CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ FACULDADE CEARENSE CURSO DE SERVIÇO SOCIAL LARISSA MARIA GOMES DE FRANÇA A PERCEPÇÃO QUE AS IDOSAS INSTITUCIONALIZADAS NA ASSOCIAÇÃO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL CATARINA LABOURÉ POSSUEM SOBRE SUAS RELAÇÕES FAMILIARES FORTALEZA 2014 LARISSA MARIA GOMES DE FRANÇA A PERCEPÇÃO QUE AS IDOSAS INSTITUCIONALIZADAS NA ASSOCIAÇÃO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL CATARINA LABOURÉ POSSUEM SOBRE SUAS RELAÇÕES FAMILIARES Monografia submetida á aprovação da Coordenação do Curso de Serviço Social do Centro Superior do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do grau de Graduação sob orientação da Profª. Ms. Flaubênia Maria Girão de Queiroz. FORTALEZA 2014 LARISSA MARIA GOMES DE FRANÇA A PERCEPÇÃO QUE AS IDOSAS INSTITUCIONALIZADAS NA ASSOCIAÇÃO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL CATARINA LABOURÉ POSSUEM SOBRE SUAS RELAÇÕES FAMILIARES Monografia como pré-requisito para obtenção do título de Bacharelado em Serviço Social, outorgado pela Faculdade Cearense- FaC, tendo sido aprovada pela banca examinadora compostas pelos professores. Data de aprovação ____/____/____ BANCA EXAMINADORA Professora Ms. Flaubênia Maria Girão de Queiroz – Orientadora Professor Dr. Mário Henrique Castro Benevides - Examinador Professora Ms. Valney Rocha Maciel – Examinadora Aos meus pais e minha irmã, pelo incentivo, apoio e amor incondicional. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente á Deus que sempre foi a minha fortaleza durante todos esses anos, sendo uma fonte de esperança e força nos momentos difíceis. Agradeço á minha mãe Tânia França e meu pai Raimundo França por todo o amor, carinho e dedicação desde que eu nasci através de uma educação e ensinamentos que me fizeram a pessoa que eu sou hoje. Essa vitória é tão minha quanto de vocês. Agradeço a minha irmã Lívia França e ao meu cunhado Luciano Freires pela paciência em esperar a minha aula terminar para irmos para a casa se não fosse essa atitude eu teria perdido conteúdos importantes para a minha formação. Também agradeço toda a minha família: avós, avôs, tias (os), primas (os), madrinha e meu padrinho. Agradeço as minhas amigas Gislane Cavalcante, Janaina Moura e Jobileide que incentivaram a minha jornada. Agradeço também aos meus amigos Marcelo Michiles, Alady Silva, Aritana Kelly, Aline Gomes, Jaqueline Freitas e Fátima Evilene, amizades construídas durante o Curso de Serviço Social da Faculdade Cearense, vocês foram indispensáveis para o meu processo de formação. Agradeço também as assistentes sociais do Hospital São José Sílvia da Costa Tavares e Maria de Fátima Paiva que são exemplos de compromisso ético com o serviço social e contribuíram por demais com a minha formação. Agradeço a todos os meus professores da Faculdade, e principalmente a minha orientadora e professora Flaubênia Girão que foi peça fundamental para a construção da minha monografia. Agradeço também a banca examinadora que gentilmente aceitou o meu convite. Por fim, agradeço a assistente social da Associação de Assistência Social Catarina Labouré Márcia que facilitou o meu estudo na instituição e também agradeço de forma especial às idosas que foram indispensáveis para a minha pesquisa. O que importa na vida, não é o ponto de partida, mas a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher! (Cora Coralina) RESUMO O envelhecimento da população trouxe consequências para o país. A família e o Estado são as principais instituições responsáveis pelo o cuidado com os idosos. A presente pesquisa tem como objetivo geral analisar a percepção que as idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré possuem sobre suas relações familiares. E os objetivos específicos são: investigar as relações familiares das idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré; compreender a relação existente entre as idosas e suas famílias, hoje; e conhecer as relações sociais entre as idosas institucionalizadas. O objeto de estudo orientou para uma pesquisa bibliográfica, de campo, qualitativa e descritivaexploratória. Para a coleta de dados foram utilizadas a observação direta e a entrevista semi-estruturada. A análise dos dados deu-se pelo Discurso do Sujeito Coletivo que fundamenta-se na Teoria das Representações Sociais. Os resultados da pesquisa mostram várias percepções dos idosos sobre suas relações familiares e essas percepções estão atreladas a forma que essas relações foram construídas e como estão dispostas atualmente. Palavras Chave: Idoso. Família. Relações Familiares.Institucionalização. ABSTRACT The population’s ageism brought some consequences for the country, and the family and the State are the main institutions which are responsible for the careness with old people. This research has a general objective, which is to analyze the perception from institutionalized old people at Catarina Labouré Social Attendance Association; to comprehend the existent relationship between the elderly and their families, nowadays; and to know the social relations among institutionalized elder people. The object of the study becomes inclined to a descriptive-exploratory, qualitative, field and bibliographic research. The observation and the semi-structured interview were utilized for the data collection. The data analysis was made through Discourse of the Collective Subject, which bases on Social Representations Theory. The results of the research demonstrate vary perceptions from the elderly about their familiar relationships and these perceptions are connected with the way those relations were built and how they are disposed currently. Keywords: Old. Family. Familiar relations. Institutionalization. LISTA DE QUADROS QUADRO 1 Perfil dos Sujeitos da Pesquisa..............................................................49 QUADRO 2 Como você chegou à instituição?...........................................................51 QUADRO 3 Qual o significado de família para você?................................................55 QUADRO 4 Você se relaciona com alguém da sua família?.....................................59 QUADRO 5 Como era sua relação familiar antigamente?.........................................62 QUADRO 6 Qual sua relação com as pessoas que trabalham aqui ....................... 64 QUADRO 7 Hoje você tem amigos(as)?...................................................................66 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AASCL Associação de Assistência Social Catarina Labouré BPC Benefício de prestação continuada CNDI Conselho Nacional dos Direitos do Idoso CF Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 1988 DSC Discurso do Sujeito Coletivo ECA Estatuto da Criança e do Adolescente IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ILPI Instituição de Longa Permanência para Idosos LOAS Lei Orgânica da Assistência Social OMS Organização Mundial da Saúde ONU Organização das Nações Unidas PBF Programa Bolsa Família PNI Política Nacional do Idoso SUMÁRIO INTRODUÇÃO..................................................................................................11 CAPÍTULO 1 - O Fenômeno do envelhecimento..........................................15 1.1- Conceitos sobre a Velhice..........................................................................15 1.2-O contexto do envelhecimento no mundo e no Brasil.................................19 1.3- As legislações que amparam a população idosa no Brasil........................23 CAPÍTULO 2 – Família....................................................................................28 2.1 – Conceitos sobre família............................................................................28 2.2- A Família e o Idoso....................................................................................36 2.3- Família, Institucionalização e Idoso...........................................................39 CAPÍTULO 3 - Percurso metodológico e resultados da pesquisa.............43 3.1- Metodologia................................................................................................43 3.2- Campo de Pesquisa...................................................................................47 3.3- Sujeitos da Pesquisa..................................................................................49 3.4- Discurso do Sujeito Coletivo.......................................................................51 CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................69 REFERÊNCIAS..................................................................................................72 APÊNDICES.......................................................................................................76 11 INTRODUÇÃO O presente estudo trata de pessoas idosas que vivem em uma instituição e suas relações familiares. O tema idoso foi escolhido por sua relevância social no Brasil de hoje e por ser uma questão que chamou a atenção durante a vida acadêmica na realização de atividades do curso de Serviço Social. A pergunta que se quis responder com a pesquisa foi “Como as idosas institucionalizadas se relacionam com seus familiares?”. O Brasil passou rapidamente pela fase chamada de transição demográfica, que se caracterizou por trazer mudanças na vida social e econômica do país, aumentando significantemente a população idosa no Brasil (SOARES, 2009). De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2050, o nosso país vai ter aproximadamente 18% (dezoito por cento) da sua população composta por idosos. Desta forma irá necessitar investimento em políticas públicas para essa população, buscando ampliar, garantir e efetivar direitos para esses idosos. Esse alto índice populacional de idosos exige a ampliação da discussão dessa temática, visto que apesar do aumento dessa população, o envelhecimento ainda não é pauta de discussão o suficiente para que hajam políticas apropriadas para o idoso. A palavra “envelhecimento”, no imaginário social, carrega vários estereótipos e preconceitos da sociedade. A velhice é considerada, muitas vezes, a última idade, a qual é caracterizada pela perda de força, inutilidade, dependência, fragilidade, decadência, abatimento e principalmente fase que precede o falecimento. Segundo Ribeiro (2011), nessa fase além da morte gradativa do organismo, o idoso precisar conviver com a morte profissional e intelectual, visto que na sociedade produtiva que vivemos o idoso como já ultrapassou a sua idade produtiva é colocado á margem na sociedade. A família, definida como uma das instituições mais importantes em uma sociedade, possui responsabilidades sociais, principalmente em relação ao idoso. Grande parte dos cuidados com eles incide sobre suas famílias. Devido às transformações estruturais familiares, além da diminuição no número de filhos, 12 grande parte dos seus componentes trabalha ou estuda fora de casa, tornando muito difícil a atenção com o idoso. Com o aumento do número de idosos, a consequente questão do cuidado exigido e a problemática das famílias as instituições asilares acabam sendo mais requisitadas e efetuando maior quantidade de acolhimentos. Denomina-se asilo o estabelecimento de assistência social onde são acolhidas com segurança crianças desvalidas, idosos desamparados, mendigos e pessoas com transtornos mentais. Segundo Foucault (1978) no surgimento dessas instituições o internamento, não era apenas destinado aos loucos, mas também a outros grupos que a sociedade segregava. Considera-se também como casa para zelar pelas pessoas consideradas dependentes e incapazes de cuidar-se sozinhas e tomar decisões diárias. Existem outras denominações para os asilos como abrigo, lar, casa de repouso, casas dos velhinhos, clínica geriátrica e entre outras designações, todas elas designadas empregadas para diminuir o peso da palavra asilo. Os modelos de asilos existentes no Brasil ainda se assemelham muito as instituições totais, que se caracterizam como locais fechados que funcionam com regime de internação, onde um número significativo de internos vive em tempo integral sobre a direção de uma equipe que administra a vida da instituição. Para Goffman (1996), uma instituição total pode ser definida como um espaço de moradia ou trabalho, onde indivíduos em situação semelhante levam uma vida fechada e administrada. A instituição escolhida para embasar a pesquisa foi à Associação de Assistência Social Catarina Labouré (AASCL), também conhecida como Casa de Nazaré. Ela surgiu em 15 de novembro de 1941, originada do trabalho realizado pela Companhia das Filhas de Caridade. A aludida casa é uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos, criada com o propósito de produzir o bem. A Lei Federal nº 12.101, do ano de 2009, estabelece os parâmetros para as instituições filantrópicas, onde uma das suas características é o fato do lucro alcançado ser revertido em benefício da própria instituição. A escolha dessa instituição deveu-se a participação em projetos sociais voltados para as idosas na própria instituição Catarina Labouré, onde há uma facilitação ao acesso, devido as proximidades da residência da pesquisadora e por 13 ela conhecer pessoas que trabalham na instituição. Assim, surgiram algumas curiosidades que levaram a questionamentos sobre o idoso que vive em instituição e suas relações com seus familiares. Atualmente, a instituição é administrada por irmãs de caridade, com características de instituição total. Possui alguns funcionários remunerados e tem apoio de voluntários e discentes de vários cursos. A AASCL é uma entidade que abriga apenas idosas. Diariamente, a instituição acolhe várias visitas de grupos pastorais, escolas públicas e privadas, e outras pessoas que gostam do trabalho, trazendo doações, alegria e entusiasmo para as idosas. A AASCL funciona em sistema de casa lar, onde oferta alimentação, promoção à saúde, boas condições de higiene e possuem várias atividades de recreação e lazer. A instituição tem uma grande preocupação na manutenção dos vínculos familiares, para as idosas que ainda possuem esta referência. Mas, não precisou de muitas visitas para perceber que existia entre as idosas e suas famílias uma grande distância que se faz presente no cotidiano dessas mulheres. Por outro lado, observou-se que existia uma boa relação entre as idosas e os funcionários e voluntários da instituição criando assim um relacionamento de companheirismo, o que diminui os efeitos da distância de seus parentes. Nessa perspectiva, o objetivo geral da pesquisa foi analisar a percepção que as idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré possuem sobre suas relações familiares. E os objetivos específicos foram: investigar as relações familiares das idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré; compreender a relação existente entre as idosas e suas famílias hoje, e conhecer as relações sociais entre as idosas institucionalizadas. O referencial teórico da pesquisa é desenvolvido nos dois primeiros capítulos. O primeiro está relacionado ao fenômeno do envelhecimento no mundo e no Brasil e, o segundo, dedica-se à família e as relações familiares. No que diz respeito ao envelhecimento, dialogou-se principalmente com Simone de Beauvoir (1990), Mercadante (1997), Valsecchi (1999), Goldman (2009), e Ribeiro (2008). A aproximação com a categoria família se deu por meio de Héredia; Cortelletti; Casara (2010), Simões (2011), Santos (2010), Osterne (2004), Losacco (2010) e Goffman (1996). 14 O terceiro capítulo refere-se ao caminho metodológico e os resultados da pesquisa. Os autores utilizados para essa construção foi Minayo (1999), Demo (2009), Martinelli (1999), Oliveira (2002), Gil (2002), Marconi e Lakatos (2003), Cervo (2007), e Levèvre e Lefèvre (2005). No processo da pesquisa foi importante a escolha do método, pois é a partir dele que a pesquisa caminha em busca de sua construção. De acordo com Minayo (1999) “[...] a metodologia inclui as concepções teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que possibilitam a apreensão da realidade e também o potencial criativo do pesquisador”. (MINAYO 1999, p. 22) Para o desenvolvimento da pesquisa foi exigida à abordagem qualitativa e o desenho foi por meio de uma pesquisa de campo e pesquisa bibliográfica. A coleta de dados utilizou as técnicas de observação direta e entrevista, já as análises dos dados coletados deram-se através do Discurso do Sujeito Coletivo que, segundo Lefèvre, Crestana e Cornetta (2002), é uma forma de análises dos resultados da pesquisa qualitativa que tem as narrativas como matéria-prima. Por meio desses métodos buscou-se responder aos objetivos propostos pela pesquisa, buscando uma maior compreensão acerca do tema. 15 1. O Fenômeno do envelhecimento O Envelhecer é um fenômeno que já ocorre em quase todos os países do mundo, aliás, “de todos os fenômenos contemporâneos, o menos contestável, o mais certo em sua marcha, o mais fácil de prever com muita antecedência, e, talvez o de consequências mais pesadas é o envelhecimento da população” (SAUVY apud BEAUVOIR, 1990, p. 271). Os motivos do crescimento da população idosa mundial são diversos, mas os seus números estão aumentando, principalmente devido aos avanços na saúde e pelas reduzidas taxas de natalidade e mortalidade. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), as pessoas com 60 anos ou mais devem dobrar entre 2007 e 2050, e mais ou menos em 2050, o número terá triplicado. E na maioria dos países, daqui a quatro décadas, a população acima de 80 anos chegará a 400 milhões. Esse processo exige dos governos e autoridades providências e políticas públicas voltadas para essa parcela da população que está em crescimento e necessita gozar de uma velhice saudável, sem violação de nenhum dos seus direitos. Mas, a responsabilidade não deve decair apenas para os governos, e sim, para toda a sociedade, que deve compreender esse processo como natural e evitar os preconceitos que acometem a maioria dessas pessoas. Segundo Camarano (1999): Reconhece-se que o envelhecimento populacional traz novos desafios. Um deles diz respeito às pressões políticas e sociais para a transferência de recursos na sociedade. Por exemplo, as demandas de saúde se modificam com maior peso nas doenças crônico-degenerativas, o que implica maior custo de internamento e tratamento, equipamentos e medicamentos mais dispendiosos. A pressão sobre o sistema previdenciário aumenta significativamente. O envelhecimento também traz uma sobrecarga para a família, sobrecarga essa que é crescente com a idade. (CAMARANO et al 1999, p. 02) Percebemos que a velhice trás inúmeros problemas para a sociedade, então é necessário se preparar para esse envelhecimento que é previsível em todo o mundo, evitando assim mais ônus para a sociedade e contribuindo para uma velhice saudável e com qualidade de vida. 1.1 Conceitos sobre a Velhice 16 O processo de envelhecimento envolve compreensões e concepções diversas. A velhice é vivida e compreendida de acordo com cada cultura e não existe apenas uma concepção e sim inúmeras concepções dessa fase, variando de acordo com a história e com o tempo. Segundo Bruno (2003): A velhice como categoria construída socialmente tem sido vista e tratada de maneira diferente, de acordo com períodos históricos e com a estrutura social, cultural, econômica e política de cada povo. Essas transformações, portanto, não permitem um conceito absoluto da velhice e apontam para a possibilidade de haver sempre uma nova condição a ser construída, para se considerar essa etapa da vida do ser humano (BRUNO 2003, p. 76). Desde a antiguidade, os homens percebiam o declínio e as mudanças que ocorriam no organismo com o passar dos anos, e buscavam também as causas dessas alterações. Em cada sociedade, a visão de velhice era diferenciada de acordo com a cultura local. Algumas civilizações idolatravam os idosos, devido as suas experiências, outras os repudiavam pela sua idade avançada e pela sua falta de capacidade funcional. De acordo com Lemos (2001), a percepção que a sociedade possui dessa fase remonta a época dos Hebreus, Babilônios e Gregos. Esses povos possuíam sua visão diferenciada da velhice e procuravam técnicas para retardar o envelhecimento. A imortalidade e algumas formas para manter a juventude fizeramse presentes na cultura dos Babilônios. Na Grécia Antiga os idosos eram desprezados, apenas Platão, filosofo grego, considerava que a velhice era uma fase que carregava mais prudência, sensatez e astúcia. Em Roma, os anciãos tinham uma condição privilegiada, possuindo cargos importantes na política. Na antiguidade, o primeiro a pensar sobre a velhice foi o médico grego Hipócrates, através da sua teoria pitagórica dos quatro humores: sangue, fleuma, bile amarela, bile negra; onde a velhice resultava de uma quebra entre eles, assim como a doença. Segundo o médico, a velhice começava aos 56 anos e era comparada ao inverno de acordo com as outras estações da natureza. (BEAUVOIR, 1990) Vários médicos na antiguidade estudaram e elaboraram as suas teorias sobre a velhice, contribuindo em cada momento histórico para um maior esclarecimento sobre essa fase. Segundo Beauvoir (1990): Foi no século II que Galeno fez uma síntese geral da medicina antiga. Ele considerava a velhice como intermediária entre a doença e a saúde. Ela não é exatamente um estado patológico: entretanto, todas as funções fisiológicas do velho ficam reduzidas ou enfraquecidas. [...] (BEAVOUIR 1990, p.24) 17 Na Idade Média, o conhecimento sobre a medicina e a velhice foi quase inexistente, deixando essa fase conhecida basicamente como uma doença incurável e um enfraquecimento biológico. Beauvoir (1990) detalha o processo de envelhecimento para várias civilizações, demonstrando que esse processo é variável de acordo com a cultura e a história. Observa-se, então, que o significado e a importância da velhice variavam de acordo com a civilização a qual o idoso estava inserido. Outro fator importante eram as relações estabelecidas anteriormente, principalmente com a sua própria família, relações estas que repercutiam positivamente ou negativamente no futuro, de acordo com a forma com que elas foram construídas no passado. A velhice é um processo que implica complicados fatores de ordem biológica, psicológica, social e cultural. Na sociedade em que vivem, muitas vezes, os idosos são vistos apenas como a oposição aos jovens. Para Goldman (2009), os fatores culturais que mais atacam essa população são relacionados às sociedades que exaltam o novo, o moderno, o jovem e esnobam o antigo e o velho, ocasionando nesses idosos problemas com sua autoimagem e, muitas vezes, eles acabam internalizando essas rejeições e legitimando como verdadeiras. Segundo Mercadante (2003): No modelo social de velho, as qualidades a ele atribuídas são estigmatizadoras e contrapostas às atribuídas aos jovens. Assim sendo, qualidades como atividade, produtividade, memória, beleza e força são características presentes no corpo dos indivíduos jovens e as qualidades opostas a estes presentes no corpo dos idosos (MERCADANTE 2003, p. 56). O caminho de vida do ser humano é composto por diversas experiências boas e ruins e também por momentos de decisões, onde as interpretações pessoais e determinações sociais e culturais influenciam na escolha de cada um. A fase da velhice é um período de mudança física, biológica e emocional. A forma como é vivida essa etapa pela pessoa idosa vai depender de suas condições subjetivas e socioculturais. Segundo Beauvoir (1990): Ela é um fenômeno biológico: o organismo do homem idoso apresenta certas singularidades. A velhice acarreta, ainda, consequências psicológicas: certos comportamentos são considerados, com razão, como características da idade avançada. Como todas as situações humanas, ela tem uma dimensão existencial: modifica a relação do indivíduo com o tempo e, portanto, sua relação com o mundo e com sua própria história (BEAUVOIR 1990, p. 15). 18 Essa fase onde a idade encontra-se mais avançada é vista, muitas vezes pelo imaginário social como o fim da vida, onde as possibilidades e perspectivas de futuro dão lugar a um processo de estagnação. Para Giddens (2005, p. 150) “em uma sociedade que valoriza muito a juventude, a vitalidade e a atratividade física, as pessoas mais velhas tendem a se tornar invisíveis [...]”. Isso ocorre devido à vulnerabilidade que remete à pessoa idosa nesta fase, principalmente, pela diminuição das condições físicas. Valsecchi (1999) afirma que: Nas sociedades modernas, a velhice é sinônimo de recusa e banimento. Recusa vestida com diferentes roupagens: algumas, bastante evidentes, passam pela segregação e pelo isolamento social, pela ruptura dos laços afetivos, familiares e de amizade, pela negação do direito de pensar, propor, decidir, fazer, pela expropriação do próprio corpo [...] (VALSECCHI 1999, p. 41). A autora ressalta que o local atribuído e exercido por todos os indivíduos deriva das soluções encontradas, por cada coletividade, para retribuir aos imperativos de sua existência: como “lugares sociais” revestem-se de valores e juízos morais. Por outro lado, este processo de classificação a partir destes determinantes biológicos não é imóvel nem inalterável, mas dinâmico e constantemente renovado, mesmo naquelas sociedades que, aos olhos do pensamento ocidental, parecem ter “parado no tempo”. A autora ressalta que é nessa conjuntura que a velhice deve ser compreendida, onde é uma fase da vida como qualquer outra, e que existe a articulação entre mecanismos universais e particulares. De acordo com Mercadante (1997) a velhice é ao mesmo tempo natural e cultural. É natural e, portanto, universal se compreendida como um fenômeno biológico, mas é também rapidamente um fato cultural na medida em que é revestida de conteúdos simbólicos. São esses conteúdos que informam as ações e as representações dos sujeitos. A autora mostra que é fundamental para a reflexão da velhice o entendimento de como ocorrem essa relação natural e cultural. Para Beauvoir (1990), os indivíduos temem a degradação que a velhice acarreta, pois ela contradiz o ideal viril ou feminino adotado pelos jovens e adultos. A atitude geralmente é de recusa e repulsa imediata, visto que para muitos, ela representa impotência, feiura e doença. Essa fase modifica principalmente o corpo do idoso, onde se torna inevitável essas mudanças biológicas no decorrer do tempo. Pele, visão, audição, olfato, potência sexual, cabelos, dentes e entre outros sentidos e partes do corpo se 19 modificam. Mas, apesar dessas mudanças corporais o organismo no idoso é passível de adaptação ao meio. Segundo Monteiro (2003): [...] Em suma, envelhecer é um processo contínuo de mudança do organismo pela passagem da temporalidade. A cada novo acontecimento, um novo padrão corporal adquirido. A estrutura muda sempre que o corpo se move no espaço. Assim, a experiência vem continuamente carregada de possibilidades de transformação. Isto quer dizer que o corpo estará aberto à aquisição do conhecimento enquanto houver possibilidades de experimentação. Por meio do movimento, o conhecimento é adquirido, conservando a vida (MONTEIRO 2003, p. 144). Diante de todas as características do envelhecimento relatadas, os idosos cada vez mais se sentem excluídos da sociedade, necessitando de um apoio, principalmente emocional e físico para gozar de uma velhice de qualidade. A família, como instituição principal na vida de uma pessoa, é a responsável por a maioria dos cuidados com os idosos, cumprindo normas socioculturais importantes da sociedade. Como fenômeno multifacetado, o envelhecimento da população imprime mudanças na sociedade e suas relações, principalmente na família que precisa de uma nova organização. Os idosos necessitam de um apoio emocional e físico para gozar dessa fase com qualidade. 1.2 O contexto do envelhecimento no mundo e no Brasil O envelhecimento da população é um fenômeno que vem se manifestando em quase todos os países do mundo. Vários fatores têm sido favoráveis para o crescimento da chamada terceira idade, tais como: baixa fecundidade, diminuição na taxa de natalidade, queda na mortalidade infantil, novas técnicas de saúde e o aumento da expectativa de vida das pessoas. Não se pode esquecer o aumento do uso de métodos contraceptivos, uma maior inserção da mulher no mercado de trabalho e a ampliação da educação. Segundo Socorro; Dias(2010): Nas últimas décadas, houve uma mudança no quadro populacional, caracterizando-se por uma notável elevação da população idosa em todo o mundo. A urbanização das cidades, o processo de industrialização e os avanços tecnológicos e médicos foram fatores preponderantes para o aumento da expectativa de vida, pois estão associados a melhorias nutricionais, de higiene pessoal, de condições sanitárias e ambientais (SOCORRO; DIAS. 2010, p. 91). O aumento dessa parcela da população e todo o processo de envelhecimento vêm preocupando os países, que buscam aumentar a visibilidade dos problemas 20 acarretados por essa fase. Contudo, esse crescimento não acontece de forma homogênea em todas as nações do planeta. Segundo Veras (2003): [...] nos países desenvolvidos, tal processo se deu de forma lenta, ao longo de mais de cem anos. Países como a Inglaterra, por exemplo, iniciaram o processo de envelhecimento de sua população, ainda em curso, após a Revolução Industrial, no período áureo do Império Britânico, dispondo de recursos necessários para fazer frente ás mudanças advindas desta transformação demográfica. Atualmente, alguns desses países apresentam inclusive um crescimento negativo da sua população, com taxa de natalidade mais baixa que mortalidade. Já no grupo de países chamados em desenvolvimento, tendo o Brasil como exemplo, este processo se caracteriza pela rapidez com que o aumento absoluto e relativo das populações adulta e idosa modificou a pirâmide populacional [...] (VERAS 2003, p. 18). Esse envelhecimento não ocorre de maneira idêntica para homens e mulheres, pois, predominantemente as mulheres vivem mais que os homens. De acordo com Veras (2003), alguns dos fatores que influenciam para a mortalidade masculina são: homicídios, acidentes de trabalho e trânsito, suicídios, acometem quatro vezes mais na população masculina, onde as mulheres tem menos exposição a esses acidentes do que os homens; o consumo em nível maior de álcool, fumo e entorpecentes é mais para os homens; e pelo fato da mulher preocupar-se mais com a saúde e fazer uso dos serviços de saúde com frequência maior que o homem. Estas possuem uma condição maior de descobrir uma doença a tempo para o seu tratamento. As mulheres, por viverem mais tempo que os homens, são consideradas como mais solitárias, estabelecendo a parcela mais desfavorecida da população. Apesar dessa condição, as idosas possuem uma melhor adaptação à velhice do que os homens, pois estas, na maioria das vezes, possuem na casa e na família, papéis que possibilitam encontrar outra ocupação e manter a sua própria identidade. Já os homens depois, que saem da sua idade considerada ativa, onde consequentemente acarretam uma diminuição de recursos e nível de vida, na maioria dos casos, eles ingressam em um drama que ocasionam graves problemas morais e psicológicos (BEAUVOIR, 1990). De acordo com uma reportagem no G1 (2011), os dados da ONU demonstram que o planeta possui 893 milhões de pessoas com mais de 60 anos, mas na metade desse século, os números passaram de 2,4 bilhões. Apenas no continente Africano o crescimento populacional está em alta, com uma média acima de três filhos por mulher (4,64). No continente europeu, na América do Norte e na 21 Ásia, a média da taxa de natalidade é basicamente de 1,53, e 2,03. Na China e na Índia, que são países populosos e já possuem mais de um bilhão de pessoas, a sua população poderá ficar estável em poucas décadas. O processo de envelhecimento da população atinge todo o mundo, com poucas exceções, “[...] se antes era considerado um “privilégio dos países do Primeiro Mundo, é agora a novidade e o grande desafio dos países “emergentes” ou em desenvolvimento” (VALSECCHI 1999, p. 50). A População idosa no Brasil cresceu significantemente segundo o Censo de 2010, realizado recentemente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O percentual populacional de idosos com 65 anos de idade ou mais, nas pesquisas anteriores, era de 4,8% da população em 1991, 5,8% em 2000, e agora chegam a 7,4% do total de 190.755.799 de habitantes brasileiros. Mostrando consequentemente um aumento da expectativa de vida para a população brasileira. De acordo com Berzins (2003): A expectativa de vida do brasileiro é de 68,6 anos. Na última década a esperança de vida ao nascer da população teve um ganho de 2,6 anos, ao passar de 66 anos, em 1991, para 68,6 anos em 2000. A população feminina teve um incremento mais expressivo do que a população masculina. Em 1991, as mulheres possuíam em média 7,2 anos a mais do que os homens e em 2000 chegou a 7,8 anos.(BERZINS 2003, p. 28). As regiões com mais idosos, segundo o IBGE, são as regiões Sudeste e Sul, com os maiores índices de envelhecimento com um percentual de 8,1%, em 2010. As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, experimentaram também mudanças significativas em relação a essas cifras. Como consequência desses indicadores, houve uma redução expressiva na população com idade até 25 anos. Alguns estudos realizados pelo IBGE mostram que em 2050, o Brasil terá 259,8 milhões de habitantes, com aproximadamente 18% da população idosa, indicando que no nosso país essa parcela da população será a sexta do mundo. O Estado do Ceará verificou também um crescimento nas taxas da população idosa. Segundo uma reportagem do jornal O Povo (2012), os números triplicaram nas últimas quatro décadas (entre 1970 e 2010). Estes saltaram de 205 mil para 758 mil, passando a representar 8,9% dos cearenses. Essas taxas constataram que o crescimento dessa parcela da população foi superior ao da população cearense, que passou de 4,3 milhões para 8,4 milhões entre 1970 e 2010. De acordo com Menezes; Lopes; Marucci apud Menezes (2012): 22 A cidade de Fortaleza possui 2.141.402 habitantes e, destes, 160.231 (7,5%) são indivíduos com 60 anos ou mais e assim como acontece no Brasil, Fortaleza tem experimentado aumento substancial na população idosa. De acordo com dados dos Censos Demográficos realizados nos anos de 1980 e 2000, constata-se que o crescimento da população idosa de Fortaleza em 20 anos foi expressivo, em relação à população total, visto que, enquanto houve aumento de 63% na população total, houve aumento de 130% na população idosa (60 anos e mais). Os indicadores demográficos mostram o aumento representativo dessa faixa etária no Brasil, demonstrando que a sociedade brasileira está passando por um processo de mudança em sua pirâmide etária, sendo necessária uma maior visibilidade para o envelhecimento dessa população (GOLDMAN, 2009). Percebe-se então que o Brasil não pode mais ser considerado um país prevalentemente jovem, visto que as pesquisas demográficas comprovam envelhecimento cada vez maior de seu contingente populacional. Através desse crescimento é inegável a necessidade de estudar e compreender melhor a velhice, contribuindo assim, com melhores respostas para as demandas dessa população, buscando melhorias para a qualidade de vida dessas pessoas. Esse envelhecimento que atinge o mundo é considerado um grande problema para o capitalismo, pois as pessoas mais velhas e que estão em processo de envelhecimento são consideradas improdutivas e não são mais uteis para o sistema de produção capitalista. “Quando o trabalhador se encontra na condição de velho é descartado pelo capital, que não lhe dá condições de sobrevivência” (TEXEIRA apud OLIVEIRA; FERNANDES E CARVALHO, p. 3). O processo da velhice para o sistema capitalista é uma fase que onera muitos gastos, haja vista que os idosos, além de não cooperarem com a sua mais-valia para a produção, não contribuem com os mesmos percentuais para a previdência social e, sim, utilizam dessa política através da aposentadoria, além dos gastos com a saúde, maiores do que em outra faixa etária e as políticas sociais que precisam ser criadas e implementadas para garantirem os mínimos direitos para essas pessoas. Segundo uma reportagem do G1(2011), o processo de envelhecimento da população, juntamente com a diminuição da natalidade está preocupando os países, principalmente da Europa, onde os seus governos já estão adotando políticas que incentivam os pais a gerarem mais filhos, buscando aumentar a população jovem de seus territórios. A Austrália é um dos países que mais incentivam a natalidade através de um Departamento de Assistência Familiar que cria subsídios a 23 aumentarem as suas famílias. Estes benefícios ajudaram a aumentar 14% dos nascimentos na última década na Austrália. O governo francês também incentiva a reprodução através de subsídios, cuidados gratuitos com crianças até 03 anos e grandes períodos de licença maternidade para as mães. Na Alemanha, o governo além de oferecer subsídios eles oferecem um terço do salário que os pais recebiam em seus empregos para pararem um ano de trabalhar para cuidarem dos filhos. Os países buscam a qualquer custo aumentar a natalidade para evitar uma recessão da população jovem dos seus estados, diminuindo a mão de obra para a produção capitalista e aumentando os custos com políticas para a população improdutiva que não oferece mais lucro para o país. Na sociedade em que se vive existem inúmeros estereótipos em relação à velhice e vários termos utilizados para nomear essa fase e essas pessoas que estão no processo de envelhecimento, os mais comuns dos termos são idosos, velhos ou terceira idade. Para Goldman (2009): As várias designações tentam, sem muito sucesso, suavizar, no discurso, a estigmatização que os idosos vivem no cotidiano. Importa, mais que a rotulação, a superação do estigma a que os idosos são submetidos e a significação que adquire na construção do espaço de cidadania como sujeitos históricos (GOLDMAN 2009, p. 160). O termo idoso é utilizado, na maioria das vezes, pelas políticas sociais e para o censo demográfico. Há alguns autores que preferem utilizar a termologia velho como sinônimo de idoso. Para outros, é considerado aquele que não tem mais utilidade. Segundo Alcântara (2003, p. 1) no Brasil o termo “velho” esta associado a designações negativas. O termo terceira idade é mais utilizado para as pessoas com o poder aquisitivo mais elevado. Então, escolher entre idoso, velho ou terceira idade vai depender do autor e da interpretação de cada um sobre os termos. Dentre os apresentados, no presente estudo a termologia escolhida será o idoso. 