Conexão e Mobilidade - o currículo na cultura digital Maria da Graça Moreira Resumo Este artigo busca refletir sobre a integração das tecnologias ao currículo tomando como argumento central a importância da apropriação social desses dispositivos e a leitura crítica e a interpretação da cultura digital pelos professores, alunos e pela comunidade escolar. Versa sobre o papel da autoria a conscientização de tornar públicas as produções de professores e alunos para além dos espaços da sala de aula. A ação dos de leitores e navegadores para autores. Portanto, a inserção das tecnologias digitais da informação e comunicação é entendida em conjunto com novas oportunidades para repensar-se em novos currículos e, ao mesmo tempo, reconstruí-los. Palavras-chave: aprendizagem com mobilidade; tecnologias e educação; tecnologias digitais de informação e comunicação na educação Apresentação As mudanças nas organizações sociais foram aceleradas nos últimos anos, principalmente pelos avanços científicos e tecnológicos que, juntamente com as transformações sociais e econômicas, revolucionaram as formas como nos comunicamos, nos relacionamos com as pessoas, com os objetos e com o mundo. Encurtam-se as distâncias, expandem-se fronteiras, o mundo fica globalizado. Na esteira da economia o mundo torna-se plano para as comunicações. (FRIEDMANN, 2005) Na sociedade contemporânea vivemos sob conexão e em conexão com outros, vivemos num mundo já, em parte, imerso na cultura digital e esse mundo, repleto de mídias e de dispositivos em formatos diversos, acrescenta novas funções e componentes à comunicação e novos conceitos às práticas sociais. Vivemos na era da conexão. Muitos manifestam a necessidade de estar conectados o dia inteiro, com o celular ligado, com o e-mail aberto, pronto para 1 receber, enviar ou comentar qualquer notícia. Estar e ser conectado pode ser considerado como uma condição à inclusão à contemporaneidade e, nesta perspectiva, Weinberger (2003) conceitua esta era como a “era das conexões” pontuando que a conexão se configura como um dos princípios constitucionais da democracia e da economia nas sociedades. Desta forma, o não acesso e a não conexão impele os indivíduos à exclusão digital e social. Green (2009) cunha o jargão “surfo logo sou” como um desafio à democratização da internet e a participação em redes colaborativas e sociais como elemento de humanização, vislumbrando o que já está acontecendo em países e comunidades mais afastadas e ciente que a cultura digital não abrange as enormes populações que não têm acesso à eletricidade e muito menos ao universo informatizado. Em nosso cotidiano deparamo-nos com recursos possíveis à comunicação, que valemo-nos para a realização de diversos tipos de transações e na produção e no acesso e compartilhamento de informações. A evolução tecnológica é responsável por inaugurar essa nova forma de acessar e de produzir informações, marcada notadamente pela disseminação e uso de microcomputadores (computadores pessoais) em diferentes segmentos da sociedade nos anos 70 do século passado e pela popularização do uso das internet e Web de meados dos anos 90 até os dias atuais. O advento da microinformática e da internet favoreceu, dessa forma, o desenvolvimento de uma cultura de uso das mídias e, por conseguinte, de uma configuração social pautada num modelo digital de pensar, criar, produzir, comunicar, aprender, o qual já nos permite afirmar que os dias atuais são pautados pela comunicação e pelo gerenciamento da informação. Para Lemos (2004), cultura digital é fruto de uma confluência entre uma sociabilidade que emergia na década de 1960 e uma posição contrária a alguns discursos hegemônicos da era moderna, como a razão, a ciência e a técnica. Para o autor “a microinformática surge ao mesmo tempo que a contracultura, é fruto da contracultura.” e, desta forma, situa os primórdios da cultura digital a partir da popularização da microinformática, que possibilitou, a um cidadão, ter “na sua mão um instrumento de produção de informação” sem a dependência de grandes grupos de mídia ou do Estado. Esse instrumento – o 2 microcomputador - foi se transformando e se recontextualizando e, com a disseminação do acesso e uso da internet, se converteu em um instrumento de produção e de consumo de informação, com a possibilidade de produção coletiva, colaborativa e distributiva da informação. Lemos, identifica três fases no desenvolvimento da microinformática. A primeira fase é o Personal Computer ou computador pessoal, o PC, cuja característica era o uso de programas para produtividade no trabalho, entretenimento, software educacionais dentre outros, mas para uso individual, sem