BELO HORIZONTE E O ORFANATO PÃO DE SANTO ANTÔNIO: A PEDAGOGIA FRANCISCANA COMO PROPOSTA DE FORMAÇÃO. Anderson de Freitas Barros [email protected] Uma proposta de educação religiosa direcionada a determinados fundamentos humanistas franciscanos, tendo como referência valores como respeito, abertura para com o outro e promoção do próximo. Isso se torna o pressuposto inicial para uma reflexão sobre a pedagogia franciscana na formação do ser humano, da infância à juventude. De acordo com este referencial formativo, faz parte do processo apontar ao sujeito as metas e os caminhos a seguir, legitimados pela missão franciscana. A proposta de estudo tem como referência a fundação da “Associação Pão de Santo Antônio”, em Belo Horizonte, com sua prática social, que tem como objetivo principal auxiliar os mais necessitados, proporcionando tanto apoio espiritual, quanto corporal. Trata-se de uma ação embrionária no âmbito da caridade e da preocupação com o próximo, na qual pretende-se desenvolver valores religiosos e familiares no espaço de um orfanato. Construída em 04 anos – 1894 / 1897, o plano de Belo Horizonte era copia do repertório urbanístico em voga no estrangeiro. Em nome da salubridade e da higiene, o projeto é redigido pela lógica segregacionista e por uma tendência à compartimentação dos espaços. O projeto de mudança da capital do Estado de Minas Gerais era um debate antigo, recorrente desde o período provincial, através do advento da República, momento em que se realinha uma nova ordem política no país, em que as elites mineiras encontram ocasião propícia para a implementação do projeto1,em um contexto ideológico favorável a uma cultura reformista, que comunga a idéia de ruptura e de nova espacialidade; Ouro Preto, então capital de Minas, passa a ser relacionada ao passado monárquico e colonial, portanto, a um modelo político econômico associado ao atraso e a práticas conservadoras que se pretendem superar e esquecer. Os porta-vozes da mudança, a exemplo de toda a geração de intelectuais republicanos, assumem a missão de promover a renovação do espaço urbano, eleito território símbolo da instalação da ordem e progresso, domínio por excelência da experiência da modernidade2. 1 Ver a respeito MELO, Ciro F.B. de. “A noiva do trabalho – uma capital para a República”. In: BH: Horizontes Históricos.Belo Horizonte: C/ Arte, 1996.p.11-47. 2 Embora a afirmativa esteja presente em inúmeras teses e artigos, a citação foi feita a partir do ensaio de LEMOS, Celina.B “A construção simbólica dos espaços da cidade”. In: Belo Horizonte: espaços e tempos em construção. Belo Horizonte: CEDEPLAR/PBH, 1994. p.29-50. O sonho de inaugurar uma nova temporalidade esta refletido na utopia dos idealizadores da nova capital de Minas que planejam uma geografia urbana qual se contempla o que há de mais moderno. “ Centro, área suburbana, zona rural são os anéis concêntricos desenhados pelos projetistas. Lugares e papeis estão previamente determinados na lógica estruturante da nova capital: o centro é o território da civilidade e do moderno, ocupado pelas elites e segmentos médios, e as áreas adjacentes, preteridas pelo planejamento, se destinam as classes populares, excluídas das promessas do progresso. Em Belo Horizonte a modernidade, alheia a sua possibilidade de realizar uma emancipação sociopolítica, assume, desde o início, aspectos conservadores e autoritários, desenhando uma espacialidade normativa e 3 excludente ”(JULIÃO.1996,p.49). Áreas de lazer, prédios administrativos, transportes, redes de água e de esgoto, energia elétrica, mercado, cemitério, matadouro, hospital, Igreja e demais equipamentos públicos limitam-se à região urbana, núcleo acessível às conquistas da civilidade. O centro