Anais do 6º Encontro Celsul - Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul
O COTIDIANO REPRESENTADO NA CRÔNICA JORNALÍSTICA
Paulo Henrique COSSARI (G – UEL)
ABSTRACT: with your origin on the newspaper, the chronicle was associated to a variety of issues, from
daily occurrences until the personal universe of each writer. This quotidian is the focus of our study, once the
journalistic chronicle of nowadays is the repercussion of a current fact in the society.
KEYWORDS: chronicle; journalism; heterogeneity.
0. Introdução
O interesse pelos fatos corriqueiros da vida sempre atraiu pessoas. Os editores de revistas e
jornais sabem que suas colunas de crônicas do dia-a-dia servem de âncoras para atrair e manter boa parte dos
leitores. O Brasil é riquíssimo em autores de crônicas, uma lista que inclui também escritores de ontem e de
hoje como Machado de Assis, João do Rio, Rubem Braga, Paulo Barreto, Rachel de Queiroz, Fernando
Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Henrique Pongetti, Diogo Mainardi, Paulo Mendes Campos,
Alcântara Machado, Mario Prata, Carlos Heitor Cony, Graciliano Ramos, Olavo Bilac, Ivan Lessa, Stanislaw
Ponte Preta, Lourenço Diaféria... a lista é interminável. Cronistas conseguem transformar o banal em algo
especial, o corriqueiro em lição de vida e o arroz-com-feijão em fino manjar, cativando seus leitores e
deixando neles um gostinho de "quero mais".
A crônica é um gênero textual que representa o cotidiano em um texto muito próximo da
poesia. Esse gênero da literatura ligado ao jornal participa da nossa realidade há mais de um século e tem uma
linguagem despretensiosa, próxima da conversa do dia a dia. Como dispositivo para representar a vida
corriqueira, o cronista utiliza a heterogeneidade, ou seja, fatos do cotidiano, para ilustrar ou para ajudá-lo a
exemplificar sua explicação e, às vezes, fazer algumas construções humorísticas. Assim, o enunciador
mobiliza outras vozes exteriores ao seu discurso para citar, direta ou indiretamente, ironizar, negar. Desta
forma, pretendemos explicar essa dependência da crônica jornalística da atualidade dos acontecimentos do
cotidiano.
A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Este, como se sabe,
é um veículo de informação diário e, portanto, veicula textos efêmeros. Um texto publicado no jornal de
ontem dificilmente receberá atenção por parte dos leitores hoje. O mesmo tende a acontecer com a crônica. O
fato de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas
próximas edições. Há semelhanças entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o
repórter, o cronista se alimenta dos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há
elementos que distinguem um texto do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes
um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto
essencialmente informativo não contém. Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea,
situada entre a linguagem oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o
cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê.
A palavra crônica tem vários significados, mas todos implicam na noção do tempo, já que o
próprio termo precede do grego chronos. Segundo o dicionário Silveira Bueno, crônica é “narração histórica
por ordem cronológica; notícia comentada ou anedota em jornal”. Este trabalho propõe análise de duas
crônicas de Luís Fernando Veríssimo com o intuito de mostrar a necessidade do cronista referenciar vários
acontecimentos para construir sua opinião, concordante ou polêmica, sobre o fato que está relatando. Como o
gênero se tornou bastante pessoal, também as várias citações são feitas de acordo com a escolha do autor,
expressando sua subjetividade.
Este trabalho é resultado das pesquisas, estudos e discussões realizados no projeto de pesquisa
“A construção da diferença pelo discurso: procedimentos enunciativos de exclusão” que se realiza na
Universidade Estadual de Londrina - UEL. Deste projeto participam graduandos, mestrandos e doutorandos
que, por sua vez, participam de eventos divulgando seus trabalhos orientados pelo professor doutor em análise
do discurso Luiz Carlos Fernandes.
1. A história da crônica
No medievo português, a crônica assume a função de resgatar a histórica do reino e de seus reis,
com a historiografia que conhecemos hoje, só que com algumas diferenças: na necessidade de satisfazer a
vaidade do rei e cumprir sua função pedagógica e doutrinária à população, o cronista via-se escrevendo
empolgantes narrações próximas da literatura, ainda que fidedigna aos fatos. Fernão Lopes é um exemplo de
escritor inaugural do humanismo em Portugal em 1418.
