III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 O ENSINO-APRENDIZAGEM DE LÍNGUA ESTRANGEIRA POR MEIO DE EDUBLOG: POR UMA DIMENSÃO INTERACIONAL DA LINGUAGEM1 Edna Aparecida Lisboa SOARES (Faculdade Pitágoras) Luiz Antônio RIBEIRO (Faculdade Pitágoras) Mônica Carvalho Brum RODRIGUES (Faculdade Pitágoras) Resumo No presente estudo, procuramos promover uma reflexão sobre a constituição e uso de blogs educacionais com vistas ao ensino de língua estrangeira. Especificamente, pretendemos promover uma reflexão sobre o caráter interacional da linguagem como eixo norteador da prática pedagógica do professor de língua estrangeira; discutir práticas diversificadas de ensino-aprendizagem de língua estrangeira em Blogs, com vistas à formação do senso crítico e estético do aluno, a fim de lhe permitir construir e dinamizar a própria aprendizagem; refletir sobre o funcionamento do gênero textual blog, evidenciando suas características lingüístico-discursivas; problematizar a questão do ensino de língua estrangeira em blogs, considerando-se o processo de co-produção de sentido de textos e hipertextos. Palavras-chave: edublog, PCNs, Gênero Textual, Interação, Língua Inglesa. Abstract In the present study, we reflect on the formation and use of Edublogs in foreign language teaching. Specifically, we encourage a reflection on the interactional language aspect as the basis of a foreign language pedagogical practice; discuss diversified teaching and learning foreign language practices, educating the student with critical and aesthetic sense , in order to make him/her build and dynamize his/her own learning; reflect on how a blog genre works, highlighting its linguistic-discursive characteristics; the problem issue of foreign language teaching on blogs, considering the meaning of co-production process in texts and hypertexts is highlighted. Key words: edublog, PCNs, textual genre, interaction, English language. 1. Os PCNs e o Ensino de LE Este projeto se orienta a partir da seguinte pergunta: Em que medida o ensino de língua estrangeira, por meio dos blogs, contempla uma dimensão textualdiscursiva e como ocorre essa interação? Os PCNs de Língua Estrangeira (1999) ressaltam a importância de abandonar um tipo de ensino meramente reprodutivo, pautado na 1 Trabalho apresentado ao Grupo de Discussão PROPOSTAS PEDAGÓGICAS MEDIADAS POR MÍDIAS DIGITAIS, no III Encontro Nacional sobre Hipertexto, Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009. 1 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 memorização de dados e que acaba por tornar-se uma simples repetição, ano após ano, dos mesmos conteúdos, para adotar uma modalidade em que haja a aproximação das situações de aprendizagem à realidade pessoal e cotidiana do aluno. Nessa perspectiva é fundamental a consideração de que o uso da linguagem é essencialmente determinado pela sua natureza sociointeracional, pois quem a usa considera aquele a quem se dirige ou quem produziu um enunciado. Todo significado é dialógico, isto é, é construído pelos participantes do discurso. Além disso, todo encontro interacional é crucialmente marcado pelo mundo social que o envolve: pela instituição, pela cultura e pela história. Isso quer dizer que os eventos interacionais não ocorrem em um vácuo social. Ao contrário, ao se envolverem em uma interação tanto escrita quanto oral, as pessoas o fazem para agirem no mundo social em um determinado momento e espaço, em relação a quem se dirigem ou a quem se dirigiu a elas. Os PCNs de Língua Estrangeira (1999) destacam as seguintes competências e habilidades a serem desenvolvidas no ensino-aprendizagem de LE: Representação e comunicação - Escolher o registro e o vocabulário adequado à situação comunicativa. - Utilizar os mecanismos de coerência e coesão. - Utilizar as estratégias verbais e nãoverbais. - Conhecer e usar as línguas estrangeiras modernas como instrumento de acesso a informações a outras culturas e grupos sociais. Investigação e compreensão - Interpretar uma expressão tendo em vista aspectos sociais e/ou culturais. - Analisar os recursos expressivos da linguagem verbal, relacionando textos/contextos. Contextualização sóciocultural - Distinguir as variantes lingüísticas. - Compreender em que medida os enunciados refletem a forma de ser, pensar, agir e sentir de quem os produz. Tabela 1: Competências e habilidades em LE Para que o processo de construção de significados de natureza sociointeracional seja