1 A Mulher-Calopsita Getlinger, Patricia Vianna Suzana está em análise há dois anos. Antes de me procurar, tentou inúmeros tipos de tratamento para diminuir sua angústia, mas conta-me que nunca conseguiu levá-los adiante. Tem muito medo de envelhecer, não suporta ficar de fora, não sabe como educar os filhos e briga muito com o marido, com quem trabalha (é o segundo marido, trinta anos mais velho). Irrita-se com os enteados que trabalham na empresa, pois se sente excluída da relação deles com seu marido. Vejo uma mulher de trinta e cinco anos, muito botox, cabelo tingido de loiro, extremamente impulsiva e muito angustiada, desconectada de seu estado emocional. Vejo também uma movimentação corporal de pássaro, mais especificamente de calopsita. Seu pescoço se move para frente e para trás em movimentos rápidos, como quem dá uma bicada e volta. Toda a movimentação é arisca e “durinha”, sua cabeça parecendo independente do corpo, como um pássaro. Sua fala é seca, cortante e angustiada. Conta-me que comanda tudo na empresa e que são quase todos incompetentes. Ouço-a repetir seguidamente construções humilhantes que fazem os funcionários saírem chorando de sua sala. Com os filhos, faz o mesmo: chama-os de “burro” e “incompetente”, levando os dois (dez e quatorze anos) a um estado de passividade e desvitalização. Gostaria de conversar sobre as respostas contratransferenciais que essa paciente suscitou em mim, pois com frequência tive a impressão de manter um contato muito pouco psicanalítico com ela. Minha hipótese é que o padrão de troca transferencialcontratransferencial e certo tipo de comunicação que, embora a rigor pudesse ser considerados não ou pré-psicanalíticos, tenham sido simbolizantes e terapêuticos. Vou ilustrar um pouco mais o que chamei do padrão de troca transferencialcontratransferencial que costumo ter com ela, narrando o clima das sessões e o modo como costumo ser afetada por ele. O grau de impulsividade e de ação dessa paciente, tanto na vida externa quanto nas sessões, é muito grande. Ela fala com muita emoção, diz que é horrível o que acontece em sua vida e me pergunta o que pode fazer para mudar isso. Diz que não agüenta mais, que quer se separar, mas não pode porque não se imagina sem um homem por trás. Aliás, também não sabe mais o que fazer com os filhos, pois o menor não estuda, não sabe nada, não consegue fazer a lição sozinho, 2 requer a presença constante dela, mas ela tem vontade de matá-lo porque ele não entende nada, pula os exercícios, se engana e quer enganá-la. O mais velho a engana dizendo que dormiu cedo, mas ela descobriu que ele fica até às quatro horas da manhã no computador, então ela quer matá-lo e vai deixá-lo de castigo um mês sem computador. Esse tipo de fala, cujo gradiente de ação e impulsividade é muito grande em comparação com uma fala considerada mais próxima do pólo representacional (com possibilidade de contenção) (Donet, 2005), provoca em mim o que chamei de respostas muito pouco psicanalíticas. Não chego a dar opiniões, mas tento acalmá-la; faço sugestões de como conversar com os filhos, digo para não chamá-los de “burros”. Poucas vezes consigo ser menos sugestiva. Quando tento apontar seus medos de não dar conta da vida sem um homem, ou pontuar que ela fica desnorteada quando se sente enganada (excluída), acabo tendo que acalmá-la com respostas mais objetivas em seguida, pois sua angústia aumenta demais e ela se desorganiza sem saber “o que fazer”. É muito mais comum, portanto, que minhas respostas se situem mais próximas de respostas “agidas”, que vão ao encontro do alto grau de impulsividade e concretude de suas perguntas; ou seja, sinto que funciono “acionada” mais por seu modo de funcionamento e por suas falas “agidas”, do que a partir dos meus próprios recursos psíquicos. É este tipo de interação que tendo a considerar menos analítica, pois me vejo oferecendo falas e até ações que atendem direta e imediatamente suas solicitações, sem autonomia para pensar ou funcionar de outro modo. O que me interessa elaborar, aqui, é se nessa experiência e em algumas experiências semelhantes, esse tipo de interação que parece pouco simbólica não é justamente o que acaba se tornando absolutamente necessário para a construção de uma interação que promova holding e continência e seja simbolizante. Parto do princípio sustentado por alguns psicanalistas1, de que as respostas agidas do analista testemunham a potência da identificação projetiva associada aos agieren do paciente. Este conceito, apresentado por Freud em Recordar, Repetir, Elaborar (1914), gerou traduções e interpretações como acting out, enactement e outras 1 Psicanalistas têm se dedicado ao estudo da comunicação infraverbal entre paciente e analista, incluindo diferentes aspectos, como: a identificação projetiva e seus efeitos, a réverie do analista, a simbolização primária, os aspectos corporais presentes na sessão e os agieren da dupla. Cf. Dispaux, M-F (2002), Haber, J. et M. (2002), Donnet, J- L. (2005), Coelho Junior, N. E. (2010) e Minerbo, M. (2009), Roussillon, R. (2001), entre outros. 