O ESTÁGIO SUPERVISIONADO NA LICENCIATURA EM FÍSICA DA UEL: REFLEXÕES SOBRE A ORIENTAÇÃO E A SUPERVISÃO CARVALHO, Marcelo Alves de – UEL/Doutorando em Ensino de Ciências e Educação Matemática [email protected] Área Temática: Práticas e Estágios nas Licenciaturas Agência Financiadora: Sem financiamento Resumo Neste trabalho apresentamos o recorte de uma pesquisa em andamento na Universidade Estadual de Londrina – UEL que investiga a formação inicial de professores de Física. Especificamente o alvo do trabalho é a disciplina de Estágio Supervisionado. Além das atividades tradicionalmente desenvolvidas durante o estágio na licenciatura em Física, como a observação e a regência de sala de aula, um dos aspectos que diferencia a referida disciplina nesta instituição, é a inserção de algumas atividades de atendimento ao público no Museu de Ciências e Tecnologia de Londrina – MCTL. Baseado nas pesquisas sobre o Estágio Supervisionado e na legislação que regulamenta tal estágio, sabemos da necessidade dele ocorrer sob a supervisão de um profissional experiente. Sendo assim, o problema é identificar se acontece e como acontece a orientação e a supervisão das atividades desenvolvidas durante o estágio supervisionado em cada um dos ambientes. Para esclarecer tal problema optamos por analisar as transcrições das entrevistas feitas com os estagiários da licenciatura e que cumpriram tais atividades. Com a análise dos dados observamos que na parte da regência os estagiários são acompanhados e orientados pelos orientadores de campo. Os orientadores de campo são os próprios professores da escola, que participam de reuniões periódicas com o professor da universidade, supervisor do estágio, com o objetivo definir os encaminhamentos adotados durante a orientação proporcionada aos estagiários durante a regência. Em relação às atividades desenvolvidas no museu, percebemos a falta de um profissional que acompanhasse e orientação os estagiários. Em suma, acreditamos que o formato no qual o estágio foi realizado se mostrou uma alternativa importante para a formação do futuro professor de Física, entretanto é preciso repensar a forma de conduzir a orientação durante as atividades desenvolvidas no museu. Palavras-chave: Estágio Curricular Supervisionado. Supervisão de Estágio. Formação Inicial de professores de Física. Museu de Ciência. Introdução Neste trabalho apresentamos o recorte de uma pesquisa em andamento na Universidade Estadual de Londrina – UEL que investiga a formação inicial de professores de 9379 Física. Especificamente o alvo do trabalho é a disciplina de Estágio Supervisionado, momento em que os estagiários começam a atuação profissional em seu futuro campo de trabalho. Além das atividades tradicionalmente desenvolvidas durante o estágio na licenciatura em Física, como a observação e a regência de sala de aula, um dos aspectos que diferencia a referida disciplina nesta instituição, é a inserção de algumas atividades de atendimento ao público no Museu de Ciências e Tecnologia de Londrina – MCTL, ou seja, experiência em um ambiente de educação não-formal. Baseado nas pesquisas sobre o Estágio Supervisionado, e principalmente na legislação que regulamenta a formação de professores e estabelece as orientações sobre o referido estágio, sabemos da necessidade dele ocorrer obedecendo alguns critérios. Entre esses critérios a orientação é que o estágio ocorra nas instituições escolares ou no futuro local de atuação do professor e sob a supervisão de um profissional experiente. Pensando nesses dois critérios, uma indagação se fez presente e a partir de então surgiu nosso problema que é identificar se acontece e como acontece a orientação e supervisão das atividades desenvolvidas durante o estágio supervisionado em cada um dos ambientes mencionados acima – no museu e na sala de aula. Para esclarecer tal problema optamos por analisar as transcrições das entrevistas feitas com os estagiários, pois assim é possível identificar, através do relato, como foi o processo de orientação e supervisão. Fundamentação Teórica – Formação Inicial de Professores e o Estágio Supervisionado Sabemos que a escola de hoje tem enfrentado várias dificuldades em cumprir com seu papel. Os problemas de violência, evasão e falta de interesse dos alunos são alguns dos assuntos freqüentes nas discussões dos problemas da instituição mais tradicional