possível, as pessoas utilizam três tipos de conhecimento: conhecimento sistêmico, conhecimento de mundo e conhecimento da organização dos textos. Esses conhecimentos compõem a competência comunicativa do aluno e o preparam para o engajamento discursivo. Além disso, deve-se valorizar um ensino-aprendizagem partindo das interações e da valorização do aluno protagonista na construção do conhecimento. No que tange às mediações tecnológicas, gostaríamos de abordar, em especial, o ensino-aprendizagem de língua inglesa a partir dos blogs educativos. Na maioria das 2 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 vezes, as mediações tecnológicas nesta área do conhecimento aparecem com o famoso jargão de “aula prazerosa” com atrativos os quais conquistam tanto alunos como educadores. Infelizmente, tal postura apresenta as novas tecnologias somente como mero instrumento e não como forma de interação dialógica. São apenas ferramentas para tornar as aulas “diferentes” e “interessantes”. Atualmente várias são as ferramentas à disposição do professor e com vantagens de promover a interação, a autonomia e o aprender a aprender. Com a variedade de recursos no ciberespaço, como, por exemplo, a web 2.0, o usuário deixa de ser mero consumidor de conteúdo e passa também a produtor (PAIVA, 2008). Nesse ambiente, o professor pode promover uma mudança de paradigma no ensino-aprendizagem de língua inglesa através da criação de blogs, consulta e adição de informações na Wikipédia, uma enciclopédia criada por usuários da rede internacional de computadores, e compartilhamento de vídeos na web com o YouTube. Tais ferramentas promovem a interação, a autonomia e o aprender como aprender, como afirma Coscarelli (1997): Uma das responsabilidades do professor é, portanto, ajudar os alunos a desenvolver estratégias de aprendizagem mais efetivas e isso, muito provavelmente, fará com que os aprendizes abandonem as técnicas não efetivas. Ou seja, é papel do professor ajudar o aluno a aprender como aprender. Segundo Pierre Lévy (2000, p. 157), “o ciberespaço suporta as tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas”. Tais tecnologias possibilitam novas formas de acesso à informação, bem como novos estilos de raciocínio e de conhecimento. Além disso, por serem compartilhadas entre vários indivíduos, elas aumentam o seu potencial de inteligência. Em conseqüência, requerem reflexão sobre os princípios que norteiam a formação e educação. As estratégias de ensino-aprendizagem devem levar em conta uma dimensão interacional da linguagem. Bakhtin (2003, p. 271) afirma que Toda compreensão da fala viva, do enunciado vivo é de natureza ativamente responsiva (embora o grau desse ativismo seja bastante diverso); toda compreensão é prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma, a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante. 3 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 Devem-se levar em conta nessa proposta, os interactantes do discurso, a função comunicativa do texto, o público-alvo a ser atingido, o gênero e o domínio do discurso. Também é importante destacar que todo texto é um somatório de diferentes vozes articuladas que, na perspectiva do locutor, formam uma rede constituída de um todo significativo. Sendo assim, faz-se necessário pensar o ensino-aprendizagem de LE numa perspectiva sociointeracionista, fundamentada nas práticas sociais. O ensino por meio de edublogs pode ser uma estratégia significativa nesse sentido. 2. O Blog Educativo Chama-nos à atenção o título de uma matéria da Revista Época, de 9 de fevereiro de 2007: “Quer aprender? Crie um blog. É certo que cada vez mais alunos e professores, na expectativa de desenvolver melhores estratégias de ensinoaprendizagem, vêm se interessando por essa ferramenta pedagógica, cuja característica central é favorecer a interação entre usuários do ambiente virtual. O Blog é uma ferramenta que oferece facilidade para a edição, publicação, atualização e manutenção de textos. Além disso, favorece a harmonia de múltiplas semioses, que configuram seu potencial discursivo: textos escritos de diferentes gêneros, imagens (fotos, desenhos, emoticons, animações, etc.) e som (músicas, palestras, etc.). Essa combinação de signos contribui para que seu aspecto visual se torne atrativo e para que haja maior interatividade entre os usuários por meio dos conteúdos divulgados na rede, daí o sucesso e a difusão dessa ferramenta. No presente