3 que tendem a opor os diversos tipos de “ação” (dentro do consultório ou fora, mobilizadas pelo tratamento) a qualquer grau possível de interpretação e elaboração psíquica. Na compreensão dos psicanalistas belgas Haber e Haber (2002), a “experiência agida compartilhada” por paciente e analista no espaço analítico, se compreendida à luz da concepção clássica da psicanálise, contrastaria com o modelo de fala, escuta e interpretação e funcionaria como resistência às possibilidades de emergência da elaboração das fantasias, da simbolização e da cura pela palavra. Diferente disso, os autores compreendem que a perseverança dos agieren do analista tem outra razão e outra função: uma função de regulação, que procura inconscientemente conectar o funcionamento psíquico do paciente até que ele possa bascular para outro funcionamento psíquico – um nível de simbolização mais evoluído. Trata-se de possibilitar ao paciente experimentar uma interação com holding e continência, um “diálogo de base” mantido pelo agir do analista. O modo como nos conectamos a cada paciente e os elementos que garantem essa conexão são inúmeros, e tenho muito interesse em investigar os mecanismos mais primitivos e inconscientes dessa interação. Há muitos níveis de comunicação que não decodificamos, seja os elementos da comunicação infraverbal, a experiência corporal e sensorial, ou o que ressoa de nossa história pessoal e de aspectos nossos não analisados, que finalmente resultam em um precipitado de elementos presentes na análise, de forma consciente ou não. Não temos controle daquilo que essa interação provoca e nem de como vamos responder a ela. No caso dessa paciente, o que me era possível traduzir, conscientemente, era que ela precisava de muita continência para os aspectos regredidos que apareciam de modo disruptivo e violento. Mas eu não conseguiria ter oferecido isso, por exemplo, se ela tivesse me provocado irritação – e isso não está no nosso controle. Por algum elemento de comunicação que não decodifiquei conscientemente, o que ela me provocou, desde o começo, foi compaixão e um estado análogo à preocupação materna primária. Além disso, entrei em um tipo de funcionamento ora parecido com o dela, ora suficientemente sintônico com o dela a ponto de podermos construir e manter este “diálogo de base”, essa interação que fornece holding e continência e pode ser considerada precursora do vínculo. Na esteira dos psicanalistas citados, podemos dizer que o funcionamento “limite” de alguns pacientes e a onipresença dos agieren evocam a existência de clivagens que, na análise, se manifestam por solicitações concretas e abruptas. As respostas do analista nos levam a observar um aspecto muito importante nesta 4 argumentação: aquele da indução, no analista, de um funcionamento também clivado. É a alternância entre os momentos de troca agida e sua retomada pelo analista no sentido de “psiquisação” que pode vir a diminuir, progressivamente, a intensidade das clivagens. Somente quando certos registros psíquicos de caráter traumático são suficientemente partilhados pelo analista, ou seja, tornam-se matéria de uma transação transferencial (e transicional), é que eles podem ser processados psiquicamente. (Penot, apud Haber, 2002). Uma situação que vivi com Suzana evidencia o que estou querendo demonstrar, por tornar aguda essa forma de “experiência agida partilhada”. Estávamos no dia do pagamento. Pela primeira vez depois de alguns meses do início da análise ela havia faltado a duas sessões naquele mês. A princípio, eu cobraria por essas sessões uma vez que tínhamos feito esse contrato. Em sua dureza habitual, acompanhada de muitos movimentos corporais de calopsita nervosa, ela retira o talão de cheques e pergunta, já afirmando: “Devo pagar por todas as sessões do mês, não é?” Para minha surpresa, embora estivesse convicta de que deveria cobrar pelas faltas, vejo-me respondendo a ela: “O que você gostaria de fazer?” Ela diz: “É você quem sabe.” E eu sigo: “Aqui, somos nós que sabemos. Eu gostaria de ouvi-la.” Seu rosto começa a se transformar profundamente. De movimentos bruscos de pássaro arisco, ela passa a esboçar um enorme sofrimento e seu rosto se transfigura no de uma pessoa muitíssimo mais velha. Mas é uma criança que fala: “Estou morrendo de vergonha de chorar por isso. Mas eu fiquei emocionada de como você falou comigo e isso me lembrou de uma situação que aconteceu quando eu era pequena. Nós morávamos no sítio e meu pai criava uns animais. Aí uma cabra deu à luz a um cabritinho e eu me apeguei a ele. Eu dava mamadeira, cuidava dele, ele era