REVISTA DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOPEDAGOGIA Nº 72 2006 ISSN 0103-8486 EDITORIAL / EDITORIAL Comprometimento Commitment .......................................................................................... ' ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES Avaliação das habilidades fonológicas, de leitura e escrita em indivíduos com paralisia cerebral congênita hemiparética Phonological habilities,reading and writing of individuals with hemiparetic cerebral palsy ................................................................. ' Uma investigação sobre o brincar de Winnicott, no tempo e no espaço da creche: contribuições da Psicanálise para a Educação An investigation about child playing within the Winnicotts perspective, on the time-space in the kindergarten: contributions of the Psychoanalysis for the Education ............................................ ! ARTIGOS ESPECIAIS / SPECIAL ARTICLES A qualidade da Educação no Brasil: um problema de metodologia? The quality of the Education in Brazil: a problem of methodology? ....................................................................................... ! Avanços da Psicopedagogia em Sergipe Advances of Psychopedagogy in Sergipe ......................................... ARTIGOS DE REVISÃO / REVIEW ARTICLES Neuropsicologia da aprendizagem Neuropsychology of learning ............................................................. " Superando limites: a contribuição de Vygotsky para a educação especial Overcoming limits: Vygotskys contribution to special education .... ! A (in) disciplina escolar nas perspectivas de Piaget, Winnicott e Vygotsky The school (in) discipline in the Piagets, Winnicotts and Vygotskys perspectives ..................................................................... " Formação profissional em Psicopedagogia: embates e desafios Professional formation in Psychopedagogy: collisions and challenges ................................................................... "& A Psicopedagogia e as questões da interdisciplinaridade e transdisciplinaridade The Psychopedagogy and the aspects of the interdisciplinarity and transdisciplinarity ....................................................................... $ RESENHA / REVIEW Aprendizagem: tramas do conhecimento, do saber e da subjetividade Learning: plots of the acquaintance, of the knowledge and of the subjectivity ................................................................................ $' EDITORA Maria Irene Maluf SP C ONSELHO E XECUTIVO Maria Irene Maluf Quezia Bombonatto Sandra Lia Nisterhofen Santilli SP SP SP C ONSELHO E DITORIAL N ACIONAL Ana Lisete Rodrigues Anete Busin Fernandes Beatriz Scoz Cristina Dias Alessandrini Denise da Cruz Gouveia Edith Rubinstein Elcie Salzano Masini Eloisa Quadros Fagali Evelise Maria L. Portilho Gláucia Maria de Menezes Ferreira Heloisa Beatriz Alice Rubman Leda M. Codeço Barone Margarida Azevedo Dupas Maria Auxiliadora de Azevedo Rabello SP SP SP SP SP SP SP SP PR CE RJ SP SP BA Maria Célia Malta Campos SP Maria Cecília de Castro Gasparian SP Maria Lúcia de Almeida Melo SP Maria Silvia Bacila Winkeler PR Marisa Irene Siqueira Castanho SP Mônica H. Mendes SP Nádia Bossa SP Neide de Aquino Noffs SP Nívea M. de Carvalho Fabrício SP Regina Rosa dos Santos Leal Rosa M. Junqueira Scicchitano PR Sônia Maria Colli de Souza SP Vânia Carvalho Bueno de Souza SP C ONSELHO E DITORIAL I NTERNACIONAL Carmen Pastorino - Uruguai César Coll - Espanha Isabel Solé - Espanha Maria Cristina Rojas - Argentina Neva Milicic Chile - Rev. Psicopedagogia 2003; 20(1) 1 MG Associação Brasileira de Psicopedagogia Rua Teodoro Sampaio, 417 - Conj. 11 - Cep: 05405-000 São Paulo - SP - Pabx: (11) 3085-2716 - 3085-7567 www.abpp.com.br [email protected] PSICOPEDAGOGIA Órgão oficial de divulgação da Associação Brasileira de Psicopedagogia ABPp é indexada nos seguintes órgãos: Editora Responsável: Maria Irene Maluf Jornalista Responsável: Rose Batista Mtb 28.268 Revisão e Assessoria Editorial: Rosângela Monteiro Editoração Eletrônica: Sollo Comunicação Impressão: Novagráfica Tiragem: 3.000 exemplares Assinaturas: Pedidos de assinatura ou números avulsos devem ser encaminhados à sede da ABPp Nacional. O conteúdo dos artigos aqui publicados é de inteira responsabilidade de seus autores, não expressando, necessariamente, o pensamento do corpo editorial. É expressamente proibida qualquer modalidade de reprodução desta revista, seja total ou parcial, sob penas da lei. 1) LILACS - Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde - BIREME 2) Clase - Citas Latinoamericanas en Ciencias Sociales y Humanidades. Universidad Nacional Autónoma de Mexico 3) Edubase - Faculdade de Educação, UNICAMP. 