ISSN 1413-3555 Rev. bras. tlsioter. Vol. 8, No. 3 (2004 ), 261-266 ©Revista Brasileira de Fisioterapia INFLUÊNCIA DO BAIXO PESO AO NASCER SOBRE O DESEMPENHO MOTOR DE LACTENTES A TERMO NO PRIMEIRO SEMESTRE DE VIDA Santos, D. C. C., 1 Campos, D., 1 Gonçalves, V. M. G., 2 Mello, B. B. A} Campos, T. M. 4 e Gagliardo, H. G. R. G. 3 1 Programa de Pós-graduação em Fisioterapia, FACIS-UNIMEP 2 Departamento de Neurologia, Pós-graduação em Ciências Médicas, FCM-UNICAMP 3 4 Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação "Gabriel Porto", FCM-UNICAMP Pós-graduação em Ciências Médicas FCM-UNICAMP; Universidade São Francisco Correspondência para: Denise Castilho Cabrera Santos, PPG em Fisioterapia, Universidade Metodista de Piracicaba, UNIMEP, Rodovia do Açúcar, km 156, CEP 13400-911, Piracicaba, SP, e-mai1: [email protected] Recebido em: 6/11/2003- Aceito em: 16/9/2004 RESUMO Este estudo teve por objetivo verificar a repercussão do baixo peso ao nascer (BPN) no desempenho motor, no primeiro semestre de vida, de lactentes nascidos a termo, pequenos para a idade gestacional (PIG), comparando esses com um grupo-controle nascido com peso adequado para a idade gestacional (AIG). Para verificar a influência do BPN sobre o desenvolvimento motor, foram excluídas da amostra a prematuridade e as patologias diagnosticadas ao nasctmento. Tratou-se de um estudo de corte seccional e duplo-cego, no 32 e no 62 mês de vida. O desempenho motor foi mensurado com a Alberta Infant Motor Scale, a qual classifica os lactentes em uma curva de desenvolvimento, que varia entre o percentil 5 e 90. Para comparar os grupos foi utilizado o teste F para as variâncias e o teste t para as médias (nível de significância fixado em 5%). No 32 mês, o grupo PIG apresentou percentil médio inferior ao grupo A!G, no entanto, tal diferença não foi significativa. No 62 mês, o percentil médio do grupo AIG foi maior que o do grupo PIG, com diferença significativa (p < 0,05). Ambos os grupos de lactentes apresentaram instabilidade na aquisição da motricidade e percentil médio inferior ao grupo normativo canadense (50%). Concluiu-se, então, que o peso de nascimento pode ter influenciado a performance motora dos grupos, favorecendo o grupo A IG. Os resultados contribuirão para o diagnóstico precoce de alterações motoras, bem como para o conhecimento dos fatores de risco para o desenvolvimento infantil. Palavras-chave: lactente, baixo peso ao nascer, desenvolvimento infantil, desenvolvimento motor. ABSTRACT This study aimed to verify the influence of low birth weight (LBW) on gross motor performance in the first semester of life of term infants born small for their gestational age (SGA), comparing them to a controlled group born with an appropriate weight for their gestational age (AGA). To verify the influence of LBW on motor development, infants classified as premature and with diseases diagnosed at birth were excluded from the sample. A cross-sectional and double-blinded study for infants at the 3'd and 6' 11 month of life was performed. The motor performance was measured applying the Alberta Infant Motor Scale, which classifies infants using a development curve in which the scores vary between 5% and 90%. The F-test was used to compare the groups for variances and the t-test was used for averages (significant leve] fixed at 5%). In the 3'd month of life, the SGA group presented a lower average percentile than the AGA group; however such difference was not statistically significant. At the 6'h month of life, the average percentile ofthe AGA group was higher than the SGA group, with significant difference (p < 0.05). Both infant groups presented instability in the acquisition of gross motor skills and average percentile, lower than the Canadian normative group (50%). It was concluded that the birth weight might have intluenced the motor performance of the group, favoring the AGA group. The results will contribute to the precocious diagnosis ofmotor alterations, as well as to the knowledge ofthe risk factors for the infantile deve Iopment. Key words: infant, low birth weight, child development, motor development. 