REFLEXÕES SOBRE O ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA NA ESCOLA PÚBLICA: A VISÃO DOS ALUNOS E DO PROFESSOR Cátia Aparecida Vieira Barboza (UNISUAM / UNIABEU) Cristiane de Moraes Salvino (UNIABEU) Flávia Costa de Sá (UNIABEU) RESUMO: Este artigo tem como objetivo apresentar uma análise interpretativista sobre a visão do ensino de língua estrangeira em uma turma de 6º ano do ensino fundamental de uma escola pública. Tendo como base teórica os princípios da Linguística Aplicada e utilizando uma metodologia de cunho etnográfico, este estudo explicita crenças sobre o que a disciplina de língua estrangeira representa para o professor e os alunos no contexto escolar para propor uma reflexão sobre o processo de ensino-aprendizagem da língua estrangeira e sobre a sua influência atualmente na vida de professores e alunos da escola pública popular. Palavras-chave: Lingüística Aplicada, língua estrangeira, escola pública. ABSTRACT: This article aims at presenting an interpretative analysis of the view of teaching foreign languages considering a group of the 6th grade in a public school. Having the principles of Applied Linguistics as theoretical bases and using the methodological perspective of ethnography, this study highlights beliefs regarding what the subject represents to the teacher and his students at school so as to make us think about aspects of teaching-learning process of the foreign language and its influence on teachers and students’ lives in popular public schools. Keywords: Applied Linguistics, foreign language, public school. 1. INTRODUÇÃO Fala-se muito hoje em dia da importância do cidadão brasileiro ter em sua formação, pelo menos conhecimentos básicos, em uma língua estrangeira (daqui por diante LE). Se a LE é vista nessa sociedade como uma língua que tem de ser aprendida para que o aluno possa obter resultados positivos em sua formação pessoal, acadêmica e profissional, como está o processo de aprendizagem dessa mesma LE nos bancos da escola pública? Embasados nesse questionamento, iniciamos a pesquisa sobre a visão do ensino de LE na escola pública, com o objetivo de mostrar a opinião dos participantes do contexto escolar (professor e alunos), a respeito desta disciplina na escola e relacioná-los à situação em que se encontra o processo de ensino-aprendizagem da mesma. O estudo faz parte do projeto institucional ligado à UNIABEU – Centro Universitário, promovido pelo Programa de Apoio à Pesquisa e Extensão (PROAPE) denominado A Investigação em Sala de Aula como Ponto de Partida para Propostas de Projetos de Ensino de Língua Estrangeira. Esses dados foram coletados a partir de observações em sala de aula em uma turma do 6º ano do ensino fundamental, em uma escola pública do Rio de Janeiro, seguindo os moldes de investigação da Linguística Aplicada e buscando uma análise interpretativista dos dados. Os resultados obtidos neste estudo foram pontuados através de falas e ações do professor e alunos, além de notas de campo e entrevista. 2. ASPECTOS TEÓRICOS O estudo que apresentamos tem como principal referencial teórico a Lingüística Aplicada (LA), visto que seu objetivo é o de analisar e estudar problemas do uso da linguagem que os participantes do contexto social enfrentam. A LA é entendida por Moita Lopes como uma área de investigação aplicada, mediadora, interdisciplinar, centrada na resolução de problemas de uso da linguagem de natureza processual, que colabora com o avanço do conhecimento teórico e que utiliza métodos de investigação de natureza positivista e interpretativista (MOITA LOPES, 1996, p.22). Além disso, o projeto focaliza dois tipos de pesquisa utilizados no campo da LA: a pesquisa de diagnóstico e a pesquisa de intervenção. Entende-se por pesquisa de diagnóstico, a investigação em sala de aula do processo de ensino-aprendizagem e como a proposta deste processo está sendo efetivada na prática. A pesquisa de intervenção propõe-se à tentativa de mudança da proposta que está sendo executada (MOITA LOPES, 1996, p.86-87). A etapa da pesquisa que relatamos trata da fase de diagnóstico. Parte do interesse deste campo de pesquisa é a formação do professor. Apesar deste objetivo, as pesquisas teóricas e práticas de LA não conseguiram alcançar objetivos práticos no contexto escolar (MOITA LOPES, 1996, p. 31). Nos PCN’s (BRASIL, 1998), a