1.3 As legislações que amparam a população idosa no Brasil Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2007) o idoso é aquele habitante de um país em processo de desenvolvimento com sessenta anos ou mais, e nos países já desenvolvidos, são considerados aqueles habitantes com ou acima de sessenta e cinco anos. Mas para Goldman (2009, p.159), “A idade cronológica serve apenas como um índice objetivo, embora haja diferenciações entre gêneros, classes sociais, padrões de qualidade de vida no processo de envelhecimento”. 24 No Brasil o homem ou a mulher com sessenta anos de idade ou mais são considerados integrantes da terceira idade, e possuem direitos previstos tanto na Constituição da Republica Federativa do Brasil de 1988, quanto em normas infraconstitucionais. Logo no Art. 3° da CF, constituem como um dos objetivos fundamentais a promoção do bem de todos sem qualquer discriminação, inclusive a de idade, ofertando saúde para todos, previdência para quem contribuiu anteriormente e assistência para quem dela necessitar. Segundo Rulli Neto apud Cielo; Vaz (2003): A Constituição Federal de 1988 trouxe em seu texto, expressamente, direitos e garantias fundamentais, mas, apesar disso, há a necessidade de vontade política para o implemento da norma – direcionamento das políticas públicas para a proteção do ser humano, sempre que não for auto-aplicável o dispositivo constitucional ou no caso de depender de implementação de políticas públicas. (RULLI NETO 2003 apud CIELO; VAZ, 2009, p.34). A Carta Magna de 1988 aumentou e solidificou os direitos para essa população. Várias conquistas foram asseguradas por esse mecanismo como: aposentadoria de acordo com o tempo de serviço; aposentadoria de acordo com a idade; pensão por morte; reajustes dos benefícios relacionados ao salário mínimo; cálculo da aposentadoria baseado nos últimos 36 meses contribuídos e entre outras conquistas (GOLDMAN, 2009). A Constituição trouxe direitos importantes para os idosos, mas devido a esse crescimento exorbitante no número da população idosa, os direitos estabelecidos na Carta Política tornaram-se pequenos se comparados a importância desse crescimento. Havia necessidade de elaborar legislações mais especificas para esses idosos. Contudo foi através do impulso dado pela CF, pelas reivindicações e debates que buscavam a ampliação dos direitos para essa população que foram criados uma Política Nacional do Idoso (PNI) que está definida na Lei nº 8.842 (regulamentada pelo Decreto n° 1948/96), de janeiro de 1994. E posteriormente, o Estatuto do Idoso, regido pela Lei n° 10.741, de 1º de outubro de 2003. A Política Nacional do Idoso foi aprovada para certificar os direitos sociais do idoso, promovendo condições para autonomia, participação e integração efetiva na sociedade, onde estabelecem diretrizes e princípios para a efetivação dos direitos dessa população. Para Bruno (2003): Ela foi pautada em dois eixos básicos: proteção social, que inclui as questões de saúde, moradia, transporte, renda mínima, e inclusão social, que trata da inserção ou reinserção social dos idosos por meio da participação em atividades educativas, socioculturais, organizativas, saúde preventiva, desportivas, ação comunitária. Além disso, trabalho e renda, 25 com incentivo á organização coletiva na busca associada para a produção e geração de renda como cooperativas populares e projetos comunitários (BRUNO, 2003, p.78). Contudo, a Política Nacional do Idoso não vem sendo aplicada com eficiência. Os motivos que contribuem para essa pouca aplicabilidade vão desde contradições dos próprios textos legais até a falta de conhecimento do seu próprio conteúdo. Percebe-se também a falta de uma ação pública conjunta na elaboração dos projetos, pois os idosos, inúmeras vezes, são prejudicados por projetos implantados sem qualquer articulação pelos órgãos de assistência social, saúde e educação. (CIELO; VAZ, 2009) Quando foi aprovado no Congresso, o Estatuto do Idoso representou uma grande conquista, na qual foram estabelecidas sanções penais e administrativas para quem descumprisse os direitos nele impostos. Esta norma veio garantir direitos em diversas áreas, como saúde, transporte, distribuição de medicamentos, inserção do idoso no mercado juntamente com sua profissionalização e principalmente um objeto de cidadania. De acordo com Bruno (2003): O Estatuto, além de ratificar os direitos demarcados pela Política Nacional do Idoso, acrescenta novos dispositivos e cria mecanismos para coibir a discriminação contra os sujeitos idosos. Prevê penas para crimes de maus tratos de idosos e concessão de vários benefícios. Consolida os direitos já assegurados na Constituição federal, tentando sobretudo proteger o idoso em situação de risco social (BRUNO 2003, p. 79). O Estatuto foi um diferencial para o estudo dos direitos dos idosos no Brasil, principalmente em relação à publicização desses direitos e da temática do envelhecimento. Segundo Sousa apud Cielo; Vaz, (2009): [...] O Estatuto do Idoso é um instrumento que proporciona auto-estima e fortalecimento a uma classe de brasileiros que precisa assumir uma identidade social. Ou seja, o idoso brasileiro precisa aparecer! Precisa se inserir na sociedade e, assim, passar a ser respeitado como indivíduo, cidadão e participe da estrutura politicamente ativa. (SOUSA apud CIELO; VAZ, 2009, p. 42). Apesar de todos esses avanços conquistados no Estatuto do Idoso, estes necessitam de uma concretização diária, onde está cada vez mais distante de acontecer no palco das políticas públicas restritas do nosso país, de orçamento cada vez menor, principalmente para setores da educação e saúde, e também a transferência da responsabilidade do estado frente a questão social (GOLDMAN, 2009). Através da Política e do Estatuto do Idoso foram previstos conselhos para essa população, que são de natureza permanente, deliberativa e paritária. O 26 Conselho Nacional dos Direitos do Idoso (CNDI) integra a estrutura da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos. Estes conselhos são responsáveis por supervisionar, fiscalizar, orientar e zelar pela aplicação e efetividade da PNI, além de ser uma forma de representação política, participação e articulação para os idosos. Segundo Ribeiro (2008) os: Conselhos de políticas são instituições importantes na inclusão da participação da sociedade na formulação de políticas públicas, mas apenas sua existência não garante a representação política. É preciso que haja a ativa participação dos cidadãos, grupos e organizações sociais e os representantes devem sempre sustentar uma relação positiva com a entidade que representam, além de se conscientizarem sobre o que representam os conselhos (RIBEIRO 2008, p. 41-42). Segundo Barroso apud Ribeiro (2008), com a PNI e o Estatuto do Idoso, as questões relacionadas para essa população passaram a ser tratadas através de uma forma de cidadania e democracia. Estas questões saíram um pouco mais do âmbito caritativo e familiar, adquirindo uma conotação de direitos, visto que na própria CF de 1988 o idoso encontra-se no exercício de sua cidadania, de sua liberdade e dos seus direitos. Outro importante avanço para a população idosa foi a Política Nacional de Saúde do Idoso, regulada pela portaria n° 1.395, de Janeiro de 1999, esta política prevê um atendimento integral de saúde para essa população e para aqueles que estão em processo de envelhecimento, buscando uma velhice saudável. Segundo Santos (2010): [...] O objetivo central dessa política é a promoção do envelhecimento saudável, a preservação e/ou a melhoria da capacidade funcional dos idosos, a preservação de doenças, a recuperação da saúde e a reabilitação daqueles que apresentam alguma restrição de sua capacidade funcional (SANTOS 2010, p. 25). Outra importante lei que assiste a população idosa é a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) n° 8.742, de 07 de dezembro de 1993. Esta lei é de caráter não contributivo, e garante os mínimos sociais á pessoa portadora de deficiência e ao idoso com 65 anos ou mais. De acordo com o Art. 20 da LOAS o benefício de prestação continuada (BPC), garante um salário-mínimo ao idoso com 65 anos ou mais e á pessoa com deficiência, para estes que comprovem não terem condições mínimas de sustento e nem possuírem a renda provida por sua família. A Lei nº 8.742 assiste apenas os idosos cuja renda mensal per capita seja inferior a ¼ (um quarto) do salário mínimo, ou seja, que não possuem as mínimas condições de sobrevivência. Apesar da restrição a LOAS foi um grande avanço para 27 os idosos, pois promoveu uma condição básica de subsistência para aqueles que nem essas condições possuem. No Brasil, percebe-se que os idosos estão bem amparados no que se refere ás legislações. Tanto a Política Nacional do Idoso como o Estatuto do idoso trouxeram mais visibilidade para essa parcela da população antes tida como invisível. Estas contribuíram para a ampliação da cidadania e autonomia para os idosos. Contudo, apesar de todos os avanços que essas leis possibilitaram, é importante ressaltar que apenas a criação de leis sem uma verdadeira efetividade não resolvem os problemas e não garantem os direitos para essa parcela da população. Há uma deficiência nas suas aplicações, onde percebe-se inúmeros direitos negados para esses idosos e eles mesmo não possuem conhecimento sobre as suas garantias contidas nessas normativas. Para Cielo; Vaz (2009, p. 46) “[...] As leis Brasileiras, voltadas aos idosos, são mais uma carta de intenções do que propriamente comandos legais, vez que não fiscalizados adequadamente, são ignorados”. A sociedade como um todo deve fiscalizar a sua efetividade para tentar diminuir o seu descumprimento evitando um retrocesso de direitos já alcançados. Uma grande parte dos idosos brasileiros não possui seus direitos preservados e suas condições de cidadania são mínimas. O zelo e respeito para essa população que só cresce, deve ultrapassar as normas constitucionais, alcançando uma dimensão ética e moral. Respeitar, promover e reconhecer esses direitos é garantir uma igualdade para os idosos, visto que a idade avançada não tornam essas pessoas menos cidadãos (RIBEIRO, 2008). O cuidado e respeito exercitado no contexto familiar serviriam de exemplo do direito do idoso para além da legislação. 28 2. Família A importância da família começa na infância e passa pela adolescência, onde existe amparo, zelo e educação e que se prolonga até a vida adulta, com o apoio em diversos momentos da vida, na formação, no equilíbrio afetivo e no desenvolvimento físico e social. Segundo Simões (2011): A família constitui a instância básica, na qual o sentimento de pertencimento e identidade social é desenvolvido e mantido e, também, são transmitidos os valores e condutas pessoais. Apresenta certa pluralidade de relações interpessoais e diversidades culturais, que devem ser reconhecidas e respeitadas, em uma rede de vínculos comunitários, segundo o grupo social em que está inserida (SIMÕES 2011, p. 194). As promessas, expectativas e probabilidades em relação à instituição família estão embutidas no imaginário coletivo, aonde a que representa mais legitimidade e símbolos é a família tradicional (pais e filhos). Essa instituição carrega culturalmente o ônus de proteção, afetividade, cuidado, sociabilidade, construção de vínculos e identidade, e entre outras obrigações. Mas esses “deveres” não são garantias, a família da mesma forma que pode construir relações sólidas tem o poder de enfraquecer potencialidades e possibilidades (CARVALHO, 2002). É através dessa relação que o ser humano cresce e se desenvolve, para logo após construir a sua própria família, realizar suas escolhas e adquirir novas responsabilidades. Esta é um elemento que está em frequente mudança dentro da sociedade e não permanece imóvel, ao contrário, está sempre em um processo de alteração, onde tem a capacidade de passar de uma forma mais simples a uma forma mais complexa. A família geralmente é responsável por cuidar dos idosos, mas nem sempre essa instituição cumpre com essa responsabilidade, recaindo o papel de cuidador para outras instituições. Segundo Héredia; Cortelletti; Casara (2010): As transformações sociais ocorridas ao longo do século XX fizeram com que a família extensa fosse substituída pela família nuclear, e que as funções pessoais e institucionais, que antes ocupavam fossem modificadas. Algumas das funções consideradas por muitas décadas “sagradas”, tais como a biologia, a protetora, a religiosa, a educativa a integrativa foram repassadas para outras instituições como: escola, Estado, Igreja [...] (HÉREDIA; CORTELLETTI; CASARA 2010, p. 34). 2.1 Conceitos sobre família Compreende-se o que significa ser família como a célula do organismo social que proporciona fundamento a uma sociedade. É uma instituição composta por histórias pessoais e coletivas, proporciona pertencimento, formação de identidade, 29 questionamentos, interiorização de valores e socialização. A família é considerada uma instância responsável pela sobrevivência dos seus membros, e também como uma esfera privada que proporciona um relacionamento com a esfera pública (LOSACCO, 2010). Para o entendimento do que seja família, precisamos estudar um pouco sobre a sua formação e transformações no decorrer do tempo. As suas relações de hierarquias, obrigações e pertencimentos não são mais as mesmas, e o conceito de ser família é diferente para cada cultura e geração. Nas comunidades primitivas, não eram caracterizadas relações familiares individuais, visto que predominava a endogamia, onde as relações sexuais ocorriam com todos da comunidade. Com o passar dos tempos os homens começaram a manter relacionamentos com mulheres de outras tribos, contribuindo para alavancar as relações individuais que originaram a monogamia. Esta foi importante para o progresso da sociedade (SANTOS; COSTA, 2008). De acordo com Santos; Acosta (2008), podemos perceber que a família não é a-histórica, pois a sua influência e importância varia de acordo com cada cultura e sociedade. Na sociedade romana, a família tinha um grande valor tendo como responsabilidades os setores social, econômico, religioso, político e jurídico. Era representada pelo poder do “pater” família, considerado era o membro mais importante. Esse pater não estava relacionado a laços sanguíneos e relações de parentescos e sim relacionado à religião. Já na Idade Média a família estava relacionada a laços sanguíneos e tinha uma grande influência da igreja. A família para a Idade Média era responsável pela educação dos filhos e pelos ensinamentos religiosos. Percebe-se que mesmo na antiguidade, a família exercia uma grande influência para o indivíduo, repassando, cultura, conhecimento e ensinamentos referentes toda a sociedade. Para Santos (2010) a família é considerada o campo em que as pessoas aprendem e desenvolvem suas práticas de cuidado que são influenciadas por sua cultura. Segundo Simões (2011), na época das formações pré-capitalistas, onde a economia era basicamente agrária e as relações familiares eram baseadas nas relações de trabalho e produção. Assim, a reprodução era intensa, pois quanto mais reprodução, mais força de trabalho. Com a revolução burguesa e o desenvolvimento 30 fabril, essas relações começaram a serem superadas, pois a organização industrial baseou-se nas relações impessoais. Desta forma, com os vínculos excluídos das relações de produção, a função estritamente reprodutora da família diminuiu, tornando uma relação mais afetiva e assistencial. De acordo com Hermácula apud Vignoli: Com a adoção do sistema capitalista como sistema produtivo em substituição a outras formas de produção, a família foi perdendo a posse dos meios de produção. Se inicialmente era necessário haver famílias numerosas (o que implica uma alta taxa de fertilidade, uma vez que a unidade principal de produção era o grupo familiar), o desenvolvimento para a forma capitalista determinou que a família perdesse sua característica de unidade produtiva, fazendo com que cada membro desta se transformasse em vendedor de sua força de trabalho (HERMÁCULA apud VIGNOLI 2007, p.26). Segundo Osterne, no século XVIII, com a privacidade do lar, o surgimento da escola, a igualdade entre os filhos, o sentimento da família relacionado ao sentimento de classe legitimado por várias instituições deu origem a chamada família nuclear burguesa. Segundo a autora: A família burguesa tinha uma forma nuclear, reduzida ao pai, á mãe e aos filhos, organizada hierarquicamente ao redor de uma rígida divisão sexual de papéis, na qual competia ao homem a responsabilidade pelo sustento da família e á mulher, a educação dos filhos e os cuidados com o lar. Este modelo instituiu novos padrões de educação dos filhos e devotou importância à privacidade e à intimidade nas relações entre pais e filhos. A higiene, a disciplina, as emoções, a domesticidade, o amor materno e o amor romântico tornaram-se valores basilares á manutenção desse particular modelo de estruturação (OSTERNE 2004, p. 47). No século XXI, discutir sobre família no Brasil e em todo o mundo envolve lidar com mudanças com vários padrões de relacionamentos, onde, muitas vezes, os laços já estão frágeis. Vive-se em uma época, em que, a esfera social mais naturalizada que é a família, está sofrendo abalos internos e externos. Dificultando a sustentação de uma ideologia que associa à família a ideia de natureza, visto que as mudanças ultrapassam as respostas biológicas universais ás necessidades humanas (SARTI, 2010). É fato que as famílias têm passado por alterações em suas composições, devido as várias transformações sociais, culturais e históricas sofridas. Para Giddens (2005), essas mudanças eram