ARQUITETURA MODERNA NA PAISAGEM CULTURAL DE GOIÂNIA
Identidade e Preservação
OLIVEIRA, SIMONE BORGES CAMARGO (1); FROTA, JOSÉ ARTUR D’ ALÓ. (2)
1. Universidade Federal de Goiás. Mestranda no Programa de Pós Graduação Projeto e Cidade
Rua 06, Q. E3, n. 370, Ed. Empire Center, sl. 801, Setor Oeste, Goiânia-GO, CEP: 74.115-070
E-mail [email protected]
2. Universidade Federal de Goiás. Professor no Programa de Pós Graduação Projeto e Cidade
Rua A-11, Q. 2A, L. 2, Jardins Atenas, Goiânia-GO, CEP: 74.885-500
E-mail [email protected]
RESUMO
Goiânia é uma cidade significativa como objeto de estudo, dada sua existência recente e por inserir-se
nos ideais modernistas desde o seu planejamento à sua implantação, no contexto urbano e
arquitetônico brasileiro. Neste sentido, o artigo faz uma breve apresentação da importância da obra de
Eurico Calixto Godoi, primeiro arquiteto modernista a atuar em Goiânia. Ao realizar projetos com uma
nova articulação espacial fundamentada em elementos estéticos formais modernos, teve papel
significativo principalmente nas décadas de 50 e 60, inserindo Goiânia no cenário da arquitetura
moderna brasileira. Considerando a incessante transformação da modernidade e dos vínculos que
estruturam a relação do homem com o lugar, o artigo reflete sobre a arquitetura moderna como
possibilidade de uma memória presente e de sua preservação. Para tanto, discute estes vínculos que
estruturam a relação do lugar como lugar de memória e como condição de valoração da obra enquanto
paisagem cultural. Com isso, indaga sobre a identidade da obra de Eurico Calixto Godoi refletir a
formação simbólica da paisagem de Goiânia como lugar de memória.
Palavras-chave: Paisagem Cultural; Arquitetura Moderna; Preservação Goiânia.
1. INTRODUÇÃO
Goiânia é uma cidade significativa como objeto de estudo dada sua existência recente e por
inserir-se nos ideais modernistas, desde sua fundação. Sua paisagem cultural em suas várias
temporalidades é importante para a identificação e o reconhecimento da memória e
patrimônio arquitetônico moderno da cidade. Considerando que a preservação repousa na
presença de vínculos que o indivíduo mantém com o “lugar” como expressão de seu
entendimento do “mundo”, a identificação e o reconhecimento da memória e patrimônio
podem atuar na construção do diálogo emancipatório do cidadão com seu espaço edificado.
O fato de Goiânia ser construída na modernidade, certamente coloca condicionantes para a
formação de uma consciência histórica sensível à compreensão da dinâmica das
transformações sofridas na paisagem cultural em seu território desde o traçado original até os
dias atuais. Tais transformações são fenômenos cuja trama e significado, a despeito das
idiossincrasias locais, inserem o projeto de desenvolvimento de Goiânia dentro dos traços que
constituem os rumos da civilização ocidental. O teórico Carlos Antônio Leite Brandão em seu
ensaio crítico sobre a modernidade afirma: “O moderno se funda ao propor uma ruptura total
com toda a tradição. Convertida em hábito, esta ruptura estabelece uma tradição da negação
e faz da absoluta novidade o valor maior das obras e propostas” (BRANDÃO, 1999, p. 3).
Por sua vez, diz MELLO:
Goiânia foi criada dentro do espírito desenvolvimentista, e esse espírito tem
olhos constantemente voltados para o futuro. O olhar sobre o passado não
faz parte de seu roteiro. Eis aí, a essência da contradição que faz com que as
obras geradas com grandes doses de sacrifícios sejam destruídas e
repostas, sem que haja tempo suficiente para que lhes sejam constatados os
valores artísticos ou históricos. O fluxo desenvolvimentista é, nesse sentido,
autofágico (MELLO, 1996, p. 211).
Não é, portanto ocasional afirmar que a cidade de Goiânia pode, por isso mesmo, apresentar
situações cuja abordagem possa constituir instrumentos de análise universalizáveis. Por outro
lado, conceitos formados a partir de leituras e estudos desenvolvidos, apontam como
instrumentos valiosos para a compreensão de fenômenos locais. Neste sentido o artigo
apresenta uma breve reflexão sobre a arquitetura moderna como possibilidade de uma
memória presente e de sua preservação. Para tanto, discute estes vínculos que estruturam a
relação do lugar como lugar de memória e como condição de valoração da obra enquanto
paisagem cultural. Apresenta um breve histórico das várias modernidades da paisagem
urbana de Goiânia em alguns momentos distintos: a Paisagem Cultural - Núcleo Urbanístico
de Goiânia; Goiânia: Diversas Modernidades e Fragmentos - Arquitetura Moderna de Eurico
Calixto Godoi. E é nexte contexto que se indaga a possibilidade, sobre a identidade da obra de
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Eurico Calixto Godoi refletir a formação simbólica da paisagem de Goiânia como lugar de
memória moderna, principalmente por seu papel preponderante na inserção de Goiânia no
cenário da arquitetura moderna no Brasil. Pretende-se aqui enunciar este tema, sua presença
e contradição.