262 Santos, D. C. C. et ai. INTRODUÇÃO O diagnóstico precoce de alterações no desenvolvimento motor de lactentes é um desafio constante para fisioterapeutas, clínicos e/ou pesquisadores que trabalham com habilitação ou reabilitação infantil. A identificação de fatores de risco (biológicos e/ou ambientais) para o desenvolvimento motor, associada aos estudos ou programas de acompanhamento de lactentes, é uma estratégia utilizada tanto no Brasil como em outros países para o conhecimento das conseqüentes alterações no desenvolvimento infanti I. 1• 4 . No Brasil, o desafio do diagnóstico precoce de alterações no desenvolvimento motor é agravado pela escassez de dados nonnativos e de instrumentos de avaliação padronizados e validados para lactentes. No entanto, os constantes avanços tecnológicos associados aos cuidados obstétricos e neonatais têm proporcionado maior sobrevivência de lactentes nascidos em situações adversas, incluindo o baixo peso (BP) ao nascer, associado ou não à prematuridade. 5•7 Este fato, que contribui para a diminuição da mortalidade neonatal, também contribui para o aumento do número de neonatos com potencial risco para alterações no desenvolvimento, incluindo a motricidade. A literatura relacionada ao tema mostra que é preciso estar atento ao desenvolvimento desses lactentes, pois a desnutrição intra-uterina é responsável direta por significativa morbidade no período neonatal e por repercussões no desenvolvimento neuropsicomotor. 8• 11 Lactentes nascidos com BP apresentam maiores taxas de crescimento subnormal, condições de saúde adversas e problemas no desenvolvimento. 12 Quanto aos aspectos motores, esses lactentes apresentam comportamento abaixo do normal no controle da motricidade axial, 13 " 15 · 2 apendicular e visuo-motora. 16 • 17· 6 Estudos sugerem que tais problemas motores são sutis e tendem a se tornar aparentes com o avanço da idade, 18 mediante dificuldades de escrita e leitura na fase escolar. 17 Tendo em vista que, no Brasil, a prevalência de lactentes nascidos com BP é estimada em tomo de 9%,2 é necessário avançar no entendimento das conseqüências do BP ao nascer no desenvolvimento motor, para que se possa identificar precocemente as possíveis disfunções. A Fisioterapia, enquanto área de conhecimento, tem a responsabilidade de contribuir com as pesquisas envolvendo o desenvolvimento infantil, especialmente as relacionadas à evolução da motricidade, tanto em lactentes saudáveis quanto nos expostos a fatores de risco. Atendendo a essa necessidade, o presente estudo teve por objetivo verificar a repercussão do BP ao nascer no desempenho motor, ainda no primeiro semestre de vida (3 2 e 62 mês), de lactentes nascidos a termo, pequenos para a idade gestacional (PIG), por meio da comparação destes com Rev. bras. jisiota um grupo-controle nascido com peso adequado para a idade gestacional (AIG). Os dados apresentados neste artigo são parte de um extenso estudo multidisciplinar sobre o desenvolvimento, no primeiro ano de vida, de lactentes nascidos PIG. METODOLOGIA Trata-se de um estudo de corte seccional, no 32 e no 62 mês de vida, a partir de um estudo prospectivo e duplo-cego. A pesquisa foi realizada pelo Grupo Interdisciplinar de Avaliação do Desenvolvimento Infantil (GIADI) no Laboratório de Estudos do Desenvolvimento Infantil I (LEDI I) do Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação "Gabriel Porto" da FCMIUNICAMP, seguindo as disposições e os princípios da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os lactentes foram recrutados entre 2000 e 2001, sendo incluídos apenas os nascidos no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) da UNICAMP; as gestações de feto único; os recém-nascidos (RN) com idade gestacional variando entre 3 7 e 41 semanas; 19 os RN assintomáticos, sem necessidade de