da educação. Os alunos se interessam por quase tudo, menos com aquilo que a escola oferece a eles. Na luta para superar os problemas da escola, a figura do professor tem um papel fundamental. A indagação que não cala é sobre a maneira de formar um profissional capaz de atuar nesse cenário desolador. Primeiro que ser um professor não é uma tarefa qualquer, pois ensinar é um processo difícil. Em segundo, entra a questão de tornar-se um professor para atuar na realidade mencionada logo acima, pois trata-se de um trabalho árduo e que exige uma formação ampla e diferenciada. Por se tratar de um profissional que lida com pessoas (alunos) em pleno desenvolvimento social, o trabalho docente exige do professor algo a mais que uma simples 9380 aplicação de técnicas ou métodos pedagógicos. Nesta perspectiva, os cursos de licenciatura têm buscado formar professores com a capacidade de encarar as dificuldades e incertezas do dia-a-dia da educação, seja na complexidade da escola (em particular a sala de aula) seja em outros ambientes extra-escolares (museus, exposições, zoológicos ou feiras científicas). É importante frisar que a formação docente apenas inicia na graduação, conforme afirma Zeichner (1993, p. 17), “independente do que fazemos nos programas de formação de professores e do modo que o fazemos, no melhor dos casos só podemos preparar os professores para começar a lecionar”. Nesta perspectiva o Estágio é o momento no qual o estagiário tem sua primeira experiência docente, assumindo o lugar de um professor. Sendo assim, conforme o parecer CNE/CP 28/2001, o Estágio Curricular Obrigatório é uma componente curricular obrigatória, composta por um conjunto de atividades de formação, e que deve ser realizada sob a supervisão de docentes da instituição formadora e acompanhada por profissionais, em que o estudante experimenta situações de efetivo exercício profissional. Segundo o parecer ele “só pode ocorrer em unidades escolares onde o estagiário assuma efetivamente o papel de professor” (BRASIL, 2002, p. 10). No transcorrer do Estágio Supervisionado o estagiário depara-se “com uma inversão de lugares: o aluno, que até então tinha como atividade a aprendizagem, passa à condição de professor, cuja atividade é o ensino” (LOPES, 2004, p. 102). Além de representar uma reaproximação com o seu campo de trabalho, é o momento de promover uma análise sobre a realidade escolar, de exercitar a aplicação de novos meios de ensinar e lançar um novo olhar sobre os diferentes ambientes educacionais, como, por exemplo, os espaços museais. Para o entendimento deste trabalho, adotamos o espaço museal como um ambiente de educação não-formal, pois “não é fornecido por uma instituição educacional1 ou de treinamento e não leva à certificação, entretanto, é estruturada (em termos de objetivos, tempo e suporte à aprendizagem)” (COLLEY et al, 2002, p. 6, tradução nossa). Quando falamos no desenvolvimento do estágio, também no ambiente museal, isso responde à demanda atual de providenciar aos estagiários experiências em educação nãoformal, a partir das quais eles possam ampliar suas reflexões (MARANDINO, 2003). Visando a preparação do futuro professor, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB 9.394/96 – ressalta em seu artigo 67, parágrafo único, a valorização da 1 Aqui o significado de instituição educacional se remete à instituição “escola” popularmente conhecida. Visto que as instituições privadas do sistema 5S (Senac, Senai, Sesi, Sesc e Senar) são educacionais e de treinamento, porém são consideradas como de educação não-formal. 9381 experiência dos profissionais da educação e dita que a “experiência docente é pré-requisito para o exercício profissional de quaisquer outras funções de magistério, nos termos das normas de cada sistema de ensino” (BRASIL, 1996, p.51). Na discussão sobre o tema, uma das preocupações com o Estágio Supervisionado surge a partir da crítica ao modelo tecnicista sob o qual esta disciplina foi orientada desde a década de 1970. Segundo Monteiro (2000), tratava-se de um momento de observação e reprodução irrefletida de aulas consideradas “boas”. Essa concepção partiu do pressuposto de que a prática fundamentaria a aquisição do conhecimento e, portanto, “a experiência tem o sentido de oportunidade para a indução e apropriação pelo sujeito do que está dado” (MONTEIRO, 2000, p. 134). Certamente, a