2. PAISAGEM CULTURAL – NÚCLEO URBANÍSTICO DE GOIÂNIA
Para o entendimento da paisagem e paisagem cultural inserida na modernidade, o ponto de
partida, neste artigo, é a apresentação de seus conceitos. A paisagem em sua generalidade,
segundo SANTOS, é:
Tudo aquilo que nós vemos, o que nossa visão alcança é a paisagem. Esta
pode ser definida como o domínio do visível, aquilo que a vista abarca. Não é
formada apenas de volumes, mas também de cores, movimentos, odores,
sons etc. (SANTOS, 1988. P.61)
Para COSGROVE “A paisagem não é meramente o mundo que nós vemos, ela é uma
construção, uma composição deste mundo. A paisagem é um modo de ver o mundo”.
(COSGROVE, 1984, p.13,). Sendo a relação do homem com o mundo, seu lugar de
pertencimento.
A paisagem em termos de lugar construído pelo homem é o reflexo de suas relações no tempo
de cultura e memória. Sua existência só se revela pelo seu olhar em movimento e pelos
vínculos estabelecidos em seu espaço. Aponta para um olhar orientado a outras
manifestações culturais, normalmente associadas a narrativas e fazeres localizados, de uma
comunidade, que muda a cada momento.
A paisagem é diferente do espaço. A primeira é a materialização de um
instante da sociedade. Seria, numa comparação ousada, a realidade de
homens fixos, parados como numa fotografia. O espaço resulta do
casamento da sociedade com a paisagem. O espaço contém o movimento.
Por isso, paisagem e espaço são um par dialético. Complementam-se e se
opõem. Um esforço analítico impõe que os separemos como categorias
diferentes, se não queremos correr o risco de não reconhecer o movimento
da sociedade. (SANTOS, 1998, p. 72)
Desse modo evidencia-se a correlação do homem em transformações contínuas com o
espaço habitado, seu meio urbano mediado por suas relações sociais.
[...] o meio urbano é cada vez mais um meio artificial, fabricado com restos
da natureza primitiva crescentemente encobertos pelas obras dos homens. A
paisagem cultural substitui a paisagem natural e os artefatos tomaram, sobre
a superfície da terra, um lugar cada vez mais amplo. [...] (SANTOS, 1998, p.
42)
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Segundo LEITE, [...] A terminologia conceptual de Paisagem Cultural terá surgido em meados
do século XIX [...] tendo posteriormente “surgido” como conceito já durante o século XX,
introduzido por Carl Sauer em 1925 no seu ensaio sobre Morfologia da Paisagem [...].”
(LEITE, 2013, p.3)
Na década de 70, o conceito de paisagem e paisagem cultural passa a ser estudado e
discutido com mais intensidade no campo da geografia e pelos movimentos de preservação
ecológica. Em 1972 a UNESCO apresenta o assunto em estudo em sua 17ª. Conferência Convenção sobre patrimônio Cultural e Natural. Em 1992 a UNESCO em sua 16ª. sessão
define paisagem cultural como categoria de Patrimônio Mundial.
No Brasil, segundo o IPHAN:
“As áreas de paisagem cultural são partes específicas, topograficamente
delimitadas da paisagem, formadas por várias combinações de
agenciamentos naturais e humanos, que ilustram a evolução da sociedade
humana, seu estabelecimento e seu caráter através do tempo e do espaço e
quanto de valores reconhecidos têm adquirido social e culturalmente em
diferentes níveis territoriais, graças a presença de remanescentes físicos que
refletem o uso e as atividades desenvolvidas na terra no passado,
experiências ou tradições particulares, ou representações em obras literárias
ou artísticas, ou pelo fato de ali haverem ocorrido fatos históricos.”
Recomendação: R(95) 9 (IPHAN, 2004, p. 332).
É neste contexto que a cidade e o meio urbano se apresentam como lugar de memória. Um
território de relações entre grupos sociais que engendram um embate: passado e presente;
construção, acréscimo, substituição, demolição e reconstrução de tradições e rupturas e que
engendram a sua paisagem cultural.
2.1 Paisagem Cultural Núcleo Urbanístico de Goiânia
Com as mudanças econômicas e sociais mundiais, o Brasil passava na década de trinta, por
um conjunto de grandes transformações. É neste contexto que nasce o projeto de
transferência da antiga capital do Estado de Goiás, cidade de Goiás para Goiânia; o que
concretizava os ideais políticos de Getúlio Vargas de modernização, interiorização e
nacionalização do país com uma conotação desenvolvimentista.
O principal artífice da mudança da capital foi Pedro Ludovico Teixeira, goiano,
médico, representante político do grupo econômico ascendente e interventor
de Getúlio Vargas depois da revolução de 1930. A situação estratégica de
Ludovico selava a coincidência dos interesses regionais e federais em torno
da construção da nova capital, já que uma das políticas do presidente Vargas
era a Marcha para o Oeste, que tinha como meta de crescimento a tomada de
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território rumo ao Amazonas. Goiânia era um ponto estratégico desse roteiro.