inconcebíveis para gerações antigas, atualmente, a diversidade da família é encarada como uma mudança cotidiana na sociedade, onde essas modificações estão acontecendo no mundo inteiro e não apenas em países industrializados. Para Losacco (2010): 31 [...] a instituição família encontra-se em processo de desestruturação, de desagregação ou de crise, temos que ter claro que, mesmo aquelas que apresentam problemas, ela é ainda um “porto seguro” [...] é muito importante salientar que a família como organismo natural não acaba e que, enquanto organismo jurídico, requer uma nova representação (LOSACCO 2010, p. 64). Hoje, não se pode falar em um modelo único de família, pois houve uma heterogeneidade das composições familiares, motivadas por modificações econômicas, jurídicas, intergeracionais e de gênero. Não podemos falar em Família e sim em Famílias (MARANGONI; OLIVEIRA 2010). De acordo com Ceberio apud Falcão (2010), as famílias modernas que são aquelas que se configuraram depois de 1960, tiveram como modificações principais: diminuição no número de filhos; relações simétricas entre os casais; espaço de tempo maior para terem filhos durante um relacionamento, o homem mais presente na família e nos trabalhos domésticos; nível maior de clareza nas relações; opção de parceiros (as) homoafetivos; a mulher através da sua inserção ao mercado de trabalho conquistou certa independência financeira. Segundo Simões (2011) estas transformações também modificaram os valores e representações simbólicas que sustentam a família: [...] com o aumento da tolerância da sociedade com as uniões informais, os filhos nascidos fora do casamento, à relativa aceitação moral do divórcio, maior flexibilidade dos papéis dos membros da família, como a inserção da mulher no mercado de trabalho, sua proteção contra a violência doméstica (Lei Maria da Penha), novos valores na criação dos filhos, a consciência da identidade específica das crianças, adolescentes e idosos e a flexibilização da autoridade do antigo chefe de família. Desenvolveram-se novas referências para a institucionalização das relações familiares, face á desagregação da estrutura familiar tradicional [...] (SIMÕES 2011, p. 196). Devido a essas mudanças ocorridas na sociedade, principalmente levando em consideração o consumo exacerbado, houve essa mudança na composição familiar, onde os vínculos construídos anteriormente tornaram-se cada vez mais fragmentados. Segundo Cortelletti et al (2004): Na verdade, a família não se preparou para enfrentar mudanças socioculturais que geraram novas demandas sociais e, consequentemente, papéis de seus membros que se adequassem a elas. A família das últimas décadas do século XX teve que fazer frente a uma série de mudanças estruturais, que afetaram as suas funções principais e criaram novas necessidades para a sua manutenção e mesmo reprodução. Urbanização (sic), industrialização, crescimento da população e a transição demográfica foram transformações sociais e econômicas que afetaram o cerne da família na sua origem, por que alteraram a base das relações sociais entre os indivíduos (CORTELLETTI et al 2004, p. 31). 32 Historicamente, o cuidado com os idosos recaíam para as mulheres que aprendiam os cuidados com a saúde e a doença com as outras mulheres de sua família ou com o seu grupo sociocultural. Mas, com a mudança do tipo de trabalho e com a inserção da mulher no mercado de trabalho, transformou o modo de vida das pessoas e criou uma série de ocupações que não existiam antigamente. Segundo Cardoso apud Falcão (2010): O século XX foi um marco na mudança do papel das mulheres na sociedade. Esse momento registrou a passagem de uma condição caracterizada pela reclusão da figura feminina no espaço privado para uma presença mais abrangente e diversificada das mulheres em vários processos sociais, como o produtivo e o público (CARDOSO apud FALCÃO, 2010, p. 92). Outra importante conquista para as mulheres: a inserção da pílula anticoncepcional no mercado trouxe mais autonomia para elas em relação a sua função reprodutora. Além disso, as mulheres passaram a vincular mais a relação sexual com o prazer e não apenas como uma simples reprodução, trazendo consequências diretas para diminuição da natalidade e modificações o interior das famílias. De acordo com Vignoli (2007): [...] descoberta a pílula anticoncepcional [...] Possibilitou a mulher o direito de optar pela maternidade ou não. Facilitou o ingresso no mercado de trabalho remunerado e nas universidades. Ocorreu a fragilização dos laços matrimoniais, com as separações, divórcios e os novos acordos sexuais. Como consequência do divórcio e dos recasamentos, surgiu outra configuração que vem sendo chamada de “família reconstituída”. Observouse o crescimento da família monoparental, ou seja, chefiada por mulheres (VIGNOLI 2007, p.28). De acordo com Cortelletti et al, (2004), a mulher, que antes desempenhava papéis definidos dentro do grupo doméstico, começa a exercer funções externas que a deslocavam desse grupo e a obrigavam a acumular outras atividades. Todas essas modificações, principalmente a mudança para a família nuclear, fizeram com que as famílias entrassem em um processo de ruptura de seus vínculos. Apesar dessas alterações nas estruturas familiares serem vistas com uma maior naturalidade, estas ainda são complicadas para serem enfrentadas. De acordo com Sarti (2010): As mudanças são particularmente difíceis, uma vez, que as experiências vividas e simbolizadas na família têm como referência, a respeito desta, definições cristalizadas que são socialmente instituídas pelos dispositivos jurídicos, médicos, psicológicos, religiosos e pedagógicos, enfim, pelos dispositivos disciplinares existentes em nossa sociedade,os quais, têm nos meios de comunicação um veículo fundamental, além de suas instituições específicas. Essas referências constituem os “modelos” do que é e como deve ser a família, ancorados numa visão que a considera como uma 33 unidade biológica constituída segundo leis da “natureza”, poderosa força simbólica (SARTI 2010, p. 23). A autora também ressalta que o conceito de família é polissêmico, considerada ao grupo de indivíduos vinculados por laços consanguíneos, consensuais, jurídicos ou afetivos, constituindo redes de parentescos, fatores influenciados por aspectos biopsicossociais, históricos, culturais e econômicos. De acordo com Santos; Costa (2008), com todas as mudanças nos lares no século XX, a mulher conquistou certa autonomia em relação aos homens e nas legislações ela adquiriu os mesmos direitos dos seus cônjuges. As famílias passaram a serem nucleares, ou seja, mãe o pai e os filhos. Através dessas mudanças, o casamento acaba perdendo o seu sentido de procriação e de simplesmente fator para gerar uma família. O casamento começa a existir como uma relação de afeto e afinidade, onde outros modelos de família surgem para consolidar essas mudanças. Para Osterne (2004): A definição dominante de família congrega um conjunto de palavras afins: pai, mãe, filhos, casa, unidade doméstica, casamento e parentesco. A família tida como “legítima”, “normal”, que se interioriza no imaginário da maioria das pessoas, caracteriza-se como um conjunto de indivíduos aparentados que se ligam entre si por aliança, casamento, filiação, adoção, ocasional ou afinidade (OSTERNE 2004, p. 34). Nesse contexto foram criadas várias designações para nomear essas novas famílias e relações modernas, que surgiram para modificar o conceito de família clássica. Segundo Simões (2011): Entende-se por família natural, de origem, biológica ou consanguínea, a comunidade formada pelos pais e seus filhos, conjuntamente ou não com avós, netos ou tios (3° grau, art. 1521 C. Civil); monoparental, a da mãe ou o pai, um sem o outro, com seus filhos; anaparental, a de familiares sem os pais, constituídas de irmãos, tios, sobrinhos, primos e outros, podendo incluir outras pessoas sem parentesco, em que a descendência biológica não é essencial e sim o vínculo afetivo; homoafetivas, as constituídas por pessoas do mesmo sexo, que se vinculam por laços de afetividade, de maneira pública, duradoura e contínua, dentro de um contexto familiar análogo ao do casamento; e, por família substituta, aquela em que é colocada a criança ou o adolescente por meio da guarda, tutela ou adoção. O ECA instituiu, ainda, o conceito de família extensa ou ampliada (art.25, parágrafo único), acrescendo á família nuclear também os parentes próximos [...] (SIMÕES 2011, p.198). O que se percebe é que a família nuclear burguesa está, cada vez mais, perdendo a sua força e isso não envolve necessariamente consequências negativas para seus membros, pois a família não deve estar atrelada apenas a sua estrutura e sim as relações que são construídas no seu interior. Uma vez que estas relações 34 estão construídas com qualidade e respeito não importa o modelo familiar. Contudo, a sociedade ainda não enxerga tão abertamente essas mudanças, onde muitos consideram os desvios de personalidade, desestruturas e problemas psicológicos o fato da família está mudando as suas relações, desconsiderando a individualidade e subjetividade do indivíduo. A CF de 1988, no capítulo VII, art° 226 relata que a família é a base da sociedade e tem proteção especial do Estado, onde o casamento é civil, mas o religioso também tem efeito para lei, os direitos e deveres de efeito conjugal são exercidos da mesma forma tanto para o homem como para a mulher, relata também que o Estado assegurará assistência às pessoas que integram essa instituição, e entre outras prerrogativas. No art° 229° refere que os pais possuem como um de seus deveres criarem e educarem seus filhos, e os filhos quando adultos devem amparar os seus pais. O que se percebe é que o Estado a todo o momento busca uma transferência de responsabilidade para essa instituição, como se todas as famílias tivessem as mesmas condições básicas para colocarem em práticas essas obrigações. Segundo Goldani (1994): As especulações sobre a precariedade e instabilidade da instituição familiar ganham força e são reforçadas pela incapacidade do Estado em prestar os serviços sociais básicos ás famílias carentes e seus dependentes. Legalmente, o Estado brasileiro deve oferecer suporte ao menor e aos idosos por meio de programas sociais, o que ajudaria a aliviar as pressões econômicas e pessoais dessas famílias. Entretanto, o que observa, atualmente é uma crescente deterioração dos serviços públicos. O Estado trata de minimizar ao máximo a sua contribuição e clama por ajuda da comunidade e da família para com seus dependentes. (GOLDANI 1994, p. 09) As normativas básicas que incluem a família como objeto de intervenção e participação são o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei n° 8.069, de 13 de julho de 1990; a Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS), Lei n° 8.742, de 07 de dezembro de 1993; o Estatuto do Idoso, Lei nº 10.431, de 1º de outubro de 2003 e o Programa Bolsa Família (PBF), Lei n° 10.836, de 09 de janeiro de 2004, regulamentado pelo decreto nº 5.209, de 17 de setembro de 2004. É importante ressaltar que no nosso país não existe nenhuma legislação e política social específica que ampare essa instituição como um todo. O que existe, são políticas centralizadas nos seus membros, que não levam em consideração todo o contexto familiar e as relações que existem naquela família. De acordo com Schnorrenberger (2003): 35 [...] na ausência de uma política social especifica para a família, é comum deparar-se com diferentes políticas públicas focadas no indivíduo e não no grupo familiar como um todo. Isto dificulta o processo de proteção e qualidade de vida familiar. Assim predominam as propostas residuais, centralizadas em situações limites e pontuais (SCHNORRENBERGER 2003, p. 22). A criação e efetividade de políticas sociais que tratem as famílias como indivíduos coletivos e detentores de direitos, respeitando as diversas complexidades que existem em suas estruturas, necessitam de ações articuladas entre recursos governamentais e não governamentais. As políticas sociais precisam ser articuladas com as outras políticas, visando uma integralidade de diversas dimensões como emprego, lazer, renda, moradia, educação e entre outros direitos (FARAH, 1999 apud FONSECA, 2006, p. 05). Apesar de todas as contradições que envolvem essa instituição tão valorizada e desprezada na sociedade é inegável a sua importância para a evolução dos seres humanos, pois, é através dela que existe uma primeira socialização do ser com a sociedade. Mesmo com esse afeto que pode ter outros significados como a justificativa para o autoritarismo, brigas de poder, exploração e submissão, a família ainda é importante e com todas as mudanças nas suas estruturas essa instituição ainda sobrevive na sociedade e na história. De acordo com Sawaia (2010): [...] as tentativas e as previsões sobre o seu desaparecimento não deram certo. Ela continua sendo, para o bem ou para o mal, a mediação entre o indivíduo e a sociedade. E mais, assiste-se hoje ao enaltecimento dessa instituição, que é festejada e está em evidência nas políticas públicas, e é desejada pelos jovens. (SAWAIA, p. 41) Para os idosos é mais complicado entender e aceitar essas modificações na família, visto que eles nasceram em uma época em que a família tradicional era a principal, onde os filhos eram muito submissos aos pais e as relações hierárquicas eram claras. Devido todos esses processos as instituições asilares estão cada vez mais requisitadas tanto pela família como pelos próprios idosos. Porém, na maioria dos casos, é a família quem decide procurar pelos agentes profissionais nessas organizações. Estas instituições constituem a modalidade mais antiga e universal de atenção à pessoa idosa fora de sua família. 36 2.2 A Família e o Idoso A família é definida como uma das instituições mais importantes em uma sociedade, esta possui responsabilidades sociais, principalmente em relação ao idoso. Grande parte dos cuidados com eles incide sobre suas famílias, devido à dificuldade para ingressar no mercado de trabalho, diminuição dos recursos do Estado e também por algumas doenças que acometem essas pessoas. De acordo com Neri (1990): [...] em todo mundo, a família é a principal fonte de apoio e de cuidado a idosos. Ao proporcionar cuidados por intermédio de alguns de seus membros, cumpre normas socioculturais fundamentais á continuidade da sociedade. A atribuição do papel de cuidador a alguns membros e não a outros não é arbitrária, mas obedece a normas sociais de parentesco, gênero e idade e á dinâmica das relações familiares (NERI [et al.] 1990, p. 11). Segundo Sarti (2010, p. 33) a ideia de família “[...] define-se em torno de um eixo moral. Suas fronteiras sociológicas são traçadas segundo o princípio da obrigação, que lhe dá fundamento, estruturando as relações. Dispor ás obrigações morais recíprocas é o que define a pertinência ao grupo familiar”. Com o processo de envelhecimento necessita de uma demanda maior de serviços públicos especializados para essa população A família brasileira como a principal instituição responsável pelo suporte econômico e afetivo para com seus idosos, necessitará aumentar, cada vez mais, essa sua função buscando minimizar as lacunas deixadas pelo Estado. (GOLDANI, 1994) De acordo com a lei 10.741/03, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso é obrigação da família, comunidade, sociedade e Estado assegurarem bem estar, dignidade e direito a uma vida saudável para os idosos. Para Goldman (2009) a lógica neoliberal pretende, cada vez mais, desresponsabilizar o Estado diante da questão social, para colocar a família e a sociedade em maior relevância. Devido às transformações estruturais na família, além da diminuição nos números de filhos, grande parte dos componentes dessa família trabalha ou estuda fora de casa, tornando muito difícil a atenção com o idoso. Reduzindo essa relação de cuidado e apoio. Entende-se que na velhice existem várias alterações, devido à época de vulnerabilidade, que conduzem o idoso à dependência, gerando situações que necessitam da presença de outra pessoa por longos períodos, sendo, nestas épocas, a família a principal fonte de cuidados. É nessa hora que os membros da 37 família deveriam assumir o papel de cuidadores, por terem uma responsabilidade culturalmente definida e um vínculo afetivo. Essa relação de cuidado pode ser realizada pelas redes sociais de apoio que são caracterizadas, segundo Antonucci e Akyiama apud Neri e Sommerhalder (2006): [...] são grupos hierarquizados de pessoas que mantêm entre si laços e relações de dar e receber. Elas existem ao longo do ciclo vital, atendendo á motivação básica do ser humano á vida gregária. No entanto, sua estrutura e suas funções sofrem alterações dependendo das necessidades das pessoas. As redes sociais de apoio a idosos são caracterizadas por normas de conduta, valores e expectativas que lhes são específicas. Dar e receber ajuda material, instrumental e emocional, e, além disso, serviços e informações são funções centrais das redes de apoio envolvendo adultos e idosos. Além disso, elas permitem ás pessoas crerem que são cuidadas, amadas e valorizadas, oferecem-lhes garantias de que pertencem a uma rede de relações comuns e mútuas [...] (ANTONUCCI E AKYIAMA apud NERI E SOMMERHALDER 2006, p. 12-13). Segundo Neri apud Neri e Sommerhalder (2006), existe as redes sociais de apoio formal e informal. No Brasil a rede de apoio formal é caracterizada pelos hospitais, consultórios, casas de apoio, asilos, clinicas geriátricas e ente outras instituições, ou seja, essa rede de apoio é baseada em uma relação mais legal, onde envolve profissionais especializados, remuneração e contratos oficiais. A rede de apoio informal é caracterizada pelo seu funcionamento baseado na solidariedade e reciprocidade entre as gerações. O princípio da solidariedade é caracterizado pelos cuidados vindos do cônjuge, parentes e amigos próximos. O princípio da reciprocidade é relacionado ao cuidado que provém dos filhos para com os pais. Na ausência desses o cuidado pode recair para os cônjuges dos filhos e para outros descendentes. A família nem sempre exerce ou cumpre essa função e responsabilidade de cuidar dos idosos, ocasionando situações de abandono e/ou asilamento. É significante o número de indivíduos idosos que são vítimas de abandono, falta de alimentação, saúde, dignidade, cultura, condições de higiene adequadas e entres outros direitos negligenciados. Minayo (2005) descreve alguns abusos que podem acometer essas pessoas, e alguns são realizados por familiares, podemos citar: abuso físico que são ações que usam da força física para obrigar, forçar e constranger os idosos podendo ferilos, machuca-los e em alguns casos leva-los até a morte; abuso sexual