Muitos dizem que o início da nossa história literária é inaugurado por uma crônica. Neste caso,
a carta de Pero Vaz de Caminha, escrita na viagem do descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral com
a missão de relatar a trajetória dos viajantes. Sua tarefa, rotineira não fosse o acaso dos lusos terem aportado
por aqui, tornou-se nobilíssima justamente por ser o primeiro a contar o que se passava nas terras inóspitas.
Aqui notamos uma crônica histórica, de relatos dos acontecimentos tidos como documentos históricos.
Mesmo na carta de Caminha, há traços que predizem a estética moderna da crônica, como a narração do
cotidiano e a atenção às pequenas coisas, como o vestuário. Arrigucci Jr. explica sobre a relação do cotidiano
das crônicas com a modernização do país:
“Na maioria desses autores dos primeiros tempos, a crônica tem um ar de aprendizado de uma
matéria literária nova e complicada, pelo grau de heterogeneidade e discrepância de seus
componentes, exigindo também novos meios lingüísticos de penetração e organização artística:
é que nela afloram em meio ao material do passado, herança persistente da sociedade
tradicional, as novidades burguesas trazidas pelo processo de modernização do país, de que o
jornal era um dos instrumentos”(Arrigucci Jr, 1987: 57).1
Contudo, a maior revolução da crônica no Brasil se deu mais de trezentos anos mais tarde,
quando o gênero encontra guarida na embrionária imprensa brasileira, em meados do século XIX. O principal
veículo da imprensa brasileira na época era o folhetim, mas não aquele que pariu diversas obras clássicas da
época em fascículos. Folhetim levava também outra significação, a de espaço de rodapé na primeira página do
jornal, com autor fixo.
Aquela meia página se prestava aos mais variados assuntos, fazendo da sessão um verdadeiro
“bazar asiático”, abrangendo diversos acontecimentos da semana, por mais dispares que fossem. Isso fazia
dos cronistas protocolunistas sociais, pois eram homens da sociedade que atendiam espetáculos teatrais, bailes
e comentários políticos, o que requeria dos autores a característica de “tudo sabe, tudo vê”. Grande parte das
características predominantes na crônica atual data dessa época e é aí que a crônica se reveste do seu caráter
urbano-burguês que se resguarda até hoje influenciando sua temática. O público do jornal, sendo
essencialmente urbano e burguês, como na atualidade, fez do folhetim espaço de reverberação do que
acontecia diariamente na sociedade, na maioria das vezes, no Rio de Janeiro. Essa descrição do cotidiano é
outra característica que perdura até as crônicas de hoje.
Algumas características que aparecem no gênero atualmente são a brevidade, relativa a um fato
cotidiano, e a reflexão do autor. Carlos Drummond de Andrade dizia que a crônica é uma espécie de
monodiálogo com o leitor, já que o escritor assume tal posição virtual. Um escritor também já definia, a
crônica é uma espécie de conversa divertida com o leitor.
O bom exercício da crônica tem o dom de transformar um fato aparentemente banal em um
motivo para grande meditação. Os pequenos acontecimentos do dia-a-dia são comuns a todos, muitas vezes,
tão comuns que não são adequados a comemorações, nem têm porte para um romance, tensão suficiente para
um conto e nem lirismo ou indagação para um poema. Surge assim, a inspiração para um jornalista-escritor,
que relata os fatos do cotidiano ligando a outros acontecimentos e emitindo sua opinião a respeito.
Desta forma, podemos ver grandes jornalistas escrevendo crônicas de excelente qualidade na
grande imprensa brasileira, bem como grandes escritores se dispondo a escrever crônicas com a temática
cotidiana, muito entrelaçada com o jornalismo diário, porém com a proposta de reflexão e não do relato de um
fato isolado.
Falando da modernidade da crônica, Arrigucci Jr. explica sua estrutura e linguagem:
“A crônica é ela própria um fato moderno, submetendo-se aos choques da novidade, ao
consumo imediato, às inquietações de um desejo sempre insatisfeito, à rápida transformação e
1
ARRIGUCCI JR., David. Fragmentos sobre a crônica. In: Enigma e comentário. São Paulo: Companhia das
Letras, 1987.