justificativa social para a inclusão da LE no ensino fundamental é determinada pela função que ela desempenha na sociedade. Por ter um caráter facultativo, sem uso efetivo pela maioria dos habitantes do país, a LE obtém no currículo escolar, em algumas regiões, a característica de ser uma disciplina sem cunho reprovativo ou promocional. Em alguns estados, ela é totalmente descartada do currículo escolar e em outros, a LE fica restrita apenas a uma ou duas séries do ensino fundamental. Ainda, de acordo com esse documento, os critérios de habilidades orais em LE não levam em conta a relevância social para sua aprendizagem (BRASIL, 1998, p. 20). A seguir, um trecho citado nos PCN’s, mostra as possíveis dificuldades que a maioria das escolas enfrentam no que diz respeito ao desenvolvimento das habilidades lingüísticas (ler, escrever, ouvir e falar): Deve-se considerar também o fato de que as condições na sala de aula da maioria das escolas brasileiras (carga horária reduzida, classes superlotadas, pouco domínio das habilidades orais por parte da maioria dos professores, material didático reduzido a giz e livro didático etc.) podem inviabilizar o ensino das quatro habilidades comunicativas. Assim, o foco na leitura pode ser justificado pela função social das línguas estrangeiras no país e também pelos objetivos realizáveis tendo em vista as condições existentes. (BRASIL, 1998, p. 21). Tendo em vista que, de acordo com os PCN’s, esses fatores contribuem para que a disciplina não seja difundida de forma satisfatória para a sua compreensão, o ensino de LE é idealizado com o principal objetivo de trabalhar apenas a leitura do aluno. Conforme apresentamos, a visão que se tem para o ensino-aprendizagem de LE é restrita, devido a fatores relativos à formação de profissionais e a recursos de apoio didático. É fato que os problemas envolvendo a questão da LE na escola não ficam restritos a esses elementos, se estendendo também a questões políticas e sócio-culturais. Embora pesquisas demonstrem uma conscientização acerca dessas dificuldades, esta ainda não chega a ser significativa para uma mudança desse quadro. No que diz respeito à visão do aluno, pouco se tem discutido sobre o que pensam ou expõem sobre suas crenças em relação à aprendizagem de LE. Barboza (2009) observa podemos perceber que os objetivos quando nos referimos à aprendizagem de uma língua estrangeira por parte dos alunos são os mais variados e a atitude de adoração normalmente não se apresenta com tanta freqüência. Afetivamente, os alunos reagem à aprendizagem da língua estrangeira de formas diferentes e muitas vezes com medo e receio (cf. BARBOZA, 2008a). Como professores, devemos ter essa percepção e adequar nossas práticas pedagógicas a objetivos mais concretos, coerentes com a realidade social dos alunos. Neste trabalho, portanto, procuramos contribuir com novos questionamentos acerca do que dizem professores e alunos sobre o aprendizado de LE. 3. METODOLOGIA A pesquisa segue os moldes da Lingüística Aplicada, tendo cunho etnográfico misto - de aspectos qualitativos e quantitativos. A partir da aplicação dessa metodologia de investigação, procuramos verificar como alunos e professor vivenciam o processo de ensino-aprendizagem da LE. Este estudo foi realizado em uma escola de ensino público municipal da cidade do Rio de Janeiro, em uma turma de 6º ano do ensino fundamental. Utilizamos na coleta de dados instrumentos tais como: observação participante, questionários e entrevista gravada em áudio. Estão envolvidos como informantes deste momento da investigação, o professor regente e uma média de quarenta alunos da turma (dos quais vinte e seis respondem o questionário), que foram acompanhados num período médio de dois meses. 4. ANÁLISE DE DADOS Neste momento, demonstramos através da análise de alguns dos dados apresentados nos questionários coletados, na observação em sala de aula e na entrevista com o professor-regente, a opinião dos alunos e do docente do grupo pesquisado sobre diferentes tópicos relativos à LE, para mostrar como os participantes avaliam a importância do ensino de língua estrangeira para as suas vidas. 