurre en las inflexiones finales
que coinciden con una palabra llana o esdrújula. En el caso de que la
inflexión final acabe en una vocal seguida de una consonante nasal o
lateral, esta consonante sonante podría constituir, por sí misma, el último
segmento tonal de la inflexión.
Los valores absolutos obtenidos en esta primera fase del análisis (v.
fila ‘herzios’ en tabla 1) no constituyen aún, sin embargo, la melodía del
contorno, son datos en bruto que han de procesarse adecuadamente. El
segundo paso en el análisis melódico es, pues, la estandarización de los
datos frecuenciales, es decir establecer la distancia tonal en porcentajes
entre un segmento tonal y el siguiente: el ascenso tendrá un porcentaje
positivo y el descenso, negativo (v. fila ‘porcentaje’ en tabla 1).
TABLA 1: Valores absolutos y estándares de ¿Te cabe todo ahí?.
Enunciado
Herzios
Porcentaje
Curva
estándar
Te
277
100%
ca
277
0,0%
be
340
22,7%
100
100
123
337
to(do)
a
320
296
-5,9% -7,5%
116
107
hí
311
5,1%
hí*
532
71,1%
112
192
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
Para hacer la representación gráfica de una melodía, convertimos los
porcentajes obtenidos a valores estándares (v. fila ‘Curva estándar’ en
tabla 1): comenzando, por ejemplo, por el valor 100 (un valor arbitrario),
le aplicamos el porcentaje de ascenso que ha sufrido el segundo segmento,
0%, y obtenemos el segundo valor, 100; a este, se le aplica el porcentaje
de ascenso del tercero, +22,7%, y obtenemos el tercer valor, 123; y así,
sucesivamente, hasta el último segmento.
Con la aplicación de esta primera fase del método, o fase acústica,
se obtiene la estandarización de los contornos, que ahora ya son
comparables y clasificables, independientemente de la edad, el sexo o
cualquier otra característica del informante, ya que se han extraído todas
las variaciones micromelódicas y se han normalizado los valores (a partir
de un valor arbitrario 100). Tampoco hay que preocuparse por el número
de informantes del corpus, ya que con la aplicación del método todos los
contornos obtenidos son directamente comparables.
1.2. Fase perceptiva: validación del análisis e interpre-tación
de los datos
Después de la fase acústica, podemos comprobar la validez de
nuestros resultados mediante una serie de pruebas perceptivas en las
que sometemos a juicio de los oyentes una copia exacta (por síntesis de
voz) de la frase analizada.
Utilizamos el programa Praat para obtener esta copia sintetizada (con
el método PSOLA), de la cual borramos todos los datos originales y los
sustituimos por nuestros datos estandarizados. Así comprobamos que,
efectivamente, el análisis melódico ha sido correcto y refleja la melodía
original, sin variaciones micromelódicas y con los valores normalizados,
es decir, se trata de una melodía idéntica a la original, pero con una
tesitura de voz diferente.
El siguiente paso es, evidentemente, interpretar adecuadamente la
melodía obtenida: extraer los datos melódicos relevantes que permiten
una interpretación del contorno, por ejemplo una interpretación
fonológica.
338
Dolors Font-Rotchés
En nuestro modelo teórico, distinguimos entre los rasgos melódicos
de los contornos (que constituyen el nivel fonético de la entonación) y
los rasgos fonológicos (que permiten establecer los tonemas o unidades
fonológicas de la entonación).
Los rasgos fonológicos que contemplamos son: /± Interrogativo/±
Enfático/ y /± Suspendido/, cuya combinación nos ha permitido caracterizar
los tonemas de cada lengua (Cantero, 2002). Estos rasgos fonológicos han sido
suficientes para clasificar todos los contornos de los diversos corpus
que se han elaborado para distintas investigaciones dentro del marco de
Laboratorio de Fonética Aplicada.
Los rasgos melódicos, por su parte, son las características de los
elementos funcionales del contorno: el anacrusis, el primer pico, el cuerpo
(o declinación), el núcleo y la inflexión final. Entendemos por anacrusis las
sílabas átonas previas a la primera vocal tónica del contorno, llamada
primer pico, por cuerpo las sílabas que van desde el primer pico a la última
vocal tónica del contorno o núcleo, y por inflexión final las sílabas que van
del núcleo hasta el final del contorno. Es la dirección de esta inflexión
final, ascendente, descendente, plana, ascendente-descendente, etc., la
que nos permite establecer los patrones melódicos típicos.
Según nuestro método, el patrón melódico no es una mera
representación de una línea con ascensos y descensos, sino que es
una abstracción de la realidad hablada, representativa de múltiples
melodías con los rasgos melódicos comprendidos entre sus márgenes
de dispersión (definidos con claridad y cuantificados objetivamente). En
estos márgenes se dan las variaciones de que nos servimos los hablantes
para transmitir intenciones, emociones y otros contenidos expresivos o
bien para evidenciar diferencias socioculturales o dialectales.
2. Patrones interrogativos del español
En español, hemos encontrado cuatro patrones /+interrogativos/
resultado del análisis acústico y de las pruebas de percepción que se
339
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
han llevado a cabo en investigaciones basadas en un corpus de español
(Cantero y Font-Rotchés, 2007; Font-Rotchés y Mateo, 2011).
Los patrones se describieron en dos etapas a partir de un total de 55
preguntas absolutas producidas por 47 informantes, hombres y mujeres,
con edades comprendidas entre los 16 y los 83 años en el momento
de la emisión de los enunciados. Son todos ellos hablantes nativos de
las diversas variedades dialectales del español peninsular y de Canarias
y de composición totalmente aleatoria por lo que respecta tanto a la
ubicación dialectal concreta como al origen social y nivel cultural.
2.1. El patrón Inflexión final ascendente (+70%)
El patrón Inflexión final ascendente (+70%) se caracteriza por ser
/+interrogativo –enfático –suspenso/ y se distingue de los otros porque
presenta una inflexión final con un ascenso igual o superior al 70%, tal
como se puede apreciar en el gráfico.
GRÁFICO 1: Patrón del español IF ascendente (+70%).
Núcleo
Primer Pico
Cuerpo
IF ascenso
(+70%)
Anacrusi s
PATRÓN DEL ESPAÑOL IF ASCENDENTE (+70%)
Este patrón presenta un ascenso hasta la primera sílaba tónica o
primer pico de un máximo de un 40%, un cuerpo en declinación hasta el
núcleo o última sílaba tónica y un ascenso final igual o superior al 70%.
Tenemos un total de 12 interrogativas absolutas que responden a los
rasgos melódicos de este patrón, de las cuales aportamos unos ejemplos:
340
Dolors Font-Rotchés
a.
b.
c.
d.
e.
¿Y bambas tal vez no?
¿Ustedes estarían por la hospitalización?
¿Me lo puedes repetir?
¿Te cabe todo ahí?
Entonces, ¿me puedo quitar la corbata también?
Este patrón se utiliza en preguntas de carácter neutro, para obtener
información, aunque también encontramos otros usos, como
preguntas-ruego o un caso preguntas-ruego o un uso casi retórico.
GRÁFICO 2: Contorno melódico de ¿Te cabe todo ahí? del patrón IF
ascendente (+70%) del español.
El contorno del gráfico 2, ¿Te cabe todo ahí?, presenta un anacrusis
con un ascenso total del 23%, que culmina en una sílaba átona posterior
a la tónica, -be, que es donde se encuentra el primer pico. Se trata de un
pequeño desplazamiento sin gran relevancia. El cuerpo es descendente y
la inflexión final presenta un 71,1% de ascenso en la sílaba tónica final,
hí.
341
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
2.2. El patrón Inflexión final ascendente (40%~60%)
El patrón Inflexión final ascendente (40%~60%), que se caracteriza
por ser /+interrogativo -enfático –suspenso/ se diferencia del anterior
no solo por una inflexión final con un ascenso inferior, sino también
por presentar de manera sistemática un desplazamiento del primer pico
a una vocal átona posterior a la primera vocal tónica. Así, pues, como se
puede ver en el gráfico 3, el patrón presenta un ascenso hasta una sílaba
átona posterior al primer pico de un máximo de un 40%, un cuerpo en
declinación hasta el núcleo o última sílaba tónica y un ascenso final entre
un 40% y un 60%.
GRÁFICO 3: Patrón del español IF ascendente (40%~60%).
Primer Pico
Núcleo
desplazado
Cuerpo
IF ascenso
(40%~60%)
Anacrusis
PATRÓN DEL ESPAÑOL IF ASCENDENTE (40%~60%)
Tenemos un total de 19 interrogativas absolutas que responden a los
rasgos melódicos de este patrón, de las cuales aportamos unos ejemplos:
a.
¿Y van a llegar a un acuerdo?
b.
¿Tienes permiso de conducir?
c.
¿Es una indirecta para que me vaya?
d.
¿Hubo miedo?
e.
Y por aquí tenéis una cañada real, ¿verdad?
También en este caso este tipo de contornos fueron utilizados por
los hablantes en preguntas en las que básicamente los interlocutores
querían obtener una información de carácter neutro, como el ejemplo
del gráfico 4, ¿Hubo miedo?, que presentamos a continuación.
342
Dolors Font-Rotchés
GRÁFICO 4: Contorno melódico de ¿Hubo miedo? del patrón IF ascendente
(40%~60%) del español.
El contorno del gráfico 4 es típico de este patrón. Presenta un
anacrusis con un ascenso total del 16,1%, que culmina en el primer
pico, una sílaba átona posterior a la tónica, -bo, seguido de un cuerpo
descendente y una inflexión final que empieza en el núcleo, mie- y
asciende un 57,8% hasta la sílaba –do.
2.3. El patrón Inflexión final ascendente-descendente
El patrón melódico IF ascendente-descendente (v. gráfico 5) se
caracteriza por un anacrusis con un ascenso suave de hasta un 25%, que
llega a un primer pico desplazado a una vocal átona posterior, un cuerpo
plano hasta llegar a la última sílaba tónica o núcleo, y una inflexión
final circunfleja, ascendente-descendente. El ascenso de la inflexión se
percibe a partir del 25% y tenemos ejemplos que llegan hasta un 55%. El
descenso se prolonga hasta llegar a un punto más bajo de donde había
empezado la inflexión. Puede presentar variantes que no contengan
anacrusis o que el cuerpo sea descendente.
343
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
GRÁFICO 5: Patrón del español IF ascendente-descendente.
Este tipo de contornos que responden a este patrón, tenemos 7 en
total, se utilizan menos que los anteriores ya que requieren de contextos
más específicos.
a.
b.
c.
d.
¿Te gusta el tomate?
¿Eso se está haciendo?
¿Es bonito?
¿Corto yo también?
Vemos en el gráfico 6 un caso típico de este patrón con la pregunta
¿Te gusta el tomate? Empieza el contorno con un ascenso suave hasta
una sílaba átona posterior a la primera tónica, te gusta el to-, con un
ascenso total de un 15%, sigue en descenso hasta la última sílaba tónica,
-ma-, punto donde empieza la inflexión final circunfleja, con un ascenso
de un 42,6% y un descenso de un 34,3%.
344
Dolors Font-Rotchés
GRÁFICO 6: Contorno melódico de ¿Te gusta el tomate? del patrón IF
ascendente-descendente del español.
2.4. El patrón Cuerpo Ascendente
Este patrón, a diferencia de los otros, lo denominamos Cuerpo
ascendente, porque aunque presenta una inflexión final ascendente,
la característica que lo distingue del resto de patrones es el cuerpo
ascendente que tiene lugar desde el primer segmento tonal del enunciado
hasta el último segmento del contorno. Además no presenta anacrusis ni
primer pico. Veámoslo en el gráfico 7. Se trata de un patrón nuevo que
se reveló en unas pruebas perceptivas (Font-Rotchés y Mateo, 2011) y
que parece ser muy productivo.
345
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
GRÁFICO 7:
Patrón del español Cuerpo ascendente
Tenemos un total de 17 enunciados con distintos ascensos que
han sido reconocidos como /+interrogativos/. El ascenso total de
las melodías puede ser de entre un 20% a un 140%, y el ascenso de
las inflexiones finales, de un 10% hasta un 66%. Cuanto más ascenso
global y más ascenso en la inflexión final tienen las melodías de estos
contornos, los informantes de las pruebas de percepción más los
reconocen como /+interrogativos/, incluso, en algunos casos, se llega al
100%. Presentamos a continuación algunos de los enunciados-pregunta
que siguen este patrón.
a.
b.
c.
d.
e.
¿Me puedo levantar y cantar ya?
Pero, ¿sabes bailar?
¿Y usted me fía?
¿Te parece bien?
¿Compraste algo?
En el gráfico 8, se representa el contorno melódico de la pregunta
Pero ¿sabes bailar? que sigue las características melódicas del patrón. La
línea melódica se inicia en el primer segmento tonal y va ascendiendo de
forma constante hasta la última sílaba tónica, -lar, donde tiene lugar un
ascenso final de un 12,9%. El ascenso total del contorno es de un 104%.
346
Dolors Font-Rotchés
GRÁFICO 8: Contorno melódico de Pero ¿sabes bailar? del patrón Cuerpo
ascendente del español.
3. Patrones interrogativos del catalán
En catalán hemos encontrado tres patrones /+interrogativos/, los
cuales se han descrito a partir del análisis de un corpus y de los resultados
de unas pruebas de percepción (Font-Rotchés, 2007, 2008).
Las preguntas fueron extraídas de un corpus que contiene 580
enunciados (Font-Rotchés, 2006) procedentes de 47 horas de grabaciones
de TV entre 1996 y 2000 en programas en los que había diálogo (debates,
reportajes, tertulias, concursos, magazines). Tenemos un total de 37
interrogativas absolutas producidas por 30 informantes, hombres y
mujeres, que tienen entre 20 y 70 años con profesiones diversas.
3.1. El patrón IF ascendente (+80%)
El patrón 3 es el patrón interrogativo por excelencia /+interrogativo
–enfático –suspenso/ y se distingue de los otros porque presenta una
inflexión final con un ascenso igual o superior al 80%, tal como se puede
apreciar en el gráfico 9.
347
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
GRÁFICO 9: Patrón del catalán IF ascendente (+80%).
Núcleo
Primer Pico
Cuerpo
IF ascenso
(+80%)
Anacrusis
PATRÓN DEL CATALÁN IF ASCENDENTE (+80%)
Este patrón se caracteriza por presentar un ascenso hasta la primera
sílaba tónica o primer pico de un máximo de un 40%, un cuerpo en
declinación hasta el núcleo o última sílaba tónica y un ascenso final igual
o superior al 80%. Tenemos un total de 26 interrogativas absolutas que
responden a los rasgos melódicos de este patrón, de las cuales aportamos
unos ejemplos:
a.
b.
c.
d.
e.
I la pronúncia, ha anat bé? ‘¿Y la pronunciación fue bien?’
Vols dir? ‘¿Estás seguro?’
Portes bambes? ‘¿Llevas bambas?’
Fa molts anys? ‘¿Hace muchos años?’
Estàs a dieta, tu? ’¿Estás a dieta, tú?’
GRÁFICO 10: Contorno melódico de ‘Portes bambes? ‘¿Llevas bambas?’ del
patrón IF ascendente (+80%) del catalán.
348
Dolors Font-Rotchés
En el gráfico 10 podemos ver el contorno de uno de los enunciadospregunta, que cumple con las características del patrón. El contorno
empieza en la primera sílaba tónica o primer pico, Por-, continua en el
cuerpo hasta la última sílaba tónica, bam-, y acaba con un ascenso de un
89,1% en –bes.
3.2. El patrón Inflexión final con núcleo elevado (+50%)
El patrón IF con núcleo elevado (+50%) es /+interrogativo +enfátic
–suspenso/ porque los informantes interpretaron que las melodías se
caracterizaban con estos rasgos. Como se puede ver en el gráfico 11, se
distingue de otro patrón por su inflexión final: el núcleo se encuentra
en la cúspide de un ascenso igual o superior a un 50%. Presenta una
anacrusis (opcional) ascendente hasta un máximo de un 30% hasta el
primer pico, un cuerpo en declinación levemente descendente hasta
la sílaba anterior a la última tónica, donde empieza un ascenso igual o
superior a un 50%, que culmina en el núcleo. Le sigue un descenso hasta
situarse por debajo de la sílaba pretónica.
GRÁFICO 11: Patrón del catalán IF con núcleo elevado (+50%).
Núcleo
1r pico
Cuerpo
IF núcleo
elevado
(+50%)
Anacrusis
PATRÓN DEL CATALÁN IF CON NÚCLEO ELEVADO (+50%)
Este tipo de patrón no aparece con tanta frecuencia como el anterior
(tenemos 8 enunciados-pregunta) porque requiere de un contexto en
qué se emita una pregunta enfática. Estas preguntas suelen expresar
duda, incredulidad, o, simplemente, son confirmatorias. Veamos unos
ejemplos:
349
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
a.
b.
c.
d.
El pintor? ‘¿El pintor?’
D’Andalusia? ‘¿De Andalucía?’
Que és lícit? ‘¿Es lícito?’
Vostè creu que és car això? ‘¿Usted cree que es caro eso?’
El siguiente contorno (gráfico 12) es típico del patrón con una
variación poco significativa en el primer pico ya que está desplazado
hacia una sílaba tónica posterior, creu. La línea melódica sigue con un
descenso en el cuerpo hasta la sílaba, car. En este caso, por el hecho de
ser la última palabra del contorno aguda, el punto más alto recae en la
sílaba átona anterior. Así, pues, desde este punto, car, se inicia un ascenso
del 56% hasta ai- y le sigue un descenso de un 58% hasta –xò.
GRÁFICO 12: Contorno melódico de Vostè creu que és car això? ‘Usted
cree que es caro esto?’ del patrón IF con núcleo elevado
(+50%) del catalán.
350
Dolors Font-Rotchés
3.3. El patrón
(+120%)
Inflexión
final
descendente-ascendente
El patrón IF descendente-ascendente (+120%) es un patrón
/+interrogativo +enfático –suspenso/con una inflexión final circunfleja
con tres valores y dos direcciones, una descendente, que puede ser más o
menos pronunciada, y otra ascendente, que tiene que ser igual o superior
a un 120% para que el contorno sea interpretado como pregunta (véase
en el gráfico 13). Si el ascenso es inferior, el contorno se percibe como
enfático. Además de esta característica en la inflexión final, el patrón se
caracteriza por presentar un primer pico desplazado hacia una sílaba
posterior a la primera tónica con un ascenso de hasta un 50% y un
cuerpo en declinación suave y constante hasta la última sílaba tónica.