trabalho, voltamos nossa atenção para os Blogs educativos ou Edublogs. Nosso objetivo é verificar a utilização de tal ferramenta no ensino de inglês, observando sua aplicabilidade como fonte de construção coletiva de conhecimento e de interação entre educadores e estudantes. Professores usuários do blog ressaltam o espírito de cooperação e interatividade promovido por essa ferramenta. Os projetos educacionais possibilitam o desenvolvimento de uma atividade dialógica, por meio da qual os interagentes podem desenvolver o espírito crítico, criativo e participativo. A estrutura dinâmica dos blogs possibilita que os usuários – no caso professores e alunos – desenvolvam projetos de pesquisas, atuem na busca seletiva de informações, reinterpretem conceitos e dados, promovam debates, resolvam problemas, desenvolvam trabalhos colaborativos. Enfim, o blog educativo favorece a construção de novos 4 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 saberes e, desse modo, cumpre ao professor atuar como mediador de todo o processo, proporcionando ao aluno o desenvolvimento de uma aprendizagem significativa, de maneira autônoma, crítica e criativa. Ferreira (2008), de forma sintética, apresenta-nos os seguintes motivos para usar blogs como atividade de ensino-aprendizagem: PARA PROFESSORES - Desenvolvimento e publicação de projetos escolares; - Produção de materiais diversos; - Registro de imagens. PARA ALUNOS - Produção de resumos e sínteses; - Desenvolvimento de projetos escolares; - Aprendizagem colaborativa partindo das propostas educativas. PARA PROFESSORES E ALUNOS - Conversações sobre assuntos iniciados em sala e que podem ser aprofundados em fóruns ou listas de discussão. Tabela 01: Blogs como atividade de ensino-aprendizagem (FERREIRA, 2008). Quanto ao aspecto estrutural, embora o blog educativo não apresente uma estrutura rígida, podemos observar algumas características comuns entre eles. No cabeçalho, geralmente é apresentado o nome do blog e o avatar (identificação e perfil de seu autor), bem como um tema em destaque. Nas laterais, podemos encontrar arquivos de textos, atividades educativas e recreativas, fotos já publicadas e hiperlinks. Os textos são apresentados em blocos e organizados cronologicamente. O registro de linguagem é o padrão, porém com vocabulário e frases simples. A maioria dos blogs possui duas ferramentas básicas: uma de comentários, por meio das quais os internautas registram seus comentários sobre os posts publicados pelo autor do blog e ainda acessa as contribuições de outros interagentes; e outra ferramenta, trackback, que permite o link com outros blogs, em que se publicaram conteúdos relativos ao mesmo tema tratado pelo autor. Por meio dessa ferramenta, pode-se observar a repercussão de uma determinada discussão em outros blogs, o que aumenta e complexifica a rede hipertextual proporcionada por um blog. Faz-se necessário também refletir sobre os aspectos discursivos relacionados ao Blog. Destaca Marcuschi (2004) que a Internet e todos os gêneros a ela ligados são eventos textuais essencialmente baseados na escrita. Os textos são produtos da atividade 5 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 de linguagem em funcionamento nos ambientes discursivos de nossa sociedade, conforme observa Bronckart (1999, p. 137): Na escala sócio-histórica, os textos são produtos da atividade de linguagem em funcionamento permanente nas formações sociais: em função de seus objetivos, interesses e questões específicas, essas formações elaboram diferentes espécies de textos, que apresentam características relativamente estáveis (justificando-se que sejam chamadas de gêneros de textos) e que ficam disponíveis no intertexto como modelos indexados, para os contemporâneos e para as gerações posteriores. Consideramos, portanto, que o gênero edublog encontra-se indexado com valores ideológicos refletidos no quadro das atividades de uma formação social. Ressaltamos, contudo, a ação do sujeito sobre a língua, quando este se constitui como um sujeito-enunciador, que se dirige a um sujeito-destinatário, ambos situados num tempo e espaço discursivos, definidos como o aqui-agora da enunciação. A ação do sujeito, o “eu” discursivo, sobre a língua será sempre regulada por um “tu”, conforme postula Benveniste (1989, 1995). Para Bronkart (1999), esse contexto sócio-subjetivo pode se decompor nos seguintes parâmetros: a) O lugar social em que se dá a interação: a interação por meio de blogs