refere-se ao ato sexual ou práticas eróticas utilizando as pessoas idosas, através de ameaça, violência física ou aliciamento; abuso psicológico é caracterizado por agressões 38 verbais ou gestuais que tem por objetivo humilhar, aterrorizar, restringir e isolar o idoso do convívio social; abandono que é manifestado pela ausência de responsáveis governamentais, institucionais e familiares com aqueles idosos que necessitam de proteção; abuso financeiro refere-se ao uso e exploração indevida dos recursos financeiros e patrimoniais para com esses idosos; negligência caracteriza-se pela recusa ou omissão de cuidados aos idosos por parte da família ou de outra instituição; autonegligência que manifesta-se em atitudes do próprio idoso (a) que ameaça a sua saúde e segurança com atitudes de recusas a seus próprios cuidados. Os estudos mostram que os idosos estão sofrendo, cada vez mais, violência e abuso nas suas próprias residências, como se não bastasse os abusos ocasionados no espaço de vida pública. As suas casas que deveriam ser um local de segurança e livre de qualquer perigo, hoje é um grande espaço de violência e abuso, que geralmente são causados pelos seus próprios familiares. Essas situações demonstram á necessidade de intervenção do Estado, da sociedade e da família, buscando combater essa violência que atinge essa população. Além, de tentar converter os estereótipos, preconceitos e mitos em respeito, buscando construir uma sociedade mais digna e com igualdade para todos (BERZINS; WATANABE, 2010). Na atualidade, observa-se que a sociedade do consumo exacerbado, está cada vez mais desigual e excludente. Nota-se uma modificação principalmente na estrutura familiar, onde há uma grande alteração nos papéis dentro dessa instituição, punindo principalmente as crianças e os idosos. Com isso, cabe a outras instituições substituir ou preencher essa lacuna do cuidado. Diante dessa situação, é cada vez mais frequente os parentes buscarem auxílios nos asilos e até mesmo os próprios idosos buscarem apoio nos lares e clínicas geriátricas para diminuir o peso para suas famílias. De acordo com Queroz (2010): No dia a dia, muitas são as razões que conduzem ao internamento de idosos em instituições de longa permanência. Algumas são de ordem econômica (a família não consegue suprir financeiramente as necessidades do idoso), outras são de ordem estrutural (não há pessoas adultas disponíveis para cuidar do idoso). Em alguns casos, há problemas de relacionamentos entre membros da família ou com o idoso e ocorre a institucionalização (QUEROZ 2010, p.123). Essa institucionalização pode trazer inúmeras consequências para os idosos, visto que eles saíram de um ambiente físico conhecido e também do convívio com 39 pessoas do seu dia-a-dia, para conviverem com pessoas desconhecidas, onde necessitará uma construção de laços de afetividade e confiança. A atenção e o afeto são importantes e favorecem a saúde, proporcionando sentido e significado para as relações humanas. Porém, é importante lembrar que o ato de oferecer cuidado e zelo vão de acordo com a liberdade de cada indivíduo. O amor é direito individual e ninguém é obrigado a gostar de alguém e nem todas as famílias possuem as mesmas condições para exercerem os diversos cuidados que os idosos necessitam. É impossível forçar um filho a amar um pai ou uma mãe que passou uma vida toda agindo com arbitrariedade e desamor, as relações familiares e de afetividade não são mercadoria de troca. No processo de cuidado a um idoso devem ser avaliadas outras dimensões como: saúde mental dos membros da família e relações de convivências anteriores. Não pode generalizar essas relações precisamos compreender que cada caso é um caso. (FALCÃO; MALUSCHKE 2010) 2.3 Família, Institucionalização e Idoso O aumento da longevidade e as inevitáveis consequências do processo de envelhecimento ocasionam mudanças na família, onde o idoso, muitas vezes, tornase dependente, necessitando de ajuda de outra pessoa, geralmente, algum familiar. Mas, em muitos casos, o cuidado para com os idosos recaí sobre outras pessoas ou para as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), públicas ou privadas, que buscam preencher essas lacunas deixadas pela família. Segundo Davim et al (2004): A situação familiar do idoso no Brasil reflete o efeito cumulativo em eventos socioeconômicos, demográficos e de saúde ao longo dos anos, demonstrando que o tamanho da prole, as separações, o celibato, a mortalidade, a viuvez, os recasamentos e as migrações, vão originando, no desenvolver das décadas, tipos de arranjos familiares e domésticos, onde o morar sozinho, com parentes ou em asilos, pode ser o resultado desses desenlaces. (DAVIM et al 2004, p. 519) O Decreto nº 1.948, de 03 de julho de 1996, que regulamenta a lei nº 8.842, que dispõe sobre a PNI, prevê que só na inexistência do grupo familiar, abandono e carência de recursos financeiros da família, os idosos podem recorrer para o atendimento asilar. Segundo Santos: 40 [...] Em uma de suas diretrizes propõe priorizar o atendimento aos idosos por intermédio de suas próprias famílias, em detrimento do atendimento asilar. Verifica-se, aí, a oficialização da reprivatização do cuidado e o retorno á família da responsabilidade de cuidar de seus idosos [...] (SANTOS 2010, p.24). Existem vários motivos que influenciam a institucionalização desses idosos. Héredia; Cortelletti; Casara (2010) citam alguns como a ausência do cônjuge, a história de vida como conflitos na família, os interesses dos membros da família, o descaso com a velhice dos filhos e dos outros familiares para com a pessoa idosa e a degradação física dos idosos, dentre outras características. Segundo Alcântara (2003), o cristianismo foi o pioneiro nos cuidados com a pessoa idosa e as primeiras instituições filantrópicas surgiram nos primórdios do Império Bizantino. E, acredita-se, que o primeiro asilo foi criado pelo Papa Pelágio II, que transformou a sua própria casa em um hospital para cuidar dessas pessoas. Contudo, apenas no século XX que essas instituições responsáveis por prestar cuidado a idosos foram denominadas de asilo, casas de repouso, lares, abrigos, sendo a maioria, de caráter filantrópico. Os modelos de asilos no Brasil ainda se assemelham as instituições totais, que caracterizam-se como locais fechados que funcionam com regime de internação, onde um número significativo de internos vivem em tempo integral sobre a direção de uma equipe que administra a vida da instituição. De acordo com Héredia; Cortelletti; Casara (2010): [...] asilos são instituições totais, criadas para cuidar de pessoas consideradas incapazes, dependentes, velhas, sem condições de decisão. Ou seja, de pessoas que não possuem autonomia- capacidade para realizar atividades diárias, tomar decisões, tendo liberdade de ação- e nem independência- possibilidade de suprir as suas necessidades (HÉREDIA; CORTELLETTI; CASARA 2010, p.20). Para Goffman (1996), uma instituição total pode ser caracterizada como um espaço de residência ou trabalho onde um grupo de indivíduos em situação semelhante, separados da sociedade, levam uma vida fechada e administrada formalmente. Estas instituições totais podem ser classificadas em cinco grandes grupos: O primeiro, que é considerado um local criado para cuidar de indivíduos os quais, segundo eles são inofensivos e incapazes, caracterizando os asilos casa para cegos 41 e orfanatos. O segundo grupo, são locais onde as pessoas não podem cuidar-se sozinhas e podem tornar-se uma ameaça para a comunidade, caracterizando os sanatórios e hospícios. O terceiro grupo constitui-se em estabelecimentos onde as pessoas são involuntariamente encarceradas, a exemplo das prisões, campos de concentração e campos de guerra. O quarto grupo constitui-se de locais onde os indivíduos adentram voluntariamente, como escolas internas, quartéis e navios. E o quinto e último grupo caracteriza-se por instituições religiosas, mosteiros e conventos. Nesse projeto trabalharemos com o primeiro grupo, tratando-se dos idosos. (GOFFMAN, 1996) De acordo com Héredia; Cortelletti; Casara (2010) as instituições asilares possuem como atribuições o dever de cuidar, alimentar, proteger e acolher os idosos, através de condições básicas dignas e lazer. Essas instituições possuem duas características: a primeira, a comunidade convivendo no mesmo espaço físico e a segunda, a de instituição formal que possui suas normas e hierarquias. No Brasil, não existe uma história fidedigna sobre a criação das instituições para idosos, mas acredita-se que teve a sua origem devido aos asilos de antigamente. O processo de envelhecimento populacional e as consequências desse envelhecimento como dependência e diminuição nas capacidades físicas, cognitivas e funcionais criaram a necessidade de um local que fosse além da assistência social, um local onde os idosos tivessem principalmente o acesso a uma ótima saúde, visando uma melhor qualidade de vida. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, buscando uma denominação para essa nova forma de instituição de acolhimento para idosos, aderiu o título de Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) (CAMARANO; KANSO, 2010). Segundo o artigo n° 49 do Estatuto do Idoso, todas as entidades que adotam programas de ILPI deveram seguir alguns princípios, tais como: manutenção dos vínculos familiares; atendimento personalizado e em pequenos grupos; preservação do idoso na mesma instituição, salvo em caso de força maior; atividades comunitárias internas e externas; preservação de direitos e garantias dos idosos; zelo pela manutenção da identidade do idoso e ambiente saudável que promova o respeito e dignidade. A Portaria n° 810, de 22 de setembro de 1989, regula e estabelece regras e um modelo de funcionamento a ser seguido pela ILPI, casas de repouso, clínicas geriátricas e outras instituições. Segundo Ângelo; Silva; Lima (2011): 42 [...] consideram-se instituições de longa permanência (ILPI) os estabelecimentos com denominações diversas, correspondentes aos locais equipados para atender pessoas com 60 anos e mais. Sob regime de internato, mediante pagamento ou não, durante um período indeterminado, podem dispor de um quadro de trabalhadores para atender às necessidades de cuidados de saúde, alimentação, higiene, repouso e lazer dos usuários, além de desenvolver outras atividades características da vida institucional (ÂNGELO; SILVA; LIMA 2011, p.664). As instituições mais comuns que assumem esse papel de cuidador para com a pessoa idosa são nomeadas de instituições filantrópicas e são reguladas pela lei n° 12.101, de 27 novembro de 2009. De acordo com Petrelli (2003): [...] entenda-se aqueles cuja realização não envolva exploração de atividade mercantil, nem distribuição de lucros ou participação no resultado econômico final da entidade. Não enseja a perda da característica de entidade sem fins lucrativos, o fato de prestar serviços remunerados ou de obter resultados econômicos positivos, anualmente. (PETRELLI 2003, p. 4). A decisão da família ou do próprio idoso ao acolhimento em uma instituição de longa permanência acarreta várias consequências, de acordo com a história de vida e subjetividades de cada um. Segundo Héredia; Cortelletti; Casara (2010). O processo de internação numa instituição asilar representa muito mais do que simplesmente uma mudança de um ambiente físico para outro. Representa para o idoso a necessidade de estabelecer relações com todos os aspectos de seu novo ambiente, ajustar-se ano novo lar mais do que o lar a ele, considerar-se abandonado, ansioso e com medo da ideia (sic) de passar os últimos anos da vida num lugar estranho, em meio a desconhecidos (HÉREDIA; CORTELLETTI; CASARA 2010, p.21). As autoras retratam ainda que ao chegar a instituição, a pessoa idosa traz consigo uma história de vida, sustentada principalmente pelo convívio familiar, e durante o processo de institucionalização, na maioria dos casos, ele precisará dela abrir mão da convivência anterior devido à inserção na sua nova condição de vida. Nessa mudança de ambiente, onde as perdas se impõem, os laços afetivos sofrem uma ruptura que atinge profundamente o indivíduo. 43 3. Percurso metodológico e resultados da pesquisa No processo da pesquisa é primordial a escolha do método, pois é através dele que será construída a mesma. Segundo Marconi e Lakatos (2003): [...] o método é o conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo - conhecimentos válidos e verdadeiros -, traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista (MARCONI E LAKATOS 2003, p. 83). O objeto da pesquisa exigiu uma pesquisa de campo, com uma abordagem qualitativa, com finalidade exploratória. As técnicas de coleta de dados foram desde a observação e a entrevista. Os dados foram analisados através do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) que de acordo com Lefèvre, F.; Lefèvre, A. M. C (2005), “[...] é, em suma, uma forma ou expediente destinado a fazer a coletividade falar diretamente”. Foi percorrendo esse caminho metodológico que se buscou obter os resultados da pesquisa, tentando desvelar os objetivos norteadores. 3.1 Metodologia Durante o processo de investigação de uma pesquisa, um dos passos principais é a escolha do método, pois é através dele que se dará a melhor forma de buscar o conhecimento para a construção da pesquisa. Segundo Demo (2009): [...] pesquisar carece de método. Embora apenas instrumental, é indispensável sob vários motivos: de um lado, para transmitir á atividade marcas de racionalidade, ordenação, otimizando o esforço; de outro, para garantir espírito crítico, contra credulidades, generalizações apressadas, exigindo para tudo o que se diga os respectivos argumentos; ainda, para permitir criatividade, ajudando a devassar novos horizontes [...] (DEMO 2009, p. 12). A metodologia é essencial para a pesquisa e considerada categoria central para as teorias sociais, devido ela fazer parte da visão social de mundo veiculada na teoria. Possui concepções teóricas para a abordagem, conjunto de técnicas para a pesquisa que possibilitam, juntamente com a capacidade criativa do pesquisador, uma aproximação com a que possibilite sua apreensão (MINAYO, 1999). O objeto da presente pesquisa exige uma abordagem qualitativa, pois esta ultrapassa os dados estatísticos. De acordo com Martinelli (1999) a pesquisa quantitativa dimensiona os problemas, trazendo extensos retratos da realidade, mas não consegue trazer as concepções dos sujeitos. Segundo a autora: 44 [...] tornava-se fundamental buscar novas metodologias de pesquisa que, mas do que buscar índices, modas, medianas, buscassem significados, mais do que buscar coleta de informações, buscassem sujeitos e suas histórias. Certamente, isso pressupõe um outro modo de fazer pesquisa, no qual não deixa de ser importante a informação quantitativa, mas sem que se excluam os dados qualitativos. Esses dados ganham vida com as informações outras, com os depoimentos, com as narrativas que os sujeitos nos trazem [...] (MARTINELLI, 1999, p. 21). Streubert e Carpenter (1995) apud Santos (2010) concordam com Martinelli (1999) quanto afirmam que a abordagem qualitativa tem como característica a presença de várias realidades, buscando a compreensão dos fenômenos estudados através do próprio sujeito da pesquisa. Nesta abordagem, o pesquisador é considerado componente integrante do processo da pesquisa. A pesquisa qualitativa possibilita um maior aprofundamento com o tema, pois permite que o pesquisador observe a totalidade do sujeito pesquisado através da sua subjetividade, pensamentos, modos de vida, construções sociais, cultura e entre outros aspectos. A pesquisa quantitativa é limitada nesse sentido, uma vez que não trabalha com essas concepções. Segundo Queiroz (2008) a abordagem qualitativa é a melhor forma de captar a maneira de ser do objeto pesquisado, desvendando os predicados e as divisões internas de uma sociedade. A fonte mais privilegiada nessa pesquisa é a narrativa oral. Esse instrumento permite que a realidade do sujeito seja descoberta a partir dos significados que por ele são atribuídos. Então, nada melhor que a fonte oral para realizar esses desvendamentos. (MARTINELLI, 1999) No presente estudo de campo foram de fundamental importância o olhar, o ouvir e o escrever. Segundo Oliveira (2000), é indispensável para a construção do saber destacar a importância do olhar, do ouvir e do escrever, estes que são importantes para apreensão dos fenômenos sociais. No momento de uma pesquisa de campo o olhar é o primeiro sentido que analisa o seu objeto de estudo, este que é transformado e visto primeiramente por um conceito que construímos dentro das matérias e estudos prévios sobre aquele objeto, mas esse olhar por si só não é suficiente, o pesquisador precisa utilizar outras estruturas para sua pesquisa. Outro meio de investigação é o ouvir, importante por captar informações diretas com o objeto pesquisado, fator que seria impossível apenas com a observação. O olhar e o ouvir são complementares. O último estágio para a pesquisa de campo é o escrever, este que permite passar para o papel a investigação feita através do olhar e do ouvir. Segundo o Autor: 45 [...] essas “faculdades” do espírito têm características bem precisas quando exercitadas na órbita das ciências sociais e, de um modo todo especial, na antropologia. Se o olhar e o ouvir constituem a nossa percepção da realidade focalizada na pesquisa empírica, o escrever passa a ser parte quase indissociável do nosso pensamento, uma vez que o ato de escrever é simultâneo ao ato de pensar [...] (OLIVEIRA, 2000 p. 31-32). Através da apropriação dessas faculdades vitais para a pesquisa é que foi utilizada a pesquisa de campo que, segundo Gil (2002), procura o aprofundamento de uma realidade específica. É basicamente realizada por meio da observação direta das atividades do grupo estudado e de entrevistas com informantes para captar as explicações e interpretações do que ocorre naquela realidade. Nessa etapa foram realizadas as entrevistas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré (AASCL), na busca de compreender a percepção que a pessoa idosa possui sobre as suas relações familiares. Realizou-se a pesquisa de campo, onde a coleta de dados se dá no local onde ocorrem os fenômenos, com o objetivo de obter informações sobre o problema. De acordo com Marconi e Lakatos (2003) a pesquisa de campo tem como principal objetivo a captação de informações ou hipóteses acerca de um assunto que o pesquisador pretende desvelar. A pesquisa de campo trabalha assim, confirmando e elaborando novas hipóteses, ou desvendando novas relações entre os envolvidos na pesquisa por meio da observação direta. Segundo Marconi e Lakatos (2003): A observação é uma técnica de coleta de dados para conseguir informações e utiliza os sentidos na obtenção de determinados aspectos da realidade. Não consiste apenas em ver e ouvir, mas também em examinar fatos ou fenômenos que se desejam estudar [...] Desempenha papel importante nos processos observacionais, no contexto da descoberta, e obriga o investigador a um contato mais direto com a realidade. É o ponto de partida da investigação social (MARCONI E LAKATOS 2003, p. 190). Como técnica de coleta de dados no campo foi utilizada a entrevista semiestruturada, que se concretiza através de um roteiro previamente elaborado (Lakatos, 2003). A entrevista é considerada a técnica mais segura para adquirir algumas informações que apenas os sujeitos pesquisados podem responder, pois alguns dados importantes não constam em fontes documentais e outros registros. Segundo Cervo (2007): [...] A entrevista é uma conversa orientada para um objetivo definido: recolher, por meio do interrogatório do informante, dados da pesquisa [...] possibilita registrar, além disso, observações sobre a aparência, o comportamento e as atitudes do entrevistado [...] (CERVO 2007, p.52). 