experiência não deve ser entendida como um modelo a ser copiado e praticado, mas sim como o acúmulo de situações significativas capazes de propiciar ao sujeito a capacidade de identificar e selecionar suas próprias atitudes diante dos desafios de ser professor. É a possibilidade de formar um estilo próprio baseado nos diversos saberes que compuseram a sua formação profissional, aliada aos valores éticos, sociais, humanos e estéticos calcados na sua história pessoal. Para superar a idéia da dicotomia teoria e prática, Pimenta e Lima (2004) defendem que o estágio não deve ser considerado como o momento dos estudantes colocarem em prática o que aprenderam na teoria. Isso porque geralmente os cursos são formados por disciplinas que são ao mesmo tempo teóricas e práticas. Portanto as diversas disciplinas que compõem o curso de graduação contribuem para a formação da identidade docente e não somente as ligadas ao Estágio Supervisionado, como é considerado por muitos. O estágio é o momento em que o estagiário tem a possibilidade de mobilizar alguns saberes já adquiridos e, a partir da interação com os atores escolares (alunos e outros professores), fortalecer e modificar sua identidade profissional. Dessa maneira, além do estágio ser um lugar para a construção da identidade profissional docente, também é um lugar para a reflexão, legitimação e fortalecimento da identidade construída antes e durante a fase inicial da graduação, conforme a argumentação apresentada: Segundo a autora, “aprender a profissão docente no decorrer do estágio supõe estar atento às particularidades e às interfaces da realidade escolar em sua contextualização na sociedade” (p. 111). O estágio é assim o momento de estabelecer relações com o professor da 9382 escola, os alunos, os colegas de licenciatura e com o ambiente escolar (e também, em nosso entendimento, os ambientes não-formais de educação, como os museus de ciência), possibilitando a aprendizagem com aqueles que possuem mais experiência. Em suma, no desenvolvimento das atividades de estágio é essencial a interação do estagiário com as situações, setores e questões que envolvem diretamente a atividade profissional, seja no ambiente escolar seja no museal (CARVALHO, 2009). Procedimentos Metodológicos A disciplina de Estágio Supervisionado é dividida em dois momentos. O primeiro é destinado à construção teórica, ou seja, nela apresentam-se os conteúdos, teorias da Educação aplicadas ao Ensino de Física e as tendências na formação de professores de Física. Em seguida é realizada a apresentação de seminários pelos estudantes com as respectivas discussões em sala de aula. O tempo restante da disciplina é destinado à parte prática, momento em que os estagiários cumprem as atividades de observação de aulas, atendimento no Museu de Ciência e Tecnologia de Londrina e a regência de classe. Para investigar as atividades desenvolvidas na parte prática da disciplina, especificamente os atendimentos no museu e a regência, optamos por uma abordagem qualitativa, uma vez que a preocupação é com a descrição, o significado e o sentido atribuído às atividades desenvolvidas pelos estagiários. Segundo Bogdan e Biklen (1994, p. 49), em uma “abordagem qualitativa tudo tem potencial para constituir uma pista que nos permita estabelecer uma compreensão mais esclarecedora do nosso objeto de estudo”. Para a coleta de dados utilizamos como instrumento uma entrevista semi-estruturada. A escolha por tal instrumento se deu pelo fato deste permitir a captação imediata e corrente da informação desejada (LÜDKE e ANDRÉ, 1986). Nas palavras de Bogdan e Biklen, “a entrevista é utilizada para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma idéia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspectos do mundo” (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p.134, grifos nossos). Os sujeitos escolhidos foram os estagiários do curso de licenciatura em Física da UEL que cursavam o último ano de graduação no ano letivo de 2006. As entrevistas foram aplicadas após a realização de cada uma das atividades, primeiro após o término de todos os atendimentos feitos no museu e depois após a conclusão das atividades de regência. As entrevistas foram transcritas e com o intuito de manter o anonimato e facilitar a organização 9383 dos dados, a cada um dos estágios atribuímos a letra E sucedida de uma sequência