conexão. A segunda fase, intitulada como a fase do Computador Coletivo ou o computador conectado, surge a partir da década de 1990, quando esses dispositivos passam a ter a possibilidade de conexão à rede mundial. A terceira fase, denominada por CCM, ou Computação Coletiva Móvel, é caracterizada pelo uso de computadores portáteis conectados e móveis, mas que apenas possuem sentido quando usados coletivamente, à exemplo do estabelecimento de redes sociais por meio do uso das ferramentas das mídias sociais. Portanto, a apropriação social e coletiva dos instrumentos tecnológicos é uma característica da cultura digital. “A era da conexão é a era da mobilidade” (LEMOS, 2006). São considerados móveis os dispositivos portáteis com comunicação via tecnologia móvel sem fio, como: telefone celular, tocadores de áudio (ipod, mp3 etc.), console de games; computadores portáteis como notebook, netbook, tablet além de dispositivos como e-book etc. Usualmente os dispositivos móveis possuem dimensões reduzidas, são leves e multifuncionais permitindo a comunicação via textos, áudio, vídeo e com serviços como geolocalização. Para conexão, os dispositivos móveis devem contar com infraestrutura tecnológica de redes que possibilitam a conexão. A tecnologia provê a infraestrutura e dispositivos, o suporte à cultura digital, e para a comunicação, mas é seu uso que faz a diferença. A cultura digital, por sua vez, não é conceituada pelo determinismo tecnológico, mas emerge como consequência do intenso uso e apropriação social dessas tecnologias de informação e comunicação no dia a dia. 3 Santaella (2003), por sua vez, coloca “…não devemos cair no equívoco de julgar que as transformações culturais são devidas apenas ao advento de novas tecnologias e novos meios de comunicação e cultura, pois os meios de comunicação, não passam de meros canais para a transmissão de informação”, mas, prossegue a autora “...estariam esvaziadas de sentido não fossem as mensagens que nelas se configuram” (grifo nosso, p.25) São, isto sim, os tipos de signos que circulam nesses meios, os tipos de mensagens e processos de comunicação que neles se engendram os verdadeiros responsáveis não só por moldar o pensamento e a sensibilidade dos seres humanos, mas também por propiciar o surgimento de novos ambientes socioculturais. (p.24) Para a autora é a evolução da cultura oral, das mídias para a cultura digital que reconfigura a forma de pensar, interagir e viver de muitas pessoas e grupos sociais. Mobilidade O indivíduo móvel é um nômade, que se move de um lugar para outro sem perder contato com o coletivo da “aldeia” eletrônica. Desde que estejam em sua rede de recepção, eles ainda estão (presumivelmente) disponíveis. (LICHTY, 2006). Os dispositivos móveis, nomeadamente, são responsáveis por grande parte do estabelecimento da nova configuração social da cultura digital. O telefone celular é o dispositivo que nos vem à mente quando falamos de tecnologias móveis. É fato, nós utilizamos esse dispositivo e dele nos apropriamos, não apenas para a função de telefonia, mas para envio de mensagens, geolocalização, burca de informações, participação em redes sociais etc. De acordo com Keegan (2002) a telefonia móvel representa o conceito de mobilidade e de conexão. A ele já agregamos muitos serviços e, na educação, também não é diferente. Há um caráter novo na mobilidade: o lugar, o tempo e a audiência para a comunicação. Comunicamo-nos em tempo real, de qualquer lugar onde 4 estejamos, desde que conectados, para uma pequena ou grande audiência. A conexão nos dá a possibilidade da mobilidade. A mobilidade tem diversas características: a tecnológica, que permite a utilização de um dispositivo em diferentes localidades e a do conteúdo, que diz respeito ao acesso à informação, ao lugar onde ela pode ser produzida, onde se encontra, não importando o fato em si, mas a capacidade de ser distribuída, compartilhada e acessada por um ou muitos. Trata-se também da utilização dos dispositivos em deslocamento, como o uso dos aparelhos celulares e igualmente com os computadores portáteis. Podemos nos referir ao modo pleno da mobilidade: comunicar, a qualquer hora, de qualquer lugar em diferentes contextos a partir de um dispositivo móvel com uma ou muitas pessoas. A mobilidade e a apropriação social e coletiva dos dispositivos móveis é, também, uma característica da cultura digital. Lemos (2004), traz o seguinte caráter à mobilidade: “espaços sociais conectados, definidos pelo uso de interfaces portáteis como os nós da rede... a transformação das interfaces estáticas em interfaces móveis, o que define nossa percepção de espaços digitais” (p. 1). Nosso cotidiano é repleto de