4) Bibliografia Brasileira de Educação - BBE CIBEC / INEP / MEC 5) Latindex - Sistema Regional de Información en Línea para Revistas Científicas de América Latina, El Caribe, España y Portugal 6) Catálogo Coletivo Nacional Instituto Brasileiro em Ciência e Tecnologia IBICT 7) INDEX PSI Periódicos Conselho Federal de Psicologia 8) DBFCC Descrição Bibliográfica Fundação Carlos Chagas Psicopedagogia: Revista da Associação Brasileira de Psicopedagogia / Associação Brasileira de Psicopedagogia. - Vol. 10, nº 21 (1991). São Paulo: ABPp, 1991Quadrimestral ISSN 0103-8486 Continuação, a partir de 1991, Associação Brasileira de Psicopedagogia. vol. 10, nº 21 de Boletim da 1. Psicopedagogia. I. Associação Brasileira de Psicopedagogia. CDD 370.15 Rev. Psicopedagogia 2003; 20(1) 11 DIRETORIA B RASILEIRA DA DE 2005/2007 A SSOCIAÇÃO P SICOPEDAGOGIA Presidente Maria Irene Maluf Assessora Científica Patrícia Vieira Vice-Presidente Quézia Bombonatto Assessora Científica-Adjunta Rebeca Nogueira de Oliveira Secretária Administrativa Silvia Amaral de Mello Pinto Relações Públicas Edimara de Lima Secretária Administrativa-Adjunta Neusa Torres Cunha Relações Públicas-Adjunta Yara Prates Tesoureira Sandra Lia Nisterhofen Santilli C ONSELHEIRAS V ITALÍCIAS Beatriz Judith Lima Scoz Edith Rubinstein Leda Maria Codeço Barone Maria Cecília Castro Gasparian SP SP SP SP Maria Célia Malta Campos Mônica H. Mendes Neide de Aquino Noffs Nívea Maria de Carvalho Fabrício SP SP SP SP SP SP RS SP CE SP SP SP RN SP PR RJ SC MG SP Maria Angélica Moreira Rocha Maria Auxiliadora de A. Rabello Maria Cristina Natel Maria Irene de Matos Maluf Marisa Irene Siqueira Castanho Neusa Torres Cunha Patrícia Vieira Quézia Bombonatto Silva Raquel Antunes Scartezini Rosa Maria Junqueira Scicchitano Sandra Lia Nisterhofen Santilli Silvia Amaral de Mello Pinto Sonia Maria Colli de Souza Sonia Maria Pallaoro Moojen Yara Prates BA BA SP SP SP SP SP SP GO PR SP SP SP RS SP C ONSELHEIRAS E LEITAS Andréa de Castro Jorge Racy Berenice Helena de Oliveira Clara Geni Berlim Claudete Sargo Cleomar Landim de Oliveira Cristina Dias Allessandrini Cristina Vandoros Quilici Denise da Cruz Gouveia Ednalva de Azevedo Silva Eloisa Quadros Fagali Evelise Maria Labatut Portilho Heloisa Beatriz Alice Rubman Ilana Latermann Julia Eugênia Gonçalves Margarida Azevedo Dupas Rev. Psicopedagogia 2003; 20(1) 111 SUMÁRIO EDITORIAL / EDITORIAL Comprometimento Commitment Maria Irene Maluf ........................................................................................................................................................ ' ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES Avaliação das habilidades fonológicas, de leitura e escrita em indivíduos com paralisia cerebral congênita hemiparética Phonological habilities,reading and writing of individuals with hemiparetic cerebral palsy Tais de Lima Ferreira; Simone Aparecida Capellini; Sylvia Maria Ciasca .................................................................... ' Uma investigação sobre o brincar de Winnicott, no tempo e no espaço da creche: contribuições da Psicanálise para a Educação An investigation about child playing within the Winnicotts perspective, on the time-space in the kindergarten: contributions of the Psychoanalysis for the Education Vanêssa R. P. Kawagoe; Maria Cecília Sonzogno ...................................................................................................... ! ARTIGOS ESPECIAIS / SPECIAL ARTICLES A qualidade da educação no Brasil: um problema de metodologia? The quality of the education in Brazil: a problem of methodology? Rossana Aparecida Vieira Maia Angelini .................................................................................................................... ! Avanços da Psicopedagogia em Sergipe Advances of Psychopedagogy in Sergipe Auredite Cardoso Costa .............................................................................................................................................. ARTIGOS DE REVISÃO / REVIEW ARTICLES Neuropsicologia da aprendizagem Neuropsychology of learning Giovana Romero Paula, Bárbara Costa Beber, Sandra Boschi Baggio, Tiago Petry ................................................. Superando limites: a contribuição de Vygotsky para a educação especial Overcoming