à fugacidade da vida moderna, tal como esta se reproduz nas grandes metrópoles do
capitalismo industrial e seus espaços periféricos. À primeira vista, como parte de um veículo
como o jornal, ela aprece destinada à pura contingência, mas acaba travando com esta um
arriscado duelo, de que, às vezes, por mérito literário intrínseco, sai vitoriosa. Não raro, ela
adquire assim, entre nós, a espessura de texto literário, tornando-se, pela elaboração da
linguagem, pela complexidade interna, pela penetração psicológica e social, pela força poética
ou pelo humor, uma forma de conhecimento de meandros sutis de nossa realidade e de nossa
história” (Arrigucci Jr, 1987: 53).2
Esse entrosamento da crônica com a realidade ultrapassa, muitas vezes, o limite de relatar a
história ou a realidade. A crônica passa a depender da realidade para existir. Ela passou a narrar o cotidiano,
os fatos mais recentes e, assim, se vinculou diretamente à realidade. A heterogeneidade tem um papel
fundamental dentro da crônica, uma vez que é necessária a recontagem de alguns acontecimentos dentro do
texto para propiciar o entendimento ao leitor.
Já falamos que a crônica assumiu um caráter mais subjetivo, expressando as idéias de seu autor,
que descreve todos os acontecimentos sob sua ótica e perspectivas, utilizando para isso alguns fatos, ou vozes,
externas ao texto para tentar mostrar a exatidão de sua opinião. Desta forma, a retomada de alguns assuntos é
necessária para proporcionar a relação do tema tratado pela crônica com algum acontecimento, recente ou
não, que tenha semelhanças ou antagonismos em seu decorrer.
Retomando esses aspectos externos, o cronista demonstra sua capacidade de argumentação de
adquirir a concordância, ou não, do seu leitor. Por isso, definimos a subjetividade como uma peculiaridade do
gênero textual em questão. A mobilização de vozes externas, a pressuposição, a negação, a citação de
discursos direta ou indireta e a forma de fazê -la são alguns exemplos da manifestação da heterogeneidade na
crônica jornalística. A seguir entenderemos um pouco melhor a heterogeneidade, principalmente a marcada,
que é mais utilizada e evidente no discurso, auxiliados pela teoria da análise do discurso (AD) de linha
francesa.
2. A heterogeneidade
A heterogeneidade no discurso toma conhecimento de um funcionamento que representa uma
relação do “interior” com seu “exterior”. Maingueneau (1993: 75) 3 explica que “as formações discursivas não
possuem duas dimensões – por um lado, sua relação com elas mesmas, por outro, sua relação com o exterior –
mas é preciso pensar, desde o início, a identidade como uma maneira de organizar a relação com o que se
imagina, indevidamente, exterior”.
Há dois tipos, se é que podemos assim dizer, de heterogeneidade: a marcada e a constitutiva. A
heterogeneidade marcada, ou mostrada, é a forma mais evidente no texto. Os exemplos são as citações de
discurso de forma direta, utilizando travessão ou aspas, ou de maneira indireta, a negação, a pressuposição, a
parafrasagem, a ironia, as palavras entre aspas e outras formas evidentes. Já a heterogeneidade constitutiva
não é tão evidente no discurso.
Esse relacionamento do interior com o exterior do discurso nos leva a outro termo, a polifonia.
Segundo o mesmo Maingueneau (1993: 76) 4 , há polifonia quando é possível distinguir em uma enunciação
dois tipos de personagens, os enunciadores e os locutores. Os enunciadores são seres cujas vozes estão
presentes na enunciação; efetivamente eles não falam, mas a enunciação permite expressar seu ponto de vista.
Já o locutor, pode pôr em cena, em seu próprio enunciado, posições diferentes da sua. Ele atua como um
porta-voz.
Para esclarecer melhor a polifonia, Maingueneau explica as várias vozes presentes num
discurso e a originalidade do discurso, pois este último “não é único e irrepetível, pois um discurso discursa
outros discursos. Nessa medida o discurso é social”. Devemos entender, então, que se um discurso mantém
relação com outro, ele é um lugar de trocas enunciativas, onde a história pode inscrever-se e não um sistema
fechado sobre si mesmo. Maingueneau (1987: 88) 5 .