(MELLO, 2006, p. 34)
A concepção do plano urbanístico de Goiânia e de sua paisagem podem ser entendidas,
neste sentido, como uma representação simbólica de modernização de cunho político. “A
nova capital iria concretizar, no nível de espaço, a atuação de um governo “revolucionário”.
(MEDEIROS, 2010, p. 53)
Goiânia nasce na modernidade, efetivada em seu traçado urbano do núcleo inicial. Os
critérios de escolha do local, suas condições climáticas e geográficas para a construção da
nova capital foram pautados por conhecimentos técnicos. Em 1933, para a concepção do
projeto da cidade foi contratado “[...] Atílio Corrêa Lima, arquiteto formado pela Escola
Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e com mestrado no instituto de Urbanismo da
Universidade de Paris. [...]” (MELLO, 2006, p.37). Sua formação foi fundamental para sua
proposição utilizando as exigências do urbanismo moderno como: a racionalidade, o
zoneamento, previsão de parques lineares e áreas verdes; mas também elementos de
inspiração barroca; adaptando esses elementos às condições do local. (Figura 1).
Posteriormente o plano de Atílio sofreu modificações sendo por Armando Augusto de Godoy.
Figura 01 - Praça Cívica, Palácio do Governo e Edifícios Públicos e Comerciais
Fonte: Instituto Brasileiro Geográfico e Estatístico
O plano de Atílio [...], na verdade, não era muito complexo, mesmo porque,
deve-se considerar, era destinado a uma população de cinquenta mil
habitantes. A ênfase principal estava no centro administrativo, que se
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organizava em uma grande praça central onde desembocavam as avenidas
principais. [...] perspectivando-se o Palácio do Governo de três pontos
distintos. Dessa forma, potencializa-se o sentido de ponto de culminância
daquele edifício. A inspiração segundo Atílio, vinha de Versalhes, Kalsrule e
Washington, ou seja uma fonte explicitamente barroca. [...]. (MELLO, 206
p.39)
A paisagem cultural urbana do núcleo pioneiro era composta não só pelo plano diretivo
moderno de seu traçado urbano, mas pela modernidade estética e sua ordem espacial de
zoneamento na implantação das edificações, no terreno com recuos frontais e laterais, o que
constitui fundamentalmente a imagem da paisagem; estes aspectos e suas relações
simbólicas, culturais fundam a primeira paisagem cultural da cidade.
Os primeiros edifícios que foram construídos na cidade, pela empresa de engenharia Coimbra
Bueno, eram destinados à abrigar repartições da administração pública e estabelecimentos
comerciais. Edificados em estilo art déco, estética utilizada em quase todo território brasileiro,
como símbolo de poder; entre 1930 e 1940; “[...] o art déco representava poder porque era
ícone de modernidade. Dessa maneira, o discurso modernizador ecoava na paisagem da
novíssima capital: uma mensagem a ser captada pelo olho, “escrita” por uma infinidade de
códigos visuais agenciados no cenário urbano. [...]”. (MELLO, 2006, p.81) As edificações
possuíam de modo geral uma forma simples com elementos e detalhes em estilo déco.
Podemos citar os edifícios do centro Cívico como: Palácio das Esmeraldas, no centro da
praça; Secretaria Geral da Fazenda; Fórum e Tribunal de Justiça; Departamento de
Informação (Museu Zoroastro Artiaga); o Grande Hotel do final da década trinta. O estilo déco
foi também utilizado nos equipamentos urbanos como: coreto; guarda corpo do Lago das
Rosas; bancos; fontes; passeio central da Av. Goiás; obeliscos com luminárias; torre do
relógio entre outros.
A paisagem do Núcleo Pioneiro é caracterizada pela predominância de
edifícios comerciais e administrativos e se constitui em área de confluência
de fluxos de transporte coletivo. [...] Goiânia se insere no contexto das
cidades consideradas Patrimônio Cultural do Brasil, pela ação do
tombamento de seu Centro Histórico. Com a portaria federal n. 507 de 18 de
novembro de 2003, publicada no Diário Oficial da União em 24 de novembro
do mesmo ano, alguns bens e elementos que o compõe foram tombados pelo
IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e elevados à
categoria de patrimônio da nação, passando a ser submetidos à sua
legislação específica. [...] (ARAÚJO, 2007, p. 206)
Esta paisagem urbana tem em seu conjunto aspectos culturais e históricos que representam a
memória da cidade e de seus cidadãos, sendo reconhecida como lugar de reconhecimento
patrimonial. É neste momento que a paisagem passa a ser efetivamente lugar de patrimônio
histórico.
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3. GOIÂNIA: DIVERSAS MODERNIDADES
Goiânia possui várias modernidades desde sua fundação, sejam elas inerentes ao plano
diretivo do traçado original e suas várias modificações; sejam nas configurações formais e
estéticas da arquitetura pública, comercial e residencial que foram formadas ao longo de sua
existência recente. As superposições decorrentes desse movimento na história social da
cidade constroem continuamente sua paisagem cultural.