meu. Só que ninguém sabia da minha ligação com ele. Um dia, meu pai estava precisando de dinheiro e vendeu meu cabritinho sem nem falar comigo. Eu fiquei muito sozinha, mas morrendo de vergonha de chorar por um cabrito. E estou com muita vergonha, agora”. Eu lhe digo que sua história era mesmo muito triste e que compreendia sua dor. Houve algo na nossa comunicação que inicialmente não passou pelos canais verbais, mas que me “alertou” para a direção que eu deveria tomar. Algo que se mostrava como calopsita nervosa e ameaçadora, mas era de fato uma tristeza não chorada que se protegia por detrás daquelas ameaças de bicadas. Uma importante categoria do agir é a que inclui as manifestações corporais motrizes que participam da comunicação infraverbal. “Os canais corporais motores veiculam mensagens 5 frequentemente imperceptíveis conscientemente: mímicas, gestual, posição do corpo, entonação da voz etc., cuja implicação intervém no processo”. (Haber, 2002, p.1422). Coelho Junior (2010) fala em co-corporeidade para contemplar os níveis mais primitivos de comunicação na dupla analítica, que se dão a partir da co-presença de duas corporeidades (que já trazem em si o Eu e o outro) e incluem níveis de diferenciação e de indiferenciação entre paciente e analista. E podemos lembrar a complementaridade das respostas musculares entre adulto e bebê quando se pega um bebê no colo: certos músculos do bebê se contraem ou relaxam em resposta à contração ou relaxamento muscular do adulto. O contraste é evidente quando se pega um bebê autista no colo. As respostas musculares não são sintônicas; onde devia estar o relaxamento está a contração, e vice-versa, e a experiência é de total desencontro. Na situação com Suzana, os processos corporais e demais comunicações infraverbais possibilitaram à dupla paciente e analista uma experiência compartilhada suficientemente segura, sustentada pela relação transferencial. A situação vivida em análise pode ter fornecido à paciente uma experiência inédita de acolhimento, que pode vir a promover a inscrição de um traço novo em sua organização psíquica, graças à correspondência do objeto. Mas é somente no après-coup que o analista consegue recuperar o que estava subjacente aos agieren que tomam forma na transferência e na contratransferência. O que se deu no nível das trocas agidas, ou seja, minha resposta aos seus movimentos ariscos, talvez tenha sido o equivalente de uma “resposta muscular”: vi-me socorrendo um pássaro que se contorcia de dor, como amparamos automaticamente alguém que tropeça ao nosso lado. E da calopsita surgiu um cabritinho. A passagem de pássaro a mamífero revela um salto na linha do desenvolvimento, e neste caso - talvez em todos - isso só se dê a partir do “diálogo de base”, da co-corporeidade ou do que poderíamos chamar de “dobradiça inter-humana”. Resumo: Partindo da apresentação de um caso clínico, esta apresentação procura colocar em discussão a passagem de processos agidos no campo transferencial- contratransferencial para processos de simbolização construídos no mesmo campo. De pássaro a mamífero, de calopsita a cabritinho, o relato da análise de Suzana percorre a passagem de um plano de ação e de comportamentos ariscos da paciente para um plano em que ela pode chorar choros não chorados e subsequentemente colocá-los em palavras. O trabalho focaliza a experiência contratransferencial e seu poder de fornecer 6 níveis de comunicação inconsciente fundamentais, revelando o contato da dupla analista e paciente com os elementos infraverbais (corporais, musculares, sensoriais, interações cinestésicas, o tom de voz e a cadência etc.). Esta paciente, tão impulsiva e arisca que se move como uma calopsita, funciona mais próxima do gradiente da ação (agieren) do que das palavras e acaba levando a analista a também funcionar neste polo. Na situação clínica que é apresentada, acompanha-se um momento privilegiado desta interação, em que a resposta sintônica aos aspectos inconscientes da paciente produz efeitos inesperados. Referências Bibliográficas: COELHO JUNIOR, Nelson Ernesto (2010) “Da intercorporeidade à cocorporeidade: elementos para uma clínica psicanalítica”, in Revista Brasileira de Psicanálise, volume 44, n.1. DISPAUX, Marie-France (2002) “Aux sources de l’interpretation”, in Revue Française de Psychanalyse, tome LXVI, Número especial do Congrès “Transformations psychiques”. Pag. 1461 a 1496. DONNET, Jean- Luc (2005) La Situation Analysante. Paris: P.U.F. HABER, Jacqueline et Maurice (2002) “L’expérience agie partagée”, in Revue Française de Psychanalyse, tome LXVI, Número especial do Congrès “Transformations psychiques”. Pag. 1417 a 1460. MINERBO, Marion (2009) Neurose e Não-Neurose. São Paulo: Casa do Psicólogo. ROUSSILLON, René (2001) Le plaisir et la répétition, Théorie du processus psychique. Paris: Dunod.