2
3
4
5
ARRIGUCCI JR. Op. Cit.
MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Campinas: Pontes, 2.ed., 1993.
MAINGUENEAU, D. Op. Cit.
MAINGUENEAU, D. Nouvelles tendances en analyse du discours. Paris: Hachette, 1987.
Retomando a heterogeneidade constitutiva, todo discurso define sua identidade em relação ao
outro. Isso significa que o discurso apresenta uma heterogeneidade constitutiva - Maingueneau (1987, p. 8193), isto é,
“Mesmo na ausência de qualquer marca de heterogeneidade mostrada, toda unidade de
sentido, de qualquer tipo que seja, pode ser inscrita numa relação essencial com uma outra, a
do ou dos discursos em relação às quais o discurso de que ela depende define sua identidade.
Com efeito, desde que as articulações são instituídas nessa relação interdiscursiva, toda
unidade que se desenvolver de conformidade com ela sachar-se-á ipso facto na mesma
situação. Um enunciado de uma formação discursiva pode então ser lido pelo “direito” e pelo
“avesso”: num lado ele significa sua pertença e seu próprio discurso, no outro ele marca a
diferença constitutiva que o separa de um ou vários outros discursos.” Maingueneau (1987:
88).6
Além da polifonia há muitas outras marcas da heterogeneidade mostrada, como a
pressuposição, a negação, o discurso relatado direto, o discurso indireto, a ironia, as palavras entre aspas,
entre outras. Cada uma dessas marcas indica a heterogeneidade no discurso.
3. Análises
A crônica se tornou um gênero que expressa a opinião do autor, sendo reforçada pelos
exemplos e citações que o cronista utiliza para confirmar seu posicionamento, que é expresso de forma
subjetiva. Por isso, as várias vozes presentes no texto refletem a opinião do autor, pois evidenciam a vivência
do cronista e o ambiente em que ele cresceu, os valores familiares, culturais, religiosos e políticos, entre
outras características. Vejamos inicialmente a primeira crônica:
"Foi a primeira morte sem aspas do Brizola. Sua ‘morte’ em sentido figurado foi anunciada
várias vezes. Quando comecei a publicar matéria assinada em jornal, em 1969, não havia
instruções claras sobre o que se podia e não se podia escrever - pelo menos não em Porto
Alegre. Alguns assuntos eram obviamente desaconselhados, para usar um termo brando:
críticas ao governo militar e a militares brasileiros em geral, qualquer referência aos rumores
de tortura e assassinato de presos políticos e opositores do regime, notícias de guerrilhas. Você
podia recorrer à alusão velada, a entrelinhas e a indiretas que passavam ou não passavam
pela autocensura do jornal, e assim ir testando os limites do permitido. Às vezes ‘passar’ ou
não ‘passar’ dependia apenas de um retoque no texto, outras vezes tudo era desaconselhado e
você tinha que escrever outra crônica, de preferência sobre o sexo de anjos apolíticos. Era
conveniente ter sempre um texto de reserva, um que não se prestasse a nenhuma interpretação
dúbia. Por isso escrevia-se muito sobre futebol, e mesmo assim cuidando para não enfatizar
demais as jogadas pela esquerda. Um assunto ideal seria um torneio de futebol entre anjos sem
sexo e destros.
Só uma vez recebi uma proibição direta, com nome e sobrenome. Na verdade, dois nomes e
sobrenomes. Tinha mencionado o Brizola numa crônica - nem a favor nem contra, era só uma
reminiscência - e o editor me chamou para dizer que a crônica não poderia sair e que eu não
fizesse mais aquilo. Era proibido tocar no nome de Leonel Brizola no jornal. ‘Faz de conta que
o Brizola morreu’, me disse. E, quando eu ia saindo do seu gabinete, acrescentou: ‘Ah, e o
Helder Câmara também.’
Acho que deixaram o Dom Helder ressuscitar antes do Brizola, que continuou ‘morto’ para a
imprensa brasileira até começar a famosa abertura lenta e gradual do general Geisel. E
quando voltou ao Brasil depois da anistia, vivíssimo, Brizola foi recebido por uma multidão
que resistira aos anos de silêncio forçado e inútil sem esquecê-lo. Seguiram-se anos de triunfos
e de mais algumas mortes entre aspas. Depois daquela eleição presidencial em que ele chegou
atrás do Enéas, fiz uma charge para o ‘Jornal do Brasil’ que era assim: uma multidão em
torno da sepultura do Brizola recém-enterrado, e no meio da multidão, sorrindo, o próprio
6
MAINGUENEAU, D. Op. Cit.