cuidados especiais, exceto manutenção da estabilidade clínica e glicemia; os RN PIG (compondo o grupo de risco); os RN AIG (compondo o grupocontrole); e os RN cujos pais assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para cada RN PIG selecionado, foram convidados dois RN AIG para compor o grupo-controle. Foram excluídos do estudo os RN que apresentaram malfommções congênitas ou síndromes neurológicas, diagnosticadas no período neonatal, e os portadores de infecção congênita confim1ada (sífilis, toxoplasmose, rubéola, doença por citomegalovírus e herpes simples). Foram considerados critérios de descontinuação no período de estudo a oconência de qualquer patologia neurológica, necessidade de internação em Unidade de Terapia Intensiva e desistência voluntária por parte dos pais ou responsáveis. Durante as primeiras 48 horas após o parto, uma equipe de psicólogos e assistentes sociais visitou cada família, a fim de informar sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa e convidar os pais a participarem do programa de acompanhamento dos lactentes. A concordância da família em participar foi confimmda pela assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. No período neonatal, foram coletados dados para caracterização e descrição das amostras, como o peso ao nascer e Índice de Apgar no ]<1 e no no 52 minuto de vida, além da idade e da escolaridade das mães. Os lactentes foram avaliados no 32 e no 62 mês de vida, mais ou menos por sete dias. Durante esse período de avaliação os examinadores não conheciam o peso de nascimento do lactente ou a que grupo cada um pertencia, assegurando o duplo-cego do estudo. O desempenho motor foi mensurado e pontuado utilizando-se a Alberta Infant Motor Scale (AIMS). 20 263 Baixo Peso ao Nascer e Desempenho Motor Vol. 8 No. 2, 2004 Embora sejam perceptíveis as diferenças entre as médias dos percentis, a análise estatística, por meio do teste F e do teste t de Student, não mostrou significância entre as mesmas (p > 0,05). Tais dados, no entanto, revelaram que ambos os grupos (AIG e PIG) estão situados num percentil médio abaixo do grupo normativo canadense, representado pelo percentil 50 (Figura 1). Em relação aos lactentes avaliados no 62 mês, 19 pertenciam ao grupo AIG e 1O, ao grupo PIG, totalizando uma amostra de 29 lactentes. Considerando a classificação na AIMS, o percentil médio do grupo AIG foi de 29,7 (desviopadrão 23,5) e do grupo PIG foi de 15,5 (desvio-padrão 10,1). Ambos os grupos tiveram percentilmédio abaixo do grupo nom1ativo e grande dispersão nos dados (Figura 2). A análise estatística, utilizando o teste F para as variâncias, mostrou diferença significativa entre os grupos (p < 0,05). A diferença no número de lactentes AIG e PIG avaliados no 32 e no 62 mês é decorrente do próprio desenho do estudo, em que foram considerados todos os avaliados nos meses de estudo. Essa diferença evidencia as dificuldades encontradas em estudos de acompanhamento clínico de lactentes, relacionadas à adesão das famílias ao estudo. Trata-se de uma escala desenvolvida no Canadá, que· avalia a aquisição das habilidades motoras axiais de lactentes de zero a 18 meses de idade e pem1ite a classificação de cada lactente em uma curva de desenvolvimento que varia entre o percentil 5 e 90. A curva de desenvolvimento da AIMS representa os dados de normalidade dos lactentes canadenses, e neste estudo serviu de base para a comparação entre os grupos e em relação ao percentil médio da população normativa. Os dados foram armazenados e analisados com suporte do programa Epi-Info 6.04 e SPSS 11.0. Considerando uma amostra não tendenciosa da população, a distribuição pode ser considerada aleatória e ser representada por uma distribuição de Gauss. Os testes utilizados para comparação dos dois grupos foram o teste F para as variâncias e o teste t de Student para as médias. O nível de significância foi fixado em 5%. RESULTADOS Os dados neonatais apresentados pelos lactentes a termo AIG