possui quarteirões e lotes bem divididos, ruas e avenidas largas, retas, arborizadas, entrecruzando-se como num tabuleiro de xadrez, estrutura que permite seu crescimento até o anel da contorno, muralha invisível a separar a zona urbana da suburbana. Em sintonia com as tendências urbanísticas do período, são mobilizados recursos técnicos voltados para a racionalização do espaço, reunindo os maiores elementos das cidades consideradas modelos: Paris, Buenos Aires, La Plata e Wanshington. “O percurso da Comissão Construtora é sintomático das bases em que é concebido Belo Horizonte: da utopia para a realidade, da teoria para a práxis, do gabinete para o canteiro de obras” (BARRETO.1995,p.95). Palco do encontro e do confronto das diversas classes sociais, as cidades do século XIX tornaram-se alvos da atenção de administradores, médicos, engenheiros e sanitaristas preocupados em disciplinar e neutralizar as ameaças representadas pela multidão. É esse o espírito que irá guiar a Comissão Construtora. Para Aarão Reis, engenheiro da Escola Politécnica e responsável pelo o desenho da planta da cidade, Belo Horizonte teria sido, então, uma oportunidade rara de colocar em 3 JULIÃO, Letícia. “Belo Horizonte: “itinerários da cidade moderna”. In: BH Horizontes Históricos.Belo Horizonte: C / Arte, 1996. p. 49 – 118. prática o projeto tantas vezes discutido de uma cidade racional, regenerada, para um homem novo4. Uma vez escolhido o local da nova capital, não se cogita a reestruturação, reforma ou ampliação das instalações existentes no vilarejo do Curral Del Rei. Faz-se tábua rasa do passado com a completa demolição do povoado, idéia que parece traduzida, em Abílio Barreto, nas seguintes palavras: o homem do século XIX é também aquele que remodela as coisas e o espaço5. De acordo com Brant: em 13 de junho de 1902, o Confrade Mário Augusto Brandão Amorim, Juiz de Direito substituto da Comarca, fundou inspirado em sua homônima de Diamantina erigida um ano antes, a Associação Pão de Santo Antônio, no dia da festa do Santo, junto com o primeiro Vigário na Matriz de São José em Belo Horizonte, Padre Pedro (Brant. 2002, p.32). A Associação Pão de Santo Antônio, formada por seus vinte e um Confrades de São José e mais o Vigário da Paróquia, tem por fim, em honra de Santo Antônio de Pádua, seu padroeiro, auxiliar quanto possível, a pobreza, proporcionando não só os socorros corporais como espirituais(Brant. 2002, p.32). Tendo recebido em doação de terrenos no Centro da Cidade, confrontantes com uma área onde está erigida a capela do Rosário, foi construído um prédio e erguidas duas casas segundo o livro de Tombos da Igreja São José. Nesse momento, os Confrades já era discutido com as Irmãs Auxiliares da Piedade, presentes em Belo Horizonte, a fundação de um Asilo de Orfãs6. Este Asilo, que seria no Edifício do Colégio Imaculada Conceição, localizado na rua Espírito Santo, foi estudado, redigindo-se um Estatuto em 1904, publicado no “Minas Gerais” no dia 07 de julho do mesmo ano. Reza o Estatuto publicado em Brant: Art.1o – O Asylo das Orphãs é uma instituição da Associação Pão de Santo Antônio, tendo sua sede em Bello Horizonte. A sua administração pertence à Directoria da mesma Associação, que confiará a direcção e economia interna do Asylo às Irmãs da Piedade. Art.2o – São admitidas como asyladas: a) As orphãs de três a doze (3 a 12) annos de idade, mediante guia do juiz de orphãs: 4 SALGUEIRO, Helena A.gotti. Engenheiro Aarão Reis: o progresso como missão.Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro / Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1997.p.80. 5 BARRETO, Abílio. Belo Horizonte memória histórica e descritiva. História Média. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro/PBH, 1995.p154. 