Brizola. Se sua vida e sua carreira ensinavam alguma coisa era que qualquer notícia da sua
morte política seria prematura.
Sua última morte não foi em sentido figurado. Foi sem aspas, desta vez. Mas, sei não. Talvez
seja prudente deixar uma cuia com mate quente perto da sepultura, por via das dúvidas."7
Na crônica “Sem aspas, desta vez”, Luis Fernando Veríssimo usa várias situações para
exemplificar sua opinião sobre o tema tratado. Ele fala de várias situações para construir sua argumentação. O
primeiro assunto abordado é a morte de Leonel Brizola. Em seguida, ele relaciona a morte de Brizola com as
várias mortes fictícias que o político teve, pelo menos, na imprensa. Por isso, o autor usa aspas na palavra
morte, que foi tratada, como ele mesmo descreve sua abordagem, no sentido figurativo.
Para contextualizar essas várias mortes ele explica como era a imprensa no Brasil na época da
ditadura, onde havia a censura e só se podia fazer críticas ao governo com alusões veladas. Falando dessa
censura, ele emprega o verbo “passar” entre aspas, pois passar significava não ter ido além do limite do
permitido.
Aqui ele descreve bem as condições de produção desta época. Ele afirma que, às vezes,
“passar” ou não “passar” pela censura era uma questão de retoque, para deixar as críticas veladas no texto, ou
de escrever outra crônica, de preferência sobre o sexo dos anjos apolíticos. Veríssimo polemiza o assunto,
com um tom de humor: “Por isso escrevia -se muito sobre futebol, e mesmo assim cuidando para não enfatizar
demais as jogadas pela esquerda. Um assunto ideal seria um torneio de futebol entre anjos sem sexo e
destros.”
O próximo acontecimento mencionado para continuar a argumentação foi a proibição direta que
um editor fez ao cronista. Este último havia escrito uma crônica que mencionava o nome de Brizola. Nesta
altura de seu texto, Veríssimo mobiliza uma voz externa, fazendo duas citações diretas. Ele insere a voz do
editor em sua crônica, com o uso de aspas, e esta é uma forma de heterogeneidade marcada. Na segunda
citação, o cronista inclui uma interjeição, utilizada pelo editor, que retrata a linguagem falada.
Na seqüência, Veríssimo explica o que aconteceu na imprensa brasileira depois desta ocasião.
Ele diz que deixaram o Dom Helder ressuscitar antes do Brizola e afirma que este último permaneceu “morto”
até a abertura de Geisel. Novamente, o cronista utiliza aspas na palavra morto, indicando que esta foi
novamente empregada no sentido conotativo. Na frase seguinte ele utiliza uma frase explicativa para
introduzir a palavra vivíssimo. Aqui se explicita a razão pela qual o autor usou a palavra morte entre aspas,
indicando o sentido conotativo. Por isso, uma explicativa afirmando que o político gaúcho estava vivo e sendo
recebido por uma multidão.
O cronista ainda introduz uma nova situação, que seguiram anos de triunfos e de mais algumas
mortes entre aspas. Logo depois, ele fala da eleição presidencial que Leonel Brizola perdeu para Enéas em
número de votos e, em seguida, fala da charge que fez para o “Jornal do Brasil”, polemizando a morte entre
aspas de Brizola.
Retomando o tema, e assunto mais atual que fundamenta a crônica, Luis Fernando Veríssimo
afirma que esta morte de Brizola foi no sentido denotativo. Voltando um pouco, na primeira linha do texto,
ele usa uma frase com humor: “foi a primeira morte sem aspas do Brizola”. O uso da palavra “primeira” é
polêmico e irônico, já que nós mortais morremos uma vez só. Mas quando comparado com o último parágrafo
entendemos o porquê o autor utilizou a palavra primeira, sem aspas, ou seja, não usando a heterogeneidade
marcada. O autor cria uma situação hipotética, no final, da ressurreição de Brizola.