4.1 – Análise da entrevista com a professora A entrevista expõe como a professora vê e analisa a atual situação do ensino de língua estrangeira na escola em que leciona. Em determinado momento, ela traça uma retrospectiva sobre como eram as aulas de LE quando ingressou no magistério há 40 anos e como viu a disciplina perder a sua importância – segundo a mesma – na rede pública com o passar das décadas. E: P: Qual a importância do ensino de língua estrangeira para a formação do aluno de ensino fundamental? O papel da língua estrangeira é dar para o aluno a possibilidade de ampliar horizontes, de conhecimento universal, de ter uma base para sua vida acadêmica e profissional. Eles vão encontrar um mercado competitivo quando sair da vida escolar e é necessário ter uma boa base de ensino de língua estrangeira para dar um salto maior de sucesso no futuro. Neste trecho a professora reconhece a importância da LE na vida do aluno e como esse conhecimento é primordial para o seu futuro. E: P: E qual importância o ensino de língua estrangeira está tendo para os seus alunos no momento? Atualmente estou achando que nenhuma. Eles vêm semi-analfabetos na própria língua, na língua materna e juntamente com isso eles têm uma dificuldade incrível de assimilar qualquer língua estrangeira. Eles não conseguem compreender textos, eles lêem muito mal. Então com a língua estrangeira essa dificuldade aumenta. Na questão anterior essa afirmação da professora que atribui a possível dificuldade do aprendizado da LE ao seu empenho na assimilação de conteúdos da língua materna nos remete a Soares (1988) e retoma a discussão da teoria da patologização da pobreza, onde alunos de camadas populares teriam dificuldades de aprendizagem (da própria língua materna, nesse caso) devido às suas condições socioeconômicas e culturais. Aliado a este fator, condições estruturais da escola inviabilizariam um resultado significativo de aprendizagem da LE como colocam os PCN’s (BRASIL, 1998). E: O que faz a língua estrangeira ser importante no currículo escolar? P: É ter uma idéia universal, ter em mente que a língua estrangeira não é algo distante de nós. Que somos e vivemos em sociedade, que não somos uma sociedade distante. A idéia é que ela seja uma matéria complementar e não uma matéria “de outro mundo”, uma matéria imposta. A visão da professora nesta passagem demonstra a pertinência de ter a construção do conhecimento com base na realidade próxima do aluno com orientações para o que está presente em seu cotidiano. A LE faz parte da nossa qualidade de seres sociais. Em outra questão ela critica a mudança que se promoveu na política educacional e a visão que privilegia o produto e não o processo de aprendizagem e onde os números estatísticos não refletem a realidade da escola. Diante desta percepção a professora acredita que o ensino de LE se perde em seus propósitos. E: P: E como tem sido atualmente o papel da escola que a senhora leciona em relação ao ensino da língua estrangeira? O papel da escola mudou muito nesses últimos anos. A escola perdeu a sua função de dar ao aluno uma base cultural, uma base geral da língua estrangeira e de prepará-los para a vida e para até mais tarde conseguirem usar a língua estrangeira como um instrumento de trabalho mesmo. Ultimamente a escola tem se preocupado com questões de faltas, evasão, merendas...e não com o processo de aprendizagem. Não procura ver se o aluno realmente aprendeu aquilo que foi proposto. Toda essa percepção tem reflexo no próprio fazer pedagógico e evidencia uma falta de motivação como verificamos a seguir: E: A senhora sente-se motivada a atuar no ensino de língua estrangeira? P: De jeito nenhum. Eu me sinto desmotivada. Faz tempo que minhas ilusões acabaram. No início da carreira, eu tinha material para trabalhar, trabalhei com recursos audiovisuais, trabalhava também a oralidade e o aluno sente-se útil também em trabalhar com essa oralidade, porque é prazeroso, eles estão participando da aula, estão falando. Hoje em dia isso não acontece. Você simplesmente joga uma enxurrada de conhecimentos que ficam apenas ali, durante aquela aula, mas não será absorvido. Está faltando controle da própria disciplina. Como podemos verificar, a perda do foco no processo educacional tem reflexos no comprometimento e motivação de alunos e professores. A falta de investimentos nos recursos didáticos e pedagógicos é registrada nos PCN’s (BRASIL, 1998, p.21) que citam alguns fatores que dificultam o desenvolvimento das quatro habilidades lingüísticas (ler, ouvir, escrever, falar), também importantes para a motivação dos alunos, e que estão relacionados à atual realidade de classes lotadas, falta de recursos audiovisuais assim como de material didático. E: P: A senhora acredita que qualquer outra matéria é mais importante que a língua estrangeira? Todas são importantes. Todas contribuem para a formação, a capacitação do aluno. Acredito também que essa desvalorização deve-se ao fato de ela (língua estrangeira) ser posta como uma matéria superficial, sem cunho importante para a formação do aluno. A inclusão de uma área no currículo deve ser determinada, entre outros fatores, pela função que desempenha na sociedade. Somente uma pequena parcela da população tem a oportunidade de utilizar a LE dentro ou fora do país. Com essa afirmativa, o professor acredita, possivelmente, que a língua estrangeira não possui o mesmo cunho de importância para o aluno e escola. E: P: A senhora está se aposentando no magistério, disse que já vivenciou momentos bons na vida escolar no que diz respeito ao processo de ensino-aprendizagem, de valorização do ensino e hoje a senhora vê, como disse, um descaso total no ensino de língua estrangeira, um resultado desastroso. Como a senhora vê o futuro do ensino de língua estrangeira nas escolas públicas? Olha, infelizmente eu estou me aposentando sem ver uma fagulha de melhoras em relação a isso. Eu desejo de todo coração que nossos governantes dêem uma atenção emergencial ao sistema de ensino público brasileiro. Que eles possam enxergar que a educação é a base de todas as relações humanas. Eu espero que esses alunos se esforcem para dar continuidade aos seus estudos e que vocês, professores, que estão ingressando agora no magistério, entrem com amor, garra e vontade, porque não vai ser fácil. Se tiver que mudar, também não vai ser num passe de mágica. É e sempre será necessário muito amor à profissão, carinho e dedicação. Com essas afirmativas, a regente de turma declara que o seu trabalho de ensinar LE tem sido em vão, pois sabe que os alunos da sua turma possuem várias deficiências de aprendizagem e diz temer pelo futuro dos mesmos. Com a crítica ao sistema de aprovação automática imposto pelo governo municipal juntamente com o sistema de inclusão de alunos portadores de deficiência mental em classe de discentes regulares, a docente dizia ansiar para que sua aposentadoria fosse liberada, para que ela pudesse não presenciar mais as “cenas de descaso com a educação”. 4.2 – Análise do questionário aplicado aos alunos Com o objetivo de analisar a visão que o aluno da escola pública popular tem do ensino de LE, foi aplicado um questionário com diversas perguntas sobre a importância da disciplina, a opinião sobre as aulas e o grau de interesse pela mesma. Na primeira questão, foi levantada a importância de se aprender uma LE e a resposta foi unânime: todos os alunos afirmaram ser uma disciplina importante. O que pode ser reafirmado em outra questão, onde a LE foi comparada com outras disciplinas e ficou em terceiro lugar após a Língua Portuguesa e Matemática respectivamente. Em seguida, foi solicitado que respondessem qual língua estrangeira gostariam de aprender. 60 50 Inglês 40 Espanhol 30 Francês 20 Outra 10 0 Figura 1. Qual LE você prefere aprender? Inicialmente devemos notar que a turma participante estudava como LE o francês. Desta forma, os números demonstram que os alunos parecem ter maior interesse por línguas que fazem parte da sua realidade e é fato que o inglês e o espanhol estão mais presentes no cotidiano destes participantes do que o francês. Em seguida, foi perguntado qual a importância que a LE tem para a formação do aluno: 80 70 60 50 40 Importante para formação e mercado de trabalho É necessária, mas não sei para quê Tem pouca importância 30 20 10 Não tem importância 0 Figura 2. Qual a importância da LE para a sua formação? As respostas dadas demonstram que a visão da LE predominante direciona o ensino da mesma para o mercado de trabalho. Estes dados revelam uma incoerência, pois, embora os alunos reconheçam sua importância, não se envolvem diretamente nas propostas apresentadas, fato evidenciado em muitos dos relatórios das observações participantes onde foram relatados tumulto e dispersão dos alunos na realização das atividades. Em outra pergunta, o Vestibular e a ascensão social