??????????????????? ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL SECRETARIA DA SAÚDE ESCOLA DE SAÚDE PÚBLICA EDITOR Ricardo Burg Ceccim COMISSÃO EDITORIAL Cristianne Maria Famer Rocha Carlos Dácio Araújo Manoel Mayer Júnior Ricardo Burg Ceccim Ruth Sant’Helena da Silva Sandra Maria Salles Fagundes CONSELHO EDITORIAL Airton Stein – FFFCMPA Alcindo Antônio Ferla – SES/RS Álvaro Crespo Merlo – UFRGS Carlos Alvarez – Universidade de Alicante/Espanha Carmem Silveira Oliveira – UNISINOS Célia Regina Pierantoni – UERJ Ceres Víctora – UFRGS Cristianne Maria Famer Rocha – UERGS Dagmar Elisabeth Estermann Meyer – UFRGS Denise Rangel Ganzo de Castro Aertes – SMS/PMPA Emerson Elias Merhy – UNICAMP Giorgio Solimano – Universidade do Chile/ALAESP Jaime Breilh – EQUADOR Jairnilson Silva Paim – ISC/UFBA Janice Dornelles de Castro – UERGS José Luis Araújo – FIOCRUZ Jussara Gue Martini – ABEN/UNISINOS Liane Beatriz Righi – UNIJUI Maria Ceci Araújo Misoczky – UFRGS Maria Cecília Souza Minayo – FIOCRUZ Maria Luiza Jaeger – SES/RS Marlow Kwitko – PUC/RS Moacyr Scliar – FFFCMPA Moisés Goldbaum – USP Newton Barros – AMRIGS Paulo Duarte Amarante – ENSP/CEBES Ricardo Burg Ceccim – ESP/RS Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 1 ??????????????????? Ronaldo Bordin – UFRGS Sarah Escorel – CEBES Sandra Maria Salles Fagundes – UERGS Soraya Vargas Côrtes – NIPESC/UFRGS Stela Meneghel – UNISINOS Teresa Borget Armani – ESP/RS Vânia Maria Fighera Olivo – UFSM Virginia Alonso Hortale – ENSP EQUIPE TÉCNICA Ana Paula Andrioli Taday – versão português-espanhol; digitação Antônio Sergio Freitas Ferreira – capa Camila Slomp – capa Geisa Costa Meirelles – CRB 10/1110 Luiz Cezar F. de Lima – editoração Márcia Stypulkowski – CRB 10/1172 Raquel Macagnan Silva – versão português-inglês Ruth Sant’Helena da Silva – CRB 10/666 Silvana Matos Amaro – CRB 10/1098 Simone Silveira Nascimento – capa Simone Pereira – revisão português TIRAGEM 2000 Exemplares A Revista Boletim da Saúde é associada à Associação Brasileira de Editores Científicos B668 Boletim da Saúde / Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul; Escola de Saúde Pública. – v. 14, n. 1 (1969). – Porto Alegre: SES/ESP, 1969 – Semestral Após um período de interrupção, o Boletim da Saúde está sendo editado novamente. ISSN 0102-1001 1. Boletim da Saúde – Periódicos I.Secretaria da Saúde-RS. II.Escola de Saúde Pública-RS NLM WA 2 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 ??????????????????? Apresentação Saúde se faz com gente, gente que deve ser autora da sua história, gente que ajuda a construir o Sistema Único de Saúde no país. O fazer em saúde como em qualquer área deve ser contado, deve se debatido, deve ser escrito, para pensar criticamente a prática cotidiana, para divulgar o que está sendo feito, para trocar experiências, para servir de subsídio à prática do fazer saúde nos vários locais. A proposta do Sistema Único de Saúde é resultado de muita luta dos movimentos sociais e é proposta de que se construa uma atenção à saúde da população brasileira a partir das necessidades e problemas sentidos e vividos pelas pessoas de cada rincão deste país, logo não se propõe à cópia de nada. A partir da realidade do povo de cada local, poder adaptar, recriar e dar o contorno necessário ao que se aprende com os usuários e com a luta pela implementação da reforma sanitária brasileira requer o compartilhar generoso da experiência e de sua interpretação. Como me disse uma representante dos usuários, precisamos de pacientes impacientes. Penso que precisamos que a população usuária, os trabalhadores da saúde, os prestadores de serviços de saúde e os gestores de saúde sejam construtores do SUS de acordo com os seus princípios: direito de todos e dever do Estado; co-responsabilidade da União, dos estados e dos municípios; universalidade, igualdade, eqüidade e integralidade no acesso e na atenção à saúde; descentralização da gestão e participação da população com direito à informação. O relançamento da revista Boletim da Saúde é mais um compromisso da gestão estadual do Rio Grande do Sul com a informação e em assegurar tratamento acadêmico e intelectual: ü ü ü ü aos dados coletados nos serviços; às experiências de serviço; à informação como instrumento de ação e à documentação em saúde; à recuperação da memória e da história da saúde em nosso âmbito de reflexão institucional; ü ao papel do estado como ordenador da formação de recursos humanos na área da saúde e como sede de experiências inovadoras como os Núcleos Regionais de Educação em Saúde Coletiva, o Pólo de Educação em Saúde Coletiva e a Residência Integrada em Saúde; ü à implementação do SUS, às estratégias de gestão da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul para assumir o seu papel legal de coordenação da política de saúde no estado e de cooperar técnica e financeiramente com os municípios (principais executores da política de saúde), de acordo com às necessidades da população. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 3 ??????????????????? Entre os artigos deste primeiro número de relançamento, temos um artigo especial, um artigo de alguém que viveu com muita intensidade, coração, paixão, dor e luta a defesa da vida e da saúde, a defesa de um país mais democrático e mais equânime, onde o povo deve ser autor da sua história. O artigo é sua participação guerreira e crítica em um dos seminários de nossa Secretaria da Saúde (SES/RS): esta publicação é em tua homenagem, David Capistrano Filho, e para todos os militantes da saúde que vêm lutando em toda a história da saúde do país para que, como dizias no Seminário, possamos no cotidiano fazer e transformar o sonho em realidade: Guerra pelo direito à saúde. Valores humanistas e cooperação técnica e financeira que evidenciem a saúde como uma nova cultura de solidariedade não autoritária. Defesa da vida com meios técnicos, domínio tecnológico e compromisso com os usuários que evidencie o efetivo cuidado à saúde e a luta pela autonomia das pessoas. Gestão do setor da saúde como tributo à defesa da vida no próprio trabalho em saúde, a descentralização da gestão com papel ativo do gestor, o fortalecimento do conhecimento, da participação popular e do controle social. Boa leitura para cada uma e para cada um participante da luta por saúde, democracia e eqüidade. Que a leitura possa ajudar a construir mais vida com qualidade, igualdade e eqüidade para todos! Como diz Olívio Dutra, Governador do Estado do Rio Grande do Sul, “Boa Luta para Todos, para que o SUS seja legal, não só na legislação, mas na vida da população brasileira!” Maria Luiza Jaeger, Secretária da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul 1999 a 2002 4 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 ??????????????????? Sumário Enfoque v Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde na Gestão Democrático-Popular eleita para o mandato de 1999 a 2002 Maria Luiza Jaeger; Ricardo Burg Ceccim; Alcindo Antônio Ferla; Ana Maria Consentino Müller; Celso Bitencourt dos Anjos / 9 Artigo v Perfil epidemiológico de uma amostra de crianças atendidas em dermatologia sanitária Ana Rejane Wortmann; Themis Rosa; Vera Bauer Silveira; Regina Loureiro / 29 v O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande do Sul Alcindo Antônio Ferla / 41 v Campanha de testagem anônima no Dia Mundial da Luta Contra a AIDS Carmem Viegas; Juliana Dors Tigre da Silva; Lúcia Escobar; Ana Lúcia Baggio; Katia Baialardi; Vilma Paese; Regina Loureiro / 59 v Tratamento ambulatorial, com supervisão semanal, de pacientes egressos de hospital especializado em tuberculose Jarbas Figueira Osório; Pedro Dornelles Picon; Sérgio Luiz Bassanesi; Erecina Figueiredo; Tania Mariza Freitas; Dalfran Maciel; Dolores Bender; Yolanda Carvalho Silveira; Ana Maria Vieira Cardoso; Lígia Gladis Richter; Irone Terezinha Girotto; Paulo Picarelli Ferreira / 67 v Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva Ricardo Burg Ceccim / 81 v Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos, interfaces e perspectivas possíveis e a estante da utopia – Parte I Ruth Sant’Helena da Silva / 99 v Identificação de grupos vulneráveis por meio da detecção de clusters de homicídios como apoio ao planejamento de ações em saúde: área de violência e trauma Simone M. Santos; Christovam Barcellos; Marilia S. Carvalho / 117 Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 5 ??????????????????? Memória e História v Do isolamento ao sanatório: diferentes práticas e serviços em um espaço de saúde pública de Porto Alegre – de 1909 a 2001 Pedro Dornelles Picon; Denise Soares Bastos; Paulo Garcia / 133 v Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã Artur Henrique Franco Barcelos; Viviane Trindade Borges / 143 Especial v A gestão em saúde e sua confecção de imagem: arte política e produção de realidades democráticas David Capistrano Filho / 161 Resumo v Avaliação das condições higiênico-sanitárias em alimentos envolvidos em surto ocorrido no município de Antônio Prado/RS – Janeiro de 1999 Anita Mércio D’Andrea; Helena Jansson Rosek; Maria do Céu Borralho e Albuquerque; Yara Elisabetha Rampanelli / 173 v Avaliação de produtos importados analisados no Lacen do Rio Grande do Sul – 1999 Anita Mércio D’Andrea; Débora Cecconi Fulginiti; Helena Jansson Rosek; Lúcia Maria Guedes Diefenbach; Maria do Céu Borralho e Albuquerque; Rosaleine Grando; Yara Elisabetha Rampanelli / 175 Atos Normativos v Portaria Nº 16/99 / 179 v Resolução Nº 04/2000 / 183 v Portaria Nº 09/2000 / 185 v Portaria Nº 39/99 / 189 Normas Editoriais v Política e Normas Editoriais / 193 6 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Enfoque Atenção montador a página 8 é branca Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde... Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde na Gestão Democrático-Popular eleita para o mandato de 1999 a 20021 Maria Luiza Jaeger2 Ricardo Burg Ceccim3 Alcindo Antônio Ferla4 Ana Maria Consentino Müller5 Celso Bitencourt dos Anjos6 Resumo: Trabalho de sistematização e síntese da proposta de gestão em saúde no Estado do Rio Grande do Sul para o período de 1999 a 2002. O trabalho apresenta os cinco eixos estratégicos propostos no mandato: descentralização, regionalização, formação, atenção integral à saúde e ênfase ao controle social e à pactuação intergestores. São descritas as formas de operacionalização da gestão estadual em saúde, buscando a consolidação e o avanço na implantação do SUS. O artigo contribui à preservação da memória institucional da construção política do setor da saúde no Estado do Rio Grande do Sul. Palavras-Chave: Sistema Único de Saúde; Rio Grande do Sul; Gestão em saúde; Política de saúde; Memória institucional. 1 Texto extraído do Seminário de Avaliação, Integração e Participação na Elaboração e Execução da Política Estadual de Saúde, realizado em 24 e 25 de Abril de 1999, na sede do Centro de Treinamento da Procergs, Porto Alegre/RS. Os autores referidos foram os ordenadores dos temas relatados, expressando opiniões coletivas e sistematizadas das reuniões preparatórias do Seminário. A consolidação dos textos de base com a apresentação verbal foi realizada por Ricardo Burg Ceccim e Vanderléia L. P. Daron, relatores do Seminário. O presente artigo não reflete opiniões pessoais ou estranhas ao relatório do Seminário, buscando tão somente a oportunidade de disseminação de um debate datado historicamente, tal como se deu no momento correspondente ao final do primeiro trimestre de gestão estadual, mandato 1999-2002. 2 Socióloga, especialista em Saúde Pública e em Educação e Políticas de Saúde, representante da CUT durante toda a vigência da Comissão Nacional de Reforma Sanitária, ex-assessora técnica do Conselho Nacional de Saúde, ex-Secretária Municipal de Saúde em Porto Alegre-RS, exPresidente do Conselho Municipal de Saúde de Porto Alegre-RS, Secretária da Saúde no Rio Grande do Sul. 3 Sanitarista, Mestre em educação em saúde, Doutor em saúde coletiva, Diretor da Escola de Saúde Pública – SES/RS, como assessor pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 4 Médico de Saúde Pública, Doutorando em educação, Coordenador da Assessoria Técnica ao Planejamento – SES/RS. 5 Sanitarista, Mestre em administração da saúde, Coordenadora da Coordenação de Regulação das Ações e Serviços de Saúde/CRASS – SES/RS. 6 Sanitarista, Doutor em saúde coletiva, coordenador da Coordenação de Atenção Integral à Saúde/CAIS – SES/RS. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 9 Maria Luiza Jaeger et al. Apresentação Nos dias 24 e 25 de abril de 1999, a Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul (SES/RS) realizou o Seminário de Avaliação, Integração e Participação na Elaboração e Execução da Política Estadual de Saúde, ocorrido logo ao final do primeiro trimestre de governo, buscando, com base na reflexão sobre o acúmulo do período na gestão estadual para o setor, democratizar informações e democratizar a tomada de decisões. A avaliação das definições, proposições e encaminhamentos adotados pela direção da Secretaria da Saúde decorreu da necessidade de estabelecer uma gestão em saúde de acordo com o compromisso de uma Saúde de Verdade e com Qualidade para Todos os Gaúchos, segundo a marca de campanha para o governo democrático e popular no Rio Grande do Sul. A integração dos diversos segmentos de coordenação da Secretaria da Saúde e dos diversos segmentos de apoio ao Governo do Estado decorreu da exigência ética desse mesmo governo de alcançar uma gestão transparente e de trocas cooperativas. A participação, enquanto abertura de um espaço objetivo à critica e à colaboração, decorreu da afirmação da vontade de elaborar a política estadual de saúde com os diversos segmentos técnicos e políticos de contribuição com a gestão estadual em saúde. Participaram do seminário 88 pessoas que foram distribuídas em sete grupos para o debate mais minucioso das dificuldades, avanços e propostas. Um conjunto de documentos foi colocado em discussão com os participantes para permitir a análise compartilhada, a avaliação de perspectivas à Secretaria da Saúde, a avaliação das propostas de ação de governo e a formulação de propostas para a visibilidade institucional. Entre os documentos distribuídos, estavam Saúde de Verdade – projetos prioritários e sua repercussão financeira, Projeto Vidas – monitoramento da saúde materna, infantil e do idoso, Plano Estadual de Assistência Farmacêutica, Proposta de Plano de Atuação da Escola de Saúde Pública, Proposta de Formulação da Política de Atenção Hospitalar e Ações Prioritárias da Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde. Tais documentos foram produzidos pela pressão de demandas do primeiro trimestre de governo, permanecendo em discussão para o posterior amadurecimento em efetivos planos de trabalho e ação política em saúde. O Seminário propôs que os participantes avaliassem a gestão estadual, segundo os principais avanços e principais dificuldades, propondo as mudanças necessárias. A avaliação da proposta do Seminário e a avaliação de sua execução, expostas ao final do próprio Seminário, foram extremamente positivas, permitindo que ao final do primeiro trimestre de governo se promovesse uma avaliação geral, se validasse as linhas estratégicas e se levantasse um conjunto de iniciativas para executar os objetivos da Secretaria e para gerar prestígio e legitimidade ao governo democrático-popular. A positividade com que se encerrou o Seminário, sem dúvida, tornou mais aceitáveis, para os atuais gestores, os exaustivos esforços desse período para colocar em curso as ações e o projeto 10 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde... de uma Saúde de Verdade. Neste documento, recortamos do Seminário a exposição sobre as Linhas Estratégicas da Secretaria da Saúde (descentralização, regionalização, formação e atenção integral à saúde) e a principal estratégia destacada na abordagem sobre Contexto e Política no Governo Democrático e Popular (fortalecimento das instâncias de pactuação e controle social no SUS). Foi a discussão e o debate desse Seminário que apresentou e definiu, como operacionalização da gestão estadual em saúde, os cinco eixos estratégicos que o segundo trimestre, recém iniciado, deveria colocar em curso e buscar consolidar para o mandato. As linhas estratégicas da Secretaria da Saúde Descentralização A formalização do Sistema Único de Saúde (SUS) na Constituição Federal de 1988 representou um grande avanço na organização do sistema de saúde brasileiro. Entre outros aspectos, a diretriz descentralização abriu caminho para a melhor aplicação e racionalização dos recursos operacionais e financeiros utilizados nos Municípios, Estados e União para a organização desse Sistema, principalmente ao definir a esfera municipal como o primeiro patamar de planejamento, execução, controle e avaliação das ações e serviços de saúde. A Constituição associou à descentralização outras duas diretrizes: a integralidade da atenção à saúde e o controle social, estipulando o acesso universal a todos os níveis de complexidade do Sistema, o reconhecimento da indissociabilidade dos diversos aspectos da saúde das pessoas e, também, permitindo à população a deliberação sobre a política de saúde a ser desenvolvida, além do acompanhamento e fiscalização das ações do setor. As definições constitucionais abriram caminho para que, em 1990, também por ampla pressão da população organizada, principalmente por meio dos movimentos populares e sindicais, o SUS fosse regulamentado em uma lei ordinária, a Lei Orgânica da Saúde. Nessa lei, avançou-se um pouco mais na organização de um sistema realmente único, efetivamente resolutivo e mais equânime de atenção à saúde. A definição de níveis decrescentes de responsabilidades operativo-assistenciais e crescentes de responsabilidade na cooperação técnica e financeira dos Estados e da União auxiliou na superação de impasses históricos na definição de atribuições para cada esfera de governo. Por outro lado, a organização, ainda que tênue, de ações e serviços descentralizados ampliou enormemente o acesso a essas ações e serviços a parcelas da população até então completamente excluídas do sistema de saúde. Como não poderia deixar de ser, a reorganização da atenção precisou ser acompanhada de um redirecionamento do financiamento. No artigo 35, a Lei Orgânica da Saúde definiu uma forma de repasse para estados e municípios, já que foram diminuídas as responsabilidades assistenciais diretas da União. E, com base nos antecedentes sobre o tema, utilizou-se como critério básico o Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 11 Maria Luiza Jaeger et al. populacional, partindo-se da lógica de que, de forma geral, um maior contingente populacional faria jus a uma maior parcela de recursos. Esse critério foi relativizado por outros que vêm sendo progressivamente implementados desde então, sempre com a vigilância e a pressão das instâncias de controle social, principalmente conselhos de saúde e conferências de saúde. Atualmente, mesmo que reste uma significativa parcela de recursos federais sendo transferida aos estados e municípios, bem como para outras instituições, por intermédio de contratos e convênios, uma crescente fração do aporte da União já chega à ponta do sistema diretamente por repasse do Fundo Nacional para os fundos municipais e estaduais de saúde. Outro fator que mobiliza gestores, conselheiros e a sociedade organizada é a insuficiência de recursos financeiros para o SUS, principalmente no contexto do aumento das demandas assistenciais provocadas pelo agravamento das más condições de vida e trabalho. Discute-se, nacionalmente, a identificação de fontes estáveis para o setor e a participação das três esferas de governo no financiamento da saúde, aspecto onde se destaca a histórica omissão dos gestores estaduais, com a qual o Rio Grande do Sul contribuiu até a gestão passada. O diagnóstico inicial da Secretaria da Saúde apontou excessiva centralização do poder de decisão e dos recursos no círculo central; municipalização burocrática dos serviços, produzindo ações com baixa resolutividade e descontínuas, sobrecarregando municípios maiores; o âmbito regional sucateado e apenas com funções administrativas, esvaziado de qualquer autonomia de gestão na coordenação regional do SUS; recursos financeiros transferidos sem critérios técnicos de reforço à organização regional e de estímulo à implementação do SUS; fragmentação de respostas às instâncias de pactuação e de controle social; o Estado não habilitado a qualquer das modalidades de gestão previstas no SUS. O compromisso de campanha era de que o novo governo realizaria a municipalização solidária da saúde, fornecendo apoio técnico, financeiro e operacional aos municípios, fortalecendo a regionalização e participando na constituição de consórcios intermunicipais e regionais de saúde, que objetivassem a solução conjunta de problemas comuns vivenciados nos municípios, em micro e/ou macrorregiões geo-sanitárias. O governo estadual destinará recursos financeiros diretamente aos fundos municipais de saúde, recursos esses que, em caráter emergencial e imediato, serão calculados apenas por habitante/ano. Já no primeiro ano de governo, todos os municípios serão contemplados com recursos, tendo em vista a implantação dos sistemas loco-municipais de saúde. A proposta de Gestão Estadual em Saúde do governo visa adequar, política e organizacionalmente, a Secretaria da Saúde ao seu papel gestor no SUS. Está sendo pleiteada a habilitação do Estado do Rio Grande do Sul à Gestão Plena do Sistema Estadual de Saúde, ampliando a autonomia da SES/RS na gestão do SUS, ao mesmo tempo em que está sendo buscada, junto ao Ministério da Saúde, a ampliação dos recursos financeiros e discutido o reajuste do teto 12 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde... financeiro do Estado. A mudança no perfil de atuação e o fortalecimento das estruturas regionais do gestor estadual deverão permitir uma efetiva coordenação da política estadual de saúde no âmbito regional, em cooperação técnica e operacional, por meio do contato direto ou mediante assessoramento aos municípios, além da organização de unidades regionais para o planejamento, controle e avaliação de todos os aspectos da assistência (financeiros, operacionais, de regulação e pactuações intergestores). Iniciamos a efetivação da descentralização da gestão do SUS com o incentivo financeiro e a regionalização da assistência e da formação por intermédio de: 1. remodelagem das delegacias regionais de saúde em coordenadorias regionais de saúde, que de repassadoras de papéis aos municípios passaram à cooperação técnica; 2. um projeto de redes macrorregionais (sete macrorregiões geo-sanitárias); 3. criação de 19 Núcleos Regionais de Educação em Saúde Coletiva (Nuresc), na Escola de Saúde Pública/RS, para capacitação de gestores e apoio à formação de conselheiros; 4. reorientação dos programas de residência médica pela inclusão do aperfeiçoamento profissional especializado (noção de Equipe de Saúde) e ênfase na educação em saúde coletiva (epidemiologia, planificação e administração e ciências sociais para pensar o Sistema); 5. parceria com as universidades do estado como a constituição do Pólo de Educação em Saúde Coletiva; 6. fortalecimento dos consórcios existentes ou estímulo à organização de novos consórcios. Os consórcios constituem estratégia à organização regionalizada da saúde, tanto nos aspectos assistenciais (consultas e exames especializados, centros de referência em saúde da mulher e do trabalhador, assistência hospitalar), quanto nos aspectos operacionais (aquisição de insumos, equipamentos etc.). A cooperação técnica, financeira e operacional com os municípios, o estímulo à gestão descentralizada do SUS (habilitação dos municípios à gestão plena da atenção básica e à mudança para a gestão plena do sistema dos municípios com capacidade técnica e operacional para isso) e o suporte técnico para a habilitação aos incentivos e projetos existentes no contexto nacional, viabilizarão maior aporte de recursos federais para o Rio Grande do Sul e viabilizarão, também, o despertar da municipalização como construção de sistemas municipais de saúde. O fortalecimento das instâncias de pactuação e controle social deverá se estender pelo reconhecimento das prerrogativas de funcionamento dos Conselhos de Saúde, da Comissão Intergestores Bipartite e pelo respeito às funções e decisões dos Conselhos de Saúde. A pactuação de estratégias com os municípios, por intermédio da Comissão Intergestores Bipartite, o fortalecimento do envolvimento dos municípios e a Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 13 Maria Luiza Jaeger et al. construção de uma relação solidária e responsável com o SUS deverão caracterizar uma fase pioneira nacional da descentralização: a municipalização solidária com transferência regular de recursos financeiros aos municípios, pretendendo-se a viabilização de sistemas municipais, consórcios intermunicipais, intergovernamentais e regionais de saúde, gerenciamento regional e o Sistema Estadual de Saúde. Regionalização O diagnóstico da rede de atenção do estado, realizado no primeiro trimestre, deve ser encarado como inicial, mas é suficiente para motivar o processo de construção de políticas setoriais. A rede básica do estado, em sua maioria, caracteriza-se como de baixa resolutividade e restrita quanto ao acesso (como, por exemplo, horário de funcionamento). Ocorre desassistência aos quadros de baixa e média gravidade do risco à saúde que necessitam de pronto-atendimento. Os hospitais ligados ao Sistema Único de Saúde não se articulam num sistema com critérios definidos. A maior parte dos hospitais ligados ao SUS é de pequeno porte, isto é, com menos de 50 leitos, apresentando uma baixa resolutividade e baixa eficiência (taxa de ocupação entre 20 e 30%). Existem hospitais com certo grau de tecnologia incorporada que são potencialmente aproveitáveis como unidades de referência, sendo sua distribuição geográfica favorecedora a que se repense seu funcionamento sistêmico. A política utilizada para repasses do Tesouro do Estado, por meio de convênios, não obedece a critérios técnicos, epidemiológicos, de equalização e de otimização. A lógica que se pretende implantar para a rede de atenção é aquela com ordenamento orgânico locorregional. Deverá ser enfatizada a regionalização e a hierarquização, traduzidas em distribuição e complementaridade em rede (única). Sendo a regionalização o primeiro eixo do processo, estruturou-se a construção de macrorregiões. Foram utilizados como critérios para a criação das macrorregiões de ordenamento da atenção à saúde do Rio Grande do Sul: a capacidade instalada dos hospitais e outros serviços e a sua distribuição geográfica; o fluxo e acesso dos usuários a esses serviços; a utilização da implantação do subsistema de urgência/emergência como base e/ou impulsionador de outros sub-sistemas; a utilização do conceito de urgência/emergência de maneira ampliada (prevenção, atenção primária/suporte básico, atendimento préhospitalar, atendimento intra-hospitalar/suporte avançado, reabilitação, salvamento e resgate, educação popular) e, com igual importância, a existência e o funcionamento de outras divisões regionais no Governo do Estado (por exemplo, da Educação, da Agricultura, do Trabalho e da Assistência Social), visando às ações intersetoriais (uma visão de Sistema e não a racionalização burocrática de portes e cestas de procedimentos). A regionalização da saúde deve, também, agregar os serviços de apoio diagnóstico e terapêutico, de modo a evitar o deslocamento para grandes cen14 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde... tros, encarecendo o sistema e penalizando o usuário. A rede de atenção passa a ser pensada de modo hierarquizado para cada macrorregião, respondendo à preservação de todo o existente e ao incentivo à multifuncionalidade de serviços para corresponder às realidades locorregionais: 1. hospitais regionais: aqueles que, pela sua capacidade instalada, por seu volume de atendimento e sua resolubilidade sirvam de referência para a macrorregião de saúde; 2. hospitais microrregionais: são hospitais de porte médio, porém com suficiente capacidade para solucionar casos menos complexos, diminuindo a concentração dos atendimentos e facilitando o acesso; 3. centros de referência e de especialidades; 4. hospitais de apoio: são unidades de pequeno porte onde diversas modalidades (unidades mistas) de atenção podem ser implantadas (centro de enfermagem obstétrica, hospital-dia, centro de atenção psicossocial, casa de apoio, casa de passagem, centro de referência à saúde do trabalhador etc.); 5. rede municipal de atenção básica à saúde. A Secretaria da Saúde vem fazendo uma série de mudanças na sua estrutura, tanto em Porto Alegre, quanto nas coordenações regionais da saúde. Agora, as coordenadorias regionais de saúde deverão ter o papel de gerenciar a política setorial e adaptá-la às necessidades do padrão de morbi-mortalidade regional. A gestão regional deve se dar em parceria com os gestores e conselhos municipais, constituindo uma co-responsabilidade na resolução das demandas em saúde. Além dessas linhas de trabalho, outros aspectos deverão ser enfocados: construção de apoios para este sistema (centrais reguladoras para internação e centrais de marcação de consultas), estabelecimento de métodos e rotinas de trabalho para as decisões e ações de curto prazo na área de assistência hospitalar e o estabelecimento de um programa de apoio gerencial aos gestores municipais, gestores de hospitais e demais serviços vinculados ao SUS. Os cortes constantes no financiamento do Sistema Único de Saúde, quer da esfera federal, quer da esfera estadual, nos últimos anos, tem tido como conseqüência a descapitalização das instituições. Para manter estas instituições funcionando e ordenar o destino destes recursos, a Secretaria da Saúde está trabalhando com propostas que abrangem a Atenção à Urgência e Emergência, Atendimento à Gestante de Alto Risco e o Índice de Valorização Hospitalar. Essas ações são financiadas pelo Ministério da Saúde e serão complementadas pela esfera estadual, com critérios de financiamento, exercendo, assim, o controle sobre a qualidade de suas ações. O repasse de recursos deverá estabelecer outra relação entre as partes, não um repasse a fundo perdido, mas uma antecipação de receita a ser compensada em parcelas acordadas entre as partes: exigência de plano diretor, tanto para aplicação de curto prazo, como para os repasses regulares; composição de Conselho Gestor de caráter fiscalizador e deliberativo com composição da administração do hospital, usuários e representantes dos governos estadual e municipal. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 15 Maria Luiza Jaeger et al. Estabelece-se, assim, um novo patamar nas relações entre gestores, o que permite o controle social sobre os recursos públicos repassados a cada uma das unidades prestadoras, seja um hospital ou um consórcio. A proposta de regionalização pretende ordenar a oferta de serviços, hoje concentrada em grandes centros, promovendo a eqüidade do acesso, a resolubilidade, a humanização do atendimento e a maior proximidade do acesso ao local de origem dos usuários. Pretende-se, também, traçar uma política de investimento mais conseqüente, enquanto se estabelece a tipologia das unidades prestadoras, o patamar tecnológico a ser incorporado e o grau de resolubilidade esperado. Mais do que ordenar a oferta, pretende-se mudar a cultura organizacional, onde a oferta orienta a demanda e o gestor é um mero repassador de recursos, submetido às diferentes pressões, como o empresariado médico e as indústrias de equipamentos e de medicamentos. O ordenamento regional visa à constituição de redes descentralizadas de atenção, onde cada serviço alcance resolubilidade de acordo com as necessidades de um sistema hierarquizado, integrado e integrador. Formação A formação, de modo pioneiro, está sendo colocada como linha estratégica na gestão estadual do SUS. Por que a formação é estratégica? 1. Porque é condição para a construção, para a implementação e para a compreensão do SUS; 2. porque há elevada demanda e ampliaram-se as expectativas de obter formação segundo a orientação política constante na proposta de governo; 3. porque é forma de difusão do conhecimento; 4. porque se explica por si mesma (qualquer um compreende o que é formação entre os critérios de uma política pública) e valoriza a ação governamental; 5. porque produz forte consenso social e porque forma novos consensos; 6. porque é arma de luta: nas consciências, nos corpos e nos sentimentos. Como a formação se coloca no Contexto de Prioridades? 1. Visando à geração de uma cultura de Educação Continuada, disseminada em todas as regiões de saúde, ao alcance dos municípios e dos trabalhadores da saúde, uma vez que a formação é um importante meio para alcançar os objetivos do SUS; 2. visando à descentralização e à regionalização das ações formativas, descentralizando e regionalizando a própria Escola de Saúde Pública; 3. visando à integração ensino-serviço da Secretaria da Saúde com os órgãos formadores do Estado, interpondo o SUS estadual no diálogo com a formação de profissionais de saúde e requisitando a participação dos cursos de Licenciatura na requalificação do trabalhador de saúde de escolaridade no ensino médio (conteúdos humanistas, educação popular, línguas estrangeiras, artes 16 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde... e o saber geral, como o português e a matemática); 4. visando à integração de profissionais recém-formados, por intermédio de programas de bolsas de residência médica e aperfeiçoamento especializado; 5. visando à criação de uma Escola de Educação Profissional em Saúde para o ensino técnico dos trabalhadores de escolaridade correspondente ao ensino médio; 6. visando ao acesso à informação qualificada em saúde, por meio da criação de um Centro de Informação e Documentação em Saúde e do (re)lançamento de uma revista científica; 7. visando à revisão ética e à avaliação metodológica das propostas de pesquisa em saúde no Estado, por meio de uma Comissão de Ética na Pesquisa em Saúde. A formação não se confunde com uma proposta de comunicação e informação em saúde, que é absolutamente fundamental e necessária à visibilidade do setor saúde no governo. Não se somam à formação, em senso estrito, os Encontros e Conferências que debatem a política de saúde. Esses pertencem ao conjunto da Secretaria e são transversais a todas as propostas. Existem, na área da saúde, 57 profissões e ocupações somadas, entre pessoal de âmbito elementar, médio e superior, o que revela o tamanho das necessidades de formação continuada. Qual a abrangência da formação como Linha Estratégica? 1. Pós-graduação (stricto e lato sensu, profissional ou acadêmica). As áreas de prioridade incluem: formação de sanitaristas, formação de enfermeiros obstetras e enfermeiros neonatologistas, formação de odontólogos de saúde coletiva, especialização em gestão do SUS e gestão de hospitais e serviços, especialização em saúde da família, mestrado profissional em administração da saúde ou em saúde coletiva; 2. educação profissional no âmbito da escolaridade do ensino médio (qualificação para o trabalho, profissionalização, educação continuada e especialização técnico-profissional). Os dados de Recursos Humanos disponíveis mostram que 51% dos trabalhadores de escolaridade básica não têm qualificação para a função que exercem, 35% sequer conta com o ensino fundamental. Calcula-se que haja, ainda, 8 mil atendentes atuando em enfermagem; 3. formação inovadora de Acompanhantes Terapêuticos e Redutores de Danos (pessoal de escolaridade básica); 4. educação popular em saúde com a criação de um programa de comunicação e documentação do material instrucional popular; 5. capacitação para elaboração de projetos e políticas de saúde; 6. formação extensiva em gestão do SUS e atuação complementar com o Conselho Estadual de Saúde para a capacitação de Conselheiros Municipais e Estaduais de Saúde; 7. aperfeiçoamento para saúde mental coletiva e para pessoal de odontologia em atendimento às pessoas com deficiências; 8. formação de auditores em saúde e do Sistema de Saúde; 9. educação continuada para trabalhadores de saúde; Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 17 Maria Luiza Jaeger et al. 10. programas de Residência Médica e Aperfeiçoamento Especializado Integrados (Residência Integrada em Saúde), bem como programas de estágio e bolsas para acadêmicos; 11. Centro de Informação e Documentação em Saúde, transformando a biblioteca setorial de saúde pública da ESP/RS; 12. revista com periodicidade semestral ou quadrimestral; 13. Comitê de Ética na Pesquisa em Saúde. A formação está atribuída à Escola de Saúde Pública/RS, que passa a ser pólo de capacitação para o SUS/RS. A Escola de Saúde Pública/RS é recolocada como o órgão de educação e produção de conhecimento em saúde pertencente à Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul. Promoverá a educação e a produção de conhecimento por meio de: ensino; pesquisa; atividades de extensão em educação; atualização, manutenção e desenvolvimento de acervo bibliográfico; difusão de informação científica, documental e de educação popular; fomento ao debate das políticas de saúde e revisão ética das propostas de pesquisa. A consigna estruturante da ESP/RS passa a ser Educação em Saúde Coletiva e os conceitos estruturantes desta consigna são: 1. educação: processo relativo aos aprendizados, envolvendo aspectos cognitivos e afetivos de caráter sócio-interativo. Assim, a educação abrange tanto o campo das construções cognitivas, quanto as experiências intensivas resultantes do estar junto e da composição de coletivos de aprendizagem; 2. saúde: em seu sentido mais abrangente, saúde é a expressão das condições de vida e trabalho, expressando as determinações das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso às ações e serviços de saúde. Mas saúde é, também, a capacidade de enfrentar as adversidades do meio ou a capacidade de mobilizar energias para afirmar a vida; 3. coletiva: qualidade da produção e circulação do conhecimento e das relações sociais. Pode estar referida a um conjunto de pessoas, à articulação de projetos ou ao intercâmbio entre instituições. Essa concepção supõe e propõe processos cooperativos ou de interação para reconhecer a importância da formação de redes, da interação entre diversidades e das parceiras descentralizadas e transversais. Por meio da formação se pode preparar profissionais altamente qualificados para o exercício das ações e serviços de saúde nos diferentes campos de trabalho, da investigação, da docência e das atividades sociais; manter forte interação com a sociedade e com os órgãos formadores do Estado; empenhar projetos educacionais e de desenvolvimento do conhecimento para a elevação da qualidade de vida humana e da consciência ética na área da saúde. Atenção Integral à Saúde A atenção integral à saúde, mais do que uma diretriz constitucional, é um grande desafio a todos os que atuam na defesa e na implementação do Sistema 18 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde... Único de Saúde. Em primeiro lugar, por decorrência de sua abrangência. Diznos a Constituição que a saúde deve ser garantida mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (art. 196). Segundo a Lei Federal 8.080, de 19 de setembro de 1990, a saúde expressa os níveis de organização social e econômica do país , sendo determinada e condicionada, entre outros fatores, pela alimentação, moradia, saneamento básico, meio ambiente, trabalho, renda, educação, transporte, lazer e acesso a bens e serviços essenciais, bem como outras ações que produzem nas pessoas e nas coletividades condições de bem-estar físico, mental e social (art. 3º). Definir, portanto, que há que se garantir a integralidade significa dizer que devem ser desenvolvidas ações intersetoriais para alcançar níveis crescentes de saúde. Também significa dizer que é necessário integrar as ações e os serviços de saúde e suas diversas sub-áreas de conhecimento de forma a permitir uma ação que considere todas as dimensões das pessoas e das coletividades. É uma atribuição desafiadora para o poder público, principalmente, quando se considera que a fragmentação foi construída, não somente na organização dos serviços, como também na própria construção do conhecimento. Mais do que uma proposição técnica, a idéia da atenção integral à saúde implica uma mudança de enfoque na organização e na prestação das ações e serviços de saúde. A distância e as dificuldades, que são históricas, para alcançar esse objetivo, não são justificativas aceitáveis para a inércia dos governos em buscá-lo. Se é verdade que o desenvolvimento teórico nessa área ficou descolado das práticas concretas, também é verdade que há movimentos possíveis para aproximar os serviços dessa dimensão conceitual. O desafio de aproximar as diversas subáreas de atuação já foi aceito na proposta de reorganizar as diversas áreas programáticas do antigo Departamento de Ações em Saúde. Além de agrupar os inúmeros programas em áreas técnicas e aproximar as vigilâncias epidemiológica e sanitária, também foram propostos projetos integradores, a partir do desafio de atuar conjuntamente no enfrentamento de problemas que ainda sensibilizam os indicadores de saúde do Estado. É preciso destacar, nessa perspectiva, o projeto político de agrupar as diversas áreas técnicas na proposição de estratégias de atenção para o enfrentamento dos principais problemas de saúde do Estado e para produzir, como conseqüência, uma reorientação na assistência atualmente prestada, a melhoria na qualidade de vida das pessoas e a mudança nos indicadores de saúde. A diversidade epidemiológica, demográfica e sócio-cultural dos municípios e regiões do Estado levou à constatação de que deveria ser feito um trabalho mais efetivo para reduzir a mortalidade e a morbidade infantil, com ampliação da eqüidade na alocação de recursos e cooperação técnica, agregada à atenção de saúde ao idoso, tendo em vista o aumento da expectativa de vida, que no Rio Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 19 Maria Luiza Jaeger et al. Grande do Sul é de 71 anos de idade, com concentração de idosos na maioria dos municípios de região rural. A área assistencial abrange, então, como prioridade, a saúde materna, infantil e do idoso. Para a seleção de municípios a serem priorizados como de atenção inicial, devem estar aqueles com mortalidade infantil média acima de 20 por 1.000 nos últimos cinco anos, os municípios-sede das Coordenadorias Regionais de Saúde, os municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre e aqueles municípios que pertenciam aos programas assistenciais “de famílias carentes”, para evitar a descontinuidade na atenção. Evitando-se reforçar a idéia das estratégias pontuais de redução das doenças e mortes, foi formulada a idéia de um projeto integrado e integrador da intersetorialidade: o Projeto Vidas, que representa uma proposta institucional articuladora de todos os setores da Secretaria da Saúde, buscando efetiva mudança do perfil de saúde dos municípios, oferecendo-se como elo para todo aparato estadual de governo. O Vidas pretende uma política sinérgica de alteração positiva nos determinantes e condicionantes da saúde/doença. A atenção integral à saúde visa à melhoria da qualidade de vida da população, adequando a atenção à saúde às diferentes realidades dos municípios com ações integradas intra-institucionais, interinstitucionais e intersetoriais, utilizando, para isto, as estruturas existentes nas regiões e municípios, com atividades elaboradas conjuntamente (assessoria central, coordenação regional e política municipal), acompanhadas e avaliadas continuamente. Em relação à área da Vigilância à Saúde, as atividades a serem desenvolvidas englobam suas subáreas clássicas: epidemiológica, sanitária e ambiental, incluindo-se a vigilância aos ambientes e às condições do trabalho. O cuidadoso acompanhamento e controle da incidência e prevalência das doenças transmissíveis, zoonoses e vetores, bem como das ações de prevenção e um conjunto de atividades de acompanhamento das condições de qualidade da água, dos alimentos e dos produtos e serviços de saúde, refletem a proteção da saúde da população. As atividades das demais áreas técnicas da Saúde Coletiva, que fazem parte da Coordenação de Atenção Integral à Saúde, mostram o acompanhamento das condições de vida e saúde da população gaúcha. A elaboração de propostas específicas de atenção e um grande conjunto de interfaces com outras áreas do governo e da sociedade estão sendo verificados. Exemplo emergencial é a assistência farmacêutica. As mudanças na organização nacional da assistência farmacêutica básica, com a substituição do repasse de medicamentos pela criação de Incentivo Financeiro específico, que ocorreu no início de 1999, tornaram necessária a elaboração do Plano Estadual de Assistência Farmacêutica Básica, pactuado na Comissão Intergestores Bipartite (CIB/RS) e aprovado pelo Conselho Estadual de Saúde (CES/RS), com diversas ações de capacitação nas Coordenações Regionais e nos Municípios. A atenção integral à saúde constitui-se em pressuposto ético da formulação de políticas para promoção, prevenção, assistência e reabilitação, elevando a qualidade de vida, reduzindo a mortalidade e prolongando a expectativa de vida. 20 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde... Propostas quanto ao Controle Social e às instâncias de pactuação A efetiva implantação do SUS, com controle social, merece destaque. Por um lado, o papel histórico das esquerdas no cenário nacional e, por outro, os limites reais e concretos colocados ao governo estadual para realizar aquilo que vem sendo construído historicamente na luta pela Reforma Sanitária no país. Numa formulação simples, pode-se apontar, no Estado do Rio Grande do Sul, que falta fortalecimento ao movimento social para a defesa da vida e do SUS e que este é o grande desafio: controle social e recuperação da saúde pública. É preciso aprofundar a questão da municipalização, enquanto posição de governo. Discutir o que é a municipalização, os significados da municipalização na área da saúde e rever essa posição na área da educação. Fortalecer a conduta governamental de compatibilizar financiamento e proposta política com democracia e descentralização. Construir uma gestão solidária e comprometida com os municípios, sem prefeiturizar. Este tema merece aprofundamento, pois, se de um lado, há dúvidas e questionamentos acerca da municipalização na área da educação, por outro, não há dúvidas na área da saúde. Ao contrário, há longa convicção e certeza de que o caminho da descentralização, hierarquização, atenção integral e controle social são a possibilidade concreta de implantar o SUS e garantir mais resolutividade na atenção à saúde da população. O estabelecimento de uma nova relação com a Comissão Intergestores Bipartite e o fortalecimento dos Conselhos de Saúde demonstrarão as responsabilidades do Governo Estadual e do Governo Federal. É necessário aproveitar bem os recursos e dar-lhes a necessária transparência administrativa. No que se refere às exigências políticas deste mandato, vale ressaltar os seguintes elementos: assegurar 10% das receitas líquidas do Estado para a saúde, reunir todos os recursos financeiros da saúde no seu Fundo Estadual, viabilizar o controle social pelo Conselho Estadual de Saúde e instituir o repasse financeiro Fundo-a-Fundo de Saúde (do Estado aos municípios). Essas são lutas históricas, conquistadas em leis que ajudamos a escrever e que o conjunto de nosso governo necessita apropriar-se para assumi-las, caso contrário, corremos sérios riscos de comprometer o processo que pode garantir saúde de verdade com qualidade para todos os gaúchos, como afirma o Programa de Governo. Quanto à Municipalização Solidária da Saúde, projeto deste governo, precisamos manter a proposta histórica de repasse em dinheiro do Estado aos municípios, assegurando o compromisso de capacitação de conselheiros e a efetivação do acompanhamento da gestão municipal. A utilização desse recurso deve servir à implementação da descentralização, com a estruturação de políticas regionais intermunicipais, interinstitucionais e intergovernamentais. O repasse não deve engessar ações e deve respeitar definições estabelecidas pelos municípios; deve ser viabilizado o seu repasse e esse não deve ser repassado aos consórcios, mas diretamente aos municípios (Fundo-a-Fundo); os repasses devem ter no controle social a garantia de transparência sobre a utilização feita Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 21 Maria Luiza Jaeger et al. pelos municípios. Será preciso capacitar os Conselhos Municipais de Saúde, incluir participantes das Coordenadorias Regionais de Saúde (CRS – SES/RS) nos Conselhos; criar comissões de planejamento e administração nos Fundos Municipais de Saúde; envolver os movimentos sociais no estímulo ao funcionamento dos Conselhos Municipais de Saúde (CMS); o CMS deve ser informado sobre os recursos disponibilizados para o município e a ESP/RS, junto com o Conselho Estadual de Saúde/RS, por intermédio dos Núcleos Regionais de Educação em Saúde Coletiva, deve programar capacitações para os gestores. A implantação de Comissões Intergestores Bipartite em todas as regiões de saúde será uma forma de democratizar o processo de regionalização, valorizar as instâncias de pactuação e fortalecer o controle social. O fortalecimento da estrutura da atenção básica à saúde via o trabalho das coordenadorias regionais nos municípios, oferecendo apoio técnico e político aos mesmos, bem como articulando esse trabalho com os movimentos populares, sindicatos e demais atores sociais de fortalecimento do controle social, a fim de que seja, de fato, implantado o SUS, poderá inverter a lógica hospitalocêntrica existente, atualmente, no Estado e terminar com a compartimentalização das ações. Para mudar a política hospitalar no Rio Grande do Sul, será necessária tanto a reorganização da atenção, como o fortalecimento do controle social, necessita-se do ordenamento de sistemas regionais de saúde com atenção básica, de média e de alta complexificação tecnológica e não o custeio de serviços hospitalares para que esses alcancem, isoladamente, o máximo de tecnologia em saúde. O acesso à saúde se faz na rede única, regionalizada e hierarquizada, sob as diretrizes da descentralização, integralidade da atenção e participação da sociedade. É preciso, também, acabar com as barbaridades como a dos gastos com a compra dos medicamentos excepcionais sem o critério da eqüidade: mostrar as impossibilidades do governo estadual e denunciar as demais esferas. Os agentes voluntários de saúde que atuam com as organizações populares são hoje um verdadeiro batalhão solidário do SUS. Por isso, a Secretaria da Saúde tem a tarefa de propor alternativas no sentido das ações conjuntas, parcerias ou outras modalidades de atuação, a fim de que cumpram o papel solidário na construção do SUS/RS. A Escola de Saúde Pública/RS deverá priorizar a implantação dos Núcleos Regionais de Educação em Saúde Coletiva e capacitar gestores regionais e municipais, bem como- atuar na qualificação de conselheiros e lideranças populares para efetivar o controle social no SUS/RS. Os Núcleos devem se articular com as universidades nas regiões e com entidades que atuam na Educação Popular em Saúde, buscando a maior proximidade dos gestores municipais. O cumprimento da lei de extinção do Inamps estipula uma obrigatoriedade a ser defendida pelo gestor que preza o controle social e sua aplicação será uma novidade nacional ao ser implementada no Rio Grande do Sul. O artigo 12 da Lei Federal nº 8.689, de 27 de julho de 1993, assevera que o gestor do SUS, em cada esfera de governo, apresentará trimestralmente ao conselho de saúde 22 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde... correspondente e em audiência pública nas câmaras de vereadores e nas assembléias legislativas respectivas, para análise e ampla divulgação, relatório detalhado contendo, dentre outros, dados sobre o montante e a fonte de recursos aplicados, as auditorias concluídas ou iniciadas no período, bem como sobre a oferta e produção de serviços na rede assistencial própria, contratada ou conveniada. A Lei Federal 8.142, de 28 de dezembro de 1990, definiu duas instâncias colegiadas na gestão das políticas de saúde: a Conferência de Saúde e o Conselho de Saúde. Assim, se de um lado a existência do Conselho é condição de habilitação às regras do SUS, de outro ele será fortalecido pela exigência do exercício de sua aprovação na aplicação de recursos estaduais e na aprovação dos relatórios de gestão. Além da realização da 3ª Conferência Estadual, preparatória da 11ª Conferência Nacional de Saúde, deverão ser realizadas conferências temáticas que popularizem e sistematizem o debate temático e deliberem as diretrizes estaduais às áreas técnicas de condução das políticas públicas de saúde. O Rio Grande do Sul está fazendo a sua parte e cobra do governo federal e das prefeituras que façam o que lhes cabe. Ao instituir a municipalização solidária da saúde, que consiste no repasse regular e automático de recursos do orçamento do Estado para todos os municípios gaúchos que assumirem a gestão do SUS, o Governo do Estado começará a assumir o seu papel de cooperar técnica e financeiramente com os municípios. A efetiva implantação do SUS no Rio Grande do Sul exigirá a parceria responsável de toda a sociedade. Precisaremos lutar pelo reajuste da tabela do SUS, pela gestão mais qualificada dos recursos já existentes e, principalmente, pelo controle social sobre a sua destinação. Encerramento Construir uma Saúde de Verdade e com Qualidade para Todos os Gaúchos e manter a unidade de gestão exigirá transparência e sabedoria capazes de articular austeridade administrativa na implantação do Sistema Único de Saúde com o fortalecimento da sociedade civil no controle social das políticas de saúde. Somente com garra, força, coragem, compromisso, companheirismo, alegria e participação é que a Secretaria da Saúde construirá as condições para garantir o acesso integral à saúde para todos os gaúchos. As linhas estratégicas de gestão estabelecem a ligação dos vários projetos, mesmo na diversidade, e isto dará ao estado a possibilidade de desenvolver uma nova cultura de luta política pela saúde, agora de dentro de um governo. Não queremos padronização, falta de originalidade ou desenvolvimento linear, mas muita ação e pensamento que, por sermos Estado, deverão estar à serviço da população e que, por estarmos vinculados às questões de saúde, devem estar à serviço da defesa da vida. Precisamos instigar os trabalhadores da Secretaria da Saúde e os trabalhadores do SUS a um desempenho efetivo na defesa da vida e construção da saúde de verdade. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 23 Maria Luiza Jaeger et al. O alicerce de nosso projeto deverá ser a construção de forças aglutinadoras e não o embate de forças competitivas. A exigência ética de alinhavarmos um SUS como defesa da vida não se dará igualmente entre todas as tendências do movimento sanitário. As diversas forças políticas, intelectuais, de trabalhadores e sociais são demasiado heterogêneas para que se suponha que será fácil essa administração estadual. Entretanto, sem o desejo de fortalecer, dia após dia, a capacidade geral de comando estadual do SUS, não conquistaremos nunca o necessário acúmulo. As mazelas cotidianas são muito menores que o projeto coletivo e uma imposição de ruptura ao processo de aprendizagem seria desastroso. O SUS pode dar certo no Estado do Rio Grande do Sul, de uma forma pioneira neste país, e precisamos perseguir juntos essa meta. Implantación del SUS en el Rio Grande do Sul: líneas estratégicas de la Secretaria da Saúde en la gestión democrático popular elegida para el mandato de 1999 a 2002 Resumen: Trabajo de sistematización y síntesis de la propuesta de gestión en salud en el Estado del Rio Grande do Sul para el período 1999 – 2002. El trabajo presenta los cinco ejes estratégicos propuestos por el mandato: descentralización, regionalización, formación, atención integral a la salud y énfasis al control social y a la pactuación intergestores. Son descriptas las formas de operacionalización de la gestión estadual en salud, buscando la consolidación y el avance en la implantación del SUS. El artículo contribuye a la preservación de la memoria institucional de la construcción política del sector de salud en el Estado del Rio Grande do Sul. Palabras Clave: Sistema Único de Saúde; Rio Grande do Sul; Gestión en salud; Política de salud; Memória institucional. Implantation of SUS in Rio Grande do Sul: strategic lines of Secretaria da Saúde in the Democratic-popular Administration elected for the mandate of 1999 to 2002 Abstract: A work of systemization and synthesis of the administration proposal in health in the State of Rio Grande do Sul for the period of 1999 to 2002. The work presents the five strategic axes proposed in the mandate: decentralization, regionalization, formation, integral attention to health and emphasis to the social control and the inter-managers pact. The ways of operating the state administration in health are described, looking for the consolidation and the advance in the implantation of SUS. The article contributed for the preservation of the institutional memory of the political construction of the section of health in the State of Rio Grande do Sul. Key-words: Sistema Único de Saúde; Rio Grande do Sul; Administration in health; Politics of health; Institutional memory. 24 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Implantação do SUS no Rio Grande do Sul: linhas estratégicas da Secretaria da Saúde... Anexo Seminário de Avaliação, Integração e Participação na Elaboração e Execução da Política de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul Data: 24 e 25 /04/1999 Local: Centro de Treinamento da Procergs Programação: Primeiro Dia: Sábado – 24/04/99 8:30h – Abertura Coordenação: Ricardo Burg Ceccim 9:00h – Contexto e Política no Governo Estadual Coordenação: Vanderléia L. P. Daron Expositores: ü Miguel Rosseto – Vice-Governador ü David Capistrano Filho – Coordenador do Projeto Qualis/SP, Secretário de Saúde (1989-1992) e Prefeito (19931996) de Santos-SP ü Maria Luiza Jaeger – Secretária de Estado da Saúde 10:45h – Início do Debate 11:00h – Intervalo 11:15h – Seqüência do debate 12:00h – Almoço 13:30h – Plenária de abertura do processo de avaliação participativa Coordenação: Ricardo Burg Ceccim e Kátia Reichow 14:00h – Trabalho em grupos: Análise dos Principais Avanços, Principais Dificuldades e Propostas de Mudança na SES/RS 16:00h – Intervalo 16:20h – Plenária e Debate das Avaliações Coordenação: Kátia Reichow, Stênio Dias Pinto Rodrigues e Ricardo Burg Ceccim 18:00h – Encaminhamentos com estruturação e distribuição de material para trabalho no dia seguinte Coordenação: Ricardo Burg Ceccim 18:30h – Encerramento 21:00h – Jantar Segundo Dia: Domingo – 25/04/99 8:30h – As Linhas Estratégicas da Secretaria da Saúde Coordenação: Maria Luiza Jaeger (Abordando o eixo transversal do Fortalecimento das Instâncias de Pactuação e Controle Social) Expositores: ü Alcindo Antônio Ferla – Coordenador da Assessoria Técnica ao Planejamento: Descentralização; ü Ana Maria Consentino Müller – Coordenadora da Regulação das Ações e Serviços de Saúde: Regionalização; ü Celso Bitencourt dos Anjos – Coordenador da Atenção Integral à Saúde: Atenção Integral de Saúde; ü Ricardo Burg Ceccim – Diretor da ESP/ RS: Formação. 9:30h – Trabalho em Grupos Roteiro: Análise compartilhada dos documentos distribuídos, avaliação de perspectivas à SES/RS, propostas de ação do governo e propostas para a visibilidade institucional. 12:00h – Almoço 14:00h – Plenária e encaminhamento Coordenação: José Eduardo Martins Gonçalves 15:45h – Intervalo 16:00h – Gestão do Estado em Saúde: percepção estratégica Coordenação: Maria Luiza Jaeger Debatedor: David Capistrano Filho 17:30h – Avaliação do Seminário e encaminhamentos: ser governo em saúde Coordenação: Maria Luiza Jaeger 18:00h – Encerramento e Conclusão Coordenação: Vanderléia L. P. Daron Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 25 Atenção montador a página 26 é branca Artigo Atenção montador a página 28 é branca Perfil epidemiológico de uma amostra de crianças atendidas em dermatologia sanitária Perfil epidemiológico de uma amostra de crianças atendidas em dermatologia sanitária Ana Rejane Wortmann1 Themis Rosa1 Vera Bauer Silveira2 Regina Loureiro2 Resumo: Em março de 1999, o Ambulatório de Dermatologia Sanitária da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul criou um serviço de atendimento especializado em dermatologia pediátrica. Com a intenção de conhecer o perfil epidemiológico da demanda ao novo serviço, foi feito um estudo transversal com uma amostra de 163 crianças, medindo–se a prevalência das patologias e de alguns fatores de risco associados. Os resultados indicaram que além da esfera de tratamento, as medidas preventivas devem pertencer ao projeto assistencial. A clientela atendida, na sua maioria, era proveniente das camadas sociais de baixa renda e escolaridade, mas as crianças tinham boas condições de higiene e as casas tinham boas condições de saneamento. No entanto, quase 30% dos diagnósticos foram de escabiose, que também se manifestava em muitos outros familiares e pessoas que compartilhavam a casa. Palavras–Chave: Dermatologia; Pediatria; Saúde pública. Introdução Em março de 1999, foi inaugurado o serviço de Dermatologia Pediátrica no Ambulatório de Dermatologia Sanitária (ADS) da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (SES/RS), com o objetivo de atender à demanda de crianças que procuravam atendimento com as mais variadas patologias cutâneas. Ao mesmo tempo, foi dado início a um estudo transversal com a proposta de estabelecer as patologias cutâneas mais freqüentes nesta faixa etária e, por meio da determinação dos fatores de risco associados, poder atuar não só na esfera do tratamento como também de maneira preventiva dessas dermatoses. A dermatite atópica e as zoodermatoses, dentre as quais destacamos a escabiose e a pediculose, e as piodermites configuram as principais e mais 1 2 Médica Residente em Dermatologia Sanitária. Preceptora da Residência Médica em Dermatologia Sanitária. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 29 Ana Rejane Wortmann et al. freqüentes patologias de pele em nosso meio, no que se refere à dermatologia pediátrica. Foi realizado um estudo no serviço de dermatologia pediátrica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (Cestari et al.,1992). Dos diagnósticos realizados, os mais freqüentemente encontrados foram: eczemas (31,7%), sendo mais comum o atópico; infestações (14,1%) e piodermites (11,5%). Conforme este mesmo trabalho, a maioria das referências encontradas na literatura estuda a incidência das dermatoses em todos os grupos etários. Zaitz et al. (1979), em São Paulo, encontraram em 1.795 pacientes um percentual maior de eczemas (40,25%), seguido de zooparasitoses, micoses superficiais, tumores e reações de hipersensibilidade. Em um estudo retrospectivo, realizado na Clínica de Dermatologia Pediátrica do Hospital Geral da Cidade do México, verificou–se que, dentre os dez mil atendimentos realizados entre os anos de 1990 e 1994, as principais dermatoses encontradas foram dermatite atópica, verrugas, pitiríase alba (uma das manifestações cutâneas de pacientes atópicos), prurigo por ectoparasitas e vitiligo (Garcia; Vazquez; Gonçalves, 1995). Já nos Estados Unidos, o predomínio foi de acne, verrugas, eczemas, psoríase e ceratoses actínicas, provavelmente por diferenças climáticas e sócio–econômicas (Hayden, 1985). Ainda em outros estudos, a maior incidência foi de infestações, piodermites e prurigo estrófulo (Perret et al, 1991; Talhari; Torrecila; Talhari, 1987). O Ambulatório de Dermatologia Sanitária da SES/RS é um serviço de referência para o atendimento de dermatologia dentro de uma perspectiva de Saúde Coletiva. Atende a uma demanda mais específica da população, muitas vezes encaminhada por outros Serviços. No ambulatório de pediatria este perfil ainda era desconhecido, embora não esperássemos resultados diferentes dos encontrados na literatura referida. O que pretendíamos, entretanto, era avaliar também os possíveis fatores de exposição, de forma que obtivéssemos informações para definir as estratégias assistenciais de maior resolutividade para nossa demanda. Material e método Foram avaliadas 163 crianças, na faixa etária de 0–12 anos, com afecções cutâneas, que procuraram o serviço de dermatologia pediátrica espontaneamente, por encaminhamento de profissionais de outros serviços (pediatras) ou por dermatologistas do próprio ambulatório, no período de abril a setembro de 1999. O delineamento escolhido foi o estudo transversal, com o objetivo de relacionar as patologias mais prevalentes e os fatores de risco associados. Os desfechos estudados foram as diversas patologias dermatológicas – tipo de afecção cutânea: eczemas, zoodermatoses, piodermites e outras – diagnosticadas por anamnese e exame físico. Foram coletados dados so- 30 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Perfil epidemiológico de uma amostra de crianças atendidas em dermatologia sanitária bre sexo e idade da criança, escolaridade do responsável e renda familiar para definir o perfil da amostra estudada. Para avaliar a exposição, foram analisados dados sobre condições de habitação, tais como número de cômodos, número de pessoas e presença de água, esgoto e banheiro dentro de casa; condições de higiene pessoal, segundo uma avaliação subjetiva do entrevistador; contato em grupo com outras crianças de acordo com a freqüência à escola ou creche; história de contato com casos semelhantes; história de contato com animais; história de tabagismo intradomiciliar e antecedentes patológicos familiares e pessoais. Os questionários foram aplicados pelas próprias investigadoras e estagiários, sempre imediatamente antes da consulta dermato–pediátrica. As informações eram dadas pelo adulto que estivesse acompanhando a criança à consulta. A coleta de dados foi feita durante aproximadamente quatro meses – em duas diferentes estações do ano – outono e inverno. Resultados As dermatoses mais encontradas foram: escabiose (28.8%); dermatite atópica (19,6%); outros eczemas (15,3%); dermatofitoses (7,4%); impetigo (6,7%) e outras (22,1%). Quando analisamos a possibilidade de associação dos diagnósticos, verificamos que a maioria destes era única e, apenas no caso do diagnóstico de escabiose, encontramos algumas complicações como o impetigo (8 casos – 17%) e outros eczemas (3 casos– 6,4%), além de cinco casos (10,6%) de dermatite atópica e escabiose diagnosticados na mesma criança – como observamos no quadro (Quadro 1). Quadro 1 – Distribuição das dermatoses diagnosticadas e diagnósticos associados Diag.1 Diag.2 Escabiose Impetigo Dermatite atópica Outros Eczemas Não se aplica TOTAL Escabiose Freq % Impetigo Freq % Zero – 8 17,0 5 10,6 3 6,4 31 66,0 47 Zero – Zero – Zero – Zero – 11 100,0 11 Dermatite Atópica Freq % 2 6,3 Zero – Zero – Zero – 30 93,7 32 Dermatite Micoses Freq % Zero – Zero – Zero – 1 8,3 11 91.7 12 Outros Eczemas Freq % Zero – 1 4,0 Zero – 1 4,0 23 92,0 25 Outras Dermatites Freq % 1 2,8 Zero – 1 2,8 1 2,8 33 91,6 36 Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 31 Ana Rejane Wortmann et al. A tabela 1 nos mostra a distribuição das variáveis demográficas da amostra estudada. Aproximadamente 30% da amostra tinha menos de 2 anos de idade e praticamente metade dos pacientes eram meninas e metade meninos. Ao examinarmos a renda familiar e a escolaridade dos responsáveis, verificamos que metade da população estudada tinha renda familiar menor do que 3 salários mínimos e 76% desta população tinha apenas o ensino fundamental completo. Entretanto, quando avaliamos condições de habitação, do ponto de vista da exposição às condições de risco para dermatoses (tanto infecciosas como alérgicas), encontramos um resultado surpreendente. Apesar de pertencerem a uma camada social com baixa renda, 94% dos entrevistados referiram ter no domicílio água, esgoto e banheiro interno e a maioria (64,2%) das casas acomodava apenas uma pessoa por cômodo (considerando todos os cômodos da casa). Tabela 1 – Distribuição de algumas características demográficas da amostra estudada VARIÁVEL (n=165) SEXO Feminino Masculino IDADE Menos de 2 anos 2 anos ou mais RENDA FAMILIAR (SM) Menos de 01 SM 1–3 SM 4–6 SM 7–10 SM 10 SM ou + Ignorado ESCOLARIDADE Analfabeto 1ª – 4ª série 5ª – 8ª série Ensino médio Nível superior Ignorado CONDIÇÕES DE HABITAÇÃO (Nº de pessoas por cômodo) Uma pessoa por cômodo Duas pessoas por cômodo 32 v FREQÜÊNCIA Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 % 84 81 50,9 49,1 50 115 30,3 69,7 3 80 58 12 10 2 1,8 48,5 35,2 7,3 6,1 1,2 2 36 88 36 2 1 1,2 21,8 53,3 21,8 1,2 0,6 106 41 64,2 24,8 Perfil epidemiológico de uma amostra de crianças atendidas em dermatologia sanitária VARIÁVEL (n=165) Três pessoas por cômodo + de três por cômodo CONDIÇÕES DE HABITAÇÃO (Saneamento básico) Água encanada Esgoto Água e esgoto Nenhum CONDIÇÕES DE HABITAÇÃO (Banheiro em casa) Banheiro interno Banheiro externo Sem banheiro Ignorado FREQÜÊNCIA 8 10 % 4,8 6,2 3 4 156 2 1,8 2,4 94,5 1,2 146 15 1 3 88,5 9,1 0,6 1,8 Alguns dos fatores de risco estudados estão organizados na tabela 2. Uma avaliação da higiene pessoal feita no momento da consulta mostrou que a maioria das crianças tinha boas condições de higiene. Mais de metade delas freqüentava creche ou escola, apenas 12% em turno integral. A freqüência de presença de animais domésticos na casa foi alta (66%) e também a presença de tabagistas (52%). A referência de casos semelhantes na família chama a atenção – 36% dos entrevistados responderam que alguém na casa tinha um quadro semelhante ao da criança que estava sendo examinada. A mesma situação foi verificada quando perguntamos sobre casos de alergia respiratória entre os familiares. Quanto à freqüência de alergias entre as crianças (relatada pelos pais ou responsáveis), 31,5% responderam afirmativamente. Quando perguntados sobre para quais substâncias estas crianças têm alergia, três fatores se destacaram: pêlos, poeira e insetos. Tabela 2 – Distribuição de alguns fatores de risco avaliados na amostra estudada VARIÁVEL (n=165) HIGIENE PESSOAL Boa Regular Ruim Ignorado FREQÜÊNCIA 127 30 3 5 % 77,0 18,2 1,8 3,0 Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 33 Ana Rejane Wortmann et al. VARIÁVEL (n=165) FREQÜÊNCIA EM CRECHE/ESCOLA Um turno Dois turnos Não freqüenta CASOS SEMELHANTES Sim Não Ignorado ANIMAIS DOMÉSTICOS Sim Não TABAGISMO NO DOMICÍLIO Sim Não Ignorado ALERGIA RESPIRATÓRIA NA FAMÍLIA Sim Não Ignorado ECZEMA NA FAMÍLIA Sim Não Ignorado ALERGIA RESPIRATÓRIA PESSOAL Sim Não Ignorado ECZEMA PESSOAL Sim Não Ignorado ALERGIA A SUBSTÂNCIAS Sim Não Ignorado FREQÜÊNCIA % 73 20 72 44,2 12,1 43,6 59 95 11 35,8 57,6 6,7 109 56 66,1 33,9 86 77 2 52,1 46,7 1,2 105 59 1 63,6 35,8 0,6 40 119 6 24,2 72,1 3,6 63 99 3 38,2 60,0 1,8 42 114 9 25,5 69,1 5,5 52 7 16 31,5 58,8 9,7 Na análise da distribuição do desfecho estudado – dermatoses – segundo alguns fatores de exposição (tabela 3), poucas situações apontaram para a possibilidade de associação estatística. A maioria das variáveis estudadas mostrou uma distribuição mais ou menos igualitária, com exceção da 34 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Perfil epidemiológico de uma amostra de crianças atendidas em dermatologia sanitária distribuição dos casos de escabiose, segundo o fato de ter casos semelhantes na família e os casos de dermatite atópica, segundo a presença de eczemas na família e história de alergia respiratória. Também encontramos uma freqüência maior de impetigo e dermatite atópica no outono. Testamos algumas variáveis para estimar associação e risco, considerando os diagnósticos agrupados em dermatoses infecciosas e dermatoses alérgicas, além de agrupar algumas categorias de exposição. Tabela 3 – Distribuição dos desfechos agrupados, associação estatística e estimativa de risco FATORES DE RISCO (n=127) IDADE Menor de 2 anos Maior/igual a 2 anos SEXO Masculino Feminino RENDA FAMILIAR Menos de 3 SM Mais de 3 SM ESCOLARIDADE DOS PAIS Até Ensino Fundamental Acima do Ensino Fundamental HIGIENE PESSOAL Boa Regular Ruim FREQÜENCIA EM CRECHE/ESCOLA Sim (meio–turno) Sim (turno integral) Não CASOS SEMELHANTES Sim Não Ignorado DOENÇAS DOENÇAS INFECCIOSAS ALÉRGICAS Freq. % Freq. % (p) Tendência de OR associação Intervalo de confiança (IC) 30 40 42,9 57,1 16 41 28,0 72,0 NS – – 40 30 57,1 42,9 25 32 43,9 56,1 NS – – 33 37 47,1 52,9 36 21 63,2 36,8 NS – – 51 72,9 46 80,7 NS – – 19 27,1 11 19,3 49 50 2 70,0 27,1 2,8 47 48 2 82,4 14,0 3,5 NS – – 24 25 35 34,2 15,7 50,0 28 29 24 49,1 8,8 42,1 NS – – 39 40 2 55,7 41,4 2,9 8 9 8 15,8 70,1 14,0 0,000 5,98 2,33 – 15,72 Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 35 Ana Rejane Wortmann et al. FATORES DE RISCO (n=127) CONTATO COM ANIMAIS Sim Não Ignorado TABAGISMO DOMICILIAR Sim Não Ignorado ALERGIA RESPIRATÓRIA FAMILIAR Sim Não Ignorado ECZEMA NA FAMÍLIA Sim Não Ignorado ALERGIA RESP. PESSOAL Sim Não Ignorado ALERGIA PESSOAL Sim Não Ignorado ESTAÇÃO DO ANO Outono Inverno DOENÇAS DOENÇAS INFECCIOSAS ALÉRGICAS FREQ. % FREQ. % (p) Tendência de OR associação 49 50 Zero 71,4 28,6 – 59,7 40,3 – NS – – 37 38 1 52,9 45,7 1,4 31 26 Zero 54,4 45,6 – NS – – 47 48 Zero 67,1 32,9 – 34 35 1 61,4 36,8 1,8 8 9 3 15,7 80,0 4,3 19 20 2 38,6 57,9 3,5 0.003 3.39 1.36 – 8.61 19 20 1 32,9 65,7 1,4 27 28 2 47,4 49,1 3,5 NS – – 20 21 7 28,6 61,4 10,0 16 17 9 28,0 56,1 15,8 NS – – 34 34 52,9 47,1 40 17 70,1 29,9 0.04 2.10 0,94 – 4,69 34 35 Zero Intervalo de confiança (IC) Discussão e conclusões Os resultados ficaram dentro da expectativa, os eczemas e as infestações foram as dermatoses encontradas com maior freqüência. Também não nos surpreendeu o fato da clientela atendida ter, na sua maioria, 36 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Perfil epidemiológico de uma amostra de crianças atendidas em dermatologia sanitária baixa renda e escolaridade – este é também o perfil da clientela adulta atendida no ADS. Entretanto, a maior parte das variáveis de exposição não apresentaram associações estatisticamente significativas com as dermatoses – mesmo agrupadas como doenças infecciosas e doenças alérgicas. E as duas situações em que as medidas de efeito mostraram risco aumentado para as dermatoses agrupadas foram exatamente as situações em que a convivência familiar e a hereditariedade influenciam neste resultado. As variáveis casos semelhantes na família e história de eczemas na família mostraram associação com os desfechos estudados, principalmente, em função da alta prevalência encontrada de escabiose e dermatite atópica. A variável estação do ano mostrou uma tendência de associação – com p = 0,04 – entretanto, o Intervalo de Confiança da medida de risco não confirmou este resultado. É provável que isto tenha ocorrido em função do tamanho da amostra que, sendo pequena, não teve poder estatístico suficiente para demonstrar associação e maior risco de dermatites alérgicas no inverno. Algumas situações metodológicas devem ser comentadas. A coleta dos dados sobre condições de higiene pessoal foi necessariamente subjetiva – a impressão pessoal do entrevistador. Entretanto, ao nosso ver, para significar fator de risco para dermatose, seria pouco provável que uma falta de higiene crônica não fosse percebida – mesmo que a criança tivesse tomado banho e colocado roupa limpa para a consulta. A variável número de pessoas por cômodo pode ter sido coletada de forma inadequada, pois todos os cômodos da casa foram considerados como disponíveis para acomodar as pessoas de forma adequada. Outro dado que chamou a atenção foi que muitas pessoas não identificavam as lesões pruriginosas como escabiose (sarna) e, freqüentemente, já haviam tentado tratá-las como alergia. Este dado, que não tinha sido incluído como variável a ser coletada no instrumento de inquérito, foi uma observação muito importante, pois nos aponta para a necessidade de orientar melhor as pessoas sobre os riscos dos diagnósticos e tratamentos errados. Veja a associação escabiose–impertigo. Outras crianças já tinham tido diagnóstico e indicação de tratamento, mas o mesmo não tinha sido efetivo. Outra observação que se faz necessária é que as crianças, freqüentemente, foram o caso índice para uma série de diagnósticos e tratamentos de outras pessoas na família com a mesma dermatose, principalmente os casos de escabiose. Consideramos que este estudo trouxe informações importantes para nosso trabalho na Dermatologia Pediátrica e que poderá ser útil para que outros serviços com as mesmas características possam planejar suas estratégias de atendimento. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 37 Ana Rejane Wortmann et al. Perfil epidemiológico de una muestra de niños atendidos en dermatología sanitaria Resumen: En marzo de 1999, el Ambulatório de Dermatologia Sanitária de la Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul creó un servicio de atención especializado en dermatología pediátrica. Con la intención de conocer el perfil epidemiológico de la demanda al nuevo servicio, se realizó un estudio transversal con una muestra de 163 niños midiéndose la prevalencia de las patologías y de algunos factores de riesgo asociados. Los resultados indicaron que, además de la esfera de tratamiento, las medidas preventivas deben pertenecer al proyecto asistencial. La clientela atendida, en la mayoría, era proveniente de las camadas sociales de baja renta y escolaridad, pero los niños tenían buenas condiciones de higiene y las casas tenían buenas condiciones de saneamiento. Sin embargo, casi 30% de los diagnósticos realizados fueron de escabiosis, que también se manifestaba en muchos otros familiares y personas que vivían en la misma casa. Palabras Clave: Dermatología; Pediatría; Salud pública. Epidemic profile of a sample of children assisted in sanitary dermatology Abstract: In March 1999, the Ambulatório de Dermatologia Sanitária of the Secretaria da Saúde of Rio Grande do Sul created a service of specialized service in pediatric dermatology. With the intention of knowing the epidemic profile of the demand to the new service, a traverse study was made with a sample of 163 children, measuring the prevalence of the pathologies and of some associated risk factors. The results indicated that besides the treatment sphere, the preventive measures should belong to the assistance project. The assisted clientele, in its majority, came from the social classes of low income and education, but the children had good hygiene conditions and the houses had good conditions of sanitation. However, almost 30% of the diagnoses were of scabies, that were also manifested in many other relatives and people that shared the house. Key–words: Dermatology; Pediatrics; Public health. Referências CESTARI, T. et al. Resultados de um serviço especializado de dermatologia pediátrica. An. Bras. Dermatolol., v. 67, n. 5, p. 255–260, 1992. GARCIA, M.; VAZQUEZ, R.; GONCALES, N. Dermatologia pediátrica en el Hospital General: freqüência de las enfermedades de la piel del nino en 10.000 consultas, 1990–1994. Ver Med. Hosp. Gen. Mex., v. 3, n. 58, p.124–30, jun–sept.1995. HAYDEN, G. F. Skin diseases encountered in a Pediatric Clinic. Am. J. Dis. 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Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 39 Atenção montador a página 40 é branca O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande ... O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande do Sul1 Alcindo Antônio Ferla2 Resumo: Relatórios de gestão e controle das ações e serviços de saúde na legislação nacional aparecem pela primeira vez na Lei Federal nº 8.080/90 como proposta de instrumento de acompanhamento da gestão financeira dos recursos da saúde de cada uma das esferas, particularmente aqueles repassados pelo Fundo Nacional de Saúde a estados e municípios. A gestão do SUS no Estado do Rio Grande do Sul, em 1999, optou por fortalecer essas possibilidades e facilitar as relações com os gestores municipais. Tomando como base a legislação existente sobre Relatórios de Gestão e o Decreto Estadual que instituiu a Municipalização Solidária da Saúde, regulamenta-se a utilização dos mesmos instrumentos e fluxos já estabelecidos legalmente, inclusive o Relatório de Gestão Municipal, ratificando-se que também os repasses estaduais são objeto de análise do Sistema Estadual de Acompanhamento, Controle, Avaliação e Auditoria. Isso significou que a regularidade da utilização dos recursos do Estado do Rio Grande do Sul, repassados aos municípios, além das instâncias de controle horizontal já existentes, também será acompanhada pelos componentes municipal, estadual e federal do Sistema Nacional de Auditoria e pelos conselhos municipais de saúde e câmaras municipais. Os relatórios de gestão abertos à transparência e ao controle social sobre o poder público são mecanismos que qualificam a gestão da saúde no estado. Palavras-Chave: Gestão em saúde; Sistema Único de Saúde; Rio Grande do Sul; Controle social; Financiamento da saúde; Legislação sanitária; Controle e auditoria em saúde. Introdução A construção do Sistema Único de Saúde (SUS) envolveu amplos setores sociais e estabeleceu parâmetros e desafios para a administração pública que, muitas vezes, se chocaram com a tradição administrativa centralizadora e burocrática, fortemente consolidada em nosso país durante o período da 1 Texto elaborado para subsidiar a sistemática de relatórios no acompanhamento da gestão do SUS, Seminário de Planejamento, abril de 2000. 2 Médico de Saúde Pública, doutorando em Educação, Coordenador da Assessoria Técnica ao Planejamento da Secretaria de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul, ASTEPLAN-SES/RS. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 41 Alcindo Antônio Ferla ditadura militar. Mesmo que, desde os anos 50 do século passado, a teoria administrativa já estivesse produzindo alternativa organizacional e de gerenciamento, controle e avaliação, foram as propostas de políticas sociais – gestadas pelos movimentos de resistência à ditadura – que, visando à garantia da qualidade de vida, aceleraram as mudanças concretas na gestão das políticas públicas em termos de novidade a sua organização e ao seu acompanhamento. A partir da década de 70, principalmente com origem nas lutas dos movimentos populares por saúde, a Reforma Sanitária Brasileira3, que se expressou no processo constituinte, na Constituição Federal e na legislação complementar subseqüente, postulava a democratização do acesso aos bens e serviços de saúde, mas também a democratização do acesso aos mecanismos de funcionamento do Estado e não somente aos resultados redistributivos das políticas públicas (Carvalho, 1997, p. 93). Nesse sentido, as diretrizes constitucionais de descentralização da gestão, integralidade da atenção e controle social sobre o sistema de saúde demandaram maior velocidade na produção de tecnologias de gestão para a área da saúde. Rigidez na hierarquia, distribuição estática de autoridade, precisão na definição de objetivos organizacionais, formalização precisa de procedimentos e instrumentos de controle em função da especialização das estruturas organizacionais e da distribuição do trabalho mostraram-se crenças inadequadas para o objetivo de produzir e acompanhar políticas para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, situação intimamente associada às variáveis sociopolíticas e mutantes condições de vida a que estão submetidas. Foi preciso compor estratégias e modelos capazes de responder agilmente às condições concretas e conceitos como flexibilidade, descentralização, autonomia, horizontalidade, interdisciplinaridade, transparência e controle por parte da população foram conceitos que auxiliaram na proposição das novas estratégias. A própria arquitetura institucional do Estado foi posta em cheque e as propostas que emergiram tratavam de criar instâncias e procedimentos de pactuação e cooperação entre as esferas de governo e de controle social e publicização4 do poder público. É importante 3 A Reforma Sanitária Brasileira é o processo de transformação da norma legal e do aparelho institucional que regulamenta e se responsabiliza pela proteção à saúde dos cidadãos, caracterizado pelo deslocamento de poder político à população, concretizado pela busca do direito universal à saúde e por um sistema público, de gestão estatal, para a sua execução. Esse processo foi desencadeado principalmente a partir da década de 70 e teve sustentação política e técnica nos movimentos populares e sindicais e em grupos de trabalhadores em saúde e da academia que defendiam esse ideário e o processo mais geral de democratização do Estado, o chamado Movimento de Reforma Sanitária Brasileira (Fleury Teixeira, 1989). 4 Por publicização se está definindo o processo de subordinação da lógica do Estado ao interesse público, assim entendido o interesse mais geral ou comum da sociedade. Veja-se que há um deslocamento teórico do público, contemporaneamente reduzido às estruturas, funções e ações do Estado, para um termo etimologicamente associado à expressão latina que lhe deu origem: res pública – coisa ou negócio do povo, conforme Carvalho (1997). 42 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande ... destacar que, embora apareça em quase todas as teorias sobre o Estado em que a descentralização também está presente, com perspectivas as mais diversas, no Brasil a disseminação de fóruns de participação na área da saúde se dá a partir do final da década de sessenta, ancorada na formulação teórica que aponta a crise de legitimidade das democracias liberais, na crise econômica mundial, na eclosão dos novos movimentos sociais, na orientação dos órgãos internacionais de fomento e na agenda do setor saúde brasileiro (Côrtes, 1996). Ou seja, mesmo que por vezes traduzida somente na demanda por ampliação do acesso a ações e serviços de saúde, o movimento brasileiro de reforma do setor saúde tem suporte diretamente na idéia de democratização do Estado, com controle social da sociedade. Na área da saúde, onde esse processo de mudanças aconteceu mais precocemente, diversas das estratégias desenvolvidas já têm ampla regulamentação legal, embora ainda despertem algumas resistências por parte, principalmente, da tecnoburocracia existente nas áreas de gestão e de orientação técnica das políticas específicas e nas instâncias de controle burocrático, que perderam poder com a inversão do modelo organizacional. Já são bem clássicos os estudos que, partindo inclusive da organização do conhecimento científico na área da saúde, demonstram a resistência das áreas técnicas na construção compartilhada, descentralizada e horizontal de estratégias de atenção à saúde, pautadas também por outras racionalidades, exceto a racionalidade cognitivo-instrumental que colonizou o desenvolvimento científico moderno. A resistência burocrática das áreas administrativas, traduzida na tentativa constante de subordinar as ações assistenciais aos procedimentos formais legitimados pela tradição administrativa ainda vigente, também descreve, nos estudos que identificam limites de tecnologia administrativa na saúde, o viés tecnoburocrático que compromete a plena implementação do SUS no país. Estudos têm identificado, inclusive, certa autonomia da tecnoburocracia estatal em relação à própria orientação política formulada para o aparelho de Estado (Lucchesi, 1989). É na interação com essas instâncias de gestão estatal que os fóruns de participação da população têm produzido arranjos inovadores da gestão pública. Essa possibilidade de criação é intrínseca à própria idéia de controle social, que representa desde a origem uma mediação instável entre o controle da população sobre o poder público, própria do Movimento de Reforma Sanitária, e a idéia de controle do poder público sobre a população, própria da cultura política autoritária da ditadura militar (Ferla, 1999). Reconhecedores da posição inovadora em que se encontrava a saúde durante o período de discussões dos dispositivos constitucionais, os legisladores constituintes definiram, no próprio texto da Carta Magna que define o atual sistema público de saúde brasileiro, a autonomia para que o Poder Público dispusesse sobre a regulamentação, fiscalização e controle das ações e serviços de saúde (Brasil, 1988, Art. 197), já que a efetivação das definições que estavam sendo formuladas dependeria de constituir novas tecnologias e Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 43 Alcindo Antônio Ferla de implementá-las, o que implicaria em superar o conjunto de resistências já descritas e despender mais tempo para implantar o então novo sistema de saúde. Apesar dessas resistências, é indubitável o avanço que já se observa no país na implementação dos princípios e das diretrizes constitucionais para a organização e o funcionamento do sistema público de saúde. Entre as estratégias e os instrumentos desenvolvidos para acompanhar a implantação da rede única de ações e serviços, descentralizada, hierarquizada, com garantia de ações integrais e permeável ao controle social, já estão regulamentados planos de saúde (planejamento horizontal, pactuado pelos diversos atores), relatórios de gestão (prestação de contas pública e transparência da gestão), conselhos e conferências de saúde (controle social) e diversos subsistemas de informação que permitem a qualquer cidadão acessar dados sobre a organização e o funcionamento do SUS. Muitos desses avanços institucionais, que se descolam da lógica tecnoburocrática em direção à democratização do controle institucional, são conseqüência da própria ação das instâncias de participação da população no sistema de saúde. Essas instâncias formam opinião e vontade pública e seu efeito se expressa não pela ação direta de governo, que está fora de sua esfera de atuação, mas pelo estabelecimento de parâmetros de interesse público para o governo (Carvalho, 1997). Localizar e comentar, nesse contexto, as disposições legais sobre os Relatórios de Gestão tem o duplo objetivo de demonstrar a regulamentação já existente e mostrar os mecanismos de sua eficácia, desfocando a falsa questão que pretende que as inovações sanitárias substituam o controle burocrático, sabidamente ineficaz, pela ausência de controle formal. Relatórios de Gestão e controle das ações e serviços de saúde na legislação nacional No âmbito federal, a idéia de relatórios de gestão aparece pela primeira vez na Lei Federal nº 8.080/90 como proposta de instrumento de acompanhamento da gestão financeira dos recursos da saúde de cada uma das esferas, particularmente aqueles repassados pelo Fundo Nacional de Saúde a estados e municípios: Art. 33 – Os recursos financeiros do Sistema Único de Saúde – SUS serão depositados em conta especial, em cada esfera de sua atuação, e movimentados sob a fiscalização dos respectivos conselhos de saúde. [...]. § 4º – O Ministério da Saúde acompanhará através de seu sistema de auditoria a conformidade à programação aprovada da aplicação dos recursos repassados a estados e municípios; constatada a malversação, desvio ou não aplicação dos recursos, caberá ao Ministério da Saúde aplicar as medidas previstas em lei (Legislação..., 2000). 44 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande ... Ainda no ano de 1990, a Lei Federal nº 8.142/90 designa por Relatório de Gestão o instrumento que, entre os pré-requisitos para que estados e municípios recebam recursos financeiros da União para a saúde, permite o controle da execução dos recursos em conformidade à programação das ações, conforme o referido no § 4º da Lei Federal nº 8.080/90, citado acima. Além da gestão financeira, outros conceitos citados na Lei Federal nº 8.080/90 serão incorporados na descrição do Relatório de Gestão, na medida em que esta lei condiciona as transferências financeiras e a alocação de recursos orçamentários para a saúde à existência de um Plano de Saúde em que estejam pactuadas atividades, programas e prioridades: Art. 36 – O processo de planejamento e orçamento do Sistema Único de Saúde – SUS será ascendente, do nível local até o federal, ouvidos seus órgãos deliberativos, compatibilizando-se as necessidades da política de saúde com as disponibilidades de recursos em planos de saúde dos municípios, dos estados, do Distrito Federal e da União. § 1º – Os planos de saúde serão a base das atividades e programações de cada nível de direção do Sistema Único de Saúde – SUS e seu financiamento será previsto na respectiva proposta orçamentária. § 2º – É vedada a transferência de recursos financeiros para o financiamento de ações não previstas nos planos de saúde, exceto em situações emergenciais ou de calamidade pública, na área da saúde (Ibid., 2000, grifos do autor). A Lei Federal nº 8.689/93, que dispõe sobre a extinção do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), avança um pouco mais na definição legal do Relatório de Gestão. Essa Lei distribui as responsabilidades assistenciais, o quadro de servidores, o orçamento e o patrimônio alocados na autarquia federal extinta, bem como define os mecanismos de acompanhamento e controle de toda a infra-estrutura do Inamps, que é disponibilizada, de forma descentralizada, ao SUS. Dois artigos dessa Lei são importantes para a discussão de Relatórios de Gestão, como se verá a seguir, por tratarem do Sistema Nacional de Auditoria e da apresentação dos relatórios de gestão: Art. 6º – Fica instituído no âmbito do Ministério da Saúde, o Sistema Nacional de Auditoria de que tratam o inciso XIX do art. 16 e o § 4º do art. 33 da lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. § 1º – Ao Sistema Nacional de Auditoria compete a avaliação técnicocientífica, contábil, financeira e patrimonial do Sistema Único de Saúde, que será realizada de forma descentralizada. [...]. § 4º – O Departamento de Controle, Avaliação e Auditoria será o órgão central do Sistema Nacional de Auditoria. Art. 12 – O gestor do Sistema Único de Saúde em cada esfera de governo apresentará, trimestralmente, ao conselho de saúde correspondente e em audiência pública nas câmaras de vereadores e nas assembléias Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 45 Alcindo Antônio Ferla legislativas respectivas, para análise e ampla divulgação, relatório detalhado contanto, dentre outros, dados sobre o montante e a fonte de recursos aplicados, as auditorias concluídas ou iniciadas no período, bem como sobre a oferta e produção de serviços na rede assistencial própria, contratada ou conveniada (Ibid., 2000, grifos do autor). A relação íntima do relatório de gestão com o controle e a avaliação fica estabelecida no parágrafo único do artigo 13 da mesma lei. Nesse artigo, que trata da reestruturação global do Ministério da Saúde à qual o Executivo deveria proceder para adequá-lo ao que determina a Constituição Federal e às Leis Orgânicas da Saúde, está disposto que: Art. 13 – [...]. Parágrafo Único – A reestruturação a que se refere este artigo contemplará a estruturação do Sistema Nacional de Auditoria, ora instituído, assim como suas correspondentes projeções nas Unidades da Federação, que funcionará nos termos do inciso XIX do art. 16 e do § 4º do art. 33 da Lei nº 8.080/90, de 19 de setembro de 1990, e do inciso IV do art. 4º da Lei nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990 (Ibid.). O Decreto Federal nº 1.232, de 30 de agosto de 1994, que dispõe sobre as condições e a forma de repasse regular e automático de recursos do Fundo Nacional de Saúde para os fundos de saúde estaduais, municipais e do Distrito Federal, regulamenta as condições de controle e acompanhamento da gestão: Art. 5º – O Ministério da Saúde, por intermédio dos órgãos do Sistema Nacional de Auditoria e com base nos relatórios de gestão encaminhados pelos estados, Distrito Federal e municípios, acompanhará a conformidade da aplicação dos recursos transferidos à programação dos serviços e ações constantes dos planos de saúde. Art. 9º – A União, por intermédio da direção nacional do SUS, sem prejuízo da atuação do Sistema de Controle Interno do Poder Executivo Federal, exercerá o controle finalístico global do Sistema Único de Saúde, utilizando-se, nesse sentido, dos instrumentos de coordenação de atividades e de avaliação de resultados, em âmbito nacional, previstos na Lei Orgânica da Saúde e explicitados neste Decreto. (Ibid., grifos do autor) O controle, a avaliação e a auditoria da gestão do SUS devem ser realizados pelas instâncias respectivas do Ministério da Saúde, como se pode constatar, de forma descentralizada e também pelos estados e municípios, considerando as competências estabelecidas pela Lei Federal nº 8.080/90 para essas esferas de gestão do SUS. Essa disposição foi explicitada pela Portaria do Ministro da Saúde nº 1.286, de 26 de outubro de 1993, que regulamenta a contratação de serviços pelos estados, pelo Distrito Federal e pelos municípios: 46 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande ... Art. 2º – [...]. Parágrafo Único – Na forma do disposto nos artigos 17, inciso XI, e 18, inciso X, da Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, e nos artigos 6º, § 2º, e 12, da Lei nº 8.689, de 27 de julho de 1993, o estado e o município manterão procedimentos e órgãos incumbidos do controle e da avaliação dos serviços e ações de saúde na respectiva esfera de governo, dentro da regulamentação do Sistema Nacional de Auditoria (Ibid.). Em complementação aos dispositivos já mencionados, o Decreto Federal nº 1.651, de 28 de setembro de 1995, que regulamenta o Sistema Nacional de Auditoria no SUS, descreve com mais detalhe o Relatório de Gestão, bem como os fluxos de acompanhamento e controle da gestão do SUS no país. Nesse Decreto fica explicitado o Relatório de Gestão e, em caso de convênio, acordo, ajuste ou outro instrumento congênere, a prestação de contas, como instrumento de excelência para a comprovação da aplicação de recursos transferidos no âmbito do SUS. Mais do que isso, considerando-se que também há a necessidade de descrição, na forma de prestação de contas, da utilização dos recursos próprios e do impacto das ações desenvolvidas, podese dizer que o relatório de gestão é o instrumento de acompanhamento financeiro, do funcionamento dos serviços e da eficiência, eficácia e efetividade das ações de saúde desenvolvidas no âmbito do SUS. Diz o referido Decreto acerca das informações que devem compor o Relatório de Gestão: Art. 6º – [...]. § 3º – O relatório de gestão compõe-se dos seguintes elementos: I – programação e execução física e financeira do orçamento, de projetos, de planos e de atividades; II – comprovação dos resultados alcançados quanto à execução do plano de saúde de que trata o inciso III do art. 4º da Lei nº 8142, de 1990; III – demonstração do quantitativo de recursos financeiros próprios aplicados no setor saúde, bem como das transferências recebidas de outras instâncias do SUS; IV – documentos adicionais avaliados nos órgãos colegiados de deliberação própria do SUS (Ibid.). Essa disposição é complementada no artigo 9º com uma formulação similar àquela contida no artigo 12 da Lei Federal nº 8.689/93, sobre o fluxo dos relatórios de gestão e sua abrangência: Art. 9º – A direção do SUS em cada nível de governo apresentará, trimestralmente, ao Conselho de Saúde correspondente e em audiência pública, nas Câmaras de Vereadores e nas Assembléias Legislativas respectivas, para análise e ampla divulgação, relatório detalhado contendo, dentre outros, dados sobre o montante e a fonte de recursos aplicados, as auditorias concluídas ou iniciadas no período, bem como sobre a oferta e produção de serviços na rede assistencial própria, contratada ou conveniada (Ibid.). Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 47 Alcindo Antônio Ferla Duas outras definições do Decreto Federal nº 1.651/95 esclarecem a forma de utilização do Relatório de Gestão e o constituem em um efetivo instrumento de controle da gestão no SUS, não apenas dos procedimentos administrativos relativos à execução financeira, mas de todos os aspectos operacionais, incluindo o impacto das ações de saúde. O artigo 3º desse Decreto estabelece que o Relatório de Gestão é um dos aspectos a serem analisados pelo Sistema Nacional de Auditoria (SNA) que, como se sabe, desdobra-se em todas as esferas de gestão do SUS e tem como funções: Art. 2º – O SNA exercerá sobre as ações e serviços desenvolvidos no âmbito do SUS as atividades de: I – Controle da execução, para verificar a sua conformidade com os padrões estabelecidos ou detectar situações que exijam maior aprofundamento; II – avaliação da estrutura, dos processos aplicados e dos resultados alcançados, para aferir sua adequação aos critérios e parâmetros exigidos de eficiência, eficácia e efetividade; III – auditoria de regularidade dos procedimentos praticados por pessoas naturais e jurídicas, mediante exame analítico e pericial (Ibid.). O segundo aspecto destacado no referido Decreto e que dá ao Relatório de Gestão a condição legal de instrumento de acompanhamento, de controle e de avaliação do SUS é a possibilidade de responsabilização dos gestores por irregularidades encontradas no relatório, como se poderá verificar nas citações apresentadas a seguir. Art. 3º – Para o cumprimento do disposto no artigo anterior, o SNA [Sistema Nacional de Auditoria], nos seus diferentes níveis de competência, procederá: [...]. III – ao encaminhamento de relatórios específicos aos órgãos de controle interno e externo, em caso de irregularidade sujeita a sua apreciação; ao Ministério Público, se verificada a prática de crime; e ao chefe do órgão em que tiver ocorrido a infração disciplinar, praticada por servidor público, que afete as ações e serviços de saúde. Art. 10 – Em caso de qualquer irregularidade, assegurado o direito de defesa, o órgão competente do SNA encaminhará, segundo a forma de transferência do recurso prevista no art. 6º, relatório ao respectivo Conselho de Saúde e ao DCAA [Departamento de Controle, Avaliação e Auditoria do Ministério da Saúde], sem prejuízo de outras providências previstas nas normas do estado ou Município (Ibid.). Como se vê, a legislação do SUS criou um conjunto de mecanismos de acompanhamento, controle e avaliação que são extremamente rigorosos e, principalmente, têm a avaliação concomitante de um conjunto de instâncias que permitem uma validação bastante mais eficiente do que os tradicionais mecanismos burocráticos de controles administrativos e centralizados. E o 48 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande ... relatório de gestão é um dos principais mecanismos nesse sentido, uma vez que é avaliado pelas instâncias gerais de controle administrativo interno e externo da administração pública, além do conjunto de instâncias de controle próprios da área da saúde, que inicia na instância local, onde o serviço foi prestado. Como se viu no artigo 10 do Decreto Federal nº 1.651/95, o Conselho de Saúde é uma instância de análise não somente do relatório de gestão, mas também do relatório das irregularidades nele encontradas pela instância do Sistema Nacional de Auditoria. Esse dispositivo foi colocado na legislação complementar em decorrência da diretriz constitucional da participação da população no controle do SUS. Essa diretriz tem uma tradução mais específica na Lei Federal nº 8.142/90: Art. 1º – O Sistema Único de Saúde – SUS de que trata a Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, contará, em cada esfera de governo, sem prejuízo das funções do Poder Legislativo, com as seguintes instâncias colegiadas: I – a Conferência de Saúde e II – o Conselho de Saúde. § 1º – A Conferência de Saúde reunir-se-á a cada 4 anos com a representação dos vários segmentos sociais, para avaliar a situação de saúde e propor as diretrizes para a formulação da política de saúde nos níveis correspondentes [...]. § 2º – O Conselho de Saúde, em caráter permanente e deliberativo, órgão colegiado composto por representantes do governo, prestadores de saúde, profissionais de saúde e usuários, atua na formulação de estratégias e no controle da execução da política de saúde na instância correspondente, inclusive nos aspectos econômicos e financeiros, cujas decisões serão homologadas pelo chefe do poder legalmente constituído em cada esfera de governo.[...]. § 4º – A representação dos usuários nos Conselhos de Saúde e Conferências será paritária em relação ao conjunto dos demais segmentos (Ibid.). O princípio do controle da sociedade sobre o poder público, cuja legislação foi conquistada principalmente pelos movimentos populares e sindicais, além de um importante segmento da academia e de trabalhadores em saúde, fundamenta-se na idéia de democratização e transparência na gestão pública5. Esse princípio desdobra-se em um conjunto de instrumentos de controle continuado por parte das próprias instâncias e atores do SUS, que não anulam os mecanismos e instrumentos de controle administrativo e formal sobre o poder público, mas que lhe associam formas mais diretas e contínuas de 5 No caso do Estado do Rio Grande do Sul, a Constituição Estadual assevera, quanto ao SUS, que as ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada, observada como a participação, com poder decisório, das entidades populares representativas de usuários e trabalhadores da saúde, na formulação, gestão, controle e fiscalização das políticas de saúde (Rio Grande do Sul, Art. 242, Inciso IV, 1989). Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 49 Alcindo Antônio Ferla avaliação e controle. Essas formas, que incluem indicadores concretos e institucionalizados, característicos do acompanhamento de processos organizacionais, e também fluidos e subjetivos, característicos dos fenômenos vividos pelos cidadãos, têm, justamente nessa abrangência, uma garantia de funcionamento diferenciado: é o usuário concreto, que recebe a ação em saúde, a primeira instância de controle, inclusive, da eficácia dessa ação. É esse usuário, representado nos Conselhos de Saúde e nas audiências públicas, que dá o primeiro nível de consistência e validação dos relatórios de gestão do SUS. Equivocadamente, algumas estruturas burocráticas de controle interno e externo têm ignorado esse dinâmico mecanismo de controle do SUS em nome da suposta primazia dos mecanismos burocráticos de controle. Reconhecendo a prerrogativa legal dos Conselhos e Conferências de Saúde no acompanhamento e na deliberação sobre as questões referentes ao SUS, é possível verificar mais algumas formulações sobre o tema de prestação de contas e relatórios de gestão, que reforçam o caráter institucional desse mecanismo na área da saúde. Tomando-se como exemplo o Relatório Final da 10ª Conferência Nacional de Saúde (10ª CNS), realizada em setembro de 1996, tem-se que a transparência na prestação de contas, com fortalecimento das estratégias já formalizadas legalmente, é um pleito afirmado por reiteradas vezes, inclusive ampliado para outras áreas do Poder Público. Já no primeiro capítulo do Relatório, onde estão as deliberações sobre as interfaces da saúde, cidadania e políticas públicas, temos que os conselheiros decidiram: 4. Defender um Estado público e solidário, através de: 4.1. transparência real e controle social em todas as instituições públicas federais, estaduais e municipais, com prestação de contas realizada regularmente e com cumprimento das deliberações dos fóruns que têm participação da população (Conferência..., 1996). Além de afirmar essa nova lógica de controle, o controle cidadão sobre os recursos públicos, as deliberações da 10ª CNS aprofundaram-se em questões já indicadas legalmente. A responsabilização do Sistema Nacional de Auditoria, descentralizado e acompanhado dos respectivos Conselhos de Saúde, insere-se nesse contexto. Além disso, os participantes da 10ª CNS detalharam um pouco mais o que estava definido legalmente até então em relação aos relatórios de gestão. Veja-se o que está definido como atribuições dos gestores do SUS no segundo capítulo, referente à gestão e à sua organização: 48. O Ministério da Saúde e as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde devem ter suas atribuições definidas de modo claro e objetivo, tendo como princípio o caráter público e democrático da gestão. Entre outras atribuições, os gestores do SUS devem: [...]. 50 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande ... 48.4. apresentar aos respectivos Conselhos de Saúde, trimestralmente, os Planos de Aplicação e Prestação de Contas dos Recursos da Saúde; e em audiência pública, no Poder Legislativo respectivo, cumprindo a Lei Federal nº 8.689/93. As audiências públicas devem ser antecedidas em quinze dias pelo envio de relatório padronizado contendo, entre outros: 48.4.1. o montante e a origem de todas as fontes de recursos alocados ao SUS; 48.4.2. o total e o detalhamento, com descrição qualitativa e quantitativa, das ações e metas na atenção à saúde no SUS; 48.4.3 a oferta de ações e a produção nas unidades e serviços de saúde próprios, conveniados e contratados; 48.4.4. o detalhamento dos pagamentos efetuados sob as diversas rubricas aos serviços públicos, conveniados e contratados; 48.4.5. as sindicâncias e auditorias iniciadas e concluídas no trimestre, assim como o encaminhamento dado às mesmas; 48.4.6. a discriminação dos gastos com investimentos (Ibid.). Diversas outras deliberações da 10ª CNS reforçam e fortalecem a idéia de mecanismos ágeis e continuados de acompanhamento, controle e avaliação das ações e serviços de saúde no SUS. O Relatório dessa Conferência, aliás, é de leitura obrigatória a todos aqueles que, imersos no ceticismo pela capacidade da população em controlar diretamente a execução das ações do poder público, ainda optem por defender os mecanismos burocráticos, autoritários e centralizados para controlar os recursos públicos. Mais do que as recentes e continuadas notícias da imprensa mostrando a facilidade na burla desses mecanismos burocráticos, o caráter afirmativo e propositivo das deliberações emanadas dos próprios usuários (50% dos delegados da Conferência representam usuários do SUS) demonstra a disposição e o conhecimento que já existe por parte dos Conselhos de Saúde. Conhecimento que, certamente, pode ser aprofundado com o exercício cada vez mais amplo desse controle. Esse é o princípio que norteou a definição dos novos mecanismos institucionais de controle da ação descentralizada no SUS do RS, como se verá. Relatórios de Gestão e a legislação do SUS no Rio Grande do Sul Partindo da história da construção do SUS no país e das possibilidades legais já constituídas nacionalmente, a gestão do SUS no Estado do Rio Grande do Sul (SUS/RS), iniciada em 1999, optou por fortalecer essas possibilidades e facilitar a relação com os gestores municipais. Passou-se a reconhecer que a relação com os gestores municipais é uma relação horizontal de gestores públicos, que embora pertençam a esferas de governo diferentes, compartilham a gestão do mesmo sistema de saúde: o Sistema Único de Saúde. Compartilhar responsabilidades para o desempenho da obrigação constitucional de ofertar as ações e serviços de saúde necessários a cada Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 51 Alcindo Antônio Ferla cidadão, conforme direito assegurado, significa que o Estado deve estabelecer outra forma de relação com o gestor municipal. Uma relação em que a impossibilidade eventual de cumprir requisitos burocráticos (comprovação de adimplência, regularidade fiscal etc.) é secundarizada pela necessidade de desenvolver, com cooperação técnica, financeira e operacional, ações de saúde com qualidade. Deve-se observar que isso não significa desconhecer a lei, muito ao contrário, significa observá-la, uma vez que o reconhecimento às particularidades da saúde levou os constituintes a incluir, já na constituição de 1988, a observação de que, por se tratar de questão de relevância pública, a avaliação, a regulamentação e o controle das ações e serviços de saúde deveriam ser dispostos pelo Poder Público nesses termos (Constituição Brasileira, Artigo 197), o que já foi feito reiteradamente com instrumentos e fluxos próprios, como se viu no decorrer deste texto. Por isso, na criação da Municipalização Solidária da Saúde6, a definição da transferência regular e automática aos Fundos Municipais de Saúde utiliza-se dos mecanismos já disponíveis neste âmbito: Plano de Saúde, Relatório de Gestão e o Plano de Aplicação com o compromisso do gestor municipal em operacionalizar, com as regras do SUS, as ações e serviços de saúde. Como o cuidado em saúde é continuado (nem a promoção à saúde e nem o tratamento das doenças é agendável para o tempo em que o cumprimento dos requisitos burocráticos for concluído) e implica em gasto constante (manutenção, qualificação, aquisição de insumos etc.) não é possível postergar repasse de recursos financeiros por decorrência do nível de controle previsto pela tradição burocrática. A legislação do SUS, por isso, criou os novos mecanismos, baseados no acompanhamento constante por parte do Controle Social. É preciso relembrar que essa particularidade para a área da saúde foi estabelecida pela própria Constituição Federal. No Estado do Rio Grande do Sul, a Constituição Estadual, no artigo 245, prevê que o Poder Público repasse recursos financeiros aos municípios para custeio e investimento na saúde. O Decreto Estadual nº 38.546, de 05 de junho de 1998, que dispõe sobre o Sistema Estadual de Auditoria no SUS, regulamenta para o SUS/RS as definições contidas na legislação federal, incluindo os instrumentos de controle, no caso, do Relatório de Gestão, como se poderá verificar a seguir. Art. 3º – As atividades de auditoria contábil, financeira e patrimonial e de avaliação de desempenho, qualidade e resolutividade das entidades públicas e privadas que integram o Sistema Único de Saúde do Estado se estenderão: 6 A Municipalização Solidária da Saúde caracteriza a participação da SES/RS, enquanto órgão gestor do SUS/RS, no financiamento das ações e serviços públicos de saúde e na cooperação técnica e operacional aos municípios, bem como expressa o compromisso destes com a estruturação dos sistemas locais de saúde (Decreto Estadual nº 39.582/1999, de 10 de junho de 1999). 52 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande ... I – à aplicação dos recursos estaduais repassados aos municípios, de conformidade com a legislação estadual; [...] V – às ações, métodos e instrumentos implementados pelos órgãos municipais de controle, avaliação e auditoria, atuando diretamente ou em cooperação técnica, quando configuradas situações de inexistência, insuficiência ou omissão do Sistema Municipal do SNA; VI – às prestações de contas com verificação in loco, quando configuradas situações de inexistência, insuficiência ou omissão do Sistema Municipal do SNA. § 1º – A verificação da aplicação dos recursos repassados pelo estado aos municípios, na conformidade com a programação aprovada, será feita mediante análise dos relatórios de gestão (Rio Grande do Sul, 1998, grifos do autor). Esse mesmo Decreto, contrariando legislação federal, estabelece periodicidade para os Relatórios de Gestão diversa daquela preconizada nos instrumentos legais já citados: Art. 3º – [...]. § 3º – Os municípios encaminharão, anualmente, à Secretaria Estadual da Saúde e do Meio Ambiente, o relatório de gestão aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde, acompanhado de cópia do relatório de gestão encaminhado ao Ministério da Saúde (Ibid., grifos do autor). Percebe-se a ineficácia dessa disposição, haja vista as disposições de trimestralidade reiteradas pela legislação federal, em particular da Lei Federal nº 8.689/93 e do Decreto Federal nº 1.651/95. Outra curiosidade desse Decreto Estadual é que define a periodicidade trimestral para a apresentação dos Relatórios de Gestão da Secretaria da Saúde do Estado, em disposição diferenciada ao que preconiza para os municípios. Ressalte-se que essa disposição não foi cumprida na gestão de governo que a propôs. O artigo 11 do Decreto Estadual nº 38.546/98, como se pode ver a seguir, repete o disposto no artigo 12 da Lei Federal n° 8.689/93: Art. 11 – O Secretário da Saúde e do Meio Ambiente apresentará, trimestralmente, ao Conselho Estadual de Saúde e em audiência pública na Assembléia Legislativa, para análise e ampla divulgação, relatórios detalhados contendo, dentre outros, os dados sobre o montante e a fonte de recursos aplicados, as auditorias concluídas ou iniciadas no período, bem como sobre a oferta e produção de serviços na rede assistencial própria, contratada ou conveniada (Legislação..., 2000). Com amparo na farta legislação existente sobre Relatórios de Gestão como instrumentos de controle financeiro e operacional e de avaliação do SUS, o Decreto Estadual nº 39.582, de 10 de junho de 1999, que criou a Municipalização Solidária da Saúde, estabelece esse como o mecanismo de Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 53 Alcindo Antônio Ferla acompanhamento das transferências do Fundo Estadual de Saúde para os Fundos Municipais de Saúde. Art. 4º – A transferência de que trata o artigo 1º fica condicionada à: [...] IV – apresentação trimestral de Plano de Aplicação e de Relatório de Gestão na Câmara Municipal, precedidos de aprovação pelo respectivo Conselho de Saúde, no qual conste a prestação de contas dos recursos financeiros utilizados e a contrapartida de recursos do Orçamento do Município [...]. Art. 8º – A Secretaria da Saúde e do Meio Ambiente, com base nos Relatórios de Gestão encaminhados pelos municípios, acompanhará a adequação dos recursos transferidos à programação dos serviços e ações constantes dos Planos de Saúde (Ibid., grifos do autor). Veja-se que está previsto o acompanhamento, por meio dos Relatórios de Gestão, inclusive dos recursos da contrapartida municipal. Deve ser ressaltado que os Planos Municipais de Saúde, que servem de parâmetro à avaliação dos Relatórios de Gestão e Planos de Aplicação dos recursos, devem estar disponíveis, junto à SES/RS, desde a adesão dos municípios a uma das formas de gestão previstas legalmente. A SES/RS solicita a atualização desses Planos sempre que a vigência prevista está ultrapassada e os municípios devem atualizar a versão disponível na SES/RS sempre que os mesmos tiverem qualquer modificação. De todo modo, todas as alterações nas políticas, projetos ou prioridades constantes no Plano de Saúde que, aprovadas pelos Conselhos Municipais de Saúde, adquirem status de atualizações ao Plano Municipal de Saúde, tornando esse fórum, portanto, a instância adequada de avaliação dos próprios Planos, como por exemplo, o Plano de Aplicação dos Recursos transferidos de outras esferas de governo. Tomando como base essa ampla legislação existente sobre Relatórios de Gestão e o Decreto Estadual que instituiu a Municipalização Solidária da Saúde por meio de repasses Fundo a Fundo, a Portaria da Secretária Estadual de Saúde nº 09/99, de 21 de junho de 1999, regulamenta a utilização dos mesmos instrumentos e fluxos já estabelecidos legalmente, inclusive o Relatório de Gestão Municipal como o instrumento de acompanhamento, controle e avaliação da utilização dos recursos repassados, ratificando que também os repasses estaduais são objeto de análise do Sistema Estadual de Acompanhamento, Controle, Avaliação e Auditoria. Isso significa que a regularidade da utilização dos recursos do Estado do Rio Grande do Sul, repassados aos municípios gaúchos, além das instâncias de controle horizontal já existentes (controle interno nos municípios e estados, Tribunal de Contas do Estado e Ministério Público), também serão acompanhados pelos componentes municipal, estadual e federal do Sistema Nacional de Auditoria e pelos Conselhos Municipais de Saúde e Câmaras Municipais. Diferentemente dos primeiros, onde há análises anuais, nos fluxos próprios da saúde essa análise feita pelas instâncias próprias é trimestral. Também diferenciadamente dos 54 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande ... primeiros, e sem excluir a análise in loco por suspeita de irregularidades, no fluxo próprio da saúde não é uma amostra dos procedimentos que sofre análise, mas 100% das atividades são inspecionadas trimestralmente. Vê-se, dessa forma, que há muito mais rigor no fluxo de acompanhamento e controle nos fluxos da área da saúde, e não menos regularidade legal do que naqueles das demais áreas das políticas públicas. Também como demonstração do rigor a que são submetidos os fluxos da Municipalização Solidária da Saúde e dos demais repasses financeiros da SES/RS para os Fundos Municipais de Saúde, por meio da Resolução da Comissão Intergestores Bipartite (CIB/RS) nº 80/99, de 07 de outubro de 1999, estabeleceu-se que os municípios devem preencher adequadamente o Sistema de Informações em Orçamentos Públicos de Saúde (Siops), criado pelo Ministério da Saúde por demanda do Conselho Nacional de Saúde e do Ministério Público Federal. As informações disponibilizadas nesse Sistema são acompanhadas nacionalmente pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério Público Federal, que é o órgão que pune os responsáveis pelas informações prestadas. No Rio Grande do Sul, em decorrência dessa decisão dos gestores do SUS, estão sendo estabelecidos mecanismos ágeis de participação da SES/RS nesse fluxo, garantindo assim maior consistência aos Relatórios de Gestão Municipal, que incorporaram esse sistema na formatação dos dados de execução financeira. Para padronizar as informações prestadas pelo conjunto dos municípios, a Portaria da Secretária Estadual de Saúde nº 19/99, de 10 de novembro de 1999, define a forma de apresentação do Relatório de Gestão Municipal, após ampla discussão com os próprios municípios, através de sua representação junto à CIB/RS e ao Conselho Estadual de Saúde (CES/RS). Com o mesmo respaldo legal já apresentado, mais duas outras iniciativas do Governo do Estado do Rio Grande do Sul utilizaram-se da prerrogativa do repasse Fundo a Fundo e dos mecanismos de acompanhamento e controle já estabelecidos pelo SUS, como se viu até aqui. O Decreto do Senhor Governador do Estado nº 39.870, de 14 de dezembro de 1999, estabelece que serão transferidos do Fundo Estadual de Saúde aos Fundos Municipais de Saúde, com os mecanismos próprios para esse fim, os recursos financeiros para a Política de Saúde e Saneamento Básico (Prosan). Esse Decreto foi regulamentado pela Portaria nº 26/99, de 29 de dezembro de 1999, da Senhora Secretária de Estado da Saúde. Da mesma forma, os recursos financeiros alocados no orçamento da SES/RS para projetos da Consulta Popular de 1998 foram definidos como de transferência do Fundo Estadual para os Fundos Municipais, por meio do Decreto Estadual nº 39.871, de 14 de dezembro de 1999. A regulamentação desse Decreto deu-se pela Portaria SES/RS nº 25/99, de 30 de dezembro de 1999. Como se viu, é inquestionável a regularidade legal dos instrumentos propostos para o funcionamento, para o acompanhamento, para a avaliação e para o controle do Sistema Único de Saúde. Esses mecanismos, produzidos Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 55 Alcindo Antônio Ferla pelo movimento de reordenação do sistema público de saúde, principalmente a partir da década de 70, têm origem no movimento mais amplo de democratizar o Estado, não somente nos efeitos da política pública – no caso ampliar o acesso a ações e serviços de saúde – como também de democratizar o próprio funcionamento do Estado. Embora ainda sejam, na prática, em grande medida estratégias inéditas no país, as iniciativas de implementação efetiva do SUS, desencadeadas no ano de 1999 pela Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, têm mecanismos de controle e avaliação amplamente definidos legalmente, tanto no âmbito federal quanto estadual. As questões que ainda precisam ser resolvidas passam, assim, a ser questões do âmbito das resistências tecnoburocráticas, como bem descreveram vários estudos já desenvolvidos. Para resolvê-las, entretanto, é preciso considerar que a história de construção dos mecanismos de controle social sobre o Estado vem, há quase trinta anos, lapidando seus objetivos. Não é possível, sequer legítimo, subordinar o interesse público, assim manifesto, ao argumento da tradição administrativa dos controles e à impessoalidade da responsabilidade do poder público. Mais do que nunca é imperativo que se desenvolvam ações de qualificação dos profissionais envolvidos com essas resistências, como as demais, como uma estratégia de qualificação do próprio aparelho do Estado. A insuficiência de efetividade (inefetividade) dos mecanismos burocráticos no controle administrativo do governo nos mostra que transparência e controle social sobre o poder público são os mecanismos que podem qualificar a gestão pública e que os mecanismos burocráticos já alcançaram o teto de sua eficácia. El informe de gestión como instrumento de control social en el SUS, el caso del Rio Grande do Sul Resumen: Informes de gestión y control de las acciones y servicios de salud en la legislación nacional aparecen por primera vez en la Ley Federal nº 8.080/90 como propuesta de instrumento de supervisión de la gestión financiera de los recursos de la salud de cada una de las esferas, particularmente aquellos repasados por el Fondo Nacional de Salud a estados y municipios. La gestión del SUS en el Estado del Rio Grande do Sul, en 1999, ha optado por fortalecer esas posibilidades y facilitar las relaciones con los gestores municipales. Tomando como bases la legislación existente sobre Informes de Gestión y el Decreto Estadual que instituyó la Municipalización Solidaria de la Salud, se reglamenta la utilización de los propios instrumentos y flujos ya establecidos legalmente, incluso el Informe de Gestión Municipal, ratificándose que los repasos estaduales también son objeto de análisis del Sistema Estadual de Supervisión, Control, Evaluación y Auditoría. Eso ha significado que la regularidad de la utilización de los recursos del Estado del Rio Grande do Sul, repasados a los municipios, además de las instancias de control horizontal ya existentes, también será supervisionada por los componentes municipal, estadual y 56 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 O Relatório de Gestão como instrumento de controle social no SUS, o caso do Rio Grande ... federal del Sistema Nacional de Auditoría y por los consejos municipales de salud y cámaras municipales. Los informes de gestión abiertos a la transparencia y al control social sobre el poder público son mecanismos que califican la gestión de la salud en el estado. Palabras Clave: Gestión en salud; Sistema Único de Saúde; Rio Grande do Sul; Control social; Financiamiento de la salud; Legislación sanitaria; Control y evaluación en salud . The report of administration as instrument of social control in SUS, the case of Rio Grande do Sul Abstract: Reports of management and control of health actions and services in the national law appear for the first time in the Federal Law no. 8.08/90 as a proposal of tool for guidance of the financial management of health resources of each of the fields, particularly those sent by the National Health Fund to the States and Towns. The management of SUS in the state of Rio Grande do Sul, in 1999, chose to empower those possibilities and facilitate the relationships with town managers. Having as basis the current law about Reports of Management and the State Decree that institutionalized the Local Sharing Health, it is regulated the use of those same tools and fluxes already established by law, including the Report of Town Management, confirming that also the state transferences of credit are object to analysis of the State System of Guidance, Control, Evaluation and Audition. This meant that the regularity of use of the resources of the state of Rio Grande do Sul, transferred to towns, besides the instances of horizontal control already existing, are also guided by the town, state and federal components of the National System of Audition and by the Town Health Councils and the Town Chambers. Management reports open to transparency and social control about the public power are mechanisms that qualificate the health management in the state. Key-words: Health management; Sistema Único de Saude; Rio Grande do Sul; Social control; Health financing; Sanitary law. Referências BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. CARVALHO, Antônio Ivo. Conselhos de Saúde, responsabilidade pública e cidadania: a reforma sanitária como reforma do estado. In: FLEURY, Sônia (Org.). Saúde e democracia: a luta do Cebes. São Paulo: Lemos Editorial, 1997. p. 93-112. CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, 10., 1996, Brasília Relatório Final. Brasília: Ministério da Saúde, 1996. Disponível em:<http://datasus.gov.br/cns>. CÔRTES, Soraya M. V.. Fóruns participatórios na área da saúde: teorias de Estado, participantes e modalidades de participação. Saúde em Debate, Londrina, n. 49/50, p. 73-79, dez.1995/mar.1996. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 57 Alcindo Antônio Ferla FERLA, Alcindo Antônio. Saúde Pública e Conselhos de Saúde: eqüidade em tensão permanente. Trabalho acadêmico apresentado ao Curso de Doutorado em Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1999. 12 p. FLEURY TEIXEIRA, Sônia. Reflexões teóricas sobre democracia e reforma sanitária. In: ______. Reforma Sanitária: em busca de uma teoria. São Paulo: Cortez; Rio de Janeiro: Abrasco, 1989. p. 17-46. (Pensamento Social e saúde, 3). FLEURY TEIXEIRA, Sônia; MENDONÇA, Maria Helena. Reformas Sanitárias na Itália e no Brasil: comparações. In: FLEURY TEIXEIRA, Sônia (Org.). Reforma Sanitária: em busca de uma teoria. São Paulo: Cortez; Rio de Janeiro: Abrasco, 1989. p. 193232. (Pensamento Social e saúde, 3). JAEGER, Maria Luiza et. al. Saúde de verdade e com qualidade: o desafio de transformar a legislação em prática cotidiana. In. MARQUES, J. Luiz. Rio Grande do Sul: Estado e cidadania. Porto Alegre: Palmarinca, 1999. p.39-49. LEGISLAÇÃO FEDERAL E ESTADUAL DO SUS. Porto Alegre: Secretaria da Saúde, 2000. 151 p. LUCCHESI, Geraldo. Burocracia e política de saúde: arena ou ator? In: FLEURY TEIXEIRA, Sônia (Org.). Reforma Sanitária: em busca de uma teoria. São Paulo: Cortez; Rio de Janeiro: Abrasco, 1989. p 157-180. (Pensamento Social e saúde, 3). RIBEIRO, José Mendes. Conselhos de Saúde, comissões intergestores e grupos de interesses no Sistema Único de Saúde (SUS). Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 81-92, jan./mar. 1997. RIO GRANDE DO SUL. Constituição (1989). Constituição do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS: Assembléia Legislativa, 1989. RIO GRANDE DO SUL. Decreto nr. 39.870, de 14 dezembro de 1999. Dispõe sobre o repasse de recursos da política de saneamento básico – PROSAN – do Fundo Estadual de Saúde para Fundos Municipais de Saúde e dá outras providências. Diário Oficial do Estado, Porto Alegre, RS, 15 dez. 1999. Disponível em: <http:// www.al.rs.gov/> RIO GRANDE DO SUL. Decreto nr. 38.546, de 05 de junho de 1998. Institui e regulamenta o Sistema Estadual de Auditoria,, no âmbito do Sistema Único de Saúde. Díário Oficial do Estado, 08 jun. 1998. Disponível em<:http://www.al.rs.gov/.>. 58 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Campanha de testagem anônima no Dia Mundial da Luta Contra a AIDS Campanha de testagem anônima no Dia Mundial da Luta Contra a AIDS Carmem Viegas1 Juliana Dors Tigre da Silva1 Lúcia Escobar2 Ana Lúcia Baggio2 Katia Baialardi2 Vilma Paese2 Regina Loureiro3 Resumo: O Ambulatório de Dermatologia Sanitária da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul tem aproveitado o dia 1º de dezembro – Dia Mundial da Luta Contra a AIDS – para intensificar o atendimento de seu Centro de Testagem e Aconselhamento. Para verificar o perfil da população atendida neste dia, avaliamos, além da prevalência de infecção por HIV e Sífilis, algumas variáveis demográficas e de exposição (risco). Quatro pessoas entre as 89 testadas tiveram o resultado do teste HIV positivo e quatro tiveram o teste para sífilis reagente. A análise das outras variáveis estudadas mostrou que esta Campanha anual parece atingir seus objetivos: testar uma população que não viria fazer o teste sem este motivo – pessoas jovens que, na sua maioria, consideravam-se em muito baixo risco. Apesar da baixa prevalência encontrada de infecção por HIV e Sífilis, esta Campanha é importante, pois abre a possibilidade de descobrir estas infecções precocemente e abre a oportunidade de contato com as informações e o aconselhamento relativos às Doenças Sexualmente Transmissíveis e à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Palavras-Chave: HIV; Testagem; Avaliação; Campanha de prevenção. Introdução O dia 1º de dezembro – Dia Mundial da Luta Contra a AIDS – tem-se caracterizado não só como um dia de protestos e reivindicações, mas também, como um dia privilegiado para fazer trabalhos de prevenção – uma vez que as pessoas estão mais permeáveis à causa. O Ambulatório de 1 Residente em Dermatologia Sanitária da Residência Integrada em Saúde (RIS) – Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul (SES/RS) – Ambulatório de Dermatologia Sanitária (ADS) / Escola de Saúde Pública (ESP), e-mail: [email protected] 2 Técnica responsável pelo atendimento do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA – ADS – SS/RS), e-mail: [email protected] 3 Epidemiologista do ADS – SES/RS; preceptora da RIS – SES/RS, e-mail: [email protected] Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 59 Carmem Viegas et al. Dermatologia Sanitária (ADS-SES/RS) tem aproveitado, nos últimos anos, este dia para intensificar o atendimento de seu Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), oferecendo palestras de aconselhamento sobre DST e AIDS em horários ampliados, de forma a atender até 100 pessoas em apenas um dia. Com a possibilidade atual de, ao diagnosticar precocemente a infecção por HIV, monitorar e tratar com presteza o indivíduo infectado – de forma a manter o equilíbrio imunológico e prevenir com eficiência as infecções oportunistas – vem-se incentivando o teste para quem “está na dúvida”. O CTA do ADS-SES/RS é o Centro de Testagem mais antigo do Brasil, criado em 1989, e tem uma longa experiência em aconselhamento e diagnóstico de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (DST/AIDS). A rotina de funcionamento é diária e atende a uma demanda em torno de 30 indivíduos para testar ou receber os resultados dos testes. No ano de 2000 (até julho), foram realizados 1252 testes anti-HIV no CTA do ADS, com uma prevalência de infecção de 13,9% (174 testes positivos). Entretanto, somente 95 indivíduos (54,6% dos que tiveram teste positivo) vieram receber o resultado do teste. Dos 1078 indivíduos que tiveram teste negativo, 754 (69,9%) voltaram ao ADS. Das 95 pessoas que tiveram o teste positivo e vieram saber o resultado, sessenta e nove (72,6%) eram do sexo masculino – a maioria deles tinha entre 30 e 49 anos de idade (33 – 47,8%) e 21 (30,4%) tinham menos de 29 anos. As mulheres com diagnóstico de soropositividade que retornaram para receber o resultado do teste foram 26 (27,4%) e a maioria delas – 18 (69,2%) – tinham menos de 29 anos de idade. A forma de transmissão mais freqüente para os homens foi a relação sexual heterossexual (26 indivíduos – 37,7%), seguida da relação sexual homossexual (20 – 29,9%) e de 11 indivíduos (16,0%) que eram usuários de drogas injetáveis (UDI) . Entre as mulheres, quase todas relataram terem-se contaminado por relação sexual heterossexual – sendo que a maioria (24 – 92,3%) tinha parceiro fixo e apenas uma relatou ser UDI (Rio Grande do Sul, [2001?]). No Brasil, em 1984, 71% dos casos notificados eram referentes a homens de orientação homo/bissexual. Progressivamente, observou-se a redução da participação dessa subcategoria de prevalência, que em 1999/2000 é de 16%. Essa tendência pode ser observada em todas as regiões do Brasil. O aumento de casos por via heterossexual fez-se acompanhar de uma expressiva participação das mulheres no perfil epidemiológico da doença, constatada na progressiva redução da razão de sexo (homens/mulheres) entre todas as categorias de exposição – de 24:1 (1985) para 2:1 (1999/2000). Desde o início da epidemia, o grupo etário mais atingido, em ambos os sexos, tem sido de 20 a 39 anos, perfazendo 70% do total de casos de AIDS notificados até 03/06/2000. A transmissão sangüínea do HIV em hemofílicos e em indivíduos que receberam transfusão de sangue, segmento populacional intensamente atingido no início da epidemia, vem apresentando um importante declínio ao longo da última década e meia. Essas subcategorias representavam 62,5% 60 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Campanha de testagem anônima no Dia Mundial da Luta Contra a AIDS da categoria de exposição sangüínea, em 1984, e 0,9% em 1999/2000. Em 1984, 37% dos casos de AIDS por transmissão sangüínea eram atribuídos ao compartilhamento de agulhas e seringas no uso de drogas injetáveis. Essa subcategoria, em 1999/2000, já representava 99% das ocorrências por transmissão sangüínea (Boletim Epidemiológico AIDS, 2001). A população que freqüenta o CTA rotineiramente já foi estudada em mais de uma ocasião, entretanto, a clientela específica do dia 1° de dezembro ainda não tinha o perfil conhecido. Da mesma forma, não tínhamos muita noção da efetividade dos meios de divulgação deste trabalho. Metodologia Com o objetivo de verificar o perfil da população atendida no CTA no Dia Mundial da Luta Contra a AIDS, avaliamos algumas variáveis que consideramos importantes. Além das variáveis demográficas e das prevalências de infecção por HIV e Sífilis, medimos: a freqüência de testes anteriores, o tipo de exposição (risco), o porquê da escolha deste dia para fazer o teste e como soube das atividades da Campanha no CTA do ADS. Perguntamos também a respeito do uso da camisinha, que todos sabem ser uma barreira bastante eficaz da transmissão de DST e AIDS. Entretanto, o fato destas pessoas terem vindo testar-se demonstra que provavelmente o preservativo não foi usado sistematicamente. Por isso também observamos as justificativas feitas para o uso ou não do preservativo – já que todos os indivíduos consideravam ter-se exposto a algum risco. Todas as 89 pessoas que participaram das atividades do “Dia” foram convidadas a participar da pesquisa. O consentimento foi verbal e todos dispuseram-se a responder às perguntas. Um pequeno questionário foi aplicado individualmente e com a privacidade mantida durante a coleta de sangue. Nenhum indivíduo foi identificado pelo nome – como é a rotina do CTA – todos receberam apenas uma senha. Resultados Quatro (04) pessoas, entre as 89 testadas, tiveram resultado positivo ao teste de HIV e quatro (04) pessoas tiveram resultado reagente ao teste de VDRL – nenhuma delas teve os dois testes com resultado positivo simultaneamente (Quadro 1). A distribuição das variáveis demográficas mostrou um perfil mais ou menos esperado. A distribuição por sexo ficou perfeitamente equilibrada, a maioria da população era jovem – com uma concentração maior na faixaetária de 20 – 39 anos de idade e, em termos de escolaridade, a distribuição foi razoavelmente equilibrada (Quadro 2). Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 61 Carmem Viegas et al. Quadro 1 – Resultados dos testes para infecção por HIV e sífilis VARIÁVEL (n=89) RESULTADO DO TESTE ANTI-HIV Positivo Negativo RESULTADO DO TESTE VDRL Positivo Negativo FREQÜÊNCIA PROPORÇÃO 4 85 4,5% 95,5% 4 85 4,5% 95,5% Quadro 2 – Distribuição das variáveis demográficas na população estudada VARIÁVEL (n=89) SEXO Masculino Feminino FAIXA ETÁRIA Menos de 20 anos 20 – 29 anos 30 – 39 anos 40 – 49 anos 50 anos ou mais ESCOLARIDADE Até a 4ª Série Até a 8ª Série Ensino Médio incompleto Ensino Médio completo Superior incompleto Superior completo FREQÜÊNCIA PROPORÇÃO 44 45 49,4% 50,6% 12 33 22 13 9 13,5% 37,1% 24,7% 14,6% 10,1% 20 17 12 22 12 6 22,5% 19,1% 13,5% 24,7% 13,5% 6,7% A maioria das pessoas estava fazendo o teste pela primeira vez, entretanto, 27% já tinham feito o teste antes. A grande maioria (89%) dos indivíduos testados considerou que a exposição ao vírus HIV havia sido sexual e quatro pessoas resolveram testar-se apesar de considerar que não haviam tido exposição nenhuma. A maioria também respondeu que escolheu o dia 1° de dezembro para fazer o teste porque “criou coragem por causa da campanha” ou “pela facilidade dos horários”. Dentre as pessoas que participaram da campanha, 53% souberam das atividades programadas para o dia no próprio ADS – “informados pessoalmente durante a semana anterior (29%); “porque vi os cartazes espalhados pelo ADS”; “porque havia visto a faixa colocada na frente do ADS” foram as justificativas apresentadas. Tanto a faixa quanto os 62 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Campanha de testagem anônima no Dia Mundial da Luta Contra a AIDS cartazes haviam sido confeccionados por alguns dos funcionários do ADS que participaram da campanha. Quadro 3 – Distribuição das variáveis de exposição e motivações para fazer o teste na população estudada VARIÁVEL (n=89) FREQÜÊNCIA TIPO DE EXPOSIÇÃO Sexual 79 Uso de drogas 2 Transfusão zero Acidental 2 Nenhuma 4 Outra 2 JÁ FEZ O TESTE ANTES Sim 24 Não 65 QUANTAS VEZES Nenhuma 65 Uma vez 18 Mais de uma vez 6 HÁ QUANTO TEMPO (ultima vez) Menos de 1 ano 9 Dois anos 7 Três anos 3 Quatro anos 2 Cinco anos 3 Não se aplica 65 PORQUE VEIO FAZER O TESTE HOJE Criou coragem com a campanha 25 Pela facilidade dos horários 27 Veio acompanhar alguém 9 Exposição recente 11 Por casualidade 14 Outro motivo 3 COMO SOUBE DA CAMPANHA Por outra pessoa (amigo, familiar etc.) 8 Propaganda na Imprensa 26 Faixa e cartazes no ADS 7 Informado pessoalmente no ADS 26 Veio consultar por outro motivo 8 Já havia participado em outros anos 1 Não sabia – viria mesmo fazer o teste 13 PROPORÇÃO 89,0 2,2 – 2,2 4,4 2,2 27,0% 73,0% 73,0% 20,2% 6,7% 10,0% 7,9% 3,4% 2,2% 3,4% 73,0% 28,1% 30,3% 10,1% 12,4% 15,7% 3,3% 9,0% 29,2% 7,9% 29,2% 9,0% 1,1% 14,6% Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 63 Carmem Viegas et al. Quanto ao uso de camisinha verificamos, mais uma vez, que a maioria das pessoas “não usa” (26%) ou usa “às vezes” (48%). As justificativas para fazer o teste de quem usa sempre ou de quem não usa nunca encontram-se no quadro abaixo: Quadro 4 – Justificativas apresentadas por alguns participantes do estudo à respeito do uso ou não da camisinha VARIÁVEL QUEM USA SEMPRE ... (n = 23) Camisinha arrebentou Só não usou uma vez Passou a usar depois de um “susto” Ex-marido não era confiável Marido era UDI – morreu assassinado Não confiança no último exame Tem um irmão com AIDS Desde que sabe-se infectado por HIV Como método anticoncepcional Veio fazer o teste para “liberar” o uso com o parceiro fixo Não fez comentários QUEM NÃO USA NUNCA ... (n = 23) É viúva Marido morreu recentemente de AIDS Veio fazer o teste por solicitação da clínica para usuários de drogas Teve relação com alguém que morreu de AIDS Parceira é infectada Não fez comentários FREQÜÊNCIA PROPORÇÃO 7 4 1 1 1 1 1 1 1 1 30,4% 17,4% 4,3% 4,3% 4,3% 4,3% 4,3% 4,3% 4,3% 4,3% 1 4,3% 1 1 1 4,3% 4,3% 4,3% 1 4,3% 1 18 4,3% 78,3% Como foram poucos os indivíduos com teste positivo para HIV e Sífilis, não foi possível realizar análises estatísticas para avaliação de fatores de risco. Isto aconteceu porque a amostragem foi insuficiente para testes de associação e efeito e por uma questão ética – entre tão poucos indivíduos, ficaria fácil identificar características individuais se estratificássemos a amostra. Entretanto, é possível descrever a distribuição da amostra segundo algumas características e o resultado do teste anti-HIV: 1. Dos quatro indivíduos que tiveram o teste positivo, dois eram do sexo feminino e dois do masculino. 64 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Campanha de testagem anônima no Dia Mundial da Luta Contra a AIDS 2. Dois indivíduos já tinham feito o teste antes e dois ainda não tinham feito. 3. Todos os indivíduos com teste positivo relataram exposição sexual ao vírus. 4. Três dos quatro indivíduos vieram fazer o teste no dia da campanha porque “criaram coragem por causa da campanha”. 5. Dois dos quatro indivíduos responderam que usavam camisinha sempre (um deles já conhecia sua sorologia positiva) e dois responderam que não usavam nunca. Discussão e conclusões A campanha do Dia Mundial no ADS parece ter atingido uma população que não viria fazer o teste não fosse este motivo – pessoas jovens, muitos universitários e alguns que consideravam-se de muito baixo risco. Entretanto, os resultados confirmaram o esperado – os indivíduos que tiveram resultado positivo para anti-HIV tinham exposições reconhecidas. Ainda chama a atenção a grande proporção de pessoas que fazem o teste mais de uma vez – que ao nosso ver significa ter experimentado a possibilidade de “nova exposição” – algumas pessoas até muitas vezes. Será que as pessoas pensam no teste como medida de prevenção da doença após contaminação? Apesar de saberem-se em risco, as pessoas continuam se expondo? Outra situação que chama a atenção – mas não surpreende – é a grande proporção de pessoas que usam camisinha “às vezes” (48%) e as justificativas ou as situações em que usa continuam as mesmas. Nos parece que o “parceiro fixo” continua dando “segurança” às pessoas, além de alguns relatos de uso do preservativo “até estabelecer uma relação estável” ou “quando desconfia do parceiro”. Apesar da baixa prevalência de infecção por HIV e Sífilis encontrada entre as muitas pessoas testadas no dia da campanha, se comparada com a prevalência média na rotina do CTA, consideramos que o trabalho foi válido. Além de conhecer a situação sorológica, todas estas pessoas receberam aconselhamento. Foram feitos dois diagnósticos de infecção por HIV em pessoas que nunca tinham sido testadas antes. Consideramos que pelo menos duas afirmações feitas pela maioria das pessoas participantes da campanha justificam a manutenção desta prática – 1) “criar coragem de vir fazer o teste por causa da campanha” e 2) “aproveitar a facilidade dos horários e facilidade dos acessos para conseguir testar-se”. Pode-se concluir, por conveniência, que duas condições ampliariam/facilitariam a busca pela testagem e aconselhamento em HIV/AIDS: quebrar as barreiras de vergonha/temor em fazer o teste e melhorar a acessibilidade em horários de disponibilização do teste. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 65 Carmem Viegas et al. Campaña de test anónimo en el Día Mundial de la Lucha Contra el SIDA Resumen: El Ambulatório de Dermatologia Sanitária de la Secretaria da Saúde del Rio Grande do Sul ha aprovechado el día 1º de diciembre – Día Mundial de la Lucha Contra el SIDA – para intensificar la atención en su Centro de Test y Aconsejamiento. Para verificar el perfil de la población atendida en ese día, evaluamos, además de la prevalencia de infección por VIH y sífilis, algunas variables demográficas y de exposición (riesgo). Cuatro personas entre las 89 testadas tuvieron el resultado del test VIH positivo y cuatro tuvieron el test para sífilis reagente. El análisis de otras variables estudiadas mostró que esa Campaña anual parece alcanzar sus objetivos: testar una población que no haría la prueba sin ese motivo – personas jóvenes que, en su mayoría, se consideraban de muy bajo riesgo. A pesar de la baja prevalencia encontrada de infección por VIH y sífilis, esa Campaña es importante, pues abre la posibilidad de descubrir esas infecciones precozmente, así como la oportunidad de contacto con las informaciones y el aconsejamiento relativos a las Enfermedades Sexualmente Transmisibles y a la Síndrome de la Inmunodeficiencia Adquirida. Palabras Clave: VIH; Test; Evaluación; Campaña de prevención. Campaign of anonymous testing in the world day of fight against aids Abstract: The Ambulatório de Dermatologia Sanitária (ADS) has been taking advantage of the first day of December – World Day of Fight Against AIDS – to intensify the service of the Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). To verify the profile of the population assisted in the CTA on this day, we evaluated, besides the infection prevalences for HIV and Syphilis, some demographic and exposition variables (risk). Four people among the 89 tested had the result of the test as positive HIV and four people had the test for syphilis reagent. The analysis of the other studied variables showed that this annual campaign seems to reach its objectives: to test a population that would not come to do the test without this reason – young people that, in their majority were considered in very low risk. We considered that, in spite of the low infection prevalence for HIV and Syphilis found in this population, this campaign is important because, besides the possibility to discover these infections early, all these people have the opportunity to receive information and advice on STD/AIDS. Key-words: HIV; Testing; Evaluation; Campaign of prevention. Referências RIO GRANDE DO SUL. Secretaria da Saúde. Ambulatório de Dermatologia Sanitária. Programa EpiInfo. Banco de Dados do CTA –ADS. Porto Alegre, [2001?]. BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO AIDS. Brasília: Ministério da Saúde, v. 14, n. 1, jan./ mar. 2001. 66 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Tratamento ambulatorial, com supervisão semanal, de pacientes egressos de hospital ... Tratamento ambulatorial, com supervisão semanal, de pacientes egressos de hospital especializado em tuberculose Jarbas Figueira Osório1 Pedro Dornelles Picon1 Sérgio Luiz Bassanesi1 Erecina Figueiredo1 Tania Mariza Freitas1 Dalfran Maciel1 Dolores Bender1 Yolanda Carvalho Silveira1 Ana Maria Vieira Cardoso1 Lígia Gladis Richter1 Irone Terezinha Girotto1 Paulo Picarelli Ferreira1 Resumo: No período de agosto de 1989 a maio de 1997, 86 pacientes de tuberculose egressos do Hospital Sanatório Partenon, hospital público estadual do Rio Grande do Sul, Brasil, receberam tratamento ambulatorial supervisionado semanalmente. O grupo era constituído por pacientes com sérios problemas psicossociais, com grande risco de não adesão ao tratamento após a alta hospitalar, sendo, por isso, acompanhados por equipe multidisciplinar ambulatorial. A taxa de cura foi de 79,3%, com 13,4% de abandono e 7,3% de falência. Esses resultados foram comparados aos obtidos com tratamentos auto-administrados, não supervisionados, de duas coortes de pacientes tratados ambulatorialmente numa unidade de saúde, com protocolo assistencial orientado pela Política Estadual de Controle da Tuberculose. As taxas de cura, abandono e falência foram superponíveis, indicando que a estratégia utilizada é uma alternativa satisfatória para o tratamento ambulatorial de pacientes selecionados. Palavras-Chave: Hospital Sanatório Partenon; Ambulatório hospitalar; Tuberculose pulmonar; Adesão ao tratamento. 1 Técnico do Hospital Sanatório Partenon, e-mail: [email protected] Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 67 Jarbas Figueira Osório et al. Introdução O Hospital Sanatório Partenon é um hospital público, especializado, criado para o tratamento e assistência às pessoas com tuberculose. As indicações para internação de pacientes com tuberculose são: mau estado clínico devido à tuberculose ou à outra doença associada; doença intercorrente associada que necessite assistência hospitalar; sintomas incontroláveis ambulatorialmente; efeitos adversos aos tuberculostáticos; tratamento com fármacos de reserva e/ou cirúrgico; problemas psicossociais que interfiram na adesão ao tratamento ambulatorial. Mais da metade das internações decorrem de problemas psicossociais e mau estado clínico, sendo essa última situação, muitas vezes, secundária à primeira. Em geral, são pacientes em estado grave, o que se reflete nos resultados do tratamento. Estudos do ano de 1983, no Hospital Sanatório Partenon (HSP), mostraram uma taxa de cura muito baixa, próxima de 50%, decorrente do grande número de pacientes que abandonavam o tratamento após a alta hospitalar (Picon et al., 1993). Visando aumentar a eficiência do tratamento, em 1989, foi criado o Ambulatório de Egressos do Hospital Sanatório Partenon (AEHSP) para atender aos pacientes de tuberculose que, após a alta hospitalar, necessitassem de tratamento ambulatorial e fossem considerados de alto risco para o abandono do tratamento. O objetivo desse Ambulatório era prestar assistência intensiva, com auto-administração de medicamentos e supervisão semanal. O acompanhamento seria feito por equipe multidisciplinar. Diferentemente da rotina do protocolo assistencial da Política Estadual de Controle da Tuberculose – PCT, que prevê o fornecimento de medicação para trinta dias, no AEHSP, os pacientes receberiam tuberculostáticos para somente sete dias, com a finalidade de ampliar a vigilância sobre o tratamento, diagnosticar precocemente intercorrências, detectar abandonos e ajustar a intervenção da equipe do AEHSP. Esperava-se, com isso, reduzir as taxas de abandono, melhorar a adesão ao tratamento e, conseqüentemente, elevar as taxas de cura. O objetivo do presente trabalho é relatar os resultados obtidos pelo AHESP em seus primeiros oito anos de existência e, assim, contribuir com os organismos de controle da tuberculose que, cada vez mais, têm se preocupado em definir estratégias que melhorem os resultados do tratamento (Iseman; Cohn; Sbarbaro, 1993; Dye et al., 1998). Material e método Eram encaminhados para o AEHSP os pacientes adultos que fossem considerados de alto risco de abandono do tratamento ambulatorial de rotina e que aceitassem e pudessem cumprir as normas do AEHSP. Foram considerados de alto risco de abandono do tratamento os pacientes que apresentassem pelo menos uma das seguintes condições: alcoolismo; adição 68 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Tratamento ambulatorial, com supervisão semanal, de pacientes egressos de hospital ... a drogas ilícitas; situações psiquiátricas selecionadas (esquizofrenia, distúrbio anti-social ou limítrofe, déficit de inteligência, distúrbio do humor); história de abandono de tratamento; história de tratamento irregular; opinião de familiar como tendo baixa probabilidade de adesão e estrutura familiar frágil ou inexistente. As normas do AEHSP previam que somente poderiam ser incluídos pacientes que: • tivessem motivação e possibilidade de freqüentar semanalmente o grupo; • possuíssem familiar ou responsável que se comprometesse em assumir o controle do uso da medicação em casa e que comparecesse às reuniões periódicas da equipe pelo menos uma vez ao mês; • residissem na região metropolitana de Porto Alegre, para facilitar o seu comparecimento nas datas aprazadas; • se dispusessem a ser reinternados em caso de recaída no uso de álcool ou de drogas ilícitas ou ainda se ocorresse descontinuidade no uso da medicação; • aceitassem visitas do Serviço Social; • aceitassem que seus casos pudessem ser discutidos com os demais pacientes. De agosto de 1989 a maio de 1997, 86 pacientes iniciaram tratamento no AEHSP, sendo 46 homens (53,5%) e 40 mulheres (46,5%). A idade dos pacientes variou de 15 a 67 anos, com média de 40 anos de idade. Eram analfabetos ou com primeiro grau incompleto 95,3% dos pacientes. A maioria, 86,4%, tinha renda familiar inferior a um salário mínimo ou não tinha renda fixa. Cerca de 44% não eram naturais da região metropolitana de Porto Alegre. Havia uma elevada taxa de alcoolismo (52,3%), sendo 22,5% entre as mulheres e 78,3% entre os homens. Na tabela 1, estão os motivos que determinaram a internação desses 86 pacientes, destacando-se os problemas psicossociais. Na tabela 2, pode ser observada a distribuição dos pacientes segundo sua história terapêutica anterior e o esquema terapêutico ao qual foram submetidos. Tabela 1 – Motivo da internação no Hospital Sanatório Partenon dos pacientes encaminhados para o AEHSP MOTIVO DA INTERNAÇÃO Psicossocial Mau estado geral Efeitos adversos dos tuberculostáticos Doença intercorrente Tratamento com drogas de reserva e/ou cirurgia Sintomas Outros TOTAL Nº 39 15 13 7 7 3 2 86 % 45,3 17,4 15,1 8,2 8,2 3,5 2,3 100 Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 69 Jarbas Figueira Osório et al. Tabela 2 – Distribuição dos pacientes segundo a história terapêutica e os esquemas terapêuticos utilizados História terapêutica VT+PT RC RA RF Total RHZ 15 – 11 – 26 Esquema terapêutico SHM RHM SEMZ AOTH OUTROS 4 2 – – 2 1 – 2 – 1 4 1 6 – 2 – – 25 5 5 9 3 33 5 10 TOTAL 23 4 24 35 86 VT: Virgens de Tratamento ou sem tratamento prévio quando da internação. PT: Primotratamento, por terem iniciado o uso de tuberculostáticos antes de internar. RC: Retratamento após cura. RA: Retratamento após abandono. RF: Retratamento após falência. O modelo de assistência aos pacientes do AEHSP incluía uma equipe multidisciplinar, atendimentos individuais e em grupo, medicação supervisionada com busca imediata de faltosos e envolvimento de familiar como co-responsável pela supervisão do tratamento. A equipe multidisciplinar constituía-se de médico clínico, médico psiquiatra, enfermeiro, assistente social, auxiliar de enfermagem e auxiliar social. O atendimento era semanal, em instalações amplas que permitiam a avaliação individual de cada paciente, bem como o trabalho de grupo com todos os pacientes, terapeutas e familiares sentados em círculo. Ao longo dos anos, o número máximo de pacientes que foram tratados simultaneamente foi quinze. Semanalmente, os pacientes eram pesados e recebiam atendimento individual pelo médico clínico, que coletava dados sobre a evolução clínica na última semana, que incluía: sintomas; regularidade e correção no uso da medicação; possíveis efeitos adversos dos tuberculostáticos; uso de bebidas alcoólicas, de outros tóxicos e mesmo de cigarros; relações familiares e retomada da atividade laboral. Quando possível, as informações eram confirmadas com os familiares. Ao término desse atendimento, cada paciente recebia as solicitações de exames, quando necessário, e os tuberculostáticos para mais uma semana. Na seqüência, os pacientes eram encaminhados para a atividade de grupo. Nessa abordagem, em grupo e semanal, utilizava-se a dinâmica de grupo homogêneo de auto-ajuda. Participavam dessas reuniões os pacientes, seus familiares e a equipe de profissionais. Inicialmente, os pacientes tinham um tempo para conversar livremente sobre suas inquietações a respeito da doença e do tratamento, o que os estimulava a expressar e compartilhar seus sentimentos, medos, dúvidas e experiências. Na segunda parte da reunião, 70 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Tratamento ambulatorial, com supervisão semanal, de pacientes egressos de hospital ... cada paciente fazia um relato sucinto sobre a evolução de seu tratamento, oportunidade em que a equipe técnica aproveitava para ressaltar os aspectos que considerasse importantes para o grupo, como reincidência de uso de bebidas alcoólicas e/ou a possibilidade de tratamento irregular. Esses aspectos eram discutidos abertamente com o grupo, incluindo os familiares. Todos participavam na decisão sobre a melhor conduta para o caso em questão, que podia ser mesmo a indicação de reinternação. Com vistas à prevenção de abandonos, a auxiliar ou a assistente social visitava os faltosos no dia seguinte ao não comparecimento à reunião semanal. Nessas visitas, era entregue medicação para mais sete dias e os pacientes eram aprazados para a próxima reunião semanal. Nesse trabalho, procurava-se envolver o familiar co-responsável. Se após isso o paciente continuasse faltoso, indicava-se reinternação e o mesmo era excluído do AEHSP, passando a constituir um caso de abandono de tratamento. A assistência social auxiliava os pacientes na utilização de recursos sócio-institucionais disponíveis, com o objetivo de resolução das questões concretas, tais como: encaminhamento de documentação (carteira de identidade, carteira do trabalho etc.); solicitação de benefício junto ao Instituto Nacional de Seguridade Social – INSS; retirada do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS e acesso ao seguro-desemprego ou abono anual para empregados de baixa renda – PIS e Pasep 2 – para pacientes com tuberculose e HIV positivo; encaminhamento de auxílio na área de subsistência (cesta básica) e fornecimento de vale-transporte para prevenir a ausência na reunião semanal por motivos financeiros. Os 86 pacientes foram tratados com os esquemas de fármacos antituberculose escolhidos com base na análise da história terapêutica prévia e da curva baciloscópica (Picon et al., 1980; Picon; Rizzon; Ott, 1993). Os tuberculostáticos utilizados foram: rifampicina (R); hidrazida (H); pirazinamida (Z); estreptomicina (S); etambutol (M); etionamida (E); amicacina (A); ofloxacina (O) e tiacetazona (T). Os principais esquemas administrados foram os seguintes: Esquema RHZ: 2 meses de RHZ + 4 meses de RH; Esquema SHM: 3 meses de SHM + 3 meses de HM + 6 meses de H; Esquema RHM: 3 meses de RHM + 3 meses de HM + 6 meses de H; Esquema SEMZ: 3 meses de SEMZ + 9 meses de EM; Esquema AOTH: 3 meses de AOTH + 9 meses de OTH. As altas ocorreram por cura, abandono, falência, óbito ou transferência, como a seguir descritas: Cura : pacientes que usaram os tuberculostáticos pelo tempo programado, ocorrendo, nos casos bacilíferos, melhora clínica acompanhada 2 Programa de Integração Social (PIS) e Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep) substituídos pela Constituição de 1988 em novos programas de seguridade social. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 71 Jarbas Figueira Osório et al. de negativação do escarro até o 6° mês de tratamento, permanecendo assim até o final e, nos casos abacilíferos, melhora clínico-radiológica. Abandono: pacientes que interromperam o tratamento antes do seu final, independentemente da sua situação clínica ou bacteriológica. Falência: pacientes com persistência de baciloscopia positiva no escarro no 6° mês de tratamento ou pacientes nos quais a baciloscopia voltou a positivar, por dois meses consecutivos, após negativação inicial; ambas as situações acompanhadas de piora clínico-radiológica. Óbito : pacientes que morreram antes do final do tratamento, independentemente da causa. Transferência: pacientes que, por iniciativa própria, transferiram seu tratamento para outro serviço. A análise estatística foi realizada utilizando-se o teste qui-quadrado, com correção de Yates sempre que necessário, aceitando-se um valor de p<0,05 como de significância estatística. Resultados Os resultados do tratamento dos 86 pacientes acompanhados no AEHSP, segundo o sexo, estão na tabela 3. Tabela 3 – Resultados do tratamento dos pacientes do AEHSP, de acordo com o sexo, 1989 –1997 Resultados Cura Abandono Falência Óbito Subtotal Transferência Total Mulheres Nº % 31 79,5 3 7,7 5 12,8 – 39 100 1 40 Homens Nº % 34 79,1 8 18,6 1 2,3 – 43 100 3 46 Total Nº 65 11 6 – 82 4 86 % 79,3 13,4 7,3 100 Para comparação, na tabela 4 são mostrados os resultados do tratamento de dois outros grupos de pacientes atendidos ambulatorialmente em uma Unidade de Saúde (US), que na época atendia pacientes com tuberculose, segundo o PCT. O primeiro desses grupos é composto pelos pacientes adultos que iniciaram e continuaram seu tratamento na mesma US, no período de 1989 a 1994. No segundo grupo de comparação estão os pacientes que iniciaram o uso de tuberculostáticos quando da internação no HSP e foram encaminhados, após a alta hospitalar, para continuação do tratamento naquela US, no mesmo período. 72 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Tratamento ambulatorial, com supervisão semanal, de pacientes egressos de hospital ... Tabela 4 – Resultados do tratamento de pacientes adultos com tuberculose que iniciaram seu tratamento e foram acompanhados na US e de pacientes adultos que foram acompanhados nesta US após terem recebido alta do Hospital Sanatório Partenon, 1989 a 1994 US Resultados Cura Abandono Falência Óbito Total Nº 973 143 40 29 1185 US, vindos do HSP % 82,1 12,1 3,4 2,4 100 Nº 36 7 4 2 49 % 73,5 14,3 8,1 4,1 100 Fonte: Banco de dados da US. O grupo do AEHSP, conforme pode ser visto nas tabelas 5 e 6, incluía uma alta proporção de casos de alto risco para abandono de tratamento. Tinha uma proporção de alcoolistas significativamente maior que o grupo da US (p<0.001) e uma proporção de pacientes em retratamento, especialmente de retratamento pós-abandono e pós-falência, também significativamente maior que os dois grupos, US e US vindos do HSP (p<0,001). Apesar desse perfil de mais alto risco, os pacientes do AEHSP apresentaram taxas de cura similares aos demais grupos de comparação. Tabela 5 – Percentual de alcoolistas nos grupos AEHSP, US e US vindos do HSP, de acordo com o sexo Sexo Homens Mulheres Todos AEHSP 78% 23% 52% US 35% 4% 23% US, vindos do HSP 63% 0% 54% Tabela 6 – Distribuição dos pacientes nos grupos AEHSP, US e US vindos do HSP, segundo a história terapêutica prévia História Terapêutica Sem tratamento prévio Primotratamento Retratamento pós-cura Retratamento pós-abandono Retratamento pós-falência Crônico Total AEHSP % 12,8 14,0 4,6 27,9 40,7 0 100 US % 87,5 0 9,5 2,6 0,2 0,2 100 US, vindos do HSP % 80,0 0 4,0 16,0 0 0 100 Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 73 Jarbas Figueira Osório et al. Na tabela 7, estão os resultados do tratamento dos três grupos dos pacientes em primeiro tratamento. Não ocorreram diferenças significativas nas taxas de cura, abandono, falência e óbito entre as três coortes. Tabela 7 – Distribuição dos pacientes virgens de tratamento e em primotratamento dos grupos AEHSP, US e US vindos do HSP, segundo os resultados do tratamento AEHSP US US, vindos do HSP Resultados Cura Abandono Falência Óbito Total Nº 17 4 – – 21 % 80,9 19,1 100 Nº 981 137 30 49 1316 % 82,0 11,4 2,5 4,1 100 Nº 31 4 2 2 39 % 79,5 10,3 5,1 5,1 100 Nos pacientes em retratamento pós-abandono e pós-falência (tabela 8), observou-se taxa de cura significativamente maior entre a coorte AEHSP e US (p<0001) e entre AEHSP e US, vindos do HSP (p=0,024). Tabela 8 – Distribuição dos pacientes em retratamento pós-abandono e pósfalência dos grupos AEHSP, US e US, vindos do HSP, segundo os resultados do tratamento AEHSP US US, vindos do HSP Resultados Cura Abandono Falência Óbito Total N° 45 7 5 – 57 % 78,9 12,3 8,8 100 N° 31 34 8 1 74 % 41,9 45,9 10,8 1,3 100 N° 3 3 2 – 8 % 37,5 37,5 25 100 Os resultados obtidos, de acordo com o esquema terapêutico utilizado, podem ser vistos na tabela 9. Não houve diferença significativa nas taxas de cura, abandono e falência, entre os grupos de esquemas. 74 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Tratamento ambulatorial, com supervisão semanal, de pacientes egressos de hospital ... Tabela 9 – Distribuição dos pacientes do AEHSP segundo os resultados do tratamento e o esquema terapêutico utilizado Resultados Cura Abandono Falência Óbito Total RHZ, SHM ou RHM Nº 28 6 – – 34 % 82,3 17,7 100 Esquema terapêutico SEMZ Nº 24 4 5 – 33 % 72,7 12,1 15,2 100 OUTROS Nº 13 1 1 – 15 % 86,6 6,7 6,7 100 Discussão A tuberculose permanece sendo um importante problema de saúde pública no Estado do Rio Grande do Sul, a despeito da existência de uma Política Estadual de Controle da Tuberculose implantada há várias décadas (Ott et al., 1993). Segundo dados da Equipe de Tuberculose da Secretaria da Saúde/RS, de 1988 a 1998, diagnosticou-se, aproximadamente, 76% dos bacilíferos estimados na população (além do mínimo de 70% recomendado pela OMS), mas conseguiu-se curar apenas 78% deles, menos que os 85% recomendados (WHO, 1991). Esta baixa taxa de cura deve-se, em parte, ao fato da tuberculose ser uma doença que exige o uso de fármacos por longo tempo, o que favorece a não-adesão ao tratamento. Essa não-adesão é também provocada pela alta prevalência, entre os pacientes, de características que induzem ao abandono, como o alcoolismo, a adição a drogas e uma série de outros problemas psíquicos e/ou sociais. A taxa de alcoolismo em pacientes ambulatoriais da US, no período de 1989 a 1994, foi de 23%. Em pacientes hospitalizados no Hospital Sanatório Partenon, no ano 1984, a taxa de alcoolismo foi de 62% (Picon et al., 1993), pois, para aquele hospital, são encaminhados pacientes com irregularidade de tratamento, na maioria das vezes por causa do alcoolismo. Sendo assim, esses pacientes, por serem de mais alto risco de abandono, devem receber um tratamento específico, não só quando internados, mas, principalmente, quando retornam ao ambulatório para a continuação do tratamento. Dentro desse enfoque, a experiência aqui relatada pode ser útil para auxiliar na estruturação desse tipo de assistência em outros locais. Pela análise da metodologia empregada, pode-se verificar que o atendimento oferecido no AEHSP se diferenciava daquele realizado nas unidades de saúde do PCT (Ott et al., 1993), fundamentalmente pela maior freqüência de encontros, pelo trabalho de grupo e pelo tratamento supervisionado. O Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 75 Jarbas Figueira Osório et al. trabalho da equipe, nas reuniões de grupo, faz-se pela utilização de métodos de clarificação dos sentimentos e fantasias subjacentes, permitindo aos pacientes uma melhor elaboração dos aspectos psicológicos envolvidos com a doença. Essa dinâmica cria uma identidade de grupo de características saudáveis que fortalece a motivação de cada paciente para atingir o objetivo comum do grupo, a cura da tuberculose. Além disso, propicia uma experiência de educação em saúde, em que os próprios pacientes, aos poucos, vão transpondo a linguagem técnico-científica para a sua cultura, possibilitando a assimilação dos conhecimentos necessários a respeito da doença, bem como a diminuição das fantasias mais comuns, como, por exemplo, a falsa crença de que, ao melhorarem os sintomas, não precisariam mais seguir o tratamento. Resultados do tratamento de pacientes com características semelhantes às apresentadas pelos pacientes do AEHSP já tinham sido avaliados no Hospital Sanatório Partenon, nas coortes dos anos 1979, 1980, 1982 e 1983 (Picon et al., 1993). O estudo da coorte de 1983, no final de 1984, excluindo-se dois pacientes transferidos para outro estado, mostrou que, dentre os 587 com alta hospitalar e que deveriam continuar o tratamento ambulatorialmente, 321 curaram (54,7%), 113 abandonaram (19,2%), 88 morreram (15%) e 65 continuavam em tratamento (11,1%), devido à falência ou por terem sido readmitidos após abandono. Os pacientes, naqueles anos, fizeram a primeira fase do tratamento internados no Hospital e a fase seguinte nas Unidades de Saúde, conforme o protocolo do PCT. Portanto, ao terem alta, recebiam tuberculostáticos para 30 dias e eram orientados a comparecer na Unidade de Saúde mais próxima de sua residência, para a continuidade do tratamento. Quando compareciam, recebiam assistência individual de médicos clínicos, de auxiliares de enfermagem e, em algumas unidades, de enfermeiros, mas não recebiam assistência psiquiátrica e/ou social. Após o atendimento, eram agendados a comparecer mensalmente na Unidade, mas muitos deles acabavam abandonando o tratamento ou fazendo uso irregular da medicação. Frente a essas evidências, pode-se suspeitar fortemente que o atendimento de rotina da maioria das unidades de saúde que seguiam o protocolo do PCT é inadequado para os pacientes egressos do HSP. Por sua vez, os melhores resultados obtidos no AEHSP, com 79,3% de cura, 13,4% de abandono e 7,3% de falência, decorrem do trabalho diferenciado, realizado por equipe multidisciplinar, com assistência não somente individual, como por meio de trabalho de grupo, com a participação de um familiar no controle da ingestão dos fármacos. Além disso, o fornecimento dos tuberculostáticos para somente 7 dias permitiu uma melhor avaliação da adesão ao tratamento. A comparação dos resultados do AEHSP com os obtidos com os pacientes que iniciaram o tratamento na US e US, vindos do HSP (tabelas 3 e 4) mostrou serem as taxas de cura e de abandono semelhantes. Esses dados sugerem que o trabalho da equipe do AEHSP foi adequado para tratar uma população mais doente, com uma taxa elevada de alcoolismo e, 76 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Tratamento ambulatorial, com supervisão semanal, de pacientes egressos de hospital ... principalmente, com um número maior de casos em retratamento. Isto pode ser comprovado pelos resultados da tabela 8, onde se verifica que os pacientes que estavam em retratamento após abandono e/ou falência no AEHSP apresentaram taxas de cura e de abandono significativamente maiores que os pacientes em situação semelhante, tratados na US. Embora não seja a intenção deste trabalho avaliar a eficácia deste ou daquele esquema de tuberculostáticos, mas sim a eficiência da proposta de tratamento apresentada, é necessário que sejam feitas algumas considerações a respeito do tema. Ao se analisar a tabela 2, verifica-se que 34 pacientes (41,5%) utilizaram esquemas de eficácia comprovada, como o RHZ, RHM ou SHM, restando a dúvida de que os resultados não seriam os mesmos caso os esquemas fossem outros. Sabe-se que em pacientes com problemas psicossociais semelhantes consegue-se uma taxa de cura menor, em torno de 65%, quando tratados com esquemas de “terceira-linha”, conforme demonstraram alguns relatos da literatura brasileira (Comissão de Terceira Linha do Hospital Sanatório Partenon, 1995; Seiscento, 1997). Porém, ao analisar-se os resultados da tabela 9, verifica-se que a taxa de cura foi semelhante quando se comparou os resultados obtidos com um “bom” esquema (RHZ, RHM ou SHM), com aqueles do esquema SEMZ ou mesmo de esquemas de “terceira linha”. Estas são evidências de que se pode atingir bons resultados com a utilização de esquemas de primeira ou segunda linha, desde que se consiga melhorar a adesão dos pacientes ao tratamento, pela prestação de assistência diferenciada, ressaltando a importância de fatores organizacionais. Comentários finais Os pacientes tratados no AEHSP tinham graves problemas, como baixo grau de instrução, baixa renda familiar, elevada taxa de alcoolismo e elevada taxa de casos em retratamento. Esse conjunto de problemas sinalizava um mau prognóstico em relação à adesão e ao sucesso do tratamento. Em função dos bons e significativos resultados obtidos pelo AEHSP, entendem os autores que a metodologia deve ser mantida e que sua aplicação deve ser expandida, transformando-a em uma nova rotina nas unidades de saúde convencionais, visando, principalmente, aos pacientes em retratamento após abandono ou falência. Tratamiento ambulatorial, con supervisión semanal, de pacientes egresos del hospital especializado en tuberculosis Resumen: En el período de agosto de 1989 hasta mayo de 1997, 86 pacientes de tuberculosis egresos del Hospital Sanatório Partenon, hospital público estadual del Rio Grande do Sul, Brasil, recibieron tratamiento ambulatorial supervisionado semanalmente. El grupo era constituido por pacientes con serios problemas Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 77 Jarbas Figueira Osório et al. psicosociales, con gran riesgo de no-adhesión al tratamiento tras la alta hospitalar, siendo, por eso, acompañados por una equipo multidisciplinar ambulatorial. La tasa de cura fue de 79,3%, con 13,4% de abandono y 7,3% de falencia. Esos resultados fueron comparados a los obtenidos con tratamientos autoadministrados, no supervisionados, de dos cohortes de pacientes tratados ambulatorialmente en una unidad de salud, con protocolo asistencial orientado por la Política Estadual de Control de Tuberculosis – PCT. Las tasas de cura, abandono y falencia fueron superpuestas, indicando que la estrategia utilizada es una alternativa satisfactoria para el tratamiento ambulatorial de pacientes seleccionados. Palabras Clave: Hospital Sanatório Partenon; Ambulatorio hospitalar; Tuberculosis pulmonar; Falta de cooperación del paciente. Ambulatory Treatment, with weekly supervision, of patients from a hospital specialized in tuberculosis Abstract: From August 1989 to May 1997, 86 tuberculosis patients coming from Hospital Partenon, a public hospitalof the State of Rio Grande do Sul, Brazil, underwent basic weekly treatment with supervision. The group was constituted of patients with serious psychosocial problems, with a great risk of not carrying on the treatment after they left the hospital, being therefore, guided by a multidisciplinary team of basic care. The healing rate was 79,3% with 13,4% of abandon and 7,3% of deaths. Those results were compared to the ones obtained with self-administered treatments, without supervision, of two groups of patients with basic treatment in a health unit with an attending protocol oriented by the State Politics of Tuberculosis Control – PCT. The healing, abandon and death rates were superposed, indicating that the strategy used is a satisfactory alternative to basic treatment of selected patients. Key-words: Hospital Partenon; Hospital basic treatment; Lungs tuberculosis; Treatment resistance. Referências BAYER, R.; WILKINSON, D. Directly observed therapy for tuberculosis: history of an idea. Lancet, n. 345, p. 1545-1548, 1995. CHOWDHURY, A. M. R. et al. 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Tuberculose multiressistente (TBMR): aspectos clínicolaboratoriais, epidemiológicos e terapêuticos. J. Pneumol., n. 23, p. 237-244, 1997. WHO. Forty-Fourth World Health Assembly Geneva, 6-16 May 1991: resolutions and decisions. Geneva, Switzerland, 1991. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 79 Atenção montador a página 80 é branca Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva1 Ricardo Burg Ceccim2 Resumo: O artigo transpõe uma exposição verbal realizada na XIX Conferência da Associação Latino-Americana e do Caribe de Educação em Saúde Pública, realizada em Havana, Cuba, em julho do ano de 2000. A exposição apresentava uma proposta de sistema de acompanhamento e avaliação da qualidade da educação levada a efeito pelas instituições de ensino em saúde coletiva e sua importância nos países em processo de reforma sanitária. Trata-se da aceitação da necessidade de expansão da educação em saúde coletiva para o âmbito da pós-graduação de lato sensu, mas reconhecendo os riscos da falta de acompanhamento da qualidade e a necessidade de interpor um sistema de confiança da sociedade que funcione como uma política pública de crescimento, melhoria da qualidade e compromisso social da formação em saúde coletiva para a implementação do Sistema Único de Saúde no Brasil. Palavras-Chave: Avaliação institucional; Acreditação pedagógica; Educação em saúde coletiva; Saúde pública. Apresentação No mês de julho de 2000 ocorreu em Havana – Cuba a XIX Conferência Latino-Americana e do Caribe de Educação em Saúde Pública, organizada pela Associação Latino-Americana de Educação em Saúde Pública (Alaesp) e Organização Pan-Americana da Saúde da Organização Mundial da Saúde 1 O presente documento corresponde à palestra proferida na sessão Processos Dinamizadores para o Fortalecimento das Instituições de Educação em Saúde Pública: Grupo de Trabalho Melhoramento da Qualidade, durante a XIX Conferencia de la Associación Latinoamericana y del Caribe de Educación en Salud Pública, realizada de 02 a 04 de julho de 2000 em La Habana, Cuba. A exposição verbal ocorreu em 02 de julho, sob o título Acreditação Pedagógica e Melhoria da Educação em Saúde Pública – proposta brasileira. A sessão previa o debate dos processos contínuos de melhoria da qualidade nas Instituições de Educação em Saúde Pública, a assunção do enfoque de gestão estratégica, os processos de auto-avaliação e acreditação da educação em saúde pública e uma maior vinculação com atores externos, como os outros programas de educação em saúde pública, organizações governamentais e não-governamentais e ex-alunos, entre outros. 2 Sanitarista, Doutor, Diretor da Escola de Saúde Pública do Estado do Rio Grande do Sul (ESP/RS), Professor de Educação em Saúde na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 81 Ricardo Burg Ceccim (Opas-OMS), por intermédio do Programa de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Divisão de Desenvolvimento de Sistemas e Serviços de Saúde. Entre as atividades principais da Conferência estava a organização de grupos de trabalho para discutir processos dinamizadores de mudança identificados como estratégicos para fortalecer os campos de ação das instituições de formação em saúde pública: desenvolvimento curricular e os novos paradigmas da saúde; desenvolvimento profissional e as novas competências para atuação em saúde pública; desenvolvimento educacional, a educação à distância e a educação permanente em saúde pública; desenvolvimento da ação e do compromisso intersetorial das Escolas de Saúde Pública e desenvolvimento da qualidade nas Escolas de Saúde Pública (Organización Panamericana de la Salud Pública, 2001, prelo3). Como plano de metas da XIX Conferência, as conclusões e recomendações dos grupos de trabalho constituem seus produtos centrais e funcionam como esquemas gerais de base para os programas de ação em cooperação interinstitucional. O grande tema da XIX Conferência da Alaesp foi o Desenvolvimento da Educação em Saúde Pública: Desafios para o Século XXI , buscando o fortalecimento do protagonismo das Escolas de Saúde Pública, estipulando diretrizes à educação e capacitação em saúde pública para incentivar a cooperação técnica e constituindo processos dinamizadores de mudanças dirigidos ao estímulo e à ação dessas instituições. A Escola de Saúde Pública do Estado do Rio Grande do Sul (ESP/RS), integrante do grupo brasileiro que vem discutindo um modelo para acreditação de cursos de saúde pública e programas educativos afins, foi convidada a apresentar a proposta brasileira na sessão desenvolvimento da qualidade nas Escolas de Saúde Pública entre os processos dinamizadores de mudanças. Nesta sessão, além da exposição realizada pela ESP/RS, ocorreu o relato da Associação Mexicana de Educação em Saúde Pública (Amesp), que exerce um programa de acreditação de cursos de saúde pública naquele país. A XIX Conferência contou com participantes de 56 Instituições de Educação em Saúde Pública da região das Américas. Além das instituições da Alaesp, participaram da reunião a Federação Mundial de Associações de Saúde Pública (WFPHA), a Associação Americana de Saúde Pública (APHA), a Associação de Escolas de Saúde Pública dos Estados Unidos (ASPHER) e a representação da sede central da OMS. 3 Todos os dados referidos constam do programa oficial distribuído pela Organização PanAmericana da Saúde por ocasião da preparação e realização da XIX Conferência da Alaesp. Todas estas informações, bem como a transcrição de palestras centrais, a síntese das sessões dos processos dinamizadores de mudança, o informe sobre expectativas das instituições formadoras e as conclusões ou recomendações finais são objeto da publicação Educación en Salud Pública: nuevas perspectivas para las Américas, organizado por Charles Godue, assessor regional da OMS para a Educação Médica e em Saúde Pública, obra que entra no prelo imediatamente ao final da Conferência (julho 2000), com distribuição confirmada em 2001 (Organización Panamericana de la Salud Pública, 2001, prelo). 82 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva No Brasil, a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco) congrega os programas nacionais de educação em saúde pública, significando a organização brasileira correspondente à Alaesp. Na região da América Latina e do Caribe existem associações nacionais de educação em saúde pública, além do Brasil, na Argentina (Aaesp), no México (Amesp) e na Venezuela (Avesp). Embora nem todas congregadas à Abrasco, o Brasil possui 39 instituições formadoras em saúde pública, identificadas por ocasião das convocações para o debate da acreditação pedagógica (ver anexo 1). Destas instituições formadoras, 11 são integrantes da Alaesp (ver anexo 2). Introdução A Associação Latino-Americana e do Caribe de Educação em Saúde Pública foi criada em 1974, decorrente da preocupação com a formação em saúde pública na região. Essa formação iniciou na América Latina no início do século XX, preocupada, fundamentalmente, com o enfrentamento das doenças tropicais. Em 1920 a Fundação Rockefeller ajudou a criar uma escola de saúde pública vinculada ao sistema universitário, a Universidade de São Paulo, no Brasil, e outra vinculada ao sistema de serviços de saúde, o Ministério da Saúde, no México. Em 1959, a Opas toma a iniciativa de congregar as escolas de saúde pública da região, reunindo 09 escolas em um evento realizado no México. Desta reunião, seguiram-se encontros bienais para o debate do ensino especializado em saúde pública. No ano de 1974, a reunião ocorreu em Lima, no Peru, e as escolas presentes resolveram criar a Associação Latino-Americana de Escolas de Saúde Pública, quando surgiu a sigla Alaesp. Como os programas de pós-graduação em saúde pública entravam em ascensão, principalmente pela oferta nos Departamentos de Medicina Preventiva e Social das Faculdades de Medicina da região, a Associação passou a incorporar os esforços pela pesquisa pósgraduada e pela formação de pessoal de elevada educação superior como os programas de mestrado e doutorado, posteriormente entabulados pela maioria das escolas, inclusive aquelas vinculadas aos sistemas de serviços. A mudança na participação de instituições formadoras levou à mudança do nome da entidade para Associação Latino-Americana e do Caribe de Educação em Saúde Pública, mantendo-se a sigla e mantendo-se a noção generalizante de Escolas de Saúde Pública para as diversas instituições formadoras especializadas. No Brasil, a saúde pública foi subordinada à designação mais abrangente de saúde coletiva, que contrai epidemiologia, medicina preventiva e saúde pública, assegurando a permeabilidade e transversalização das ciências sociais em saúde de um modo que caracteriza diferenciadamente o Brasil em relação ao mundo. Em 1979, foi criada, no Brasil, a Abrasco. Se em toda a região latino-americana e caribenha a educação em saúde pública Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 83 Ricardo Burg Ceccim passou a enfatizar o desenvolvimento de programas de ensino e pesquisa que respondam aos desafios construtores da reforma setorial e da intersetorialidade, no Brasil ainda se destaca a descentralização da gestão (política, financeira e administrativa), a participação social com caráter de deliberação sobre políticas, planos e relatórios de gestão e a hierarquização sem conotação de escalas de complexidade, mas organização em rede única de um sistema de serviços de resolutividade intercomplementar (atenção integral à saúde). Diferentemente dos países desenvolvidos onde a saúde pública representa o conhecimento especializado orientado pela dispersão da clínica, no Brasil a saúde coletiva está reorientando a clínica, tanto pela inserção de seu campo de saberes à clínica tradicional, quanto pelo debate profícuo da integralidade da atenção e intersetorialidade das práticas em saúde da população. Referências de partida à acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva A Saúde Coletiva representa área específica, no campo das ciências da saúde, tanto no que se refere à produção de conhecimentos e ao ordenamento de informações documentais e científico-tecnológicas, como no que se refere à formação e/ou certificação de especialistas. A superior qualificação em Saúde Coletiva ocorre, no Brasil, em programas de formação lato sensu (residência nos serviços de saúde ou cursos de especialização) e programas de formação stricto sensu (cursos de mestrado acadêmico ou profissionalizante e cursos de doutorado). Discute-se a graduação em saúde coletiva, segundo a reivindicação de que há um núcleo de saberes e práticas desta área de conhecimento que a distingue em profundidade do campo das ciências da saúde. No Brasil, os sistemas de Ciência e Tecnologia e de Aperfeiçoamento do Pessoal de Educação Superior4 nomeiam a Saúde Coletiva como grupo específico entre 10 áreas do conhecimento: medicina, enfermagem, odontologia, farmácia, nutrição, fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional, educação física e a saúde coletiva. Nesta classificação, a saúde coletiva apresenta 03 subáreas: epidemiologia, saúde pública e medicina preventiva. 4 O Brasil implementa o desenvolvimento científico e tecnológico pelo fomento à pesquisa que se faz por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), uma fundação de direito privado, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia e implementa os estudos e avaliações necessários ao desenvolvimento do ensino de pós-graduação e fomento aos estudos e atividades que contribuam para o desenvolvimento e consolidação da educação superior por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação pública, vinculada ao Ministério da Educação. Ambos os órgãos utilizam a mesma tabela/base de Áreas do Conhecimento. 84 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva A Reforma Sanitária Brasileira passou a exigir a absorção de especialistas em saúde coletiva para o planejamento, gestão e avaliação das diversas instâncias descentralizadas do Sistema Único de Saúde. No Brasil, de acordo com a Constituição Nacional, a condução setorial da saúde deve ser descentralizada para os entes federados, com comando único por esfera de governo. Além disso, os instrumentos ordenadores do Sistema Único de Saúde exigem das esferas descentralizadas o domínio de recursos conceituais e operacionais de administração e planificação em saúde, de epidemiologia e sistemas de informação e dos estudos de sociedade e políticas públicas. A condução setorial deve se dar, a rigor, de baixo para cima, das instâncias locais, distritais e municipais às instâncias regionais, estaduais e nacional, cada instância maior contribuindo à ampliação da autonomia e das competências técnicas das instâncias menores. Esse processo passou a exigir profissionais de saúde coletiva e não meros técnicos ou bons clínicos/terapeutas/cuidadores. O domínio de cada instituição de prestação de serviços requer planejamento, avaliação, resolutividade em rede intercomplementar, garantia de acesso com acolhimento em rede orgânica, vigilância à saúde e ações intersetoriais de promoção da saúde. A saúde coletiva tende a desequilibrar seu pólo predominante da pesquisa para a gestão de sistemas e/ou serviços. A maior demanda de especialistas gerou uma infinidade de cursos, programas de capacitação e subáreas de formação com as mais diversas cargas horárias, propostas curriculares e modalidades de aprovação de alunos e os mais diversos campos de experimentação. Ferreira et al. (2000, p. 74) lembram que pouco mais de 50% dos programas em funcionamento, que hoje já ultrapassam uma centena, foram estabelecidos na década de 90 do século XX. De um lado, os novos cursos/novas instituições vieram introduzir a necessária novidade e atualização de rituais, processos e interações e, conforme os autores citados, motivar a mudança das estruturas, dos cursos ou das instituições mais tradicionais; de outro lado, ainda segundo esses autores, prevalece a preocupação de acercar-se da realidade concreta do setor para justificar melhor sua existência. O crescimento da oferta de cursos e variedade da origem institucional dos mesmos coloca a qualidade desta oferta em risco. Em toda a América Latina há uma preocupação com os cursos de quintal ou de garagem, uma indústria de certificados de especialização vendidos por dinheiro e qualidade didático-pedagógica de risco, além da escolha de parâmetros curriculares discutíveis do ponto de vista do mais avançado conhecimento brasileiro em saúde coletiva. Se, ao final dos anos 90, o mundo começa a discutir em suas instâncias de debate da saúde coletiva o desenvolvimento curricular, profissional e educacional, a ação e o compromisso intersetorial, a qualidade da educação em saúde coletiva entrou em foco de maneira singularizada, isto é, tratava-se de pleitear a formação para a qualidade de uma política pública, capaz de escu- Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 85 Ricardo Burg Ceccim ta, observação e leitura das demandas sociais e competentes na sua conversão em serviços, ações, projetos e articulação de realidades. A educação em saúde coletiva e seu fortalecimento como campo de ação para a garantia da qualidade das ações e serviços de saúde individual e coletiva e seu desenvolvimento para a gestão de sistemas e serviços de saúde passou a integrar as discussões internacionais pela formulação das Funções Essenciais da Saúde Pública (Gemmel et al., 2000, p. 89-108). O Brasil não pode furtar-se de propor sistemas de avaliação desta formação específica, pois vive, no setor da saúde, o mais amplo e intenso processo de reforma setorial e do Estado na região latino-americana e caribenha. Descrição da proposta A acreditação pedagógica é uma proposta que se desdobra dos binômios sistema de avaliação e sistema de ensino; avaliação institucional e indicadores educacionais; políticas públicas e projetos pedagógicos; desenvolvimento organizacional e gestão da educação, entre outros conceitos que associam o crescimento contínuo das instituições de ensino, qualidade dos serviços educacionais, desempenho nas aprendizagens, compromisso social das instituições de ensino, produção de interações e efeitos de integração entre instituições de ensino e sociedade. A acreditação pedagógica, como um processo avaliativo de caráter institucional e de desenvolvimento da qualidade, deve ser capaz de orientar a instituição para seu autoconhecimento e o reconhecimento das suas potencialidades e desempenhos, mas sua principal justificativa está em informar e ampliar o compromisso social da instituição com a qualidade da implementação das políticas públicas afetas por seu objeto. No caso da educação em saúde coletiva, o compromisso social com a saúde da população. No Brasil, compromisso com a implementação do Sistema Único de Saúde. A acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva se propõe a levar adiante o aperfeiçoamento do ensino e o acompanhamento da qualidade pedagógica das instituições de educação em saúde coletiva e dos cursos de saúde pública e áreas afins. Visa, de um lado, privilegiar o profissional que está em formação e, de outro, o sistema de saúde onde ele irá atuar. O produto mais importante da acreditação pedagógica proposta é a mobilização pelo aperfeiçoamento educacional e o engajamento em um processo de administração coletiva da qualidade e não o selo, pontos ou notas que venha a obter. A Acreditação Pedagógica, então, estaria inscrita num processo progressivo e permanente de avaliação institucional e melhoramento da qualidade da Educação em Saúde Coletiva, fortalecendo seu compromisso social. 86 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva Objetivos estratégicos Se nos anos 70 e 80 do século passado, o Brasil precisava expandir a oferta da formação em saúde coletiva, desde os anos 90 essa formação precisa da intensificação da melhoria da qualidade formativa. Um sistema de acreditação pedagógica da educação em saúde coletiva deverá buscar: – controlar e garantir a qualidade educacional e pedagógica; – aperfeiçoar programas de formação voltados para o desenvolvimento do Sistema de Saúde; – construir elementos/indicadores/critérios de verificação das potencialidades e certificação de qualidade de cada Instituição de Educação em Saúde Coletiva; – estabelecer uma regulação compartilhada entre formadores, gestores das ações, serviços de saúde e sociedade na perspectiva da adoção do sistema de acreditação pedagógica por agências nacionais oficiais de avaliação/ pesquisa/ensino/desenvolvimento; – promover a cooperação interinstitucional em rede. Iniciativa e metodologia de construção da proposta Na conjuntura brasileira, a iniciativa de um sistema de acreditação de cursos de saúde pública surgiu na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O tema da avaliação e acompanhamento do ensino de pós-graduação lato sensu em saúde coletiva (formação de especialistas/sanitaristas) foi incluído pela Ensp/Fiocruz – Rio de Janeiro/ Brasil (Ensp/Br), na cooperação mantida com a École Nationale de la Santé Publique, de Renes/França (Ensp/Fr). A Ensp/Br, então, montou um Seminário Nacional de apresentação de uma proposta designada como Acreditação Pedagógica (termo de referência utilizado pelos consultores franceses: Accréditation pédagogique – Ensp Rio Brésil / Ensp France – Année 1999-2000 – Programme de coopération)5. A acreditação pedagógica, na França, serve à auditoria, ao acompanhamento e à certificação nacional de cursos e/ou instituições de educação em saúde pública, direção hospitalar e direção de centros de assistência médico-social (École Nationale de la Santé Publique, 1999a). Neste Seminário Nacional, foi elaborado um documento-base – Carta de Intenções – que demarcava o compromisso inicial da Ensp e de diversas instituições de educação em saúde coletiva, integrantes das ações descentralizadas da Ensp/Br para a construção de um projeto nacional de acreditação pedagógica da educação em saúde coletiva (Escola Nacional de 5 A consultoria francesa se fez representar no Brasil pelos professores Christian Chauvigné e Claire Droniou, da Ensp/Fr. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 87 Ricardo Burg Ceccim Saúde Pública, 1999). A partir daí, passam a ser organizados Seminários Regionais no país para disseminar a proposta, angariar críticas, estabelecer alianças no interesse regional, fortalecer as escolas de governo que realizam formação pósgraduada em saúde coletiva, reunir o conjunto de instituições de ensino universitário para ampliar adesões à construção de uma metodologia nacional aceitável por todos e factível na realidade brasileira. Estes Seminários ficaram acertados em um cronograma de março a outubro de 2000. No primeiro Seminário Regional, foram nomeados dois Grupos de Trabalho (GT): um GT de Articulação Política (4 instituições representadas, entre elas a ESP/RS), incumbido de contatar os órgãos de educação, de saúde, de ciência e tecnologia e de organização política do setor e um GT de Articulação Técnica (6 instituições representadas, entra elas a ESP/RS), incumbido de formular as minutas de instrumento e critérios a serem submetidas aos Seminários Regionais. Foi organizada uma visita técnica à Ensp/Fr para acompanhar processos de auditoria e certificação (3 instituições do Brasil representadas, entre elas a ESP/RS) e ampliar a apropriação do sistema utilizado como referência. Uma estratégia de rede foi montada para somar parceiros a cada Seminário Regional e foi estruturada uma oficina para ser levada ao principal evento brasileiro da área da ciência e gestão de serviços em saúde coletiva: o Congresso Brasileiro da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (a cargo do GT de Articulação Política). Na seqüência, um Seminário, com a presença da consultoria francesa para o debate dos instrumentos estruturados e das alianças conquistadas para a sustentação técnica e política da proposta, foi previsto para 06 meses após o Seminário Nacional de apresentação às Instituições de Educação em Saúde Coletiva. Tecnologia de acreditação pedagógica em saúde coletiva Os procedimentos da Acreditação podem ser catalogados em um componente político e um componente técnico, como na composição dos GT Político e Técnico, acima citados. Quanto ao componente político, falamos de avaliação interna e externa. Quanto ao componente técnico, falamos dos indicadores quantitativos e qualitativos a serem examinados. A consultoria francesa do projeto brasileiro da Acreditação sempre insistiu no reconhecimento dos componentes político e técnico no processo da acreditação pedagógica. Estarei me referindo, entretanto, ao trabalho de Leite, Tutkian e Holz (2000) para introduzir estes aspectos. As autoras caracterizam com perfeição a tecnologia metodológica da acreditação quando descrevem a avaliação para o desenvolvimento da melhoria da qualidade educacional e desenvolvimento do compromisso social das instituições de ensino. Convém ressaltar que todo sistema de avalia- 88 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva ção ou acreditação é um sistema eminentemente político, tanto do ponto de vista de sua concepção, das suas conseqüências para o ensino e da sua legitimação social, quanto pelas exigências ético-profissionais (técnico-docentes) para a sua assimilação pela equipe pedagógica e de administração educacional. O componente político envolve a auto-avaliação crítico-reflexiva, socialmente contextualizada e com participação dos professores, alunos e funcionários administrativos. Essa auto-avaliação, por si só, já deve gerar processos de desenvolvimento com protagonismo de todos os segmentos das instituições de ensino; envolve, ainda, a avaliação externa exercida por pares que, mediante a escuta das demandas da sociedade e análise da auto-avaliação, examinam desempenhos e potencialidades. O componente técnico envolve instrumentos qualitativos e quantitativos de apuração da realidade, como a coleta de dados e registros, uso de questionários e roteiros, realização de entrevistas e reuniões para produzir pareceres com sugestões e aquilatar indicadores (relação candidatos/vagas, nº de ingressantes/nº de concluintes, novos alunos/alunos totais, nº de professores/nº de alunos, evasão, bolsas, vagas ociosas, qualificação docente, títulos em acervo bibliográfico e documental, obsolescência do acervo, tempo de permanência dos alunos etc.). Na proposta francesa, que tem inspirado os grupos brasileiros, o Sistema de Acreditação Pedagógica se compõe de três instrumentos técnicos: Caderno de Encargos, Guia de Padrões e Manual de Certificação. Para fins desta exposição, opto pela identificação do Caderno de Encargos como Termo de Adesão – protocolo de compromissos entre acreditadores e acreditandos, do Guia Referencial como Padrão Referencial – guia para a ação (não deve servir a comparações desvinculadas da realidade específica e nem funcionar como parâmetro absoluto de medida) e do Manual de Certificação como Atestado de Participação – sem conotação de rankeamento da qualidade, mas atestando a participação, a adesão e o compromisso processual com o Sistema (École Nationale de la Santé Publique, 1999b). Os três instrumentos podem ser definidos: – Termo de Adesão – Contrato de responsabilidades assumido para ingressar no Sistema de Acreditação. O contrato deve expressar a pactuação entre as partes sobre o que, como e quando será passível de adequada avaliação; – Padrão Referencial – Estipulação de critérios de avaliação que abarquem o dispositivo institucional, o público da formação, o processo de formação e o controle da formação; – Atestado de Participação – Emissão de uma espécie de atestado de que o centro formador ou curso avaliado responde aos padrões referenciados e cumpre o contratado no caderno de encargos, estando engajado no processo de melhoria da qualidade (Certificação). Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 89 Ricardo Burg Ceccim Equipe/recursos de ativação do processo no Brasil Até este momento, o Projeto de Acreditação Pedagógica conta com os recursos próprios das instituições envolvidas com a sua construção (2 GT e organização dos Seminários Regionais): a Escola Nacional de Saúde Pública/Brasil; Escolas de Saúde Pública dos Estados do Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais; o Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães da Fiocruz/PE e das Universidades Federais da Paraíba, Pernambuco e Maranhão; a Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória e o Instituto Estadual de Saúde Pública do Espírito Santo/Centro de Formação em Saúde Coletiva. Estabelecimento do processo de acreditação pedagógica O processo de acreditação pedagógica, na medida em que se configura como uma política pública, não se dirige apenas para as instituições de educação em saúde coletiva. Seu produto é de interesse público e seus resultados disponibilizam à sociedade informação sobre a qualidade das instituições e cursos que se pretende freqüentar. A proposta brasileira, entretanto, até o momento, é a da adesão voluntária ao processo. O estabelecimento do processo de acreditação até agora delineado envolve: – caráter voluntário do ingresso no Sistema de Acreditação: a acreditação não deve ser imposta, devendo ser solicitada por aqueles que desejam ser acreditados; – destinação exclusiva aos programas formativos no âmbito da educação pós-graduada de lato sensu (predominantemente cursos de especialização, podendo ser considerada para cursos de aperfeiçoamento, residência e aprimoramento profissional); – incidência sobre programas de formação regulares: pelo fato de ser processual, a acreditação deve priorizar programas regulares, sustentandoos em sua própria qualificação; – não exclusão dos programas acreditados: a acreditação não deve classificar excelências, não deve rejeitar inclusões e não deve servir à comparação entre experiências, mas servir apenas à experiência avaliada; – a acreditação não deve preconizar avaliações subjetivas, seu processo deve prever, da parte postulante, o cumprimento de requisitos para ingressar no Projeto e preencher as exigências do Termo de Adesão e, da parte do acreditador, a utilização de um conjunto de critérios para o julgamento (Padrão Referencial). 90 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva Características de qualidade O perfil docente dos cursos de especialização é um aspecto importante e deve ser avaliado. O perfil pedagógico necessário aos cursos de especialização é diferente daquele necessário aos cursos stricto sensu porque os alunos são originários do serviço (da rede) e retornarão ao serviço (à rede), não se tratando de qualificação de pessoal para a docência acadêmica. Assim, a estrutura do curso/centro formador deve estar sustentada em um diálogo permanente com a rede de gestão da política e assistência de saúde. Os alunos precisam desenvolver competências para a gestão, planejamento e avaliação da política e da assistência em saúde, donde a necessidade de um guia referencial com foco nas oportunidades de aprendizagens e vivências teórico-reflexivas e não nas estruturas burocráticas ou formais ou a simples coerência interna de objetivos, planos e avaliações. Há que se considerar que a convocação ao pensamento e a oferta de vivências criativas de reflexão e alteridade se relacionam melhor com o desenvolvimento da capacidade inventiva e problematizadora. Do ponto de vista do conhecimento, não é na estrutura formal que encontramos a qualidade, mas nas suas operações, interações, desafios e oportunidades. A estrutura atual dos cursos precisa reduzir sua ênfase burocrática, flexibilizando-se com a política setorial da saúde entre as políticas públicas e pertencendo à condução de políticas sociais junto com a população e gestores de saúde representados nos Conselhos de Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS). O processo de trabalho na gestão da formação deve compatibilizar organização interna e avaliação externa (dos serviços e dos conselhos de saúde). São elementos previstos para o Padrão Referencial: – estrutura institucional; – coordenação; – projeto político-pedagógico; – programa; – recursos; – processo de auto-avaliação crítica; – pertinência ao SUS (o para que da instituição de educação em saúde coletiva); – resultados. Além desses elementos, entende-se como documentos afins: – organização formal; – funcionamento efetivo; – parcerias e relações instituição de ensino – sociedade; – coordenação pedagógica; – relação e perfil do corpo docente fixo; – relação e perfil dos docentes convidados; Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 91 Ricardo Burg Ceccim – potencial pedagógico dos docentes; – meios pedagógicos; – logística geral; – acervo bibliográfico e de documentos; – referências teóricas e metodológicas; – progressão pedagógica; – inovação pedagógica; – métodos pedagógicos; – provas escritas; – monografias e memoriais dos alunos; – relações administrativas; – gestão dos processos de desenvolvimento dos alunos; – gestão dos processos de desenvolvimento dos professores; – gestão dos processos de desenvolvimento do pessoal auxiliar e administrativo; – gestão do tempo de formação. Acumulação de força política Tratando-se a acreditação pedagógica de um sistema avaliativo institucional e de acompanhamento para o desenvolvimento e melhoria da qualidade educativa, com características de política pública e inserido na construção da gestão em saúde, entende-se como necessária a sua credibilidade junto aos órgãos de condução do setor da educação e do setor da saúde. De um lado, a legitimidade como processo capaz de avaliar e contribuir com a educação superior; de outro, a legitimidade do fortalecimento do SUS. Até o momento, delineou-se um roteiro de reuniões com a Coordenação de Projetos Especiais da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Educação Superior (Capes) do Ministério da Educação (MEC), órgão responsável pela avaliação e certificação dos Programas de Pós-Graduação no Brasil e reunião com a Coordenação Geral de Desenvolvimento de Recursos Humanos do Ministério da Saúde (MS), órgão responsável pela política de formação de pessoal para o Sistema Único de Saúde no Brasil. Também foi delineada uma reunião com a Coordenação de Desenvolvimento de Novas Práticas do Departamento de Atenção Básica à Saúde do MS, órgão responsável pela capacitação e educação permanente de pessoal de saúde para a melhoria do modelo assistencial de saúde no Brasil, com a Coordenação de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Representação Brasileira da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/Brasil) e com a Coordenação do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior da Secretaria de Ensino Superior (SESu) do MEC. Optou-se pelo informe às Câmaras Técnicas de Recursos Humanos e de Planejamento e Gestão do Conselho Nacional de Secretários de Estado 92 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva da Saúde (Conass), órgão de articulação da política setorial na esfera estadual do Sistema Único de Saúde no Brasil. Conclusões Ferreira et al. (2000, p. 81), ao examinarem as tendências da educação em saúde pública na região latino-americana e caribenha, destacam uma especificidade da contemporaneidade do ensino neste setor: o vínculo academia-serviços de saúde. Os autores ressaltam que, para as estruturas mais tradicionais, a integração ensino-serviço se limita(va) ao proveito da docência ou exclusivamente aos interesses do ensino. Essa integração passa, com a reforma sanitária, por uma infinidade de variações justificadas por demandas próprias dos serviços ou das instituições de ensino. Com a descentralização da gestão e a ampliação da participação social, as instituições de ensino passam a ser demandadas por programas educativos que se dão em função das iniciativas de promoção da saúde, ação política e formação de opinião na própria população. Um sistema de acreditação pedagógica em saúde coletiva, formulado no seio da reforma sanitária, terá o seu principal papel políticopedagógico na pertinência ao projeto de reforma, à descentralização da gestão, ao fortalecimento do controle da sociedade sobre o setor da saúde, à ação técnica e política de efetiva implantação de um sistema de saúde de relevância pública e capaz de atenção integral à saúde. Pertinência e qualidade (re)configuram a avaliação institucional de melhoria da qualidade didáticopedagógica, de melhoria da capacidade de gestão e de transparência pública para usuários e sociedade sobre os produtos e desempenhos em ensino, pesquisa, extensão e documentação em saúde coletiva no âmbito da instituição acreditada. Gemmel et al. (2000), ao cotejarem as implicações das reformas setoriais e as funções essenciais da saúde pública na sua educação, mencionam um conjunto de desafios, dentre eles a atitude ativa das Escolas de Saúde Pública em protagonizar o processo de mudança relativo aos recursos humanos do setor da saúde (em reforma), principalmente, formando/compondo quadros condutores das mudanças e lideranças das organizações de saúde. Além da formação de gerentes de serviços e/ou gestores de sistemas de saúde, as Escolas de Saúde Pública devem desenvolver programas formativos que apontem a conquista de novos conhecimentos, atitudes e habilidades relativas à melhor consecução de uma saúde pública modificada/ ampliada/renovada. Buss et al. (2000, p. 119-125) sumarizam as estratégias de desenvolvimento das Escolas de Saúde Pública. As estratégias que podem permitir uma melhor inserção das Escolas de Saúde Pública no cenário de mudanças em saúde são: – capacidade de articulação política – inserção das escolas nas decisões em saúde; Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 93 Ricardo Burg Ceccim – capacidade pedagógica e docente – preparação para a gestão e de gestores em saúde; – capacidade de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias – geração e disseminação de conhecimento; – capacidade de desenvolver a cooperação técnica – tecer redes colaborativas para objetivos comuns, ampliando parcerias e pactuações pela educação; – capacidade de gestão das escolas de saúde pública – desenvolvimento organizacional da instituição de ensino, com ampliação da autonomia didática e administrativa. O processo de acreditação pedagógica em saúde coletiva deve ser processo componente da gestão da mesma: um processo socialmente organizado e promovido por instituições com legitimidade e credibilidade técnica e política no campo da ciência e gestão em saúde coletiva. Os instrumentos da acreditação pedagógica devem ser construídos e legitimados socialmente, estando sempre sob reavaliação e revisão. A acreditação, por ser um processo contínuo, não pretende apreciações de caráter finalístico, por isso acreditandos e acreditadores estarão em auto-avaliação e avaliação externa a cada ação de exercício da condução de seu processo. Acreditación pedagógica en la educación en salud colectiva Resumen: El artículo transpone una exposición verbal realizada en la XIX Conferencia de la Asociación Latinoamericana y del Caribe de Educación en Salud Pública, realizada en La Habana, Cuba, en julio del año de 2000. La exposición presentaba una propuesta de sistema de acompañamiento y evaluación de la calidad de la educación llevada a cabo por las instituciones de enseñanza en salud colectiva y su importancia en los países en proceso de reforma sanitaria. Se trata de la aceptación de la necesidad de expansión de la educación en salud colectiva para el ámbito del postgrado de lato sensu, pero reconociendo los riesgos de la falta de acompañamiento de la calidad y la necesidad de interponer un sistema de confianza de la sociedad que funcione como una política pública de crecimiento, mejoría de la calidad y compromiso social de la formación en salud colectiva para la implementación del Sistema Único de Saúde en Brasil. Palabras Clave: Evaluación institucional; Acreditación Pedagógica; Educación en salud pública; Salud colectiva. Pedagogic Believing in the education in collective health Abstract: The article transposes a verbal exhibition held during the XIX Conference of the Latin-American and the Caribbean Association of Education in Public Health, in Havana, Cuba, in July 2000. The talk presented a proposal of a system of assistance and evaluation of the quality of the education by the teaching institutions in collective health and its importance in the countries going through the 94 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva process of a sanitary reform. It is about the acceptance of the need of an expansion of the education in collective health to the extent of the masters degree of latu sensu, but recognizing the risks of the lack of assistance of the quality and the need of interposing a system of trust of the society that works as public politics of growth, improvement of the quality and social commitment with the formation in collective health for the implementation of the Sistema Único de Saúde in Brazil. Key-words: Institutional evaluation; Pedagogic believing; Education in collective health; Public health. Referências ABRASCO. Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Disponível em: <http://www.abrasco.org.br>. ASOCIACIÓN LATINOAMERICANA Y DEL CARIBE DE EDUCACIÓN EN SALUD PÚBLICA. Disponível em: <http://www.ensap.sld.cu/alaesp>. ASOCIACIÓN LATINOAMERICANA Y DEL CARIBE DE EDUCACIÓN EN SALUD PÚBLICA (Alaesp). Año 2000. Rio de Janeiro: Alaesp, 2000. 04 p. Folder institucional da Asociación Latinoamericana y del Caribe de Educación en Salud Pública. BUSS, Paulo Marchiori et al. Estrategias innovativas para a educación em salud pública em las Américas. In: ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD PÚBLICA (OPS). Desafios para la educación en salud pública: reforma setorial e as funções essenciais de saúde pública. Washigton DC: OPS, 2000. p.109-126. CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO. Áreas de Conhecimento: tabela de áreas de conhecimento do CNPq. Disponível em:<http://www.cnpq.br/forms/areas4.htm>. Acesso em 12 dez. 2000. ÉCOLE NATIONALE DE LA SANTÉ PUBLIQUE. Accréditation pédagogique: Ensp Rio Brésil / Ensp France – Année 1999-2000 – Programme de coopération. Rennes, 1999a. ÉCOLE NATIONALE DE LA SANTÉ PUBLIQUE. Accréditation pédagogique: manual da accréditation pédagogique, 1999b. ESCOLA NACIONAL DE SAÚDE PÚBLICA. Carta de intenções. Rio de Janeiro, 1999. FERREIRA, José Luís et al. 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Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 95 Ricardo Burg Ceccim ANEXO 1 – Centros Formadores em Saúde Coletiva no Brasil a) Escolas de Saúde Pública vinculadas aos sistemas de serviço (09): – Estado do Ceará (ESP/CE); – Estado do Espírito Santo: Instituto Estadual de Saúde Pública/Centro de Formação em Saúde Coletiva (IESP – SES/RS); – Estado do Mato Grosso do Sul (ESP Dr. Jorge David Nasser/MS); – Estado do Mato Grosso (ESP/MT); – Estado de Minas Gerais (ESP/MG, ex-Esmig); – Estado de Pernambuco (ESP/PE); – Estado do Paraná (ESP/PR); – Estado do Rio Grande do Sul (ESP/RS); – Ministério da Saúde/Fundação Oswaldo Cruz (Escola Nacional de Saúde Pública/Br). b) Núcleos de Estudos em Saúde Coletiva / Saúde Pública/Saúde Coletiva e Nutrição / Interdisciplinar de Pesquisa em Saúde Coletiva (Nesc / Nesco / Nesp / Nipesc) (14): – Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães – Fiocruz – Recife/PE; – Fundação Federal Universidade do Amazonas; – Universidade Estadual de Londrina/PR; – Universidade Estadual de Maringá/PR; – Universidade Estadual de Ponta Grossa/PR; – Universidade Federal da Paraíba; – Universidade Federal de Minas Gerais; – Universidade Federal do Ceará; – Universidade Federal do Espírito Santo; – Universidade Federal do Paraná; – Universidade Federal do Piauí; – Universidade Federal do Rio Grande do Norte; – Universidade Federal do Rio Grande do Sul; – Universidade Nacional de Brasília. c) Instituto de Medicina Social / Saúde Coletiva / Faculdade de Saúde Pública (IMS / ISC / FSP) (03): – Universidade Estadual de São Paulo; – Universidade Estadual do Rio de Janeiro; – Universidade Federal da Bahia. d) Departamentos de Medicina Preventiva e Social / Saúde Pública / Saúde Coletiva / Medicina Social (10) – Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória; – Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. – Universidade Estadual de Campinas; – Universidade Estadual de São Paulo/Ribeirão Preto; – Universidade Estadual de São Paulo; – Universidade Federal de Pelotas; 96 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Acreditação pedagógica na educação em saúde coletiva – Universidade Federal de Santa Catarina; – Universidade Federal de São Paulo; – Universidade Federal do Maranhão; – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. e) Outros (02) – Programa de Desenvolvimento Gerencial de Sistemas e Serviços de Saúde / Escola de Administração / Ufrgs; – Programa de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde / Escola de Administração / FGV. ANEXO 2 – Instituições e Programas Brasileiros Filiados à Alaesp – Faculdade de Saúde Pública da Universidade Estadual de São Paulo; – Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de São Paulo; – Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade Estadual de São Paulo; – Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina; – Escola de Saúde Pública da Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul; – Escola de Saúde Pública Dr. Jorge David Nasser da Secretaria da Saúde do Estado do Mato Grosso do Sul; – Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz do Ministério da Saúde; – Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro; – Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia; – Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva e Nutrição da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais; – Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães da Fiocruz/PE. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 97 Atenção montador a página 98 é branca Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos ... Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos, interfaces e perspectivas possíveis e a estante da utopia – Parte I1 Ruth Sant’Helena da Silva2 “Separada da prática, a teoria é puro verbalismo inoperante; desvinculada da teoria, a prática é ativismo cego” (Freire, 1978. p. 135). Resumo: É feita uma análise da situação da Biblioteca da Escola de Saúde Pública – ESP/RS, no início da atual gestão. Princípios teóricos e técnico-políticos orientaram ações de gerenciamento dos recursos informacionais no setor, resultando na apresentação do projeto de Centro de Informação e Documentação em Saúde – Ceids. A concepção do Ceids se materializa, paulatinamente, mediante a explicitação de compromissos, interfaces e perspectivas, constituíndo-se no constante trabalho de controle e disseminação de informação documental em saúde. As categorias conceituais e referenciais, base dos acervos construídos ao longo do tempo, geram viabilidades de compartilhamento, qualificação profissional, estudo, pesquisa, extensão e educação continuada na ESP/RS e na Secreataria da Saúde/ SES-RS. Nossa expectativa é fomentar a discussão sobre o papel da informação em saúde no processo de formação e na aspiração de que o uso da informação seja incorporado cotidiana e permanentemente como insumo ao conhecimento e à intervenção nas ações de saúde, indispensável no ciclo de construção coletiva do conhecimento em saúde. Trata-se de um artigo-documentário com o papel de dar história e visibilidade a um processo institucional relevante e comprometido com a saúde coletiva. Palavras-Chave: Informação em saúde; Memória institucional; Escola de Saúde Pública/RS; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul; Documentação. 1 O assunto será apresentado em 2 partes: Parte I - ações desenvolvidas no biênio 1999-2000; Parte II – ações que abrangeram 2001 – 2002. 2 Sanitarista, Bibliotecária/Documentalista, com Especialização em Administração de Sistemas de Bibliotecas. Coordenadora do Centro de Informação e Documentação em Saúde – CEIDS, ESP/RS. E-mail: [email protected]. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 99 Ruth Sant’Helena da Silva Introdução A atuação profissional no âmbito da informação bibliográfica e documental em saúde pública e saúde coletiva3, além do desafio ao conhecimento e aplicação, de forma crítica, das modernas tecnologias da informação, em constante evolução e aperfeiçoamento, favorecem e instigam a uma permanente reflexão e busca de sentido transcendente às práticas técnico-instrumentais cotidianas das ações de gerenciamento dos estoques de informação. O desenvolvimento das tecnologias da informação, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial, tornou-se compulsivo pela constatação do problema conhecido como “explosão informacional”, que significa o crescimento exponencial da informação e seus registros. O fenômeno, impulsionado pela necessidade de construir e manter as dianteiras tecnológicas, o conseqüente poder político-econômico e a hegemonia entre países, intensificou-se ao longo do tempo, firmando a necessidade de um trabalho extraordinário para construir mecanismos de controle e acessibilidade a um acervo crescente de informação e conhecimento, especialmente científicotecnológico. O aparato crescente das tecnologias da informação trouxe conseqüências abrangentes e transformadoras nas sociedades modernas, surgindo expressões como era da informação e sociedade da informação. Isto porque se criou um consenso sobre a centralidade da informação como pressuposto para a base dos sistemas produtivos, especialmente relacionado ao seu valor de uso pragmático-instrumental e econômico, mas também extrapolando os limites da questão tecnológica, para novas formas de inserção dos sujeitos humanos em seus espaços sociais. A informação afirmou um status de instrumento de construção de processos de ação para a democracia, a cidadania e o desenvolvimento humano, com profunda e progressiva alteração nas formas de conhecer, interagir, compartilhar e disseminar e nas formas de construir o conhecimento. Tamanha importância confluiu para uma rica e desafiadora reflexão sobre este insumo multifacetado e incitante, a matéria-prima do trabalho desenvolvido no âmbito da chamada Ciência da Informação que, embora sem definição precisa, tem aprofundado conceitos teóricos, alguns bastante complexos, construídos especialmente nas áreas da Biblioteconomia e Documentação, Arquivologia, Museologia e Informática. 3 O uso das expressões “saúde pública” e “saúde coletiva”contextualiza-se no estudo e análise realizados por autores como Almeida Filho e Paim (1999), considerando-se “saúde pública” em sua perspectiva histórica e “saúde coletiva” como um novo “paradigma”, redefinindo as bases conceituais da epidemiologia e incorporando as ciências sociais ao debate, que se apresentam na forma de um movimento de transformação social da saúde, especialmente em processo na América Latina. 100 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos ... A tentativa de compreender as questões sobre a informação em saúde e as metodologias para seu controle e difusão têm orientado a ação prática e a proposta técnico-política para a idealização de um serviço de informação bibliográfica e documental em construção na Escola de Saúde Pública (ESP/ RS), com abrangência de alcance na Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul (SES/RS), notadamente, a implantação do projeto do Centro de Informação e Documentação em Saúde – Ceids. O artigo aqui apresentado configura-se um artigo-documentário e cumpre seu papel de informar e documentar um processo histórico. Considerando a contribuição teórico-referencial, o contexto institucional e a perspectiva do trabalho que se realiza, o gerenciamento da informação bibliográfica e documental em saúde ultrapassa a rotina da aplicação das técnicas e metodologias de controle usuais da prática profissional na área da Documentação. Transcende o imobilismo dos depósitos de documentos (necessariamente organizados de forma sistemática e técnica) para se fixar na dinâmica do fenômeno/processo da informação como produto humano cognitivo, contextualizado histórica e socialmente. Mediante elementos considerados fundamentais da informação – diálogo, linguagem e grupo – geram-se consensos sobre conteúdos, significados, viabilidades para a disseminação e construção de laços sociais e referenciais. Este compromisso ético-político do Ceids define a busca de intercâmbios, compartilhamento, maximização do uso da informação de melhor qualidade e adequação em saúde coletiva, procurando fazer sentido nos contextos de vida e ação para os seus diferentes públicos. Um pouco da história A Biblioteca da ESP/RS foi criada em 1972, inicialmente constituída pelo acervo remanescente da Biblioteca do Departamento Estadual de Saúde. Ao longo do tempo, prestou inestimável serviço de organização, manutenção e disseminação da informação bibliográfica em saúde pública e saúde coletiva, oferecendo suporte teórico-referencial aos diferentes cursos realizados pela ESP/RS. Seu público preferencial foi/é composto pelo corpo docente/discente da Escola e pelos profissionais da SES/RS. De forma ampliada, pode-se arrolar: Público Interno: • corpo funcional da SES/RS; • corpo docente/discente/pesquisadores da ESP/RS (Cursos e Programas de Residência); • gestores estaduais de serviços, regiões sanitárias, políticas públicas; • Centro de Saúde-Escola Murialdo; • pesquisadores da SES/RS. Público Externo: • gestores municipais; Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 101 Ruth Sant’Helena da Silva • conselheiros de saúde (conselhos estadual e municipais); • profissionais de saúde (especialmente quando se realizam concursos públicos na área); • demandas de outras unidades de informação (bibliotecas da área das ciências da saúde); • alunos do ensino médio em profissionalização e superior das instituições de ensino do estado; • pesquisadores da saúde coletiva; • população em geral interessada em informação, divulgação e educação em saúde. Regimentalmente, a Biblioteca da ESP/RS sempre teve a missão de atender às necessidades de informação bibliográfica em saúde pública, no âmbito da Secretaria de Estado da Saúde, sendo também instância de depósito legal de toda a produção intelectual da mesma. Em janeiro de 1999, quando assumiu a atual direção da ESP/RS, a Biblioteca apresentava uma série de problemas estruturais, como: • inexistência de acessos às modernas tecnologias de informação e comunicação (apenas uma linha telefônica de uso geral da ESP/RS permitia o acesso discado à Internet e um único computador de uso gerencial, portanto, a Biblioteca estava autocontida em sua capacidade de atendimento e interação); • precariedade absoluta de equipamentos de informática; • inadequação do programa de gerenciamento da informação documental (o uso do Sistema de Informação Bibliográfica – SIB, gerenciado pela Companhia de Processamento de Dados do Estado do Rio Grande do Sul (Procergs), era alimentado pela indexação de um só tipo de material bibliográfico – o livro, sabidamente de difícil aquisição, considerando-se seu caráter de material permanente, inviabilizando o acesso e a disseminação da informação em saúde, veiculada em outros tipos de documentos, como os periódicos, por exemplo); • espaço físico no limite da possibilidade de ampliação de recursos informacionais e da prestação de serviços de qualidade; • falta de trabalhadores especializados e presença incompatível com o bom desempenho do setor (uma bibliotecária com pedido de remoção formalizado, um auxiliar de biblioteca preparado precariamente para o trabalho e uma vaga de estagiária de Biblioteconomia em transição para outro local de estágio); • coleções bibliográficas necessitando recomposição e atualização. A análise detalhada da situação geral permitiu algumas constatações: 1º) a falta de equipamentos adequados inviabilizava a participação da Biblioteca nos seguintes sistemas cooperativos: • Sistema Brasileiro de Comutação Bibliográfica (Comut); 102 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos ... • Catálogo Coletivo Nacional de Publicações Periódicas (CCN); • Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), sistema ao qual a Biblioteca integrava como Unidade Participante. Em todos estes sistemas cooperativos, em outros períodos, a Biblioteca estivera integrada. Além do isolamento, representado pela perda dos principais acessos de compartilhamento e recuperação de estoques de informação em saúde existentes, a situação retirava, na época, a possibilidade de apresentação de projetos de melhoria às agências de fomento, considerando-se que a participação em sistemas cooperativos é pré-requisito eliminatório na avaliação e aprovação deste tipo de projeto. 2º) A situação do acervo de livros, a partir de um estudo de obsolescência da coleção, está indicada no quadro abaixo: Quadro 1 – Situação do acervo Data de Publicação Anterior a década de 60 Década de 60 Década de 70 Década de 80 Década de 90 até 03/99 Total Quantidade de Registros 127 211 1761 2265 1343 5707 % 2,22 3,70 30,85 39,70 23,53 100,00 Fonte: Fichário de Registros da Biblioteca da ESP/RS Ressalte-se que, na área da saúde pública/saúde coletiva, a atualização do acervo tem uma evolução diferenciada, considerando o critério de inovação, tomado como crítico na maioria das ciências da saúde. Em saúde pública/saúde coletiva, vale o valor do conteúdo da informação, sua evolução histórica e aplicabilidade, conferido mediante parâmetros diversos, como pertinência, criticidade e vanguardas4. De outra parte, as ciências da saúde são bem estruturadas em seus sistemas de informação documental. A produção na área é intensa e bem organizada, do ponto de vista de acesso, circulação e editoração. Verificou-se que o último processo de aquisição de livros ocorreu em 1996 e, que dos 237 títulos arrolados, 117 (49,37%) foram doações anexadas ao acervo. 4 O acervo especializado em saúde pública/saúde coletiva, além das ciências da saúde, incorpora a área das ciências sociais e humanidades, como epistemologia, meio ambiente, antropologia, sociologia, história, educação etc. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 103 Ruth Sant’Helena da Silva 3º) a análise da coleção de títulos de periódicos revelou a seguinte situação: total de títulos: 316 formas de aquisição: doações – 82,6% permutas – 6,4% assinaturas – 12% total de títulos assinados: 38 Quadro 2 – Assinaturas de periódicos Período Década de 70 Década de 80 Década de 90 Assinaturas mantidas 38 33 5 % 100,00 86,85 13,15 Assinaturas canceladas 0 5 33 % 0 13,15 86,85 Fonte: Fichário de Registro de periódicos da ESP No mesmo expediente indicado para compra de livros, em 1996, havia solicitação de assinatura de 29 títulos de periódicos nacionais e internacionais. Não houve atendimento do pedido. O contexto relatado serviu de estímulo e desafio à concepção da proposta inovadora do Ceids, especialmente respaldada na afirmação da ESP/ RS como um centro de formação e desenvolvimento na área da saúde para atuação no Sistema Único de Saúde (SUS). Acreditou-se na perspectiva de reversão do quadro setorial, tendo como ação motivadora, além do apoio da nova gestão, o compromisso profissional com a socialização e democratização da informação, do saber e do conhecimento em saúde pública/saúde coletiva. O Projeto Ceids- ESP/RS Como expressão da política pública de saúde, a atual gestão da SES/RS constituiu a ESP/RS como o órgão responsável pela política de educação no SUS necessária para o desempenho dos trabalhadores que nele atuam. O desenvolvimento técnico-científico e político da saúde coletiva, em execução na SES/RS, expressa a consonância com os princípios e diretrizes consagrados pela Lei que regulamenta o SUS. A implantação do projeto de Centro de Informação e Documentação em Saúde, tendo como embrião a Biblioteca da ESP/RS, apresenta-se como uma contribuição ao esforço de melhoria das condições de ensino e pesquisa na Escola, por meio da facilitação do acesso universal e democrático à informação em saúde. Na concepção do Projeto Ceids, para fins de controle docu- 104 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos ... mental, informação em saúde, conceitua-se como todo o conteúdo (dados, fatos, textos, artefatos, sons e imagens) organizado para comunicação em qualquer formato e por meio de qualquer canal ou suporte físico (Vieira, 1999, p. 72). Consideramos que a informação em saúde pública/saúde coletiva é considerada como um bem de características singulares, insumo interativo, dinâmico, multifacetado, agente catalisador para ações potencialmente transformadoras das estruturas cognitivas individuais e coletivas, de elevada relevância social, de inerente vocação à mais ampla difusão, apropriação e utilização pela sociedade. O Ceids assume a responsabilidade de gerenciamento dos recursos informacionais e documentais em saúde pública/saúde coletiva, a partir dos seguintes campos de atuação: a) informação técnico-científica – contempla a formação, manutenção e desenvolvimento de coleções de interesse, a organização, o armazenamento e a disseminação destes estoques de informação existentes ou sendo constituídos para a disponibilização ao acesso universal, independente de origem geográfica; b) memória institucional da Saúde Pública no âmbito da SES/RS – a partir do inventário técnico-histórico-administrativo das instituições de base na saúde pública estatal e estadual, contempla a organização de acervos (textuais, iconográficos, de memória oral e de artefatos tridimensionais) para preservação, restauração, divulgação, exposição, pesquisa e desenvolvimento científico e/ou tecnológico; c) fomento à análise, estímulo ao debate e à discussão dos indicadores numéricos gerados pelos Sistemas de Informação em Saúde, tendo em vista o trabalho da Rede Nacional de Informações em Saúde (RNIS) e da Rede Gaúcha de Informações em Saúde (RGIS) – contempla as interfaces com a informação bibliográfica e documental em saúde pública/saúde coletiva, de espectro conceitual abrangente, tendo em vista as necessidades de suporte ao controle social, aos processos decisórios, às projeções socio-sanitárias e ao planejamento estratégico em saúde; d) promoção, divulgação e educação em saúde – contempla a reunião e organização de materiais caracterizados como multimeios (discos compactos, vídeos, fôlderes, cartazes, fitas-cassete etc.). Na esfera da educação popular em saúde, projeta-se a criação de um Centro de Referência de Educação Popular em Saúde, que buscará construir um acervo de documentos oriundos dos movimentos sociais (cartilhas, textos, vídeos, relatos de experiências, manuais etc.), colocando-os à disposição para compartilhamento e pesquisa e, também, como espaço de fomento à discussão do conhecimento técnico-científico/saber popular em saúde; e) serviços editoriais – contempla a normalização de trabalhos técnicocientíficos, catalogação na fonte, elaboração/revisão de referências e citações bibliográficas, acesso às bases de dados on line e em CD-ROM, comutação bibliográfica e incentivo à produção editorial. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 105 Ruth Sant’Helena da Silva A definição destes campos de atuação, alguns de caráter inovador, sinaliza a diferença entre a Biblioteca da ESP/RS, especializada em saúde pública/saúde coletiva, com prestação de serviços reconhecidos desde 1972 e sua evolução para um Centro de Informação e Documentação, idealizado na expectativa de transformar e modernizar processos técnicos, produção, gerenciamento, apropriação e uso do conhecimento em saúde pública/saúde coletiva, de forma integrada e interativa. São novas atribuições ao Ceids: a) manutenção da oferta de suporte técnico-teórico-referencial permanente ao ensino, pesquisa, extensão educativa e documentação em saúde pública/saúde coletiva no âmbito da ESP/RS; b) reunião, manutenção, desenvolvimento e gerenciamento de acervos organizados e armazenados em formato eletrônico dos diferentes tipos de documentos existentes ou a serem adquiridos pela ESP/RS; c) disponibilização pública, por intermédio de tecnologias de acesso e comunicação universal de rápida e eficiente recuperação na Internet, às demandas de informação em saúde pública/saúde coletiva; d) formulação e proposição de diretrizes para as ações decorrentes do gerenciamento dos recursos documentais, especificamente, de cada um dos processos, princípios e atribuições indicados ou emergentes na esfera de competência da Documentação em Saúde; e) contribuição ao fomento, incremento e instrumentalização da produção e disseminação do conhecimento gerado em saúde pública/saúde coletiva no âmbito da ESP/RS; f) contribuição à promoção, análise, processamento técnico e disseminação de informação em saúde pública/saúde coletiva, favorecendo o estímulo à reflexão contínua sobre o saber técnico-científico e também sobre o saber constituído pelo senso comum, cultura e educação popular nesta área; g) estabelecimento de uma política de sensibilização quanto à preservação e recuperação da memória e da história institucional no âmbito da SES/RS. Implementação Melhorias significativas à prestação de serviços da Biblioteca na ESP/RS, em direção à consolidação do Ceids, vêm, paulatinamente, sendo conquistadas: 1) Espaço físico Houve a ampliação do espaço físico do Ceids, com o acréscimo emergencial de aproximadamente 30m² e foi estruturado um pré-projeto arquitetônico para a construção de prédio próprio, segundo critérios técnicos 5 O pré-projeto arquitetônico foi elaborado pelo Serviço de Arquitetura e Engenharia da SES/ RS, sob responsabilidade técnica do arquiteto Ednezer R. Flores. 106 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos ... e condições pertinentes à prestação de serviços de qualidade5. Projetou-se espaço para um novo auditório e o Ceids (biblioteca, multimeios, memória institucional, espaço de exposições, sala de estudo em grupo, cabines para estudo individual etc.). A edificação, com tipologia em monobloco, consistirá em três pavimentos, utilizando serviços de infra-estrutura do complexo existente ao qual irá integrar-se, com as devidas adequações e redimensionamento. 2) Desenvolvimento da coleção De 1999 a dezembro de 2000 foram incorporados ao acervo 621 títulos de livros, 848 folhetos e houve o acréscimo de 55 novos títulos de periódicos. 3) Incremento da força de trabalho A partir do ano de 2000, foram nomeados três bibliotecários concursados e um auxiliar de biblioteca. Do quadro funcional, foram designados mais dois auxiliares de biblioteca e as vagas para estagiários ampliaramse de uma para quatro, sendo três de Biblioteconomia e uma de História. Foi nomeada de forma especial, enquanto aguardamos por concurso, uma historiadora e museóloga que desenvolve atividades de recuperação da memória e da história institucional no Ceids. 4) Melhoria de infra-estrutura Em 1999, a biblioteca da ESP/RS foi encontrada com 1(um) microcomputador 486, com acesso discado à Internet (inútil pela desatualização programática, dificuldade no acesso e manutenção de conexão e inviabilidade de expansão) e uma impressora matricial. Foram adquiridos 2 (dois) microcomputadores Pentium e 1 (uma) impressora jato de tinta. Ações estratégicas e serviços inovadores Além das melhorias referidas, estabeleceram-se ações de integração, consideradas estratégicas para o desenvolvimento do Ceids, bem como serviços inovadores, tendo em vista seu alcance e desdobramentos, ultrapassando os limites da prestação de serviços usualmente realizados em Bibliotecas como: 1) Recuperação da memória e da história institucional Uma das iniciativas desencadeadas logo ao início da atual gestão da ESP/RS diz respeito à recuperação da memória e da história institucional da SES/RS. Esta responsabilidade sempre esteve presente nos dos regimentos internos da Secretaria. Em março de 1999, houve uma primeira reunião com os coordenadores ou representantes do Hospital Colônia Itapuã, Hospital Sanatório Partenon, Hospital Psiquiátrico São Pedro, Coordenação de Atenção Integral em Saúde – Cais, ESP/RS e Ceids para apresentação da nova proposta de trabalho, Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 107 Ruth Sant’Helena da Silva discussão e manifestação de adesão ao projeto. Com a integração de uma historiadora ao Ceids, iniciou-se um trabalho sistemático de recuperação da memória da SES-RS. Esta tarefa deveria começar pela ESP/RS. Contudo, por fatores circunstanciais e pela situação de precariedade em que se encontrava a documentação histórico-administrativa do Hospital Colônia Itapuã – HCI, a prioridade foi deslocada. O trabalho desenvolveu-se pela higienização e reconhecimento da documentação do HCI, sendo a historiadora auxiliada por uma estagiária do Ceids. Assim, surgia o embrião do núcleo de trabalho que hoje desenvolve a história e documentação naquele hospital. A ação de Recuperação da Memória e da História Institucional, fundamenta-se em algumas premissas básicas: a) o conceito de documento inclui qualquer tipo de suporte físico utilizado para registro ou manifestação da informação; b) a memória institucional, por meio da documentação existente, por apresentar-se fragmentada e dispersa, necessita de um tratamento sistematizado e cientificamente orientado. A recuperação da memória e da história institucional abrange o estabelecimento de uma política de sensibilização para a questão de sua preservação e a recomposição do que for possível do passado, mediante uma pesquisa histórica de fontes textuais, iconográficas, de memória oral e dos artefatos tridimensionais, isto é, do que se puder reunir, recuperar, organizar e contextualizar para preservação. O processo pressupõe, por meio do conhecimento deste patrimônio histórico, a fixação da identidade temporal, o estímulo à pesquisa e à reflexão para uma melhor compreensão dos caminhos percorridos e às viabilidades do presente e finalmente, o estabelecimento de uma política de gerenciamento, registro e tratamento das informações em saúde produzidas hoje, com a consciência da necessidade de preservação e conservação daquilo que vai possibilitar a reconstrução da história no futuro. O trabalho inclui o inventário da documentação e a organização de acervos para a divulgação em espaços institucionais, bem como o acesso virtual em bases de dados digitalizadas. Em 23 de junho de 2000, no Gabinete da SES/RS e com a presença da Secretária de Estado da Saúde, realizou-se uma reunião, solicitada pela ESP/ RS, para apresentação do Projeto Ceids e a sua proposta para estabelecimento de uma política de gerenciamento da documentação, incluindo-se, além da documentação técnico-científica, a técnico-administrativa. Estiveram presentes representantes da Escola de Saúde Pública/RS, Hospital Colônia Itapuã, Hospital Psiquiátrico São Pedro, Hospital Sanatório Partenon, Centro Saúde-Escola Murialdo e Gabinete da Secretária. Por definição da Secretária, incluiu-se, também, a Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde (Fepps), considerando-se sua significação no contexto histórico –institucional, porquanto, agrega o Laboratório Cen- 108 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos ... tral de Saúde Pública (Lacen), antigo Instituto de Pesquisas Biológicas (IPB), a Unidade de Produção de medicamentos, antigo Laboratório Farmacêutico do Estado do Rio Grande do Sul (Lafergs), o Centro de Informações Toxicológicas (CIT) e o Hemocentro (Hemorgs). Reafirmada a ação técnico-política de resgate da memória e da história proposta pelo Ceids-ESP/RS, na forma descentralizada, mediante adesão de cada uma das instituições nomeadas, iniciaram-se trabalhos neste sentido, de acordo com deliberações, capacidades operacionais e técnicas, tipo de acervo e necessidades conjunturais. Ao grupo de profissionais atuantes chamou-se Equipe Ampliada, composta por profissionais de Biblioteconomia e Documentação, História, Museologia, Arquivologia ou com alguma experiência na área. Os trabalhos realizados incluem o recolhimento, higienização e preservação de documentos, o registro de memória oral, entrevistas e obtenção do relato de experiências gerenciais, entre outros. Definiu-se espaços institucionais específicos para exposições e para a guarda da documentação reunida. A Equipe Ampliada realizou inúmeras reuniões em 2000 para discutir conceitos aproximadores nas diferentes áreas, informar sobre o andamento dos trabalhos, buscar apoio institucional para as ações ou construir pactuações para a integração de linhas de atuação e políticas. 2) Integração do Ceids à Rede Nacional de Informações em Saúde – RNIS e Rede Gaúcha de Informações em Saúde – RGIS. Esse processo ocorre pela introdução e gerenciamento do componente informação bibliográfica e documental na Rede Gaúcha de Informações em Saúde – RGIS, que disponibilizará comunicação com 100% dos municípios gaúchos via Internet. O Ceids faz o controle e a disseminação da informação em saúde coletiva, especialmente nas áreas definidas como de relevância epidemiológica, além do apoiar e estimular o registro de experiências municipais de gestão em saúde mediante a interação com os Núcleos Regionais de Educação em Saúde Coletiva (Nuresc), criados pela ESP/RS nas 19 regiões sanitárias da SES/RS. 3) Pesquisa sobre os trabalhadores da SES/RS6 Na intenção de estabelecer um serviço de Disseminação Seletiva da Informação – DSI, foi proposta uma pesquisa junto aos trabalhadores da SES/ RS. A DSI consiste em identificar e fornecer informação seletiva a públicos específicos por meio de notificações pessoais ou a grupos, de acordo com os perfis de interesse dos usuários previamente definidos. 6 A pesquisa sobre a força de trabalho da SES/RS faz parte do projeto de desenvolvimento aprovado pela Fapergs em dezembro 2000: Educação em Saúde Coletiva: melhoria da infraestrutura para estudo, ensino e pesquisa na Escola de Saúde Pública da Secretaria da Saúde – SES/RS. A parte II do presente artigo-documentário apresentará os resultados e as conclusões do trabalho. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 109 Ruth Sant’Helena da Silva A pesquisa acabou tendo um alcance maior e iniciou-se em agosto de 2000 com os seguintes objetivos: • realizar um levantamento exaustivo do perfil da força de trabalho da SES/RS no sentido de conhecer, valorizar e qualificar a atuação dos trabalhadores do SUS, contextualizando políticas de capacitação, educação continuada, ensino, pesquisa e desenvolvimento; • realizar um levantamento das potencialidades docentes entre os servidores da SES/RS para modalidades de formação (docência em cursos de pós-graduação e educação profissional ou aperfeiçoamento); • definir um perfil de usuários da Informação Técnico-Científica da SES/ RS visando conhecer as necessidades de informação; comportamentos frente à problemática de busca de informação documental em saúde e uso das fontes de informação em Saúde. • promover a DSI em saúde pública/saúde coletiva de forma rápida, seletiva, atualizada e pertinente à população pesquisada. Produtos e serviços a) Ampliação da análise de conteúdo/indexação do acervo A abrangência da indexação dos documentos de interesse na área de saúde pública/saúde coletiva está ampliada. Equivale a dizer que os Catálogos de Autor, Título e Assunto arrolam, além dos livros, periódicos, folhetos, CD, normas técnicas e demais documentos em acervo. b) Disseminação da informação em acervo Trabalha-se na produção de instrumentos de oferta e disseminação da informação em saúde: 1. BOLETIM ALERTA – iniciado em julho de 1999 e que consiste na divulgação dos sumários das publicações periódicas recém incorporadas ao acervo e disponíveis para consulta/empréstimo/cópia, mediante preenchimento de formulário específico. A periodicidade é mensal. 2. INFORMAÇÃO PARA A SAÚDE: Rio Grande do Sul – configura-se como mais um mecanismo de disseminação da informação em saúde, contém resenhas e resumos, bibliografias e atos normativos, memória, notícias e espaço para manifestações. Cópias podem ser obtidas mediante formulário específico. A periodicidade é semestral. Multimeios A ESP/RS teve, ao longo do tempo, um serviço chamado Material Instrucional, integrado às ações de Educação para a Saúde. Era de sua competência, basicamente, o estímulo à produção, recepção, coleta e distribuição dos materiais de divulgação (campanhas e eventos) oriundos, principal- 110 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos ... mente, do Ministério da Saúde e da SES/RS. Entre os materiais oferecidos, estavam cartazes, fôlderes e fitas de vídeo. Em seminário interno da ESP/RS, em 1999, decidiu-se que o Ceids deveria absorver as atribuições desse Serviço. A partir de então, tem-se procurado desenvolver uma ação de disseminação desse tipo de informação, de forma integrada às políticas do Ceids e do projeto político-pedagógico da ESP/RS. Esses materiais existentes podem ser considerados como de multimeios pedagógicos, em apoio às práticas de ensino/aprendizagem. A maior coleção é a de fitas de vídeo – aproximadamente 400 exemplares, seguidas de cartazes, fôlderes, discos compactos, slides, álbuns seriados e outros. Atendendo a uma demanda espontânea, busca-se, gradativamente, qualificar esse acervo com materiais atualizados, selecionados e pertinentes ao público ao qual se destinam. Pela análise do banco de dados cadastrais, pode ser caracterizado como público interessado em educação em saúde: professores, profissionais de saúde que exercem atividades didático-pedagógicas, conselheiros de saúde, alunos em busca de subsídios para trabalhos escolares dos três graus de ensino e público leigo interessado. Para ser usuário não há pré-requisito. Basta cadastrar-se para retirar materiais de interesse. O uso desses documentos está relacionado, geralmente, a algum tipo de atividade didático-pedagógica como aulas, palestras, seminários e trabalhos escolares. Assim, o serviço de Multimeios, no Ceids, de forma genérica, propõe-se a reunir, fomentar a criação, identificar, armazenar, recuperar, divulgar e disponibilizar materiais de apoio didático-pedagógico, estabelecendo uma rede de intercâmbio e comunicação com entidades produtoras e/ou distribuidoras deste tipo de documento. Docência A capacitação técnico-política em saúde pública/saúde coletiva propõe estudo, pesquisa, produção de conhecimento, criticidade e socialização do saber acumulado. A habilidade de usar adequada e seletivamente os estoques de informação técnico-científica disponíveis é um fator importante nas atividades de formação. A realização dos cursos ministrados na ESP/RS, em seus diversos formatos, cria espaços privilegiados para o conhecimento e uso das principais fontes de informação da área das Ciências da Saúde, seus acessos e potencialidades. Além disso, as atividades didático-pedagógicas da ESP/RS, de caráter transitório (cursos), se reafirmam como espaço de desenvolvimento e educação permanente nos serviços de saúde (teoria/prática). Assim, o estabelecimento de vínculos permanentes com o estudo, a atualização e a educação continuada dos trabalhadores do SUS podem ser viabilizados mediante uma cultura de uso cotidiano da informação em todas as ações de saúde. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 111 Ruth Sant’Helena da Silva Nessa intenção, o Ceids contribuiu com a capacitação no manejo de técnicas e instrumentos bibliográfico-documentais e conhecimento dos meios de acesso à pesquisa bibliográfica e à apresentação de trabalhos técnicocientíficos. A participação do Ceids na docência nos cursos da ESP/RS, além de informar sobre o perfil normativo e metodológico da busca e uso bibliográfico, busca potencializar as habilidades para o processo de comunicação, apropriação, percepção e desenvolvimento do ciclo documentário, desde o acesso à informação registrada, sua assimilação plena, até a motivação e criação de viabilidades para a produção do conhecimento e sua disseminação. Articulações Ao longo do biênio 1999-2000, o Ceids esteve participando de alguns fóruns de discussão de políticas ou ações programáticas na área da informação: a) Projeto Telecentros – de iniciativa da Secretaria da Ciência e Tecnologia, integrando o Programa de Inclusão Social pela difusão tecnológica, inclusão digital, acesso e uso das tecnologias da informação via Internet e suas aplicações. b) Organização dos Centros de Pesquisa do Estado (OCP) – busca do fortalecimento das instituições estaduais de pesquisa pela sua própria articulação e pela articulação com a agência de fomento à pesquisa (Fapergs), instituições acadêmicas e direções das próprias instituições. Foi realizado um diagnóstico da situação das bibliotecas das quatorze instituições que integram a OCP. O trabalho, entregue ao Secretário de Ciência e Tecnologia, resultou favorável à aprovação dos projetos de melhoria da infra-estrutura das bibliotecas que participaram do Edital-2000. O Ceids teve seu projeto aprovado, resultando em importante investimento institucional na área de documentação como descrito até aqui. Conclusão O Projeto Ceids aqui relatado na forma de um artigo-documentário é um empreendimento coletivo. Pertence e se estrutura na interface com todos os profissionais de saúde, de forma restrita, ou com seus outros e diversificados públicos. O artigo-documentário sobre o Projeto Ceids cumpre o papel de construir historicidade a um processo coletivo e institucional, filiado a uma concepção ético-política de trabalho com a informação bibliográfica e documental em saúde coletiva. Existe uma gama de atores na “ecologia informacional” (Seracevic, 1996, p.58) que envolve produtores de dados, informação e conhecimento (serviços de saúde, autores, pesquisadores, compiladores, organizadores etc.), instituições financiadoras, editores, canais de divulgação (os documen- 112 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos ... tos em qualquer formato) e os reelaboradores (produtores de bases de dados, bibliotecas e centros de documentação e os usuários). No processo de interação entre estes agentes, os papéis se trocam, mesclam ou sobrepõem-se, de tal forma que todos são participantes em algum momento, como informantes, intérpretes, mediadores ou usuários. Assim se constitui e fortalece o Ceids, na busca e no intercâmbio serviços/usuários que harmoniza interesses e necessidades de informação bibliográfica e documental em saúde, procurando aperfeiçoar as categorias conceituais e temáticas, tornando-as cada vez mais pertinentes e seletivas aos seus públicos. Há muita informação na área da saúde. É necessário discernimento para a busca daquelas informações cujo significado favoreça a construção da autonomia e da qualidade de vida. No Ceids, mais do que um aparato de habilidades, técnicas, metodologias e tecnologias de informação em exercício, existe solidariedade afetiva, dedicação profissional, persistência e crença de que é possível construir serviços públicos de qualidade. Esses componentes motivadores constituem a invisível, mas perceptível, “estante da utopia”, com um rico e diversificado acervo de colaboração. O ciclo documentário, de forma esquemática, mostra a trajetória → documento → dado → informação → conhecimento que permeia todo o trabalho realizado no Ceids. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 113 Ruth Sant’Helena da Silva Un centro de información y documentación en salud pública/salud colectiva: compromisos, interfaces y perspectivas posibles y la estantería de la utopía – PARTE I Resumen: Se hace un análisis de la situación de la Biblioteca de la Escola de Saúde Pública – ESP/RS, en el inicio de la actual gestión. Principios teóricos y técnico políticos orientaron acciones de gerenciamiento de los recursos informacionales en el sector, resultando en la presentación del proyecto del Centro de Informação e Documentação em Saúde – Ceids. La concepción del Ceids se materializa, paulatinamente, mediante la explicitación de compromisos, interfaces y perspectivas, constituyéndose en el constante trabajo de control y diseminación de información documental en salud. Las categorías conceptuales y referenciales, base de los acervos construidos a lo largo del tiempo, generan viabilidades de compartimiento, calificación profesional, estudio, investigación, extensión y educación permanente en la ESP y en la Secretaria da Saúde SES/RS. Nuestra expectativa es fomentar la discusión sobre el papel de la información en salud en el proceso de formación y en la aspiración de que el uso de la información sea incorporado cotidiana y permanentemente como insumo al conocimiento y a la intervención en las acciones de salud, indispensable en el ciclo de construcción colectiva del conocimiento en salud. Se trata de un artículo documentario con el papel de dar historia y visibilidad a un proceso institucional relevante y comprometido con la salud colectiva. Palabras Clave: Información en salud; Memoria institucional; Escola de Saúde Pública/RS; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul; Documentación. A center of information and documentation in collective/public health: commitments, interfaces and possible perspectives and the shelf of utopia – PART I Abstract: It is made an analysis of the situation of the Library of the Escola de Saúde Pública – ESP/RS, in the beginning of the current administration. Theoretical and technician-political principles leaded the actions of administration of informational resources in the section, resulting in the presentation of the project of the Centro de Informação e Documentação em Saúde – CEIDS. The conception of CEIDS is gradually materialized by the explicitation of commitments, interfaces and perspectives, constituting the present work of control and spread of documental information in health. The conceptual categories and references, basis of the collections built along the time, generate sharing possibilities, professional qualification, study, researches, extension and continuous education in ESP/RS and in Secretaria da Saúde/SES-RS. Our expectation is to foment the discussion on the role of the information in health in the formation process and in the aspiration that the use of the information is incorporated daily and permanently as input to the knowledge and to the intervention in the actions of health, indispensable in the cycle of collective construction of the knowledge in health. It is an article-report with the role of providing history and visibility to a institutional process that is relevant and committed with the collective health. 114 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Um centro de informação e documentação em saúde pública/saúde coletiva: compromissos ... Key-words: Information in health; Institutional memory; Escola de Saúde Pública/RS; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul; ocumentation. Referências ALMEIDA FILHO, N.; PAIM, J. S. La crisis de la salud pública y el movimiento de la salud colectiva en Latinoamérica. Cuadernos Médicos Sociales, n.75, p. 5-30, maio 1999. BRANCO, M. A. E. 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Por um lado, o problema da violência não pode ser entendido somente através das atitudes individuais, por outro, viver sob condições sócioeconômicas adversas, por si só, não determina comportamentos violentos. Os resultantes do conjunto de condicionantes sociais, históricos e ambientais têm expressões diversas no espaço urbano. Desta forma, uma importante estratégia de vigilância epidemiológica para a prevenção e controle da violência nas grandes cidades é a identificação de grupos mais vulneráveis aos homicídios por meio da análise da concentração espacial destes eventos. A distribuição dos equipamentos públicos de segurança e educação mostrou-se deficitária nas microáreas com alto índice de homicídios. Palavras-Chave: Violência; Mortalidade por homicídios; Sistema de informação geográfica; Análise espacial; Epidemiologia; Vigilância à saúde. Introdução O objetivo geral deste estudo é analisar a distribuição espacial das residências das vítimas de homicídios no município de Porto Alegre, em 1996, visando a identificar a sua concentração espacial. Por meio da interpolação com o método Kernel, foram calculadas a densidade de homicídios e a densidade média da população, cuja razão gerou um índice de homicídios. A partir do índice de homicídios, foram identificadas diferentes microáreas de risco, 1 Escola de Saúde Pública do Estado do Rio Grande do Sul (ESP/RS). E-mail: [email protected]. 2 Departamento de Informações em Saúde (DIS/Cict/Fiocruz). 3 Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos (Demqs/Ensp/Fiocruz). Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 117 Simone M. Santos et al. as quais foram caracterizadas pela presença de escolas, serviços de saúde, delegacias e postos de polícia militar. Os métodos espaciais utilizados permitiram a identificação de microáreas que concentram óbitos, cujas populações devem ser enfocadas no planejamento de ações de prevenção das mortes violentas, como a promoção de comportamentos saudáveis e de ações intersetoriais que busquem ampliar a cidadania e a qualidade de vida. Este estudo fornece informações sobre os locais onde se concentram residências de vítimas de mortes por homicídios no município de Porto Alegre e, a partir deste conhecimento, tenta orientar o planejamento e a execução de ações que permitam uma melhora na qualidade de vida dos cidadãos. A taxa de mortalidade por homicídios em Porto Alegre foi de 21,2 óbitos por 100.000 habitantes, no ano de 1996 (Santos, 1999). Junto com os acidentes de transporte, os homicídios são a maior causa de morte dentro das causas externas, no Brasil, chegando a ser a primeira causa de mortalidade geral nas idades entre 15 e 34 anos, em algumas metrópoles (Mello Jorge et al., 1997). As causas externas de morte ou traumas, como vem sendo referida na saúde coletiva, não são meramente acidentes, como geralmente são reconhecidas, trata-se de causas de morte evitáveis e, assumidas dessa forma, são passíveis de intervenção que promova a diminuição da sua ocorrência e das conseqüências que delas advêm (Loés, 1996). Os profissionais da área de saúde podem atuar em dois momentos principais: na prevenção dos acidentes e violências, de forma a evitar a ocorrência de lesões que podem levar ao óbito e mediante suporte às pessoas que foram lesadas, tentando diminuir as seqüelas e a ocorrência do óbito. Em relação às mortes por homicídios, o campo mais carente de atuação é exatamente o da prevenção. Com o uso, cada vez maior, das armas de fogo que geram lesões mais fatais, o atendimento à pessoa lesionada é cada vez mais limitado. A identificação de grupos sujeitos aos complexos fatores envolvidos na gênese dos homicídios constitui o primeiro passo na busca de um maior entendimento do contexto onde a violência acontece e é fundamental para o planejamento de ações preventivas mais específicas. As informações disponíveis nos sistemas de informação em saúde, quando atualizadas e tratadas, constituem-se em muito mais do que um banco de dados, devendo tornar-se uma ferramenta de operação dos agentes que intervêm no processo do evento estudado (Scaringella, 1999). A vigilância à saúde de eventos específicos relacionados a acidentes e violência, visando a fornecer subsídio às autoridades sanitárias na elaboração de programas de prevenção e controle, deve estimar a morbi-mortalidade em termos de magnitude, tendências, custo e impacto social; identificar grupos e fatores de risco; detectar clusters; avaliar a efetividade das intervenções; induzir pesquisas e incorporar novos conhecimentos para o contínuo aperfeiçoamento dos serviços (Waldman; Mello Jorge, 1999). 118 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Identificação de grupos vulneráveis por meio da detecção de clusters de homicídio como ... A distribuição espacial dos eventos e a análise de seus padrões são contribuições importantes para a gestão de um sistema local de saúde. A visualização das informações é uma ferramenta complementar para o direcionamento das atividades (Carvalho, 1997). Pela análise dos padrões de distribuição espacial dos homicídios, é possível identificar grupos populacionais que estão submetidos a riscos de natureza difusa, muitas vezes superpostos, mas que se expressam em características sócio-econômicas e demográficas (Barcellos; Bastos, 1996) e que condicionam e são condicionadas pela forma de ocupação do espaço urbano. Os Sistemas de Informações Geográficas (SIG) permitem, por meio do geoprocessamento, a integração de dados de saúde e do ambiente em diversas unidades de análise, além de possibilitar a criação de indicadores compostos. O recente desenvolvimento tecnológico facilitou o acesso a estes sistemas (por diminuição do custo e compatibilidade de uso em computadores pessoais) e promoveu o crescimento do uso do SIG em epidemiologia nos países da América Latina (Castillo-Salgado, 1996). Apesar da recente difusão de tecnologias que permitem a manipulação de informações gráficas e mapas em microcomputadores, a falta de bases cartográficas digitalizadas e de endereçamento dos bancos de dados dificulta o uso de informações desagregadas para as esferas locais. A concentração de eventos pode ocorrer no espaço, no tempo ou em ambos. Um cluster ou agrupamento de eventos pode ser definido como um foco particular de alta incidência (Cook-Mozffari et al., 1988) ou como um grupo delimitado de ocorrências relacionadas entre si, por intermédio de algum mecanismo social ou biológico ou tendo em comum uma relação com outro evento ou circunstância (Knox, 1988). O seu valor, entretanto, está no entendimento do impacto dos processos e estruturas de organização social na determinação dos eventos de saúde (Jones; Moon, 1987). A análise espacial é obviamente muito importante para a identificação de áreas onde as condições de saúde são precárias e que necessitam de uma atenção diferenciada. A análise da concentração espacial de homicídios a partir do padrão de distribuição de pontos é possibilitada pela disponibilidade de um SIG que localiza endereços permitindo, dessa forma, o mapeamento diferencial de microáreas por intermédio do padrão de ocorrência de homicídios, ou seja, pelo padrão de densidade de pontos. Método A área analisada corresponde ao município de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, estado localizado no extremo sul do Brasil, cuja população em 1996 era de 1.288.879 habitantes. Os dados de mortalidade fazem parte do Sistema de Informação sobre Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 119 Simone M. Santos et al. Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, relativos ao ano de 1996, do qual foram selecionados os óbitos causados por agressões (aqui denominadas homicídios), referentes aos códigos de X85 a Y09 da 10ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID10). Os homicídios corresponderam a 30,5% da mortalidade devido às causas externas, apresentando 286 óbitos. O indicador de mortalidade foi construído a partir da localização pontual do endereço de residência da vítima, que consta na declaração de óbito. A localização é feita a partir da comparação do endereço que consta na declaração de óbito com o cadastro de logradouros, definindo o código do trecho de logradouro a que pertence o endereço. As coordenadas geográficas x (longitude) e y (latitude), de cada ponto, são calculadas por operação do SIG. O mapeamento da localização de pontos permite a visualização da distribuição dos eventos numa base cartográfica, onde cada ponto corresponde ao óbito localizado. O SIG municipal foi capaz de localizar 272 residências que correspondem a 95,1% dos óbitos por homicídio. A análise dos padrões das distribuições de pontos de dados de área e as múltiplas combinações entre diferentes camadas construídas em ambiente de SIG constituíram os principais métodos utilizados. A distribuição dos homicídios foi analisada por alisamento pelo método de Kernel de densidade. O Kernel de estimativa de densidade (Diggle, 1985 apud Bailey, 1994) permite a obtenção de uma estimativa espacial alisada da intensidade local dos eventos sobre a área estudada, o que essencialmente resulta numa “superfície de risco” para a ocorrência destes eventos. A densidade média da população foi analisada pelo método de Kernel de distribuição de valores, a partir do total populacional dos setores censitários. Realizou-se uma estimativa de eventos por população por meio de uma razão onde o numerador é o Kernel de densidade de homicídios e o denominador é o Kernel de distribuição de valores da população. Esta razão é calculada segundo os valores estimados pelo método de Kernel que são atribuídos a cada ponto de interseção de uma grade regular, de 200 por 200 células, construída para a interpolação. Por meio dessa razão, foi construído o Índice de homicídios, utilizando-se o software S-Plus© com o módulo espacial. Foi calculado o índice de homicídios médio em cada setor censitário por intermédio de operação entre camadas de informação em ambiente de SIG, transformando a informação da grade regular em atributo dos polígonos dos setores. A distribuição dos índices de homicídios por quintis serviu de base para a classificação dos setores censitários em três grupos de índices de homicídios: considerou-se como microárea de alto risco aquelas que se encontraram no quintil superior da distribuição; de baixo risco aquelas que se encontraram no quintil inferior; e os demais como risco intermediário. Considerou-se microáreas com formação de clusters aquelas de alto risco, cujo índice de homicídios reflete a grande concentração de ocorrência dos mesmos. Também foram localizados alguns equipamentos urbanos, por meio do endereço, em ambiente de SIG. As Delegacias e Postos de Polícia Civil e 120 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Identificação de grupos vulneráveis por meio da detecção de clusters de homicídio como ... Militar tiveram 100% de localização. As camadas de Escolas de Ensino Fundamental e Médio e dos Postos de Saúde e Hospitais onde há atendimento público pelo Sistema Único de Saúde foram fornecidas, já, em forma de mapas de pontos, sendo que para as escolas houve 94,12% de localização. Estas camadas foram sobrepostas ao padrão do índice de homicídios, permitindo o cálculo da disponibilidade daqueles nas diferentes áreas do município. Resultados e discussão Distribuição das microáreas de índices de homicídios Pode-se observar a distribuição das residências das vítimas de homicídios e os polígonos dos setores censitários que serviram de base para a análise da distribuição da população, na figura 1. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 121 Simone M. Santos et al. Na figura 2, pode-se observar as microáreas de índices de homicídios geradas a partir desta categorização do índice de homicídios. No primeiro grupo encontram-se os setores censitários que ocuparam o quintil superior da distribuição – alto risco. O segundo grupo é formado pela reunião dos quintis intermediários, concentrando 60% dos setores censitários. O terceiro grupo foi constituído pelos setores censitários do quintil inferior da distribuição – baixo risco. O alto índice de homicídios em diferentes microáreas, provavelmente resulta de contextos diferenciados, mas se sobrepõem, em parte, a bairros de baixa condição socioeconômica e adjacências, encontrando-se em regiões periféricas ao núcleo mais urbanizado onde se concentram atividades de serviços. Há microáreas de alto risco que se diferenciam das demais áreas do município porque abrangem setores com baixa condição socioeconômica, onde está presente a atuação de grupos envolvidos com o tráfico de drogas, onde ocorrem conflitos entre os diferentes grupos que disputam o controle do tráfico e entre estes e a polícia, na tentativa de repressão ao crime ( por exemplo, os bairros Santo Antônio, Santa Teresa e Medianeira e parte dos bairros Partenon, Teresópolis, Glória e Vila Jardim). Há outras microáreas da zona norte e zona sul que englobam setores de baixa condição socioeconômica onde a atuação de traficantes é menor. Nessas áreas é provável que outros padrões de conflitos estejam presentes, possivelmente relacionados com a forma violenta de solucionar desentendimentos pessoais (por exemplo, os bairros São José, Bom Jesus, Sarandi, Protásio Alves e Restinga). As microáreas de risco intermediário englobam setores de diversas condições socioeconômicas, enquanto as microáreas de baixo risco abrangem a maior parte das regiões rurais da cidade e há uma microárea que concentra setores de alta condição socioeconômica e bem provida de serviços. Presença de equipamentos urbanos nas microáreas de índices de homicídios Para analisar a distribuição dos equipamentos urbanos, a presença destes e sua proporção nas microáreas de diferentes índices de homicídios foi comparada com a distribuição da população residente em cada área. Esta comparação é apresentada na tabela 1. 122 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Identificação de grupos vulneráveis por meio da detecção de clusters de homicídio como ... Tabela 1 – Perfil dos grupos de índice de homicídios segundo distribuição dos equipamentos urbanos, Porto Alegre, 1996 Grupo de Índice de Homicídios Q. Inferior Q. Intermediário Q. Superior Total Indicador Baixo Risco Risco Alto Risco Intermediário n % n % n % n % Área em Km² * 147,8 34,2 233,2 54,0 50,7 11,8 431,7 100,0 População 213.293 16,9 731.433 57,9 318.166 25,2 1.262.892 100,0 Homicídios 9 3,4 120 44,8 139 51,9 268* 100,0 Postos 9 16,7 36 56,2 17 26,6 64 100,0 de Polícia Unidades 11 9,3 61 51,7 46 39,0 118 100,0 de Saúde Escolas 29 38,7 35 46,7 11 14,7 75 100,0 Particulares Escolas 43 14,0 206 67,3 57 18,6 306 100,0 Públicas * Foram excluídos 2 homicídios das ilhas e 2 em virtude do ajuste do contorno do município. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 123 Simone M. Santos et al. A categoria de quintil superior contém mais da metade dos homicídios em uma pequena área do município (11,8%). A categoria de quintil inferior apresenta uma pequena parte (3,4%) do número total de homicídios dispersos em uma grande área do município (34,2%). Na categoria intermediária está compreendida, aproximadamente, metade dos homicídios da população e da região que forma Porto Alegre. A distribuição dos postos de polícia civil e militar apresentou proporções similares à distribuição populacional nas diferentes microáreas do município. A princípio, se poderia considerar que essa similaridade implica em eqüidade, tendo em vista que este serviço tem que ser prestado a toda população, indistintamente, considerando-se apenas o total populacional. Na realidade, as demandas são diferenciadas entre as áreas e onde há concentração de homicídios deveria haver um aporte maior de atenção policial, o que não está ocorrendo. Apesar deste estudo refletir um perfil estático no tempo, não é esperado que as áreas de concentração de homicídios apresentem grandes variações de um ano para outro, a não ser que ocorra uma ação intensiva da polícia. Deste modo, pode-se considerar que há uma defasagem relativa de postos de polícia na área de maior concentração de homicídios. As unidades de saúde apresentaram uma distribuição relativa com maior eqüidade. A menor proporção da presença deste serviço ocorreu no quintil inferior de índice de homicídios, que tem um padrão de maior renda, onde a população é, freqüentemente, associada a planos de saúde particulares. Já a maior proporção ocorreu no quintil superior de índice de homicídios, onde se concentra, também, a população de menor renda que tem no serviço de saúde público a maior, senão a única, porta de acesso aos serviços de saúde. As escolas particulares tiveram localização expressiva na área de baixo índice de homicídios e pouca presença na área de alto índice de homicídios, apresentando um padrão que acompanha o perfil de renda das áreas. As escolas públicas apresentaram uma defasagem de oferta nas áreas com alto índice de homicídios, considerando-se o total populacional nessas áreas. Em relação ao perfil de demanda que é maior onde a população tem renda menor, esta oferta é mais escassa. A renda baixa restringe o acesso à educação, sendo este dependente da disponibilidade da escola gratuita. Implicações da detecção de microáreas de maior risco para o planejamento de ações em saúde Apesar desta abordagem ter um caráter estritamente quantitativo, sabendo-se que a presença da escola não garante diretamente o acesso ao ensino, que pode ser dificultado por outros fatores, como a necessidade de trabalhar, e que o efetivo policial e a qualidade do serviço prestado também pode ser diferenciada entre os diversos pelotões e delegacias, indica-se a carência destes serviços nas áreas de altos índices de homicídios. A avalia- 124 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Identificação de grupos vulneráveis por meio da detecção de clusters de homicídio como ... ção da qualidade destes serviços e o aumento da sua oferta nestas áreas podem constituir um passo importante para diminuir o índice de homicídios e, sobretudo, para melhorar a qualidade de vida da população, facilitando o acesso à educação. Neste mesmo sentido, essas áreas devem ser priorizadas para oferta de áreas de lazer, centros de convivência com atividades específicas para adolescentes, constituição de atividades de educação em saúde com enfoque em temas de interesse dos adolescentes e de outros serviços que garantam a capacidade de ser cidadão e de ser respeitado. Apesar da sua importância para a saúde, a responsabilidade pelo controle dos homicídios tem sido delegada quase inteiramente à justiça criminal e ao aparato policial. Sanções legais têm lugar definido na prevenção dos homicídios, mas apenas como parte de uma estratégia mais ampla e multifacetada. Como a maior parte das mortes está relacionada com armas de fogo (Santos et al, 2000), é possível utilizar diversas estratégias para prevenir os ferimentos e mortes, como algumas iniciativas nos EUA (CDC, 1992), pela inibição, restrição ou redução do fácil acesso às armas de fogo pela população em geral ou em locais específicos. Entre as estratégias no nível local encontram-se intervenções como o treinamento na resolução de conflitos e a redução da incidência de violência interpessoal pelas mudanças de comportamentos. As ações dirigidas a grupos específicos, planejadas em equipes multidisciplinares, constituem a forma mais imediata de intervenção para prevenir que ocorra a violência, mesmo que os resultados obtidos sejam limitados pela ausência de políticas mais amplas. As mortes em conseqüência de uma lesão grave, intencional ou não (Kreis et al, 1985 apud Hijar-Medina, 1997), têm uma apresentação trimodal: 50% ocorrem dentro dos primeiros minutos de ocorrida a lesão; 30% ocorrem dentro das duas horas seguintes à lesão; e os 20% restantes ocorrem durante as duas ou três semanas posteriores à lesão. O potencial de impacto destas ações de cunho preventivo é enorme, principalmente se direcionadas às áreas identificadas como de maior exposição. Os serviços de saúde pública, apesar de todas as dificuldades, ainda constituem uma importante interface de contato do Estado com a população. Alguns profissionais discutem a existência de uma síndrome do trauma. Esta seria apresentada por pacientes que são atendidos, de forma recorrente, por causa da exposição às agressões e que tendem a sofrê-las várias vezes, ficando expostos a uma agressão com desfecho fatal (Ponzer; Brismar, 1996). Estas situações são mais fáceis de ser captadas a partir do contato com os serviços de saúde onde há um vínculo maior entre os profissionais de saúde e os usuários das ações e serviços públicos. Em Porto Alegre, a existência de uma rede de atenção básica em saúde coletiva procura reforçar o vínculo da população às unidades de saúde de áreas definidas e que servem de referência local. Estas unidades são respon- Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 125 Simone M. Santos et al. sáveis não somente pela atenção dentro das unidades, mas também atuam na localidade e em suas instituições sociais. Aproveitando esta chance de contato, é possível criar meios de atuar nas realidades locais com o objetivo de prevenir esta mortalidade, por exemplo, pela implementação de atividades de cunho informativo e formador. Para isso, deve haver um preparo profissional das equipes de saúde que atuam nas microáreas identificadas como de maior risco para os homicídios, garantindo a sensibilização e a capacitação dos profissionais para o desenvolvimento de ações dirigidas. Além disso, considerando-se que o conceito de saúde compreende o acesso e usufruto aos direitos sociais e às melhores políticas públicas, fica evidente que as condições de saúde da população são reflexo de uma gama de fatores que podem ser objeto de ações de diversos setores da esfera pública, necessitando de um entendimento intersetorial e demandando uma integração entre diversos profissionais e áreas do conhecimento. Considerações finais O método de Kernel mostrou-se adequado para a definição de áreas diferenciadas na superfície da região em estudo. A identificação do padrão de ocorrência dos homicídios permitiu o reconhecimento de grupos populacionais de maior vulnerabilidade em relação a estas causas de morte. Além disso, através do estudo das características específicas de cada área, é possível identificar outros locais com características semelhantes onde se pode esperar a ocorrência de novos eventos. O Índice de homicídios, calculado pela razão entre o kernel de densidade de homicídios e o kernel de distribuição de valores da população, mostrouse adequado para diferenciar as microáreas que constituem o município, independentemente de macrolimites políticos e administrativos. A visualização, em forma de mapa, foi fundamental para aferir a flutuação do índice nas áreas com pequena população. A sua principal vantagem foi a de permitir a diferenciação a partir da localização pontual do evento (sem nenhuma unidade de agregação pré-estabelecida) e a partir de informações sobre um período de tempo breve (apenas um ano). A possibilidade da análise dos padrões espaciais dos homicídios pode ser incorporada para a constituição do sistema de vigilância das mortes violentas, de modo relativamente simples. Uma de suas grandes vantagens é a de não necessitar de uma série histórica para avaliação dos eventos. Outra, é a capacidade de direcionar as análises a áreas específicas, gerando maior agilidade no retorno das informações que se pode obter através do sistema e maior especificidade no dimensionamento dos processos sociais que atuam em cada área. Segundo Mendes et al (1993), a microárea (socioeconômica e ambientalmente homogênea, com riscos à saúde similares) é o espaço privilegiado, ainda que não o único, para o enfrentamento dos problemas de saú- 126 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Identificação de grupos vulneráveis por meio da detecção de clusters de homicídio como ... de, de forma contínua, por meio de operações direcionadas à superação dos nós críticos identificados na rede causal. É nesta escala que ocorrem as relações do cotidiano que representam a realidade inserida no contexto socioespacial. Assim, partindo do território-microárea, pode-se avaliar os recursos e serviços disponíveis e adequar os investimentos, preferencialmente onde se concentram os problemas de saúde. Pode-se avaliar quais tipos de ações devem ser produzidas para ter impacto no nível geral da organização econômica, política e cultural, bem como os reflexos que elas produzem na inserção social dos grupos em questão (Castellanos, 1990). Identificación de grupos vulnerables por medio de la detección de clusters de homicidios como apoyo al planeamiento de acciones en salud: área de violencia y trauma Resumen: Los homicidios responden por la mayor parte de los óbitos debido a las causas externas en las grandes ciudades brasileñas, afectando principalmente a los hombres jóvenes. Por un lado, el problema de la violencia no puede ser entendido solamente a través de las actitudes individuales. Por otro, vivir bajo condiciones socioeconómicas adversas, por si sólo, no determina comportamientos violentos. Los resultantes del conjunto de condicionantes sociales, históricos y ambientales tienen expresiones diversas en el espacio urbano. De esta forma, una importante estrategia de vigilancia epidemiológica para la prevención y control de la violencia en las grandes ciudades es la identificación de grupos más vulnerables a los homicidios por medio del análisis de la concentración espacial de estos eventos. La distribución de los equipos públicos de seguridad y educación se ha mostrado deficitaria en las microáreas con alto índice de homicidios. Palabras Clave: Violencia; Mortalidad por homicidios; Sistema de información geográfica; Análisis espacial; Epidemiología; Vigilancia a la salud. Identification of vulnerable groups through the detection of clusters of homicides as support to the planning of actions in health: violence area and trauma Abstract: Homicides are responsible for most of the deaths due to external causes in the greatest Brazilian cities, affecting mainly young men. On one hand, the problem of violence cannot only be understood through the individual attitudes, on the other hand, only living under adverse socioeconomic conditions does not determine violent behaviors. The resultants of the set of social, historical and environmental conditionings have several expressions in the urban space. This way, an important strategy of epidemic surveillance for the prevention and control of violence in the greatest cities, is the identification of groups that are more vulnerable Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 127 Simone M. Santos et al. to homicides through the analysis of the space concentration of these events. The distribution of public equipment of safety and education was shown deficient in the micro-areas with high index of homicides. Key-words: Violence; Mortality by homicides; System of geographical information; Space analysis; Epidemiology; Health surveillance. Referências BAILEY, T.C.. Review of statistical spatial analysis in GIS, in Fotheringham, S.; Rogerson, P (Org): Spatial Analysis and GIS. London: Taylor e Francis Ltd.,1994. 281p. BARCELLOS, C.; BASTOS, F.I.. Geoprocessamento, ambiente e saúde: uma união possível? Cadernos de Saúde Pública, São Paulo, v. 12,n. 3, p. 389-397, 1996. CARVALHO, M.S. Aplicação de métodos de análise espacial na caracterização de áreas de risco a saúde. Tese (Doutorado em Engenharia Biomédica)-COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, 1997. CASTELLANOS, P.L. Sobre el concepto de salud-enfermedad. Descripción y explicación de la situación de salud. Boletín Epidemiológico, OPAS. v. 10,n. 4, p. 1-7, 1990. CASTILLO-SALGADO, C. 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Vigilância para acidentes e violência: instrumento para estratégias de prevenção e controle. Ciência e Saúde Coletiva, v. 4, n. 1, p. 71-79.1999. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 129 Atenção montador a página 130 é branca Memória e História Atenção montador a página 132 é branca Do isolamento ao sanatório: diferentes práticas e serviços em um espaço de saúde pública ... Do isolamento ao sanatório: diferentes práticas e serviços em um espaço de saúde pública de Porto Alegre – de 1909 a 20011 Pedro Dornelles Picon2 Denise Soares Bastos3 Paulo Garcia4 Resumo: O tema Do isolamento ao sanatório: diferentes práticas e serviços em um espaço de saúde pública de Porto Alegre – de 1909 a 2001 foi apresentado pelo Hospital Sanatório Partenon no Seminário Informação, Memória e História em Saúde Pública, promovido pelo Ceids/RS em maio de 2001. O artigo ora apresentado pretende trazer alguma contribuição para a pesquisa e a reflexão acerca da temática do resgate da memória da saúde pública no Estado do Rio Grande do Sul, a partir do microcosmos do Hospital Sanatório Partenon e dos diferentes serviços implementados numa mesma área física do bairro Partenon, em Porto Alegre, do início do século XX a este início de século XXI. A trajetória de ocupação deste espaço - de Hospital de Isolamento a partir de 1909 a um complexo de serviços públicos de saúde nos dias atuais - pode auxiliar a compreensão de como diferentes políticas, demandas e práticas sanitárias determinam a estruturação dos serviços de saúde, em particular no campo do tratamento das doenças infecto-contagiosas. Palavras-Chave: Memória institucional; Hospital Sanatório Partenon; Porto Alegre; História. Do início do século XX até os dias de hoje, concepções diversas fizeram com que diferentes instituições e práticas de saúde tivessem lugar no bairro Partenon, na antiga Estrada do Mato Grosso, hoje avenida Bento Gonçalves, número 3722. 1 Trabalho apresentado no Seminário “Informação, memória e história em saúde pública” , realizado na Escola de Saúde Pública do Estado do Rio Grande do Sul, em 25 de maio de 2001. 2 Médico pneumologista, Direção de Ensino e Pesquisa/HSP, e-mail: [email protected] 3 Técnica em Assuntos Culturais, Coordenadora Núcleo de Documentação e Memória/HSP, email: [email protected] 4 Historiador, e-mail: [email protected] Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 133 Pedro Dornelles Picon et al. Esse endereço, que hoje sedia o Hospital Sanatório Partenon, passou a ser um espaço voltado à saúde a partir da compra de um terreno – antigo potreiro – em 1908, pelo governo estadual, onde seria construído, no ano seguinte, o Hospital de Isolamento São José. O bairro Partenon, na virada do século XIX para o XX, esteve demarcado como um espaço de segregação de doentes, abrigando, no então Hospício São Pedro, doentes mentais ou alienados e, no Hospital de Isolamento São José, portadores de moléstias contagiosas. Além desses hospitais, havia também um lazareto na Chácara das Bananeiras. Os órgãos governamentais se preocupavam com o destino da população pobre vagando pelo espaço público, sobretudo no Centro, uma vez que as doenças infecto-contagiosas não ficavam circunscritas nos bairros periféricos. É nesse contexto que é concebida a legislação que obriga a comunicação dos casos de moléstias contagiosas e a própria criação do Hospital de Isolamento. 2º CARTÓRIO DE NOTAS EM PORTO ALEGRE 32 – Ladeira (General Camara) – 32 EXTRACTO Freguezia do immovel: NOSSA SENHORA DO ROSARIO Denominação ou rua e numero: ARRAIAL DE SÃO JOSÉ Confrontações e caracteristicas: Um terreno, outrora potreiro, com a área superficial de 187.710 m2, mais ou menos, limitando-se ao Norte com o arroio do Sabão, ao Sul com a Estrada do Matto Grosso, a Leste com Angelo Ignacio de Barcellos, por uma linha recta, a Oeste com o General Joaquim Sabino Pires Salgado por uma cerca em quatro rumos differentes. Para isolar os doentes, os órgãos sanitários da época utilizavam lazaretos, que no final do século XIX podiam significar hospital de lazarentos (leprosos) e edifício onde fazem quarentena as pessoas vindas de terras onde reina doença epidêmica e contagiosa (Carvalho; Deus, 1895). Nome e domicilio do adquirente: FAZENDA DO ESTADO Os hospitais de isolamento ou lazaretos apresentavam algumas particularidades em rela- Reprodução da escritura de ção aos demais hospitais da época: eram financi- compra do terreno no Arraial de ados pelos órgãos públicos, enquanto os demais São José acervo Departamento dependiam, em grande parte, da filantropia e atu- de Patrimônio do RS avam no controle das doenças infecto-contagiosas, particularmente nos momentos de epidemias. A primeira referência a lazaretos em Porto Alegre reporta à década de 1880 como sendo um hospital para atender variolosos pobres quando da ocorrência de surtos epidêmicos. Como as medidas terapêuticas da época eram ineficientes, procuravase minimizar os riscos da doença para a sociedade, resultando mais em um combate aos doentes do que às doenças. O principal alvo, nesse caso, era a camada mais pobre da população, enquanto que aqueles com boas condições financeiras eram isolados em suas próprias residências. Os lazaretos estavam ligados ao Desinfectório de Higiene do Estado, que pertencia ao Departamento de Higiene da Secretaria de Estado dos Negócios do Interior e Exterior. Trabalhando em conjunto, os hospitais de isolamento e o Desinfectório 134 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Do isolamento ao sanatório: diferentes práticas e serviços em um espaço de saúde pública ... tinham por objetivo, primeiramente através do isolamento hospitalar, prevenir o contágio de novas vítimas e proporcionar a desinfecção de seus pertences e residências a fim de impossibilitar a disseminação das epidemias. Serviço de Assistência Pública de Porto Alegre, de 1898, que também recolhia portadores de moléstias transmissíveis – acervo Arquivo Histórico Moysés Vellinho. Desde 1893, conforme Relatórios da Secretaria de Estado dos Negócios do Interior e Exterior, já havia a demanda para a construção de um novo hospital de isolamento. Hospital de Isolamento em construção, 1909 – acervo Arquivo Histórico do RS. Somente em 1909, com a construção do Hospital de Isolamento no Arraial São José, na Estrada do Mato Grosso, no bairro Partenon, essa demanda seria atendida. A escolha do local, afastado do centro da cidade, segue a lógica higienista vigente, que prevê, diante da deficiência na prevenção de doenças, a segregação dos indivíduos que colocavam em risco a saúde da cidade. A partir de sua construção, a área onde se localizava o Hospital de Isolamento foi sendo utilizada pelo governo estadual para incorporar progressivamente novos serviços de saúde. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 135 Pedro Dornelles Picon et al. Em 1918, Porto Alegre foi vítima da pandemia conhecida como Gripe Espanhola ou influenza. Os primeiros registros de vítimas na cidade são de 18 outubro de 1918, quando três casos foram registrados. Entre os dias 19 e 23 foram recolhidos ao Hospital de Isolamento 21 doentes. Em novembro, a epidemia se generaliza pela cidade. A Diretoria de Higiene calculou em 70.000 o número de pessoas que contraíram a doença, em uma população de 168.700 habitantes. Hospital de Isolamento ampliado por ocasião da epidemia de gripe em 1918 – acervo Hospital Sanatório Partenon. Até dezembro de 1918, haviam falecido, em Porto Alegre, 1.316 pessoas com a epidemia. No estado, esse número subiu para 3.791. Uma das medidas de contenção da epidemia foi a ampliação do Hospital de Isolamento São José. A influenza, como doença contagiosa, inscrevia-se entre aquelas para cujo atendimento o hospital havia sido construído. Dessa forma, o Hospital de Isolamento passou a contar com 6 pavilhões. Em 1926, uma vez que a construção de um hospital específico para hansenianos não era viável, a Diretoria de Higiene adaptou dois dos pavilhões do Hospital de Isolamento para neles serem recolhidos os leprosos indigentes de Porto Alegre. O Hospital de Emergência para Leprosos, inaugurado em 1936, foi instalado no terreno do Hospital de Isolamento, próximo ao local onde hoje se encontra a Escola de Saúde Pública. O hospital tinha como objetivo atender exclusivamente aos doentes que perambulavam pelas ruas da capital ou para os casos contagiantes que necessitavam de imediato e rigoroso isolamento. 136 v Hospital de Emergência para Leprosos – acervo Hospital Colônia Itapuã. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Do isolamento ao sanatório: diferentes práticas e serviços em um espaço de saúde pública ... Procissão em frente ao Abrigo Carmem Gonçalves – Acervo Hospital Sanatório Partenon. No ano de 1940, foi criado, no Hospital de Isolamento, o primeiro serviço público de cirurgia da tuberculose do Rio Grande do Sul. Nesse período, o HI contava com duas seções, uma Seção de Tuberculose e uma Seção de Moléstias Transmissíveis Agudas. Com a necessidade cada vez maior de leitos hospitalares públicos para internação de doentes com tuberculose, o governo estadual inaugurou, em 1946, no Hospital de Isolamento, o Abrigo Carmem Gonçalves, para tratamento daqueles doentes então considerados incuráveis. Os abrigos para tuberculosos irrecuperáveis, como estabelecimentos de internação, representavam um papel importante na profilaxia da tuberculose, porque, segundo a lógica vigente, retiravam os doentes contagiantes do meio em que viviam e onde disseminavam a doença pelo contágio. Na mesma época, iniciou-se a construção de um outro pavilhão, de alvenaria, para tuberculosos recuperáveis, denominado Bonifácio Paranhos da Costa, inaugurado em 1949. Antes da descoberta da quimioterapia, na década de 1940, pouco era possível fazer para o controle da tuberculose, além da vacinação BCG e aplicação de algumas técnicas cirúrgicas, em casos restritos. Em qualquer situação, buscava-se a descoberta precoce do doente bacilífero, fonte de infecção, para que fosse encaminhado aos hospitais com a finalidade de isolamento e tratamento com as medidas disponíveis. A Campanha Nacional Contra a Tuberculose (CNCT), de 1947, pregava o isolamento de focos em hospitais. Essa foi a época do incentivo à criação de leitos para tuberculose no Brasil. A partir de pouco mais de 10 mil leitos, em 1946, chegou-se a mais de 21 mil no final de década de 50. Dentro dessa nova política de saúde, a partir de um convênio do Estado com a União, foi construído, com verbas federais, o Hospital Sanatório Partenon, inaugurado em 27 de janeiro de 1951. O projeto de um sanatório já era considerado pelo governo estadual desde, pelo menos, 1916, só passando a ser efetivado com a inauguração do HSP. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 137 Pedro Dornelles Picon et al. Na década de 60, o Hospital Sanatório Partenon estava lotado de crônicos , como resultado da pouca resolutividade dos dispensários de tuberculose, onde a taxa de cura era muito baixa. Esses pacientes permaneciam internados por longo tempo, bloqueando os leitos para os novos crônicos que continuavam sendo produzidos em razão do tratamento irregular. Hospital Sanatório Partenon no final da década Nesse período, ocorreram de 1950 – acervo Hospital Sanatório Partenon. mudanças no Sanatório Partenon para adequação às normas ditadas pela CNCT, que visavam à atualização do hospital aos novos conhecimentos. O tratamento prolongado a que os pacientes tinham que ser submetidos fazia com que tivessem que permanecer internados durante meses e até anos. Em conseqüência, terminavam criando estruturas de sociabilização que lhes permitissem uma permanência mais amena. Criaram, já nos primeiros anos de funcionamento do hospital, um grêmio cultural e uma cooperativa, organizavam festas, bailes e campeonatos, criaram uma rádio e um jornal internos, entre várias outras atividades. Uma dessas atividades, de grande repercussão dentro e fora do hospital, visto que contava com a participação de autoridades sanitárias importantes, era o Baile da Rainha da Primavera, escolhida entre as pacientes. O Hospital de Isolamento São José, concebido para tratar doenças contagiosas agudas, funcionou até o final da década de 1960, em concomitância com o Sanatório Partenon, quando passou a servir a pacientes com problemas dermatológicos, no início para dermatoses bolhosas conhecidas como fogo selvagem e, mais tarde, como Unidade de Internação em Dermatologia Sanitária. 138 v Baile da Rainha da Primavera, década de 1950 – acervo Hospital Sanatório Partenon. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Do isolamento ao sanatório: diferentes práticas e serviços em um espaço de saúde pública ... A AIDS passou a fazer parte da história do Hospital Sanatório Partenon em 1983, quando nessa instituição foi diagnosticado o primeiro caso da doença no estado. Desde então, o HSP dedica-se ao tratamento da doença, cada vez mais associada à tuberculose. Em razão disso, alguns novos serviços de saúde foram instalados na área do antigo Arraial de São José. No prédio original do Hospital de Isolamento, funciona, desde 1997, o Hospital-Dia para pacientes com AIDS. O Centro de Testagem e Aconselhamento Caio Fernando Abreu, que dá orientações sobre doenças sexualmente transmissíveis e AIDS, está instalado, desde 2000, no prédio que servia ao Sanatório e que depois passou a ser o Laboratório Central de Bacteriologia para o Programa de Controle da Tuberculose no RS. Além desses, estão instalados na área do Sanatório Partenon e do antigo Hospital de Isolamento o Hemocentro do Estado e o Centro de Saúde-Escola Murialdo. O Hemocentro foi criado em 1983, com a finalidade de coordenar as ações na área de hemoterapia. Antes da existência desse prédio, Prédio original do Hospital de Isolamento, de 1909, hoje esse serviço, então um em- Hospital-Dia para aids – acervo Hospital Sanatório brião do que vem a ser Partenon. hoje, funcionava em dependências do antigo bloco cirúrgico do Sanatório. Junto ao Hemocentro, começou a funcionar, a partir de 2002, a Clínica de Hematologia, atendendo pacientes hemofílicos e com Doença de Von Willebrand. O Centro de Saúde-Escola Murialdo, instituição voltada ao atendimento de saúde primário e referência da residência em Medicina Geral Comunitária, funciona desde 1993. O Laboratório Central de Patologia do Estado foi instalado nas dependências do antigo bloco cirúrgico do Sanatório, em 1997. Todas essas instituições atuam de forma integrada, atendendo unicamente pelo Sistema Único de Saúde. Hoje, o Hospital Sanatório Partenon, através de sua Direção de Ensino e Pesquisa, vem desenvolvendo, além de pesquisa na área das doenças infecto-contagiosas, sobretudo tuberculose e AIDS, pesquisa histórica voltada ao resgate da memória institucional e atividades de educação em saúde que buscam socializar esses conteúdos. Essas atividades deram origem ao Núcleo de Documentação e Memória do hospital, que realiza pesquisa documental, tendo como fontes documentos Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 139 Pedro Dornelles Picon et al. escritos e imagéticos da própria instituição e de acervos particulares e públicos; registro de história oral, a partir de depoimentos de antigos funcionários, pacientes e diretores; organização e ampliação do acervo institucional e atividades de divulgação para o público. A exposição Do Isolamento ao Sanatório, além de contar um pouco da história do Hospital e das instituições que o antecederam, apresenta um breve panorama da saúde desde meados do século XIX, com a constituição dos primeiros serviços de saúde em Porto Alegre, as principais doenças incidentes no estado e capital, e os tratamentos e formas com que a sociedade, em diferentes épocas, se relaciona com saúde e doença. O projeto contempla também a itinerância da exposição por escolas, centros comunitários, instituições educacionais e de saúde, além da constituição de um espaço permanente para o debate e a divulgação do trabalho produzido na instituição, bem como o estabelecimento de parcerias com as mais diversas entidades afins. De espaço de isolamento e exclusão, no século passado, a um complexo de serviços públicos de saúde nos dias atuais, esse endereço pretende continuar sediando, além de serviços qualificados, um espaço permanente de produção científica e debate sobre saúde pública e questões de interesse social. Del aislamiento al sanatorio: diferentes prácticas y servicios en un espacio de salud pública de Porto Alegre – de 1909 a 2001 Resumen: El tema Del aislamiento al sanatorio: diferentes prácticas y servicios en un espacio de salud pública de Porto Alegre - de 1909 a 2001 fue presentado por el Hospital Sanatório Partenon en el Seminario Información, Memoria e Historia en Salud Pública , promovido por el Ceids/RS en mayo de 2001. El artículo ora presentado pretiende traer alguna contribución para la investigación y la reflexión acerca de la temática del rescate de la memoria de la salud pública en el Estado del Rio Grande do Sul, a partir del microcosmos del Hospital Sanatório Partenon y de los diferentes servicios implementados en una misma área física del barrio Partenon, en Porto Alegre, del inicio del siglo XX a este inicio de siglo XXI. La trayectoría de ocupación de este espacio - de hospital de aislamiento a partir de 1909 a un complejo de servicios públicos de salud en los días actuales - puede auxiliar a la compreensión de cómo diferentes políticas, demandas y prácticas sanitarias determinan la estruturacción de los servicios de salud, en particular en el campo del tratamiento de las enfermedades infectocontagiosas. Palabras Clave: Memória institucional; Hospital Sanatório Partenon; Porto Alegre; Historia. 140 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Do isolamento ao sanatório: diferentes práticas e serviços em um espaço de saúde pública ... From the isolation to the sanatorium: different practices and services in a space of public health of Porto Alegre – from 1909 to 2001 Abstract: The topic From Isolation to Sanatorium: different practices and services in a space of public health in Porto Alegre – from 1909 to 2001 was presented by Hospital Sanatorio Partenon in the Seminar Information, Memory and History in Public Health, promoted by Ceids/RS in May 2001. The article here presented aims at contributing for the research and thinking on the theme of rescuing the memory of public health in the state of Rio Grande do Sul, starting from the microcosm Hosrital Sanatório Partenon, and the different services implemented in a same physical area in Partenon neighborhood, in Porto Alegre, from the beginning of the 20th century to the early 21st century. The way of occupation of that area – from an isolation hospital in 1909 on, to a complex of public health services nowadays – may help us to understand how the different sanitary politics, requirements and practices determine the structure of health services, mainly in the field of infecto-contagious diseases. Key-words: Institutional memory; Hospital Sanatório Partenon; Porto Alegre; History. Referências ABRÃO, J. S. Banalização da morte na Cidade Calada: A hespanhola em Porto Alegre, 1918. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. CARVALHO, J. A.; DEUS, J. Dicionário prosódico de Portugal e Brasil. 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Santa Maria: Ed. da UFSM; Bauru: EDUSC – Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1999. p. 62-63. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 141 Atenção montador a página 142 é branca Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã Artur Henrique Franco Barcelos1 Viviane Trindade Borges2 Resumo: O Hospital Colônia Itapuã (HCI) surgiu em 11 de maio de 1940, atendendo a uma política de saúde pública que segregava indivíduos portadores de Hanseníase. Sob essa perspectiva, tivemos a constituição gradual de uma comunidade que procurava reconstituir, no HCI, a sociedade “além muros” que os excluia, chegando a abrigar cerca de 700 pacientes. No início da década de 60, tivemos o controle da doença e a diminuição da incidência de casos no Rio Grande do Sul, ocorrendo muitas altas e diminuindo o número de internados. Assim, tornou-se possível dar abrigo a novos moradores. Em 07 de julho de 1972, tivemos o início do Projeto Centro Agrícola de Reabilitação – CAR, resultante de uma política de saúde pública que buscava a reinserção social de pacientes portadores de sofrimento psíquico por meio da laborterapia. Foram transferidos para o HCI cerca de 150 pacientes oriundos do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Embora uma novidade na política de saúde mental, a mesma reforçou o caráter asilar do Hospital. Este trabalho procura relatar a história desses pacientes dentro da instituição em uma perspectiva social, objetivando analisar o que foi feito para reintegrar estes egressos do internamento compulsório à sociedade, ao longo dos 61 anos do Hospital Colônia Itapuã. Palavras-Chave: Saúde Pública; Hanseníase; Laborterapia; Exclusão social; Reinserção social. Fundado em 1940, o Hospital Colônia Itapuã (HCI) surgiu para abrigar indivíduos portadores do Mal de Hansen. O HCI insere-se em um contexto onde as políticas em saúde pública visavam à exclusão social de portadores de doenças contagiosas como a Tuberculose e a Hanseníase, como já acontecia com portadores de Sofrimento Psíquico. O Hospital possuía o objetivo de segregar pacientes hansenianos do convívio social, confinando-os em um local longe dos centros urbanos. A área escolhida para a implantação do Hospital foi a antiga Fazenda Santa Clara, adquirida pela Sociedade Beneficente Leprosário Rio-Grandense. 1 Coordenador do Centro de Documentação e Pesquisa do Hospital Colônia Itapuã da Secretaria de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul, e-mail: [email protected] 2 Estagiária e pesquisadora do Cedope/Hospital Colônia Itapuã, e-mail: [email protected] Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 143 Artur Henrique Franco Barcelos et al. Esta aquisição se fez com o apoio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e do Governo Federal e ficava localizada em Itapuã, município de Viamão. Ao retirar estes indivíduos do convívio social, cumpria-se um duplo objetivo: evitar a propagação da doença e preservar a frágil aparência saudável da sociedade. A criação do HCI atendeu, desta forma, a uma política nacional de controle e prevenção da lepra implantada nas primeiras décadas do século XX e que viabilizou a construção de diversos leprosários, com características similares, em vários estados do país. Desde o início, o Hospital contou com o trabalho voluntário das Irmãs Franciscanas de Penitência e Caridade Cristã, para as quais, mais tarde, foi instalada uma residência. Os portadores do Mal de Hansen eram identificados pelo Serviço de Profilaxia da Lepra, ao qual cabia providenciar a internação dos casos em que houvesse risco de contágio. Vinha uns caminhão cheio de doente. É que pegavam em casa, sabe? Que coisa mais triste. Pegavam e nem deixavam se despedir da família...(L.K.)2 A infra-estrutura das dependências e a sua distribuição no espaço geográfico davam ao HCI um aspecto de uma microcidade, com instalações como escolas, igrejas, enfermarias, padaria, lavanderia, refeitório, cadeia e prefeitura, entre outras estruturas urbano-institucionais. Este micro-universo dividia-se em duas áreas, a área suja/doente, como era chamado o local onde residiam os pacientes, e a área limpa/saudável, onde residiam os médicos, as Irmãs Franciscanas e alguns funcionários As áreas eram delimitadas por cercas que impediam a circulação dos pacientes fora de seu espaço. O objetivo da criação deste espaço auto-sustentável era evitar que os pacientes tivessem contato com a sociedade. Analisando-se o cotidiano da vida no interior da Instituição é possível perceber que os pacientes buscavam reproduzir aspectos da sociedade externa que os havia excluído. Assim, ocorriam muitos casamentos, porém, tanto estes casamentos quanto os filhos destes pacientes envolviam medidas jurídicas, como as previstas pelo Decreto nº 7558 que regulamentava, no Brasil, o tratamento de doentes em leprosários, de 11 de novembro de 1938: [...] Art. 94 – e) o casamento entre doentes de lepra internados só será realizado com assentimento da administração dos estabelecimentos, que atenderá, salvo casos especiais, à sua oportunidade em relação ao estado da evolução da doença e à capacidade da seção destinada à habitação dos casados; f) os filhos de doente de lepra, logo após o nascimento, embora um só dos progenitores seja doente, serão separados e mantidos até à adolescência, quer em vigilância em domicílio, quer em preventórios especiais que, quando localizados na área do estabelecimento, ficarão anexos à zona de habitação das pessoas sãs, não podendo em caso algum ser 2 Todos os depoimentos de paciente possuem consentimento informado. 144 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã nutridos no seio de uma ama nem amamentados pela própria mãe, se esta estiver doente de lepra (Brasil, 1938). Os filhos dos pacientes eram encaminhados ao Amparo Santa Cruz, construído em julho de 1940, no bairro Belém Velho, em Porto Alegre, a fim de se evitar o contágio. Esta medida teve várias conseqüências sobre a estruturação familiar dos pacientes, o que é percebido na documentação da Instituição, onde se constata uma grande incidência de casos de crianças com problemas emocionais e, principalmente, pelos depoimentos dos pacientes: Ah, as crianças... agora chegou num ponto que tocou fundo o coração da gente. Quando a mulher ganhava nenê na enfermaria, o filho era arrancado dos braços da mãe e levado pro Amparo. Naquela época não podia ter criança aqui dentro, não deixavam, não era permitido, não que nem agora. Eu ia uma vez por mês lá visitar as minha guria, a Maria e a Isabel (N.T.T)3. Com o avanço no tratamento da doença e a diminuição da sua incidência no Rio Grande do Sul, no final da década de 50, não se fazia mais necessário o internamento compulsório, que foi abolido por lei em 1954. Assim, os pacientes poderiam voltar a seus locais de origem. Isto levou a uma diminuição de pacientes, que passaram de 700 para 340, em 1960. Apesar do internamento ter deixado de ser compulsório na década de 60, foi somente em 1987 que os filhos dos pacientes receberam permissão para permanecerem na Instituição, o que foi acontecendo gradualmente. Ocorreram problemas de adaptação entre pais e filhos que haviam perdido o convívio por longos anos. Muitos pais preferiram que seus filhos permanecessem no Amparo até a idade limite, 16 anos4, alegando que na Colônia não havia condições de estudarem e obterem uma profissão. De fato, a Escola Interna não fornecia qualquer tipo de diploma ou comprovante de escolaridade. Neste sentido, observou-se que havia uma relutância em trazer as crianças, em sua maioria já adolescentes, para o HCI. Na análise da documentação, foi observada a permanência de dois jovens no Amparo que ultrapassaram a idade limite e lhes foi estabelecida a data para que abandonassem a Instituição. Ocorre que, apesar destas crianças muitas vezes passarem períodos de férias de 20 ou 30 dias com seus pais no HCI, como é verificado na leitura de ofícios existentes no arquivo do Cedope/HCI, havia pouco contato 3 Esta preocupação com a relação familiar é verificada na documentação disponível, conforme se constatou em ofícios da diretora do Amparo à assistente social do HCI, enfatizando a importância do contato com os pais na educação das crianças e propondo um encontro para que esta questão fosse discutida. 