A primeira modernidade da arquitetura residencial de Goiânia pertence ao seu plano diretivo
que não só apresentava as dimensões do terreno padronizado, mas as normas de
implantação da edificação, prevendo o recuo frontal e lateral no limite do lote, o que propiciou
entre outras questões uma iluminação e ventilação natural. Outro aspecto importante foi o
conteúdo programático, seja nas casas térreas ou em dois pavimentos: alpendre, sala,
quartos cozinha e banheiro; sua quantidade dependia da classe social à que se destinava o
imóvel.
Uma das diferenças fundamentais na constituição física, além dos novos materiais e do
padrão construtivo da casa, foi a localização da cozinha e do banheiro que passaram a fazer
parte constituinte do bloco da edificação, seguindo as recomendações higiênicas da
modernidade, muito diferentes das casas da antiga capital. Os serviços ainda continuavam
sendo realizados em uma edícula no fundo do lote, tradição do habitar goiano da época
colonial que persiste em muitas residências goianienses ainda hoje no sec. XXI. É importante
ressaltar que esta nova composição formal era decorrente do conteúdo programático e seus
desdobramentos, mas também denotava uma importante mudança de paradigma nas
relações sociais e familiares apesar da família goiana ainda ser patriarcal.
Entre 1930 a 1940 foram edificadas residências com a presença de vários estilos como:
neocolonial, normando, eclético, bungallow e art déco.
[....] É importante ressaltar que os construtores da capital, os Coimbra Bueno,
e vários personagens importantes que atuaram no processo de formação de
Goiânia, chegavam de cidades como Rio de Janeiro e Belo Horizonte
trazendo, sem dúvida alguma, a referência de tais padrões e, desse modo,
foram adaptando-os ao gosto e possibilidades técnicas locais. (MOURA,
2011, p.60)
Primeiramente “[...] havia três tipos diferentes de moradias [...], as “Casas Modelo”, as “Casas
Populares” e as “Casas para Funcionários” [...]. (MOURA, 2011, p.39) As casas modelo tipo,
eram térreas ou dois pavimentos e destinadas aos altos funcionários do governo. “[...] Quanto
aos aspectos formais e estilísticos, podemos dizer que tais moradias aproximavam-se dos
bungalows americanos, pela presença marcante dos alpendres e volumetria compacta. [...]”
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(MOURA, 2011, p.63). As casas populares e de funcionários” eram de um pavimento com
elementos estéticos singelos.
A opção estética das residências da classe média e alta em Goiânia foi o estilo neocolonial.
[...] à arquitetura da elite, que mesmo sendo simplificada se comparada aos
exemplares cariocas ou paulistas, destacavam-se do conjunto de edificações
goianienses, seja por suas dimensões, como é o caso dos grandes sobrados
neocoloniais, seja pelo aspecto marcante dos telhados altamente inclinados
dos modelos normandos. [...] (MOURA, 2011, p.74)
Existiam exemplares em outros estilos, mas o neocolonial era maioria. Foram inspirados nos
modelos das cidades de Belo Horizonte, Rio e São Paulo. A “[...] fase do neocolonial em
Goiânia durou, aproximadamente de 1930, 1940 e 1950 [...]”. (MELLO 206 p. 108).
Verifica-se no espaço edificado, no primeiro momento da sua construção, a
adoção da arquitetura presente em outras regiões do país. Prevalece nos
primeiros tempos o ecletismo como linguagem arquitetônica das casas
construídas para ou pela classe média e média-alta. São erigidos edifícios
assobradados neocoloniais, chalés suíços ou normandos, casas térreas de
estilo denominadas missões ou construções populares, convencionais de
alvenaria com ornamentações variadas em massa ou pedra sobre as paredes
e relevos e desenhos decorativos sobrepostos às portas e/ou presentes nas
vidraças. (VAZ E ZÁRATE, 2005, sp)
Já devidamente implantada urbanisticamente, Goiânia foi inaugurada em 1942 em pleno
Estado Novo. O Batismo Cultural de Goiânia foi marcado por grandes festividades políticas e
culturais. Para sediar o grande evento foi edificado o Cine Teatro Goiânia, um edifício em
estilo art déco. Segundo MELLO:
No desenho do Cine-Teatro Goiânia percebe-se uma forte inspiração nos
“Odeons” britânicos, os cinemas que marcaram um estilo a partir dos anos
30, dando-lhes um semblante especial que se espalhou pelo mundo [...] Se
julgarmos [...] sob o ponto de vista da estética Déco, podemos considera-lo
uma obra prima do estilo. (MELLO, 1996, p.72)
O impacto desta edificação na paisagem urbana da época foi grande, principalmente pela sua
qualidade estética e por sua volumetria simétrica e compacta, implantada na confluência de
dois eixos principais da cidade, muito diferenciada das demais.