educativos se processará no quadro de determinada formação social, ou seja, de certa instituição, que pode ser uma escola, um curso de idiomas, etc.; b) Posição social do emissor-enunciador: o dono e usuário do blog educativo sempre cumprirá um papel social na interação em curso, no caso, o de um professor; c) Posição social do receptor-destinatário: o papel social atribuído ao receptor do texto será o de um aluno, um visitante, um outro professor, etc. d) O objetivo da interação: refere-se ao(s) efeito(s) de sentido que o emissor pretende produzir no destinatário. No caso do blog educativo, podemos relacionar como prováveis efeitos a reflexão ou pesquisa sobre determinado tema e ainda o desenvolvimento de uma aprendizagem específica. Apesar de um crescente número de professores já fazerem uso dessa ferramenta de ensino, sabemos que estamos apenas no início de um processo. Os alunos estão muito à frente de seus professores em relação ao domínio dos recursos disponibilizados pela informática. Reforçamos, assim, a necessidade de que os professores se apropriem 6 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 cada vez mais desse gênero e explorem com seus alunos as diversas possibilidades oferecidas neste novo ambiente virtual de aprendizagem. Essa pode ser uma oportunidade para que esses atores consolidem novos papeis no processo de ensinoaprendizagem, cabendo aos professores uma atuação menos diretiva, e aos alunos, uma ação mais participativa em relação ao objeto de conhecimento. 3. Reflexões sobre o Ensino do Inglês por meio do Edublog Neste projeto, procuramos refletir sobre em que medida o ensino de língua estrangeira, por meio dos blogs, contempla uma dimensão textual-discursiva e como ocorre essa interação. No intuito de buscar respostas para tal pergunta, analisamos alguns blogs educativos e encontramos mais semelhanças entre eles do que diferenças. Por questões de espaço, vamos focar nossa análise no blog Inglês na Ponta da Língua, do professor Denilso de Lima, cujo endereço é <<http://denilsodelima.blogspot.com/>>. Tal escolha não foi feita por acaso. Conforme matéria intitulada “Inglês na Ponta da Língua: Top 1 no Top Blog”, publicada no dia 13/09/09, o autor desse blog recebeu do Top Blog um troféu e um certificado com os seguintes dizeres: "O Top blog Prêmio, edição 2009, confere a Inglês na Ponta da Língua o título de Top 1 na categoria Cultura - Blog Pessoal de acordo com a Votação Popular". Nesta matéria, encontramos um hiperlink para o you tube, onde podemos ter acesso à solenidade de entrega do troféu e do certificado. Considerando-se o caráter interativo da linguagem, a expectativa em relação ao funcionamento do edublog em língua inglesa seria o ensino e aprendizagem desse idioma a partir de situações concretas de comunicação. Assim, o ensino da língua inglesa não deve se restringir à compreensão e produção de enunciados isolados, gramaticalmente corretos. É preciso adotar uma metodologia mais eficiente, em que esses enunciados sejam estudados considerando-se seu emprego em diferentes gêneros textuais, veiculados num contexto comunicativo específico. O blog do professor Denilso de Lima apresenta, em linhas gerais, a seguinte estrutura: Nome do Blog e destaque para o seu objetivo central 7 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 Coluna da Esquerda Coluna Central - Hiperlinks de cursos de - Exibição de postagens Inglês e outros sites referentes aos links (chamadas publicitárias); destacados nas colunas periféricas. - Seção Arquivo: links relacionados por ano, mês e matérias publicadas diariamente. Coluna da direita - Hiperlinks de outros sites (chamadas publicitárias); - Link relativo à biografia do autor do site; - Contato; - Link de livros publicados pelo autor; - Temas abordados. Tabela 2: Estrutura do Blog Inglês na Ponta da Língua Tal estrutura pode ser visualizada a partir da seguinte página retirada da Web: Figura 1: Blog Inglês na Ponta da Língua Disponível em << http://denilsodelima.blogspot.com/>> Acesso em 26 out. 2009 O blog em análise é muito rico em termos de informações, conteúdos, gêneros textuais e hiperlinks. As postagens abrangem diferentes matérias, como: “Abordagem Lexical”, “Chunks of Language”, “Dicas aos students”, “Dicas aos teachers”, “Metodologias e Abordagens”, “Perguntas dos Leitores”, questões relativas à “Língua em Uso”, dicas de livros, e-books, vídeos, etc. Esses conteúdos são postados em 8 