Para a próxima análise, também foi selecionada uma crônica de Luís Fernando Veríssimo que
mostra exatamente uma situação corriqueira, muito comum a uma grande quantidade de pessoas que passa
por ela diariamente.
“Lixo
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se
falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
7
VERÍSSIMO, Luis Fernando. “Sem aspas, desta vez”. Disponível em
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=283ASP008 em 29/07/2004.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu
lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes
sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a
poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa
ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida
privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social.
Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?”
VERÍSSIMO, Luís Fernando8
Esta crônica ilustra como a crônica representa nosso cotidiano. Uma atitude simples como a de
jogar o lixo, que todos fazem, mas se identificam mais os que moram em condomínios, pode ser reproduzida
numa forma próxima da poesia. É uma transformação do corriqueiro em arte, em literatura.
Assim é a crônica, ligada principalmente a um fato acontecido recentemente ou de algo simples
e trivial. No primeiro texto, percebemos a dependência da crônica de vários acontecimentos para construir a
argumentação do cronista, isso também decorre da subjetividade deste gênero jornalístico, onde cada autor
defende seu ponto de vista de acordo com seus argumentos, o que difere bastante das notícias e reportagens
do jornal diário, onde se deve tentar ser imparcial e extremamente objetivo.
No segundo Exemplo de texto, temos a expressão da cotidianidade no texto. Algo banal que
gastamos pouquíssimos minutos para fazer e não despendemos a menor importância, pode se transformar,
quando numa crônica, em um texto bastante agradável de ler.
Também se percebe que a crônica valoriza o assunto tratado. Fazer uma nova amizade jogando
o lixo fora parece estranho, mas é isso que o cronista tenta mostrar, que uma pessoa conhece a outra por uma
análise simples das sacolas de lixo com o número do apartamento em que ela mora. Sabendo-se todas as
características, hábitos alimentares, os dias de festa, o tempo de ausência, as dotes culinários, digamos que
realmente fica mais fácil uma aproximação.
A crônica é assim: simples na aparência, banal no assunto, mas extremamente rica na essência,
na arte da construção da frase, na poesia com que se narra o acontecimento. Seu tema é sempre simples e
trivial porque o que mais se destaca é sua forma, sua construção e sua linguagem.
8
VERÍSSIMO, Luis Fernando. “Lixo”. Disponível em
(http://quevidamaiscronica.blogs.sapo.pt/lfverissimo.html) em 29/10/2004.
4. Conclusão
Comum às duas crônicas analisadas é a heterogeneidade, tanto marcada quanto constitutiva.
Para argumentar sobre o tema da crônica, que no caso da jornalística geralmente se refere a um fato do
cotidiano, o cronista remete a determinadas situações para exemplificar e esclarecer sua opinião e
interpretação dos fatos. Além dessa subjetividade, a crônica tem um grande relacionamento com o cotidiano e
características da vida diária, evidente pela escolha lexical, pela simplicidade das orações e às vezes por
expressões regionais ou que relatam a forma oral e corriqueira. Ainda, a compreensão total da crônica
depende, portanto, do nível informacional do leitor e está condicionada aos fatos e à informação da
população.
RESUMO: com sua origem ligada ao folhetim, a crônica esteve associada a relatos sobre variados assuntos,
dos acontecimentos do dia-a-dia ao universo íntimo de cada autor. Este cotidiano é o foco de estudo deste
trabalho, já que as crônicas de hoje são a repercussão de um fato corriqueiro na sociedade.
PALAVRAS-CHAVE: crônica; jornalismo; heterogeneidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARRIGUCCI JR., David. Fragmentos sobre a crônica. In: Enigma e comentário. São Paulo: Companhia das
Letras, 1987.
MAINGUENEAU, D. Nouvelles tendances en analyse du discours. Paris: Hachette, 1987.
_____, Novas tendências na análise do discurso . Campinas: Editora Pontes, 2º edição, 1993.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. “Lixo”. Disponível em
(http://quevidamaiscronica.blogs.sapo.pt/lfverissimo.html) em 29/10/2004.
_____. “Sem aspas, desta vez”. Disponível em
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=283ASP008 em 29/07/2004.
Download

o cotidiano representado na crônica jornalística