Somente na década de 50, Goiânia tem novo impulso desenvolvimentista com a chegada da
estrada de ferro e a construção de Brasília. “[...] Na micro esfera do Estado de Goiás, o
processo de modernização só pôde ser esboçado com a aceleração da economia e a quebra
de isolamento da região. Como marco referencial consolida-se a chegada da estrada de ferro,
na segunda metade do século XX, possibilitando a escoamento da safra [...]”. (MELLO, 2006,
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p.34) Para abrigar a chegada da estrada de ferro, foi realizado o último edifício público em
estilo art déco tardio, na cidade.
O percurso apresentado até aqui representa o primeiro momento de modernidade das várias
configurações da paisagem cultural de Goiânia, revelado por suas narrativas edificadas pela
construção de sua cultura em seu tempo de modernidade. Assim:
Partindo de uma visão analítica, Goiânia possuiu [...] diferentes momentos de
modernidade. O primeiro está associado ao contexto de sua implantação
urbanística, adotado em consonância com os ideais do urbanismo científico
francês, uma corrente modernizante, ainda que não estivesse alinhada às
vanguardas modernas mais radicais da época. Formalmente, as edificações
construídas neste período revelam uma linguagem mais próxima do
racionalismo europeu, que se refletia no limitado vocabulário arquitetônico
das suas edificações, em boa parte decorrente da falta de recursos
econômicos para a construção e de técnicos e mão de obra pouco
qualificada. Neste período, a cidade contaria com profissionais ligados ao
escritório técnico local, na sua maioria engenheiros, responsáveis por alguns
poucos edifícios e espaços públicos que se destacam, a exemplo da Praça
Cívica, do Cine Teatro Goiânia, da Escola Técnica e da Estação Ferroviária.
Na sua maior parte, a arquitetura da cidade nasce de um racionalismo
limitado arquitetonicamente, obra de projetistas anônimos ou pouco
conhecidos, e que recentemente tem sido denominada de “arquitetura Decó”.
(CAIXETA, 2011, p.5)
Este cenário em seu conjunto de manifestações e elementos simbólicos representam a
paisagem cultural da cidade, nas décadas de 30, 40 e início de 50. Essa paisagem, na maioria
de seus aspectos não é reconhecida pelo cidadão como lugar de memória e
consequentemente de preservação. Está salvaguardado no campo legal do Patrimônio
Histórico Nacional somente o traçado do núcleo urbano inicial e algumas edificações isoladas.
4. FRAGMENTOS – ARQUITETURA MODERNA DE EURICO CALIXTO GODOI
A Revolução de 1930 e as renovações decorrentes nos setores da economia, educação e
saúde repercutiram na arquitetura brasileira, principalmente com as mudanças ocorridas no
ensino de arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes quando Lúcio Costa assumiu sua
direção trazendo o pensamento de Le Corbusier. O período de 1936 a 1945 com a projetação
e construção do Ministério de Educação e Saúde por um grupo de arquitetos brasileiros, em
contato com o pensamento de Le Corbusier, constitui um marco do modernismo brasileiro.
As primeiras manifestações da arquitetura moderna no Brasil tiveram início
na década de 1920 e se estabeleceram na década de 1930, sob a tutela do
Estado. Nas décadas de 1940-50, as políticas desenvolvimentistas e a
industrialização proporcionaram o crescimento das cidades e a difusão desta
arquitetura com variações regionais.
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A ideia de modernização do país encontra nos edifícios institucionais uma
fórmula de sucesso que se reflete no grande fomento à construção de
conjuntos habitacionais, igrejas, escolas, universidades, museus, clubes e
centros comerciais. Esta tornou-se paradigma para os arquitetos brasileiros
que encontram respostas para os mais diversos programas de grande
repercussão social. (CAIXETA, 2011, p.7)
A nova linguagem arquitetônica chega a Goiânia a partir de 1950 pelas mãos do arquiteto
Eurico Calixto Godoi que inaugura o segundo momento de modernidade.
O segundo momento de modernidade decorre da ruptura com este padrão
racionalista – decorrente de sua adequação como linguagem e como
resposta (técnico construtiva) pragmática às aspirações e condições locais e
não do acolhimento a determinada doutrina estética–, se dará a partir dos
anos 1950, quando do anúncio da construção da nova capital do Brasil, que
passa a alimentar o processo de modernização da sociedade goiana [...].
(CAIXETA, 2011, p.5)
Eurico Calixto Godoi nasceu em 1925, na cidade de Anápolis em Goiás. Formou-se como
“engenheiro arquiteto” na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil no Rio
de Janeiro em 1951. Quando estudante viveu a intensa efervescência da arquitetura moderna
da “escola carioca”, influenciado principalmente por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Afonso
Reidy, Attílio Correia Lima, e os cinco princípios da arquitetura moderna de Le Corbusier.
O goiano Eurico Godói se forma na Faculdade Nacional de Arquitetura da
Universidade do Brasil. Ele estagia, no Rio de Janeiro, com Oscar Niemeyer e
tem uma influência declarada de Lúcio Costa, Afonso Reidy e Attílio Correia
Lima. Ele demonstra uma sensibilidade aguçada na leitura das soluções
estéticas adotadas por esses arquitetos e ao mesmo tempo apresenta uma
atitude apaixonada em relação à arquitetura. Ao retornar à Goiânia em 1951,
já graduado, atua profissionalmente no serviço público e em escritório
particular, sendo autor de vários projetos, nos quais busca concretizar os
ideais modernos incorporados no período de sua formação. (VAZ, 2005, sp).