Una variante de este contorno es la que presenta un ascenso en la sílaba
pretónica, antes de iniciar el descenso de la primera parte de la inflexión
final.
GRÁFICO 13: Patrón del catalán IF descendente-ascendente (+120%).
Los contornos que responden a este patrón se utilizan poco (tenemos
3 enunciados –pregunta) ya que requieren de contextos más específicos y
por ello necesitamos de un corpus muy amplio para encontrar muestras.
Presentamos a continuación dos ejemplos que tienen en común que son
preguntas confirmatorias.
351
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
a.
b.
Un petó? ‘¿Un beso?’
I no li sap greu treure-se’l? ‘¿Y no le sabe mal dejarlo?’
El contorno del gráfico 14 se caracteriza por una anacrusis con un
ascenso de un 27% hasta la sílaba, sap, que es posterior a la primera tónica
y continúa con un descenso seguido de un ascenso muy marcado, de un
100% en –u; a partir de aquí, un descenso hasta el núcleo treu- donde
empieza la inflexión final constituida por un descenso, de un 26%, en
–re, y de un ascenso de un 157,8% en –se’l, último valor del contorno.
GRÁFICO 14: Contorno melódico de I no li sap greu treure-se’l? ‘¿Y no
le sabe mal dejarlo?’ del patrón IF descendente-ascendente
(+120%) del catalán.
4. Patrones interrogativos del portugués de Brasil
En portugués de Brasil hemos encontrado tres patrones
/+interrogativos/ que se obtuvieron del análisis acústico y del resultado
de las pruebas perceptivas de unos enunciados de un corpus de portugués
de Brasil (Cantero y Font-Rotchés, en prensa).
Basamos la investigación en 40 preguntas extraídas de un corpus de
8 horas de duración. Se trataba de entrevistas y conversaciones en las
que participaban 15 informantes, 12 hombres y 3 mujeres, con edades
352
Dolors Font-Rotchés
comprendidas entre 25 y 65 años, hablantes nativos del estado de Goiás
(Brasil) y que trabajaban en el ámbito rural (agrónomos, ingenieros
rurales, agricultores y sus esposas e hijas).
4.1. El patrón Inflexión final ascendente (30%~52%)
El patrón melódico IF ascendente (30~52%) representado en
el gráfico 15 que se caracteriza por ser /+interrogativo –enfático –
suspenso/ presenta una anacrusis opcional, que comprende las primeras
sílabas átonas del enunciado hasta la primera sílaba tónica o primer pico.
En esta parte del contorno puede tener lugar un ascenso de hasta un
30% o un 40%. A veces, el enunciado empieza en el primer pico y no
presenta esta parte y otras el ascenso puede ser de un 50% o superior,
con lo cual estamos ante un énfasis en el primer pico.
El cuerpo, que va del primer pico al núcleo, tiene tendencia a
presentar un descenso casi imperceptible o a ser plano, aunque es
frecuente encontrar en el cuerpo palabras que presentan un ascenso
tonal. Después del núcleo, empieza la inflexión final, que se caracteriza
por un ascenso leve de entre un 30% y un 52%.
GRÁFICO 15: Patrón del portugués IF ascendente (30%~52%).
1r pico
Núcleo
Cuerpo
IF ascenso
Anacrusis
30%~52%
PATRÓN DEL PORTUGUÉS IF ASCENDENTE (30%~52%)
Tenemos un total de 17 interrogativas absolutas que responden a los
rasgos melódicos de este patrón, de las cuales aportamos los siguientes
ejemplos:
353
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
a.
b.
c.
d.
e.
Está lembrado? ‘¿Te acuerdas?’
Dos anteriores? ‘¿De los anteriores?’
Mas esses que você dá eles valem cinquenta? ‘Pero esos que tu
das, ¿valen cincuenta?’
Você quer levar o negócio das vacas? ‘¿Quieres llevar el negocio de
las vacas?’
Duzentos e cinquenta esse bezerro? ‘¿Doscientos cincuenta ese
becerro?’
GRÁFICO 16: Contorno melódico de Você quer levar o negocio das vacas?
‘¿Quieres llevar el negocio de las vacas?’ del patrón IF
ascendente (30~52%).
En el gráfico 16, la pregunta Você quer levar o negocio das vacas? ‘¿Usted
quiere llevar el negocio de las vacas?’ es un ejemplo que sigue las
características de este tipo de preguntas. Presenta un anacrusis con un
ascenso total de un 20% hasta el primer pico, le-, que en este caso se ha
desplazado a una vocal átona posterior a la primera tónica, un cuerpo
levemente descendente con un ascenso de un 8,1% en -go-, y un ascenso
final a partir de la última sílaba tónica, va-, de un 48,4%.
354
Dolors Font-Rotchés
4.2. El patrón Inflexión final ascendente-descendente
El patrón melódico IF ascendente-descendente (v. gráfico 17) normalmente
se caracteriza por un cuerpo plano y no tiene ni anacrusis ni primer
pico. En algunos casos, puede presentar una anacrusis opcional con un
ascenso leve, que comprende las primeras sílabas átonas del enunciado
hasta la primera sílaba tónica o primer pico. A partir del núcleo, empieza
la inflexión final, que en este caso tiene tres valores y es circunfleja,
ascendente-descendente: el ascenso que tiene lugar puede ser de un 15%
a un 75% y el descenso suele llegar hasta un punto cercano de donde
había empezado la inflexión final.
GRÁFICO 17: Patrón del portugués IF ascendente-descendente.
Hemos definido este patrón a partir de 11 enunciados-pregunta,
algunos de los cuales ejemplificamos a continuación:
a.
b.
c.
d.
e.
Você tem alguma dúvida com relação as suas, seus dados?
‘¿Usted tiene alguna duda con relación a sus, sus datos?’
vinte mesmo? ‘¿Veinte mismo?’
Está vendo os morrinhos? ‘¿Está viendo las colinas?’
Você tem o anterior? ‘¿Tienes el anterior?’
Do pé de acerola? ‘¿Del árbol de acerola?
355
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
En el gráfico18 se encuentra un ejemplo típico con un cuerpo
plano, sin anacrusis ni primer pico, y una inflexión final ascendentedescendente, que se inicia en -ro-, asciende un 48,4% en un alargamiento
de la misma sílaba y desciende hasta –la, un 29%.
GRÁFICO 18: Contorno melódico de Do pé de acerola? ‘¿Del árbol de
acerola?’ del patrón IF ascendente-descendente del portugués.
4.3. El patrón Inflexión final con núcleo elevado (10%~50%)
El patrón melódico IF con núcleo elevado (10%~50%) se caracteriza
por una anacrusis opcional, que comprende las primeras sílabas átonas del
enunciado hasta la primera sílaba tónica o primer pico (v. en el gráfico 19). En
esta parte del contorno puede tener lugar un ascenso de hasta un 30% o 40%.
El cuerpo presenta un descenso suave hasta la sílaba anterior al núcleo, donde
empieza un ascenso,
que puede ser de un 10% hasta un 50% aproximadamente, ya que no hemos
encontrado hasta el momento ejemplos con un ascenso superior. La línea
melódica continúa con un descenso que acaba en el punto más bajo del
contorno.
356
Dolors Font-Rotchés
GRÁFICO 19: Patrón del portugués IF con núcleo elevado (10%~50%).
Tenemos un total de 12 enunciados pregunta que nos han permitido
definir el patrón. Presentamos a continuación unos ejemplos.
a.
b.
c.
d.
e.
Desse você trouxe da última vez? ‘¿Esto has traído la última vez?’
Você está vendo isso? ‘¿Estás viendo esto?’
Já pensou se aquilo lá estourar? ‘¿Ya pensaste si aquello explota?’
Tem visão aqui? ‘¿Se puede ver desde aquí?’
Mas ele não trabalha nada com o gado? ‘Pero él ¿no trabaja con el
ganado?’
En el gráfico 20, la melodía empieza en el primer pico o primera
sílaba tónica, Tem, continúa en descenso hasta la sílaba pretónica, visao;
a partir de este punto empieza el ascenso de un 16,5% hasta la última
sílaba tónica, quí, y acaba en un descenso del 20%. Se trata de un caso
típico.
357
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
GRÁFICO 20: Contorno melódico de Tem visão aqui? ‘¿Se puede ver
desde aquí?’ del patrón IF con núcleo elevado (10%~50%) del
portugués.
5. Análisis comparativo de la entonación de las
interrogativas absolutas del español, del catalán, y del
portugués
Después de haber presentado la descripción de los patrones
melódicos de las interrogativas absolutas en tres lenguas románicas,
español, catalán y portugués, vamos a comentar a continuación las
semejanzas y diferencias formales que mantienen entre ellos.
5.1. El patrón IF ascendente
Las tres lenguas presentan un patrón con una inflexión final
ascendente, pero con distintos porcentajes de ascenso, tal como se
puede constatar en el gráfico 21. Estos datos vienen determinados por
los resultados obtenidos en las pruebas de percepción. Así, en catalán,
los nativos para reconocer un enunciado como pregunta sitúan la
inflexión final en un ascenso de un 80% como mínimo (en el gráfico
358
Dolors Font-Rotchés
línea negra). En español, hay dos patrones con final ascendente, uno
con una inflexión final superior a un 70% (en el gráfico línea gris oscuro)
y otro que se sitúa entre un 40% y un 60%, pero que debe tener un
primer pico desplazado. Finalmente, en portugués, el patrón ascendente
lo hemos descrito con un ascenso de un 30% a un 52% (en el gráfico
líneas gris claro). Como ya hemos comentado, esta parte del contorno es
la más significativa y es la que permite a los hablantes reconocer el tipo
de melodía que perciben.
GRÁFICO 21: Esquema del patrón IF ascendente de las tres lenguas.
Referente al cuerpo de estos contornos, en portugués de Brasil
presenta una tendencia a ser casi plano (línea gris), mientras que en
catalán o en español el cuerpo es descendente (línea negra). El primer
pico se encuentra en la primera sílaba tónica en todos, excepto en el
patrón ascendente del español con terminación ascendente 40-60%, que
está en una átona posterior.
Estas diferencias formales en la inflexión final, tan importantes para
captar el significado de lo que se dice, tienen unas consecuencias directas
en la enseñanza y aprendizaje de una segunda lengua o de una lengua
extranjera. A los brasileños (preguntas con ascenso entre un 30%-52%)
les va a costar mucho producir preguntas en español (a partir de un
359
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
70%) y, aún más, en catalán (+80%) que sean interpretadas como tales
(un 100% de ascenso equivale a una octava de la escala musical). En
realidad, el patrón interrogativo del portugués de Brasil está dentro de
los márgenes del patrón suspenso del español (ascenso del 15% al 70%)
y del catalán (ascenso del 10% al 80%). Se trata de un caso de ‘falso
amigo’. Por consiguiente, si el ascenso que los brasileños hacen para
producir una pregunta no es suficiente, se puede entender que se trata de
un enunciado no acabado y, en el caso de ascensos leves inferiores a un
10%~15%, se puede interpretar como un enunciado declarativo. Estos
ascensos insuficientes de la inflexión final de las preguntas producidas por
los brasileños al hablar en español, los cuales pueden causar dificultades
en el comunicación, los han constatado en sus investigaciones Fonseca
et alii (2011).
Contrariamente, un español o un catalán hablando en portugués van
a producir unas preguntas con unos ascensos tan marcados que pueden
ser interpretados como enfáticos y, probablemente, /- interrogativos/.
5.2. El patrón IF ascendente-descendente
El patrón IF ascendente-descendente /+interrogativo/ solo lo
hemos encontrado en español y en portugués. Son muy parecidos,
no solo por la inflexión final sino también porque ambos presentan
un cuerpo plano. Sin embargo, en español existe una variante de este
patrón que puede presentar una anacrusis y primer pico y un cuerpo
descendente.
El ascenso que tiene lugar en la inflexión final puede ser, con los
datos que tenemos hasta hoy, desde un 25% hasta un 55% en español
(en el gráfico 22 líneas negras), y desde un 15% a un 75% en portugués
(en el gráfico 22 líneas grises). Estas cifras máximas de ascenso proceden
de los contornos que tenemos, lo cual significa que podrían existir
porcentajes de ascenso más elevados. El descenso supera el punto donde
empezó la inflexión final.
360
Dolors Font-Rotchés
En el caso del catalán, este patrón existe y es enfático, aporta un
significado de cortesía. Se trata nuevamente de un caso de ‘falso amigo’
Por lo tanto, para un nativo catalán no conocedor de estas lenguas le
sería difícil interpretar este tipo de pregunta en español y en portugués,
ya que entendería un enunciado /+enfático/ con dosis de cortesía y,
evidentemente, también le sería difícil producirlo para un contexto de
pregunta.
GRÁFICO 22: Esquema del patrón IF ascendente-descendente en español y en
portugués.
5.3. El patrón IF con núcleo elevado
El patrón con núcleo elevado /+interrogativo/ no debe confundirse
con el que hemos tratado anteriormente, IF ascendente-descendente,
aunque aparentemente puede parecer que sean iguales. La diferencia está
en el punto donde se encuentra la última sílaba acentuada. En el anterior,
la inflexión final se caracteriza por ser circunfleja y presentar desde la
sílaba acentuada hasta el final dos direcciones, ascenso y descenso, y tres
valores, en cambio en este caso son dos valores y una sola dirección, un
descenso (v. gráfico 23).
361
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
De este patrón se encuentran variantes en catalán y en portugués.
Existen, pero, diferencias en el punto alto donde se sitúa el núcleo: en
catalán, para que el enunciado sea interpretado como pregunta el núcleo
debe situarse en un ascenso del 50% como mínimo. Si el núcleo se
encuentra en un punto inferior, entre un 10% y un 50%, se trata de un
enunciado enfático. Este último patrón /+enfático/ del catalán es el que
coincide con el patrón /+interrogativo/ del portugués. Estamos ante
un caso de ‘falso amigo’ que puede afectar la intercomprensión entre
hablantes de las dos lenguas. Así pues, un portugués que quiera hacer
una pregunta en catalán deberá llegar a este 50% como mínimo para no
provocar malentendidos y, al contrario, un catalán deberá no situar el
núcleo en un punto tan alto.
Finalmente, un español no sabemos hasta qué punto reconocería
este tipo de preguntas, ya que existe un patrón parecido, pero es enfático.
En todo caso, debería aprender a producir preguntas del portugués o del
catalán con este patrón y con el ascenso adecuado para cada lengua y
adquirir, así, una buena competencia.
GRÁFICO 23: Esquema del patrón IF con núcleo elevado en catalán y portugués.
362
Dolors Font-Rotchés
5.4. Otros patrones
Existen dos patrones, el patrón IF descendente-ascendente (120%)
del catalán y el patrón de Cuerpo ascendente del español, los cuales
parece que no tienen correlatos en las otras dos lenguas comparadas.
En el caso del patrón español, cuerpo ascendente, es un tipo de melodía
muy utilizada en preguntas absolutas, por lo que se debe tener en cuenta
en los procesos de enseñanza-aprendizaje de esta lengua y se debe
aprender en los primeros momentos para ir desarrollando la competencia
comunicativa. En cambio, el patrón IF descendente-ascendente (120%)
del catalán no es muy frecuente, ya que necesita de contextos en que se
produzca una pregunta con un énfasis muy marcado.
Conclusiones
El método Melodic Analysis of Speech (MAS) se ha utilizado para
el análisis de la entonación de distintas lenguas y de la interlengua,
investigaciones que han demostrado su valía y adecuación para este tipo
de trabajos. El hecho que se base en el habla real de hablantes nativos y
de corpus amplios junto con un análisis acústico y perceptivo exhaustivo
que nos ofrece datos exactos en porcentajes de movimiento tonal es
lo que favorece su aplicación no solo en la descripción lingüística sino
también en el desarrollo de aplicaciones didácticas en el ámbito de la
enseñanza de lenguas.
Hemos aportado la descripción de los patrones melódicos de las
interrogativas absolutas de tres lenguas románicas, español, catalán y
portugués, procedentes de resultados de estudios llevados a cabo en el
sí del grupo Entonación y Habla. Y hemos caracterizado cada patrón
con unos márgenes de dispersión amplios en cada una de sus partes:
anacrusis, primer pico, cuerpo, núcleo e inflexión final, con datos exactos
expresados en porcentajes.
363
Melodic Analysis of Speech (Mas): Aplicacion es en la comparación de Lenguas (Conferência)
Los datos exactos obtenidos nos han permitido llevar a cabo
una comparación formal exhaustiva y constatar qué patrones
/+interrogativos/ son idénticos o muy parecidos (IF ascendentedescendente del español y del portugués), cuales son semejantes (el
patrón IF ascendente (+70%) del español con el patrón IF ascendente
(+80%) del catalán), cuales constituyen falsos amigos (el patrón con
núcleo elevado (10%~50%) del portugués coincide con un patrón
enfático del catalán; en cambio, el patrón interrogativo del catalán exige
un ascenso del núcleo del 50%, que no tiene correlato en portugués), y
cuales solo existen en una de las tres lenguas (patrón Cuerpo ascendente
del español, patrón IF descendente-ascendente (+120%) del catalán).
Finalmente, hemos constatado que aunque la dirección de la inflexión
final puede ser en algunos patrones compartida por las tres lenguas,
no es una característica melódica suficiente para compararlos, ya que
hemos visto como el rasgo melódico más significativo es el porcentaje
de movimiento tonal: una melodía es interpretada de manera distinta
según el porcentaje de ascenso. En este sentido, si solo tuviéramos en
cuenta la dirección de la inflexión final, podríamos pensar que hay un
patrón ascendente coincidente en las tres lenguas, pero, si tenemos
en consideración el porcentaje de ascenso tonal de la inflexión final,
constatamos que no hay ningún patrón coincidente.
Estos resultados creemos que son esenciales para los profesores que
enseñan una de estas lenguas románicas para un hablante que es nativo
de otra. Así, por ejemplo, es útil para enseñar español o catalán a un
portugués o enseñar portugués a un nativo de español o de catalán.
Somos conscientes que esta es una primera parte del estudio, de tipo
formal, y que el trabajo tiene que continuar con la descripción del uso
pragmático de estos enunciados, para así tener una visión completa de
los distintos patrones interrogativos de cada lengua y de su significado
pragmático.
364
Dolors Font-Rotchés
Referencias
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computer. Institute of Phonetic Sciences, University of Amsterdam.
<http://www.praat.org.> 1992-2010.