6 Vide in: BRANT, Edmundo Caldeira. Associação Pão de Santo Antônio – Um século de história 1902 – 2002. Belo Horizonte: Ed. O lutador, 2002. b) As orphãs de sete a doze (7 a 12) annos, reconhecidamente pobres, que forem apresentadas por uma pessoa de confiança e digna de fé, que se constitua seu fiador o protector, e disposta a recebe-las, se forem despedidas do Asylo. Parágrafo Único – No primeiro caso, a guia será apresentada ao Director da Associação que mandará admitir a orphã no asylo. No segundo caso a proposta será apresentada á Directoria, que resolverá sobre a admissão da orphã. Art.3o – No caso da letra b, do art. 2o, a pessoa que, tendo entregue uma orphã ao asylo, se quizer retira-la, será obrigada a pagar a quota de vinte mil reis (20$000) mensais desde a data de sua admissão. Art.4o – Deixam de ser asyladas: a) As que tomarem estado: b) As que forem despedidas pelas Directoria, para o que é necessário que haja Parágrafo Único – No caso da letra b, será a orphã restituída ao juiz de orphãos, ou a pessoa que se constitui protector della (art.2o – letra b). Art.5o – A Directoria poderá empregar em casa de família as orphãs maiores de 11 annos, que estiverem preparadas para os serviços domésticos, caso ellas queiram sahir do Asylo para este fim. Perceberão uma soldada previamente ajustada, que será recolhida na Caixa Econômica do Estado. Parágrafo Único – Com relação às orphãs que tiveram entrado no Asylo mediante guia do juiz de orphãs, a directoria solicitará a devida auctorização a essa auctoridade. Art.6o – As orphãs receberão educação e instrução conforme sua capacidade, prestando-se alternadamente umas e outras aos trabalhos de casa, como cosinha, lavanderia, emgommar, etc. enfim tudo o que diz respeito ao asseio da casa. Art.7o – A directoria expedirá diplomas de benfeitores aos cavalheiros e senhoras que tiverem prestado serviços relevantes, ou fizerem valiosos donativos ao Asylo. Art.8o – A receita e despesa do Asylo serão escripturadas em um livro especial, que ficara a cargo e sob a guarda do Director da Associação. Art.9o – Os casos não previstos por este regulamento serão resolvidos pela directoria. Belo Horizonte, 10 de janeiro de 1904 – Padre Pedro Beks, director, - Mário de Amorim, presidente – Joaquim Alves Pereira, vice – presidente – Francisco Termiliano. Secretário – João Andrade, thesoureiro Precedido o anúncio no “Minas Gerais” de 13 a 14 de junho de 1904, foi inaugurado no dia 13, dia da festa do Santo, às 13h (uma hora da tarde) no respectivo prédio do Colégio Imaculada Conceição. (BRANT. 2002, p.47 – 48) Em 1910 uma nova ordem iria substituir as Irmãs da Piedade, as Irmãs Franciscanas do Sagrado Coração de Jesus, em outro asilo. Só em 12 (doze) de março de 1911, devido as dificuldades em se conseguir um local onde as Irmãs pudessem instalar-se, tendo a associação alugado uma casa na Rua Espírito Santo 903, para lá elas se mudaram. De acordo com Brant, depois das Irmãs Auxiliares da Piedade, nos primeiros anos do século passado, e a do Padre Thiago Boormars, Vigário de São José, chegaram a Belo Horizonte a Madre São de Diniz e a Irmã Auxiliadora em 10 de novembro de 1910, a primeira, Provincial da Congregação das Irmãs Franciscanas do Sagrado Coração de Jesus, com Casa Generalícia no Rio de Janeiro (Brant. 