se sobrepõem à música e videogames que geralmente fazem parte do cotidiano dos participantes (os alunos sempre se entretêm com jogos e músicas em seus aparelhos celulares, mesmo em sala) demonstrando novamente a incoerência entre as respostas dadas e as ações em sala de aula, visto que nas respostas ao questionário as motivações relativas à carreira são mais relevantes que as questões que envolvem satisfação pessoal. Em outra questão, foi pedido para que o aluno avaliasse através dos anos de estudo, como estava o seu aprendizado de LE. 70 60 50 Mais ou menos 40 Muito 30 Nenhum 20 10 0 Figura 3. Através do ano tempo de estudo, conseguiu algum conhecimento em LE? As respostas dadas revelam coerência com a realidade, pois se não vêem interesse na disciplina, como podem ter sucesso no estudo? Visto o resultado da pergunta acima, foi pedido que eles opinassem sobre como gostariam que fossem as aulas de LE: 70 Vídeos de filmes 60 Assuntos da atualidade 50 Músicas 40 Brincadeiras 30 Exercícios 20 10 0 Leituras de textos Tradução Figura 4. Como gostariam que fossem as aulas de LE? A seguir, foi perguntado sobre o que o aluno mais gosta de fazer nas aulas de LE: 40 35 30 25 20 15 10 Exercícios Gramática Aula com vídeo Pronúncia Aula com música Nenhuma delas 5 0 Figura 5. O que mais gosta nas aulas de LE? Nas duas questões anteriores, verificamos novamente um choque entre idéias e ações. Os participantes afirmam que gostariam de ter em suas aulas de LE respectivamente, vídeos e filmes (70%), assuntos da atualidade (60%) e músicas e brincadeiras (50%), ficando os exercícios em 4º lugar com 45%. Entretanto, na questão que ilustramos logo em seguida, sobre o que mais gostam de fazer em aula, contrariamente ao que foi respondido na questão anterior, os exercícios vêm em 1º lugar (40%), seguidos da gramática (25%) e os vídeos e outras atividades ficam com menos de 15%. Na próxima questão é perguntado se o aluno excluiria a LE do currículo escolar. A maioria, ou seja, 88% da turma disse que não excluiria, enquanto 12% respondeu que retiraria a disciplina da grade escolar. Este resultado se confirma na questão seguinte. 100 80 60 40 Sim Não 20 0 Figura 6. Você tem algum interesse em aprender uma língua estrangeira? A maior parte da turma, totalizando 96%, afirmou que tem interesse em aprender uma outra língua estrangeira e 4% afirmou não ter interesse na aquisição de um outro tipo de idioma. Os dados confirmam, portanto, que a LE é valorizada pelos alunos, entretanto, estes ainda não lhe atribuem um valor significativo em seus cotidianos, o que pode ser verificado nas questões anteriores. A seguir, é perguntado quais das habilidades lingüísticas o aluno mais gostaria de aprender nas aulas de LE. 40 35 30 Traduzir 25 Falar fluentemente 20 Escrever 15 Ler 10 5 0 Figura 7. O que gostaria de aprender mais em língua estrangeira Como verificamos, aprender uma LE para os participantes, está ligado principalmente à tradução. Há uma necessidade constante de compreensão do idioma estrangeiro que se verifica nas aulas. Falar também é algo que prende a atenção dos alunos, sendo, portanto a segunda opção desta questão. No próximo tópico, foi pedido que os alunos respondessem quem era o principal responsável pelo insucesso nas aulas. 70 60 50 Os alunos O professor 40 30 20 10 O tempo de aula A falta de materiais 0 Figura 8. Se a aula de LE não é satisfatória, quem é o principal responsável? Como se verifica no gráfico, os alunos se colocam como os principais responsáveis quando as aulas não se desenvolvem como esperado. Há uma diferença muito grande em relação à resposta dada em relação aos professores - 20% em relação aos 70% que reconheceram a responsabilidade dos alunos. Em seguida, foi pedido que os alunos relatassem quais as suas principais dificuldades em aprender LE. 40 35 Falatório de colegas 30 Nenhuma 25 Pouco tempo de aula 20 15 Relacionamento com professor 10 Falta de interesse na disciplina Falta de material didático 5 Figura 9. Quais as dificuldades que você enfrenta para aprender Língua Estrangeira 0 As respostas assinaladas reforçam o resultado da questão anterior. Novamente os alunos se colocam como principais responsáveis pelas suas dificuldades em aprender LE (40%). Aparentemente a aprendizagem se dá por fatores internos, e não externos. Na visão dos mesmos, elementos externos