CANTERO, F. J. Teoría y análisis de la entonación. Barcelona,
Edicions de la Universitat de Barcelona. 2002.
______. y FONT-ROTCHÉS, D. “Entonación del español en habla
espontánea: patrones melódicos y márgenes de dispersión”, Moenia,
n. 13, p.69-92, 2007.
______. y FONT-ROTCHÉS, D. “Protocolo para el análisis melódico
del habla”. Estudios de Fonética Experimental, núm. XVIII, p.17-32,
2009.
DEVÍS, E. “La entonación del español hablado por italianos”, Actes
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FONSECA, A. y CANTERO, F.J. “Características da da entonação
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FONT-ROTCHÉS, D. L’entonació del català. Barcelona, Publicacions
de l’Abadia de Montserrat. 2007.
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català central”. Llengua i Literatura, n. 19, p. 299-329, 2008.
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applied to Spanish and Catalan”. Phonica, 5, p. 33-47, 2009.
Disponível em: <http:/www.ub.es/lfa>. Acesso em: 15-3-2011.
______. y MATEO, M. “Absolute interrogatives in Spanish, a new
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Curitiba - Brasil, p. 1111-1125. 2011
365
A Expressão Variável do Futuro Verbal na Escrita: Brasil e Portugal em Confronto
LIU, Y.H. La entonación del español hablado por taiwaneses.
Biblioteca Phonica, 2. 2005. Disponível em: <http:/www.ub.es/lfa>,
acesso em: 15-3-2011.
MARTORELL, L. “Les interrogatives absolutes de l’espanyol parlat
per suecs”. Phonica, 7. en prensa.
PÁLVÖLGYI, K. “Fenòmens tonals conflictius en la llengua
catalana i l’hongaresa investigats en la interllengua hongaresacatalana”. Actes del Catorzè Col·loqui Internacional de Llengua i
Literatura Catalanes, Publicacions de l’Abadia de Montserrat, v. III,
p. 233-247, 2010.
366
A EXPRESSÃO VARIÁVEL DO FUTURO VERBAL NA
ESCRITA: BRASIL E PORTUGAL EM CONFRONTO
Josane Moreira de OLIVEIRA
Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
RESUMO
Em português, a expressão do futuro verbal é variável e apresenta as variantes: a) futuro
simples (viajarei amanhã); b) futuro perifrástico com ir + infinitivo (vou/irei viajar amanhã);
c) presente do indicativo (viajo amanhã). Vários estudos têm atestado esse fenômeno ao longo
da história da língua portuguesa e apontam para a implementação da forma perifrástica como
possível substituta da forma de futuro simples. Este artigo, seguindo a linha da sociolinguística
laboviana, compara dados do português brasileiro e do português lusitano coletados em jornais
do século XXI, para verificar se o fator geográfico interfere nesse fenômeno.
ABSTRACT
In Portuguese, the future tense is variable and presents these variants: a) simple future
(viajarei amanhã); b) periphrastic future with ir + infinitive (vou/irei viajar amanhã); c)
present (viajo amanhã). There are many studies of this phenomenon along the history of the
Portuguese that show the implementation of the periphrastic form like a possible substitute
of the simple future form. This paper, following the labvian sociolinguistics, compares tokens
of Brazilian portuguese and Portugal portuguese from newspapers of the 21th century, to
verify if the geographic factor is important in this phenomenon.
PALAVRAS-CHAVE
Futuro Verbal; Sociolinguística; Variação e Mudança.
KEY-WORDS
Future Tense; Sociolinguistics; Variation and Change.
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 367-383. 1ª parte 2011
A Expressão Variável do Futuro Verbal na Escrita: Brasil e Portugal em Confronto
Introdução
Em língua portuguesa, a expressão do futuro verbal é variável e pode
ser realizada das seguintes formas: a) futuro simples (viajarei amanhã); b)
futuro perifrástico com ir + infinitivo (vou viajar amanhã ou irei viajar
amanhã); c) futuro perifrástico com haver + infinitivo (hei de viajar
amanhã ou haverei de viajar amanhã); d) presente (viajo amanhã).
Vários estudos têm atestado esse fenômeno variável ao longo da
história da língua portuguesa e apontam para a implementação da forma
perifrástica com ir + infinitivo como possível substituta da forma de
futuro simples (LIMA, 2001; MALVAR, 2003; OLIVEIRA, 2006).
A forma perifrástica com ir + infinitivo, embora documentada já
no século XIV, parece ganhar espaço no século XIX e só no século
XX passa a ser mais utilizada, pelo menos na língua falada, ocupando
o espaço antes preenchido pela perífrase com haver de + infinitivo,
principal concorrente do futuro simples até o século XIX (OLIVEIRA,
2006).
Este artigo, comparando dados do português brasileiro e do
português lusitano coletados em jornais do século XXI de Portugal e
do Brasil, mostra uma análise contrastiva dessas duas variedades para
verificar se o fator geográfico interfere nesse fenômeno.
Para tanto, seguindo a linha da sociolinguística laboviana, são
consideradas as ocorrências de expressão do futuro verbal em dois
jornais de Lisboa (O Público e Correio da Manhã) e em dois jornais de
Salvador – Bahia (A Tarde e Tribuna da Bahia), periódicos direcionados,
em ambas as cidades, respectivamente, a um público mais elitizado e a
um público mais popular.
Nesta pesquisa, são controlados fatores linguísticos e extralinguísticos
e considera-se a hipótese da gramaticalização, nos moldes propostos por
Hopper & Traugott (2003), da forma perifrástica com ir + infinitivo.
Objetiva-se, assim, verificar em que estágio se encontra o processo
de mudança futuro simples > futuro perifrástico na escrita considerada
padrão e que fatores atuam em cada uma das variedades consideradas
(Brasil e Portugal).
368
Josane Moreira de Oliveira
1. Quadro teórico
A sociolinguística variacionista pressupõe que a variação é inerente
a toda e qualquer língua e não é aleatória ou fortuita. Ao contrário, é
condicionada por fatores linguísticos e sociais. Ou seja, tanto a variação
como a mudança linguísticas têm ligações estreitas com fenômenos
extralinguísticos que as condicionam.
O funcionalismo linguístico analisa a língua enquanto fenômeno
comunicativo e discursivo. Sendo a noção de tempo uma categoria
linguística e suas relações com o tempo cronológico uma função da
comunicação e do discurso, uma abordagem funcionalista pode embasar
teoricamente a análise da expressão de futuro no português, que pode
ser realizada através de formas simples (futuro simples ou desinencial e
presente) ou de formas analíticas/perifrásticas (haver de + infinitivo e ir
+ infinitivo).
O tempo futuro expressa a expectativa de alguma ação (processo ou
evento) a ser verificada mais tarde, após o ato de fala. Ele tem um valor
temporal que não permite expressar uma modalidade factual, pois só
aceita asserções segundo a avaliação feita pelo falante da (im)possibilidade
de ocorrência de um estado de coisas. Assim, há um valor modal aliado
ao fator temporal no futuro que compromete a determinação do valor
de verdade da proposição enunciada. Segundo Câmara Jr. (1957:223), a
categoria de futuro não ocorre “pela necessidade da expressão temporal;
concretizam-no certas necessidades modais, de sorte que o futuro
começa como modo muito mais do que como tempo”.
O ciclo de alternância entre formas simples e formas perifrásticas
de futuro é uma constante na história das línguas românicas. Já na
passagem do latim ao português, o futuro desinencial adveio de formas
modais analíticas (cantare habeo > cantar hei > cantarei). Para Câmara Jr., a
nova forma de futuro criada ainda no latim desempenha três funções na
língua: a) marca o modo; b) marca tempo com matiz modal; e c) marca
tempo. O autor fala em gramaticalização do futuro modal em futuro
temporal.
369
A Expressão Variável do Futuro Verbal na Escrita: Brasil e Portugal em Confronto
Neste trabalho, admite-se a hipótese de que o processo que
aconteceu no latim (forma analítica > forma sintética) está sendo
invertido no português atual (forma sintética > forma analítica) a partir
da gramaticalização do verbo ir, que passa, já em estágios anteriores da
língua, de forma plena a marca morfossintática de futuro.
A perífrase é a forma verbal inovadora, que convive com a forma
simples (conservadora). Trata-se, pois, de um fenômeno variável no
português em que a variante perifrástica, concorrente da forma sintética
para codificar a função que situa a ação ou o processo à direita do ponto
da fala, é muito pouco discriminada. E a entrada do verbo ir como
auxiliar para expressar o futuro vem encontrando resposta positiva entre
os falantes.
Os verbos de movimento, em geral, são polissêmicos e superpõem,
dentre outras, as noções de espaço e de tempo. O verbo ir é um dos
verbos mais polissêmicos e, pois, um dos mais ‘gramaticalizáveis’. Na
construção perifrástica com o infinitivo, ele tende a se transformar em
auxiliar (HEINE, 1993; BYBEE et alii, 1994; HEINE & KUTEVA,
2002), quer dizer, num instrumento gramatical para a expressão do
tempo futuro. Essa tendência, bem conhecida no inglês, no francês e
no espanhol, pode ser constatada também em português, em que, na
fala, o processo de substituição da forma de futuro simples pela forma
perifrástica ir + infinitivo está quase concluído (OLIVEIRA, 2006).
2. Amostra e metodologia
Por meio da análise controlada de dados coletados em jornais
contemporâneos brasileiros e lusitanos, com base na sociolinguística
laboviana, verifica-se a implementação da perífrase com ir + infinitivo,
identificando-se os contextos linguísticos do seu espraiamento. Foram
examinados: a) um exemplar do jornal Correio da Manhã (Lisboa), de
09/05/07; b) um exemplar do jornal O Público (Lisboa), de 11/05/07;
c) um exemplar do jornal A Tarde (Salvador-BA), de 03/08/07; e d) um
exemplar do jornal Tribuna da Bahia (Salvador-BA), de 23/08/07.
370
Josane Moreira de Oliveira
Nesta pesquisa, observa-se o papel de alguns grupos de fatores
(medido em termos de percentuais e de pesos relativos – a partir da
ferramenta GoldVarb): a) a extensão fonológica do verbo (verbos
de uma, duas, três ou mais sílabas); b) a conjugação verbal (primeira,
segunda ou terceira); c) o paradigma verbal (verbo regular ou irregular);
d) a pessoa verbal (primeira, segunda ou terceira, singular ou plural);
e) o tipo de sujeito (lexical, pronominal, desinencial, indeterminado,
oracional); f) a animacidade do sujeito (animado ou inanimado); g) o
papel temático do sujeito (agente, experienciador ou paciente); h) o tipo
de verbo (principal, auxiliar, modal ou aspectual); i) a transitividade verbal
(verbo intransitivo, transitivo direto, transitivo indireto, bitransitivo ou
copulativo); j) a influência dos clíticos (presença ou ausência de clíticos);
k) a natureza semântica do verbo (processo, ação, estado, evento
ou cognição); l) a indicação de futuridade fora do verbo (advérbio,
oração adverbial, contexto discursivo ou ausência); m) a projeção de
futuridade (futuro próximo, distante ou indefinido); n) o paralelismo
sintático-discursivo (ocorrência única, primeira ocorrência de uma série,
ocorrência após forma idêntica ou ocorrência após forma diferente);
o) o tipo de periódico (mais popular ou mais elitizado); e p) o gênero
textual (manchete, notícia, anúncio, editorial, horóscopo, aviso, matéria,
coluna, carta de leitor etc.).
Foram coletados, inicialmente, 867 dados para o Brasil e 930 dados
para Portugal. Em nenhum dos jornais do Brasil foram encontradas
perífrases com haver de + infinitivo. Em Portugal, houve apenas 6
ocorrências de haver de (no presente) + infinitivo, que foram excluídas da
amostra pela sua baixa incidência. Quanto à perífrase com ir (no futuro)
+ infinitivo, houve apenas 9 ocorrências no Brasil e 15 em Portugal.
Como também teve uma baixa frequência, essa variante foi computada
juntamente com as formas de ir (no presente) + infinitivo. Assim, os
resultados encontrados estão apresentados na Tabela 1:
371
A Expressão Variável do Futuro Verbal na Escrita: Brasil e Portugal em Confronto
TABELA 1:
Distribuição das variantes na língua escrita por país
Variantes
País
Brasil
Portugal
445 - 51%
496 - 54%
Ir + infinitivo
186 - 22%
271 - 29%
Presente
Total
236 - 27%
867
157 - 17%
924
Futuro simples
Para este artigo, em particular, foram excluídas as formas de presente
com valor de futuro por duas razões: a) com base em resultados de
trabalhos anteriores (OLIVEIRA, 2006), essa variante possui contextos
bem específicos e está à margem da concorrência futuro simples X
futuro perifrástico; e b) objetiva-se verificar, aqui, a implementação da
forma perifrástica em substituição à forma de futuro simples na língua
escrita, já que na língua falada esse processo já se encontra em fase de
compleição (OLIVEIRA, 2006).
Assim, considerando apenas os dados das variantes em concorrência,
a distribuição é a seguinte:
TABELA 2: Redistribuição das variantes na língua escrita por país
Variantes
País
Brasil
Portugal
445 - 71%
496 - 65%
Ir + infinitivo
186 - 29%
271 - 35%
Total
631
767
Futuro simples
Inicialmente, embora predomine o futuro simples na escrita
jornalística, pode-se verificar que a concorrência entre as duas variantes
é documentada em ambas as variedades regionais, havendo um maior
acirramento em Portugal, como ilustra o gráfico a seguir:
372
Josane Moreira de Oliveira
GRÁFICO 1: Variantes por país (percentuais)
3. Papel dos grupos de fatores
Considerando as rodadas do GoldVarb para os dados do Brasil e
de Portugal, separadamente, vejam-se os grupos selecionados para cada
país, tendo como regra de aplicação a variante futuro perifrástico com
ir+ infinitivo, em oposição ao futuro simples.
Para o Brasil, foram selecionados, nesta ordem, os grupos: ‘Natureza
semântica do verbo’, ‘Papel temático do sujeito’, ‘Paradigma verbal’,
‘Pessoa verbal’, ‘Gênero textual’, ‘Indicação de futuridade fora do verbo’,
‘Paralelismo sintático-discursivo’ e ‘Conjugação verbal’. O input geral foi
0,295 e o log likelihood foi -249,057. O nível de significância da rodada
selecionada foi 0,046.
Para Portugal, foram selecionados, nesta ordem, os grupos:
‘Natureza semântica do verbo’, ‘Tipo de verbo’, ‘Papel temático do
sujeito’, ‘Projeção de futuridade’, ‘Pessoa verbal’, ‘Tipo de periódico’ e
‘Paradigma verbal’. O input geral foi 0,353 e o log likelihood foi -381,809.
O nível de significância da rodada selecionada foi 0,029.
Ambos os países selecionaram, em comum, os grupos ‘Natureza
semântica do verbo’, ‘Papel temático do sujeito’, ‘Paradigma verbal’
e ‘Pessoa verbal’, embora em ordens diferentes. Assim, apenas esses
quatro grupos de fatores serão analisados a seguir.
373
A Expressão Variável do Futuro Verbal na Escrita: Brasil e Portugal em Confronto
3.1. Natureza semântica do verbo
Como o verbo ir, na sua origem (forma fonte), indica processo,
pois é um verbo de movimento no espaço, esperava-se que atingisse,
na gramaticalização da forma perifrástica ir + infinitivo para expressar
o futuro (movimento no tempo), inicialmente, verbos que também
expressam um processo, para em seguida atingir os verbos que denotam
um evento, verbos cognitivos e, por fim, verbos estativos.
Seguem exemplos desses tipos de verbos:
Processo:
(1) Agressão teria ocorrido na unidade de segurança máxima
no 1º dia da revolta. Secretaria da Justiça disse que VAI
APURAR. (AT, man, c1, p9)
Evento:
(2) Existem demasiadas pessoas a achar que a economia é
um jogo de soma nula, e que o sucesso da China VAI
SURGIR à custa do resto do mundo. (OP, mat, c3, p15)
Cognição:
(3) Conclui que com a redução dos mesmos o povo VAI
SABER a qual partido o parlamentar pertence, a
qualidade do seu trabalho e identificará o partido que não
tem projeto viável... (TB, mat, p15)
Estado:
(4) E se as buscas dos cães pisteiros da GNR, visivelmente
cansados, VÃO SER mais raras, o mesmo deverá suceder
com o grupo de voluntários. (OP, mat, c1, p4)
Os resultados encontrados aproximam-se da hipótese aventada, mas
há divergências entre os dois países considerados. Observe-se a Tabela
3, a seguir:
374
Josane Moreira de Oliveira
TABELA 3: Uso da perífrase e natureza semântica do verbo
Fator
Brasil
Portugal
Oc./%
PR
Oc./%
PR
Processo
133/241 - 55%
.65
165/263 - 62%
.57
5/7 - 71%
.84
1/4 - 25%
.31
Evento
23/65 - 35%
.61
35/92 - 38%
.53
Estado
25/318 - 7%
.36
70/408 - 17%
.45
Cognição
Oc. = ocorrências
PR = Peso relativo
A hipótese de que os verbos de processo favorecem o uso da
perífrase se confirmou nos dados de Portugal. Já no Brasil, o maior
peso relativo ocorreu para os verbos cognitivos, ficando os verbos que
indicam processo em segundo lugar, o que indica que o contexto de
implementação da forma perifrástica já se espraiou por um contexto além
do que condiciona a variante inovadora em Portugal. Mas a quantidade
de dados com verbos que expressam cognição ainda é muito pequena
para que generalizações possam ser feitas.