numérica, como exemplo, E1 refere-se ao estagiário 1. Para os demais estagiários E2, E3,..., E8. Também atribuímos as siglas Prof (A), Prof (B) e Prof (C) aos professores que supervisionaram as atividades desenvolvidas na regência de sala de aula. Apresentação e Análise dos dados Durante o processo de análise dos dados buscamos relatos sobre a maneira como ocorreu todo o estágio, tanto no museu como na regência, em especial focamos os aspectos relacionados à orientação e a supervisão. Inicialmente abordamos tais aspectos referentes às atividades da regência e em seguida passamos a analisar as atividades desenvolvidas no museu. Sobre as atividades de regência de sala de aula As falas dos estagiários evidenciam uma forma de orientação nas atividades da regência. Na fala de E3 é possível perceber a contribuição que o Prof (A) concedeu ao estagiário: E3: É, e no final da aula, o Prof (A) falava o que achou da aula. Ele ia anotando no caderninho, o que fez certo, o que ele acha que tem que melhorar. Acabava a aula, ele chamava num canto e dizia, é assim, assim e assim. Ele falava tudo que foi feito, e ai a gente pensava, é verdade eu podia ter feito isso daqui desse jeito que sairia melhor. Na fala anterior percebemos que o Prof (A) estava atento durante todo o andamento da aula do estagiário, pois como o próprio E3 relata, havia uma conversa posterior à aula no sentido de orientar e contribuir com a melhoria da atuação de E3. Neste sentido o estagiário E2 também ressalta a atenção que o Prof (A) concedeu. Na fala seguinte E2 evidencia a forma positiva em que o Prof (A) interferia durante o andamento de sua aula: E2: Quando eles [alunos] iam copiar, a gente ia lá no fundo e conversava um pouquinho. E a gente conversava com o Prof (A) também. Ele [Prof (A)] falava: olha, você fez isso agora que... Por exemplo, você fez a chamada sem ter nenhuma atividade para eles estarem fazendo. Você poderia fazer a chamada na hora que eles estão fazendo alguma coisa, senão você não consegue controlar a sala. Então sempre tinha isso, algum detalhe. Ele chamava a gente quando a gente dava uma 9384 paradinha, e falava: olha, uma maneira correta eu acho que seria você agir dessa forma. É uma opinião minha, você não precisa fazer assim, mas eu acho que daria certo. Ou seja, no relato de E2 percebemos que o Prof (A) agiu de forma discreta, interferindo quando necessário na aula dos estagiários, porém com a intenção de ajudá-los. Na fala de E1 também percebemos essa contribuição oferecida pelo Prof (A): E1: A gente conversava com ele [Prof (A)] assim, que nem a gente conversa entre a gente, de pedir dica, o que ele achou. De ele dar um toque, que nem um dia ele falou, chega uma hora, que tanto a gente chamava, ou ele chamava, ô, faz assim. Ou por exemplo, o E2 tava dando aula e ficava, eu, ele e o E3 no fundo conversando, sobre a aula, olha isso aqui é legal, isso pode fazer desse jeito. Então, eu acho assim, ele foi fantástico. Observamos nos relatos acima que os estagiários E1, E2 e E3 estavam desenvolveram todas as aulas da regência de sala sob a supervisão e orientação do Prof (A). Através da falas percebemos uma orientação rotineira com a intenção clara de ajudar na formação dos futuros professores. Em seguida observamos a fala do estagiário E4. Ele descreve a contribuição que o Prof (B) dava, ao frisar um método, que supostamente seria eficiente para o controle de sala de aula: E4: E o Prof (B) passou isso para a gente: aluno inquieto tem energia sobrando, aproveite para você! E a gente acabou utilizando. O aluno que estava bagunçando a gente falava: oh você ai, lê o exercício para mim. Observando o fala do mesmo estagiário, percebemos que o Prof (B) também orientava os estagiários sobre a postura adotada por eles na frente da sala e a própria entonação na voz: E4: E ele falava: olha vocês estavam falando para o quadro! E ele falava, não durante a aula, mas depois: quando vocês forem explicar, falem para a sala, não para o quadro. Dar uma diferença de voz quando a gente for perguntar, questionar e dar ordem. Porque uma coisa é quando é um conselho importante e você tem que dar uma ênfase na entonação de voz. É isso aqui e tal [voz de ordem]. E não, é isso aqui e tal [voz passiva]! ninguém vai ouvir. Quando é um negócio importante, um conceito primordial, você tem que dar preferência. 