Alguns edifícios foram de fundamental importância para sua formação que o fizeram perceber
os novos rumos da arquitetura brasileira e daí então expressar sua verdadeira paixão pela
arquitetura moderna.
Ficou impressionado com o edifício do Ministério da Educação e Saúde, seus princípios e as
técnicas aplicadas, principalmente na liberação da parte térrea com a utilização do pilotis;
segundo Godoi “aquela estrutura autônoma mas de um perímetro maciço de paredes sobre
pilares apresentava uma nova possibilidade da liberação do espaço interno que ele nunca
tinha visto antes.”
Outras três obras marcaram intensamente sua percepção projetual: a Estação de Hidroaviões
de Atílio Corrêa Lima, por sua delicadeza, pureza plástica e a beleza da escada; o Conjunto
do Parque Guinle de Lúcio Costa e o Residencial de Pedregulho de Affonso E. Reidy,
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principalmente por seus princípios de implantação, planta livre e tratamento de fachadas com
elementos vazados e brise-soleil, que foram posteriormente muito utilizados em suas obras
em Goiânia.
Outros dois fatos também seriam muito marcantes em sua trajetória: primeiro ter conhecido
pessoalmente Atílio Corrêa Lima e posteriormente em 1949 ter estagiado no escritório de
Oscar Niemeyer, onde pôde vivenciar de perto os princípios da arquitetura moderna brasileira.
Foi com esta perspectiva que chegou em Goiânia em 1951, onde começou a trabalhar
imediatamente. Segundo Godoi, “quando cheguei em Goiânia não existia nenhum arquiteto
fazendo arquitetura moderna, as obras eram realizadas por engenheiros e mestres-de-obras,
no estilo neocolonial, eclético, art’déco, e bungalows. [...] fui eu o primeiro arquiteto moderno a
chegar em Goiânia [...]. (OLIVEIRA, 1990, p.3). Em seguida outros jovens arquitetos
instalaram na cidade a saber: Elder Rocha Lima [...] Ariel Costa Campos [...] Raul Filó [...]
(MELLO, 2006, p.130 a 131)
A importância de Eurico de Godoi não deveu-se apenas ao fato dele ter sido o
primeiro arquiteto modernista a atuar em Goiânia. Godoi era um arquiteto de
talento. [...] Projetou inúmeros edifícios em Goiânia, públicos e privados nos
anos 50 e 60. (MELLO, 1996, p.166-167).
Figura 02 - Primeira Casa Moderna de Goiânia - demolida
Fonte: OLIVEIRA, 1990 anexos
A primeira casa moderna em Goiânia foi construída em 1952 (Figura 2). A edificação foi
implantada tirando partido do terreno, liberando-a parcialmente do chão, utilizado para sua
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entrada principal uma rampa. A planta retangular obedecia a uma setorização racional: social,
íntimo e serviço. O arquiteto procurou utilizar os princípios de uma planta mais livre e funcional
na articulação de suas partes. A volumetria retangular equilibrada apresentava destaque para:
o telhado com forma de dois trapézios convergentes em forma de V; o jardim interno, o painel
de vidro da fachada principal protegido pela varanda e a ausência de ornamentação e beiral.
[...] Vale ressaltar que toda estrutura foi executada em concreto armado e cuidadosamente
vistoriada por Godoi. [...] (OLIVEIRA, 1990, p.3)
Em 1952 [...] erguia-se o primeiro edifício modernista da cidade, a residência
de Dorival Barcelar, na rua 91 esquina da rua 10. O projeto é de autoria do
arquiteto Eurico Calixto Godoi [...] recém formado, (...) trazia fortes influências
de Le Corbusier, Niemeyer e Lúcio Costa [...]. Essa influência permeou toda a
obra do arquiteto [...]. (MELLO, 1996, p.1667).
Esta residência teve uma grande representatividade na paisagem urbana da cidade, não só
por suas qualidades formais e projetuais enquanto arquitetura moderna, mas também por sua
implantação em um lote de esquina de uma importante via do núcleo urbano inicial. Ao longo
do seu percurso haviam poucas edificações que foram realizadas nos estilos em voga na
época. Seu diferencial estético provocou inicialmente uma certa reserva mas também muita
curiosidade, pois várias pessoas passeavam na rua para conhece-la.
É de sua autoria a primeira casa moderna de que se tem notícia e que tem
repercussão em Goiânia por se distinguir funcional e esteticamente das
demais e por causar impacto sobre a sociedade local – a casa da Rua 10
esquina com a Rua 91, no Centro, de Dorival e Tereza Barcelar [...]. Essa
casa apresenta uma concepção espacial distinta das casas goianienses de
então, na medida em que está presente a setorização das atividades e, mais
do que isso, a inversão na sua distribuição. O arquiteto traz o setor social e de
serviços para a parte anterior (frontal) do edifício e situa o setor íntimo na
parte posterior. (VAZ 2005, sp).