3.2. Papel temático do sujeito
Essa variável foi considerada neste estudo por se pressupor que o
sujeito [+ agente] favoreceria o uso da perífrase, já que haveria um maior
comprometimento do mesmo em relação ao futuro e um maior grau de
certeza da realização da ação num tempo posterior ao momento da fala,
pois ele é quem realizaria essa ação. Já o sujeito paciente selecionaria o
futuro simples, ficando o sujeito experienciador em posição intermediária,
o que se confirmou nos dados. Os resultados estão apresentados mais
adiante, na Tabela 4. Seguem exemplos dos três tipos de sujeito segundo
o papel temático:
375
A Expressão Variável do Futuro Verbal na Escrita: Brasil e Portugal em Confronto
Agente:
(5) Durante o julgamento, os ministros do STF VÃO
DECIDIR se aceitam ou não a denúncia apresentada
pela Procuradoria-Geral da República contra os acusados
de envolvimento no mensalão. (TB, not, p3)
Experienciador:
(6) O TIC VAI OUVIR, através de carta precatória, as
testemunhas de defesa indicadas pelo argüido, o advogado
Vespasiano Macedo e o gestor daquela firma, Hernani
Portovedo. (CM, mat, p22)
Paciente:
(7) O diploma que VAI SER sujeito a consulta das
instituições, prevê que o ministro possa converter uma
instituição em fundação. (CM, mat, p14)
TABELA 4: Uso da perífrase e papel temático do sujeito
Fator
Brasil
Portugal
Oc./%
PR
Oc./%
PR
129/223 - 57%
.67
167/255 - 65%
.68
52/260 - 20%
.54
73/351 - 20%
.40
2/124 - 1%
.17
25/130 - 19%
.42
Agente
Experienciador
Paciente
Oc. = ocorrências
PR = Peso relativo
Os resultados confirmam a hipótese inicial, pois o sujeito agente
tem .67 no Brasil e .68 em Portugal, favorecendo a perífrase com
percentuais de 57% e 65%, respectivamente, nos dois países. O sujeito
paciente tem um peso relativo bastante baixo no Brasil (.17). Já o sujeito
376
Josane Moreira de Oliveira
experienciador tem peso baixo em Portugal (.40) e favorece a perífrase
no Brasil (.54). Pode-se ver que em terras brasileiras a forma inovadora
atinge mais contextos que em terras lusitanas.
O traço de agentividade desempenha um papel fundamental na
trajetória do verbo ir de pleno a auxiliar. No processo de gramaticalização
do futuro perifrástico, a sua ocorrência com sujeitos [+ agente] pode
indicar uma persistência de traços da forma fonte (BYBEE et alii, 1994).
O verbo ir, em seu sentido pleno, seleciona um sujeito [+ agente].
3.3. Paradigma verbal
Este grupo de fatores distribui os dados em dois grupos: os que
contêm um verbo que segue o paradigma geral (verbos regulares, tais
como amar, beber e partir) e os que apresentam um verbo de padrão
especial (verbos irregulares, tais como dar, ver e vir), considerando, pois,
o critério morfológico.
Supondo que há uma mudança em curso no sentido de o futuro
perifrástico substituir o futuro simples, aventou-se a hipótese de que esse
processo avançaria primeiro nas formas regulares e depois nas irregulares,
que, por serem mais marcadas, seriam estocadas individualmente na
mente do falante. Essa hipótese se confirma nos dados, pois os pesos
relativos para a perífrase foram de .59 e .57 no Brasil e em Portugal,
respectivamente, em verbos regulares, conforme mostra a Tabela 5.
TABELA 5: Uso da perífrase e paradigma verbal
Fator
Brasil
Portugal
Oc./%
PR
Oc./%
PR
147/280 - 52%
.59
180/362 - 49%
.57
39/351 - 11%
.43
91/405 - 22%
.44
Verbo regular
Verbo irregular
Oc. = ocorrências
PR = Peso relativo
377
A Expressão Variável do Futuro Verbal na Escrita: Brasil e Portugal em Confronto
Tanto nos dados do Brasil como nos dados de Portugal, a perífrase
teve seu maior índice percentual nas formas verbais regulares (52% e
49%, respectivamente).
Embora o uso do futuro simples em verbos irregulares requeira um
conhecimento mais controlado de desinências específicas, o fato de eles
admitirem mais futuro simples do que os verbos regulares pode estar
relacionado tanto à extensão vocabular, já que a maioria dos verbos
irregulares em português possui uma ou duas sílabas, como propõe
Câmara Jr. (1985), como à frequência/estocagem, como propõe Bybee
(2003). Embora irregulares, são verbos de altíssima frequência na língua,
por exemplo, ser, ter, ver, que preservam, por isso, o futuro simples, não
acompanhando a tendência à mudança.
Saliente-se que, dentre os verbos irregulares, há o próprio verbo ir,
em seu sentido pleno, que, além de muito frequente na língua, ainda
é resistente à perífrase (vou ir), tão comum em outras línguas (inglês,
francês, espanhol...), em muitos dialetos brasileiros e lusitanos.
Os verbos irregulares configuram um contexto de resistência da
forma simples, sobretudo quando são também monossilábicos e de alta
frequência na língua. A forma de futuro perifrástico entra na escrita,
pois, pelo contexto mais favorável (verbos de padrão geral). E a ação
inibidora de um fator (verbos de padrão especial) se torna muito mais
evidente na modalidade escrita formal da língua, que implica um maior
planejamento linguístico.
3.4. Pessoa verbal
A hipótese associada ao grupo de fatores ‘Pessoa verbal’ prevê que
o futuro perifrástico, indicando uma maior assertividade em relação ao
tempo futuro, seria mais utilizado com a primeira pessoa, já que expressa
um maior comprometimento do sujeito com a ação verbal a ser realizada.
O tipo de texto utilizado como corpus (escrita jornalística) não favorece
o uso de ‘eu’ (P1) nem de ‘nós’ (P4), que só aparecem em citações, daí a
378
Josane Moreira de Oliveira
pouca quantidade de dados. Não houve nenhum caso de 2ª pessoa, nem
do singular (P2) nem do plural (P5) na amostra dos jornais, nem mesmo
em Portugal.
Ainda que com poucos dados, a hipótese aventada se confirma, pois
os pesos relativos para a perífrase foram de .84 e .87 no Brasil e em
Portugal, respectivamente, com a 1ª pessoa do singular, e de .82 e .59,
também respectivamente no Brasil e em Portugal, para a 1ª pessoa do
plural, conforme mostra a Tabela 6, após exemplos de P1 e P4:
P1:
(8) O leitor me desculpe, mas não VOU FAZER o histórico
porque precisaria de pesquisar mais a fundo. [TB, mat,
p.2]
P4:
(9) Já estamos a par da reintegração desde segunda-feira,
VAMOS VER quais as propostas do governo do Estado
e da Suzano na reunião de amanhã... [AT, mat, p.12]
TABELA 6: Uso da perífrase e pessoa verbal
Fator
Brasil
PR
Oc./%
PR
6/9 - 66%
.84
18/21 - 85%
.87
3ª pessoa
132/408 - 32%
.50
186/560 - 33%
.46
4ª pessoa
21/33 - 63%
.82
13/27 - 48%
.59
6ª pessoa
27/181 -14%
.40
54/159 -33%
.58
1ª pessoa
Oc./%
Portugal
Oc. = ocorrências
PR = Peso relativo
Em relação à 3ª pessoa, a que predomina em textos de jornais,
percebe-se que, em Lisboa, a 3ª pessoa do plural (P6) já favorece o uso
da forma perifrástica.
379
A Expressão Variável do Futuro Verbal na Escrita: Brasil e Portugal em Confronto
Conclusões
A variação na expressão do futuro verbal em português é um
fenômeno variável ao longo da história da língua. Atualmente, a
concorrência entre a forma de futuro simples e a forma perifrástica com
ir + infinitivo parece bastante acirrada. Observa-se uma inversão parcial
entre as duas variantes, pois a primeira predomina na modalidade escrita
e a segunda predomina na modalidade oral da língua, inclusive no seu
nível “culto” (OLIVEIRA, 2006).
A forma perifrástica com ir + infinitivo passa por um processo de
gramaticalização em que o verbo de movimento ir torna-se verbo auxiliar
de futuro verbal, avançando na escala cognitiva de espaço para tempo
(BYBEE & PAGLIUCA, 1987; HOPPER & TRAUGOTT, 1993/2003).
Esse processo é atestado tanto no Brasil como em Portugal e
o exame de dados da escrita jornalística do século XXI de ambos os
países aponta que ambas as variedades seguem direções coincidentes em
relação à mudança futuro simples > futuro perifrástico.
Variáveis importantes que atuam nesse processo, entre outras,
são a ‘Natureza semântica do verbo’, o ‘Papel temático do sujeito’, o
‘Paradigma verbal’ e a ‘Pessoa verbal’.
Quanto à ‘Natureza semântica do verbo’, a perífrase parece
implementar-se inicialmente por contextos de verbos que denotam
processo/ação, atingindo em seguida os verbos que denotam evento,
ficando por último contextos com verbos cognitivos e estativos.
Quanto ao ‘Papel temático do sujeito’, o sujeito [+ agente] é o que
mais seleciona a forma perifrástica, seguido do sujeito experienciador,
ficando o sujeito paciente mais favorecedor ao uso do futuro simples.
Quanto ao ‘Paradigma verbal’, a perífrase é mais usada com verbos
regulares, que seguem o padrão geral, ficando o futuro simples mais
restrito aos verbos irregulares, ou seja, os que têm um padrão morfológico
especial. Esses verbos, segundo Bybee (2003), por terem uma frequência
alta de uso na língua, resistem a mudanças e, sendo estocados na memória
do falante como únicos (especiais), mantêm o futuro simples, pois não
seguem padrões gerais.
380
Josane Moreira de Oliveira
Quanto á ‘Pessoa verbal’, em ambos os países, embora com poucas
ocorrências, é a primeira pessoa (muito mais a do singular que a do
plural) que condiciona o uso da forma inovadora. A terceira pessoa
ainda seleciona mais a forma sintética do futuro.
Como se pode perceber, ao analisar um fenômeno variável sob
a perspectiva da mudança linguística, muitos fatores devem ser
considerados e têm cada qual um papel significativo. Merecem, portanto,
ser aprofundados em estudos posteriores.
Por ora, pode-se dizer que Brasil e Portugal falam a mesma
língua. Há semelhanças e há diferenças, como todos sabem. Todavia,
em relação ao futuro, o Atlântico não nos separa. Pelo contrário, nele
NAVEGAREMOS (ou VAMOS NAVEGAR?) pra lá e pra cá para
melhor compreendermos a nossa língua.
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383
O FUTURO NAS LÍNGUAS ROMÂNICAS
José Luiz da Veiga MERCER
Universidade Tuiuti do Paraná (UTP)
Introdução
A expressão verbal do futuro nas línguas românicas se dá por formas
que, em larga medida, remontam aos moldes latinos. O latim clássico
tinha duas formas indicativas de futuro, uma imperfeita e outra perfeita,
que se traduzem em português pelo futuro do presente e pelo futuro
composto, respectivamente. Eram construções sintéticas, apoiadas em
sufixos, que já no latim vulgar seriam substituídas paulatinamente por
formas analíticas, constituídas por um verbo principal e um auxiliar.
O futuro imperfeito tinha contra si alguns fatos, a começar pela falta
de unidade nas desinências. Enquanto a primeira e a segunda conjugações
faziam o futuro com -bi (amabo, amabis; delebo, delebis), a terceira e a quarta
utilizavam o sufixo -e (legam, leges; capiam, capies). Ademais, esta segunda
desinência produzia coincidência de forma da primeira pessoa com o
presente do subjuntivo (legam). A evolução fonética ampliaria os casos
de confusão: amabit com amavit, dices, dicet com dicis, dicit. A coincidência
de formas alcançava também o futuro perfeito, que era igual ao perfeito
do subjuntivo, salvo na primeira pessoa.
O futuro imperfeito enfrentava ainda a concorrência do presente
do indicativo e de perífrases verbais, fato que se explica pelo próprio
conteúdo semântico do futuro, que pode comportar a idéia de intenção,
plano ou compromisso manifestos no presente. O uso do presente pelo
futuro se registra em textos de cunho popular e se amplia nos escritos
cristãos. As perífrases eram de dois tipos: o primeiro consistia em
associar sum como auxiliar ao principal no particípio futuro (amaturus
sum) ou no gerundivo (baptizandi sunt); o segundo era dado pelo principal
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 385-394. 1ª parte 2011
O Futuro nas Línguas Românicas
no infinitivo, acompanhado por habeo, volo/voleo, debeo ou venio. Esta
segunda modalidade tinha na origem claro cunho modal: por exemplo,
scribere habeo em Cícero se traduz por “tenho que escrever”. Mas já em
Santo Agostinho se encontra ocorrência da perífrase em que habeo está
esvaziado do sentido de obrigação: “tempestas illa tollere habet totam paleam
de area”.
No processo de formação do futuro românico, uma das perífrases se
se impôs às demais. Prevaleceu habeo, salvo no romeno e, parcialmente,
no dalmático, que optaram por volo, do sardo, em que concorrem
habeo e debeo, e da maioria das variedades reto-românicas. No curso da
gramaticalização da locução com habeo, o auxiliar perde sua autonomia,
soldando-se ao verbo principal. O registro mais antigo da forma
aglutinada é datado de 613: “– et ille respondebat: non dabo.– Iustinianus
dicebat: daras.”
Vidos entende que a ampla disseminação do novo futuro sintético
pelo mundo românico não se deveu apenas à origem latina comum das
línguas em que se implantou, mas também à influência cultural que sobre
elas exerceram o francês e o provençal durante a Idade Média.
O futuro perfeito se perdeu muito cedo, tendo sobrevivido apenas
nas margens da România: em português e espanhol, na função de “futuro
do subjuntivo”, e no dalmático, em que substituiu o futuro imperfeito, o
que não era raro no baixo latim.
O latim não dispunha de forma própria para o “condicional” (futuro
do pretérito). Essa função era preenchida pelo mais-que-perfeito do
subjuntivo, que em latim vulgar passou a ter a concorrência de uma
construção perifrástica paralela à do futuro, constituída do infinitivo do
verbo principal mais habebam. Essa locução também entrou em processo
de gramaticalização, produzindo o condicional dos romanços da Ibéria
e das Gálias.
386
José Luiz da Veiga Mercer
1. Panorama românico
Os romanços da Península Ibérica desenvolveram duas perífrases
com habeo mais infinitivo, segundo as duas ordens já utilizadas na fase
pré-românica: infinitivo + habeo (cantarei) e habeo + de + infinitivo (hei de
cantar). A primeira impôs-se como variante canônica, tendo para isso
contado provavelmente com a preferência dos meios mais cultivados. A
segunda, que jamais foi rival de peso, de maneira geral declina desde o
Renascimento em português e espanhol, para praticamente extinguir-se,
como expressão de futuridade, no século XIX.
A transformação da construção infinitivo + habeo no futuro sintético
não se operou de maneira uniforme em todos os contextos e em todas
as variedades. Prova disso é a tmese (mesóclise), que permaneceu
em português mas não em castelhano, em que desaparece no século
XVII. Mesmo no português medieval, a tmese conviveu com variantes
sintéticas consumadas, de que são exemplos formas como “darei-te”.
A partir dos séculos XV e XVI, veio juntar-se nova perífrase de
infinitivo, tendo como auxiliar ir. Em galego, português e leonês, na
forma de ir + infinitivo (vou cantar), em espanhol de ir + a + infinitivo (voy
a cantar). A nova variante - provavelmente uma derivação semântica da
construção em que o verbo ir de fato exprime deslocamento no espaço
- indica fato que se dá como de ocorrência certa e imediata, porque
está na dependência apenas da intenção do falante, eu ou nós. Logo a
forma se difunde pelas demais pessoas, ao mesmo tempo em que se
reduz o conteúdo modal de certeza, começando a sua gramaticalização.
A implementação dessa perífrase avança mais rapidamente na América
do que na Europa, em situações antes coloquiais do que formais.
A nova perífrase de futuro não se desenvolveu em catalão, e por um
bom motivo. É que aí a construção anar + infinitivo surge no fim da
Idade Média com valor de pretérito, vindo a constituir o chamado passat
perifràstic. Por influência do castelhano, usa-se uma que outra vez uma
perífrase de futuro com a preposição a de permeio: anar a cantar. Quando
se considera a terceira pessoa – va a cantar –, logo se percebe o risco de
387
O Futuro nas Línguas Românicas
confusão com o passat perifrástic – va cantar, o que acaba rechaçando o
castelhanismo em favor do futuro sintético.
Praticamente extinto em espanhol, o futuro do subjuntivo comportase em português como simples variante do presente do subjuntivo, sem
apontar exatamente para um futuro, mas para um irrealis.
No francês contemporâneo, o futuro pode ser expresso pelo futuro
sintético (je chanterai), pela perífrase aller + infinitivo (je vais chanter) e, como
nas demais línguas neolatinas, pelo presente (je chante). O futuro sintético
estava estabelecido em francês já no século IX (Serments de Strasbourg)
e se supõe que, na altura dos séculos XIII e XIV, já circulassem em alguns
meios duas perífrases para o futuro: com o verbo avoir (j’ai à écrire une
lettre) e com o verbo aller (je vais écrire une lettre); das duas, apenas a segunda
permaneceu como variante efetiva de futuro, tendo se disseminado na
fala coloquial no século XV ou XVI. Os primeiros registros escritos
datam dos séculos XVI e XVII.
Como acontece em português e espanhol, a perífrase avança sobre
o domínio do futuro sintético, que perde terreno e vai se restringindo
às situações de formalidade. O que é marcante no caso do francês é
o estágio avançado em que está o processo de gramaticalização dessa
perífrase, que, segundo Vetters e Lière, já satisfaz cinco critérios de
gramaticalização propostos pela literatura: unidade auxiliar-auxiliado;
dessemantização; transparência do auxiliado; conjugação restrita do
auxiliar; mudança semântica. Esses pesquisadores concordam com Co
Vet, que deu a perífrase por integrada no sistema verbal do francês.
Perífrase análoga desenvolveu-se no occitano: vau cantar.
Quanto ao futuro, as línguas neolatinas da Península Itálica formam
dois blocos, separados por uma linha que passa por Viterbo, Perúgia e
Ancona. Ao norte, ocorrem formas sintéticas que provêm da perífrase
infinitivo mais habeo; ao sul é praticamente inexistente, sendo substituído
em largas áreas pelo presente, como no calabrês (lu fazzu crai “eu o faço
amanhã”). Sobrevivem na porção meridional construções analíticas do
tipo cantare habeo ou habeo ad cantare; a primeira é condicionada a situações
388
José Luiz da Veiga Mercer
em que o presente geraria ambiguidade, ao passo que a segunda ainda
guarda o sentido de necessidade.
Em italiano, o futuro sintético não sofre concorrência direta. As
perífrases que mais se aproximam da esfera da futuridade são stare +
per + infinitivo (sto per scrivere la lettera), que exprime fato a dar-se de
imediato, e andare + a + infinitivo, que, segundo Luisa Amenta e Erling
Strudsholm, compõem três construções distintas: a) andare lexical
(verbo pleno: vado a dormire); b) andare em perífrase “resolutiva” (andare
a capire “chegar a compreender”); c) “sintagma polirremático”, isto é,
verbo complexo (andare a finire “acabar”). Esses autores, no entanto,
registram no italiano regional ocorrências em que a perífrase com andare
admite sujeito inanimado ou ausência de deslocamento, estando assim
dessemantizado (l’amico va a morire).