9385 No relato feito pelos estagiários, observamos que o Prof (B) fazia a orientação ao final da aula, no sentido de alertar tanto o E4 como o E5 para melhorarem as aulas seguintes. Na fala de E5, o estagiário descreve os procedimentos adotados pelo Prof (B): - Toda aula ele fazia um relatório e no final da aula ele [Prof (B)] falava com a gente. Observe que a orientação concedida pelo Prof (B) foi de suma importância. Isso fica claro, pois E4 tece um comentário comparando suas próprias aulas: - Olha, ele deu vários conselhos para a gente. É assim, se você for comparar a primeira aula nossa com as últimas, têm uma diferença, uma evolução. Assim como a supervisão feita pelo Prof (A), descrita anteriormente, ficou claro que o Prof (B) também orientou e deu suporte aos estagiários E4 e E5 durante as suas aulas de regência. Já no relato dos estagiários E6, E7 e E8, percebemos uma atuação mais discreta do Prof (C). O estagiário E6 descreve esta atuação do Prof (C): E6: Muita coisa eu perguntei para ele também. E ai Prof (C), como é que vai fazer? Ai ele passava algumas listas. Eu falei que na minha turma eu não ia passar porque se eu for passar tudo isso eles não iam aprender. Analisando a fala de E6 percebemos que o Prof (C) se limitou a passar um conteúdo e lista de exercícios, a qual supostamente o estagiário poderia direcionar aos alunos. Na fala de E7 também percebemos que o Prof (C), de certa forma, realmente se preocupava mais com o que seria transmitido aos alunos: E7: Chegou certo ponto que nós falamos: vamos entrar em máquinas térmicas. O Prof (C) deu uma idéia e eu achei boa. Foi o seguinte: em vez de eu passar o conceito de máquina térmica de cara, ele sugeriu que talvez os alunos pudessem fazer um trabalho sobre máquinas térmicas. Ainda assim, mesmo com uma atuação mais discreta do Prof (C), percebemos na fala de E8 que também havia orientação em questões pontuais, como por exemplo, critérios de avaliação: E8: Teve um grupo foi muito ruim a apresentação. O trabalho escrito eles copiaram da internet. Eram só tópicos, eles não explicaram nada. Inclusive o Prof (C) até 9386 sugeriu que a nota deles fosse bem baixa. O cartaz deles estava ilegível, não dava para entender nada do que eles fizeram. Ou seja, devido à falta de dedicação dos alunos na elaboração dos trabalhos, o Prof (C) orientou o estagiário a atribuir uma nota mais baixa. Sendo assim, percebemos que o Prof (C), ainda que contribuísse com os estagiários E6, E7 e E8, tinha uma atuação mais contida. No relato feito por E6, E7 e E8 observamos que o Prof (C) somente orientava os estagiários quando eles procuram ou perguntavam alguma coisa. Diferente dos Prof (A) e (B) que davam dicas no transcorrer das aulas e fazia anotações durante a mesma para uma breve discussão no final, apontando os pontos positivos e negativos da atuação de cada estagiário. É importante frisar que o objetivo deste trabalho não é apontar qual a melhor maneira deve ocorrer a supervisão e orientação da regência. Apenas procuramos identificar se de fato ocorre. Percebemos que os professores (A), (B) e (C) exercem, durante as atividades da regência, o papel de orientadores, ajudando e supervisionando os estagiários nas suas aulas. Estes professores são, na realidade, os próprios professores regentes das turmas nas quais os estagiários desenvolveram a regência. Investigando as razões para a orientação ocorrer sob a supervisão destes professores, procuramos na universidade o professor responsável pela disciplina de Estágio Supervisionado na licenciatura em Física. Foi então apresentado o regulamento do estágio, no qual consta o auxílio dos Orientadores de Campo, que são os professores das escolas. Baseado no regulamento, a partir do ano de 2006 foi montando um grupo, denominado de Grupo de Orientadores de Campo, do qual os professores (A), (B) e (C) fazem parte, que tem como objetivo contribuir para a formação inicial de professores de Física. A idéia é que esses orientadores atuem como co-formadores, ajudando na formação mesmo e não como meros receptores dos estagiários. Este formato de orientação foi adotado, pois o professor da escola, em virtude dos anos de trabalho, possui uma experiência grande da qual não se pode abrir mão quando a questão é a formação inicial. Por isso, baseado no regulamento, algumas atribuições do Orientador de Campo são: participar da programação das atividades pertinentes