Curiosamente, nesta mesma época, em 1952 estava sendo edificado o ultimo edifício público
no estilo art déco tardio de Goiânia a Estação Ferroviária de Goiás, demostrando a
coexistência de várias modernidades na paisagem cultural da cidade.
Outra edificação residencial que merece destaque por sua inovação projetual na paisagem
urbana de Goiânia é a Casa de Bariani Ortêncio, situada no anel externo centro cívico urbano
original da cidade, na Rua 82. Na época de sua construção, década de 60, ocupava um lugar
privilegiado, considerando que as outras edificações eram edifícios públicos pertencentes a
construção inicial da cidade. Este aspecto juntamente com o tamanho do terreno e o conteúdo
programático contribuíram para uma elaboração estética, plástica, volumétrica nos moldes da
arquitetura moderna. As linhas horizontais são predominantes.
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Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro
Da década de 50 e 60 foram projetadas e construídas por Godoi várias residências nos
moldes da arquitetura moderna. Em 1952, Eurico Godoi projetou o primeiro Edifício Público
moderno a Sede da Previdência Social.
Havia naquela curva da década de 1950 para a década de1960, um euforia
modernizadora permeando o imaginário goianienses, em parte sob a
influência da construção de Brasília. Apesar disso, as resistências aos novos
modelos construtivos se efetivavam por força de padrões provincianos de
comportamento, eufemizado como “costumes tradicionais”. Por isso
arquitetos como Eurico Godoi e Elder Rocha Lima promoviam uma espécie
de “processo educativo” para a implantação do modernismo na capital
goiana.
Como, para eles, a arquitetura modernista também era uma causa, seus
canais de luta, além da argumentação direta com o cliente, eram as revistas e
os jornais locais, onde procuravam divulgar suas idéias por meio de artigos
esclarecedores. (MELLO, 2006, p.132)
Em 1960 o modernismo se consolidou em Goiânia entre outros fatos pelo fluxo de
crescimento depois da construção de Brasília.
Na década de 1960, a construção de Brasília influenciaria a produção
arquitetônica local, a qual procurou acompanhar o momento de consolidação
da arquitetura moderna brasileira, aproveitando as novas circunstâncias
econômicas desta região central do país. (CAIXETA, 2011. p.6)
Essa nova configuração modifica fundamentalmente a paisagem cidade com o a construção
de vários edifícios modernos importantes com projetos de arquitetos de renome nacional
como: David Liebeskind; Sergio Bernardes; Paulo Mendes da Rocha; Luís Osório Leão;
Renan Oliveira Barros; Sigbert Zanettini, Ruy Othake, entre outros. Sendo este o terceiro
momento de modernidade da cidade de Goiânia. Todos este arquitetos seus projetos e obras
influenciaram significativamente a produção local e contribuíram para a modificação da
paisagem cultural da cidade, apresentando novos símbolos de modernidade.
É neste período também que “Goiânia cresce para o alto em 1960”
Conforme registros do jornal Diário do Oeste, desde 1961, o Governo do
Estado estava construindo um edifício de múltiplos pavimentos na Praça
Cívica, voltado para o Setor Sul e para a saída sul da cidade [...] O governo
goiano está fazendo construir, na área situada atrás do Palácio das
Esmeraldas, um edifício de dez andares e que se constituirá no Centro Cívico
de Goiânia (MEDEIROS, 2010, p. 229)
E também se expande em centenas de novos loteamentos.
Antes de retornar ao Rio de Janeiro, [...] Coimbra Bueno presenciou o maior
exercício de autonomia municipal [...] da Prefeitura de Goiânia até então [...]:
a assinatura do decreto 176 pelo prefeito Eurico Viana. Esse decreto
desencadeou o interesse de inúmeros loteadores, já que a obrigatoriedade
de colocação de infraestrutura fora revogada. Então, grande parte do fluxo de
migração que estava voltado para o interior passa a focalizar a capital de
Goiás. Conseqüência disso é que, entre 1950 e 1960, Goiânia tornou-se a
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segunda cidade brasileira com maior taxa de crescimento populacional do
país. Quase duas centenas de novos loteamentos foram aprovados pela
Prefeitura até 1959, quando o então prefeito Jaime Câmara assinou a Lei nº
1.566 (11/09/1959) para proibir novos loteamentos. (MEDEIROS, 2010, p.
134 a 135)
A junção de todos estes fatos e suas imbricações políticas, sociais e urbanas mudam
radicalmente não só o tamanho territorial da cidade mas também a paisagem urbana. O [...]
Plano Saia foi definitivo, tanto na liberação do gabarito acima de oito pavimentos quanto na
indução da reconfiguração da fisionomia da cidade. [...] (MEDEIROS, 2010, p. 230)
Dentro deste cenário de incessante transformação e a construção de camadas de
superposição na paisagem urbana, sendo a maioria delas desvinculadas do homem, é
significativa a produção da arquitetura moderna de Eurico Calixto Godoi por refletir a
modernidade da cidade de Goiânia sem perder a causa modernista e seus princípios
fundantes. Sua obra pode estruturar vínculos estéticos universais mas que estruturam com a
relação do lugar, sua cultura e memória.