Em corso o futuro sintético tem a concorrência de uma perífrase
formada por avè + da + infinitivo (aghju da fà, “vou fazer”).
Como já mencionado, o sardo tem dois futuros, ambos analíticos:
um com aere (haver) + a + infintivo, e outro com devere + infinitivo:
apo a kantare, depo kantare. O primeiro é a forma canônica, ao passo que
o segundo é empregado para indicar dúvida ou incerteza. A estrutura
com aere corresponde ao molde habeo ad cantare, que, como já visto, foi
igualmente produtivo no sul da Itália e na França, e conserva o sentido
deôntico em leonês: han a facer “hão de fazer”.
Para exprimir o futuro, o romeno não dispõe de forma sintética, mas
sim de quatro formas analíticas, todas igualmente frequentes: duas com
auxiliar seguido de infinitivo e duas com o subjuntivo. O primeiro tipo
é dado pelo auxiliar a vrea (querer) seguido do infinitivo sem a partícula
introdutiva a: por exemplo, voi veni (virei). Nesta construção, própria à
norma culta, o auxiliar sofre redução de forma em todas as pessoas, com
a exceção da sexta. Embora menos corrente, a posposição do auxiliar
é possível: veni-voi. Em qualquer caso, o clítico precede o auxiliar: le vom
vizita; vizita-le-vom (nós os visitaremos).
389
O Futuro nas Línguas Românicas
O segundo tipo com auxiliar é uma variante do anterior, em que a
redução fônica do auxiliar se acentua com a perda da consoante inicial
em todas as pessoas: oi veni (virei).
A construção com o subjuntivo tem como primeira modalidade a
forma o + să + subjuntivo, em que o é uma partícula verbal invariável,
să é o marcador do subjuntivo e finalmente o verbo no subjuntivo, que
carrega a desinência de pessoa. Exemplo: o să vin (virei).
A segunda modalidade consiste na sequência formada pelo presente
do auxiliar a avea (haver) + să + subjuntivo. Neste caso, a pessoa é marcada
duplamente, pelo auxiliar e pelo verbo principal. Nas construções com
subjuntivo, o clítico precede imediatamente o subjuntivo: o să le vizităm
(nós os visitaremos).
Assim como em latim, não há condicional em romeno. Os contextos
próprios ao condicional são preenchidos pelas formas do futuro.
2. Instabilidade do futuro
É antiga a constatação de que as formas verbais que exprimem o
presente e o pretérito são mais estáveis que as que denotam futuro.
Essa diferença provavelmente se prenda ao fato de que o semantismo
do presente e do pretérito repousa sobre uma factualidade, mas não o
do futuro, que remete ao provável ou ao que se toma como certo, mas
jamais a fato. Por conseguinte, seu significado tende a espraiar-se, da
certeza ao simples desejo, intenção ou compromisso.
No contexto românico, a instabilidade do futuro tem suscitado
tentativas de explicação, como a de alguns estudiosos que, centrandose no plano da forma, formulam a hipótese de uma alternância cíclica
entre construções sintéticas e construções analíticas. De fato, já o
futuro latino em –bo, da primeira e da segunda conjugação, teria sido
o estágio último do processo de gramaticalização de uma perífrase,
em que o verbo auxiliar se reduziu ao morfema –bi. É evidente que
uma argumentação com base apenas na forma não pode prosperar. A
390
José Luiz da Veiga Mercer
substituição de uma forma analítica por forma sintética por efeito de
acomodações morfofonológicas pode ser explicada passavelmente com
base em considerações meramente formais. No entanto, o mesmo não
se dá quando se passa da sintética à analítica. Uma construção sintética,
por si, não induz a criação de construções analíticas alternativas. Fosse
assim, um paradigma sintético como o pretérito imperfeito deveria
estaria na origem de variantes analíticas, o que não se verifica nas línguas
românicas.
A explicação deve buscar-se na esfera semântica. Aqui se vislumbram
ao menos duas alternativas: ou bem são as formas futuras originais que
se modalizam e abrem espaço para uma construção alternativa, ou bem
é uma construção que perde seu conteúdo originalmente modal e passa
a fazer concorrência à construção vigente.
Para Bybee, Pagliuca e Perkins, os tempos verbais futuros seguem
todos a mesma evolução. De início exprimem obrigação, vontade ou
movimento em direção a um ponto; na sequência todos se tornam
intencionais e depois preditivos, antes de evoluírem para a expressão do
futuro propriamente dito. Neste ponto, passam a comportar igualmente
dois empregos modais: o imperativo (não matarás) e o conjetural (quem
será?).
Suzanne Fleischman propõe que a evolução das formas futuras é
regulada pelo equilíbrio entre a temporalidade, a modalidade e, de forma
secundária, a aspectualidade. Se uma forma verbal futura se tornar mais
modal que temporal, será necessário providenciar nova forma própria
a exprimir a temporalidade. Como não se exclui que a nova forma por
sua vez também venha a ganhar empregos modais, estaríamos diante da
hipótese de outra alternância cíclica, entre temporalidade e modalidade.
Gerard Barcelò entende que essa tese tem dois argumentos a seu
favor: primeiro, fornece um princípio explicativo coerente; segundo, há
casos concretos que poderiam sustentá-la, como é o caso de espanhol, em
que o futuro simples é bastante modalizado. No entanto, acaba afastando
a proposta de ciclo em vista de contra-exemplos, como a passagem do
391
O Futuro nas Línguas Românicas
futuro sintético latino ao futuro perifrástico românico ou a divergência
das línguas neolatinas quanto à expressão e os valores do futuro. Sugere
que se coloque em primeiro plano o que Fleischamann tomou como
secundário: a aspectualidade, na forma de pertinência ao presente. Ou
seja, são as formas retrospectivas com relação ao presente que podem
tornar-se novos tempos pretéritos; são as formas prospectivas que
acabam convertendo-se em novos tempos futuros.
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394
A REPRESENTAÇÃO DO TEMPO FUTURO EM
TEXTOS ESCRITOS: UMA ANÁLISE DIACRÔNICA
Rita do Carmo Polli da SILVA
Faculdade Internacional de Curitiba (FACINTER)
RESUMO
Neste estudo apresento um estudo da variação do tempo futuro em texto escritos em português,
do ponto de vista diacrônico. Foram feitas duas análises: uma em tempo real, abrangendo um
período de dois séculos, e a outra em tempo real de curta duração, que abrange um período
menor, 50 anos de texto escrito. Foram analisadas quatro variantes da representação do tempo
futuro: futuro sintético (apresentarei amanhã); o presente do indicativo (apresento amanhã);
a perífrase ir + infinitivo (vou apresentar amanhã) e a perífrase haver + de + infinitivo (hei
de apresentar amanhã). Tomando como base teórica a sociolinguística quantitativa laboviana
e princípios do paradigma da gramaticalização.
ABSTRACT
The object of study of this thesis is the change in the future tense in text written in English,
of diachronic perspective. Were made two analyses: a real-time, covering a period of two
centuries, and other real-time short-lived, that covers a period less than 50 years of written
text. Were analyzed four variants of the representation of the future tense: future synthetic
(apresentarei amanhã); the present tense (apresento amanhã); the periphrasis with ‘to go’ in
the present (vou apresentar amanhã) and the periphrasis with haver ‘to have’ in the future
(hei de apresentar amanhã). On the basis of the quantitative Sociolinguistics laboviana
theoretical and principles of Grammaticalization paradigm.
PALAVRAS-CHAVE
Representação do tempo futuro, Futuro perifrástico, Futuro sintético. Representação do tempo
futuro em romances brasileiros. Representação do tempo futuro nas revistas em quadrinhos,
Variação linguística.
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 395-429. 1ª parte 2011
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
KEY-WORDS
Linguistic variation. Representation of the future tense, Future (synthetic), Future
(periphrastics), Representation of the future tense in comics. Representation of the future
tense in Brazilian novels.
Introdução
O trabalho aqui apresentado traz alguns resultados de minha tese de
doutorado apresentada à Universidade Federal do Paraná, em agosto de
2010 e tem como base os postulados da Sociolinguística Variacionista.
Buscarei a descrição de algumas representações de contextos de
futuridade bem como sua produtividade em dois corpus, ambos de língua
escrita: a revista em quadrinhos Pato Donald, editada no Brasil a partir
de 1950, e romances brasileiros escritos a partir do século XVIII.
O escopo central desta pesquisa é descrever diacronicamente o
fenômeno de variação que envolve a representação do tempo vindouro,
ou seja, descrever como e com que frequência haver + de + infinitivo, futuro
sintético, presente do indicativo e ir + infinitivo representam o tempo futuro
em um recorte de língua escrita. A hipótese que norteia este objetivo
central é que a representação do tempo futuro, de um modo geral, está
sendo feita, em textos mais recentes, pela perífrase verbal ir + infinitivo,
independente de a referência temporal estar localizada em um tempo
próximo ou distante, ou seja, há uma mudança em curso.
1. Teoria da mudança linguística
Weinrech, Labov e Herzog (2006)1 apontam alguns princípios de
grande importância para a teoria da mudança linguística. Segundo eles
1
Em 2006, Marcos Bagno traduziu e publicou este texto em português, com revisão técnica de
Carlos Alberto Faraco e posfácio de Maria C. A. de Paiva e Maria E. L. Duarte, intitulado Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística.
396
Rita do Carmo Polli da Silva
uma teoria que se preste a esclarecer os fenômenos das mudanças
ocorridas nas línguas deve, a princípio, oferecer respostas para a questão
dos fatores condicionantes, da transição, do encaixamento, da avaliação
e da implementação.
Os fatores condicionantes, linguísticos e extralinguísticos, informam
quais as condições favoráveis, aquelas que propiciam as mudanças. São
apontados através de pesquisas, a partir de hipóteses levantadas pelos
pesquisadores interessados no estudo de cada fenômeno.
O problema da transição, ou de transferência, pode ser observado
entre grupos de faixas etárias diferentes. Segundo Weinrech, Labov e
Herzog (2006: 122) entre quaisquer dois estágios observados de uma mudança em
progresso, normalmente se tentaria descobrir o estágio interveniente que define a trilha
pela qual a estrutura A evolui para a estrutura B. Um exemplo deste caso é
o fato de as pesquisas variacionistas desenvolvidas até agora indicarem
que as crianças não falam o dialeto dos seus pais e sim o dos grupos
de indivíduos um pouco mais velhos. O que pôde ser observado neste
trabalho, nos dois corpus, quando as tendências de uso de ir + infinitivo,
na representação do tempo futuro, se dá com maiores pesos relativos
nas crianças.
A questão do encaixamento orienta no sentido de que as mudanças
devem se entrelaçar com outras que ocorrem, tanto na estrutura
linguística, quanto na sociedade. Um dos objetos deste estudo, ir +
infinitivo, apresenta etapas deste encaixamento, o que será exposto
adiante. Existe também a questão do encaixamento na estrutura social,
dependente de como os fatores sociais pesarão sobre o sistema de modo
geral, o que fará com que a variação seja ou não estigmatizada parcial ou
totalmente.
No caso de ir + infinitivo há certa resistência social, pois o encaixamento
na estrutura linguística pode levar a um problema de avaliação, que
depende do conhecimento de língua e, segundo Weinrech, Labov e
Herzog, o nível de consciência social é uma prioridade importante da
mudança linguística. A avaliação leiga pode estigmatizar uma variante.
397
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
O que pôde ser observado nas representações do tempo futuro, mais
especificamente no uso do ir + infinitivo, quando o verbo auxiliar é o
mesmo que o principal. Muitos professores de português corrigem seus
alunos, geralmente as crianças e os da faixa etária da pré-adolescência,
quando os ouvem dizer “Eu vou ir ...” A alegação é que seria “errado”
utilizar duas vezes o mesmo verbo. Só que estes mesmos professores não
percebem que em outras situações eles, e muitas outras pessoas, utilizam
duas vezes o mesmo verbo, inclusive o verbo ir, como, por exemplo,
quando constroem estruturas com tenho tido ou vou indo. A questão da
avaliação trata dos efeitos da mudança sobre o uso da língua e alguns
resultados desse processo podem encontrar certa resistência por um
determinado período de tempo.
A última questão que uma teoria da mudança linguística deve
responder é o problema da implementação, responsável por investigar
o que, da sociedade, interferiu na mudança. Razões para a mudança
ocorrem em certas línguas e em certas épocas e, a partir do momento que
a mudança está encaixada na estrutura linguística, ela vai, inevitavelmente,
passar pelo processo da avaliação que, muitas vezes, detecta variações
negativas, ou seja, estigmatizadas. Estes estigmas acabam por “atrapalhar”
o processo de mudança, adiando a implementação e o farão até que
esta variante estigmatizada perca toda significação social negativa que
possuía. Somente assim a mudança se implementa na língua.
No caso específico de ir + infinitivo o estigma, como já explicitado, se
encontra quando o verbo ir é o verbo auxiliar e também o principal (vou
ir). Algumas variações se estendem por longos períodos, por gerações,
até que se implementem de fato. Porém, muitas sequer chegam a este
ponto, já que toda mudança linguística origina-se de uma variação, mas
nem toda variação chega à mudança. A variação existente só passa a
mudança quando uma variante suplanta totalmente a outra (ou outras)
em todos, absolutamente todos os usos.
A partir das pesquisas Sociolinguísticas já feitas pode-se observar,
entre outras, que uma possível mudança linguística:
398
Rita do Carmo Polli da Silva
1.
2.
3.
4.
começa quando um fenômeno passa a se apresentar com pelo
menos uma variante e essa variante apresentar características
de diferenciação ordenada, ou seja, apresenta uma determinada
ordenação, não é livre;
ocorre na gramática da comunidade de fala;
é transmitida de modo geral na comunidade;
tem sua explicação intimamente ligada a fatores linguísticos e
sociais, ou extralinguísticos.
2. Gramaticalização
Hopper & Traugott (1993) definem o processo de gramaticalização
como as alterações ocorridas sobre um item lexical (itens autônomos
– uma palavra da língua, por exemplo, um substantivo, um adjetivo,
um verbo...) transformando-o em um item gramatical (itens presos –
elementos que ligam palavras: conjunções, preposições, artigos, alguns
pronomes, afixos) no decorrer do processo, ou seja, quando uma palavra
muda de categoria, na língua, este mudar recebe o nome de gramaticalização,
e é ocorrência comum a todas as línguas.
Esse processo pode chegar a ponto de transformar uma palavra da
língua em afixo, como é o caso, por exemplo, do futuro sintético em
português. Sua trajetória, desde o latim, nos mostra a passagem de item
lexical para gramatical, depois de item lexical para clítico e de clítico
para afixo. No latim a expressão de futuro era representada por uma
expressão analítica, ou seja, possuía mais de uma forma, amare habeo,
que passou para amare hei, o que nos possibilita ver o estágio de uma
gramaticalização que chega a afixo, pois, de amare hei, temos, hoje, amarei.
O processo de gramaticalização fez com que a palavra (habeo) perdesse
sua identidade a tal ponto que o verbo auxiliar virou afixo (-ei), perdendo
a classificação de palavra.
399
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
Essa mudança, segundo Hopper (1991) e Hopper e Traugott
(1993/2003), acontece seguindo cinco estágios que eles dividem em:
2.1. Estratificação
Nessa fase a forma nova, ou as formas novas, convivem com a
forma antiga, com função similar, o que significa dizer que, no domínio
funcional, neste caso a representação do tempo futuro, novas camadas
surgem continuamente. Na análise aqui proposta as formas distintas de
representação do tempo futuro ocorrem desde a primeira obra analisada.
No corpus 1, constituído das revistas em quadrinhos Pato Donald temos
o caso específico de haver + de + infinitivo que apresenta somente quatro
ocorrências em um universo de 4.086 dados. Isso que mostra que essa
forma de representação do tempo futuro está caindo em desuso em
favorecimento de outras na mesma função. Quanto ao corpus 2 , os
romances brasileiros, destaco que ir + infinitivo aparece pela primeira
vez no romance de 1844: A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo,
ou seja, não incide nos textos de As Aventuras de Diófones – imitando o
Sapientíssimo Fenelon na sua Viagem de Telêmaco, de Dorothea Engrassia e
O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa, de 1752 e 1843, respectivamente.
2.2. Divergência
A forma que se gramaticaliza não deixa de existir também na
significação original. Isso acontece com a representação do tempo
futuro ir + infinitivo, por exemplo, pois ir está se gramaticalizando de
verbo pleno para auxiliar em contextos de futuridade sem deixar de
se apresentar como pleno posição em que ainda prevalece a noção de
deslocamento espacial enquanto também se apresenta como auxiliar.
400
Rita do Carmo Polli da Silva
2.3. Especialização
No domínio funcional as formas coexistem com diferenças tênues
entre si. A partir do processo de gramaticalização as variantes vão se
especializando, cada uma de uma forma, e assumem pequenas diferenças,
distinguindo-se das demais. Dessa forma, à medida que uma forma vai
se especializando passa a tornar-se obrigatória naquela função.
2.4. Persistência
A forma gramaticalizada mantém vestígios da forma original, de
modo que esses acabam por estabelecer, muitas vezes, contextos de
resistência no sentido de que o processo de gramaticalização se finalize.
A forma em que o verbo ir é auxiliar dele mesmo é um exemplo desse
contexto de resistência, pois, nos corpus da análise, não houve nenhuma
ocorrência dessa construção.
2.5. Descategorização
A forma que sofre a gramaticalização acaba por perder as
características da classe a que pertencia e adquire as novas, como é
o caso do verbo ir, que, na representação do tempo futuro, perde as
características de verbo pleno e assume as de auxiliar.
Ligado ao processo de gramaticalização está o princípio da
unidirecionalidade. Esse princípio pressupõe que o processo se dá,
sempre, do item menos gramatical para o mais gramatical, ou seja, esse
princípio prevê que a mudança envolve sempre uma passagem de um
estado anterior (A) para um posterior (B).
Reanálise e analogia são os dois mecanismos do processo de
gramaticalização que possibilitam entender a unidirecionalidade.
A primeira altera as relações entre os constituintes sem que isso seja
percebível, enquanto a segunda proporciona a existência de novas
formas através de similaridades com outras já existentes. Para Hopper e
401
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
Traugott (1993, 2003) e Bybee et al. (1994) esses dois mecanismos atuam
igualmente no processo de gramaticalização dos verbos de movimento.