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 gêneros diversificados, como notícias, entrevistas, resenhas, aulas sobre conteúdos gramaticais e vocabulário da Língua Inglesa, curiosidades, dentre outros. Há ainda destaques de participação do autor em mesa redonda, workshop, entrevista, etc. Encontramos diferentes links para outros endereços eletrônicos como you tube; Blog Action Day, que versa sobre mudança climática; editoras como a Cambridge University Press, dentre outros. Em todas as postagens, há um link para comentários, através dos quais podemos perceber a participação efetiva dos usuários, normalmente professores e pessoas interessadas em aprender inglês. Esse panorama justifica o prêmio recebido pelo autor do blog e as constantes visitas de internautas. Examinemos, agora, como esse blog explora questões de linguagem e se estas atendem – e em que medida fazem isso – o que preconizam os PCNs no que diz respeito ao desenvolvimento de competências e habilidades por meio do ensino de LE. Por questões de espaço, não faremos uma análise exaustiva, limitando-nos, assim, a algumas questões. Dado o pouco espaço para publicação, optamos para analisar o tratamento dado à variação lingüística. Verifica-se o tratamento da variação lingüística nas seguintes seções, dentre outras: “Chunks of Language”, “Abordagem lexical”, “Dicas aos students”, “Dicas aos teachers”, “Collocations”. Em suas explicações, em alguns momentos o professor descreve diferentes formas de uso de determinada expressão, utilizando, para isso, um contexto mínimo e isentando-se de julgamento de valor, conforme exemplificado a seguir: (01) Um tema recorrente em todo curso de inglês é "profissões". Geralmente, são introduzidas com as perguntas "what do you do?" (o que você faz?) ou "what's you job?" (qual sua profissão?). Raramente, eu vejo um curso de iniciantes ensinar também a expressão "what do you do for a living?" (o que você faz da vida?). Entre as três a menos comum é a do meio! Disponível em <<http://denilsodelima.blogspot.com/search/label/Erros%20comuns>>. Acesso em 20 out. 2009 Mas, na maioria das vezes, há sempre a preocupação de reforçar no aprendiz de inglês o uso correto do idioma, conforme ressalta o professor em continuidade à matéria acima: (02) 9 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 “O erro típico dos brasileiros é justamente esquecer de colocar o tal do artigo em inglês. Ou seja, dizem/escrevem "he's lawyer" ao invés de "he's a lawyer"; "I'm secretary" ao invés de "I'm a secretary". Você leitor deste blog, lembre-se: em inglês sempre usamos um artigo antes da profissão.” Disponível em <<http://denilsodelima.blogspot.com/search/label/Erros%20comuns>>. Acesso em 20 out. 2009 É importante atentar-se ao nome da seção da qual o exemplo acima foi destacado: “erros comuns”. Não há aqui uma preocupação em relativizar o uso da língua e tampouco explorar situações de uso. Reforça-se o sentido imanente, com a apresentação de um conjunto sistemático de normas para bem falar e escrever a língua inglesa. Para ensinar conteúdos gramaticais (regência verbal e nominal, concordância, etc.) e regras de uso da língua, o professor utiliza-se de frases soltas e reforça o uso da norma culta, como podemos observar por meio das explicações e exercícios apresentados a seguir: (03) Veja abaixo uma atividade para praticar collocations da palavra "money" (dinheiro). Ou seja, todos os verbos combinam com "money", porém sua tarefa vai ser de montar as frases por inteiro. Por exemplo, você pode dizer "borrow money". Mas qual é o resto da expressão? Só uma vai dar certo: "from the bank". Desta forma você forma a expressão "borrow money from the bank" (pegar dinheiro emprestado do banco). Assim sendo combine (coloque) os verbos a seguir: • • • • borrow money (pegar dinheiro emprestado) invest money (investir dinheiro) lend money (dar dinheiro emprestado, emprestar dinheiro) spend money (gastar dinheiro) Com estes complementos: • • • • to a friend (a um amigo) on new clothes and shoes (em roupas novas e sapatos) in research and development (em pesquisa e desenvolvimento) from the bank (do banco) Um você já sabe como é - borrow money from the bank (pegar dinheiro emprestado do banco). Escreva suas respostas na área de comentários. Disponível em <http://denilsodelima.blogspot.com/2007/12/money-que-good.html> Acesso em: 20 out. 2009. 