2002, p.895). A Congregação de origem francesa possuía sua sede na cidade de Ales, assim permaneceu no Brasil até 19 de outubro de 1937, quando houve o desligamento, tornando-se aqui uma Congregação Nacional e inteiramente brasileira.7 Iniciando o funcionamento desse segundo asilo, a Diretoria do Pão de Santo Antônio e o Padre Thiago Boomaars, de acordo com a Madre Provincial, resolveram que o mesmo se chamaria Orfanato Santo Antônio. A quinze de março, em 1911, dia da festa de São Clemente, após a missa na Igreja de São José, o Padre Vigário procedeu à benção da casa, marcando assim a fundação do Orfanato Santo Antônio, com a presença de muitas famílias e representantes da Imprensa, que 7 Vide: BRANT, Edimundo Caldeira. Associação Pão de Santo Antônio: Um século de história 1902-2002. Belo Horizonte, MG,2002. espontaniamente haviam comparecido ao ato. O Sr. Vigário, depois da benção, dirigiu breves mais comoventes palavras de agradecimentos a diretoria da Associação Pão de Santo Antônio, cuja a iniciativa era devida essa instituição de benificência8(Brant. 2002, p. 50). O tempo passava e o Orfanato prosseguia na missão de acolher as meninas pobres e sofredoras, tentando substituir da melhor maneira possível o lar e a família a que tinham direito e necessidade, e que por razões diversas lhes faltaram. Segundo aos esclarecimentos cedidos pelo Padre Avelino Marques – Capelão da Associação Pão de Santo Antônio, publicado em Brant dizia: 01 – O Educandário Santo Antônio é como sucedâneo do antigo “ORFANATO SANTO ANTÔNIO”, fundado em 15/03/1911 – é um patrimônio social e religioso da Capital Belo Horizonte em Venda Nova. 02 – O Educandário compreendendo: um Ginásio Comercial, um internato para meninas e um Instituto de Religiosas, foi inaugurado em Venda Nova aos 13 de Junho de 1962 – com a benção de D.João Resende Costa Arcebispo de Belo Horizonte. 03 – Desde 1911 as Irmãs Franciscanas prestam seus serviços ao Orfanato e posteriormente março de 1926, a Congregação das Irmãs Franciscanas do Sagrado Coração de Jesus assumiu a direção e a administração de todo o estabelecimento. (BRANT. 2002, p.614) O termo “pedagogia” compreende a arte da educação, a ciência desta arte e a filosofia desta ciência. Etimologicamente, o termo “pedagogo” indica o guarda das crianças; em seguida, o termo se estendeu para indicar o “educador”; em Clemente de Alexandria, o termo “pedagogo” é atribuído a Cristo9. A pedagogia nasceu como reflexão sobre o fato educativo. Ela não visa somente a “conhecer” o processo educativo, mas também a “agir” sobre ele, a influenciá-lo e possivelmente melhorá-lo. A unidade do saber pedagógico apresenta-se, portanto, como unidade “funcional” de várias disciplinas, a medida que estas se submetem à leitura em chave educativa. A pedagogia apresenta-se, então, como ciência teórico - prática ao mesmo tempo.Para melhor ambientar o 8 Vide: BRANT, Edimundo Caldeira. Associação Pão de Santo Antônio: Um século de história 1902-2002. Belo Horizonte, MG,2002. 9 Cf. M. LAENG, Pedagogia, em Enc. Pedag. 5 (1992) 8855-60. presente trabalho sobre o plano histórico-metodológico, procuramos esclarecer a relação do termo “pedagogia” com outros dois termos de uso freqüente, como são os termos “educação” e “formação”10: “(...) Pedagogia: Tem um sentido estático e indica uma ciência estruturada, no que diz respeito às teorias, aos métodos e aos problemas relativos à educação...; (...) Educação: de conteúdo dinâmico, indica o conjunto das iniciativas que, de fato, orientam a educação na realização de objetivos precisos que implicam o desenvolvimento polivalente do indivíduo, seja a nível pessoal, seja em chave de integração social..; (...) Formação: tem um conteúdo mais amplo e mais geral, visto que inclui um processo global, composto de intervenções parcializadas, que visa ao completo, ao perfeito, ao total”(ZAVALLONI. 