Partindo desses princípios, pode-se assumir que a perífrase ir + infinitivo,
uma das formas de representação do tempo futuro, está passando pelo
processo de reanálise, pois o verbo ir, para representar futuridade passa
da condição de pleno para a de auxiliar.
3. Aspecto e modalidade
Como as categorias de aspecto e modalidade são importantes quando se
trata de estudo da representação do tempo futuro, destaco Fleischman
(1982) e Coroa (1985), que discutem questões de aspecto, modo e modalidade.
Segundo as autoras, modo é uma categoria morfológica do verbo e tem
paradigmas verbais: indicativo (que indica certeza), subjuntivo (indicativo
de possibilidades, dúvidas) e imperativo (para indicar ordens), no entanto,
a noção de modalidade linguística vai além, podendo ser abordada de
vários pontos de vista (sintático, semântico e pragmático). A modalidade
aponta para a atitude do falante em relação ao conteúdo de seu enunciado,
revelando a sua disposição mental.
Coroa (1985) apresenta o futuro como um pensamento que
vai do possível para a certeza. O falante avalia o evento, durante a
enunciação, pautando-se na necessidade, probabilidade, possibilidade ou
impossibilidade da ocorrência da ação. Mesmo que haja uma certeza
(subjetiva) da ocorrência do evento, sua realização se dá somente depois
de cumprido o tempo de referência. Como este “vir a ser” escapa à
certeza, ficando ligado ao possível, a autora associa tempo futuro com
a modalidade.
Outros pesquisadores também veem uma relação estreita entre
modalidade e tempo futuro. Na concepção de Câmara Jr. (1985: 55), a
representação do tempo futuro está mais associada ao desejo, à dúvida, à
imposição da vontade, o que a levaria a funcionar na categoria de modo,
não de tempo. Da mesma forma Mateus et al. (1989) dedicam uma seção
402
Rita do Carmo Polli da Silva
inteira para provar que os enunciados de futuro apresentam valores
modais.
Por sua vez, Koch (1986) observa que a modalização do discurso
pode ser realizada por meio de diversos tipos de lexicalização: auxiliares
modais (poder, dever, querer), advérbios de modalidade (provavelmente, talvez,
possivelmente), predicados cristalizados formados por adjetivos em posição
predicativa (é certo, é possível...), orações ou proposições modalizadoras (eu
acredito que, eu sei que, tenho a impressão que...) e ainda certos modos e tempos
verbais, entre eles o futuro (presente e pretérito).
A partir disso tem-se que modalidade é uma propriedade linguística
que indica a intenção ou as atitudes do locutor em relação ao que está
dizendo. Desta maneira, a modalidade passa também a ter inclinação
para propiciar contextos de futuridade, daí Koch inserir o futuro sintético
como um modalizador do discurso, já que ele é apenas uma intenção, um
vir a ser, uma incerteza e tudo que possa ser colocado ‘no futuro’ não
passa disso: uma intenção. Essa intenção pode ter muitas ou pequenas
chances de ser concretizada, mas é uma intenção.
Algumas ocorrências desta pesquisa possibilitam perceber que
contextos de futuridade mais agentes modalizadores funcionam como uma
probabilidade dentro da outra, como em:
(1)
E provavelmente eu terei um aumento, não? (Pato Donald, n° 592,
1960, pág. 30, Donald para Tio Patinhas.)
Nesse dado tem-se o advérbio de modalidade apontado por Koch,
provavelmente, mais o tempo futuro do presente, apontado pela mesma autora
como modalizador e ainda o advérbio não, que aí não está negando, mas
agindo como um confirmador da probabilidade que é a questão de ele
ter o aumento.
Mesmo quando o falante introduz certa carga de certeza, dentro
de um contexto de futuridade, é sempre possibilidade, um desejo, uma
modalidade:
403
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
(2)
Eu sei que as encontrarei em alguma parte! (Pato Donald, n°
2013, 1990, pág. 07, Donald para sobrinhos.)
Apesar de a proposição modalizadora indicar uma atitude de certeza
sobre um fato, ela não passa de uma possibilidade, um desejo, pois está
inserida em um contexto de futuro.
Modo e modalidade são, portanto, diferentes, apesar de muitos
confundirem as duas nomenclaturas, utilizando uma pela outra.
Enquanto modo faz parte de um paradigma comum e está associado ao
sistema flexional do verbo, a modalidade, entre outras funções, liga-se
ao próprio modo verbal. Segundo Lyons (1977) modo é uma categoria
gramatical, encontrada em algumas línguas e não pode ser incorporada
à modalidade. Já para Palmer (1986) modalidade é semântico e modo,
gramatical, enquanto para Bybee et al.(1994) modalidade é um domínio
conceptual e modo, uma expressão flexional.
As gramáticas tradicionais apresentam dois modos para o tempo
verbal futuro: indicativo (indicador de certeza) e subjuntivo (indicador de
possibilidade). Mas, sendo o futuro por si só uma possibilidade, como
ele pode ter modo indicativo? Partindo desse princípio muitos autores não
consideram o futuro um tempo verbal e sim um modo. Entre eles, como
citado acima, Mattoso Câmara (1985), Fleischman (1982) que associa a
categoria temporal do futuro ao irrealis, ou seja, a algo relacionado às
possibilidades de realização, o mesmo que defende Givón (1984 e 1993),
da mesma maneira Mateus et al.(1983) e Comrie (1985) relacionam
futuro a modo, não a tempo. Bybee et al.(1994) e Poplack & Turpin
(1999) também fazem parte desse grupo quando evidenciam que o
futuro está associado a modo por expressar, não atitudes, mas intenções
dos falantes.
Essa intenção pode ser observada em dados dos corpus aqui
analisados. Parte-se do pressuposto de ser o futuro sintético a representação
do tempo futuro a denotar maior comprometimento com o fato
vindouro, inserindo, muitas vezes, nuances de promessa de conclusão, já
404
Rita do Carmo Polli da Silva
que o modo indicativo é aquele que indica certeza. Os exemplos abaixo,
retirados dos dois corpora, os únicos com essas condições, apresentam a
expressão tenho certeza + futuro sintético no indicativo, que é o que expressa
certeza, segundo a gramática tradicional.
(3)
Tenho certeza de que esse fazendeiro será gentil e me ajudará
quando souber que estou em dificuldades! (Pato Donald,
n° 622, 1960, pág. 15, Donald para Huguinho, Zezinho e
Luizinho.)
(4)
Se eu pegar no pé dele tenho certeza de que se tornará um novo
pato! (Pato Donald, n° 2205, 2000, pág. 16, Margarida para
Huguinho, Zezinho e Luizinho.)
(5)
Que pena, tenho certeza que nada poderá ser mais divertido essa
noite. (Carta par alguém bem perto, Fernanda Yung, 1990, pág. 97,
amigo para amiga.)
(6)
E vocês mudarão de idéia, tenho certeza. (O sertão vai virar mar,
Moacir Scliar, 1960, pág. 81, uma senhora para pessoas
estranhas.)
O fato futuro de cada uma das situações acima foi diferente do grau
de certeza do emissor do discurso no momento da fala. No exemplo
(03) o fazendeiro nem os deixou falar. Em (04) o personagem não
mudou de comportamento, no (05) a personagem não saiu de casa e no
(06) eles não mudaram de ideia. Apesar de a gramática tradicional trazer
o futuro como tempo e apresentar o futuro sintético no indicativo como
a representação de que o fato será realizado, isso não é verdade, o que
reforça a tese de que o futuro é mais modo do que tempo verbal, pois
não consegue representar um tempo e sim uma intenção, como se pode
observar a partir das ocorrências acima.
405
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
Segundo Coroa (2205) o aspecto se confunde com vários outros
conceitos e, muitas vezes, é utilizado para todo morfema verbal que não se
enquadre em uma descrição temporal (op. cit. p. 61). A autora menciona ainda
haver confusão entre noções de aspecto e tempo, por outro lado Travaglia
(1994: 157) parte do princípio de que o tempo futuro não indica aspecto
por marcar uma situação virtual, o que enfraquece as noções aspectuais
ou as anula e ainda por este tempo ter um valor modal, restringindo
a expressão do aspecto. Na pesquisa em questão os números de
verbos aspectuais e modais na representação do tempo futuro foram
insignificantes. Em outras palavras, exceto a perífrase ir + infinitivo, as
demais tiveram pouca representatividade e, por hora, foram retiradas
da análise, mesmo tendo como grupo de fatores o uso dos advérbios e
locuções adverbiais, o que, segundo o autor, são recursos de expressão
que oferecem noção aspectual.
4. A constituição dos corpus
Os resultados deste trabalho foram obtidos a partir de dois corpus.
O primeiro, constituído por revistas em quadrinhos Pato Donald, em
número de 127, editadas de 1950 a 2004, conforme Quadro 1, abaixo:
QUADRO 1: Número de revistas Pato Donald, por ano de
publicação.
Ano de publicação
Década de 50
1963
1973
1983
1993
2003/04
Total consultado
Periodicidade
N.º de exemplares
Mensal
Semanal
Quinzenal
Quinzenal
Quinzenal
Quinzenal
--------------
21
23
21
20
22
406
20
127
Rita do Carmo Polli da Silva
O segundo, corpus 2, construído a partir de 46 romances brasileiros, de 1752 a
2000, apresentados no Quadro 2:
QUADRO 2: Relação das 46 obras da literatura nacional que
constituem o corpus 2.
Autor
Nascimento /Década
representada
Título das Obras
Ano da 1ª
publicação
As aventuras de
1.
Dorothea Engrassia
Diófones – imitando a
1711 / 1730
Sapientíssimo Fenelon na
Tavareda Dalmira
1752
sua Viagem de Telêmaco
2.
Teixeira e Sousa
3.
Joaquim Manuel de
1812 / 1830
1820 / 1840
Macedo
4.
5.
6.
José de Alencar
Machado de Assis
Inglês de Sousa
7.
Aluísio de Azevedo
8.
Adolfo Ferreira
1829 / 1850
1839 / 1860
1851 / 1870
1857 / 1880
1867 / 1890
Caminha
O Filho do Pescador
1843
A Moreninha
1844
A Baronesa do Amor
1879
O Guarani
1857
6. Senhora
1875
Ressurreição
1872
Memorial de Aires
1908
O Cacaulista
1876
O Missionário
1891
Uma Lágrima de Mulher
1880
O Livro de uma Sogra
1895
A Normalista
1893
Tentação
1896
Recordações do Escrivão Isaias
9.
Lima Barreto
1881 / 1900
Caminha
Clara dos Anjos
Memórias Sentimentais de
10. Oswald de Andrade
1890 / 1910
João Miramar
A Revolução Melancólica
11. Orígenes Lessa
1897 / 1920
407
1909
1948
1924
1943
O Feijão e o Sonho
1938
O Edifício Fantasma
1984
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
Continuação do quadro 2
12. Érico Veríssimo
1905 / 1930
13. Raquel de Queiroz
1910 / 1930
14. Fernando Sabino
1923 / 1940
15. Ligia Fagundes
1923 / 1940
Telles
16. Carlos Heitor Cony
17. Hilda Hilst
1926 / 1950
1930 / 1950
18. Moacir Scliar
1937 / 1960
19. Ana Maria Machado
1941 / 1960
20. Domingos Pellegrini
1949 / 1970
21. Ana Miranda
1952 / 1970
22. Marcos Bagno
1961 / 1980
Clarissa
1933
Incidente em Antares
1971
O Quinze
1930
Memorial de Maria Moura
1992
O Encontro Marcado
1956
Os Movimentos Simulados
2004
Ciranda de Pedra
1955
As Horas Nuas
1989
O Ventre
1953
A Tarde da sua Ausência
2003
Fluxo-floema
1970
Estar sendo Ter sido
1997
O Exército de um homem só
1973
O sertão vai virar mar
2002
Alice e Ulisses
1983
Palavra de honra
2005
Terra Vermelha
1998
Meninos no Poder
2005
Boca do Inferno
1989
Dias e Dias
2002
A vingança do cobra
1997
O espelho dos nomes
2002
Crescer é perigoso
23. Márcia Kupstas
1957 / 1980
Gurka, retrato de um
jovem assassino
24. Michel Laub
1973 / 1990
25. Fernanda Young
1970 / 1990
Música anterior
Carta para alguém bem
perto
408
1986
2002
2001
1998
Rita do Carmo Polli da Silva
Iniciou-se a lista com As Aventuras de Diófones – imitando a Sapientíssimo
Fenelon na sua Viagem a Telêmaco, publicado em 1752 e O Filho do Pescador,
de Teixeira e Sousa, publicado em 1843. A partir daí pegou-se um autor
e duas de suas obras, por década. Esses foram relacionados partindo
do pressuposto de Labov (1964), que afirma o indivíduo forma seu
idioleto até os 25 anos, ou seja, é com esta idade que ele já se assenhorou
completamente de sua língua materna. Desta forma, um indivíduo
nascido em 1900, por exemplo, será linguisticamente adulto em torno de
1925, portanto, na década de 1920. A partir daí buscaram-se escritores
não pelo reconhecimento que obtiveram no cenário nacional e / ou
mundial, mas pelo ano de nascimento, o que dificultou sobremaneira a
busca, pois ora não dava certo o gênero, ora a data de nascimento. Alguns
escritores consagrados de nossa literatura não se encontram na relação
por conta disto. Cecília Meireles ou Carlos Drummond de Andrade são
exemplos. Muitos autores e obras foram pesquisados e deixados de lado
por não apresentarem nenhum dado de futuro. Consequentemente,
os que compõem esta lista não correspondem ao gosto pessoal da
pesquisadora; eles representam um grupo heterogêneo a partir do qual
se fará uma pesquisa variacionista diacrônica.
Exceto a primeira obra da lista, que foi escrita por uma mulher, a
literatura brasileira vai levar quase um século, a partir de A Moreninha,
para ter seu primeiro romance escrito por uma pessoa do sexo feminino.
Foi Raquel de Queiroz, em 1930, com a publicação de O Quinze, que
inaugurou a profissão de escritora no Brasil. Sendo assim, o corpus 2
apresenta romancistas (sexo masculino) representantes de cada década,
até 1930; a partir daí, o corpus passa a apresentar dois autores por período,
um de cada sexo, objetivando fazer um estudo à parte para ver se há
diferenças em suas produções a partir da variável extralinguística sexo.
Excetuando os dois primeiros, que não escreveram outros romances
além dos que aqui se apresentam e os dois últimos listados no corpus 2,
cuja totalidade de obras é bastante recente, os demais serão analisados
em um estudo de variação no indivíduo, ou seja, será feito também
409
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
um estudo destes autores para verificar se houve mudança individual
no que se refere à representação do tempo futuro, analisando uma de
suas primeiras obras, quando não a primeira, e uma das últimas, ou a
derradeira, o que totaliza as 46 do quadro 2, acima.
5. O objeto da análise
A variável dependente desta tese divide-se em:
01. futuro sintético;
(7)
Morrerá um dia, entupido nela. (O Ventre, Carlos Heitor Cony,
1953, pág. 92, feminino adulto para masculino adulto.)
02.
presente do indicativo;
(8)
Trago por estes dias, tenho me esquecido. (Clara dos Anjos, Lima
Barreto,1948, pág. 29, masculino adulto para feminino adulto.)
03.
ir + infinitivo:
(9)
Já sei o que vamos fazer! (O Edifício Fantasma, 1984, Orígenes
Lessa, pág. 67, marido para esposa.)
04.
haver (presente) + de + infinitivo
(10) Decerto; como hei de combatê-lo? (O Guarani, José de Alencar,
1857, pág. 58, adultos masculinos entre si.
410
Rita do Carmo Polli da Silva
6. Os resultados das análises das histórias em quadrinhos
Nesta análise em tempo real de curta duração foram considerados
3.754 e o que se percebeu é que haver + de + infinitivo não é mais produtiva
como variante de representação do tempo futuro, pois apresentou
apenas quatro ocorrências em todo o corpus. Possivelmente no mesmo
caminho esteja o presente do indicativo, forma que apresentou baixo
número de ocorrências, 92, motivo que o levou a ser retirado da análise.
As rodadas que o incluíram possibilitaram vê-lo como uma variante da
representação do tempo futuro que depende totalmente do contexto
para expressar futuridade, tanto em futuro próximo como em distante,
já que a marca de projeção é dada pelo contexto, responsável por essa
informação, liberando o verbo de expressá-la.
Nesse sentido os dados confirmam Oliveira (2006) quando afirma
que o presente do indicativo é um tempo verbal com marca morfológica
zero: sozinho ele não tem a propriedade de expressar o tempo verbal
futuro, mas o faz levado pelo contexto, ou seja, ele é o responsável pela
representação da ação verbal, o tempo dela, propriamente dito, fica
entendido, ou subentendido pelo contexto.
No cômputo geral foi possível observar que esse tempo verbal tende
a representar um futuro próximo, podendo, como já dito, representar
qualquer projeção, como se pode verificar nos exemplos hipotéticos
abaixo:
(11) Amanhã leio esse livro, depois que terminar esse trabalho que
faço agora.
(12) No ano que vem leio esse livro, depois que me formar na
faculdade.
(13) Depois que me aposentar leio esse livro, só assim posso aproveitar
a leitura.
411
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
Dentro dos contextos que possibilitam ao presente do indicativo
representar o futuro, os advérbios de tempo apresentam elevada
tendência de ocorrência: .840. Esse tempo também apresenta alto peso
relativo com sujeitos pronominais de primeira pessoa, quer do singular
ou do plural: .609 e .451, respectivamente. No corpus 1 ele ocorreu
majoritariamente com verbo monossilábico que, no caso, foi o verbo ir,
com as mulheres e com as crianças.
As frases interrogativas favorecem largamente o presente do indicativo,
o que corrobora Malvar (2003) que encontrou a mesma situação
relacionada e esse tempo verbal. Devido ao número reduzido de dados
esse tempo verbal foi retirado da análise probabilística.
Traçando uma espécie de lócus de ocorrência do presente do indicativo o que
foi possível observar possibilita apresentá-lo da seguinte maneira:
Futuro próximo; advérbio de tempo; sujeito pronominal de primeira pessoa;
verbos monossílabos; frases interrogativas; mulheres; crianças.