Neste contexto são projetados dois importantes edifícios realizados na década de 60, o Banco
do Estado de Goiás Edifício da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, projeto dos
goianos Eurico Calixto de Godói e Élder Rocha Lima, importantes projetos.
Ainda sobre a verticalização de Goiânia, o jornal Diário de Goiás, do dia 14 de
julho de 1964, publica uma nota cujo título é: GOIÂNIA CRESCE PARA
CIMA; nessa nota (ver Fig. 52), seguida de uma foto do edifício do BEG
prestes a inaugurar, está registrado: Goiânia cresce em todos os sentidos.
Cresce também para cima, com prédios que estão sendo construídos no
centro da cidade. Dos edifícios que embelezam a Capital de Goiás, os
estabelecimentos de crédito se colocam em lugar de destaque, entre eles o
Banco do Estado de Goiás, [...] de rara beleza arquitetônica.
A construção do edifício do BEG, amplamente noticiada na imprensa da
época, iniciou-se em setembro de 1959 e culminou na inauguração em
setembro de 1964 [...]. O edifício pode ser considerado um símbolo do início
do processo de verticalização de Goiânia. Essa consideração é possível de
estabelecer, porque o edifício do BEG passou a ser um fato arquitetônico
marcante desse período. O edifício marcou a paisagem urbana tanto pelo
estilo modernista do arquiteto Eurico Godoy quanto pela verticalização inicial
da cidade. (MEDEIROS, 2010, p. 230 a 231)
O edifício do Banco do Estado de Goiás, projetado em 1961 e o primeiro a ser construído
dentro do uso do solo que permitia a ocupação total do terreno. O projeto Foi implantado em
uma posição estratégica nos cruzamentos dos eixo das Avenidas Anhanguera e Avenida
Goiás.
A volumetria é compacta, marcada no seu todo por uma composição de linhas retas e
horizontais. Sua fachada frontal possui a sutileza de linhas abauladas. O ritmo é conferido
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através de um jogo entre as esquadrias de metal envidraçadas e protegidas por brise-soleil
metálicos. A edificação é sustentada por pilares de seção circular ligeiramente recuados no
quinto andar e nos dois últimos pavimentos. A organização espacial interna foi projetada de
forma que o agenciamento dos ambientes pudesse ser flexível. Foram utilizados
revestimentos de alumínio e pastilhas. Todos os elementos estudados e dispostos
criteriosamente apresentam uma composição, um arranjo estético formal harmonioso,
conferindo ao edifício características marcantes da arquitetura moderna, mudando o cenário
da Praça do Bandeirantes e as premissas estéticas dos edifícios de Goiânia.
Goiânia e o Estado de Goiás cresciam em ritmo acelerado tanto em sua vida social, como nas
questões econômicas e políticas. O estado via aumentar crescentemente o número de
representantes do povo junto a Câmara Legislativa. Como marco político de modernidade em
1963 foi projetado o edifício da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás. Sua localização
estratégica no Bosque dos Buritis propiciou uma implantação nos moldes modernos com a
tentativa de se integrar com o entorno público.
A forma volumétrica é definida por três edifícios, que possuem uma pureza geométrica
fundamentada no equilíbrio de suas partes com o todo. Dois edifícios possuem pilotis e o
terceiro é térreo disposto longitudinalmente, interceptando os outros dois volumes. As linhas
do conjunto arquitetônico são retas e despojadas de ornamentação.
As fachadas em alguns pontos são cegas e em outras possuem aberturas longilíneas com
esquadrias de metal. As plantas do edifício foram concebidas de maneira livre e funcional e
contém: pilotis, térreo, primeiro e segundo pavimento que abrigavam as funções definidas no
programa de necessidades da época.
As influências da arquitetura moderna carioca e a presença dos cinco pontos de Le Corbusier
(pilotis, planta livre, fachada livre, janela em fita e terraço-jardim presente no projeto, mas não
executado) são identificados na sua composição de planta e sua volumetria.
Em 1979 um novo pavilhão foi anexado ao edifício mudando suas características e tem sido
descaracterizado continuamente até os dias de hoje.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Goiânia apresenta em suas várias modernidades relevância como espaço de memória:
histórica, cultural e patrimonial. A obra moderna do arquiteto Eurico Calixto Godoi funda a
modernidade na modernidade, dentro paisagem da cidade, refletindo uma nova possibilidade
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de preservação da memória presente enquanto paisagem cultural. Considerando que a
preservação do lugar somente pode ocorrer em função da construção dos vínculos que
estruturam a relação do homem com o lugar, é importante o desenvolvimento de ações de
identificação, promoção e gestão dessas obras com valor de patrimônio histórico dentro da
paisagem cultural da cidade. As práticas da educação patrimonial são de primordial
importância para fomentar “praticas públicas” que possam estabelecer a criação de vínculos
do indivíduo com o lugar edificado que sejam expressão de sua cidadania e entendimento do
mundo - concomitante ao reconhecimento do patrimônio.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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