situações práticas na qual nos valemos da mobilidade tecnológica. Capturamos uma imagem na câmera do celular e temos a função “envio”. Em instantes, uma rede social, um endereço na internet, um celular ou email recebe a imagem. Os tocadores de mp3, por exemplo, armazenam as preferências musicais que podem ser acessadas a qualquer momento. Com os computadores portáteis, basta estarmos conectados para navegar pela web, enviar mensagens instantâneas, postar notícias em redes sociais, abrir a correspondência eletrônica, entre outras possibilidades. O armazenamento de informações pode ficar na “nuvem” da internet e pode ser acessado a cada conexão e por meio de qualquer dispositivo. E se utilizarmos as redes sem fio, nos conectamos à internet em qualquer lugar onde esteja disponível um ponto de acesso. A conexão sem fio é um avanço na mobilidade. É a mobilidade conectada. A conexão pode se dar utilizando-se um serviço de 5 telecomunicação móvel com acesso direto do dispositivo à internet. A outra via é a dos computadores móveis, que acessam a internet por meio de redes sem fio, as quais distribuem o sinal vindo de um aparelho ligado a um provedor de serviços dessa natureza. Usuários de dispositivos móveis costumam acessar a web nos mais diversos locais, como ônibus, metrô, escolas, praças, cafés, shoppings, aeroportos etc. Podemos pensar numa possível privatização do espaço público, na rua, praça ou em qualquer lugar da cidade é nos comunicamos através de nossos dispositivos digitais móveis. Nas cidades contemporâneas, novos fluxos estão existindo permitindo assim uma redefinição do uso do espaço criando possíveis “lugares digitais”. Com o advento da internet, após ser considerada como espaço digital desconectado da realidade física, muitos autores se permitiram estudar as comunidades virtuais como lugares de libertação de seus corpos materiais e de criação de novas realidades. Anos depois, com a popularização e desenvolvimento de dispositivos móveis, que atualmente possibilitam conexão constante com a internet, não faz mais sentido dissertar sobre a desconexão entre espaço físico e digital, um novo conceito emerge, denominado “espaço híbrido”. Espaços híbridos são espaços móveis, criados pela constante movimentação de usuários que carregam dispositivos portáteis de comunicação continuamente conectados à internet e a outros usuários (Sousa e Silva, 2006). Os espaços híbridos conectam o físico com o digital, desta forma, a constante conexão e a possibilidade de mobilidade define o espaço híbrido. O espaço híbrido “toma forma” quando não se precisa mais sair do mundo físico e entrar no mundo digital, os limites entre espaço digital e físico são mais claramente definidos com a utilização da internet fixa e o mesmo não acontece com o uso das tecnologias móveis: Fica claro que essas tecnologias estão redesenhando rapidamente a cultura contemporânea, e consolidando uma cultura de rede que se espalha pela cidade ao mesmo tempo em que adensa o tráfego de informações pelas vias invisíveis que nos 6 conectam a tudo e todos, mesmo quando isto não é percebido.(ARTEMOV, 2006, p.1). De fato, são inúmeras as redes virtuais que possibilitam uma presencialidade via acesso remoto. Essas redes, criadas em universidades, escolas, entre outros, tornam-se cada vez mais viáveis devido à mobilidade tecnológica. O grau de convergência de mídias também é muito acentuado. Uma mesma informação pode ser disponibilizada por meio de áudio (podcast), de vídeo e de texto e, ainda, permite ao usuário comentar e interagir. Portanto, a convergência também possibilita maior grau de interatividade. E, mesmo inseridos nessa cultura digital móvel e conectada, de que forma reconhecemos essas potencialidades quando se trata de pensar na integração entre mobilidade e educação? A disseminação e o uso das tecnologias móveis provocam a reflexão sobre os conceitos de proximidade, distância e mobilidade, bem como a construção de novos conceitos, pois com seu uso emergem novas práticas sociais. De fato, as possibilidades tecnológicas da cultura digital no qual se consegue, por meio de dispositivos sem fio, comunicar e informar a qualquer tempo e de qualquer lugar estão viabilizando mais que informação e entretenimento. Em outras palavras, isso significa que há espaço para que o processo educacional também se desenvolva a partir de um conceito que podemos denominar “educação móvel e conectada”. Mas, tratando-se da educação, como aplicar esse conceito e como recontextualizar a prática pedagógica para que ela também incorpore esse novo, outra forma de dar acesso à informação e a produção e troca coletiva? Esse cenário traz novas implicações à educação, objeto