Também foi necessário não considerar, por hora, o total de perífrases
da análise, pois a disparidade de números de ocorrências entre elas foi
muito grande, o que acaba por mascarar os resultados. Houve 2.338
dados de perífrases, destas, 2.112 de ir + infinitivo. Sendo assim, decidiuse por continuar com a análise apenas com duas das quatro variantes
iniciais: o futuro sintético e ir + infinitivo.
6.1. O futuro sintético nas revistas Pato Donald
Nos textos mais antigos a representação do tempo futuro é feita
preferencialmente pelo futuro sintético. À medida que o tempo vai
passando esta forma dá espaço a ir + infinitivo, como constatou também
Oliveira (2006). Nas revistas Pato Donald o futuro sintético apresentou
peso relativo .78 em 1950 e fechou o período com .18, uma queda de
412
Rita do Carmo Polli da Silva
.60 pouco mais de meio século, o que demonstra que o grupo de fatores
que analisou o ano de publicação é bastante relevante, como pode ser
observado no gráfico 01, abaixo:
GRÁFICO 01: Área das variantes da representação do tempo futuro
a partir do grupo de fatores ano de publicação, em pesos
relativos.
Segundo Câmara Júnior (1985) os verbos monossílabos tendem a
representar o futuro na forma sintética, sendo assim, nesta pesquisa,
hipotetizou-se que os verbos de extensões fonológicas menos pesadas
tenderiam a ocorrer com o futuro sintético, o que foi confirmado pelos
dados. Em outras palavras podemos dizer que i tende a ocorrer com
os verbos mais pesados fonologicamente. O exemplo abaixo evidencia
bem essa situação. Nele temos um verbo monossílabo representando o
tempo futuro pelo futuro sintético e um verbo trissílabo na mesma função
a partir de ir + infinitivo:
413
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
(14) E vou controlar esse poder sozinho! Terei o monopólio!
O tipo de frase com maior tendência a fazer a representação do
tempo futuro com o futuro sintético são as negativas, o que poderia parecer
estranho ao tom de promessa que ele parece inserir aos contextos, como
em:
(15) E essa não me escapará, ou não me chamarei nunca mais o lobo
feroz! (Pato Donald, n° 1, 1950, pág. 26, Adulto para filho,
criança.)
Essa situação corrobora Malvar (2003) e Sankoff & Wagner (2005 –
apud Oliveira, 2006: 71).
Quanto aos sujeitos pronominais que acompanham os contextos de
futuridade imaginou-se que essa forma verbal tenderia a ocorrer com
sujeitos pronominais de primeiras pessoas, especialmente com pronome
nós elíptico, o que foi confirmado pelos dados. Das 373 ocorrências dessa
combinação, 350 estão com o pronome não preenchido. Esse fato
corrobora a tese do paralelismo das formas: formas canônicas tendem a
ocorrer com formas canônicas; inovadoras, com inovadoras.
414
Rita do Carmo Polli da Silva
O futuro sintético tende a ocorrer no ambiente de trabalho de superior
para subordinado e no ambiente familiar, do mais velho (pessoa adulta
de maior idade) para o mais novo e nas interações dialógicas envolvendo
estranhos, o que legitima Alkmim (2001).
Um contexto que se revelou de resistência a essa forma verbal foi o
das frases interrogativas. O que não é compatível com seu tom profético,
pois não se faz promessa em questionamentos.
Segundo o corpus 1 o ambiente mais propício para que o futuro sintético
represente o contexto de futuridade pode ser representado a partir da
seguinte linha:
Textos mais antigos; tom de promessa; futuro distante; advérbios de dúvida e
negação; verbos monossílabos; frases negativas; sujeito pronominal de primeira
pessoa do plural canônica, elíptico; de mais velho para mais novo; de superior
para subalterno.
6.2. Ir + infinitivo nas revistas Pato Donald
A variante ir + infinitivo mostrou- se em ascendência no corpus,
conforme foi possível observar no gráfico acima, e com tendências altas
de ocorrer com os pronomes pessoais inovadores você e vocês, com frases
interrogativas, que é, justamente, o contexto inibidor da forma futuro
sintético. Essa tendência de ir + infinitivo ocorrer mais com as segundas
pessoas verbais consideradas inovadoras revela um paralelismo de
formas inovadoras, como se elas se atraíssem mutuamente.
Segundo a gramática tradicional a perífrase ir + infinitivo, quando
indicadora de tempo futuro, é empregada apenas para referir-se a um
futuro próximo, o que foi confirmado no corpus 1, mas a tendência
existente ainda é bastante pequena. Essa forma verbal, nessa análise, se
apresenta como a variante que está assumindo a função de representação
do tempo futuro. Traçando uma linha de ambiente propício ao uso de ir
+ infinitivo teríamos:
415
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
futuro próximo; verbos tri e polissílabos; frases interrogativas; advérbios
de intensidade e negação; sujeito pronominal de segunda pessoa do plural
inovadora, preenchido; entre iguais, ambiente doméstico ou profissional.
As décadas menos produtivas para essa forma verbal são exatamente
as mais antigas: 1950, 1960 e 1970. O que demonstra que ir + infinitivo
foi se fortalecendo a partir da década de 1980, o que também pode ser
visualizado no gráfico 01, acima.
7. Resultados da análise dos romances brasileiros
A partir dos romances brasileiros, se observa que os advérbios de
modo, lugar, dúvida e afirmação não se mostraram relevantes, bem como os
pronome vós, a gente e vocês, que não ocorreram em todas as obras, com
apenas 24, 22 e 28 ocorrências, respectivamente, em todo o corpus.
No cômputo geral, em porcentagem, o futuro sintético e as perífrases
estão em igualdade de produtividade neste corpus, enquanto o presente do
indicativo e haver + de + infinitivo perfazem apenas 10 e 6%, respectivamente,
do total dos dados, conforme tabela abaixo:
TABELA 1:
Formas de futuro do corpus 2 – romances brasileiros
Formas de futuro
Ocorrências
Futuro sintético
Presente do indicativo
Perífrases
Haver + de
Totais
1045
255
1068
162
2.530
416
%
42
10
42
6
100
Rita do Carmo Polli da Silva
A variante haver + de + infinitivo apresentou 66% de suas ocorrências
no século XIX e 34% no século XX, representando uma grande queda
no uso dessa forma de representação do tempo futuro, que ficou restrita
a contextos onde se pretende inserir, ao conteúdo da fala, um tom
próximo ao de uma profecia, mais comprometedor do que simplesmente
uma promessa. O presente do indicativo, por sua vez, apresenta 23% de
suas 255 ocorrências no século XIX e 77% no XX, o que demonstra
o oposto. Mas, mesmo assim, neste corpus, ainda em número reduzido,
o que impossibilitou sua análise com as demais formas. Devido a esse
reduzido número de ocorrências essas duas variantes acabaram por
gerar desvios nos resultados, além de serem as responsáveis diretas por
muitos dos nocautes apresentados nas rodadas iniciais, o que fez com
que ambas também fossem retiradas da análise probabilística.
Além da retirada dessas duas formas acima a variante perífrases, a
exemplo do corpus anterior, sofreu um refinamento resultando na
variante ir + infinitivo, que apresentou 950 ocorrências em um universo de
1045 dados. O corpus 2, constituído dos romances brasileiros, portanto,
também se faz representar por uma combinação binária: futuro sintético
e ir + infinitivo. Ambas, inclusive, apresentaram o mesmo percentual de
ocorrências no corpus, mas pesos relativos distintos.
7.1.O futuro sintético nos romances analisados
O futuro sintético também aqui mantém a conotação de maior
compromisso com relação ao contexto de futuridade. Quando se quer
encerrar qualquer possibilidade de dúvida, dentro das possibilidades do
fato futuro, a tendência é de representá-lo a partir do futuro sintético. Seu
peso relativo na obra representativa da década de 1840, A Moreninha, de
Joaquim Manuel de Macedo, é de .74 e .16 na de 1990, Carta para Alguém
bem perto, de Fernanda Yung, o que representa uma queda bastante
significativa de uso.
417
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
O comportamento do futuro sintético nos grupos de fatores da análise
permite verificar que ele tende a incidir quando o tempo futuro se localiza
em projeção distante e acontece mais onde a intenção é a de atribuir um
tom de promessa ao fato futuro, como é possível observar abaixo:
(16) Há tempo para tudo, disse Félix, e o senhor ainda está moço.
Iremos juntos daqui a um ano. (Ressurreição, Machado de Assis,
1860, pág. 25, mais velho para mais novo.)
(17) Se ainda não fez, um dia fará ou vai fazer ou fazerá. (O Espelho
dos Nomes, Marcos Bagno, 1980)
Esse tempo verbal ocorre ainda, preferencialmente, com o pronome de segunda
pessoa do singular: tu. Ou seja, a forma canônica de representar o futuro ocorre
mais com o pronome canônico, pois a segunda pessoa tu é a forma que a gramática
tradicional apresenta na segunda pessoa do singular:
(18) E tu, Augusto, quererás porventura requestar minha irmã?... (A
Moreninha, 1840, Joaquim Manuel de Macedo, pág. 4, conversa
entre amigos.)
(19) Querendo servir-me, acabarás desservindo-me, porque se
acontecer que eu me vá desta vida, sem tempo de te reduzir
a cinzas, os que me lerem depois da missa de sétimo dia, ou
antes, ou ainda antes do enterro, podem cuidar que te confio
cuidados de amor. (Memorial de Aires, 1860, Machado de Assis,
pág. 19, adulto masculino para igual.)
Os dados apontam ainda que homens adultos fazem mais uso dessa
forma verbal do que as crianças:
(20) É sexta-feira, na segunda você chegará à escola e será a mesma
coisa de novo: Jaime é que terá novidades para contar. Ele é
que fará o relato da festa. (Música Anterior, 1990, Michel Laub,
pág. 51, adulto para mais novo.)
418
Rita do Carmo Polli da Silva
Outro terreno fértil para a representação do tempo futuro pela
forma sintética é o advérbio o de afirmação, seguido pelo de tempo, bem
como a presença de verbos monossilábicos, que são verbos menos
pesados fonologicamente e, por isso, não se sobrecarregam com a flexão
do futuro sintético:
(21) Eu o darei com o maior prazer. (Senhora, José de Alencar, 1850)
A utilização do futuro sintético, que acontece prioritariamente com
verbos menos pesados fonologicamente, ocorre com verbos polissilábicos
para acrescentar ao contexto um tom profético, de promessa velada,
como na sequência abaixo, onde a personagem repete a estrutura
mudando a forma de representação do tempo futuro. Na primeira vez
faz uso da perífrase e, para atribuir à fala um tom mais promissor, lança
mão do futuro sintético:
(22) Alguma coisa estranha vai acontecer. (Fluxo – Floema, Hilda Hilst,
1950, pág.99, conversa entre adultos.)
(23) Alguma coisa acontecerá aos humanos. (Fluxo – Floema, Hilda
Hilst, pág. 107, 1950, conversa entre adultos.)
A intenção do personagem nessa segunda ocorrência é de proferir
uma frase mais forte do que a proferida anteriormente. Para que a
intenção fosse externada e entendida a mesma frase foi proferida
fazendo uso do futuro sintético onde antes havia sido usada ir + infinitivo.
Nas interações consideradas menos informais, mesmo em ambiente
doméstico, como em interações dialógicas envolvendo pessoas mais
velhas ou estranhas, o futuro sintético tende a ser mais utilizado. O corpus 2
também demonstrou que essa é a variante mais utilizada, nesse ambiente,
em situações de monólogos.
419
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
Muito utilizado nos romances da fase inicial da análise, ele apresenta
queda vertiginosa até o final, deixando espaço livre para ir + infinitivo.
Separadamente os pesos relativos do futuro sintético e de ir + infinitivo nas
primeiras e nas últimas obras de cada autor que compõe a análise nos
proporcionam gráficos como os dois abaixo:
GRÁFICO 02: Pesos relativos das obras masculinas do corpus 2, por
décadas.
GRÁFICO 03: Pesos relativos das obras femininas do corpus 2, por
décadas.
420
Rita do Carmo Polli da Silva
Traçando uma linha de utilização, a partir das ocorrências desses
corpus obtém-se, para o futuro sintético:
textos mais antigos; relacionado a promessas; projeção distante; pronomes
pessoais canônicos: tu e nós; advérbio de afirmação; verbos monossilábicos;
adultos; em interações envolvendo pessoas mais velhas, com estranhos e em
monólogos.
7.2. Ir + infinitivo nos romances analisados
A forma verbal de maior produtividade em pesos relativos no
corpus 2, ir + infinitivo, é atraída pelos advérbios interrogativos. Bem como
apresenta tendências de uso com quase todas as extensões fonológicas
do verbo principal, excetuando apenas os monossilábicos. Salientando
que o monossílabo de maior produtividade da amostra é justamente o
verbo ir. Esse, portanto, se apresenta como o contexto que mais inibe ir
+ infinitivo, pois a construção onde o mesmo verbo ocupa a posição de
auxiliar e de principal, resultando em vou ir, ainda é muito estigmatizada
socialmente. Banida por muitos profissionais da área da língua portuguesa
com a explicação de que não é correto fazer o uso do mesmo verbo duas
vezes, um ao lado da outro, como se não utilizassem, entre outras, as
perífrases tenho tido ou ainda a mesma construção perifrástica com o verbo
ir sendo auxiliar dele mesmo como em vou indo, mais antigo na língua e,
consequentemente, possivelmente menos agressivo auditivamente.
Essa forma verbal é utilizada pelos indivíduos mais jovens para
interagir com mais velhos, no ambiente doméstico. No cômputo geral,
nesse corpus, essa forma verbal está presente desde o primeiro período
de análise, apresentando crescimento em todo o corpus, em especial no
século XX. Apesar de apresentar leve queda na produtividade no final da
amostra, não perde a alta tendência de passar a marcar esse tempo verbal
com prioridade, principalmente a partir da seguinte linha:
421
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
textos mais recentes; projeção próxima; advérbios interrogativos; pronomes
pessoais eu, você e vocês; interações entre iguais no ambiente doméstico; crianças.
7.3. Conclusões das análises nas variações dos indivíduos, a
partir de 1930
O corpus 2 possibilitou fazer uma comparação entre autores e autoras
de romances brasileiros, do Modernismo para cá. Para este estudo foram
utilizadas as quatro variantes iniciais e a tabulação dos pesos relativos
dos autores foi feita a partir do grupo de fatores sexo. Colocados os
resultados em gráfico o que se vê são dois traçados muito semelhantes,
um quase sobreposto ao outro, diferenciando-se no uso do futuro sintético,
nos autores. Este traçado praticamente paralelo mostra que a variante
sexo do autor do texto, tal como a variante sexo do informante, não apresenta
grande relevância, haja vista que as evoluções de uso das variáveis se
dão praticamente da mesma forma nos dois grupos. Fato que revela não
serem, esses grupos de fatores, determinantes para a mudança:O estudo
de variação a partir do sexo revelou que as mulheres tendem levemente
a fazer mais uso de contextos de futuridade do que os homens. Para
três das quatro formas verbais (haver + de + infinitivo, presente do indicativo
e ir + infinitivo) os pesos relativos foram mais altos com elas do que
com eles. Ao traçar uma linha de tendência sobre os pesos relativos
observam-se duas linhas levemente afastadas, que se aproximam a partir
do uso do futuro sintético em direção ao presente do indicativo e voltam a se
distanciar na direção de ir + infinitivo. Forma que se revela inovadora, a
que mais tendência apresenta de continuar marcando a representação de
tempo futuro nesse corpus. As linhas de tendência, inclusive, possibilitam
visualizar que o futuro sintético, em ambos os casos, tem suas tendências
diminuídas enquanto o presente do indicativo as apresenta em ascensão, em
direção a variante com maiores tendências de representação do tempo
futuro: ir + infinitivo. As linhas permitem ver que a mudança de aplicação
da regra de representação do tempo futuro que era majoritariamente
422
Rita do Carmo Polli da Silva
representada pelo futuro sintético passa pelo presente do indicativo e hoje se
apresenta majoritariamente por ir + infinitivo.
GRÁFICO 04: Evolução das formas verbais, em pesos relativos, nos
escritores e escritoras da amostra (média dos pesos
relativos).
Considerações finais
Era objetivo desta análise verificar a frequência do emprego dos
verbos modalizadores e aspectuais nas construções perifrásticas com
contextos de futuridade; porém, o que o estudo mostrou, a partir dos
corpus aqui definidos e explorados, foi uma baixa frequência de dados.
Na Revista Pato Donald, só 202 ocorrências, em um universo de 4.082 e,
nos romances brasileiros, apenas 95 em 2.530 ocorrências, o que perfaz,
em ambos os corpus 5% do total, número pouco representativo e pouco
oportunizador de análises sobre o comportamento dessas perífrases,
neste estudo.
423
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
Nesta análise, foi possível visualizar uma grande concorrência entre
as formas de representar o futuro, mas o que se tem, realmente, é um
quadro quase definido de produtividade na marcação desse tempo verbal
pela perífrase ir + infinitivo.
A partir dos objetivos traçados para esta análise concluiu-se que
as quatro formas verbais aqui analisadas apresentam comportamentos
bastante distintos entre si: cada uma agindo em uma determinada situação,
em um determinado contexto. Mas, na comparação entre os 6.616 dados
encontrados, pode-se perceber uma similaridade nos resultados, apesar
da heterogeneidade da origem das ocorrências, já que os dois corpus têm
origens, criações e públicos bastante distintos, bem como aceitabilidades
diferenciadas da parte do leitor.
Os dois corpus apresentaram poucos dados da variante haver + de +
infinitivo e também do presente do indicativo; o que, em ambas as situações,
obrigou que se continuasse a análise com apenas duas das quatro
variantes da variável dependente com que se iniciou esse estudo. O que
se percebe, então, é que, não obstante o corpus, há marcas de um processo
de mudança em curso, em corpus constituídos de língua escrita, ou seja, a
variação que, nesse caso, caminha para uma mudança, não depende do
corpus, ela é da língua.
Pontes (1973), quando finaliza a análise da estrutura do verbo do
português coloquial, decide nominar de forma marginal ao futuro do presente
(aqui tratado sempre como futuro sintético), o que ela justifica porque, em
seu corpus de análise, essa forma teve aparição rara. A partir daí a autora
afirma que o futuro sintético é uma das formas da língua literária que ocorrem
esporadicamente na língua coloquial. O que esta tese mostra é que o futuro
sintético é, realmente, apenas isso: uma das formas de representação do
tempo futuro na língua literária, mas não aquela com maior tendência
de uso.