10 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 Observe-se que, para cada frase ou fragmentos de frase apresentados em Inglês, há sempre a tradução em português, talvez para atender a um público-alvo iniciante no estudo da língua inglesa. Nesse exemplo, não há apresentação de um contexto mínimo, tampouco a aplicação de tais frases em textos. Essa mesma postura pedagógica pode ser percebida em várias outras aulas ministradas pelo professor nesse blog. No mês de outubro, encontramos os seguintes links na seção “Arquivo”: (04) O que significa 'hoax'? Collocations: palavras que combinam com 'teacher' Vocabulário Específico: Meio Ambiente Dicas de Inglês: temperos e condimentos O conteúdo postado basicamente explora o significado e o uso de palavras e expressões em frases soltas. Vale lembrar que a proposta deste blog é apresentar dicas de inglês, objetivo este expresso logo abaixo do nome do blog. No “Vocabulário Específico: Meio Ambiente”, encontramos a seguinte referência a um texto: “Caso queira conferir dê uma lida no texto 'The Top 100 Effects of Global Warming. Vale a pena para ampliar seu vocabulário em inglês.” A iniciativa seria mais produtiva, se fossem explorados os recursos lingüístico-discursivos do texto em questão. É preciso lembrar que o ensino de língua deve contemplar a interação entre os falantes, o contexto estabelecido sócio-histórico-ideologicamente e de acordo com as intenções no endereço comunicativas. A oralidade é pouco explorada. Em 24/10/09, <http://denilsodelima.blogspot.com/2009_10_01_archive.html>>, foi postado um artigo intitulado “Pronúncia em Inglês: Os Sons da Língua Inglesa”, no qual o autor faz referência a Adrian Underhill, criador do Sound Foundations Phonetic Chart. O professor oferece uma valiosa contribuição aos usuários do blog, ao possibilitar o download gratuito do Phonetic Chart e o acesso a uma série de vídeos no qual Adrian Underhill fala sobre sons da língua inglesa e como eles são produzidos. Registra-se aqui uma preocupação exclusivamente voltada para a descrição fonética, e nenhuma reflexão sobre as condições de uso da língua. Efetiva-se a participação dos usuários na seção de comentários, sendo que muitos deles aproveitam para elogiar o trabalho do professor, fazer perguntas 11 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 relacionadas ao uso de vocabulário e expressões e apresentar respostas para questões propostas pelo professor. Não há espaço, no blog, para discussão de textos e exploração de habilidades de leitura. Assim o ensino de LE incorre no mesmo problema relacionado ao ensino da língua materna e a excessiva reverência ao tratamento da norma culta. O baixo nível de interatividade também pode ser medido pela fraca atuação dos usuários, que pouco se comunicam com o professor fazendo uso da língua inglesa. O próprio professor faz pouco uso do inglês na comunicação com os alunos, sendo que na maioria das vezes isso ocorre para explicar uso de vocábulos e expressões. Observe-se que o ensino fundamenta-se numa perspectiva behaviorista, em que se valoriza a memorização de palavras, conforme denuncia os seguintes títulos de artigos publicados pelo professor em seu blog: (05) Só aprender não basta, tem que lembrar! (http://denilsodelima.blogspot.com/2008/04/s-aprender-no-basta-tem-que-lembrar.html) Lembrar palavras! Memorizar palavras! (http://denilsodelima.blogspot.com/2007/11/lembrar-palavras-memorizar-palavras.html) Tal proposta faz-nos acreditar que, para desenvolver o aprendizado da língua, a memorização de palavras é condição primeira e praticamente única. Não há, no blog, um espaço para o desenvolvimento de habilidades de leitura e produção de texto. Nesse sentido nossa análise permite concluir que o uso que se tem feito do blog para o ensino de língua inglesa ainda é pobre e oferece poucos recursos para o desenvolvimento das seguintes habilidades previstas nos PCNs: conhecer e usar as línguas estrangeiras modernas como instrumento de acesso a informações a outras culturas e grupos sociais; analisar os recursos expressivos da linguagem verbal, relacionando textos/contextos mediante a natureza, função, organização, estrutura, de acordo com as condições de produção/recepção (intenção, época, local, interlocutores participantes da criação e propagação de idéias e escolhas, tecnologias disponíveis); compreender em que medida os enunciados refletem a forma de ser, pensar, agir e sentir de quem os produz. No que diz respeito ao contexto sócio-subjetivo em que se realiza a interação por meio do blog em análise, destacamos