correspondem a peso médio de 3.179 gramas (desviopadrão de 271,1 7), Índice de Apgar médio de primeiro minuto 8 (desvio-padrão 1, 77) e de quinto minuto 9 (desvio-padrão 0,60). A idade média das mães foi de 24 anos (desvio-padrão 5,25) e o grau médio de escolaridade estava situado entre 5 e 8 anos de estudo. Os \actentes a termo PIG apresentaram em média 2.378 gramas (desvio-padrão de 128,49) e Índice de Apgar médio de primeiro e quinto minuto, respectivamente, 9 (desviopadrão de 1,22) e I O (desvio-padrão de 0,51 ). Em relação ao perfil matemo, os dados foram semelhantes ao grupo AIG. As mães dos \actentes a tenno PIG tinham em média 25 anos (desvio-padrão 8,22) e o grau médio de escolaridade também foi de 5 a 8 anos de estudo. A avaliação realizada no 32 mês envolveu 29 lactentes nascidos com AIG e 11 nascidos com PIG, totalizando uma amostra de 40 \actentes. Houve grande dispersão dos dados, sendo que o grupo AIG apresentou percentilmédio de 38 (desvio-padrão 29), enquanto o grupo PIG demonstrou percentilmédio de 27 (desvio-padrão de 23). DISCUSSÃO É fundamental salientar as dificuldades existentes para comparar os dados da literatura relacionados às repercussões do BP ao nascimento sobre o desenvolvimento de lactentes a tem1o. Duas importantes publicações levantam os principais problemas metodológicos presentes em grande parte dos estudos publicados, apontando para os diferentes critérios de seleção de amostra, as falhas em controlar variáveis importantes (adequação de peso e idade gestacional, complicações gestacionais e influências genéticas) e a não padronização dos resultados. 21 ·22 Neste estudo, consideraram-se a variável peso de nascimento e a adequação deste à idade gestacional, excluindose da amostra a prematuridade e as patologias diagnosticadas no nascimento, no intuito de verificar a influência do peso de nascimento sobre o desenvolvimento motor. 100% V> ~ 75% <t ·~ c 50% CIJ u Qj c... 25% 0% 3 DAIG 5 7 9 11 13 15 17 19 .PIG Figura 1. Distribuição dos lactentes PIG e AIG segundo classificação na AIMS - 3º mês. 21 23 25 27 Lactentes 29 Santos, D. C. C. et a/. 264 Rev. bras. flsiotet: 100% Vl 75% ~ <! ·.;:::; c(]) 50% u Qj c.. 25% 0% 2 3 .PIG 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 Lactentes DAIG Figura 2. Distribuição dos lactentes PIG e AIG segundo classificação na AIMS - 6º mês. A avaliação do desempenho motor no 3Q mês não mostrou diferença significativa entre os lactentes a termo PIG e AIG. No entanto, o percentil médio dos lactentes a tenno PIG foi inferior ao dos lactentes a termo AIG, respectivamente 27 e 38. Os lactentes a tem1o PIG do presente estudo, avaliados no 6Q mês, apresentaram desempenho motor significativamente inferior aos lactentes a termo AIG. Verificou-se que o percentil médio do grupo AIG foi de 29,7 e do grupo PIG, de 15,5. É importante considerar que, comparado ao 3Q mês, o 6Q mês se destaca por maior distanciamento do percentil entre os grupos PIG e AIG e entre esses e a média canadense. A discussão dos resultados considerará os achados deste estudo referentes ao desempenho motor dos grupos no 3Q e no~ mês, à dispersão nos dados (percentil de cada lactente) evidenciada nos dois grupos, tanto no 32 como no 6Q mês, e ao percentil médio dos grupos diante da média do grupo normativo canadense. Um importante ponto a ser levantado é o fato de que, neste estudo, a seleção de recém-nascidos a tem1o, clinicamente estáveis, sem condições patológicas identificadas no período neonatal ou durante o acompanhamento, destacados por apresentarem declínio no peso ao nascer, compõe uma população de estudo que não apresenta riscos significativos para alterações no desenvolvimento. Dessa fonna, a questão levantada no estudo de Chard et af2 2 se faz presente nos resultados do presente estudo: "estaria um lactente a tenno nascido pequeno, filho de uma mãe nom1al, em maior risco para resultados não favoráveis do que seus pares nascidos maiores?". Semelhantemente aos resultados encontrados no 3Q mês, estudos referem pontuação ou escore sistematicamente menor nos grupos a tem1o de BP quando comparados a grupo-controle, ainda que sem significância estatística. 