Percebe-se, então, que o futuro sintético vem sendo destronado da
posição de representar o tempo ainda não acontecido — de representar
o inexistente, o desejado, o possível — posição essa que está sendo
tomada pelas formas presente do indicativo e ir + infinitivo, o que varia
dependendo do corpus de análise.
424
Rita do Carmo Polli da Silva
Quanto às perífrases os corpus mostraram que ir + infinitivo está em
processo final de gramaticalização, se levarmos em conta somente os
textos escritos, uma vez que a construção vou i(r), ocorre de maneira
profusa na fala, notadamente na fala de crianças e adolescentes, e já
é frequente na de adultos, conforme se constata no dia a dia (no oral,
a gramaticalização já se consolidou completamente, regularizando o
paradigma).
Se a forma ainda encontra resistência nos textos escritos, mesmo
nos considerados ‘infantis’, o caso das histórias em quadrinhos aqui
analisadas, é porque essa linguagem, que se quer representante da
língua oral, não o é realmente, obedecendo aos cânones da gramática
tradicional, que ainda não concebe a realização do futuro por perífrases.
Pode-se, portanto, afirmar que aqui há uma mudança em curso, pois
a partir dos pressupostos da teoria da Mudança Linguística, vistos acima,
temos a representação do tempo futuro sendo representada por quatro
variantes, que apresenta características de uma diferenciação ordenada,
está ocorrendo e sendo transmitida de modo geral na ‘comunidade de
fala’ e sua explicação está intimamente ligada a fatores linguísticos e
extralinguísticos.
Nos dois corpus o futuro sintético se mostrou como uma variante
condicionada, principalmente, pelo mesmo elemento: textos antigos, ou
seja, quanto mais antigo o texto maior a chance de a representação do
tempo futuro se fazer pelo futuro sintético. O oposto é verdadeiro para ir +
infinitivo: quanto mais recente o texto, maior a chance de o tempo futuro
ser representado só por essa variante.
O futuro sintético também está relacionado às situações de promessas
e a uma projeção do fato mais distanciado temporalmente. Vale destacar
ainda que os verbos monossilábicos são os que favorecem grandemente
a representação do tempo futuro a partir dessa variante, bem como a
primeira pessoa do plural canônica: nós. Algo que também se pode notar
é que nas interações que registram o futuro sintético há, via de regra, um
adulto envolvido, o que evidencia ser a idade um fator relevante.
425
Mesa-Redonda “O Futuro Através dos Tempos”
Por sua vez ir + infinitivo , como já apontado, tende a ocorrer em
textos mais recentes, onde a situação de futuridade se dê em projeção
mais próxima, com verbos, di-, tri- e polissilábicos. Os pronomes que
favorecem sua ocorrência são você e vocês, nas interações entre iguais, em
ambos os corpus.
Ao observar as ocorrências de representação do tempo futuro nos
autores, principalmente os do sexo masculino e do século XIX, vemos
que as gramáticas tradicionais não mentem quando citam exemplos
retirados dessas obras para elucidar situações de uso do futuro sintético
para representar o tempo vindouro. O fato que elas omitem é o de que
esses autores usam igualmente ir + infinitivo para representar esse mesmo
tempo. Os gramáticos simplesmente ignoram (em todos os sentidos) a
existência dessa variante, mesmo constando nos seus textos e nas obras
de autores usualmente utilizados nos exemplos das teorias por eles
apresentadas.
O corpus 2 mostra que ainda antes do Modernismo, Lima Barreto já
utilizava mais ir + infinitivo do que o futuro sintético. Depois, em Oswald
de Andrade, essa variante foi ganhando espaço. O que a análise dos
resultados dos autores mostra é que a trajetória da representação do
tempo futuro não se dá diretamente do futuro sintético para ir + infinitivo.
Ela passa pelo presente do indicativo, que esteve e está funcionando como
uma ponte no processo de mudança entre as variantes de representação
do tempo futuro. Se antes a forma majoritária era o futuro sintético e hoje
é ir + infinitivo ela já foi mediada pelo presente do indicativo.
Por outro lado, o estudo da mudança no indivíduo proporcionou
observar que a tendência diacrônica natural dessas quatro formas é a
mesma nos dois corpus: haver + de + infinitivo como um resquício de uso,
concorrendo com o futuro sintético e quase se extinguindo por conta da
ascensão desse que, por sua vez, vai dividindo o campo com o presente do
indicativo que, por sua vez, abre caminho para a perífrase ir + infinitivo, que
o supera em muitos contextos. Tal trajetória é visível tanto nas obras dos
autores como nas autoras e, nessas, tendendo mais ao uso da perífrase
426
Rita do Carmo Polli da Silva
do que da forma canônica, o que as coloca na posição de inovadoras,
deixando o perfil mais conservador, nesse caso, para os homens.
Fechando esta pesquisa, mas não as possibilidades de estudos da
variável dependente aqui analisada, é imprescindível observar que,
independente da obra, a mudança na representação do tempo futuro está
encaixada na estrutura linguística, mas que apresenta, ainda, um contexto
de resistência, validado pelo processo que Weinreich, Labov e Herzog
(2006) chamam de avaliação, ou seja, a sociedade detecta variações que são
avaliadas como negativas e essas passam a ser estigmatizadas. No caso da
variável em questão, em se tratando de língua escrita, o estigma está na
forma vou ir, sem nenhuma ocorrência entre os 6.616 dados analisados
nos dois corpus desse estudo. É interessante salientar que não houve
nenhum caso de vou ir mesmo nas histórias em quadrinhos, que parte da
sociedade ainda tende a classificar como leitura não recomendável.
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429
ANÁLISE AUTOMÁTICA DA MORFOLOGIA
VERBAL DO PB: PLATAFORMA CHILDES
Leonor SCLIAR-CABRAL
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)/CNPq
Vera VASILÉVSKI
(PNPD CAPES)
RESUMO
Os procedimentos de montagem das regras que compõem o aparato para a análise automática
da morfologia verbal do PB, dentro da plataforma CLAN, serão apresentados e debatidos.
Comparando-se a formalização das classes sintáticas e respectivas regras do espanhol e
do italiano com as do PB, chegou-se à conclusão de que elas deveriam ser reformuladas,
particularmente no que diz respeito à análise automática dos morfemas verbais. Tendo em
vista o nível de previsibilidade dos morfemas do sistema de verbos do PB, apresenta-se a
formalização das regras morfológicas que compõem esse sistema para os verbos regulares das
três conjugações e a formalização em algoritmo, bem como o trabalho que a antecedeu na
programação informatizada que identifica automaticamente as formas verbais do português,
classificando-as segundo modo/tempo, pessoa/número, em compatibilidade com o sistema
CLAN, da plataforma CHILDES (MacWHINNEY, 2000, 2008). Discutem-se as
dificuldades encontradas na conversão e as decisões que foram tomadas para superá-las e
mostra-se a criação automática de uma linha fonológica. Este trabalho é realizado com apoio
do CNPq e da CAPES, entidade do governo brasileiro voltada para a formação de recursos
humanos.
© Revista da ABRALIN, v. Eletrônico, n. Especial, p. 431-444. 1ª parte 2011
Análisse Automáticva da Morfologia Verbal do PB: Plataforma Childes
1. Histórico
O Grupo Integrado Produtividade Linguística Emergente do CNPq
há anos vem alimentando o maior banco mundial de dados de linguagem
verbal, a plataforma CHILDES, conforme pode ser visualizado e ouvido
no site: http:/childes.psy.cmu.edu/data/Romance/Portuguese/
florianopolis.zip, uma vez que todos os enunciados, tanto dos adultos
quanto os da criança são seguidos de bullets que, quando clicados
permitem sua audição. Há três corpora, correspondentes à fase 1 (20m
e 21d), à fase 2 (22m e 20d) e à fase 3 (26m e 08d) do sujeito Pá, cujos
enunciados também foram transcritos foneticamente (broad transcription).
O principal achado da pesquisa foi considerar o acento de intensidade
como morfema verbal (suprafixo), com a função de assinalar na 1ª fase
diferenças aspectuais (posteriormente, redundante e cumulativamente
também assinalará tempo/modo). Propusemos, então a implementação1
da fórmula de Mattoso Camara Jr. (2004:134) que passa a: T(R+VT) +
SF (SMTA+SNP +SPF).
O mundo contemporâneo dos computadores e da linguística
computacional tornou possível a catalogação e análise de uma quantidade
antes nunca conhecida de dados da comunicação verbal, em tempo muito
menor. Isto possibilita comparações e generalizações a partir de uma
massa de dados muitíssimo mais robusta. A base de dados da plataforma
CHILDES, com a qual o presente projeto opera, contém 44 milhões de
palavras faladas em 28 línguas diferentes. Trata-se do maior corpus de fala
atualmente existente. Em segundo lugar, vem o British National Corpus,
com 5 milhões de palavras.
Todos os dados do sistema CHILDES estão codificados de forma
consistente num formato de transcrição denominado CHAT, inclusive
os dados da 3ª fase do sujeito Pá, dos quais será depreendida a gramática
automática. Atualmente já foram construídas gramáticas MOR de 10
línguas: cantonês, holandês, inglês, francês, alemão, hebraico, japonês,
italiano e espanhol, das quais servirão de modelo para a depreensão
da gramática do PB as gramáticas do italiano e do espanhol e as de
432
Leonor Scliar-Cabral e Vera Vasilévski
linguistas brasileiros (Bechara (1999); Borba et al. (2002); Castilho (1989,
2002a e b); Cunha & Lindley-Cintra (1987); Ilari (2002); Ilari & Basso
___(2006); Kato (2002); Koch (2002); Mattos e Silva (2001); Moura
Neves (2000, 1999); Naro; Scherre (1993); Preti (1993); Roncarati &
Abraçado (2003)).1
O projeto ora apresentado tem como principal meta colocar à
disposição dos pesquisadores uma ferramenta que lhes possibilite a
análise morfológica automática dos enunciados que constituem os
corpora coletados do PB.
O Grupo Integrado do CNPq, Produtividade Linguística Emergente,
já realizou a análise morfológica manual dos enunciados da criança, nas
fases 1 e 2, exemplificados a seguir:
Fase 1 (20m e 21d):
47
48
49
*CHI:
%pho:
%mor:
<não é> [>]!
´nǩ̃w ´ũ
neg|não=not v:cop1|s-TV2&IPFVM1=is!
A linha 47 é a linha principal (main line), contendo um enunciado
com dois itens da criança (CHI); a linha 48 %pho é a transcrição fonética
e a linha 49 %mor é a análise morfológica manual, em que cop1 é a
cópula 1, cujo radical do verbo ser é s-, com a vogal temática da 2ª
conjugação, no imperfectivo (as pessoas do discurso ainda não estão
gramaticalmente assinaladas).
Fase 2 (22m e 20d):
52
53
54
1
*CHI: cadê ota [= outra] cadeira?
%pho: ka´de ´ota ka´deƌŞ
%mor: wh:proloc|cadê=where
n|cadeira=chair?
Para um detalhamento, consulte-se Scliar-Cabral (2007).
433
det|ota=another
Análisse Automáticva da Morfologia Verbal do PB: Plataforma Childes
Uma formalização semelhante, porém, expressando a gramática do
PB, será o output na linha %mor, quando for disponibilizada a gramática
automática para análise de corpora formatados de acordo com o formato
CHAT.
2. Codificação dos paradigmas das classes sintáticas
Para a preparação da gramática automática, cujas regras e respectivos
algoritmos dos tempos simples dos verbos regulares serão explicados
nesse artigo, já foram codificados os paradigmas das classes sintáticas, a
seguir exemplificados:
Advérbios interrogativos
onde {[scat adv:int]} =where=
Artigos
a
{[scat art]} “o&FEM&SG” =the=
Pronomes adjetivos demonstrativos
aquela {[scat det:dem] “aquele&FEM&SG” =that=
Pronomes adjetivos indefinidos
algum {[scat det:indef]} “algum&MASC&SG”=some=
Pronomes adjetivos interrogativos
que {[scat det:int]} =what=
Pronomes adjetivos possessivos
meu {[scat det:poss]} “meu-1S&MASC&SG” =my=
Pronomes substantivos demonstrativos
a
{[scat pro:dem] “o&FEM&SG” =in English it is included in
wh form=
434
Leonor Scliar-Cabral e Vera Vasilévski
Pronomes substantivos indefinidos
algo {[scat pro:indef]} =something=
Pronomes substantivos interrogativos
o_que {[scat pro:int]} =what=
Pronomes pessoais
% subject case
eu
{[scat pro:pers]} “eu&1S&SUBJ” =I=
% forms that are the same as subject and object (in the last case, always
preceded by preposition)
você {[scat pro:pers]}”você&2S&SG&OBJ” =you=
% clitics
me
{[scat pro:pers]} “eu&1S&OBJ” =me=
Pronomes substantivos possessivos
minha {[scat pro:pos]} “meu-1S&FEM&SG” =mine=
Pronome relativo
quem {[scat pro:rel]} =who=
Preposições
a
{[scat prep]} =to=
Preposições + determinativos
à
{[scat prep]} «a~det:art|o&FEM&SG» =to the=
Preposições + pronomes substantivos demonstrativos
à
{[scat prep]} «a~pro:dem|o&FEM&SG» =to the one=
435
Análisse Automáticva da Morfologia Verbal do PB: Plataforma Childes
Conjunções coordenativas
contudo {[scat conj:coor ]} =nevertheless=
Conjunções subordinativas
antes_que {[scat conj:sub ]} =before=
Substantivos comuns
adultos {[scat n][gen masc]} “adulto-PL” =adults=
Substantivos próprios
Ana
{[scat n][gen fem]}
Uma solução para equacionar o difícil problema da delimitação
das locuções, cujos termos vêm ligados por _, é aplicar o teste da
impossibilidade de separá-los pela interpolação de outra palavra. O
critério não foi aplicado para os tempos compostos e locuções verbais,
uma vez que seus respectivos auxiliares são arrolados em paradigma
específico. Veja-se, a seguir, um exemplo de codificação de locução
adverbial listada no corpus PAU003:
Locuções adverbiais
ao_mesmo_tempo {[scatadv:loc]} =at_the_same_time=
A seguir serão apresentadas as ferramentas produzidas por
Vera Vasilévski, utilizadas pelos pesquisadores do Grupo Integrado
Produtividade Linguística Emergente, como auxiliares na depreensão da
gramática automática do PB.
436
Leonor Scliar-Cabral e Vera Vasilévski
3. Trajetória
Em 2008, como resultado da tese de doutorado Criação do Sistema de
Conversão Grafema-fonema Nhenhém, foi criado o programa de conversão
grafêmico-fonológica automática Nhenhém e, em 2009, a primeira
atualização. Em 2010 ocorreu a conversão do Nhenhém para outra
linguagem de programação, a criação do Nhenhém silabador, a versão
atualizada do Nhenhém silabador (entrada da morfologia, na separação
silábica de palavras compostas por justaposição) e a Interface entre o
Nhenhém e os arquivos Clan.
A interface entre o programa Clan foi feita com um programa
específico criado para auxiliar o trabalho dos bolsistas do projeto.
Chama-se LAÇA-PALAVRAS e abriga os demais programas e funções,
além de ler os arquivos do Clan.
A interface ocorre em dois níveis: manipulação de conteúdo (lê
os dados e os dispõe em estatística, sem alterar o arquivo original) ou
interferência nos arquivos (modifica/edita-os) e, cria, simultaneamente a
linha %pho, conforme o quadro abaixo:
QUADRO 1: Conversão grafo-fonológica simultânea da linha 94.
437
Análisse Automáticva da Morfologia Verbal do PB: Plataforma Childes
4. Regras de alomorfia das VTs, dos SMT e SNP dos
verbos regulares
Como primeiro passo, foram formalizadas as regras de alomorfia
das vogais temáticas (VT) das três conjugações dos verbos regulares,
cujas ocorrências são marcadas na linha principal com @v, como, por
exemplo, na linha 48 *CHI: acende@v a luz. Tais regras servem de base
para o algoritmo para sua inserção no programa.
QUADRO 2: Exemplo de formalização das regras para a vogal
temática |-a-| da 1ª conjugação.
A seguir, passou-se à formalização das regras de alomorfia do sufixo
modo-temporal (SMT), conforme exemplo no quadro 3.
438
Leonor Scliar-Cabral e Vera Vasilévski
QUADRO 3: Formalização da regra para o sufixo modo
(-temporal) (SM(T)) do gerúndio
O presente do indicativo, como tempo primitivo, apresenta Æ para
SMT.
QUADRO 4: Formalização da regra para o sufixo modo-temporal
(SMT) do Pretérito imperfeito do Indicativo.
O pretérito perfeito do indicativo, como tempo primitivo, apresenta
Æ para SMT, com exceção da 3ª pessoa do plural, -ra-, que é uma forma
marcada.
439
Análisse Automáticva da Morfologia Verbal do PB: Plataforma Childes
QUADRO 5: Formalização da regra para o sufixo modo-temporal
(SMT) do Futuro do presente do Indicativo.
Finalmente, foram formalizadas as regras de alomorfia para o sufixo
número-pessoal (SNP), das quais damos dois exemplos:
QUADRO 6: Formalização da regra para o sufixo número-pessoal
(SNP) de 1ª pessoa do plural (só apresenta alomorfe em
juntura fechada com os pronomes pessoais clíticos).
440
Leonor Scliar-Cabral e Vera Vasilévski
QUADRO 7: Formalização da regra para o sufixo número-pessoal
(SNP) de 3ª pessoa do plural.
QUADRO 8: Exemplo de análise morfológica automática da
ocorrência “falam” para inserção na linha %MOR)
441
Análisse Automáticva da Morfologia Verbal do PB: Plataforma Childes
Resultados
Conforme se pode depreender, encontra-se bastante adiantado
o projeto de criação do programa que analisará automaticamente a
morfologia do PB. Nesse ínterim, codificaram-se os paradigmas de
quase todas as classes sintáticas, elaboraram-se as regras alomórficas das
vogais temáticas e dos sufixos modo-temporais e número-pessoais do
sistema escrito dos verbos regulares do PB, bem como foram construídas
poderosas ferramentas de investigação como o programa Nhenhém (em
várias versões), o silabador e o Laça-palavras, além dos algoritmos de
conversão para linguagem de máquina, mas ainda teremos de resolver
conflitos decorrentes das ambiguidades por meio de regras específicas.
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Créditos:
Tradução das glosas para o inglês: Cloves Cardozo (bolsista IC/PIBIC)
Programação: Márcio Araújo (Engenharia Eletrônica) e Vera Vasilévski
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