46 O critério de inclusão dos sujeitos foi às idosas possuírem algum familiar vivo, uma vez que o estudo é focado na percepção sobre suas relações familiares. As entrevistas foram realizadas no mês de abril e maio do corrente ano. Para resguardar o sigilo dos sujeitos foi modificado os seus nomes verdadeiros por nomes fictícios. Os nomes fictícios começaram todos com Maria, pois a maioria dos sujeitos possui devoção por Maria mãe de Jesus Cristo. A pesquisa foi um estudo descritivo-exploratório, buscando uma maior e melhor familiaridade com o objeto de estudo. Também utilizou-se da pesquisa bibliográfica desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos (GIL,2002). O levantamento bibliográfico tem como finalidade encontrar soluções para os problemas formulados. A fonte são os documentos bibliográficos que podem ser documentos escritos impressos ou guardados em meios magnéticos e eletrônicos. O pesquisador precisa selecionar o material de acordo com o tema da sua pesquisa para facilitar o estudo (CERVO, 2007). Dessa maneira, foram coletados e selecionados alguns artigos científicos, além de obras literárias e publicações periódicas diversas, tais como jornais e revistas, cujo material seja pertinente ao tema, possibilitando um maior conhecimento sobre a categoria do idoso e família. Esse levantamento bibliográfico para a coleta de dados deu-se de uma forma de natureza primária através da pesquisa de campo e a entrevista, e de natureza secundária através de informações colhidas nos livros, revistas, jornais, dentre outras fontes. A técnica de análise dos resultados obtidos pelas entrevistas foi o método do discurso do sujeito coletivo (DSC), criado por Fernando Lefèvre e Ana Maria Cavalcanti Lefèvre. A ideia desse método, basicamente, é realizar a analise do material verbal coletado através dos entrevistados, retirando de cada narração sua ideia principal, palavras-chaves e expressões-chaves parecidas. Segundo Lefèvre, Crestana e Cornetta (2002): [...] é uma proposta de organização e tabulação de dados qualitativos de natureza verbal, obtidos de depoimentos. Tendo como fundamento a teoria da Representação Social e seus pressupostos sociológicos, a proposta consiste basicamente em analisar o material verbal coletado, extraído de cada um dos depoimentos. O Discurso do Sujeito Coletivo é uma modalidade de apresentação de resultados de pesquisas qualitativas, que tem depoimentos como matéria prima, sob a forma de um ou vários discursos-síntese escritos na primeira pessoa do singular, expediente que 47 visa expressar o pensamento de uma coletividade, como se esta coletividade fosse o emissor de um discurso (LEFEVRE, CRESTANA E CORNETTA, 2002 p.70). De acordo com Levèvre e Lefèvre (2005), o DSC é um caminho metodológico que usa da estratégia discursiva para tornar mais clara uma representação social, onde busca captar o conjunto de individualidades semânticas presentes no imaginário social, este pretende fazer com que a coletividade discorra diretamente. Segundo Lefèvre, Crestana e Cornetta (2002): Esta técnica consiste em selecionar, de cada resposta individual a uma questão, as Expressões-Chave, que são trechos mais significativos destas respostas. A essas Expressões Chaves correspondem Ideias Centrais que são a síntese do conteúdo discursivo manifestado nas Expressões Chave. Com o material das Expressões Chave das Ideias Centrais constroem-se discursos-síntese, na primeira pessoa do singular, que são os DSCs, onde o pensamento de um grupo ou coletividade aparece como se fosse um discurso individual (LEFEVRE, CRESTANA E CORNETTA, 2002 p.70). Como poderão ser vistas nas análises, estas responderam a alguns questionamentos que foram propostos sobre o tema, podendo vir a facilitar o entendimento não só para o pesquisador, mas também para a sociedade através daqueles que tiverem acesso ao presente estudo. Acredita-se que o resultado deste trabalho científico possa também servir como fonte de pesquisa para outros pesquisadores interessados pela mesma temática. 3.2. Campo da Pesquisa A história do surgimento da Associação de Assistência Social Catarina Labouré (AASCL), conhecida como Casa de Nazaré, teve sua origem através do trabalho desenvolvido pela Companhia das Filhas da Caridade, instituição criada em 29 de Novembro de 1633, em Paris, por São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac. A missão inicial era a de servir a Jesus Cristo – corporal e espiritual – na pessoa dos pobres. A obra cresceu e chegou a Província de Fortaleza para atender as idosas desamparadas, considerando a precariedade dessa assistência na cidade. A instituição atende apenas mulheres, devido o seu surgimento ter sido atrelado ao trabalho de filhas da caridade, que cuidavam apenas das mulheres idosas. Nascia assim, de forma simples e espontânea, a Casa de Nazaré, em 15 de novembro de 1941, constituindo-se como uma sociedade civil e religiosa, de caráter assistencial social ao idoso, à educação e à saúde, sem fins lucrativos. 48 A AASCL atende atualmente quarenta idosas, no sistema casa lar de permanência sob sua responsabilidade. Sua prática segue os seguintes princípios: dar assistência de nutrição, saúde, proteção, social e entretenimento; respeitar autonomia, interesses, aptidões e condições físicas e mentais das idosas; garantir, por todos os meios possíveis, oportunidades de preservação da saúde física e mental, convivência comunitária e familiar visando o fortalecimento do vínculo familiar; estimular a boa convivência entre elas, e, promover a harmonia do ambiente saudável e digno; prover dentro das limitações da instituição as necessidades materiais com qualidade; acompanhar a idosa dentro das suas necessidades individuais; orientar e encaminhar a idosa acolhida, para os serviços de saúde ofertados pelo município. As idosas residentes na instituição são procedentes do interior do estado e da capital. Possuem escolaridade restrita, mas é possível encontrar algumas analfabetas, alfabetizadas ou letradas. A formação profissional também é limitada. A maioria é formada por costureiras, bordadeiras, domésticas aposentadas pela previdência social, pensionistas ou beneficiárias do benefício de prestação continuada (BPC). Na juventude, grande número das idosas entrevistadas desempenhava a ocupação de costureira, doméstica, bordadeira, funções domésticas na própria residência e apenas uma era professora. Com o rompimento do vínculo familiar, em alguns casos acarretados pela família, ou seja: por não querer ter trabalho com elas, as mesmas recorreram à instituição porque não tinham onde morar. E desde então, quase não recebem vista de parentes. A carência afetiva é perceptível quando recebem visitas com distração e distribuição de presentes. É quando elas se sentem queridas e poucas mencionam a família. A AASCL realiza diversas atividades com as idosas durante a semana como: roda de conversa; terapia grupal; educação física; atividade pedagógica com animais, orientação e prevenção para saúde; atendimento médico e campanha de imunização pela equipe do posto de saúde do município; dança sênior e oração do terço em grupo. A maioria dessas atividades é realizada através de parcerias firmadas com profissionais e acadêmicos de universidades públicas e particulares. A instituição não recebe recursos financeiros federal, estadual ou municipal. É mantida por doações de todos os gêneros, e com a conquista do Estatuto do Idoso, de acordo com o artigo 35, inciso 1° e 2°, algumas idosas podem contribuir com o 49 percentual de até 70% do salário mínimo para ajudar nas despesas internas e manutenção geral. A instituição oferece cinco refeições ao dia e possui outras despesas como energia elétrica, água, vigilância noturna, pagamento do quadro funcional (assistente social, cuidadoras; auxiliar de limpeza, perfazendo um total de trinta e sete funcionários). A instituição não tem estrutura hospitalar, mas possui uma área reservada (Acomodação Coletiva) para acolher as idosas dependentes, sendo cuidadas por uma profissional, em regime de escala alternada. Enfim, a instituição busca promover uma vida com qualidade e bem estar para as idosas, sobretudo aquelas que não têm família, prestando-lhes cuidados inerentes a sua sobrevivência humana e espiritual. Através de ações desenvolvidas por equipes multiprofissionais e voluntárias, possibilitando uma maior qualidade de vida para as idosas. 3.3 Sujeitos da pesquisa QUADRO 1- Perfil dos Sujeitos da Pesquisa Nome Idade Situação Civil Escolaridade Tempo na Instituição Número de Filhos Profissão Maria Noel 88 anos 83 anos 89 anos 76 anos 82 anos Solteira Alfabetizada 25 anos Sem filhos Bordadeira Solteira Alfabetizada 03 meses Sem filhos Costureira Viúva Ensino Médio 01 ano Doméstica Solteira Alfabetizada 09 anos 02 filhos (falecidos) Sem filhos Doméstica Solteira Ensino Fundamental Incompleto Ensino Fundamental Incompleto Ensino Fundamental Incompleto Técnico 06 meses Sem filhos Bordadeira 11 anos 09 filhos Do lar 13 anos 02 filhos (falecidos) Doméstica 04 anos Sem filhos Ensino Fundamental Completo Ensino Fundamental Incompleto 18 anos 03 filhos (02 falecidos) 01 filho (falecido) Técnica enfermagem Do lar Maria Tânia Maria Lúcia Maria da Luz Maria Noélia Maria Lívia 79 anos Viúva Maria da Liberdade 85 anos Solteira Maria Grayce Maria Estela 64 anos 88 anos Solteira Maria Joana 79 anos Separada Viúva Fonte: Elaboração da pesquisadora 15 anos Costureira 50 As entrevistas foram realizadas com dez idosas, com idade entre sessenta e quatro anos e oitenta e oito anos. A maioria, com estado civil solteira. Das pesquisadas, apenas três são viúvas e uma, separada. Em relação às idosas solteiras, apenas uma teve filhos (já falecidos) sem a constituição de um casamento. As três viúvas e a idosa separada tiveram filhos. Dessas, apenas uma tem todos os seus filhos vivos. Podemos identificar que, para as idosas entrevistadas, a questão da gestação ainda está muito atrelada à constituição de um casamento. Na AASCL a maioria das idosas é apenas alfabetizada e as outras sequer terminaram o ensino fundamental. Apenas uma concluiu o ensino médio e outra terminou o ensino técnico em auxiliar de enfermagem, mostrando que as idosas entrevistadas possuem um nível de escolaridade baixo. Este baixo grau de instrução acaba se refletindo nas suas profissões, onde três foram domésticas, duas costureiras, duas bordadeiras, duas exerciam atividades domésticas nas suas próprias residências e apenas uma foi auxiliar de enfermagem. O tempo de institucionalização das idosas varia de três meses a vinte e cinco. Durante as entrevistas, percebeu-se que nas perguntas que envolviam o passado, a questão das visitas e as suas relações familiares, as idosas sentiram-se constrangidas para responder. Observou-se, que mesmo quando as respostas tinham um teor negativo das relações, elas tentavam colocar algo de positivo, tentando principalmente não culpabilizar os familiares pela atual institucionalização. E também as idosas que possuem ainda algum familiar vivo, mas que essas relações familiares não são tão presentes atualmente, nas expressões faciais e no tom de voz durante as narrativas, percebeu-se que elas sentem falta dessas relações, mas como não tem muito que fazer em relação a essa problemática, elas buscam esquecer e maquiar essa situação. Podemos exemplificar nessa parte do discurso com elas falam que “Antigamente era legal, éramos cinco, todos unidos, minha irmã casou cedo e cuidamos dos outros. Mas era bom, apesar de que eu era doente. Eu sofri demais, mas era bom”. Percebe-se que algo não foi bom naquela época, pois deixaram marcas nas idosas, mas em contrapartida, elas buscam sempre reverter o quadro para algo positivo. Durante as entrevistas a pesquisadora ficou emocionada com as narrativas e se comoveu observando a emoção das idosas. É difícil lidar com situações tão triste 51 e perceber que essas histórias de vida e essa ausência da família deixam lacunas profundas na vida de cada idosa que está institucionalizada. 3.4 Discurso do Sujeito Coletivo Os discursos do sujeito coletivo foram elaborados através do material gerado pelas dez entrevistas colhidas com os sujeitos na Associação de Assistência Social Catarina Labouré no mês de abril, com duração de 30 a 40 minutos. As entrevistas foram gravadas e transcritas integralmente. Depois das entrevistas transcritas a técnica para análise das narrativas seguiu uma sequência: primeiro, ler cada uma das narrativas; segundo, identificar e sublinhar as expressões-chave; terceiro, identificar e agrupar as ideias centrais, observando as expressões-chaves; quarto, denominar os agrupamentos de ideias centrais que exprimam o mesmo sentido, categorizando os discursos e o quinto passo, é elaborar o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) de acordo com as expressões-chave agrupadas (QUEIROZ, 2008). O DSC possui como um dos seus pressupostos a Teoria das Representações Sociais, que são consideradas arranjos sociocognitivos que os indivíduos utilizam para emitir juízos ou opiniões no seu cotidiano. As representações sociais são vistas como um conhecimento socialmente elaborado e partilhado por uma realidade comum (FIGUEIREDO; CHIARI; GOULART, 2013). No decorrer do trabalho serão apresentadas vinte e duas categorias de acordo com as expressões-chave surgidas de seis perguntas das entrevistas com os dez sujeitos. Cada pergunta terá suas devidas categorias de estudo. QUADRO 2- QUESTÃO 1 da Análise do discurso sujeito coletivo QUESTÃO EXPRESSÕES-CHAVE CATEGORIA A- MINHA FAMÍLIA NÃO ME ACEITOU CATEGORIA B- SOLIDÃO COMO VOCÊ CHEGOU NA INSTITUIÇÃO ? CATEGORIA C- INICIATIVA PRÓPRIA CATEGORIA D-EXPLORAÇÃO FINANCEIRA Fonte: Elaboração da pesquisadora SUJEITOS MARIA NOEL e MARIA LÚCIA MARIA DA LUZ, MARIA NOÉLIA, MARIA DA LIBERDADE, MARIA JOANA e MARIA TÂNIA MARIA LÍVIA, MARIA DA LIBERDADE, MARIA GRAYCE, MARIA NOEL e MARIA TÂNIA MARIA LÍVIA e MARIA LÚCIA 52 CATEGORIA A – MINHA FAMÍLIA NÃO ME ACEITOU DSC SUJEITOS- MARIA NOEL e MARIA LÚCIA. Por que eu passei quatro anos no Rio de Janeiro, e resolvi vim para cá morar com minha família, mas como minha família não aceitou, então procurei um lar. Antes eu tinha uma casa na Francisco Sá, ai venderam, meus sobrinhos tomaram, Ai vim para cá. DISCUSSÃO – MINHA FAMÍLIA NÃO ME ACEITOU Na velhice, o idoso necessita de algum apoio, e a maioria deles procura esse apoio nas suas famílias, mas nem sempre os familiares querem arcar com o ônus e a responsabilidade de um parente na velhice. Devido as alterações no interior das famílias, a estimulação do consumo exacerbado, a inserção da mulher no mercado de trabalho, dentre outras mudanças, fragilizaram os laços familiares. No nosso país existem várias legislações que amparam os idosos nessa fase e que colocam a família como a primeira instituição responsável pelos idosos. De acordo com Neri (1990) a família é considerada a principal fonte de apoio e cuidado aos idosos. Através de cuidados proporcionados por alguns de seus membros, cumprindo normas socioculturais da sociedade. Segundo o decreto nº 1.948, de 03 de julho de 1996, que regulamenta a PNI, apenas em caso da inexistência de algum familiar é que pode ocorrer institucionalização. Podemos perceber no DSC que os sujeitos possuem algum familiar vivo, mas mesmo assim esse vínculo de “cuidado e afeto” que se deposita na família foi negado na velhice, fazendo com que eles sem outra opção naquele momento procurassem um lar por iniciativa própria. Então, não necessariamente a família garante uma proteção na velhice como a sociedade propaga, descumprindo essas normas socioculturais impostas pela sociedade, criando, desta forma, um comportamento hipócrita, falso. CATEGORIA B – SOLIDÃO DSC SUJEITOS- MARIA DA LUZ, MARIA NOÉLIA, MARIA DA LIBERDADE, MARIA JOANA E MARIA TÂNIA. Eu trabalhava né, ai uma amiga minha que era superiora daqui arranjou e me trouxe para morar aqui. Uma vez eu vim e coloquei o meu nome na fila de espera. Também a minha casa eu morava sozinha e vivia doente, eu rezei muito para dá certo, minha vinda para cá foi um milagre. Eu cheguei por minha conta, não foi família, foi eu mesma. Eu nem sabia de casa de idosos, uma amiga da minha patroa disse, e eu me interessei. Quase não 53 tive coragem de vim, mas acabei vindo. Eu nem conhecia só escutava falar daqui, ai quando eu vim eu me apaixonei. Eu amo esse lugar. Graças a Deus que estou aqui, quando meus pais morreram eu fiquei sozinha. Eu já era viúva e só vivia com uma empregada sem nenhuma responsabilidade. Ai eu vi na televisão e vim procurar aqui quando cheguei estava lotado a casa, mas deixei o nome para ficar na fila de espera. Eu esperei muito para conseguir essa vaga. Minha cunhada tirou o peito, ela tava muito doente. Ai ela chegou para mim e disse que a amiga dela ia conseguir uma vaga para mim aqui, por que ela tava muito doente e não podia cuidar de mim, ai eu vim, trouxe minhas coisas, vim morara sozinha. Tenho um irmão, ele disse que ia mandar R$ 50,00 reais, eu mandei dizer que não quero esmola não, pode ficar. DISCUSSÃO – SOLIDÃO As mulheres predominantemente são mais solitárias, visto que vivem mais que os homens, pois estão expostas a menos fatores de riscos que eles. De acordo com Veras (2003) a violência, o consumo de álcool e tabaco e outras situações de riscos atingem as mulheres também, mas esses fatores ainda atingem quatro vezes mais os homens do que elas. No discurso, um dos fatores da solidão é justamente relacionado à morte, tanto a morte do marido como o falecimento dos pais. A velhice é uma época de grandes mudanças na vida dos idosos, principalmente relacionado ao organismo, onde é natural com o tempo ocorrer uma degradação no corpo, os idosos não possuem mais uma