ao estágio; elaborar o plano de estágio em conjunto com o supervisor e o estagiário; orientar o estagiário e acompanhar o desenvolvimento do estágio; observar a assiduidade e o cumprimento dos 9387 horários das atividades do estágio e apreciar juntamente com o supervisor, relatórios parciais e/ou relatório final de estágio, elaborado pelo estagiário. Ou seja, os professores (A), (B) e (C) não assumem para si o papel de supervisor em si do estágio como um todo, eles ficam responsáveis por orientar e supervisionar apenas as atividades desenvolvidas no âmbito da sala de aula, na escola. Durante os encontros com o supervisor do estágio, que é o professor da universidade, ocorre então a discussão sobre o andamento das atividades de cada estagiário. Portanto percebemos que de fato há um acompanhamento e supervisão das atividades desenvolvidas na regência. Sobre as atividades desenvolvidas no Museu de Ciência e Tecnologia de Londrina No relato dos estagiários, sobre as atividades desenvolvidas no museu, procuramos identificar evidências que nos levasse a afirmar se havia ou não a orientação e a respectiva supervisão das atividades. Na fala do o estagiário E6, fica claro que o mesmo encontrou dificuldades, entretanto encontrou ajuda em outro estagiário que já conhecia o museu e sabia fazer o atendimento: E6: Nas primeiras eu senti dificuldades para apresentar os aparelhos, aí a gente ficava sempre junto com alguém que já conhecia. Eu fiquei junto com o E1, para saber como é que ele fazia. Observamos na fala de E6 que o mesmo procurava orientações em estagiários que já tinham alguma experiência no museu, mas que não eram profissionais experientes: E6: Eu nas duas primeiras horas que eu fiz, eu senti uma dificuldade para estar com um público muito grande assim. Porque você vai apresentar o fenômeno, o aparelho ali, você tem que estar firme. É diferente de você querer enrolar. Não dá para enrolar, têm que estar firme. A primeira e a segunda eu fiquei mais olhando. Quem que foi que estava junto? O E1 que já sabia bem,e o E2, acho que estava junto. Essa mesma constatação foi verificada na fala de E5 e E4 E5: Tava o E1 também, eu fiquei muito do lado dele para dominar. E4: A gente o via [E1] explicando para ver o que é que ele falava para depois acompanhar. Mas depois a gente pegou sozinho já. Os primeiros dias foram somente para aprender assim. 9388 Percebemos que o estagiário E1 teve uma forte influência em todos os outros estagiários. Na fala de E2, fica muito claro esta participação de E1, sendo que o mesmo chega a orientar E2 sobre a forma como ele fez a explicação do equipamento: E2: Eu conhecia, a gente sabia o que estava acontecendo. Mas eu olhava para o menino pequeno e pensava: eu não posso falar isso para ele. Igual, teve um dia que eu ia falar de inércia ou de momento angular da roda, ai o E1 chegou pra mim e falou: “Você acha que ele entende alguma coisa, já que você falou de momento angular?” Aí depois eu fiquei pensando, as vezes você quer explicar, mas naquele momento você encontra uma dificuldade. No relato de todos os estagiários parece que há uma ausência de orientação e supervisão das atividades que foram desenvolvidas no museu. Essa constatação é coerente, pois no relato dos estagiários não foi mencionado, em nenhum momento, a orientação das atividades por parte de um profissional experiente do museu. Por isso, ao analisarmos o relato dos estagiários, sobre as atividades desenvolvidas no museu, como parte do estágio supervisionado, detectamos uma desconformidade com alguns aspectos apresentados no parecer CNE/CP 28/2001. O primeiro aspecto refere-se ao local em que, a princípio, deveria ser desenvolvido o estágio. O referido parecer descreve que o estágio curricular supervisionado “só pode ocorrer em unidades escolares onde o estagiário assuma efetivamente o papel de professor” (BRASIL, 2002a, p. 10, grifos nossos). Certamente o museu difere em vários aspectos e especificidades das unidades escolares. Porém, com o aumento do número de museus de ciência, cada vez mais as escolas recorrem a eles para promover uma experiência diversificada aos alunos. A consequência imediata das visitas é o contato dos professores com o ambiente museal, momento em que podem participar, interagir e envolver-se, tanto com os alunos, monitores, objetos, equipamentos ou experimentos. Em razão de alguns professores