1999, p.18-19). A pessoa humana aperfeiçoa-se à medida que adquire qualidades, hábitos, modo de pensar e de comportamento, etc., de maneira também a educação favorece o desenvolvimento físico, intelectual e moral da pessoa humana, para a plena consciência de si e para o pleno domínio de si e para a correspondência recíproca as exigências da comunicação e da cooperação social, na participação de valores11. Por formação entende-se, portanto, o processo através do qual as potencialidades subjetivas chegam à maturação ou se aprende o que é necessário para desempenhar um papel particular, acompanhado da integração com o ambiente, da participação do patrimônio social da cultura e da mediação e do apoio de figuras e instituições incumbidas desta finalidade12. Uma outra distinção que se deve ter presente é entre “informação” e “formação”: o primeiro termo indica a mera transmissão de noções; o segundo termo indica o desenvolvimento de capacidades autônomas no sujeito. Muito significativa é também a distinção entre “instrução” e “educação”. Há estudiosos e docentes de pedagogia que sustentam que a tarefa essencial desta disciplina no âmbito das instituições escolásticas é a de desenvolver exclusivamente uma função de “instrução”, sendo que a tarefa da pedagogia é a de desenvolver a verdadeira função de educação. O conceito de 10 Cf. g. GIUGNI, Introduzione allo Studio della pedagogia. Ed. S.E.I., Turim 1971, p. 20-21. Cf. M. LAENG, Educazione, em Enc. Pedag. 3 (1989) 4222-34. 12 Cf. C. NANNI, Formazione, em Enc. Pedag.3 (1989) 5041 – 41. 11 “educação”, e igualmente o de “formação”, comporta naturalmente também tudo o que está implícito no conceito de “instrução”, mas vai bem além de tal conceito13. O desenvolvimento humano deve levar à maturidade da pessoa e, por isso, não pode ser restrito só a alguns âmbitos: por exemplo, ao âmbito moral e cognitivo, mas compreende-se como seja importante incluir também o nível afetivo e o modo em que tal nível se integra ou permanece estranho às metas de crescimento, seja humano, seja espiritual de um indivíduo14. A unidade do homem é o princípio formal da educação. As diferentes formas de desenvolvimento humano assumem um caráter educativo à medida que concorrem para formar todo o homem. A convergência destes desenvolvimentos no ápice da personalidade é precisamente o princípio que dá unidade e valor educativo a cada aspecto do desenvolvimento humano; e é uma imediata conseqüência da natureza do homem e da sua unidade substancial, sobre a qual se baseia, em última análise, a ação educativa15. As contribuições ao estudo da pedagogia franciscana, por descobrir-lhe a originalidade, a validade e a atualidade, trazem a marca do tempo no qual foram redigidas, pelo que se assiste a uma descoberta de São Francisco como “educador” de caráter evolutivo. Ao falar sobre a pedagogia franciscana automaticamente nos arremete à figura de São Francisco de Assis considerado um educador. Situar Francisco em seu contexto (séculos XII e XIII) significa garantir a sua compreensão como homem de seu tempo, cuja ação se via embrenhada a profundas divergências entre o mundo feudal, que inicia seu processo de definhamento, mas que procura resistir, e o novo modelo apresentado pela ‘burguesia’ em forma embrionária em sua luta por suplantar o velho. Segundo LE GOFF, “Francisco de Assis (1181-1226) nasce no âmago do período de maior progresso do ocidente medieval e numa região fortemente marcada por esse progresso”.16 Este progresso possui uma dupla dimensão: é quantitativo, isto é, há um crescente surto demográfico e econômico construído a partir do padrão de ‘incastellamento’, ou seja, “...aglomerações 13 Cf.G.SCARVGLIERI, Formazione.II.Aspetti psico-sociologici, em Diz. Ist. Perf. 4 (1977) 136-145. A este propósito, veja-se:F.IMODA,Sviluppo umano. Psicologia e mistério.Ed. Piemme, Casale Monferrato (AL) 1993, p.432. 15 Cf. R. ZAVALLONI,Educazine e personalità. Principi di psicoterapia educativa.Ed. Vita e Pensiero, Milão 3a ed. 1968, p.332; ID., La liberta personale. Psicologia della condota umana. Ed. Vita e Pensiero, Milão 3a ed.1973, p. 408. 