4 Conforme o Estatuto e o Regulamento do Instituto Assistencial Infanto-Juvenil, documento do Amparo Santa Cruz à diretoria do HCI, de 30 de março de 1978, arquivo do Cedope/HCI. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 145 Artur Henrique Franco Barcelos et al. entre pais e filhos5. Outro limite ao contato entre pais e filhos dava-se pelo fato de que o mesmo somente poderia ocorrer quando os pais tivessem condições clínicas de recebê-los6. Porém, pela história oral são desvendados aspectos ignorados desta realidade (Constantino, 2001). É com base nos depoimentos dos sujeitos históricos que conseguimos compreender de forma mais explícita o quanto estas medidas de prevenção, que segregavam com o objetivo de curar e evitar o contágio, contribuíram para a efetiva destruição da identidade destes pacientes, não apenas no que se refere ao convívio social, mas à sua constituição familiar: Às vez eu tou revoltada aí, sabe o quê? Porque nóis ganhava as criança já ia embora pra lá, só via quando nascia né, depois quando ficava boa a gente tinha ordem pra ir lá visitar eles, mas ficar aqui não, não ficava com os pai. Então esses tempo, já faz muito tempo, a diretora lá do... ela veo aí e fez uma reunião lá na enfermaria, chamou todos os pai pra ir lá, daí eu fui, não sabia o que era. Daí ela disse que agora quem quiser trazer os filho pra cá morar com os pai pode trazer... todo mundo ali ficou quieto, eu levantei em pé e disse assim: Não, a senhora vai me desculpar, os meus não vêm pra cá morar aqui, porque quando eles nasceram não deixaram ficar com nós, mandaram pra lá e agora que tão grande que pode trabalhá... os meus não... tão tudo trabaiando, tão vivendo a vida deles... (L. do P. B.) Neste contexto, temos a relutância dos pais em aceitar seus filhos e a relutância dos filhos em aceitarem não apenas os pais, mas o próprio espaço a que estes pertencem. Não havendo alternativas, estas crianças são encaminhadas ao HCI, verificando-se a dificuldade de adaptação com a incidência de casos onde os jovens passam a sofrer de depressão, identificando o Amparo como sua casa7. O que chama a atenção é o caso de uma filha adotiva de um casal de hansenianos, a qual passa a residir com os pais aos 16 anos, que revela preconceito em relação à doença, como pode ser verificado em um documento destinado ao Hospital Psiquiátrico São Pedro, onde consta a evolução de seu comportamento: Há mais ou menos três anos começou a ter nojo / repulsa dos pais adotivos, ofende-os de leprosos e tudo mais. Acha que pode contagiar-se. Está extremamente rebelde e agressiva, fazendo ameaças de matar a mãe adotiva e se matar após [...]8. Percebe-se que a questão da doença não foi trabalhada com estes menores de maneira a conscientizálos a respeito das formas de contágio ou mesmo das razões que culminaram na institucionalização de seus pais. Sem dúvida, o internamento compulsório 5 Ofício da direção do HCI para a direção do Amparo Santa Cruz, de 20/12/1983. (arquivo do Cedope/HCI). 6 Ofício do Amparo Santa Cruz para a assistente social do HCI, de 07/05/1981. Arquivo do Cedope/HCI. 7 Estudo de caso do Serviço Social do HCI, de 30/04/1983, arquivo do Cedope/HCI. 8 Secretaria da Saúde e do Meio Ambiente. Hospital Colônia Itapuã. Evolução e prescrição do caso de paciente ao Hospital Psiquiátrico São Pedro. (Arquivo do Cedope/HCI). 146 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã não mutilou apenas a identidade dos portadores do Mal de Hansen, mas também de seus familiares e, principalmente, de seus filhos concebidos neste ambiente asilar, onde se buscava a reprodução da sociedade além muros. O que deve ser enfatizado é que estes menores não foram abandonados por seus pais, isto foi imposto por Lei, como forma de se evitar o contágio. Neste cenário, as visitas eram realizadas através da cerca que separava os dois mundos, sem que houvesse o contato físico, ou seja, pais e filhos apenas se observavam. Os bebês eram levados assim que nasciam, as mães não podiam nem amamentá-los e só os veriam um mês depois. Esta ruptura de laços familiares neste ambiente já tão frágil, no que se refere ao estabelecimento de vínculos, onde se estava preso sem se ter cometido crime algum, interferiu de forma a agravar a fragilidade emocional destes pacientes, que se viam sem o direito de viverem como cidadãos livres. Estavam presos por estarem doentes e, na tentativa de reconstituírem suas vidas, não podiam criar seus filhos. O regulamento asseverava que só em casos especiais os doentes poderão se ausentar do estabelecimento por tempo limitado, mediante licença e condições fixadas pelo respectivo diretor (Brasil, 1938). Sob esta perspectiva, percebe-se que a aproximação entre pais e filhos foi realizada de forma gradual. Inicialmente, a distância era considerada uma norma necessária para garantir a saúde das crianças, havendo um contato apenas visual através da cerca. Posteriormente, para aqueles com condições clínicas favoráveis, tornou-se possível visitar os filhos no Amparo, como pode ser verificado nos depoimentos, realizando-se passeios específicos para estas visitas. Após este processo de contato físico inicial, temos uma incipiente convivência diária, tornando-se possível trazer as crianças para passarem as férias junto aos pais. E, por fim, há a liberação para que os menores passassem a viver com seus pais, o que não deixa de ser uma necessidade imposta pelo Amparo, na medida em que estes somente poderiam ser abrigados até os 16 anos de idade. Desta forma, percebe-se uma inicial ruptura que procura ser resgatada de forma processual, porém não intencional. Ou seja, não foi feito um trabalho social pensado para que esta convivência fosse possível, os fatos apenas se encaminharam neste sentido, pois era a única solução, visto que a doença estava controlada e os filhos não tinham mais idade para permanecerem no Amparo. Havia, contudo, a necessidade de haver desenvolvido um trabalho com estas crianças, no sentido de compreenderem os motivos pelos quais estavam afastadas do convívio familiar. A partir do momento em que se tornaram possíveis as primeiras relações de convivência, seriam necessários esclarecimentos a respeito da doença e suas formas de contágio e prevenção, o que evitaria que os filhos sentissem receio de contrair a doença, passando a agir de forma preconceituosa, rejeitando seus pais. Na medida em que os pacientes passaram a ter o direito de abandonar a instituição ou, posteriormente, a permissão para que seus filhos pudessem residir nas dependências do Hospital, pôde-se refletir sobre o que foi feito para reintegrá-los ao convívio social. Podemos designar tais ex-pacientes Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 147 Artur Henrique Franco Barcelos et al. como pessoas egressas do cárcere, pois haviam sido retiradas de seus locais de origem e obrigadas a permanecer em um mesmo espaço de forma compulsória por um longo período. Muitas destas pessoas que puderam sair do HCI não foram aceitas em suas comunidades de origem e acabaram voltando para o Hospital, constituindo-o em um espaço asilar. Entre os egressos que conseguiram se reintegrar, muitos tiveram que esconder o seu passado, o seu internamento no HCI. Temos outros, entretanto, que nem ao menos tentaram a reintegração social, pois já não possuíam qualquer vínculo com a sociedade que os excluiu. A comunidade tinha medo. É medo da doença. Primeiramente, ninguém se misturava. Tinha muito preconceito em relação aos pacientes. Olha isso, pode ver que alguns mudavam de nome e tudo mais. Porque eles foram tirados da sociedade e colocados lá. E para ninguém reconhecêlos, trocavam de nome. Algumas famílias não considerava eles (Irmã Franciscana S. M. H.). Pela análise da documentação do período, percebe-se que nenhum trabalho foi realizado no sentido de recuperar a cidadania e a auto-estima dos pacientes. Ao iniciarem seu tratamento, os pacientes não possuíam nenhum contato com a família por meses e, quando este finalmente ocorria, era por trás da cerca que separava o mundo dos sadios do mundo dos doentes. Esta barreira que separa o internado do mundo externo, impedindo as visitas e as saídas, faz com que ocorra o rompimento do indivíduo com o seu papel anterior, ou seja, com o seu papel de cidadão livre e uma avaliação da perda deste papel (Goffman, 1999). O indivíduo perdia sua liberdade, não havia mais o direito de ir e vir. Este, agora era membro de um mundo à parte, criado para abrigar aqueles que possuíam Lepra como o fator determinante em comum. Os pacientes procuravam se integrar e interagir com o conjunto de normas impostas9 neste micro-universo, assimilavam e/ou modificavam tais normas, tornando o HCI o seu local de moradia e vida. A estrutura interna da Colônia separava em pavilhões os homens e as mulheres. Aqueles que se casassem passavam a morar no pavilhão dos casados, até que houvesse uma casinha disponível10. Os casados, em sua maioria, viviam em casas geminadas, sendo dois casais por casa. A educação das crianças não era formal. Os meninos e as meninas recebiam aulas em separado e os conteúdos não iam muito além da alfabetização básica, matemática e catequese. Estas crianças não eram filhas dos pacientes que 9 No acervo do Centro de Documentação e Pesquisa do HCI (Cedope) encontra-se uma série de regimentos internos de diferentes anos que procuravam regular a vida dos doentes. 10 As “casinhas”, termo utilizado pelos pacientes, eram destinadas exclusivamente aos casados. Eram casas geminadas, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, em que habitavam dois casais. Hoje os pacientes moram com seus familiares e podem modificar a estrutura da “casinha” como desejarem, sob a supervisão do Serviço de Arquitetura e Edificação do HCI (SAE), alguns pacientes da internação psiquiátrica também residem nestas instalações. 148 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã se casavam dentro do Hospital, mas sim, daqueles que vinham para o HCI doentes, em muitos casos, sem sua família. Sendo assim, foram definidos pavilhões para meninas e para meninos, os quais os pacientes denominavam de Internato. A vida dos internados era regulada pela existência de uma Prefeitura de Internados, a qual era subordinada à direção do Hospital. Pela análise da documentação da Prefeitura, percebe-se a existência de uma série de Protocolos de solicitações de pacientes a fim de obterem permissão para receberem visitas11, realizarem partidas de futebol12, realizarem bailes13 ou solicitações para mudança de dependências14, enfim, a direção procurava controlar toda a rotina dos pacientes. Esta imposição ao paciente de ter que solicitar permissão para realizar atos que pessoas podem executar de forma espontânea no mundo externo, como receber visitas e jogar futebol, o coloca em um papel submisso, coibindo a sua liberdade de ação (Goffman, 1999). Segundo o Decreto 7.558/38, as visitas deveriam obedecer às disposições do regimento interno do Hospital. Em ofício do auxiliar da Prefeitura dos Internados ao Diretor do HCI, do ano de 197315, encontramos uma crítica dos pacientes ao regimento interno, principalmente no que se refere às visitas: [...] Como é do conhecimento de V.S., nem um Diretor que passou por este Hospital, nestes últimos 10 anos, conseguiram solucionar os problemas das visitas. Conseguiram piorar ainda mais a situação, entre internados e visitantes. Muitos de nossos visitantes deixaram de vir nos visitar, pois uma hora podiam entrar livremente e ficar até alguns dias, outra hora, chegavam no portão de entrada, lá estava a ordem: é expressamente proibida a entrada de visitantes. No HCI, estavam pessoas internadas de forma compulsória, que foram afastadas não apenas do convívio social, mas também do contato físico com seus familiares e obrigadas a dividirem o seu espaço com pessoas estranhas. Pessoas que perderam seus direitos civis, podendo se fazer uma analogia ao tratamento empregado aos leprosos na antigüidade, onde uma cerimônia simbólica declarava o indivíduo doente como morto em termos civis (Albuquerque, [199-?]). Um trabalho e uma política de reinserção social, não apenas para que os pacientes não viessem a sofrer com o preconceito, 11 Protocolo nº 37/83, de 21/12/83, onde o paciente solicita à direção permissão para que seus sobrinhos e cunhada permaneçam no HCI no período de 21 a 25 de dezembro de 1983. Unidade / Prefeitura no acervo – Cedope/HCI. 12 Protocolo nº 35/83, de 16/11/83, onde o paciente solicita à direção permissão para a realização de uma partida de futebol em 20/11/83. Unidade / Prefeitura - acervo do Cedope/HCI. 13 Solicitação de pacientes à direção para a realização de um baile em 24/02/79. Unidade / Prefeitura -acervo do Cedope/HCI. 14 Solicitação de paciente à direção a fim de obter permissão para ocupar um rancho na Lagoa Negra, em 18/12/78. Unidade / Prefeitura – Cedope/HCI. 15 Ofício do auxiliar da Prefeitura dos internados ao diretor do HCI, em 15/11/1973 (arquivo do Cedope/HCI). Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 149 Artur Henrique Franco Barcelos et al. mas também para que tivessem condições financeiras para o seu sustento além muros, seriam absolutamente necessários, visto que lhes fora negado, de forma compulsória, o direito ao trabalho. O Decreto 7558/38, já referido, estipulava ao hanseniano: não exercer profissão ou ofício que, a juízo da autoridade sanitária, o ponha em contato direto ou indireto com pessoa sã. (Brasil, 1938). Na medida em que o tratamento poderia ser realizado em ambulatórios, salientava-se a existência de um documento que era fornecido pelo HCI ao paciente, para que este entregasse ao Chefe de Serviço de Profilaxia da Lepra, onde constava que: [...] o expoente é portador do Mal de Hansen [...] deseja fazer tratamento a domicílio, para isto está de acordo em cumprir as determinações da Lei Federal nº 610 de Janeiro de 1949, do Decreto 7481 de 14 de setembro de 1938 e do Serviço de Profilaxia da Lepra deste Estado. De fato, seria necessário um documento do HCI destinado ao médico responsável pelo tratamento ambulatorial, porém, chamou-nos a atenção o parágrafo final: Assim sendo, após as diligências que forem necessárias, requerer a V.Excia. se digne a conceder-lhe o isolamento a domicílio que é permitido por lei16. Os pacientes readquirem o direito de viver em sociedade, mas ao abandonar seu confinamento, ao atravessar a cerca que divide os dois mundos, alguns trazem nas mãos um documento onde são condenados ao isolamento a domicílio. Em que difere este isolamento do confinamento asilar? Quase não percebemos diferença, visto que o isolamento domiciliar somente era permitido em prédio que não fosse de habitação coletiva, de comércio ou de indústria. O doente não poderia receber visitas sem o consentimento da autoridade sanitária; somente poderia ausentar-se do domicílio com licença especial desta autoridade e não poderia exercer profissão em que realizasse contato direto ou indireto com pessoa sã. Os filhos destes pacientes seriam afastados e mantidos em preventórios até a adolescência. O não cumprimento destas exigências implicaria na remoção do doente para o Hospital de isolamento (Brasil, 1938). O tratamento domiciliar pouco diferia do tratamento hospitalar, ambos segregavam e marcavam a pessoa com o estigma da doença, um fardo que carregarão por toda vida. Como pode ser percebido pelos depoimentos, o preconceito sofrido por estes pacientes era reiterado quando regressavam para seus locais de origem ou quando revelavam seu passado: Eu não tive apoio dos meus colega de serviço, não me aceitaram ... aí entremo num acordo de eu retornar pra cá, eu aceitei, porque aqui eu trabalhava [...] (A. A.). 16 Acervo do Cedope/HCI. Correspondência ao Chefe do Serviço de Profilaxia da Lepra de Porto Alegre, assinada pelo paciente o qual expõe que é portador da doença. Hospital Colônia Itapuã, 17 de Setembro de 1960. 150 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã Não, nunca pra ninguém falei. Agora, só uma coisa eu tinha medo... meu falecido velhinho ele queria é botar uma bodeguinha, eu era contra diz mas eu já não tenho mão boa, vão me perguntar que que deu na mão e porque tem a mão assim e quem sabe um dia a gente se enrola e ficam sabendo da onde nós somos vai ver que não vamo vender um nada [...] (C. L.). Percebe-se que a pessoa realmente continuava isolada, apesar de estar entre a sociedade extra-muros. Estava fadada ao confinamento domiciliar, diferindo da instituição apenas em seu aspecto físico, acentuando-se a solidão de sentir-se um doente dentro da área limpa/saudável, onde não seria aceita se os sadios soubessem do seu passado, da sua origem, da sua identidade. Devido a esta realidade, muitos pacientes voltaram para o seu isolamento institucional no HCI e outros optaram por omitir sua identidade, deixando lacunas na sua história de vida que pudessem revelar sua origem. Porém, não foi somente o preconceito que fez com que os pacientes retornassem à colônia. O fato de terem sido arrancados de suas casas para viverem em isolamento causou uma ruptura não apenas familiar e social, mas também no que se refere ao trabalho. Estes pacientes tinham dificuldades em serem aceitos em suas comunidades de origem e, com isso, grande parte não conseguia retomar para seus antigos empregos. Os pacientes que passavam a residir em locais onde eram desconhecidos encontravam dificuldade em explicar a lacuna em suas carteiras de trabalho, deixada pelo tempo em que permaneceram internados. Assim, trabalhar e reconstruir suas vidas, resgatar a cidadania perdida pelos anos de confinamento compulsório, tornavase algo extremamente complexo, onde todos os caminhos pareciam levar ao regresso ao cárcere. O fato é que os portões foram abertos, o internamento não era mais compulsório, o direito de ir e vir foi reestabelecido, mas como reinserir estes egressos do HCI ao convívio social? Através da análise da documentação e dos depoimentos dos pacientes entrevistados, percebe-se que pouco foi feito neste sentido. Em um requerimento do vereador Appolinário da Costa, do município de Viamão, de 16 de novembro de 1971, tem-se a solicitação de um auxílio aos hansenianos que desejavam viver fora do Hospital17: [...] o maior problema social dos Hansenianos é em decorrência da difícil situação financeira, notadamente nos casos em que o doente não tem um auxílio pensão ou mesmo aposentadoria pela previdência social, que lhe permitam viver sem o auxílio de parentes ou mesmo de pessoas amigas. Pois toda criatura portadora de Hanseníase constantemente necessita de controle médico e um tratamento de vitaminas e cálcio, além de outras drogas que são de custo elevado, implicando em despesas permanentes. 17 Arquivo do Cedope/HCI. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 151 Artur Henrique Franco Barcelos et al. Ao pensar no preconceito sofrido por estes pacientes, a conclusão a que facilmente se chega é de que o maior problema social dos hansenianos era o estigma carregado em virtude da doença. Sem dúvida, a questão financeira foi preponderante para que regressassem ao HCI, mas o preconceito foi o principal fator, pois não permitiu a reintegração social necessária para que estes pudessem trabalhar, se manter e, conseqüentemente, reconstituir suas vidas. Outro ponto que chama a atenção no trecho citado do requerimento do vereador Appoplinário da Costa é a questão do custo do tratamento. Se este era realizado de forma ambulatorial em postos de saúde, gratuitamente, não haveria de se tornar um fardo oneroso para os pacientes, exceto pela discriminação social. A constituição de um espaço asilar na Colônia é reforçada pela transferência para o HCI, em 07 de julho de 1972, de cerca de 180 egressos do Hospital Psiquiátrico São Pedro, que eram de origem rural. No Rio Grande do Sul, a superação do modelo hospitalar centralizado na capital é um tema de discussão desde 1925 (Fagundes, 1992). Este sistema centralizado de atendimento, concentrado no Hospital Psiquiátrico São Pedro, demonstra sinais de fracasso desde o início do século XX, devido à superlotação, ao abandono e à cronificação dos doentes (Fagundes, 1992). As primeiras iniciativas neste sentido foi a construção de hospitais psiquiátricos regionais. No final dos anos 50, tem-se a criação dos primeiros ambulatórios de caráter público vinculados ao Hospital Psiquiátrico São Pedro e às universidades (Ibid., 1992). Nos anos 70, surge a proposta de setorização, ou seja, a criação de serviços de saúde mental por região e por área geográfica. Tal proposta possuia o objetivo central de reduzir o número de pacientes internados no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Assim, os pacientes permaneceriam junto às suas comunidades de origem. Para facilitar a reintegração social de pacientes cronificados no Hospital Psiquiátrico São Pedro, foi criado o Centro Agrícola de Reabilitação (CAR), localizado no Hospital Colônia Itapuã. Neste local, pacientes masculinos de origem rural seriam reabilitados por meio da laborterapia, praticando atividades agrícolas. Isto lhes possibilitaria resgatar o vínculo com o trabalho no campo, permitindo seu retorno para as suas comunidades no interior do Estado, segundo expectativa do governo estadual. A vinda destes pacientes, egressos do hospital psiquiátrico, provocou uma reorganização interna da comunidade hanseniana. O espaço físico é reordenado, uma série de pavilhões são desocupados para abrigar os novos pacientes e uma cerca é construída, agora dividindo pacientes hansenianos e pacientes psiquiátricos. Com o controle da Hanseníase, este espaço segregador passa a abrigar pessoas que acabaram por se institucionalizar, as quais representavam um número pouco significativo em relação à capacidade do Hospital. Há, portanto, a necessidade de se dar uma nova utilidade a este local e assim a história, ironicamente, se repete e os loucos passam a habitar o leprosário. Pode-se 152 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã fazer uma analogia com o período final da Idade Média, quando a lepra praticamente desaparece do mundo ocidental, deixado vazios às margens das comunidades em que viviam, anteriormente, os lazarentos, restam os espaços à espera de habitantes. O desaparecimento dos leprosários é interpretado por Foucault (1972) não como conseqüência das práticas médicas, mas como um resultado espontâneo da segregação e da ruptura com os focos orientais de contágio com o final das cruzadas (Foucault, 1972). Os leprosos se retiram e deixam vazios seus cárceres à espera de novos ocupantes. Mesmo com o desaparecimento dos leprosários, o estereótipo do leproso como figura temida e perturbadora, envolta por panos a fim de encobrir suas chagas, insiste em avançar ao longo da história. Mesmo encarada como uma manifestação de Deus, sua segregação é a sua salvação. Pelo abandono, obterão a comunhão, como Lázaro, que morreu em frente a casa do novo-rico e foi levado diretamente ao paraíso (Ibid., 1972) Mesmo com o desaparecimento dos leprosos, as estruturas de segregação se mantiveram e os locais onde funcionavam antigos leprosários passaram a ser habitados por novos personagens, igualmente marginalizados. Pobres, vagabundos, presidiários e “cabeças alienadas” assumirão o papel abandonado pelo lazarento, e veremos que a salvação se espera dessa exclusão, para eles e para aqueles que os excluem (Foucault, 1972). Acompanhando a leitura de Foucault, percebe-se que, sob um novo contexto, as antigas estruturas continuarão existindo, atendendo a uma perspectiva que não procura suprimir a doença e sim manter os doentes afastados em seu cárcere, separando o mundo dos sadios do mundo dos doentes. Os leprosários passam a ser ocupados pelos alienados. O Leprosário de Itapuã passa a se chamar Hospital Colônia Itapuã e ganha novos moradores: pacientes psiquiátricos. A história se repete, porém alguns leprosos ainda permanecem em seu confinamento, passando a dividir o espaço com os pacientes do Centro de Reabilitação para Doentes Mentais Crônicos (CRDMC)18. Neste ambiente, cujas estruturas de exclusão acabaram por transformar pacientes em moradores19, a vinda de pacientes originários do Hospital Psiquiátrico São Pedro reforça o caráter asilar e provoca a revolta dos pacientes/ moradores que ali estavam. Pelo depoimento dos pacientes, é possível perceber que os novos personagens não eram bem-vindos neste espaço criado como exclusividade para portadores de Hanseníase: 18 Inicialmente denominado CRDMC, posteriormente denominado CAR (Centro Agrícola de Reabilitação), este serviço encontrava-se subordinado ao Hospital Psiquiátrico São Pedro. Atualmente, este serviço denomina-se UIP (Unidade de Internamento Psiquiátrico), formando uma unidade do HCI. Arquivo do Cedope/HCI. 19 Estes pacientes são chamados hoje pela instituição de pacientes/moradores do HCI. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 153 Artur Henrique Franco Barcelos et al. [...] Houve reação do pessoal que já tavam aqui contra esses mental... mas depois se davam bem (L. A. dos S.). No documento sobre o histórico do Centro Agrícola de Reabilitação e Unidade de Internação Psiquiátrica, encontramos o registro que os moradores de Itapuã rechaçaram frontalmente a idéia de levar loucos para lá.20 Esta reação dos pacientes hansenianos em aceitar os novos moradores é perfeitamente compreensível, se pensarmos que estes procuraram reproduzir a sociedade que os excluiu, fazendo do HCI o seu local de moradia. A ocupação de seu espaço por outros doentes provoca indignação pois, na medida em que estes se institucionalizaram, passaram a ver o HCI como propriedade sua e trazer estes novos pacientes seria expropriar-lhes do que lhes pertencia: [...] eles chegaram e tomaram conta do que era nosso. Isso aí já deu revolta em muitas pessoas por causa disso... eu acho que eles não têm direito de chegar e agarrar as nossas coisa, nós tinha mesa de pingpong, agora tá lá no CAR (E. N). O leprosário passa a se tornar também hospício e, novamente, temos a constituição de dois mundos delimitados por uma cerca21: de um lado os leprosos e de outro os loucos, dois grupos estigmatizados pela sociedade ao longo da história, dividindo o mesmo espaço. Contudo, apesar de viverem igualmente com o fardo da exclusão social, embora por diferentes razões, houve resistência dos hansenianos em aceitar estes pacientes cronificados. Neste contexto, podemos novamente voltar nosso pensamento para a Idade Média, quando a ocupação dos leprosários deu-se, em um primeiro momento, por pacientes portadores de doenças venéreas. Esta nova lepra, como denominada por Foucault, toma o lugar da primeira, tornado-se a nova habitante dos leprosários. Houve, neste período, uma resistência dos próprios leprosos em aceitar estes doentes, pois sentiam medo (Foucault, 1972). Foucault destaca que, apesar de os leprosos terem direitos mais antigos de residirem em seus antigos cárceres, encontram-se em menor número e acabam por perderem seus espaços para os doentes portadores de doenças venéreas e, posteriormente, para os loucos. Essa realidade se confunde com o que ocorreu no HCI, porém, ao invés de perderem o seu espaço, os hansenianos passaram a dividi-lo com os pacientes vindos do Hospital Psiquiátrico São Pedro. A idéia de se transferir pacientes portadores de sofrimento psíquico para o HCI vinha desde a década de 60, quando tentou-se uma experiência com 20 Histórico do CAR. Unidade de Internação Psiquiátrica, S/D. Arquivo do Cedope/HCI. A cerca que separava os pacientes hansenianos dos pacientes portadores de sofrimento psiquico é retirada em 1990. Arquivo do Cedope/HCI. 21 154 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã cinco pacientes. Porém, este projeto foi interrompido, como consta em documento com o histórico do CAR/UIP: Estes eram visitados semanalmente por uma psiquiatra e a descontinuidade do tratamento aconteceu a curto prazo. Abandonados, os pacientes começaram a voltar para o HPSP. Alguns permaneceram como agregados, dedicando-se em troca de alimentação e pousada (Arquivo do Cedope/HCI). Este primeiro movimento, no sentido de libertar estes pacientes de seu cárcere manicomial, lhes fornecendo a possibilidade de reabilitação por meio do trabalho, parece trazer implícita a idéia de servidão, como nos evidencia o registro acima citado. Inicialmente fadados ao esquecimento, estes pacientes passaram a representar a obtenção de mão-de-obra barata. No período de 1972 a 1982, a horta dos pacientes do CAR fornecia verduras, não apenas para o consumo interno, mas para outras instituições hospitalares da Secretaria da Saúde e do Meio Ambiente, produzindo o esperado retorno financeiro do Projeto. Os pacientes onerosos para o Estado, que lotavam o Hospital Psiquiátrico São Pedro neste período, ganharam uma nova dimensão com a laborterapia22, na medida em que conseguiam arcar com a sua subsistência, como nos mostra Maria Clementina Pereira Cunha (1986): A intenção era de que, através do trabalho terapêutico dos internos, se atingisse o estágio de auto-suficiência e, possivelmente, mesmo um pequeno excedente destinado ao mercado. O louco, que constituía até então um ônus sobre os ombros do governo ou da família, seria de alguma forma reintegrado a um circuito produtivo e arcaria com o custo da sua própria substancia – condição, aliás indispensável para que se pudesse ampliar a escala da assistência (Cunha, 1986). Segundo a autora, a cura do indivíduo se dá na medida em que este recupera a sua capacidade produtiva (Ibid., 1986). Nesta perspectiva, em 1972, tem-se a fundação do CAR (Centro Agrícola de Reabilitação), inicialmente denominado CRDMC (Centro de Reabilitação de Doentes Mentais Crônicos), o qual, segundo relatório da equipe da UIP, possuía as seguintes atribuições: [...] o objetivo primordial de reabilitar pacientes que tivessem alta a curto e médio prazo, podendo os mesmos serem ressocializados e retornar ao seu meio familiar ou serem preparados para a vida extra-hospitalar em colônias, fazendas, sítios, etc; com o apoio das Delegacias de Saúde do Estado. 22 A laborterapia visava à recuperação pela reintegração do indivíduo ao mercado de trabalho. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 155 Artur Henrique Franco Barcelos et al. Havia uma série de critérios para a seleção de pacientes destinados ao CAR. Entre estes, se estabelecia que o paciente fosse de origem rural; que tivesse algum contato com a família ou perspectivas de viver fora do ambiente hospitalar; que fosse do sexo masculino; que tivesse idade entre 18 e 45 anos; que apresentasse, preferencialmente, diagnóstico de esquizofrênico crônico (Critérios da Divisão Pinel do HPSP). O que contradiz este objetivo é o fato de o Projeto ser voltado para doentes crônicos, pacientes sem possibilidade de reintegração, aos quais era certo o destino de terminar seus dias confinados em um cárcere manicomial (Cunha, 1986). Gradualmente, estes critérios tornaram-se mais flexíveis, visto que no Hospital Psiquiátrico São Pedro – HPSP já não havia mais pacientes com vínculo familiar ou com condições laborativas. Na medida em que grande parte dos pacientes acaba se institucionalizando, o CAR passa a se chamar UIP, adquirindo novos objetivos, conforme seus relatórios: A UIP é uma unidade hospitalar com finalidades de preservar, recuperar e elevar a dignidade dos doentes mentais, muitos dos quais institucionalizados e hospitalizados na UIP. Pacientes com alta e devolvidos a UIP por problemas não resolvidos em nível ambulatorial ou de serviços informais de saúde retornaram à UIP para cuidados intensivos da equipe e reencaminhados a suas localidades de origem. Neste contexto, a instituição passa a se redefinir. Temos uma população de pacientes/moradores que acaba por formar, no HCI, o seu espaço de moradia. A intenção se redefine no sentido de resgatar a cidadania destes pacientes através da ruptura com a segregação e da recuperação da auto-estima. Nesse sentido, temos a constituição do Projeto Fazenda Santa Clara, o qual possui entre seus objetivos a implementação de uma proposta terapêutica através do resgate da cidadania da população asilada: Este projeto visa à transformação de uma estrutura, que tinha como política o isolamento, em um espaço articulador de várias políticas públicas com ações integradas para o desenvolvimento sócio-econômico e cultural da região de Viamão, objetivando a inclusão pela renda, garantindo assistência e potencializando iniciativas de agroindústria envolvendo as secretarias de Saúde, Agricultura, Meio Ambiente, Cultura, Trabalho, Cidadania e Assistência Social. O HCI possui hoje cerca de 185 pacientes institucionalizados, entre portadores de sofrimento psíquico e hansenianos, e presta assistência ambulatorial de 24 horas, cuidado odontológico, atendimento psicológico e apoio laboratorial aos 5000 habitantes da região. Todo o trabalho que vem sendo desenvolvido pela instituição visa à recuperação da cidadania, pois esses cidadãos, que de formas diferentes acabaram por retornar ao seu internamento 156 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Segregar para curar? A experiência do Hospital Colônia Itapuã asilar, formam hoje uma comunidade de moradores marcados como regressos do cárcere23. O resgate da história da Instituição serve, agora, para conscientizar os pacientes/moradores de sua importância como sujeitos históricos, contribuindo para o resgate social. Nesta perspectiva, surgiu o Cedope/HCI – Centro de Documentação e Pesquisa do Hospital Colônia Itapuã – (Viamão, 1999). Assim, desencadeou-se um trabalho de história oral, o qual objetiva dar voz à memória e aos sentimentos vividos ao longo de uma história de exclusão e segregação. No que se refere aos depoimentos, a questão da identidade adquire um aspecto especial por meio das lembranças e da construção das representações do passado, pois as fontes orais fazem parte de um processo cognitivo, onde encontram-se presentes memória e história, levando a um reconhecimento da identidade do sujeito como parte integrante do fato histórico (Neves, 2000). As memórias podem ser distorcidas, podem mudar as cores das paredes, podem recolocar as cercas em seus lugares, mas são, enfim, interpretações que nos servem para conhecer e elucidar os fatos concretos e documentados. Neste sentido, os pacientes re-estabelecem seu vínculo com a instituição, reafirmando sua cidadania, percebendo que possuem histórias de vida singulares, mesmo diante da aparente uniformidade do internamento asilar, e podem re-conduzir sua história atual. ¿Segregar para curar? La experiencia del Hospital Colônia Itapuã Resumen: El Hospital Colônia Itapuã (HCI) surgió en el 11 de mayo de 1940, atendiendo a una política de salud pública que segregaba individuos portadores de Hanseníasis. Bajo esa perspectiva, tuvimos la constitución gradual de una comunidad que buscaba reconstituir, en el HCI, la sociedad “extra muros” que los excluía, llegando a abrigar cerca de 700 pacientes. En el inicio de la década de 60, tuvimos el control de la enfermedad y la disminución de la incidencia de casos en el Rio Grande do Sul, ocurriendo muchas altas y disminuyendo el número de internados. De esa manera, se posibilitó dar abrigo a nuevos habitantes. En 07 de julio de 1972, tuvimos el inicio del Proyecto CAR (Centro Agrícola de Reabilitação), resultante de una política de salud pública que buscaba la reinserción social de pacientes portadores de sufrimiento psíquico por medio de la laborterapia. Fueron transferidos para el HCI cerca de 150 pacientes oriundos del Hospital Psiquiátrico São Pedro. Aunque siendo una novedad en la política de salud mental, la misma ha reforzado el carácter asilar del Hospital. Este trabajo busca relatar la historia de esos pacientes dentro de la institución, en una perspectiva social, objetivando analisar lo que fue hecho para reintegrar estos egresos del internamiento compulsorio a la sociedad a lo largo de los 61 años del Hospital Colônia Itapuã. 23 Referimo-nos aqui aos egressos do cárcere (internação compulsória) que acabaram, de diferentes formas, retornando à instituição que os segregou de convívio, circulação, trabalho e paternidade/maternidade como de direito aos cidadãos comuns. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 157 Artur Henrique Franco Barcelos et al. Palabras Clave: Salud Pública; Hanseníasis; Laborterapia; Exclusión; Reinserción. To segregate or to cure? The experience of the Hospital Colônia Itapuã Abstract: The Hospital Colônia Itapuã (HCI) was founded on May 11, 1940, assisting on public health politics that segregated individuals bearers of Hansen’s disease. In such perspective, we had the gradual constitution of a community that tried to reconstitute, in HCI, the society “beyond the walls” that excluded them, sheltering about 700 patients. In the beginning of the 1960’s, there was the control of the disease and the decrease of the incidence of cases in Rio Grande do Sul, with a lot of discharges and reducing the number of interned patients. Thus, it was possible to shelter new residents. On July 07, 1972, there was the beginning of the Projeto Centro Agrícola de Reabilitação – CAR, resulting from public health politics that looked for the social reinsertion of patient bearers of psychic suffering through the labortherapy. About 150 patients originating from the Hospital Psiquiátrico São Pedro were transferred to HCI. Although an innovation in the politics of mental health, the same reinforced the character of shelter of the Hospital. This paper tries to tell the history of those patients inside the institution in a social perspective, aiming at analyzing what was done to reinstate those people coming from the compulsory internment to the society, along the 61 years of the Hospital Colônia Itapuã. Key-words: Public health; Hansen’s disease; Labortherapy; Exclusion; Reinsertion. Referências ALBUQUERQUE, M. O estigma da hanseníase: o pavor do contágio e as primeiras noções de contenção de risco. Jornal da ANRIO, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2. BRASIL. Decreto nº 7.558, de 11 de novembro de 1938. Regulamenta o tratamento dos doentes dentro dos leprosários. Brasília, DF. CONSTANTINO, N. S. de. História oral: conceito, evolução e perspectivas. Revista do Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas, v. 1, n. 3, p. 70-75, jul. 2001. CUNHA, M. C. P. O espelho do mundo: Juquery a história de um asilo. 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A gestão em saúde e sua confecção de imagem: arte política e produção de realidades democráticas1 David Capistrano Filho2 25 Anos da Revolução dos Cravos3 Resumo: O relato aqui documentado registra as tematizações ou problematizações tecidas sobre a proposta de gestão em saúde no Rio Grande do Sul para o período de 1999 a 2002, apresentada durante o Seminário de Avaliação, Integração e Participação na Elaboração e Execução da Política Estadual de Saúde, realizado nos dias 24 e 25 de Abril de 1999. O autor, convidado a debater os eixos propostos à gestão e as possibilidades de gerar uma adequada visibilidade ao projeto democrático-popular para a saúde, coloca o compromisso com os usuários das ações e serviços de saúde do SUS e o direito integral à saúde como diretriz em todas as decisões assistenciais, administrativas, educacionais e político-sanitárias. A to- 1 NOTA DO EDITOR: O presente texto corresponde à tematização/problematização apresentada por Capistrano Filho acerca das propostas do governo estadual eleito para o mandato 1999-2002 por ocasião do Seminário de Avaliação, Integração e Participação na Elaboração e Execução da Política Estadual de Saúde, realizado nos dias 24 e 25 de Abril de 1999. O autor deixou-nos o manuscrito que subsidiou sua argüição e as anotações realizadas durante o debate com a platéia do Seminário. O manuscrito e essas anotações fizeram parte do instrunmento público de relatoria do Seminário. 2 Sanitarista, ex-Diretor do Distrito de Vila Prundente -São Paulo/SP, ex-Coordenador de saúde em Jundiaí/SP, ex-secretário Municipal de Saúde das cidades de Bauru e Santos no Estado de São Paulo, ex-Prefeito municipal de Santos/SP, precursor da Lei da Reforma Psiquiátrica Brasileira, após a intervenção no Hospício Anchieta (Santos/SP) e a criação/idealização do projeto Núcleos de Atenção Psicossocial em saúde mental, desafiou a saúde pública brasileira ao atendimento humanizado extra- hospitalar pelo Programa de Internação Domiciliar e desencadeou o Programa de Redução de Danos para usuários de drogas injetáveis em São Paulo (retirou a cidade de Santos do primeiro lugar na prevalência de Aids no Brasil), implantou o Projeto Qualis de Atenção Integral à Saúde e a Casa de Parto de Sapopemba, ambos em São Paulo/SP, primeiro editor da re\rista Saúde em Debate do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes), um dos diretores da Coleção Saúde e Debate da Editora Hucitec e consultor em gestão e políticas de saúde nos vários âmbitos de coordenação do SUS. 3 NOTA DO EDITOR: A epígrafe utilizada por Capistrano Filho se refere à comemoração portuguesa da queda do regime salazarista. Portugal comemorou, no 25 de Abril de 1999, 25 anos da Revolução dos Cravos, a revolução militar que derrubou o regime ditatorial salazarista. A noite de 24 para 25 de Abril de 1974 desencadeou o processo revolucionário comemorado pelos portugueses como um tributo à liberdade, à alegria e à democracia. O cravo viria simbolizar a revolução quando, em resposta a oferenda de flores aos militares, um deles colocou o cravo vermelho recebido no cano da sua espingarda. A data ficou registrada como o Dia da Liberdade e o movimento das forças armadas como a Revolução dos Cravos, culminada em uma nova Lei Magna para o país, a Constituição de 1976. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 161 David Capistrano Filho nalidade discursiva utilizada pertence ao incentivo ao nascimento de um projeto de governo com elevada expectativa de inovação e acolhimento dos desafios democráticos e humanistas. Palavras-Chave: Controle Social; Gestão em saúde; Política de saúde; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul; Rio Grande do Sul. O eixo essencial/central de uma ação governamental deve ser a Defesa da Vida. Não como um eixo nos discursos e textos, mas no trabalho em saúde, com meios técnicos, domínio tecnológico, compromisso com os usuários e ênfase humanista em todas as decisões assistenciais, administrativas, educacionais e político-sanitárias. A gestão e os conceitos relativos à saúde devem estar pautados por uma ética, uma ciência, uma filosofia e uma arte da defesa da vida. Para tematizar/problematizar a gestão/atenção à saúde no âmbito estadual do Rio Grande do Sul, procurarei localizar os sete pontos que considero centrais para uma política de saúde de verdade e com qualidade4 : 1. defesa da vida como eixo essencial/central: este ponto sugere que a defesa política por uma vida de melhor qualidade e de maior duração busque aumentar a qualidade de vida e prolongá-la. Para isto, pode ser necessário mudar desde as bases, as estruturas técnicas, científicas e tecnológicas com que se trabalha em saúde. É uma luta ideológica de construção de valores que se contrapõem aos do neoliberalismo; de construção da oposição à máxima do lucro (e sua eficácia) por valores próprios do humanismo. A luta ideológica na sociedade tenta colocar as necessidades da qualidade de vida como um devaneio, enquanto propõe os valores do lucro e da eficácia como motivação e mobilização, provocando maior exclusão social; 2. defesa da vida como uma espécie de introdução ou uma espécie de porta aberta à luta contra a aceitação da idéia de que saúde é mercadoria e a população sua consumidora, pois isto acaba com a idéia de cidadania. A luta contra a concepção privatista e liberal que se opera nos serviços de saúde e no discurso profissional da saúde tem de ser feita como defesa da vida, numa perspectiva humanista; 3. compreender a defesa da vida como campo de alianças políticas, religiosas, sociais e como fonte de legitimação dos Governos (Democráticos e Populares): a saúde é campo privilegiado de consensos e alianças. A saúde pública possui um alto consenso na sociedade brasileira. Os temas da saúde da criança e da saúde materna possuem alto consenso em nossa sociedade. Criança, Mãe, Saúde e Educação são valores altamente legitimados. A Edu4 Saúde de Verdade e com Qualidade é a marca de governo proposta na campanha eleitoral para a gestão em saúde no Estado do Rio Grande do Sul, no período de 1999 a 2002, configurando o mote para o debate que apresento no presente documento. 162 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 A gestão em saúde e sua confecção de imagem: arte política e produção de realidades ... cação é mais ambígua, porque eivada de contradições (pode ser iluminista, pode ser libertadora, pode ser o treinamento e habilitação para a competição feroz, pode ser transcendental). Já a Saúde é campo onde se pode encurralar as posições do direito à saúde como defesa da criança e da mãe (direito à vida humana) e a defesa da dignidade do idoso, direito a uma vida mais longa; 4. compreender a defesa da vida como o contato com a alteridade: medir-se pelo outro, pôr-se na pele do outro; capacidade de indignação, voluntarismo sadio do respeito humano. Pode-se dizer que a política deve ser a ciência do necessário e a arte do possível. Uma política de saúde precisa do inconformismo e deve ser motor da busca de possibilidades. O inconformismo é a ruptura dos limites do impossível. Um motor de busca é a capacidade de cobrar, de entusiasmar, de construir o seu próprio carisma, de saber transitar entre o utópico e o imediato, de transitar da globalidade às tarefas pequenas do cotidiano, imbuído da tarefa grandiosa5; 5. conceber “arte” e “ciência” na mudança: como uma guerra política, ideológica, cultural e de sopapos, a mudança é a arte de saber fazer a guerra. A política não deixa de ser guerra, apenas é de outra natureza. Se queremos a paz, temos de nos preparar para a guerra. Esses são ensinamentos que vêm tanto de Sun Tzu, como de Karl von Clausewitz6; 6. construção de uma nova cultura sanitária: é a dissipação das névoas que encobrem os condicionantes da saúde e da doença. É a necessidade de relacionar as condições de vida e trabalho com a saúde, inclusive formando novos consensos para destruir a ideologia que mascara a relação trabalhodoença. Precisamos construir figuras emblemáticas , experiências e paradigmas da saúde, conceituando-a de forma concreta na sociedade. A mídia funciona como uma glândula maligna que secreta conceitos e valores negativos à vida, e precisamos construir heróis novos, para serem copiados/ seguidos, influenciarem o pensamento e serem exemplares. Convém lembrar os ensinamentos de Berthold Brecht (Sobre a confecção de retratos) e de Mao Tsé-Tung, sobre a necessidade de se criar referências concretas que mostrem que é possível construir esta nova cultura sanitária. Se criamos serviços/ações que podem ser referidos sempre como aqueles que defendemos, podemos dizer: não temos todos os serviços perfeitos, mas podemos mostrar o nosso ideal; 5 Quando fizemos, em Santos, a intervenção no Hospício Anchieta, Antônio Lancetti dizia: “o que precisamos fazer agora, além de seguirmos a luta antimanicomial, é prestar os cuidados materno-infantis que os moradores desse manicômio precisam.” Basaglia dizia que precisamos insuflar os participantes à luta e também prestar os cuidados maternais àqueles que temos que cuidar, realizar a maternagem daquilo que queremos ver crescer/desenvolver-se. 6 Os ensinamentos lógicos e abrangentes d’Arte da Guerra de Sun Tzu, desde o século IV antes de Cristo, colocam a política como uma estratégia da vida. A política é uma espécie de guerra sem efusão de sangue; a guerra é mesmo uma parte das relações políticas, cujo fim é forçar o adversário a executar a nossa vontade, mas a guerra absoluta, a guerra total, nos termos de Clausewitz, é a guerra popular, onde o sujeito político é o povo. A guerra passa, nestes termos, a coincidir com a soberania do povo. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 163 David Capistrano Filho 7. intersetorialidade: trabalhar com as áreas da Educação, do Saneamento e do Meio Ambiente, que ajudam a dar governabilidade e legitimidade a um projeto popular para a área da saúde e para a qualidade de vida humana. Há uma nova mídia no mundo que precisa ser utilizada de maneira detalhada, é um trabalho político que combina a difusão da formação de uma nova cultura sanitária com as experiências concretas. A maior artilharia para a guerra está na difusão de informação, a guerra se ganha com a infantaria, mas a artilharia é o seu impacto7. As linhas estratégicas de trabalho do setor da saúde no Estado do Rio Grande do Sul – Descentralização, Regionalização, Formação, Atenção Integral e Fortalecimento do Controle Social – constituem a base e as condições necessárias para alcançar alguns objetivos de alta relevância, capazes de ter impacto no quadro epidemiológico do estado e de contribuírem poderosamente para a construção de consensos e legitimidade do governo eleito pelo povo gaúcho em 1998. As macrodiretrizes da Secretaria de Estado da Saúde (SES/RS) para alcançar seus objetivos são: a gestão democrática e participativa e o apoio técnico e financeiro à descentralização, o ordenamento regionalizado da rede de atenção, o impulso ao desenvolvimento da Atenção Integral à Saúde e o desencadeamento de múltiplos processos de formação como meio e estratégia de viabilização desses objetivos. Estas macrodiretrizes, associadas às iniciativas de capacitação de gestores e de conselheiros de saúde e de cooperação técnica com os municípios, redefinem o papel do setor da saúde no SUS (no país e no Rio Grande do Sul): municipalização com papel ativo do gestor estadual. Ser governo não significa a mesma coisa em diferentes conjunturas/ contextos. Na situação de crise em que vive o país e o Rio Grande do Sul, cujas conseqüências são alto desemprego, destruição dos serviços sociais, empobrecimento acentuado da classe média, exploração dos trabalhadores e ampliação do número de excluídos, a missão de uma Secretaria da Saúde é a defesa da vida da população, em primeiro lugar dos mais vulneráveis (os trabalhadores da cidade e do campo, os excluídos em geral, as crianças e os idosos, os jovens vitimados pelas drogas e pela violência, por exemplo). Não entoar a defesa da vida como a ladainha da qualidade de vida que neutraliza a participação política popular ou as lutas contra-hegemônicas por 7 Com o Qualis se pode aprender muito de artilharia: aprendemos como se forma e se informa a opinião. Não é a TV, são as rádios, aprendemos a disputar os comunicadores através dos formadores desses comunicadores (trazer até esses comunicadores o máximo de figurões em saúde para que tenham seus relatos e gravações para levar ao ar no dia-a-dia, mostrar-se sempre acessível e pronto para entrar no ar ou realizar uma gravação), juntar os intelectuais de saúde e agentes de base, fazer jornais locais sobre saúde, aproveitar a experiência das igrejas evangélicas, distribuir santinhos com frases de saúde etc., é o trabalho da Educação Popular em Saúde. 