de nosso estudo. A partir dessas reflexões, analisaremos a articulação entre mobilidade e educação. Mobilidade e educação A mobilidade tem sido alvo de investigações e já são identificados conceitos que emergem da integração da mobilidade e educação e alguns deles serão retomados neste artigo. Cabe alertar que não é possível fazer a leitura da 7 integração entre educação e mobilidade com o mesmo olhar da educação (não móvel) convencional, pois, conforme pontua Almeida (2009), “A leitura deste mundo não pode ser feita com os mesmos instrumentos de mundos passados” (p.30) e, portanto, a educação na perspectiva da cultura digital móvel e conectada sugere novos olhares e novos instrumentos de leitura. A integração entre educação e mobilidade, neste artigo, não é entendida segundo o componente de deslocamento do humano ou do computador, mas a partir da leitura crítica da cultura digital móvel conectada e suas possibilidades na educação. Portanto, ao distribuir um computador por aluno em uma escola, por exemplo, a mobilidade não se limita ao deslocamento dos alunos para o estudo em diferentes espaços ou no deslocamento dos computadores para um ou outro espaço. Para adensar essa reflexão, retomaremos alguns conceitos cunhados por pesquisadores e educadores sobre o tema. Keegan (2002), um dos precursores no estudo da mobilidade e educação, identificou e analisou, no ano de 2001, trinta exemplos de uso de dispositivos móveis na educação e termo empregado pelo autor e seus colaboradores para este uso foi mobile-learning ou m-learning. O autor pontua em seus estudos a evolução do e-learning (eletronic learning, ou aprendizagem por meios eletrônicos) para o m-learning, tendo ambos se originado na educação a distância. Keegan, em seu estudo, identifica o telefone celular como um dispositivo possível para aprendizagem devido ao acesso à internet e uma ampla gama de possibilidades para manter o estudante mesmo que a distância em contato a instituição de ensino, com os serviços de suporte, em contato com materiais e com seus colegas de aprendizagem, tanto no ambiente de aprendizagem propriamente dito como no trabalho ou em viagens. De acordo com Rheingold (2003): “a mobilidade estabelece uma “nova revolução social nesse estágio de comunicação pessoal, que se traduz por uma sociedade móvel e conectada. Alunos e professores podem estar em casa, na escola, em museus, em diferentes espaços sociais ou mesmo em deslocamento: 8 conectados e interagindo.” É importante destacar que a convergência das mídias e dos dispositivos móveis contribui para o crescimento da aprendizagem com mobilidade. Marçal, Andrade e Rios (2005) destacam o uso de dispositivos móveis no processo educacional, citando seus principais objetivos: Melhorar os recursos para o aprendizado, que poderá contar com um dispositivo para execução de tarefas, anotação de idéias, consulta de informações via internet, registros digitais e outras funcionalidades; Prover acesso aos conteúdos qualquer lugar e a qualquer momento; em Aumentar as possibilidades de acesso a conteúdos, incrementando e incentivando a utilização dos serviços providos pela instituição; Expandir as estratégias de aprendizado disponíveis, através de novas tecnologias que dão suporte tanto à aprendizagem formal como à informal; Fornecer meios para o desenvolvimento de métodos inovadores de ensino, utilizando os recursos de computação e de mobilidade. (p. 3). M-learning não se refere unicamente ao acesso à conteúdos “a qualquer hora” e “em qualquer local” e em deslocamento por alunos e professores, como materiais digitais educacionais, informações, notícias, mas envolvem também a interação, colaboração, socialização, aulas online, pesquisas, publicações etc., distribuídos nas redes, nos ambientes educacionais em formatos e mídias diversas. A educação com mobilidade deve considerar, inclusive, o contexto do aluno e professor e suas implicações. Cada dispositivo possui peculiaridades e isso também diferencia a forma de acessar os recursos, os conteúdos e de disponibilizar e organizar as informações. Assim, ao analisarmos as questões que envolvem educação e mobilidade, também é necessário compreender que as tecnologias móveis não podem ser unificadas e sim diferenciadas na metodologia, conteúdo e contexto da educação. 