10· 15 ·25 Nos estudos de corte transversal, as diferenças encontradas são tanto em domínios específicos 10 (diferença no desenvolvimento mental e não no desenvolvimento motor), quanto em todos os aspectos avaliados. 2 Nos estudos de acompanhamento longitudinal, são escassos os dados sobre o lactente durante o primeiro ano de vida. Os resultados geralmente se referem a lactentes a partir do 12Q mês de vida e as diferenças encontradas não surgem em todas ou na maioria das idades avaliadasY· 24 Esses relatos da literatura, associados aos resultados do presente estudo, sugerem que, embora não possam ser considerados expostos a importante risco, lactentes PIG podem ser mais suscetíveis a alterações, ainda que discretas, no desenvolvimento. Estudos em que crianças nascidas com BP foram avaliadas nas idades pré-escolar e escolar relacionam o declínio no peso ao nascer com a ocorrência de problemas de motricidade apendicular e visuo-motora, o que contribuiria para o aumento das dificuldades acadêmicas nessa população6.16.17 Os dados neonatais e familiares mostram que não havia diferenças marcantes entre os grupos e que, quanto à vitalidade ao nascer, o grupo PIG se apresentava em vantagem (Índice de Apgar médio 9 e 1O) em relação ao grupo AIG (Índice de Apgar médio 8 e 9). Alguns trabalhos brasileiros constataram que o desenvolvimento motor de lactentes a tem10 PIG tende a ser inferior ao dos lactentes a tenno AIG, além de ser mais afetado por circunstâncias sociais desfavoráveis. 14 · 15 · 2 Embora sem diferença significativa, um estudo conduzido no Nordeste do Brasil, envolvendo 131lactentes a tenno PIG e 131 AIG, encontrou escores mais baixos referentes à avaliação motora e mental no grupo nascido com BP no 6Q e no 12Q mês. 15 Neste trabalho, o valor de escore do grupo PIG foi atribuído à maior freqüência de diarréia. No estudo conduzido por Eickmann et ai} os resultados significativos referentes ao desempenho mental e motor no 242 mês de vida foram atribuídos à condição sócio-econômica desfavorável, à pobre estimulação ambiental e ao BP ao nascer. Aspectos relacionados à estimulação ambiental ou ocorrência de patologias como diarréia e desnutrição não foram considerados no presente estudo. Porém, considerando a homogeneidade dos grupos, evidenciada nos dados neona- Vol. 8 No. 2, 2004 Baixo Peso ao Nascer e Desempenho Motor tais e familiares, pode-se sugerir que o BP ao nascer foi responsável, pelo menos em parte, pela diferença encontrada no 62 mês e pelos escores mais baixos, no 32 mês, do grupo PIG. Um estudo realizado utilizando a AIMS em lactentes brasileiros saudáveis mostrou que entre o 52 e o 62 mês de vida ocorrem as maiores aquisições motoras, sendo este um periodo de grandes mudanças comportamentais para o desenvolvimento motor. 26 Os resultados obtidos no 62 mês de estudo sugerem que, em lactentes expostos a fatores de risco, como o BP ao nascer, os periodos de maiores mudanças no comportamento motor talvez sejam os de maior evidência de diferenças, quando comparados a lactentes sem risco. As Figuras 1 e 2 mostram considerável variação na classificação de cada lactente na curva de desenvolvimento proposta pela AIMS. Essa dispersão nos dados foi evidenciada nos dois grupos, tanto no 32 como no 62 mês. Um estudo realizado com o objetivo de verificar a estabilidade dos escores obtidos por lactentes normais, avaliados pela AIMS, mostrou que tais lactentes apresentam variação na taxa de aquisição da motricidade, evidenciada pela oscilação no escore ou percentil a cada avaliação. 27 A dispersão nos dados encontrada no presente estudo pode ser característica da instabilidade inerente ao processo de aquisição de habilidades motoras axiais. A visão não contínua do ritmo do desenvolvimento motor é sustentada pela abordagem dos sistemas dinâmicos. 