164 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 A gestão em saúde e sua confecção de imagem: arte política e produção de realidades ... maior autonomia e maior poder de decisão, mas Ser governo, isto é, ajudar a desenvolver e difundir uma nova cultura sanitária, cuja síntese é a legislação do SUS e os novos desenhos organizacionais da assistência em implantação no país. Ser governo é, também, ser oposição aos governos locais e federal que sustentam e executam a política neoliberal, antinacional e antipopular. O padrão de referência dos indicadores de saúde no Rio Grande do Sul não deve ser o Brasil e, sim, o de Cuba e dos países mais desenvolvidos do mundo, particularmente o Canadá, a Inglaterra, o Japão e os países escandinavos. O trabalho de uma Secretaria da Saúde, em todos os níveis, deve ser concebido como técnico-político. A dimensão política, em nenhum momento, pode passar para segundo plano ou ser esquecida. Como a guerra, a política exige estratégia, tática, suprimentos, reservas, tropa (infantaria e artilharia), alianças e, sobretudo, audácia. O método da construção de situações exemplares e de heróis do novo sistema de saúde é o mais adequado, tanto para disseminar o novo no conjunto dos serviços, como para difundir elementos da nova cultura sanitária em construção. A intersetorialidade deve ser tenazmente buscada. Decorre da própria natureza da saúde, resultante de condições de vida e de trabalho onde influem a existência ou não de políticas sociais, a estrutura e a conjuntura econômica nacional, estadual e, também, local e microrregional. No Estado do Rio Grande do Sul, onde 80% dos municípios são pequenos, a saúde pode e deve liderar a discussão de Planos Integrados de Desenvolvimento Rural, por exemplo. As políticas de saúde mental e de saúde do idoso também só podem se desenvolver com o recurso à cooperação de outros órgãos governamentais e de iniciativas da sociedade civil. Não haverá êxito possível no trabalho de uma Secretaria da Saúde sem escolher prioridades e aferrar-se a elas. Onde tudo é prioridade não há possibilidade, nem resultado visível do trabalho. Saúde é uma área potencialmente geradora de prestígio, legitimadora do governo democrático-popular, podendo, também, ser o contrário. Isso exige uma meticulosa, engenhosa e audaz iniciativa na área da comunicação. Nesse sentido, proponho, com base em tudo que ouvi nas propostas/ teses, apresentações e debates neste Seminário de Avaliação, Integração e Participação na Elaboração e Execução da Política Estadual de Saúde, sete eixos de ação para o setor da saúde e os meios de sua viabilização: 1. reduzir a mortalidade infantil, especialmente nos municípios onde ela ainda é superior a 20/1.000 nascidos vivos. Considerar que a mortalidade infantil, no Rio Grande do Sul, está concentrada no componente neonatal precoce e neonatal em geral; 2. melhorar os cuidados pré-natais, a assistência ao parto e ao puerpério, perseguindo os objetivos de promover o parto normal e humanizado e o aleitamento materno; 3. melhorar a assistência ao idoso, levando em conta a importância des- Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 165 David Capistrano Filho se segmento na estrutura demográfica do estado, sua contribuição para a morbi-mortalidade e a utilização dos leitos hospitalares hoje existentes; 4. reorganizar a assistência hospitalar, construindo uma rede hierarquizada (complementarizada) de estabelecimentos, em conjunto com os municípios e com os hospitais públicos e filantrópicos; 5. dar prioridade, em termos de vigilância à saúde, à luta contra o uso inadequado de defensivos agrícolas (agrotóxicos) e anabolizantes para animais, protegendo a parcela dos trabalhadores envolvida na agricultura familiar e a saúde dos consumidores, além de viabilizar a exportação de produtos agropecuários para os países onde a legislação é rigorosa e observada; 6. apoiar os municípios para o desempenho de suas funções no SUS, especialmente nos itens capacitação de secretários, gerentes de unidades e demais profissionais, mediante cooperação técnica; 7. contribuir poderosamente para a construção e difusão de uma nova cultura sanitária, centrada na compreensão do vínculo entre as condições de vida e trabalho e os padrões de saúde, na prioridade à prevenção, na promoção do autocuidado (desenvolvendo a autonomia das pessoas) e no combate às concepções hospitalocêntricas e medicalizantes, bem como contra às idéias de saúde como mercadoria e de cidadãos como meros consumidores. As principais iniciativas para executar esse conjunto de objetivos (que devem ser quantificados, ou seja, transformados em metas) são as seguintes: 1. qualificar e expandir a proposta dos Programas Agentes Comunitários de Saúde e Saúde da Família como instrumentos adequados para promover a elevação da cobertura e a melhora qualitativa do pré-natal, a assistência ao puerpério, o aleitamento materno, 100% de cobertura vacinal e o controle da diarréia/desidratação e das infecções respiratórias agudas, na infância; 2. implantar Casas de Parto, operadas por enfermeiros obstetras capacitados, com os propósitos de incentivar o parto normal, humanizar o parto, reduzir a mortalidade materna e perinatal e descongestionar os hospitais de maior porte que, organizadamente, ficariam responsáveis pelos partos cirúrgicos e por fórceps, que não deveriam ultrapassar 15-20% do total; 3. construir, em conjunto com a Secretaria do Trabalho, da Cidadania e da Assistência Social e com os municípios, Centros de Convivência utilizáveis por idosos, para combater a solidão, prevenir o sofrimento mental, promover caminhadas e outros exercícios, bailes e excursões, bem como a adesão a tratamentos permanentes, como os referentes à hipertensão arterial e ao diabetes (mediante grupalização, troca de receitas etc.) e às doenças respiratórias, como a asma e a doença pulmonar obstrutiva crônica e por outros cidadãos onde a convivência é instrumento de defesa da vida (crianças, adolescentes, jovens); 4. definir as funções dos pequenos hospitais municipais e filantrópicos espalhados pelo estado, cerca de 400 no Rio Grande do Sul, podendo neles 166 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 A gestão em saúde e sua confecção de imagem: arte política e produção de realidades ... serem sediadas Casas de Parto, leitos para internações de enfermidades mais simples e de curta duração e cirurgias que até poderiam ser feitas ambulatorialmente. Além da definição de funções, a Secretaria da Saúde poderia ajudar na capacitação de gestores e na elaboração de protocolos clínicos; 5. a luta contra o uso inadequado de anabolizantes e agrotóxicos deve assumir as feições de uma verdadeira campanha, envolvendo os municípios, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (com seus acampamentos e assentamentos), a Federação dos Trabalhadores da Agricultura, a Secretaria da Agricultura, as Universidades e os órgãos do Ministério da Saúde e do Ministério da Previdência; 6. a ajuda, em termos de capacitação e cooperação técnica aos municípios, deve ser uma função primordial da Escola de Saúde Pública, por meio de cursos de curta duração realizados em Porto Alegre ou nas sedes das coordenadorias regionais de saúde (CRS). Dadas as prioridades, a cooperação técnica deve se voltar para programas como o de acompanhamento de recém-nascidos de risco. A Escola de Saúde Pública deve ser menos acadêmica e mais amplamente envolvida com o máximo de prioridades da SES ou SUS/RS; 7. a construção e difusão de uma nova cultura sanitária não se confunde, nem se reduz à propaganda. Ela requer a base sólida do trabalho concreto, ao fim e ao cabo, percebido pela população como prestação de serviços, inclusive os imateriais, exigindo a cooperação com os municípios, conquistando dirigentes, técnicos e conselheiros municipais e estaduais de saúde. A difusão da nova cultura é uma arte: Brecht sintetizou essa arte específica (a de propagar a verdade) em célebre texto intitulado Cinco maneiras de dizer a verdade. Mao apontou um caminho fecundo, especialmente para nós que trabalhamos em regime de economia de guerra. Para usar o método de Mao, que exortava os chineses a fazer como os que melhor faziam, precisamos montar vitrines. Aí vão algumas sugestões de vitrines: a) uma Casa de Parto em cidade da região metropolitana que não tenha suficientes leitos obstétricos, após capacitação de um grupo pioneiro de enfermeiros obstetras; b) um Centro de Convivência para crianças, adolescentes, jovens e idosos; c) a escolha de um município que será declarado livre de agrotóxicos e anabolizantes; d) a escolha de um hospital pequeno (máximo de 50 leitos) que será redirecionado nos moldes da reorganização proposta, inclusive com a definição de sua referência de maior complexidade de recursos instrumentais; e) a produção de um cartaz e um guia de utilização dos serviços públi- Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 167 David Capistrano Filho cos de saúde, centrado na difusão do direito à saúde, incluindo os principais textos legais (em linguagem clara e resumida). Esse guia pode ser oferecido aos municípios e entidades sindicais e de movimento popular, que poderão acrescentar seu logotipo na capa e contribuir para alcançar grande tiragem. Guerra pelo direito à saúde. Valores humanistas e cooperação técnica e financeira que evidenciem a saúde como uma nova cultura da solidariedade, não autoritária. Defesa da vida com meios técnicos, domínio tecnológico e compromisso com os usuários que evidenciem o efetivo cuidado à saúde com a luta pela autonomia das pessoas. A gestão do setor da saúde deve ser um tributo à defesa da vida no próprio trabalho em saúde: democratização do direito à saúde, descentralização com papel ativo do gestor estadual e fortalecimento do conhecimento pela população. La gestión en salud y su confección de imagen: arte política y producción de realidades democráticas Resumen: El relato aqui documentado registra las tematizaciones o problematizaciones tejidas sobre la propuesta de gestión en salud en el Rio Grande do Sul para el período de 1999 a 2002, presentada durante el Seminario de Evaluación, Integración y Participación en la Elaboración y Ejecución de la Política Estadual de Salud, realizado en los días 24 e 25 de Abril de 1999. El autor, invitado a debatir los ejes propuestos a la gestión y las posibilidades de generar una adecuada visibilidad al proyecto democrático popular para la salud, coloca el compromiso con los usuarios de las acciones y servicios de salud del SUS y el derecho integral a la salud como directriz en todas las decisiones asistenciales, administrativas, educacionales y político sanitárias. La tonalidad discursiva utilizada pertenece al incentivo al nacimiento de un proyecto de gobierno con elevada expectativa de inovación y acogimiento de los desafíos democráticos y humanistas. Palabras Clave: Control Social; Gestión en salud; Política de salud; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul; Rio Grande do Sul. The administration in health and its image-making: political art and production of democratic realities Abstract: The report here documented registers the themes or problems which came up during the administrative proposal of health in Rio Grande do Sul for the period of 1999 to 2002, presented during the Seminar of Evaluation, Integration and Participation in the Elaboration and Execution of the State Politics of Health, held in April 24 and 25, 1999. The author, invited to debate the axes proposed to the administration and the possibilities of generating an appropriate visibility to the democratic-popular project for health, places the commitment with the users of the actions and services of health from SUS and the integral right to health as guideline in all of the assistance, administrative, educational and political-sanitary decisions. 168 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 A gestão em saúde e sua confecção de imagem: arte política e produção de realidades ... The discursive tone used belongs to the incentive to the creation of a governmental project with high expectation of innovation and reception of the democratic and humanists challenges. Key-words: Social control; Administration in health; Politics of health; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul; Rio Grande do Sul. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 169 Atenção montador a página 170 é branca Resumo Atenção montador a página 172 é branca Avaliação das condições higiênico-sanitárias em alimentos envolvidos em surto ocorrido no ... Avaliação das condições higiênicosanitárias em alimentos envolvidos em surto ocorrido no município de Antônio Prado/RS – Janeiro de 1999 XVII Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia de Alimentos, 08 a 10 de gosto de 2000, em Fortaleza, CE. Anita Mércio D’Andrea1 Helena Jansson Rosek1 Maria do Céu Borralho e Albuquerque1 Yara Elisabetha Rampanelli1 O trabalho de investigação de surtos de enfermidades causadas por alimentos, pelo serviço de Vigilância Sanitária, permite estabelecer medidas que garantam a inocuidade dos mesmos. A ocorrência de surto de origem alimentar, envolvendo 600 pessoas, foi investigada pela Vigilância Sanitária Municipal. Cerca de 15 horas após a ingestão dos alimentos, iniciaram os sintomas: náuseas, vômitos, cólicas com distensão abdominal, diarréia, febre e dor de cabeça. Aproximadamente 164 pessoas foram hospitalizadas no Hospital São José, no Município de Antônio Prado. O presente trabalho relata a contribuição com a Vigilância Sanitária, no sentido de procurar isolar o provável agente causador do surto e conhecer a epidemiologia da transmissão de enfermidades por alimentos. Os alimentos enviados ao Laboratório Central (Lacen) foram: sopa de agnoline; carne lessa; pescoço recheado; carne de gado assada e crua; creme de maionese caseira; bolo; pão; alface; pimentão; repolho; tomate; mortadela; presunto; queijo fatiado; ralado e de fôrma; frango assado e cru. Também foram remetidas amostras de água, sendo uma da fonte de abastecimento municipal e outra do reservatório do salão onde ocorreu a confraternização. Todas as análises de alimentos foram realizadas seguindo as metodologias recomendadas pelo Compendium of Methods for the Microbiological Examination of Foods, da American Health Association (APHA)2 e os padrões adotados foram os da Portaria SVS-MS nº 451, de 15.09.97. Para análise da água foi realizada a pesquisa de coliformes totais e E.coli, em 100 ml de amostra, de acordo com a técnica do substrato cromogênico, recomendada pelo Standard Methods for Examination of Water and Wastewater3 e os padrões de referência foram os indicados na Portaria 1 Técnico da Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde/Fepps – Laboratório Central de Saúde Pública/Lacen, e-mail: [email protected]. 2 AMERICAN PUBLIC HEALTH ASSOCIATION. Compendium of methods for the microbiological examination of foods. 3th ed. 1992. cap. 25, p. 371-415. 3 AMERICAN PUBLIC HEALTH ASSOCIATION. Standard methods for examination of water and wasterwater. 9th ed. 1995, p. 64-65. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 173 Anita Mércio D’andrea et al. MS nº 36, de 19.01.90. De um total de 19 amostras recebidas e analisadas, verificou-se a presença de Salmonella sp e de coliformes fecais em 11 (57,8%); de Staphylococcus aureus em 7 (36,8%); de clostrídios sulfito redutores em 4 (21,05%) e de bolores e leveduras em 1 (5,2%). As amostras de água também estavam em desacordo com a legislação, no que se refere à potabilidade (consumo humano), pela presença de coliformes totais e Escherichia coli. As Enfermidades Transmitidas por Alimentos são um grave problema de saúde pública em todo o mundo4 e o presente estudo buscou contribuir com dados para o conhecimento epidemiológico dos agentes causadores das patologias manifestadas. O número de amostras que apresentaram microrganismos potencialmente capazes de causar Enfermidade Transmitida por Alimento, bem como a presença de indicadores de condições higiênico-sanitárias deficientes, apontam para possíveis falhas nas condições de processamento e/ou armazenamento dos alimentos oferecidos para consumo, aumentando a probabilidade de contaminação do produto por bactérias patogênicas. Não foi possível isolar os microrganismos em amostras provenientes dos manipuladores, pois este material não foi enviado ao Lacen, o que prejudicou o fechamento do surto. A atuação da Vigilância Sanitária em todas as esferas é fundamental, proporcionando programas de treinamento aos manipuladores de alimentos, promovendo a segurança alimentar e objetivando, fundamentalmente, à diminuição de surtos que, além de causarem prejuízos à saúde da população, acarretam significativas perdas econômicas para o estado 5. Palavras-Chave: Surto; Enfermidades; Alimentos. 4 FOOD AND DRUG ADMINISTRATION BACTERIOLOGICAL ANALYTICAL MANUAL. 8th ed. Arlington: AOAC, 1995. cap. 5, p. 1-20. 5 Pode-se perfilar este estudo aos de D.S.Gelli et al. (Surto de enfermidades transmitidas por alimentos investigados pelo Laboratório de Saúde Pública do Estado de São Paulo, no período de 1994 a 1998. In: Congresso Brasileiro de Microbiologia, 20, 1999, Salvador-BA) e A.M.M. Simões et al. (Avaliaçãoda qualidade microbiológica das refeições servidas por uma unidade de alimentação e nutrição de Salvador -BA, no período de 1998. In: Congresso Brasileiro de Microbiologia, 20, 1999, Salvador-BA). 174 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Avaliação de produtos importados analisados no Lacen do Rio Grande do Sul – 1999 Avaliação de produtos importados analisados no Lacen do Rio Grande do Sul – 1999 XVII Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia de Alimentos, 08 a 10 de agosto de 2000, em Fortaleza, CE. Anita Mércio D’Andrea1 Débora Cecconi Fulginiti1 Helena Jansson Rosek1 Lúcia Maria Guedes Diefenbach1 Maria do Céu Borralho e Albuquerque1 Rosaleine Grando1 Yara Elisabetha Rampanelli1 Com a criação do Mercosul e a crescente abertura do mercado internacional, desenvolveu-se a internacionalização da economia brasileira. Os laboratórios precisam estar preparados para atender à demanda de análise de alimentos que entram em nosso País. Com a preocupação de assegurar a qualidade de alimentos ofertados, oriundos de outros países, foram realizadas diversas análises de vários produtos importados. Esta modalidade de análise atende ao programa realizado junto ao Ministério da Saúde, por meio da Vigilância Sanitária de Portos, Aeroportos e Fronteiras. Do ponto de vista da saúde, os conceitos de sanidade e de qualidade não podem ser considerados isoladamente. Um produto pode estar atendendo aos padrões de qualidade usualmente aceitos porque estes padrões são relativos às condições físicas e organoléticas e estar sanitariamente inadequado porque contém agentes ou substâncias prejudiciais à saúde, não detectáveis pelos órgãos dos sentidos. Os laudos analíticos têm papel fundamental para a liberação dos respectivos lotes, sendo necessários para posterior comercialização desses produtos. Este trabalho teve como objetivo conhecer a qualidade de alguns alimentos importados e comercializados no estado do Rio Grande do Sul. Durante o ano de 1999, foram coletados 187 produtos importados para análise fiscal junto ao Laboratório Central (Lacen). Os alimentos enviados foram os seguintes: massa de grão duro, carne bovina em conserva, molho de ostras, pó instantâneo para bebida nutritiva, chás, leite de côco natural, açúcar de palmito, bebida sauza margarita, pêssegos em calda, presunto, lombo suíno, pernil suíno defumado e curado, mortadela, batata chip frita, funcho e mangerona, provenientes de diversos países. Todas as amostras foram analisadas microbiologicamente, dependendo do tipo de alimento, quanto à presen- 1 Técnico da Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde/FEPPS – Laboratório Central de Saúde Pública/Lacen, e-mail: [email protected]. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 175 Anita Mércio D’Andrea et al. ça de Salmonella sp, coliformes fecais, Staphylococcus aureus, Bacillus cereus, bolores e leveduras e prova de incubação (Laboratório de Microbiologia). Nas amostras de massa, foram feitas, ainda, pesquisa de fragmentos de insetos (Laboratório de Microscopia) e determinação de acidez, umidade e resíduo mineral fixo (Laboratório de Físico-Química). Nas amostras de funcho e mangerona, o laboratório de microscopia realizou pesquisa de matéria estranha. Todas as análises seguiram métodos oficiais, sendo as microbiológicas segundo as metodologias recomendadas pelo Compendium of Methods for the Microbiological Examination of Foods da American Health Association (APHA )2 e os padrões adotados foram os da Portaria SVS-MS nº 451, de 15.09.97. Todas as amostras (100%) se encontraram próprias para o consumo em todos os aspectos analisados. Apesar desse resultado satisfatório, é importante dar continuidade a este programa junto à Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, em relação aos produtos que chegam ao nosso estado, com a finalidade de garantirmos a saúde da população com relação ao consumo seguro desses alimentos. De acordo com os resultados apresentados, concluímos que estão sendo oferecido ao consumidor produtos de boa qualidade, em relação aos parâmetros analisados, com poucos riscos de agravos à saúde. Palavras–Chave: Análise; Qualidade; Alimentos importados. 2 AMERICAN PUBLIC HEALTH ASSOCIATION. Compendium of methods for the microbiological examination of foods. 3th ed. 1992. cap. 25, p. 371-415. 176 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Atos Normativos Atenção montador a página 178 é branca Portaria Nº 16/1999 Portaria Nº 16/99 Institui o Programa de Residência Integrada em Saúde Considerando: a) que compete aos gestores do Sistema Único de Saúde exercerem, em seu âmbito administrativo o ordenamento da formação de recursos humanos da área, bem como a proposição de prioridades, métodos e estratégias para a formação e educação continuada dos recursos humanos do SUS na esfera correspondente, conforme a Lei Orgânica da Saúde (Lei Federal nº 8.080 de 1990, Art. 6º e Art. 14); b) que compete também aos Estados em seu âmbito administrativo a participação na formulação e desenvolvimento de recursos humanos para a saúde, conforme a Lei Orgânica da Saúde (Lei Federal nº 8.080 de 1990, Art. 15, Inciso IX); c) que a formação ocupa papel estratégico na condução da política de saúde; d) que uma política de saúde em defesa da vida exige o compromisso dos gestores em efetivar a integração ensino-serviço; e) que a qualificação dos trabalhadores em saúde requer a montagem de atividades formativas contextualizadas nas necessidades sociais e no compromisso com a reorganização das estratégias de atenção à saúde, principalmente pelas noções de parceria, interdisciplinaridade, prática multiprofissional e transversal, resolubilidade loco-regional, humanização da assistência e vínculo entre usuários e trabalhadores em saúde; f) a necessidade de captação para trabalhadores de diferentes profissões de nível superior para exercerem, com familiaridade, as funções estratégicas de qualificação do Sistema Único de Saúde; g) a condição qualificada de assistência à saúde, aliada à longa experiência em Programas de Residência Médica em órgãos próprios da SES/RS, como o Centro de Saúde Murialdo, o Hospital Psiquiátrico São Pedro e o Ambulatório de Dermatologia Sanitária; h) a experiência e competência da Escola de Saúde Pública da SES/RS no desenvolvimento de recursos humanos e a parceria que este órgão vem desenvolvendo com diferentes instituições universitárias e demais órgãos formadores em saúde. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 179 Portaria Nº 16/1999 RESOLVE: Artigo 1º – Criar o Programa de Aperfeiçoamento Especializado no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul, constituído como modalidade do ensino de pós-graduação latu sensu, de caráter multiprofissional e interdisciplinar, sob a forma de capacitação em serviço acompanhada por atividades didáticas complementares, orientação técnico-científica e supervisão assistencial de profissionais de elevada qualificação ética e profissional. Artigo 2º – Integrar o Programa de Aperfeiçoamento Especializado aos Programas de Residência Médica já existentes, mantidos integral ou parcialmente pela Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, instituindo-se o Programa de Residência Integrada em Saúde, que será coordenado pela Escola de Saúde Pública da SES/RS. Artigo 3º – Os Programas de Residência Médica continuarão cumprindo integralmente a legislação a eles pertinente, bem como as Resoluções da Comissão Nacional de Residência Médica e prosseguirão concedendo o título de especialista conforme legislação vigente. Artigo 4º – Para obter apoio técnico e/ou financeiro da SES/RS, o Programa de Residência Médica ou Aperfeiçoamento Especializado que vier a ser proposto por órgãos formadores ou serviços de elevada qualificação assistencial e de seu corpo funcional deverá ser credenciado pela mesma, através da Escola de Saúde Pública, reservando-se a esta o direito de não credenciar ou descredenciar Programas que não ofereçam ou deixem de oferecer condições adequadas de ensinoaprendizagem em serviço ou de integração dos dois tipos de Programa (Residência Integrada). Artigo 5º – Tanto Programas de Residência Médica quanto Programas de Aperfeiçoamento Especializado apoiados pela SES/RS poderão ocorrer em órgãos próprios do Estado ou em outros conveniados para este fim, e poderão contar com o acompanhamento, a orientação e a supervisão dos profissionais dos próprios quadros da SES/RS, como de outros órgãos públicos ou privados conveniados para tal ou, ainda, profissionais contratados através de prestação de serviços como pessoas físicas ou jurídicas Artigo 6º – As normas e rotinas para o credenciamento ou descredenciamento serão objeto de portaria específica expedida pela Direção da Escola de Saúde Pública. Artigo 7º – Os Programas de Aperfeiçoamento Especializado: (a) terão a duração de 24 (vinte e quatro) meses, com carga horária anual mínima de 2.800 horas e máxima de 3.200 horas, com um mínimo de 10% e um máximo de 20% da carga horária com atividades didáticas complementares, tais como seminários, atividades teórico-práticas e outras; (b) poderão ser reconhecidos com o nível acadêmico de especialização mediante cumprimento da legislação pertinente; 180 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Portaria Nº 16/1999 (c) terão processo de seleção divulgados em edital, onde deverão constar o órgão que sediará cada Programa, com o respectivo número de vagas para cada profissão, documentação necessária, local e período das inscrições. Artigo 8º – Os Programas de Aperfeiçoamento Especializado, próprios ou credenciados pela SES/RS, terão seu início estabelecido pela mesma, através da Escola de Saúde Pública. Artigo 9º – Os alunos dos Programas de Aperfeiçoamento Especializado: (a) dedicarão tempo integral a esta atividade, com uma carga horária semanal máxima de 60 (sessenta) horas, podendo nela serem incluídas um máximo de 24 (vinte e quatro) horas de plantões; (b) receberão mensalmente, enquanto permanecerem cursando o Programa, bolsas mantidas pela SES/RS, em valor equivalente às dos Programas de Residência Médica, conforme formulação nacional destes programas. Porto Alegre, 01 de outubro de 1999. MARIA LUIZA JAEGER Secretária de Estado da Saúde Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 181 Atenção montador a página 182 é branca Resolução Nº 04/2000 Resolução Nº 04/2000 O Plenário do Conselho Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul –CES/RS, em sua Reunião Plenária Ordinária realizada no dia 13 de abril do ano 2000, no uso das atribuições que lhe confere a Lei Federal 8.142/90 e a Lei Estadual 10.097/94 e Considerando a necessidade de dar cumprimento às novas normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde sobre a forma e condições de pagamento do Fator de Incentivo ao Desenvolvimento do Ensino e Pesquisa – Fideps aos Hospitais de Ensino; Considerando a necessidade de readequar o papel dos Hospitais Universitários nas redes hierarquizadas e regionalizadas de serviços do Sistema Único de Saúde; RESOLVE: Definir as diretrizes que devem regular o processo de negociação da Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul com os hospitais atualmente habilitados a receber o Fideps, a saber: – Estabelecer o prazo máximo de seis (6) meses para que os hospitais cumpram os requisitos para (concessão) habilitação do Fideps estabelecidos na legislação específica; – Estabelecer os compromissos do hospital com um novo perfil de atendimento, priorizando a oferta ambulatorial e hospitalar de atendimentos mais complexos; – Estabelecer os compromissos do hospital com a capacitação de profissionais e serviços de saúde de sua macrorregião de abrangência, conforme as diretrizes estabelecidas pelos Núcleos Regionais de Educação em Saúde Coletiva Nuresc; – No caso dos hospitais psiquiátricos, exigir enquadramento imediato nas normas federais e estaduais de assistência à Saúde Mental, especificamente a portaria 224-SAS/MS, de 29/01/92, e Lei Estadual nº 9716. – Estabelecer que a Secretaria da Saúde do Estado deve refazer as vistorias aos hospitais e reelaborar os pareceres, emitindo uma avaliação conclusiva sobre a classificação dos mesmos e os valores de Fideps a serem estipulados, no prazo máximo de 45 dias. – Acompanhamento dos gestores e do CES/RS Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação. Porto Alegre, 13 de abril de 2000. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 183 Resolução Nº 04/2000 HOMOLOGAÇÃO A Secretária da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, na qualidade de Gestor Estadual do Sistema Único de Saúde e de acordo com os preceitos do Parágrafo Único, do Artigo 5º, da Lei Estadual nº 10.097, de 31 de janeiro de 1994, homologa a Resolução CES/RS nº 04/2000, de 13 de abril de 2000, do Conselho Estadual de Saúde. Porto Alegre, 13 de abril de 2000. MARIA LUIZA JAEGER Secretária de Estado de Saúde/RS ADALGIZA BALSEMÃO ARAÚJO Presidente do Conselho Estadual de Saúde/RS 184 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Portaria Nº 09/2000 Portaria Nº 09/2000 A Secretária de Estado da Saúde, no uso de suas atribuições legais, previstas nos artigos 90 e 243 da Constituição Estadual, combinados com o disposto na lei 8080/90 e considerando: – que a proposta de pólos de capacitação, formação e educação permanente de pessoal da saúde da família visa ao fortalecimento de desenvolvimento técnicooperacional do Sistema Único de Saúde, – que a proposta do pólo de capacitação, formação e educação permanente de pessoal da saúde da família do Rio Grande do Sul foi aprovada em plenária da Comissão Intergestores Bipartite de 19/02/99, prevendo que o gestor estadual ficasse responsável pela sua coordenação, ficasse sediado na Escola de Saúde Pública e que se orientasse pela designação em Saúde Coletiva (projeto de formação da Escola de Saúde pública no que tange no papel que deve ser exercido pelo gestor do SUS, no âmbito estadual, na qualificação de recursos para área da saúde, segundo determina a lei 8080/90, artigos 6º, 14 e 15, inciso IX), – que o conceito de pólo, tanto para a disseminação das experiências de saúde da família e desenvolvimento das suas estratégicas na rede assistencial (Termo de Referência do MS para a elaboração dos projetos de pólo), quanto para a conquista de uma cultura de capacitação e formação continuadas, integração entre órgãos formadores e o gestor estadual que estreite os vínculos da formação com a organização da atenção à saúde e coordenação da política de educação para o SUS no âmbito estadual (Política de Formação para o SUS/RS) é o de articulação de instituições formadoras na área da saúde com as esferas de gestão do SUS, viabilizando a integração ensino-serviço, incentivando a pesquisa em serviço, buscando a reformulação curricular na educação profissional e superior e a avaliação da assistência e do ensino em saúde, – que a proposta de gestão em saúde do Rio Grande do Sul se pauta, principalmente, pela descentralização da gestão e regionalização da atenção, conforme as decisões reiteradas na Comissão Intergestores Bipartite ao longo de1999 e 2000, pactuando-se o desenho de 07 macrorregiões de ordenamento e hierarquização da rede estadual de saúde (Metropolitana, Serra, Vales, Centro-Oeste, Norte, Sul, e Missioneira), – que a criação, em cada Coordenadoria Regional d Saúde, de um Núcleo Regional de Educação em Saúde Coletiva deu origem a uma aproximação continuada entre Universidades/Centros Universitários e instâncias regionais de gestão do SUS estadual, – que o estreitamento dos vínculos institucionais e gerenciais da Escola de Saúde Pública com as Instituições de Ensino Superior, escolas permitiu propor às instituições participantes do pólo de capacitação, formação e educação permanente de pessoal da saúde da família sua inclusão ao projeto de Pólo de Educação em Saúde Coletiva para que se evitasse o paralelismo de ações relavas à formação de trabalhadores de saúde e se otimizasse os recursos federais, estaduais, regionais, municipais, universitários e de serviços, onde noção de redimensionamento diz respeito ao desejo e prática da adesão do maior número possível de unidades acadêmicas (além dos cursos de graduação identificados diretamente com a saúde, também Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 185 Portaria Nº 09/2000 os cursos das carreiras de ciências e da educação, ciências veterinárias, ciências sociais e outras), o maior número possível de departamentos universitários (não só os departamentos do grupo da medicina social, saúde pública e saúde comunitária) e a integração das escolas profissionais, – que o convênio 463/99, celebrado entre a União, através do Ministério da Saúde, e o governo do Estado do Rio Grande do Sul, através da Secretaria de Estado da Saúde, com o objetivo de apoiar a implantação e implementação de pólos de capacitação, formação e educação permanente de pessoal da saúde da família, ao ser absorvido pela proposição de Pólo de Educação em Saúde Coletiva, deverá promover a ampliação e a potencialização das atuais conquistas da estratégia de saúde da família como proposta assistencial e de promoção de saúde, elevando-o ao estatuto de plano de governo e não projeto paralelo às demais ações formativas proprietárias prioritárias ao SUS no Rio Grande do Sul e – que a representação do conjunto dos dirigentes municipais de saúde do Rio Grande do Sul, através de sua Associação de Secretários e Dirigentes Municipais de Saúde (ASSEDISA), na discussão da formação em saúde para o SUS no Rio Grande do Sul é de crucial importância, RESOLVE: Art. 1º – Instituir o Pólo de Educação em Saúde Coletiva do Rio Grande do Sul, instância de articulação dos órgãos formadores no Rio Grande do Sul com a SES/ RS. Art. 2º – O Pólo de Educação em Saúde Coletiva do Rio Grande do Sul será integrado pelos Núcleos Regionais de Educação em Saúde Coletiva das Coordenadorias Regionais de Saúde da SES/RS, Instituições de Ensino Superior (universidades e centros universitários), escolas de educação profissional da área da saúde, Hospitais Universitários Universitários ou de Ensino, a Associação dos Secretários e Dirigentes Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul e o Município de Porto Alegre/Secretaria Municipal de Saúde (município sede da Escola de Saúde Pública e do Centro de Saúde Murialdo da Escola de Saúde Pública). Parágrafo Único – Quanto as instituições de Ensino Superior, o Pólo de Educação em Saúde Coletiva do Rio Grande do Sul deverá ser composto, preferencialmente, pelas universidades públicas e pelas universidades comunitárias de expressão regional que estiverem executando ações de parceria no âmbito da gestão regional do SUS/RS, seguindo a pactuação das 07 macrorregiões de saúde na orientação de decisões no interesse da formação em saúde para o SUS/RS. Art.3º – O Pólo de Educação em Saúde Coletiva do Rio Grande do Sul é composto pelas seguintes instituições: I. Gestor Estadual do SUS, através da Escola de Saúde Pública e da Coordenação de Atenção Integral à Saúde (SES/RS); II. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); III. Universidade Federal de Pelotas (UFPel); IV. Fundação Universidade Federal de Rio Grande (FURG); V. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); VI. Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (FFFCMPA); 186 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Portaria Nº 09/2000 VII. Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ); VIII. Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ); IX. Universidade de Passo Fundo (UPF); X. Universidade Regional Integrada (URI); XI. Universidade de Caxias do Sul (UCS); XII. Centro Universitário Vale do Taquari de Ensino Superior (UNIVATES); XIII. Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC); XIV. Universidade da Região da Campanha (URCAMP); XV. Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS); XVI. Grupo Hospitalar Conceição (GHC); XVII. Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA); XVIII. Pontifica Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS); e seu Hospital São Lucas (HSL); XIX. Prefeitura Municipal de Porto Alegre (PMPA), através da secretaria Municipal de Saúde, inclusive o Hospital de Pronto Socorro; XX. Associação dos Secretários e Dirigentes Municipais de Saúde (ASSEDISA); XXI. Núcleos Regionais de Educação em Saúde Coletiva (NURESC) de cada uma das Coordenadorias Regionais de Saúde da ESP/RS; XXII. Escola Estadual de Educação Profissional em Saúde. Parágrafo Primeiro: Outras instituições poderão ser incluídas, considerando a representação regional, o envolvimento e o comprometimento em ações na área da Educação em Saúde Coletiva. Parágrafo Segundo: O desligamento de instituições decorrerá de sua própria solicitação ou de critérios que venham a ser formulados durante o funcionamento das ações do Pólo de Educação em Saúde Coletiva. Art.4º – A coordenação da articulação representada pelo Pólo de Educação em Saúde Coletiva será exercida pela direção acadêmica da Escola de Saúde Pública da SES/RS. Art. 5º – A representação no Pólo de Educação em Saúde Coletiva será objeto de designação oficial das instituições à Coordenação do Pólo, através de representante titular e suplente. Art. 6º – As deliberações do Pólo de Educação em Saúde Coletiva será resultado da decisão da maioria simples entre as instituições presentes em reuniões chamadas pela coordenação do Pólo. Art. 7º – Para a viabilização e potencialização das ações de formação e educação continuadas, poderão ser formados comitês temáticos responsáveis pela construção, execução e avaliação de propostas com enfoques específicos, que deverão ser encaminhadas para conhecimento e avaliações em reunião com os representantes oficiais do Pólo de Educação em Saúde Coletiva. Parágrafo único – Parágrafo Único: Dentre os comitês temáticos será composto, obrigatoriamente, um para a área técnica da Atenção Básica, do qual fará a Coordenação Estadual dos Programas de Agentes Comunitários de Saúde e de Saúde da Família, integrantes da Coordenação da Atenção Integral à Saúde da SES/ RS. Art. 8º – Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação, revogando-se as disposições em contrário, particularmente as Portarias N º 08/97 e 07/98 de 07 de Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 187 Portaria Nº 09/2000 julho de 1997 e 21 de dezembro de 1998, respectivamente, da Secretaria de Estado da Saúde e do Meio Ambiente. Porto Alegre, 08 de maio de 2000. MARIA LUIZA JAEGER, Secretária de Estado da Saúde 188 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Portaria Nº 39/1999 Portaria Nº 39/99 A Secretária de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul, no uso das atribuições que lhe conferem a Constituição Estadual e a Lei Federal nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Considerando a necessidade de dar seguimento ao processo de descentralização político-administrativa do Sistema Único de Saúde na esfera estadual; Considerando que a vontade política do governo estadual é a da conquista de uma cultura de capacitação continuada, educação permanente e integração entre órgãos formadores (instituições de ensino superior, escolas de educação profissional, organismos de educação popular em saúde, entre outras formas de organização voltadas para o ensino no âmbito da Educação em Saúde Coletiva) e o gestor estadual que estreite os vínculos da formação com a gestão em saúde, assumindo os desafios de implementação do Sistema Único de Saúde – SUS; Considerando que a Secretaria de Estado da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, em consonância com os princípios e diretrizes consagradas pela Lei Federal nº 8.080/90, que regulamenta o Sistema Único de Saúde e como expressão das políticas públicas em saúde, constitui a Escola de Saúde Pública, como órgão responsável pela formação, qualificação e educação continuada de pessoal para a saúde; Considerando que a Escola de Saúde Pública é órgão responsável pela produção do conhecimento por meio do ensino, estudo, pesquisa aplicada, atividades de extensão educativa e ação social direta, visando a construção de uma prática público-educacional que convoque instituições de ensino, docentes, pesquisadores, estudiosos e movimentos sociais da área a se engajarem em um processo de formação e desenvolvimento de pessoal para a saúde; Considerando que a formação em Saúde Pública constitui-se em eixo para a política de Estado do Rio Grande do Sul, sendo entendida como projeto prioritário do governo do Estado para a efetiva implementação do Sistema Único de Saúde; Considerando que a necessidade da Secretaria de Estado da Saúde de dispor de uma instância que agregue as demandas em saúde por meio da cooperação técnica e financeira entre o Estado e o Município foi remodelada pelos Decretos Estaduais nº 39.582, de 10 de junho de 1999, e nº 39.691, de 30 de agosto de 1999. RESOLVE: Artigo 1º – Instituir Núcleos Regionais de Educação em Saúde Coletiva – NURESCs como estratégia descentralizada da Escola de Saúde Pública nas Coordenadorias Regionais de Saúde, da Secretaria da Saúde. PARÁGRAFO Único – A representação dos NURESCs se fará por indicação dos coordenadores das Coordenadorias Regionais de Saúde, em parceria com a Escola de Saúde Pública, de servidor que apresente titulação ou experiência na área da Educação em Saúde ou área afins. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 189 Portaria Nº 39/1999 Art. 2º – atribuir às Coordenadorias Regionais de Saúde, por meio dos NURESCs, a viabilização das articulações regionais com os órgãos formadores, coordenando a educação continuada, a extensão educativa e a ação social direta na Educação em Saúde Coletiva. Art. 3º – Determinar às Coordenadorias Regionais de Saúde, por meio dos NURESCs, a aproximação de ações educativas em saúde aos municípios e a consolidação do conceito de educação permanente em saúde coletiva para o Sistema Único de Saúde. Art. 4º – Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação. Art. 5º – Revogam-se as disposições em contrário. Porto Alegre, 1º de dezembro de 2000. Maria Luiza Jaeger – Secretária de Estado da Saúde 190 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Normas Editoriais Atenção montador a página 192 é branca Política e Normas Editoriais BOLETIM DA SAÚDE POLÍTICA E NORMAS EDITORIAIS POLÍTICA EDITORIAL 1 Identificação Com início em 1969, o Boletim da Saúde é um periódico de divulgação, inicialmente publicado pela Secretaria de Estado dos Negócios da Saúde do Rio Grande do Sul. De 1974 até 1980, sua publicação realizou-se em convênio com a Fundação SESP- Serviço Especial de Saúde Pública. Desde 1981, a Escola de Saúde Pública da Secretaria da Saúde e do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul – SSMA, passou a ser responsável pela revista. Em 1986 foi interrompida a publicação do Boletim da Saúde. Após longo intervalo, o periódico está sendo republicado com nova apresentação e nova política editorial, enfatizando a informação técnico-científica, e com a expectativa de continuidade editorial efetiva ao longo do tempo. O Boletim da Saúde está registrado no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – IBICT, sob o International Standard Serial Number – ISSN 0102-1001. 2 Objetivos O Boletim da Saúde visa a difusão do conhecimento em saúde coletiva desde a produção, disseminação e uso deste conhecimento a partir da pesquisa, do estudo, da práxis, além do desenvolvimento e debate na área. O periódico pretende ter também um caráter regionalizado, recebendo contribuições das universidades públicas e comunitárias integradas ao objetivo comum de reflexão teórico/prática em saúde coletiva. 3 Distribuição A responsabilidade pela distribuição do Boletim da Saúde será do Centro de Informação e Documentação em Saúde – Ceids, com a contribuição da Assessoria de Comunicação Social da SES/RS e colaboradores interessados. 4 Abrangência dos trabalhos Os diversos setores da SES-RS e Políticas da Secretaria estão estimulados e convidados a apresentar originais. A proposta é que se tenha, por meio dos trabalhos apresentados, uma interface da recomposição da memória institucional e a necessidade constante de atualização, educação continuada, pesquisa, estudo e debate em saúde coletiva. Todas as matérias serão submetidas ao julgamento de pareceristas – Comissão Editorial e do Conselho Editorial. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 193 Política e Normas Editoriais 5 Periodicidade Revista semestral. 6 Tiragem Inicial de 2000 exemplares. NORMAS EDITORIAIS 1 Informações aos colaboradores As matérias a serem elaboradas devem ter como eixo temático os princípios orientadores da atual gestão da saúde pública no Estado, estruturados em: 1. artigos de periódico – originais, inéditos ou de revisão; 2. ensaios e reflexões; 3. relatos de experiências; 4. exposição de enfoque gerencial e das políticas; 5. estudo de caso; 6. notícias de projetos de pesquisa ou de ação, sob forma de notas ou resumo; 7. resenhas (resumos de textos lidos e importantes para divulgação); 8. trabalhos apresentados em eventos; 9. textos formulados para estudo nas equipes ou para ensino; 10. trabalhos de alunos ou textos de professores e convidados; 11. memória; 12. atos normativos. Também apresenta seções de: 1. cartas ao editor: comentários dos leitores sobre trabalhos publicados, expressando concordância ou discordância, explicando as razões; 2. editorial. 2 Definição das estruturas • Artigo de Periódicos – Texto com autoria declarada, que apresente e discuta idéias, métodos, técnicas, processos e resultados nas diversas áreas do conhecimento. O artigo pode ser: a) original, quando apresenta temas ou abordagens próprias; b) de revisão, quando resume, analisa e discute informações já publicadas. • Ensaios e Reflexões – Textos analíticos resultantes de estudos, pesquisas e revisões . • Relatos de Experiências – Apresentação de experiência profissional, baseada no estudos de casos de interesse, acompanhados de comentários sucintos, 194 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Política e Normas Editoriais úteis para a atuação de outros profissionais na área. • Exposição de enfoque gerencial e das políticas • Estudo de caso – Um estudo de caso refere-se a uma análise intensiva de uma situação particular. É uma inquirição empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto da vida real. • Notícias de projetos de pesquisa ou de ação – Em formato de resumo. • Resenhas – De maneira genérica, a recensão ou resenha designa um tipo de trabalho de síntese, análise resumida ou arrolamento de produções científicas, ou ainda, exposição sintética de assuntos tratados em uma obra. A recensão crítica analisa em profundidade o assunto, conferindo apreciação do valor informativo da obra. Geralmente é elaborada por especialistas da área em questão. • Resumos – Apresentação concisa dos pontos relevantes de um texto. Resumo Informativo – Informa suficientemente ao leitor, para que este possa decidir sobre a conveniência da leitura do texto inteiro. Expõe finalidades, metodologia, resultados e conclusões. • Memória e História – Resgate histórico da memória da Secretaria de Estado da Saúde através de colunas fixas que relatam o antes (a história), e como estão hoje as principais instituições. • Atos Normativos – Textos legais de importância para o desempenho de ações didático-pedagógicas da Escola de Saúde Pública, ou outras julgadas importantes. 3 Orientações gerais para apresentação dos originais Todos os trabalhos devem ser enviados em duas cópias impressas em papel e em disquete no editor de textos Word for Windows, em espaço duplo, com margem esquerda de 3 cm e margem direita de 2 cm, margem superior 2,5 cm e inferior 1,5 cm, fonte Times New Roman 12, com no máximo 20 páginas. A primeira página (folha de rosto) deverá conter apenas o título do trabalho, versão em inglês do título, nome(s) completo(s) do(s) autor(es), indicando o responsável pela correspondência, nome e endereço(s) da instituição a que está vinculado, além de breve currículo do(s) autor(es). Recomenda-se que os trabalhos sigam a seguinte estrutura: • título (em letras minúsculas, somente a primeira letra em maiúscula); • autoria; • resumo (em português); • palavras-chave (em português); • texto (introdução, métodos, resultados, discussão e conclusões), podendo haver subtítulos. Os elementos de apoio ( notas, tabelas, quadros, fórmulas e ilustrações) deverão estar inseridos dentro do texto; • referências; Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 195 Política e Normas Editoriais • anexos; • tradução do resumo em inglês. Os originais serão publicados em língua portuguesa. Os trabalhos devem seguir, rigorosamente, as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. – Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – Normas de apresentação tabular. OBS: Todas as normas citadas estão à disposição no Ceids. 3.1 Título Termo ou expressão que indica o conteúdo do artigo. 3.2 Autoria Nome completo de cada um dos autores, titulação mais importante de cada autor, instituição ao qual está vinculado, endereço eletrônico e telefone para contato. 3.3 Resumo Resumo informativo, conforme NBR 6028, em português, destacando objetivos pretendidos, metodologia empregada, resultados mais importantes e principais conclusões. A extensão deve ser de até 250 palavras. 3.4 Palavras-chave ou descritores Indicar de três a seis palavras-chave, que são termos ou expressões indicativas do conteúdo do trabalho. Pode-se empregar termos integrantes da lista publicada pelo Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde – Bireme, disponível no endereço eletrônico: http://decs.bvs.br/. 3.5 Texto Os artigos de investigação científica poderão ser organizados segundo a estrutura formal: Introdução, material e método, resultados, discussão e conclusões. Contudo, metodologias de caráter qualitativo, pesquisa-ação, etc. podem apresentar-se em formas compatíveis com estes métodos. 3.5.1 Elementos de apoio Notas, citações, gráficos, tabelas, figuras, fotografias, ilustrações, quadros, etc, devem limitar-se ao mínimo indispensável e aparecer o mais próximo possível do texto a que se referem. Gráficos e tabelas devem ser construídos segundo as Normas de Apresentação Tabular do IBGE, com um título e legendas explicativas . Fotografias apresentadas devem conter título explicativo. 3.6 Agradecimentos Breves e objetivos, somente para contribuições significativas para o trabalho. Devem ser mencionados apoio financeiro e material recebidos. As pessoas listadas nos agradecimentos endossam os dados e as conclusões e precisam dar seu consentimento para serem incluídas na lista de agradecimentos. 196 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 Política e Normas Editoriais 3.7 Referências Devem aparecer listadas em ordem alfabética ou numérica para facilitar a citação do trabalho. A exatidão das mesmas é de responsabilidade do(s) autor(es). Sua elaboração segue a Norma da ABNT. 3.8 Anexos Documentos, nem sempre do autor do artigo, que serve de fundamentação, comprovação ou ilustração. 3.9 Tradução do resumo A apresentação do resumo (summary) em inglês e (Resumen) em espanhol deverá ser uma versão exata do resumo em português. 3.10 Key-words e palabras clave Apresentação das palavras-chave em inglês e espanhol. 4 Ética Todos os trabalhos que tratem com experimentos em seres humanos ou animais, serão previamente encaminhados ao Comitê de Ética da Escola de Saúde Pública para apreciação. O comitê orientará quanto a critérios específicos. 5 Responsabilidade As opiniões emitidas nos trabalhos, bem como a exatidão, adequação e procedência das referências e citações bibliográficas, são de exclusiva responsabilidade dos autores. 6 Abreviaturas Devem ser evitadas, pois prejudicam a leitura confortável do texto. Quando forem usadas, devem ser escritas por extenso ao serem mencionadas pela primeira vez no texto. 7 Seleção dos trabalhos Os trabalhos recebidos para publicação no “Boletim da Saúde”, serão encaminhados para o Grupo de Pareceristas, para análise, respeitando o anonimato. 8 Trabalhos já publicados Serão aceitos trabalhos já publicados em outros periódicos, desde que autorizados pelo Conselho Editorial do periódico onde o artigo tenha sido originalmente publicado. Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000 v 197 Política e Normas Editoriais 9 Envio do artigo Os trabalhos para a apreciação do Conselho Editorial devem ser enviados para o Centro de Informação e Documentação em Saúde – Ceids, Av. Ipiranga 6311 – Bairro Partenon, CEP 90610-001, e-mail: [email protected] . Telefones: 3384-5290 e 3384-3148 – Fax: 3384-1419 198 v Bol. da Saúde, v. 14, n. 1, 1999-2000