9 Schlemer, Saccol, Barbosa e Reinhard (2007) em um estudo sobre o uso de m-learning no Brasil e incorporam o conceito de aprendizagem com mobilidade que, para os autores, a se aproxima com o conceito de aprendizagem pervasiva, citando Thomas ( 2005, p. 01): “[...] Na sua essência, a aprendizagem pervasiva diz respeito a utilizar a tecnologia que um aprendiz tem em mãos para criar situações de aprendizagem significativa e relevante, de autoria do próprio aprendiz, no contexto que o aprendiz entender como significativo e relevante” (ibidem). É importante destacar neste conceito que o foco não dado à tecnologia. A UNESCO (2010) identifica e aponta algumas mudanças na prática pedagógica decorrente da aprendizagem com mobilidade, como a eliminação de laboratórios ou salas especiais com computadores, a possibilidade de alunos e professores acessarem aplicações sempre que necessário ou, ainda a realização de uma atividade e a comunicação ao mesmo tempo. Porém, destaca as possíveis mudanças, dentre as quais: Dinâmica da sala de aula – provendo novas formas de comunicação e colaboração e a forma de conexão da aprendizagem dos alunos com outras aprendizagens e a jornada casa/escola entre as aulas. Conexão com alunos remotos – oportunizando aos alunos a troca de informações, expressão de dúvidas e o desenvolvimento habilidades no local onde se encontram. Alunos como produtores de informações – permitindo a atuação mais colaborativa e mediadora do professor por meio de atividades que envolvam comentários, discussão, construção e compartilhamento de recursos digitais pelos alunos. Aprendizagem ao longo da vida - assumindo, com o tempo, a responsabilidade e os hábitos de aprendizagem, facilitado pelo acesso móvel à redes sociais que podem apoiar os objetivos de aprendizagem e progressão na carreira ao longo da vida. A breve leitura da educação móvel conectada nos possibilita vislumbrar que algumas características dessa cultura devem ser investigadas com maior 10 profundidade. Evidencia-se, portanto, que a mobilidade na educação diminui e torna fluidas as fronteiras de comunicação entre escola, residência e trabalho, uma interferindo e influenciando e se imbricando na outra. Uma das principais características dos dispositivos móveis, além da possibilidade de acesso a informações, de suas características de mobilidade e imersão é a possibilidade de interação entre os alunos e entre alunos e professores, a qualquer momento e em qualquer lugar. O “outro” fica muito mais acessível, próximo. No âmbito pedagógico, a introdução de computadores nas mãos dos alunos descortina inúmeras possibilidades para o processo de ensino e aprendizagem, porém, essa utilização deverá ser precedida pela formação dos professores e gestores escolares. O processo de formação não pode estar centrado na aprendizagem do uso dos laptops, dos programas e da internet. Deve ir mais além, englobando a formação dos educadores para sua apropriação e inserção na era digital móvel, que implica na escola se enxergar como partícipe deste mundo digital, móvel e conectado e, desta forma, atuar como leitora crítica e autora deste mundo. A apropriação do uso das TDIC pela escola se dá por meio de processos de capacitação no contexto que se mesclam com a reflexão sobre os paradigmas e os temas emergentes da educação. A leitura crítica e interpretação do mundo digital são fundamentais nesse contexto. No entender deste estudo, a apropriação do uso de computadores portáteis (um por aluno) e seu uso inovador, pode se iniciar, mas não se limita ao uso desses dispositivos na escola e não se encerra com a descoberta de novos contextos de sua utilização, e envolve, nesse processo, a consciência do papel da escola como integrante da cultura digital móvel e as possíveis mudanças em sua ecologia. As tecnologias móveis conectadas podem reestruturar a escola para novas formas de comunicar, de informar, de gerenciar, de ensinar e de aprender. Os computadores portáteis, nesse cenário, mostram-se como o dispositivo de comunicação propício à conexão. O uso de um computador por aluno, além da 11 conexão, se caracteriza pela possibilidade imersiva, isto é, os estudantes podem fazer uso intenso dos computadores conectados à internet, não apenas em laboratórios de informática com acesso uma ou duas vezes por semana, mas no uso em sala de aula, no desenvolvimento de projetos em grupos, em estudos extraclasses, fora da escola e em casa. A idéia é que o aluno possa levar esses dispositivos para sua casa e amplie a rede de conexão para sua família e comunidade. A chegada de computadores portáteis na escola provoca, de imediato, alterações no cotidiano escolar: São necessárias instalações de infraestrutura para conexão sem fio; acesso à internet em banda larga, locais para armazenamento; método e locais para carregamento dos laptops; segurança dos equipamentos; suporte técnico e estrutura para manutenção dos equipamentos dentre outras providências de ordem organizacional e estrutural. A tecnologia toma a cena e ao ultrapassar esses obstáculos, a escola aprofunda