terem disponível o ambiente museal como complemento, a atividade docente pode extrapolar os muros da escola e não ficar restrita apenas à sala de aula. É importante frisar que não se trata do professor ministrar aulas no museu; o contato com o ambiente museal exige uma postura difere daquela adotada em sala de aula, pois trata-se de atividades mais lúdicas. Novamente recorremos ao parecer CNE/CP 28/2001. Nele está claro que o estágio supervisionado “é um momento de formação profissional do formando seja pelo exercício direto in loco, seja pela presença participativa em ambientes próprios de atividades daquela 9389 área profissional” (BRASIL, 2002, p. 10, grifos nossos). Fazendo uma interpretação do parecer, ao mesmo tempo que há uma afirmação da necessidade do estágio ocorrer em unidades escolares (in loco), há também uma brecha para outros espaços. Esses outros espaços, apontados pelo parecer como ‘ambientes próprios de atividades daquela área profissional’, segundo nosso entendimento, englobam o museu de ciência, pois os futuros professores poderão desenvolver atividades com seus alunos, no espaço museal. Outra questão apontada no parecer CNE/CP 28/2001, é a supervisão das atividades. O parecer afirma que o estágio deve ocorrer “sob a supervisão de um profissional experiente” (BRASIL, 2002, p. 10), e, segundo nosso entendimento, pode ser tanto o professor da disciplina de estágio como outro professor, auxiliar da disciplina e ainda com a orientação de um profissional experiente do museu. Entretanto verificamos que a maioria das atividades desenvolvidas no museu aconteceu sem a presença de um destes profissionais, conforme o relato feito por todos os estagiários envolvidos neste trabalho. Sendo assim, diferente do que ocorreu durante as atividades da regência, notamos uma fragilidade em relação à orientação e supervisão no andamento das atividades no museu. Considerações Finais A análise dos dados referente às atividades desenvolvidas durante o estágio supervisionado na licenciatura em Física da UEL nos permitiu traçar algumas considerações relevantes. Inicialmente, quando observamos a parte específica da regência de sala de aula, fica nítida a atuação dos professores orientadores de campo, que orientam e supervisionam os estagiários durante a regência. Pelo relato feito pelos estagiários, percebemos que a presença de um professor (orientador de campo) comprometido com a formação do futuro professor, durante a realização da regência, é de suma importância, pois este pode contribuir com sua experiência de docência, enaltecendo os pontos positivos e também apontando possíveis falas nas aulas dos estagiários. Por outro lado, percebemos que o desenvolvimento de atividades no museu, como parte integrante do estágio, trouxe várias contribuições para a formação do futuro professor de Física. Entretanto alguns aspectos precisam ser repensados para que a atividade desenvolvida no ambiente museal não fique na tradicional ‘prática pela prática’. Acreditamos que ao atender as exigências da legislação, em relação à orientação e supervisão do estágio, o 9390 referido formato no qual o estágio foi desenvolvido (com atividades também no museu) possa trazer maiores contribuições na formação do futuro professor. Assim acreditamos que o formato no qual o estágio foi realizado se mostrou uma alternativa importante para a formação do futuro professor de Física, pois atende a uma nova realidade que é a disponibilidade dos museus de ciência. Portanto, entendemos que além das atividades já existentes na disciplina de estágio (observação e regência de sala de aula), a experiência com as rotinas do Museu pode oferecer condições para o futuro professor desenvolver um trabalho mais produtivo e enriquecedor com seus alunos. REFERÊNCIAS BRASIL. Conselho Nacional de Educação/Conselho Pleno. Resolução CNE/CP 28/2001. Estabelece a duração e a carga horária dos cursos de Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. Brasília, 2002. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/028.pdf> Acesso em: 22 novembro 2008. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB Nº 9394/96. Brasília. 20 de dezembro de 1996. BOGDAN, R.C.; BIKLEN, S.K. Investigação Qualitativa em Educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto, 1994. CARVALHO, Marcelo Alves de. 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