virilidade como os jovens, adquirindo algumas doenças na velhice. Por isso é importante à presença de um cuidador nessa fase, geralmente esse cuidador é algum membro da família. Percebe-se no discurso que a solidão também é relacionada à fragilidade física da idosa, pois no momento de uma doença a idosa estava sozinha. Devido à necessidade de um cuidador a idosa recorreu à rede de apoio formal, que segundo Neri apud Neri e Sommerhalder (2006), a rede informal é aquela baseada em relações mais oficiais, com profissionais especializados e relações trabalhistas, ao contrário da rede informal que é baseada no apoio de familiares, amigos e cônjuge. CATEGORIA C – INICIATIVA PRÓPRIA SUJEITOS: MARIA LÍVIA, MARIA DA LIBERDADE, MARIA GRAYCE, MARIA NOEL E MARIA TÂNIA. Eu vim por que antes de ele [esposo] falecer, o meu marido falou que se eu morresse primeiro ele ia querer morar em uma casa de idosos aí eu falei que ia fazer a mesma coisa se ele morresse primeiro. Quando ele morreu eu passei 02 meses numa tristeza danada, ai uma pessoa me informou daqui. Eu vim e gostei. Minha filha não queria de jeito nenhum. Eu cheguei por minha conta, não foi família, patroa, foi eu mesma. Eu nem sabia de casa de idosos, uma amiga da minha patroa disse, e eu me interessei. Quase não tive coragem de vim, mas acabei vindo. Eu vim para cá combinada com minha irmã eu já sabia. Por que eu passei 04 anos no Rio 54 de Janeiro, e resolvi vim para cá morar com minha família. Ai comprei uma cama, cômoda e geladeira, roupas e vim para cá. Tive que comprar tudo. Eu cheguei por minha conta. DISCUSSÃO – INICIATIVA PRÓPRIA Segundo Simões (2011), a família é uma instituição básica, a qual a identidade social é desenvolvida e mantida, e também é um espaço de repasse de valores e normas. A família é considerada uma unidade principal no desenvolvimento do ser humano, pois é a partir dela que indivíduo tem o seu primeiro contato com a sociedade e começa o processo de construção da sua identidade. A família, tem por seu papel primordial, o de desempenhar o cuidado e afeto para com o sujeito. Na velhice a família é ainda mais requisitada para cumprir esse papel, visto que os idosos estão mais vulneráveis e frágeis nessa fase. Os sujeitos do DSC, nas suas narrativas, não demonstram fragilidade e sim iniciativa e decisão, mostrando que na velhice não há uma perda de identidade que elas, como qualquer outra pessoa em outra fase da vida, tomam suas próprias iniciativas, não necessitando de um familiar ou cuidador para tomar decisões. CATEGORIA D – EXPLORAÇÃO FINANCEIRA SUJEITOS: MARIA LÍVIA E MARIA LÚCIA [em casa] Eu recebia só um salário para sustentar um monte de gente, aqui é só a minha despesa. Antes eu tinha uma casa na Francisco Sá, ai venderam, meus sobrinhos tomaram, queriam que eu passasse a pensão do meu marido para eles. DISCUSSÃO – EXPLORAÇÃO FINANCEIRA A família é considerada um espaço de boas relações, de afetividade e cuidado, mas dentro dessa instituição é um espaço também de direitos violados entre os seus próprios membros. De acordo com Minayo (2005), existem vários tipos de violências que acometem as pessoas idosas como: abuso físico; abuso sexual; abuso psicológico; abandono; negligência; autonegligência e abuso financeiro. Para Minayo o abuso financeiro: Consiste na exploração imprópria ou ilegal dos idosos ou ao uso não consentido por eles dos seus recursos financeiros e patrimoniais. Esse tipo de violência ocorre, sobretudo, no âmbito familiar (MINAYO 2005, p. 15). Os sujeitos do DSC, dentro das suas próprias residências, foram exploradas financeiramente. Principalmente, ambas as viúvas pesquisadas, uma com a 55 convivência com os filhos e a outra com os sobrinhos. As duas preferiram morar dentro de uma ILPI a morar com suas respectivas famílias. Observa-se que as idosas foram cientes que estavam sendo exploradas financeiramente, por isso decidiram procurar a instituição. De acordo com Berzins e Watanabe 2010, atualmente as residências dos idosos é o principal local de ocorrência desses abusos praticados pelos próprios parentes, necessitando de uma intervenção do Estado, da sociedade e da família para reverter esses casos de violência. QUADRO 3 – QUESTÃO 2 da Análise do discurso do sujeito coletivo QUESTÃO EXPRESSÕES-CHAVE SUJEITO CATEGORIA A- FAMÍLIAIMPORTANTE MARIA TÂNIA, MARIA LÚCIA, MARIA ESTELA e MARIA GRAYCE MARIA DA LIBERDADE CATEGORIA B- FAMÍLIA-AUSENTE QUAL O SIGNIFICADO DE FAMÍLIA PARA VOCÊ? CATEGORIA D- FAMÍLIA-É-A-COISAMELHOR-DO-MUNDO MARIA NOEL e MARIA LÍVIA CATEGORIA E- FAMÍLIA-É-PAI-EMÃE MARIA NOÉLIA, MARIA NOEL e MARIA JOANA Fonte: Elaboração da pesquisadora CATEGORIA A – FAMÍLIA IMPORTANTE SUJEITOS: MARIA TÂNIA, MARIA LÚCIA, MARIA ESTELA e MARIA GRAYCE São bons meus sobrinhos e sobrinhas são ótimos. Família é bom, nunca briguei com eles. Acho importante, ela tem muito cuidado com a gente. Família é muito bom, eu gosto muito da minha, tenho vários netos e bisnetos. Eu gosto de família, quer dizer da minha, né. DISCUSSÃO – FAMÍLIA IMPORTANTE A família é considerada importante desde a antiguidade, mas cada cultura tem o seu conceito de família. Algumas valorizam esta instituição mais que outras. De acordo com Santos (2010), essa instituição é espaço, onde as pessoas desenvolvem o cuidado que é influenciado pela cultura. Percebe-se que a família tem esse papel importante para o desenvolvimento do ser humano e a sociedade em si valoriza muito essa instituição. A própria Constituição Federal de 1988 demonstra essa valorização da família, onde no 56 capítulo VII art. 226, refere essa instituição como base da sociedade. Os sujeitos do DSC demonstram essa importância e valorização da família nas suas narrativas, referindo uma relação de afeto para com os familiares e relacionando essa instituição com uma relação de cuidado. Os sujeitos do discurso ainda possuem alguma relação com os seus parentes e ainda recebem visitas, mesmo sendo esporádicas. Assim, é mais compreensível essa relação de positividade para com os seus familiares. CATEGORIA B – FAMÍLIA-AUSENTE SUJEITOS: MARIA DA LIBERDADE e MARIA DA LUZ Eu nunca contei com família nem quando era mais jovem imagine agora. Eu tenho que ficar aqui mesmo, não tenho saída, fico aqui mesmo. Eu vivo aqui né, me dou bem com as pessoas daqui, considerar o como da minha família. Já que não tenho ninguém mesmo e minha família é de Parnaíba. DISCUSSÃO – FAMÍLIA-AUSENTE A família é reconhecida por uma relação de afeto, proximidade e cuidado para com os seus membros, mas muitos não possuem essa relação de afetividade, por diversos motivos como: relações mal construídas no decorrer da vida; brigas entre os membros; problemas pessoais e entre outros motivos. E também, devido as modificações acarretadas no organismo da família, as relações familiares ficaram cada vez mais frágeis, e o cuidado para com os idosos realizado pelos familiares se modificou bastante, onde na falta desse cuidador a institucionalização desses idosos em ILIPI começaram a ser mais procuradas tanto pelos familiares como pelos próprios idosos. Um dos motivos mais comuns que levam os filhos a renegarem os pais na velhice são justamente essas relações mal construídas no decorrer da vida. Os pais, muitas vezes, não constroem pontes de afeto para com os filhos e quando chega à determinada época o filho não consegue superar esse desafeto, visto que o amor também é uma relação de reciprocidade. E também, às vezes, a família não é unida existindo vários conflitos na sua estrutura que impossibilitam um bom relacionamento afetivo. Então, não se pode culpabilizar totalmente os filhos por determinadas atitudes, importa analisar o contexto que essas relações foram solidificadas. O DSC deixa claro um mau relacionamento do sujeito com a sua família quando narra “Eu nunca contei com família nem quando era mais jovem imagine 57 agora”, mostrando que ocorreu algum problema nessa relação na juventude, o qual não foi identificado na entrevista. Percebem-se também no DSC que na ausência da família, esta é considerada as pessoas da instituição, mostrando que o significado de família ultrapassa os laços consanguíneos e parentais. CATEGORIA D – FAMÍLIA-É-A-COISA-MELHOR-DO-MUNDO SUJEITOS- MARIA NOEL e MARIA LÍVIA Eu entendo a coisa melhor do mundo é a minha família. Família unida é uma maravilha, né? Sendo desunida não presta. DISCUSSÃO – FAMÍLIA-É-A-COISA-MELHOR-DO-MUNDO Para Losacco (2010), a família é uma unidade social que fundamenta a sociedade e proporciona pertencimento, formação de identidade e socialização para o sujeito. A família é considerada fundamental para a sobrevivência dos seus membros. Para os sujeitos do DSC elas demonstram essa importância da família nas suas narrativas, referindo a melhor coisa do mundo para suas vidas. Mas elas deixam claro que a família é boa apenas quando existe uma união entre os membros. Os sujeitos da narrativa tiveram alguns problemas nas suas relações familiares, onde uma não foi aceita pelas sobrinhas na velhice e a outra, mesmo com vários filhos, tem apenas uma filha ativamente presente na vida dela. Essas relações que elas tiveram com seus familiares podem estar relacionados a importância da união que elas valorizam no seio dessa instituição. CATEGORIA E – FAMÍLIA-É-PAI-E-MÃE SUJEITOS: MARIA NÓELIA, MARIA NOEL E MARIA JOANA A minha família, a não sei, para mim a família mesmo hoje se acabou, eu entendo como pai e mãe, né? Sobrinho mesmo nem se responsabiliza pela gente, né, é só pai e mãe. A minha sobrinha diz que a minha família é ela, mas é da boca para fora. Gosto das minhas sobrinhas, apesar delas não terem me aceitado. Nós se damos bem é bom, né? A gente se dá bem. DISCUSSÃO – FAMÍLIA-É-PAI-E-MÃE Segundo Osterne (2004) a família burguesa tinha um formato nuclear composto pelo pai, mãe e filhos, e tinham a divisão dos seus papéis bem definidos hierarquicamente. 58 Essa família nuclear também é conhecida como família tradicional, mas devido às alterações no interior das famílias, esse modelo familiar tem se modificado bastante. Ele ainda pode até ser o hegemônico para a sociedade, mas está cada vez mais escasso. De acordo com Ceberio apud Falcão (2010) as famílias ditas modernas configuraram-se a partir da década de 1960. As idosas sujeitos desse discurso coletivo, a mais nova em idade nasceu na década de 1930, então é natural que o modelo e o significado de família para elas sejam apenas os pais. De acordo com o artigo 25, parágrafo único, do Estatuto da Criança e do Adolescente, família extensa ou ampliada é aquela que ultrapassa a unidade dos pais e filhos, estendendo as suas relações para os parentes mais próximos que a criança tenha contato. Segundo Woortmann apud Sarti (2010): [...] a relação entre pais e filhos constitui o único grupo em que as obrigações são dadas, que não se escolhem. As outras relações podem ser seletivas, dependendo de como se estabeleçam as obrigações mútuas dentro da rede de sociabilidade. Não há relações com parentes de sangue, se com eles não for possível dar, receber e retribuir, enfim, confiar (WOORTMANN 2010, p.33). No discurso percebe-se que os sujeitos retratam muito as sobrinhas, que podem ser consideradas família ampliada, mas nota que as relações não são boas, pois as sobrinhas “não aceitaram” e nem se “responsabilizaram” por elas na velhice. Além de duas das idosas do discurso ser solteiras e sem filhos, apenas uma foi casada e teve um filho, mas o marido a abandonou e o filho morreu pouco tempo depois do seu nascimento. Então, percebe-se que o significado da família ser apenas os pais também pelas suas histórias de vida marcadas por abandono e rejeição dos outros familiare. 59 QUADRO 4- QUESTÃO 3 da Análise do discurso do sujeito coletivo QUESTÃO EXPRESSÕES-CHAVE SUJEITO CATEGORIA A- RELAÇÕESAUSENTES MARIA DA LUZ E MARIA NOEL MARIA TÂNIA E MARIA NOÉLIA CATEGORIA B- RELAÇÕES-EM-DIA VOCÊ SE RELACIONA COM ALGUÉM DA SUA FAMÍLIA? CATEGORIA C- RELAÇÕESESPORÁDICAS MARIA LÚCIA, MARIA ESTELA, MARIA DA LIBERDADE E MARIA GRAYCE MARIA JOANA CATEGORIA D- RELAÇÕESROMPIDAS MARIA LÍVIA CATEGORIA E - RELAÇÃOEXPLORAÇÃO Fonte: Elaboração da pesquisadora CATEGORIA A- RELAÇÕES-AUSENTES SUJEITOS- MARIA DA LUZ E MARIA NOEL Não, não, eu não tenho contato com ninguém. Nunca vieram aqui, acho que não sabem nem onde eu moro. DISCUSSÃO – RELAÇÕES-AUSENTES De acordo com VALSECCHI (1999), na sociedade de hoje a velhice passa por algumas recusas que são revestidas pelo isolamento social, segregação e ruptura de laços com familiares e amigos. Para os sujeitos do DSC, percebe-se na narrativa que as suas famílias não cumprem o papel de proteção e afetividade que recaem sobre elas. Pelo contrário: no discurso percebe essa ruptura de laços com os familiares. Para esses sujeitos os laços são ausentes, visto que elas não possuem contato nenhum com algum familiar, mostrando que essa idealização da família é falha, onde essa relação de “amor incondicional”, muitas vezes, não ultrapassa o imaginário da sociedade. CATEGORIA B – RELAÇÕES-EM-DIA SUJEITOS: MARIA TÂNIA E MARIA NOÉLIA 60 Tenho sim, muita, sempre vêm meus sobrinhos e cunhada. Essa semana santa vou passar até com eles. DISCUSSÃO – RELAÇÕES-EM-DIA De acordo com Falcão; Maluschke (2010), afeto e cuidado são importantes para os idosos, mas essa relação de afetividade é uma atitude de liberdade individual de cada ser humano. O individuo tem o livre arbítrio de oferecer ou não esse cuidado e afeto. Mesmo com essas obrigações que recaem sobre a família que é imposta pela sociedade, o sujeito mesmo assim tem autonomia para decidir sobre essas relações familiares. Os sujeitos do DSC ainda possuem essas relações presentes em suas vidas. Assim, pode-se comprovar que com esse processo de institucionalização, necessariamente esses laços não foram rompidos definitivamente. CATEGORIA C – RELAÇÕES-ESPORÁDICAS SUJEITOS: MARIA LÚCIA, MARIA ESTELA, MARIA DA LIBERDADE E MARIA GRAYCE Faz tempo que elas não aparecem, estou esperando esse mês, né? Recebo[visita] das minhas sobrinhas, mas não é sempre é difícil. Vem uma vez ou outra. Demora viu é uma vez na vida. Só os netos vêm de mês e mês, às vezes em três em três meses, eles são muito ocupados. DISCUSSÃO – RELAÇÕES-ESPORÁDICAS Como já citado anteriormente, essa relação de afeto e cuidado vai depender da autonomia de cada um. Não se pode obrigar um individuo a se relacionar positivamente com uma pessoa contra a sua vontade, visto que algumas relações são frágeis devido a problemas ocasionados durante as suas construções. Os sujeitos do DSC ainda mantêm relações com os seus familiares, mesmo sendo relações esporádicas. Na narrativa, percebe que essa inconstância causa um pouco de ansiedade nas idosas, pois elas não sabem ao certo quando receberão essas visitas. Percebe também que elas buscam justificar essa ausência da família, acrescentando no discurso que os membros são ocupados demais para a realização de visitas periódicas. CATEGORIAS D – RELAÇÕES- ROMPIDAS SUJEITO: MARIA JOANA 61 Minha irmã é mesmo que não ter, ela nem vem, e eu também não ligo. Lá no céu a gente se encontra já que aqui não dá. A gente é como um vaso quando não presta mais é jogada fora. DISCUSSÃO- RELAÇÕES-ROMPIDAS De acordo com Beauvoir (1990), a velhice é uma fase de mudanças biológicas e psicológicas caracterizadas pela idade avançada, onde o sujeito modifica a sua relação com o mundo. Nessa fase existe uma mudança natural, principalmente do corpo, no qual o de um idoso não possui mais a mesma condição física que a de um jovem. Segundo Mercadante (1997), na nossa sociedade as qualidades e aptidões dos idosos é a oposição a dos jovens. Na sociedade o idoso, muitas vezes, é descartado mesmo, pois é caracterizado como ultrapassado e velho. Além do idoso não ser mais útil para o sistema capitalista, visto que ele não está mais contribuindo com a sua mais-valia para o sistema de produção. O idoso na velhice para o capitalismo só gera gastos, pois os que contribuíram para a previdência social estão recebendo as suas aposentadorias e os que não contribuíram, dependendo da sua condição de vida, estão recebendo o benefício de prestação continuada (BPC), ou seja, estão recebendo e não estão produzindo. O sujeito do DSC relata essa relação quando diz que “A gente é como um vaso quando não presta mais é jogada fora”, mostrando sua relação rompida com os seus familiares e essa relação de “desuso” que muitos enxergam a velhice. CATEGORIA E – RELAÇÃO-EXPLORAÇÃO SUJEITOS: MARIA LÍVIA Só a minha filha mais nova e a minha neta, o resto só no final do ano para receber o natal. Eles não trazem nenhum fósforo para mim, vem só pegar mesmo. DISCUSSÃO – RELAÇÃO-EXPLORAÇÃO De acordo com Carvalho (2002), a importância da família e suas expectativas estão no imaginário da sociedade, onde as relações de afeto, cuidado, respeito, proteção, dentre outras relações, são consideradas obrigações da família. Mas nem 62 sempre essas obrigações acontecem da mesma forma. Essa instituição pode construir relações fortes como também, pode destruir possibilidades. O sujeito do DSC possui nove filhos, onde desses apenas um a relação é mais forte e presente no seu dia-a-dia, mostrando que essa relação é uma liberdade individual. Muitos pensam que o fato de ter filhos é uma segurança na velhice, quando isso não significa quase nada. O sujeito do discurso tem contato com o resto da família apenas no final do ano, e esse contato é por causa de uma troca e não apenas pelo laço afetivo e de cuidado. No capitalismo, há essa relação de troca e exploração. Nas nossas vidas, muitas vezes, essa relação perpassa o campo do capitalismo, invadindo as nossas relações pessoais. E na narrativa da idosa essa exploração e troca ficam bem claras. QUADRO 5- QUESTÃO 4 da Análise do discurso do sujeito coletivo QUESTÃO COMO ERA A SUA RELAÇÃO FAMILIAR ANTIGAMENTE? EXPRESSÕES-CHAVE SUJEITO CATEGORIA A- RELAÇÕES FAMILIARES HOJE SÃO DIFERENTES MARIA NOEL, MARIA LÍVIA, MARIA LÚCIA, MARIA DA LUZ e MARIA DA LIBERDADE CATEGORIA B- PERDAS-ESOFRIMENTO MARIA TÂNIA, MARIA NOÉLIA E MARIA GRAYCE CATEGORIA C- EU-SOZINHA MARIA JOANA E MARIA ESTELA Fonte: Elaboração da pesquisadora CATEGORIA A – RELAÇÕES FAMILIARES HOJE SÃO DIFERENTES SUJEITOS: MARIA NOEL, MARIA LÍVIA, MARIA LÚCIA, MARIA DA LUZ e MARIA DA LIBERDADE Feliz. Muito feliz. Tinha tudo na minha casa, a minha família era pobre, mas minha mãe me dava tudo. Agora não, minhas sobrinhas me jogaram fora. Era ótimo, tinha minha casa tinha tudo. Era eu, ele, minha filha e minha neta. Eu trabalhava e minha filha cuidava da casa, era tudo diferente. A diferença é que hoje perdi o contato só no final do ano mesmo. Hoje é diferente, porque ninguém olha mais para mim, nunca mais vieram. Hoje não tenho mais contato com nenhum. Nós éramos pobres mais tinha tudo, foi bom, valeu. Eu cuidava direitinho. Hoje é muito diferente, a pessoa tem