28 Essa instabilidade na aquisição motora e conseqüente dispersão de dados traz implicações para os programas de triagem e reforça a· necessidade do acompanhamento longitudinal para identificar corretamente os lactentes com alteração motora. Ambos os grupos (PIG e AIG), avaliados no 32 e no 62 mês, tiveram percentilmédio inferior ao grupo nom1ativo canadense, destacando-se o maior distanciamento dos grupos em relação à AIMS no 62 mês. Tal fato pode ser decorrente da não validação da AIMS para os padrões de desenvolvimento dos lactentes brasileiros. Resultado similar foi encontrado em outro trabalho, que avaliou 30 lactentes brasileiros institucionalizados. Constatou-se que 97% dos lactentes apresentaram percentilmédio mensal abaixo de 50%, sendo o percentil médio do grupo estudado de 27%. 29 Um estudo recente conduzido na cidade de São Carlos, SP, com o objetivo de comparar o desenvolvimento motor, no primeiro semestre de vida de lactentes brasileiros saudáveis, com os padrões de normalidade da AIMS, demonstrou que o padrão de desenvolvimento dos dois grupos é diferente e que a classificação no percentil 25 caracterizou a maioria dos lactentes participantes. 26 Os resultados do presente estudo, principalmente do grupo AIG, associados aos descritos anteriom1ente mostram evidências de que o desenvolvimento motor dos lactentes 265 brasileiros saudáveis é diferente dos canadenses e reforça a necessidade de conhecimento dos padrões de normalidade e da validação de instrumentos de avaliação para Jactentes brasileiros. 30 Com este estudo, pôde-se verificar que os lactentes apresentaram instabilidade na aquisição da motricidade e percentil médio inferior ao grupo nonnativo canadense. Além disso, no 32 mês de vida, o grupo PIG apresentou percentil médio inferior ao grupo AIG, no entanto, tal diferença só se tómou estatisticamente significativa na avaliação do 62 mês. Considerando o maior distanciamento do percentil entre os grupos PIG e AIG e entre esses e a média canadense, a AIMS mostrou-se eficaz na detecção de diferenças no desenvolvimento motor de lactentes a termo nascido com BP, no 62 mês de vida. Este parece ser um mês crítico na observação do comportamento motor do grupo estudado, quando avaliado pela AIMS. Tendo em vista que os grupos estudados foram selecionados segundo critérios bem definidos, eles apresentaran1 caracteristicas semelhantes referentes à idade gestacional, à vitalidade ao nascer e à estabilidade clínica no periodo neonatal. Concluiuse que a variável peso de nascimento pode ter influenciado a performance motora dos grupos, favorecendo o grupo com peso adequado para a idade gestacional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS I. Gaetan EM, Moura-Ribeiro MVL. Developmental study of early posture contrai in preterm and fullterm infants. Arq Neuropsiquiatr 2002; 60(4): 954-958. 2. Eickmann SH, Lira PIC, Lima MC. Desenvolvimento mental e motor aos 24 meses de crianças nascidas a termo com baixo peso. Arq Neuropsiquiatr 2002; 60: 748-754. 3. Mancini MC, Teixeira S, Araújo LG, et ai. Estudo do desenvolvimento da função motora aos 8 e 12 meses de idade em crianças pré-termo e a termo. Arq Neuropsiquiatr 2002; 60(4): 974-980. 4. Si vai DA, Visse r GH A, Prechtl HFR. The effect o f intrauterine growth retardation on the qual ity o f general movements in the human fetus. Early H uman Development 1982; 28:119-132. 5. Paneth NS. The problem of low birth weight. Future Child 1995; 5: 19-34. 6. Goyen TA, Lui K, Woods R. Visual-motor, visual-perception and fine motor outcomes in very-low-birth weight children at 5 years. Developmental Medicine and Child Neurology 1998; 40: 76-81. 7. Avchen RN, Scott KG, Mason CA. Birth weight and schoolage disabilities: a population-based study. American of Journal Epidemiology 200 I; 154: 895-90 I. 8. Chiswick ML. lntrauterine growth retardation. Br Med J 1985; 291: 845-848. 9. Ounsted M. Small-for-dates babies: a developmental update. Pediatr Perinat Epidemiol 1988; 2: 203-207. 