seu uso pedagógico. Tratamos aqui do papel da autoria como um dos principais fatores potencializadores para apropriação e incorporação do uso inovador das TDIC da escola ao currículo no mundo digital. Interpretar o mundo e colocar suas palavras nele, no caso do mundo digital, alcança um significado mais ampliado, pois os espaços públicos do mundo digital podem alcançar o mundo todo. Considerações A educação está diante dos desafios contemporâneos provocados pela era da conexão e avanços tecnológicos que caminham em aliança com mudanças, que se manifestam na cultura e também na economia e na política. O uso das tecnologias da informação e comunicação pode imprimir na educação tanto a “modernização” como a “mudança” (Almeida, 2003). A mudança pedagógica está relacionada com raízes mais profundas na educação e de novos paradigmas educacionais. Deve-se juntar a tal conceito de mudança o seu compromisso com alterações profundas nas plataformas políticas da sociedade como a democracia e a justiça social. As mudanças sociais que vem se operando no mundo não se realizam pelas tecnologias 12 como muitos crêem, mas não se operam sem elas. São condições e não suas causas. A integração das tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC) ao currículo demanda que os agentes da educação (professor, aluno, comunidade e gestor), além do domínio operacional das ferramentas tecnológicas e de suas possibilidades para a educação, façam a leitura do mundo de forma crítica, o interprete e “lance sobre ele suas palavras”, buscando trazer o contexto de Paulo Freire para os dias atuais. No cenário da cultura digital, lançar sobre o mundo suas palavras pode, no contexto da internet, ampliar as possibilidades de conferir voz ao professor e aluno e, por meio da expressão de suas vozes, possibilitar a autoria e empoderá-los. Trata-se de democratizar o acesso e a expressão da voz dos professores e alunos por meio das TDIC e, a um só tempo, integrá-la ao currículo e oportunizar o processo de apropriação social da tecnologia e seu uso inovador pelos professores. Como poderia a mobilidade característica da cultura digital ser inserida na escola e provocar mudanças no currículo? Na educação emergem novas práticas a partir das potencialidades das TDIC. São portais de conhecimento, redes sociais, ambientes virtuais de aprendizagem e as demais ferramentas e recursos da Web 2.0, entre outros, os atuais suportes à inovação educacional. De fato, essa inovação, movida pela capacidade de comunicação característica do mundo digital, volta-se para uma utilização cada vez mais intensa das tecnologias digitais, requerendo práticas pedagógicas harmônicas com a forma de comunicar, informar e aprender nesse mundo globalmente conectado. Trata-se de uma mudança na maneira de pensar, de agir e de interagir por meio da internet decorrente, retomando a fala de Santaella (2003), da circulação nesses meios de diversos tipos de signos, mensagens e processos de comunicação que vem a propiciar o surgimento de novos ambientes socioculturais, como os ambientes de aprendizagem. Dessa forma, a apropriação e uso inovador das TDIC e sua integração ao currículo demanda o reconhecimento da capacidade de autoria e co-autoria do 13 professor e aluno. Se num passado muito recente eram apenas usuários ou “navegadores” do mundo digital e conectado, atualmente professores e alunos vivem cercados de tecnologias e mídias que convergem para permitir, além da comunicação, que aprendam e sejam produtores, difusores e compartilhadores da informação: passam a redatores de suas autorias e de suas práticas. ... na sociedade digital, o currículo não se modifica para agregar a tecnologia como mero recurso. Ele resignifica-se no modo de pensar que emerge com a sociedade digital em sua interação com os dispositivos digitais pois as tecnologias exercem a função estruturante das representações da informação, de nosso modo de ler e de viver no mundo digital. (JOSÉ, 2010, p.26) A autoria, porém, é precedida pela leitura do mundo, mas “A leitura deste mundo não pode ser feita com os mesmos instrumentos de mundos passados” (Almeida, 2009, p.30), quais instrumentos, então, serão necessários para esta nova leitura crítica no mundo digital? “Quais os temas que emergem deste mundo e que nos permitem escrevê-lo? Como problematizá-lo? Quais são seus códigos? Como dominá-los para a comunicação? Quais os problemas que trazem dentro de si? Como usá-los para intervir na realidade desumanizante?” Faz parte da autoria dos educadores e professores equacionarem as respostas a tais questões. Referências ALMEIDA, F. J. (2003) Notas de aula. 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