a posição social a partir da qual o emissorenunciador busca interagir com o receptor-destinatário e a posição social deste último. Embora assuma o lugar de dono do blog e de professor, o emissor-enunciador preocupase em estabelecer certa proximidade estratégica do receptor-destinatário por intermédio 12 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 do emprego de uma linguagem mais descontraída. Considerando-se que a interação estabelecida a partir de blogs realiza-se a distância, o emprego de tal estratégia parece ter por finalidade, dentre outras, escamotear esse distanciamento físico. Simula-se, assim, a presença e o contato físicos, buscando-se conferir à interação certo envolvimento emocional, o que parece contribuir para que se estabeleçam e se fortaleçam vínculos de confiança e companheirismo entre as duas instâncias, dos quais pode decorrer a fidelização da instância da recepção ao blog. Vale destacar, ainda quanto a esse aspecto, que o emissor enuncia do lugar de professor-companheiro, buscando romper com o distanciamento hierárquico entre as duas instâncias. Parece-nos possível dizer que tanto a escamoteação do distanciamento físico quanto do hierárquico visa à simulação de maior proximidade afetiva entre as duas instâncias. Em contrapartida, o papel social atribuído ao receptor alterna-se entre aluno e leitor como se observa em: “O assunto de hoje é baseado em um comentário deixado por uma leitora [Tânia] naquele post. A dúvida da leitora era sobre o uso de 'very much' e 'a lot'. (http://denilsodelima.blogspot.com/2009/06/gramática através das palavras.html) “Aí quando você - aluno - encontra o 'how' sendo usado de um modo diferente, pensa logo que é o fim do mundo.” (http://denilsodelima.blogspot.com/2009/05/língua em uso.html) Atribui-se também ao receptor o papel social de professor, embora, conforme se observa abaixo, a interação que o emissor-enunciador estabelece com essa instância não difira da estabelecida com o receptor-destinatário-aluno/leitor. “Na dica de hoje você vai conferir a diferença entre um collocation e uma expressão idiomática.” (http://denilsodelima.blogspot.com/2009/10/dicas aos students.html) (http://denilsodelima.blogspot.com/2009/10/dicas aos teachers.html) Constatamos, assim, que a interação que se busca estabelecer, a partir do blog em estudo, entre a instância de emissão e a instância de recepção não contempla o caráter múltiplo desta última, uma vez que a linguagem e as estratégias comunicativas empregadas apresentam-se indistintas. 3. Considerações Finais Com base no exposto, pode-se dizer que o blog em análise não contempla as competências e habilidades que os PCN’s propõem que sejam desenvolvidas no ensino- 13 III ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO Belo Horizonte, MG – 29 a 31 de outubro de 2009 aprendizagem de LE. O estudo descontextualizado da língua, a ênfase no uso da norma culta padrão e a não exploração de situações de uso são, dentre outros, exemplos que revelam a ausência, no blog estudado, de uma reflexão sobre as condições de uso da língua. Vale, entretanto, ressaltar a valiosa contribuição que o Professor Denilso oferece ao ensino-aprendizagem da língua inglesa. Destacamos sua iniciativa em construir um blog bem organizado, com valiosas informações e importantes links por meio dos quais podemos expandir nosso conhecimento. É importante enfatizar que o blog não substitui a aula do professor, mas pode contribuir para enriquecê-la a partir das ferramentas e das atividades extras disponíveis. Contudo, se quisermos contribuir para que nosso aluno desenvolva uma aprendizagem significativa, por meio da qual ele seja capaz de aprender um conteúdo, fazer uso de tal conhecimento em diferentes contextos sociocomunicativos e ainda refletir sobre o mesmo, temos um longo caminho a percorrer. REFERÊNCIAS BAKHTIN, Mikhail. Os Gêneros do Discurso. In: _______. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p.271. BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística geral I. 4ª ed. São Paulo: Pontes, 1995. __________________. Problemas de lingüística geral II. São Paulo: Pontes, 1989. BRASIL, Ministério da Educação, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais, códigos e suas tecnologias: Língua estrangeira moderna. Brasília: MEC, 1999. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira. Brasília, MEC/SEF, 1998. BRONCKART, J. P. 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