14 16 LE GOFF, J.; MOLLAT, M. & ROTZETTER, A. Francisco de Assis : Além do Tempo e do Espaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 1981. Revista Concilium nº169: Espiritualidade, 1981, p. 3. concentradas – muitas vezes empoleiradas – em torno da igreja e dos castelos.”17 Tal processo traz como conseqüência um acelerado movimento de urbanização que provoca uma mudança também qualitativa. È sobre as cidades, centros do novo mundo em que circulam os trabalhadores e o dinheiro, que se vai organizar gradativamente a nova estrutura de riqueza (baseada no comércio) e de poder (baseada no grupo de homens novos, os cidadãos ou burgueses) em direção contrária e antagônica ao poder tradicional do bispo e do senhor, baseado na concentração da terra, no monopólio do conhecimento e na ascendência. Francisco é filho de comerciante, seu primeiro campo de trabalho se dá em terreno urbano, mas à cidade deseja ele trazer o sentido de pobreza em face do dinheiro e dos ricos, a paz em vez das lutas que conhecera em Assis, entre Assis e Perúsia.18 No mundo dividido entre a Cristandade e o Islã, cujas fronteiras se delimitavam pela guerra santa nas cruzadas, soube bem propor o ideal da fraternidade e reconciliação universal, transformando aquela força de combate em energia de amor, força criadora de comunhão entre os seres. Com a sua pesquisa sobre a pedagogia de São Francisco de Assis, F. De Maldonado19 deunos um trabalho sólido e importante: levando em conta os estudos precedentes, ele nos oferece um completo panorama das temáticas pedagógicas intuídas e praticadas por São Francisco. Estamos todos de acordo – que são Francisco não é um pedagogo, se considerarmos a pedagogia a parir de um ponto de vista científico, que supõe uma sistematização teórico prática dos princípios da educação, sendo, estes implícitos e explícitos ao guiar os escritos e a ação pedagógica de São Francisco, mantendo assim, o mais próximo dos conceitos da filosofia, evitando o que se refere ao sobrenatural na ação educativa cristã.De maneira semelhante, B. Madariaga entende por pedagogia a condução não só da criança, como a etimologia desta palavra quer significar, mas igualmente a condução do homem adulto e maduro. Por pedagogia, entende-se todos os aperfeiçoamentos humanos realizados ou realizáveis mediante a instrução e a educação, sem excluir os graus superiores da união mística do homem com Deus20. Neste sentido amplo, a pedagogia vem a ser uma função da vida e, como tal, é difundida totalmente na mesma, especialmente na vida social. Não é lícito confinar a pedagogia à redutora 17 LE GOFF, J.; MOLLAT, M. & ROTZETTER, A. Francisco de Assis : Além do Tempo e do Espaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 1981. Revista Concilium nº169: Espiritualidade, 1981, p. 5. 18 19 LE GOFF, op.cit., p.13. DE MALDONADO F., La pedagogia de San Francisco de Asís,em Larent. 3 (1962) 3-40, 289-348. 20 B. MADARIAGA, La pedagogia franciscana y el actual momento pedagógico, em Ver. Vida 4 (1946) 177 – 219. área do ensino organizado e sistemático, e menos ainda reduzi-la ao estreito recinto da escola primária. Ela deve ser entendida neste sentido vasto e abrangente, Evangelho, da imitação de Cristo até a máxima conformidade da nossa vida com a sua, da fraternidade universal em Deus de todos os homens e de todos os seres da natureza21. No que diz respeito à metodologia educativa, Temperini22 sublinha que, nos escritos legislativos e nas cartas, Francisco só raramente usa formas imperativas, preferindo as vias da persuasão e da proposta. Ação educativa move-se com grande respeito pela personalidade do discípulo, que deve realizar um projeto, uma vocação própria. Segundo Zavalloni, a pedagogia franciscana é a arte de conduzir o jovem da infância à maturidade, apontando-lhe a meta a atingir, o caminho a seguir e, sobretudo, suscitando nele aquele amor que é capaz de dar sentido às palavras, ao caminho, à vida (Zavalloni. 