como material didático, professor, não são tão relevantes. Outros 20% não identificam dificuldades no aprendizado. Finalizando o questionário, foi pedido que os alunos avaliassem o que aprenderam até agora em LE. 60 50 40 30 20 Muito bom Bom Ruim Não aprendi nada 10 0 Figura 10. Em relação ao que você aprendeu em Língua Estrangeira até o momento, o que você achou? Como a questão demonstra, há na visão dos participantes uma avaliação positiva em relação ao que aprendem em LE. Notamos que menos de 10% afirmou ter sido uma experiência ruim, ou não terem aprendido nada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conforme colocado anteriormente, o objetivo deste trabalho é mostrar a opinião dos participantes do contexto escolar (professor e alunos), a respeito da LE na escola e relacioná-los à situação em que se encontra o processo de ensino-aprendizagem. A observação e coleta de dados apresentada nos releva traços como o grau de interesse do aluno pelo aprendizado da LE, a relevância que esta disciplina possui para o seu futuro acadêmico e em quais aspectos ela se insere em seu cotidiano apesar de também demonstrar várias incoerências na opinião emitida pelos próprios alunos. Na entrevista com a professora, várias crenças são reveladas. Ela, que se encontra em término de carreira, coloca a questão da desvalorização do ensino de LE ligada, por exemplo, à questão da ausência de cunho promocional. Também, segundo a professora, os alunos não consideram importante aprender LE e justifica este fato citando motivos ligados às suas carências de aprendizagem até mesmo na língua materna. Dando seqüência, declara que, atualmente, as políticas educacionais tendem a valorizar aspectos como a merenda, evasão, ou seja, números e não qualidade de ensino. Apesar de estar evidenciado no discurso de professores e alunos que o aprendizado de LE é importante, ambos encontram em seu caminho elementos externos que levam à desvalorização da disciplina, tais como, grade reduzida, superlotação em salas de aula, falta de materiais de apoio para o trabalho das habilidades lingüísticas, entre outros. O aluno da escola pública popular não tem a oportunidade de ter acesso ao aprendizado de forma prática e eficaz apesar de não ter consciência dessas deficiências e se considerar como o principal responsável pelo eventual insucesso. Com a análise de dados apresentados, observamos que alunos e professores da escola pública enfrentam, em comum, a desmotivação e a falta de objetivos práticos para que a disciplina de LE possa despertar um maior interesse na vida escolar. Concluindo, podemos perceber que muitos são os pontos a serem discutidos sobre como desenvolver um ensino mais eficaz de LE na escola pública e que a responsabilidade pelo sucesso ou insucesso não deve ser exclusivamente atribuída a professores, alunos ou às políticas educacionais, mas a todos estes elementos devem ser dedicados outros estudos e intervenções. Nosso papel inicialmente é o de diagnosticar, entretanto, este projeto pretende futuramente implementar ações que possam contribuir com a mudança deste quadro e que possam mudar não só a forma de ensino-aprendizagem de LE, mas a valorização da educação e do profissional que a ela se dedica. REFERÊNCIAS ALMEIDA FILHO, José Carlos Paes de. Lingüística Aplicada – Ensino de Línguas e Comunicação / José Carlos Paes de Almeida Filho – Campinas, SP: Pontes Editores e ArteLíngua, 2 edição, 2007. BARBOZA, Cátia A. V. “A Lingüística Aplicada e o professor de língua inglesa: Novas formas de pensar a prática pedagógica”. Revista Científica Semioses - UNISUAM, nº 5, 2009. Disponível em: http://www.unisuam.edu.br/semioses/. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira/ Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. LIBÂNEO, José C. Democratização da escola pública: a pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 1985. MOITA LOPES, Luís Paulo da. Oficina de Lingüística Aplicada. Campinas, SP. Mercado de Letras, 1996. SANTOS, Julio César Furtado dos. Aprendizagem significativa - modalidades de aprendizagem e o papel do professor. Porto Alegre: Mediação, 2008. SOARES, Magda. Linguagem e Escola: uma perspectiva social. Coleção Série Fundamentos. 5 ed. São Paulo, Ática, 1988. (Artigo recebido em 13 de abril de 2011 e aprovado para publicação em 22 de maio de 2011.)