266 Santos, O. C. C. et ai. 1O. Markestad T, Vik T, Ahlsten G, Gebre-Medhin M, Skjaerven R, Jacobsen G, et ai. Small-for-gestational-age (SGA) infants born at term: growth and development during the first year of life. Acta Obstei Gynecol Scand 1997; 76 Suppl( 165): 93-1 O1. 11. Munis IACC. Fluxo sangüíneo cerebral no período neonatal e correlação com o desenvolvimento neuropsicomotor no sexto mês de vida em lactentes a termo pequenos para a idade gestacional [dissertação]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas; 2002. 12. Miller N. A neuropsychological investigation of visualperceptual and visual-motor abilities in very low birth weight children. Dissertation Abstracts lnternational: Section 8: The Sciences and Engineering 1999; 59(9-8). 13. Hack M, Taylor H, Klein N, Eiben R, Schatschneider C, Mercuri-Minich N. School-age outcomes in children with birth weight under 750 g. The New England Journal of Medicine 1994; 331: 753-759. 14. Grantham-McGregor SM, Lira PIC, Ashworth A, Morris SS, Assunção AMS. The development of low birth weight term infants and the effects o f the environment in northeast 8razil. J Pediatr 1998; 132: 661-666. 15. Morris SS, Grantham-McGregor SM, Lira PIC, Assunção MA, Ashworth A. Effects of breastfeeding and morbidity on development of low birth weight term babies in 8razil. Acta Pediatr 1999; 88: 11 O1-1106. 16. Klein N, Hack M, Geallagher J, Fanaroff A. PRESCHOOL performance of children with normal intelligence who were very low birth-weigth infants. Pediatrics 1985; 75: 531-537. 17. Ornstein M, Olsson A, Edmonds J, Asztalos E. Neonatal followup of very low birth weight/extremely low birth weight infants to school age: a criticai overview. Acta Paediatrica Scandanavia 1991; 80: 741-748 18. 8ecker P, Grunwald P, 8razy J. Motor organization in very low birth weight infants during caregiving: effects of a developmental intervention. Developmental and 8ehavioral Pediatrics 1999; 20: 344-354. Rev. bras. jisiotet: 19. Lubchenco LO, Hansman C, Dressler M, 8oyd E. lntrauterine growth as estimated from liveborn birth-weight data at 24 to 42 weeks of gestation. Pediatrics 1963; 11: 793-800. 20. Piper MC, Darrah JM. Motor assessment of the developing infant. Philadelphia: W. 8. Saunders Company; 1994. 21. Aylward GP, Pfeiffer SI, Wright A, Verhulst SJ. Outcome studies of low birth weight infants published in the last decade: a meta-analysis. J Pediatr 1989; 115: 515-520. 22. Chard T, Yoong A, Macintosh M. The myth of fetal growthretardation at term. 8ritish Journal of Obstetrics and Gynaecology 1993; 100: 1076-1081. 23. Low JA, Galbraith RS, Muir O, Killen H, Pater 8, Karchmar J. lntrauterine growth retardation: a study of long-term morbidity. Am J Obstet Gynecol 1982; 142: 670-677. 24. Hill RM, Verniaud WM, Deter RL, Tennyson LM, Rettig GM, Zion TE, et ai. The effects of intrauterine malnutrition on the term infant: a 14-year progressive study. Acta Paediatr Scand 1984; 73: 482-487. 25. Newman DG, O'Callaghan MJ, Harvey JM, Tudehope DI, Gray PH, 8urns YR, et ai. Characteristics at four months follow-up of infants born small for gestational age: a controlled study. Early Hum Dev 1997; 49: 169-181. 26. Lopes V8. Desenvolvimento motor de bebês segundo a Alberta lnfant Motor Scale [dissertação]. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos; 2003. 27. Darrah J. Redfern L, Maguire TO, 8eaulne AP, Watt J. lntraindividual stability of rate of gross motor development in fullterm infants. Early H uman Development 1998; 52: 169-179. 28. Thelen E. Motor development: a new synthesis. American Psychologist 1995; 50: 79-95. 29. Castanho AAG. Caracterização do desenvolvimento motor da criança institucionalizada [dissertação]. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie; 2003. 30. Santos DCC, Gabbard C, Gonçalves VMG. Motor development during the first six months: the case o f brazilian infants. lnfant and Child Oevelopment 2000; 9: 161-166.