1999, p.11). A proposta metodológica que surge através dos valores franciscanos na ótica da educação direcionará os fundamentos de uma educação humanista franciscana sobre questões do respeito ao outro, da abertura para o outro e da promoção do outro.23 “a pedagogia franciscana propõe-se, portanto, formar o homem completo, capaz de percorrer o seu itinerário para Deus, sofrendo com os próprios irmãos, ajudando os pobres e os doentes e defendendo, por toda a parte, o amor à justiça e o Dom a paz” (ZAVALLONI. 1999, p.29). Os principais expoentes do pensamento pedagógico no âmbito de toda a Família Franciscana, passa pela tradição pedagógica franciscana. O franciscanismo contém uma impostação pedagógica na sua própria espiritualidade. Segundo o pensamento de São de Boaventura, descrito por Zavalloni, o superior deve esforçar-se por tornar “cristiformes” as pessoas a ele confiadas: isto é, imprimir nelas a forma da vida e da doutrina de Cristo, de maneira que não só se dirijam a ele com a alma, mas o imitem nos costumes (Zavalloni. 1999, p.29). Como considerações finais,com a sua fundação em 13/06/1902, a Associação Pão de Santo Antônio cresceu com Belo Horizonte, viu o seu desenvolvimento testemunhou ao seu lado o 21 Cf. A. MERCATALI, S. Francesco “padre e maestro”, em Anton. 57 (1982) 230 – 258. TEMPERINI L., Francesco d’ Assisi, maestro di formazione, em Anal. TOR, 22/151 (1922) 413-440;Ed. 1992, p.44. 23 A discussão do comprometimento com a problemática social em priorizar a pessoa, o irmão, o excluído e o desprezado, levantado no III Congresso Internacional de Educadores Franciscanos realizado em Cusco – Peru em 2008. 22 progresso do mundo contemporâneo. Iniciando suas atividades filantrópicas com as construções de casas para os pobres dentro das limitações e delimitações de uma cidade planejada, num terreno no centro da cidade, doado pelo Município, passou a nova entidade ao recolhimento das meninas órfãs, fundando dois Asilos, um na Rua da Bahia e outro na Rua Espírito Santo, e o Orfanato Santo Antônio na Rua São Paulo que, por mais de cinqüenta anos constituiu um marco na Sede Administrativa do Estado. Contudo, os trabalhos estiveram por alguns anos no final da década de 1940 diretamente a cargo das Irmãs desta Casa. E por fim, no âmbito material, podemos perceber dois elementos na essência franciscana. O primeiro elemento é a capacidade de renovação que há no franciscanismo. Sendo uma contínua tentativa de retorno às origens; um esforço constante de apresentar as bases evangélicas na sua pureza, desprendendo- o do tempo através de suas práticas sociais. O segundo elemento é representado por uma fidelidade genuína, autêntica, filial à Igreja e ao seu magistério. Francisco educa para o amor, para a perfeita alegria, para a pacificação sem reservas. O que é preciso compreender, aceitar, aprofundar e colocar em prática é que amar a Deus é amar os homens, tornando-se uma exigência intrínseca de si próprio. Referências ANDRÈ, M. E. D. A. Etnografia da Prática Escolar. Campinas: Ed. Papirus, 1995. BARRETO, Abílio. Belo Horizonte memória histórica e descritiva. História Média. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro/PBH, 1995. BATISTA, Paulo Agostinho Nogueira; PASSOS, Mauro; SILVA, Wellington Teodora da (Orgs.). O sagrado e o urbano diversidades, manifestações e análise. São Paulo: Ed. 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