filhos e não espera nada deles. DISCUSSÃO – RELAÇÕES FAMILIARES HOJE SÃO DIFERENTES 63 De acordo com Beauvoir (1990), “Toda sociedade tende a viver, a sobreviver; exalta o vigor e a fecundidade, ligados a juventude; teme o desgaste e a esterilidade da velhice”. Na sociedade que vivemos, onde o consumo, a beleza, a juventude são valorizados exacerbadamente, o desgaste que a velhice acarreta é, muitas vezes, marginalizada pela sociedade, como se a velhice não fosse algo natural e não fosse acontecer com todos os seres humanos. No DSC percebe que na época da infância e juventude era bem diferente de hoje, onde mesmo com as dificuldades financeiras na família a vida era “ótima” e “muito feliz”. Diferentemente da vida atual, onde depois da velhice as relações com suas famílias se tornaram esporádicas e ausentes, mostrando a desvalorização dessa fase. CATEGORIA B – PERDAS-E-SOFRIMENTO SUJEITOS: MARIA TÂNIA, MARIA NOÉLIA E MARIA GRAYCE Antigamente era legal, éramos cinco, todos unidos, minha irmã casou cedo e cuidamos dos outros. Mas era bom, apesar de que eu era doente. Eu sofri demais, mas era bom. Como já morreram não gosto de recordar o que fizeram para mim, o que resta é rezar por eles. Era boa, por que minha mãe me tratava na palma da mão, não deixava faltar nada. DISCUSSÃO – PERDAS-E-SOFRIMENTO No DSC percebe que os sujeitos sofreram algumas dificuldades em algum momento da sua vida, mas buscam a todo o momento resignificar esse sofrimento. Mesmo com os problemas elas afirmam que a vida era boa, buscando sempre positivar os fatos. Não foi possível identificar o que ocorreu realmente, pois os sujeitos nas narrativas não se sentem confortáveis em falar nesse assunto preferindo esquecer tudo o que aconteceu e relembrar apenas os bons momentos. CATEGORIA C – EU-SOZINHA SUJEITOS: MARIA JOANA E MARIA ESTELA Se eu tivesse meu filho ia ser diferente, né? Hoje eu sou sozinha, né? Não tenho ninguém, pois sobrinho é o que sobra. E meu marido me deixou também se eu tivesse meu marido e meu filho, não seria tão sozinha. Eu sou sozinha só tenho Jesus. Hoje, minha família acabou. Eu sou viúva e meus dois filhos morreram fez um ano agora a diferença de um para outro foi de apenas cinco meses. DISCUSSÃO- EU-SOZINHA 64 De acordo com Lansing apud Beauvoir (1990, pag. 17), o envelhecimento é um “[...] processo progressivo de mudança desfavorável, geralmente ligado a passagem do tempo, tornando-se aparente depois da maturidade e desembocando invariavelmente na morte”. No DSC, percebe-se a solidão ocasionada pela morte tanto dos filhos como do esposo. Naturalmente os filhos morrem depois dos pais, devido à questão cronológica, mas no caso dos sujeitos os filhos faleceram antes, ocasionando esse vazio nas suas vidas. Percebe também no DSC que os sujeitos valorizam a família nuclear quando afirmam que se os filhos e o marido estivessem vivos, e também não a tivessem deixado no abandono, tudo seria diferente. QUADRO 6- QUESTÃO 5 da Análise do discurso do sujeito coletivo QUESTÃO QUAL SUA RELAÇÃO COM AS PESSOAS QUE TRABALHAM AQUI? EXPRESSÕES-CHAVE SUJEITO CATEGORIA A- TODO-MUNDO-DOIDOPOR-MIM MARIA NOÉLIA, MARIA NOEL, MARIA TÂNIA, MARIA LÚCIA E MARIA ESTELA CATEGORIA B- É PRECISO SABER VIVER CATEGORIA C- EU-GOSTO DE-TODOS MARIA LUZ, MARIA DA LIBERDADE E MARIA JOANA MARIA GRAYCE E MARIA LÍVIA Fonte: Elaboração da pesquisadora CATEGORIA A – TODO-MUNDO-DOIDO-POR-MIM SUJEITOS: MARIA NOÉLIA, MARIA NOEL, MARIA TÂNIA, MARIA LÚCIA E MARIA ESTELA Tenho mais [contato] com as meninas do refeitório, elas são boas. Eu sou louca pelas irmãs, são demais, boas demais. As cozinheiras e as irmãs são todo mundo doido por mim, tem muito cuidado comigo. As cozinheiras daqui são ótimas, fazem tudo, eu gosto muito. São demais, as meninas do refeitório são boas demais, gosto demais. DISCUSSÃO – TODO-MUNDO-DOIDO-POR-MIM De acordo com Héredia; Cortelletti; Casara (2010), a mudança para uma instituição asilar ocasiona, além de mudanças físicas, a necessidade dos idosos estabelecer novas relações com toda a instituição. 65 A mudança para um ambiente físico diferente já pode acarretar diversos problemas para os idosos, mas as mudanças ultrapassam a mudança de ambiente, pois os idosos precisam construir relações com pessoas desconhecidas, depois de tanto tempo de convivência contínua com os familiares e amigos. No DSC percebe que essas relações foram bem construídas com as colaboradoras da instituição, principalmente as cozinheiras, onde os sujeitos possuem um contato diário maior, devido às refeições. Essa boa relação afeta diretamente a vida dos sujeitos, pois possibilitam uma relação de afeto e cuidado dentro da instituição. CATEGORIA B – É PRECISO SABER VIVER SUJEITOS: MARIA LUZ, MARIA DA LIBERDADE E MARIA JOANA É boa sim, eles tratam bem. Eu acho que se a gente sabe viver bem, dá certo, né? Já morrei em vários lugares, como não gosto de confusão dá certo, tem que saber viver. Gosto são boas, boas demais. Tem que saber levar né? Respeitar né? A gente vive bem eu gosto delas. Eu sei levar a vida. Eu respeito até os cachorros. Respeito é bom e eu gosto. Gosto deles. DISCUSSÃO – É PRECISO SABER VIVER No DSC percebe também uma boa relação dos sujeitos com os colaboradores da instituição, mas com uma diferença, nas narrativas os sujeitos demonstram a importância do respeito para um bom relacionamento com todos. Mostrando que não importa o local que se esteja quando se “sabe viver” e quando existe respeito nas relações o convívio fica mais fácil. CATEGORIA C – EU-GOSTO-DE-TODOS SUJEITOS-MARIA GRAYCE E MARIA LÍVIA Daqui de dentro eu gosto de todos até dos que chegam só para visitar, nunca achei ninguém enjoado não, eu gosto de todo mundo. Eu gosto de todos, não tenho nada a falar de ninguém. DISCUSSÃO – EU-GOSTO-DE-TODOS No DSC percebe-se também o bom relacionamento com as pessoas que trabalham na instituição, a diferença é que nesse discurso os sujeitos não delimitam os colaboradores e nem incluem nenhum fator para ter essa boa relação. Na AASCL, as idosas recebem várias visitas de diversas instituições que trazem doações e proporcionam alegria e afeto para elas. No DSC os sujeitos incluem também essas pessoas que colaboram esporadicamente com a instituição nas suas 66 relações positivas, demonstrando que mesmo estas que “chegam só para visitar” desempenham um papel importante. QUADRO 7- QUESTÃO 6 da Análise do discurso sujeito coletivo QUESTÃO EXPRESSÕES-CHAVE SUJEITO CATEGORIA A- AMIGOS-SÃO-OS-QUEATENDEM MARIA TÂNIA, MARIA GRAYCE, MARIA LÚCIA E MARIA NOÉLIA CATEGORIA B- COLEGAS SIM, AMIGAS NÃO MARIA ESTELA, MARIA DA LUZ, MARIA NOEL, MARIA LUCIA E MARIA NOÉLIA CATEGORIA C- CADA-UM COM O SEU CADA-QUAL MARIA LÍVIA, MARIA JOANA E MARIA DA LIBERDADE HOJE, VOCÊ TEM AMIGOS (AS)? Fonte: Elaboração da pesquisadora CATEGORIA A – AMIGOS-SÃO-OS-QUE-ATENDEM SUJEITOS: MARIA TÂNIA, MARIA GRAYCE, MARIA LÚCIA E MARIA NOÉLIA Só aqueles que vem fazer as atividades. São bons, é fora de sério, são amigos mesmo. Parecem que me conhece há muito tempo, são ótimos. Bom... Eu considero amigas, mas a parte que me atende. Meus amigos aqui são as irmãs, elas tenho confiança. Só as irmãs, só nas irmãs mesmo. DISCUSSÃO – AMIGOS-SÃO-OS-QUE-ATENDEM A AASCL tem como um dos seus objetivos promover uma qualidade de vida para as idosas através de ações realizadas por uma equipe multiprofissional. No DSC percebe-se que os sujeitos possuem uma boa relação com esses profissionais e com as irmãs de caridade da instituição, possibilitando uma relação de afeto e confiança que é importante para a qualidade de vida dos sujeitos. CATEGORIA B – COLEGAS SIM, AMIGAS NÃO SUJEITOS: MARIA ESTELA, MARIA DA LUZ, MARIA NOEL, MARIA LUCIA E MARIA NOÉLIA Aqui dentro não, amigos não. Aqui as idosas são falsas, não confio em nenhuma interna. Não gosto das que moram. Só converso pouco e venho para casa. Colega sim, amiga não, afinal amigo é só a nossa família e olhe lá. Gosto de viver mais na minha, aqui tem fofoca, qualquer coisa fica com raiva, gostam de se meter na vida dos outros e eu não gosto. Tem muita fofoca e eu vivo na minha. A gente conversa e depois elas já falam para 67 outra, ai não tenho confiança. Gostam muito de fofocas... Gostam de fazer inferno. Vamos com um tempo vendo quem merece nossa confiança. DISCUSSÃO – COLEGAS SIM, AMIGAS NÃO A instituição tem com um de seus princípios estimular a boa convivência entre as idosas. No DSC percebe que os sujeitos não possuem uma boa convivência, demonstrando uma relação de inimizade e intriga, onde cinco dos dez sujeitos entrevistados narram essa relação. Na velhice, devido a fase de vulnerabilidade e das mudanças psicológicas, os idosos são vistos como apáticos. No DSC, nota-se que o envelhecimento não causou essa apatia nos sujeitos, onde as personalidades e subjetividades ainda continuam firmes na velhice, mostrando que nessa fase essa capacidade de construir e desconstruir relações ainda são presente e natural como em qualquer outra fase da vida. CATEGORIA C – CADA-UM COM O SEU CADA-QUAL MARIA LÍVIA, MARIA JOANA E MARIA DA LIBERDADE Tenho, eu gosto de todas, não sei se elas gostam de mim, mas eu gosto delas sim. Eu sei fazer amigos. É bom amizade é ótima. Todo mundo é amigo. Nós todas somos amigas, cada um com o seu cada qual, eu sou mais recuada, esse negócio de ficar com muita conversa, não gosto. Cada um é diferente. DISCUSSÃO – CADA-UM COM O SEU CADA-QUAL No DSC os sujeitos relatam a importância da amizade e demonstram uma boa convivência com as idosas. Além de narrarem a diferença entre elas quando dizem “cada um com o seu cada qual” e “Cada um é diferente”, mostrando que na velhice a individualidade ainda está presente, mostrando que algumas mudanças nessa fase que a sociedade dita não passa de mais um estereótipo. O envelhecimento populacional é um fenômeno que atinge não só os países desenvolvidos, mas os que se encontram em processo de desenvolvimento também. O Brasil apresentou nos seus índices demográficos a expansão da população idosa, exigindo ações e políticas públicas voltadas para esse público, buscando garantir, ampliar e efetivar direitos para essa população. A família é considerada a principal instituição responsável pelo cuidado e atenção para com os seus familiares idosos ou que estão em processo de envelhecimento. Mas com as mudanças ocorridas na família tradicional e o 68 surgimento de novas composições familiares esse cuidado nem sempre é prestado, necessitando, às vezes, de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI). 69 CONSIDERAÇÕES FINAIS O tema proposto pela pesquisa foi “A percepção que as idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré possuem sobre suas relações familiares”. O objetivo geral da pesquisa foi analisar a percepção que as idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré possuem sobre suas relações familiares. E os objetivos específicos que serviram para nortear a pesquisa foram: investigar as relações familiares das idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré; compreender a relação existente entre as idosas e suas famílias, hoje; e conhecer as relações sociais entre as idosas institucionalizadas. Através desses objetivos, buscamos uma maior aproximação a cerca do tema e da realidade. As entrevistas foram realizadas com dez idosas para as análises dos dados colhidos na pesquisa, foi utilizado o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) de Fernando Lefévre e Ana Maria Cavalcanti Lefére (2005), que utiliza uma estratégia discursiva para clarear uma dada representação social, buscando compreender como os sujeitos reais pensam. O DSC mostrou que os sujeitos narraram nos discursos a legitimação do papel da família e sua relação de cuidado e afeto como importante para o desenvolvimento do ser humano. É perceptível, nos depoimentos, que as relações familiares na velhice para as idosas da instituição foram subtraídas, as relações presentes com seus entes são exceções para poucas e o restante quase não tem mais contato com os familiares ou os vínculos com estes já se romperam. No DSC, pode-se perceber que cinco dos dez sujeitos relataram que as suas relações familiares antigamente eram muito boas, diferente de hoje em que são distantes. Percebe-se também uma boa relação dos sujeitos com os colaboradores da instituição, onde algumas afirmaram que eles são considerados pessoas das suas famílias, mostrando que as relações familiares ultrapassam os laços consanguíneos e podem ser construídas em qualquer fase da vida por necessidade enquanto seres sociais que são. Diferente do bom relacionamento com os colaboradores, os sujeitos demonstraram uma relação fria entre as idosas, onde narraram situações de fofocas e falta de confiança, o que pode mostrar que na 70 velhice existe uma não, relacionamentos, mesma capacidade contribuindo para de construir desfazer o e significar, estereótipo ou de excessiva pacificação na velhice. Os sujeitos da pesquisa mostraram a importância da família nos seus discursos. Contudo, cada história de vida é singular e repleta de subjetividades. As relações dos sujeitos foram construídas de várias formas, algumas idosas citaram relações presentes e positivas, já outras narraram situações de exploração, solidão e ausência dessas relações familiares. O fato da institucionalização dos sujeitos não isenta seus familiares de participarem desse processo, ao contrário, sua presença é fundamental para a qualidade de vida das idosas. As dificuldades encontradas durante a pesquisa foram durante o processo das entrevistas, onde os sujeitos se mostraram retraídos e constrangidos em falar sobre suas famílias. As respostas sempre buscavam positivar as relações, mesmo que estas tivessem passado por situações de solidão, negação, exploração financeira e ausência. Foi possível observar relutância das idosas em abordar essa temática, como se fosse dolorido para elas, como se mexesse em uma ferida. O estudo deixou claro, a partir dos vários DSCs, que a percepção das relações familiares pode depender da maneira de como cada relação foi construída e como essa relação esta disposta hoje. Cada sujeito é composto de individualidades e subjetividades não existe apenas uma percepção e sim várias percepções acerca dessas relações. O estudo mostrou também que na velhice há iniciativa, decisão e compreensão dessas relações que segundo Giddens (2005) pode acenar para uma forma dos idosos não serem invisíveis. O estudo buscou responder os objetivos propostos para a pesquisa, buscando conhecer a percepção que as idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré possuem sobre suas relações familiares. O trabalho concluído até aqui aponta para necessidade de pesquisar outras questões em volta dessa temática, visto que surgiram outros questionamentos, tais como conhecer os motivos do distanciamento dessa família e como elas percebem essas relações para com os seus idosos. Desta forma, o conhecimento construído a partir do estudo não é estéril. Antes, pode ser utilizado para possibilitar intervenções na problemática das relações 71 familiares de idosas institucionalizadas. É importante perceber o que seja família para essas idosas, que mesmo lembrando de seus pais e mães, considerem muito próximo de si os trabalhadores e cuidadores da instituição, para que as idosas possam criar e manter suas relações pessoais e familiares que as mantém vivas. Para elas, apesar do abandono de alguns familiares, “família, é bom! Família é muito bom”, isso pode afirmar que a subtração das relações familiares é um golpe para os sujeitos da pesquisa. 72 REFERÊNCIAS ALCÂNTARA, Adriana; Velhos Institucionalizados e Família: Entre abafos e desabafos. 153 f. Dissertação (Mestrado em Gerontologia) – Universidade Estadual de Campinas- UNICAMP, Campinas, 2003. ÂNGELO; SILVA; LIMA.Avaliação das Instituições de Longa Permanência para Idosos do município de Olinda-PE. Revista brasileira geriatria gerontologia, rio de janeiro, 2011. Disponível em: <http://revista.unati.uerj.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S180998232011000400 006&lng=pt&nrm=iso > Acesso em: 23 abr.2014. BEAUVOIR, Simone. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. ‘BÔNUS’ BEBÊ E 'FILHO ÚNICO' SÃO EXEMPLOS DE CONTROLE POPULACIONAL. G1.São Paulo, out..2011. 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Hoje, você tem amigos (as)? 77 APÊNDICE B TERMO DE CONSENTIMENTO ESCLARECIDO Eu, Larissa Maria Gomes de França, aluna do curso de Serviço Social da Faculdade Cearense, sob a orientação da Ms. Flaubênia Maria Girão de Queiroz estamos desenvolvendo um estudo intitulado: “A percepção que as idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré possuem sobre suas relações familiares”. Os sujeitos desse estudo serão as idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré. Desde então, convido por meio deste termo, que venha participar do estudo que tem como objetivos: investigar as relações familiares das idosas institucionalizadas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré; compreender a relação existente entre as idosas e suas famílias, hoje; e conhecer as relações sociais entre as idosas institucionalizadas. Para conseguir estes dados utilizaremos um formulário e uma entrevista semi–estruturada que será gravada e transcrita integralmente. As informações serão colhidas pela pesquisadora. Esclarecemos ainda, que: Todos os participantes terão direito de não participar deste estudo, se assim o desejarem, sem que quaisquer prejuízos sejam acometidos. Garantimos-lhe o sigilo e anonimato quanto ao seu nome e às informações prestadas durante a entrevista. Não divulgaremos nomes, nem qualquer informação que possam identificá-los. Mesmo tendo aceitado participar, se por qualquer circunstância, durante o andamento da pesquisa, resolver desistir, terá total liberdade para retirar seu consentimento. Garantimos-lhe o acesso às informações sobre todos os procedimentos e benefícios relacionados ao estudo, inclusive para resolver dúvidas que possam ocorrer. O Serviço Social é uma profissão comprometida com a ética profissional, possibilitando assim, uma leitura mais crítica e detalhada sobre a realidade, reconhecendo suas particularidades e compreendendo a dinâmica familiar de cada participante desta pesquisa, que visa compreender as percepções que as idosas acolhidas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré possuem sobre as suas relações familiares. Portanto, gostaria de contar com sua valorosa colaboração, a qual, desde já agradeço. _________________________ Pesquisadora TERMO DE CONSENTIMENTO PÓS-INFORMAÇÃO Eu, ___________________________________________, declaro que tomei conhecimento do estudo sobre “As percepções que as idosas acolhidas na Associação de Assistência Social Catarina Labouré possuem sobre as suas famílias”, e assim, aceito participar dessa pesquisa.