limits: Vygotskys contribution to special education Dóris Anita Freire Costa .............................................................................................................................................. A (in) disciplina escolar nas perspectivas de Piaget, Winnicott e Vygotsky The school (in) discipline in the Piagets, Winnicotts and Vygotskys perspectives Célia Godoy; Glaucy Abdon; Ivanil Correa Lopes; Lilian Cássia Bacich Martins; Silvia Regina Gramstrup; Wedja Oliveira Leal; Marisa Irene Siqueira Castanho ....................................................... Formação profissional em Psicopedagogia: embates e desafios Professional formation in Psychopedagogy: collisions and challenges Elcie F. Salzano Masini ................................................................................................................................................ A Psicopedagogia e as questões da interdisciplinaridade e transdisciplinaridade The Psychopedagogy and the aspects of the interdisciplinarity and transdisciplinarity Maria Cecília Castro Gasparian ................................................................................................................................... " ! " "& $ RESENHA / REVIEW Aprendizagem: tramas do conhecimento, do saber e da subjetividade Learning: plots of the acquaintance, of the knowledge and of the subjectivity ................................................... $' Rev. Psicopedagogia 2003; 20(1) 18 INGULARIDADE ESD ITORIAL COMPROMETIMENTO Ao trazer a público mais um número da revista Psicopedagogia da ABPp, objetivamos dar continuidade ao nosso compromisso com a informação de qualidade, a multidisciplinaridade e a pesquisa, por meio da publicação desta série de importantes trabalhos, que certamente cumprirão seu papel de informar, esclarecer e instigar os leitores a prosseguirem no estudo de seus temas. Três artigos aqui reunidos foram escritos a partir das conferências ministradas por suas autoras no VII Congresso Brasileiro de Psicopedagogia da ABPp, em outubro deste ano. O primeiro deles, A Psicopedagogia e as questões da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade, de Maria Cecília Castro Gasparian, nos faz refletir sobre alguns dos pontos fundamentais para a Educação contemporânea: a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade. É de Elcie F. Salzano Masini a autoria de Formação profissional em Psicopedagogia: embates e desafios, que nos traz um alerta sobre a necessidade de uma clara delimitação do objeto de estudo nesta área. O terceiro desses artigos, Avanços da Psicopedagogia em Sergipe, apresentado por Auredite Cardoso Costa, tem como objetivo analisar os avanços da Psicopedagogia nesse Estado, sua inserção social na comunidade sergipana, especialmente na área da Saúde e da Educação, no âmbito da Rede Pública, da Rede Privada e do Terceiro Setor. Dois excelentes artigos de pesquisa nos participam de estudos que em muito interessam aos psicopedagogos. Tais de Lima Ferreira, Simone Aparecida Capellini e Sylvia Maria Ciasca, abordam o tema Avaliação das habilidades fonológicas, de leitura e escrita em indivíduos com paralisia cerebral congênita hemiparética, cujo objetivo foi caracterizar e comparar o desempenho fonológico e de leitura e escrita em um grupo de indivíduos com Paralisia Cerebral. Em seguida, Vanessa R. P. Kawagoe e Maria Cecília Sonzogno nos trazem, em Uma investigação sobre o brincar de Winnicott, no tempo e no espaço da creche: contribuições da Psicanálise para a Educação, uma investigação sobre o quanto a instituição creche compreende o brincar de uma criança pequena, no seu tempo e espaço, segundo a visão teórica proposta por Winnicott. Superando limites:a contribuição de Vygotsky para a educação especial, de Dóris Anita Freire Costa, traz a contribuição da obra de Vygotsky para o trabalho com sujeitos com necessidades educativas especiais. Em continuação, temos o artigo A (In) disciplina escolar nas perspectivas de Piaget, Winnicott e Vygotsky, de autoria de Célia Godoy, Glaucy Abdon, Ivanil Correa Lopes,Lilian Cássia Bacich Martins, Marisa Irene Siqueira,Silvia Regina Gramstrup e Wedja Oliveira Leal, aborda a indisciplina escolar como um tema de reflexão imprescindível aos professores, aos pais e a todos que de alguma forma estejam envolvidos com o desenvolvimento da criança, com base nas teorias de Piaget, Winnicott e Vygotsky. Neuropsicologia da aprendizagem, de Bárbara C. Beber, Giovana R. Paula, Sandra B. Baggio e Tiago Petry, nos ajuda a compreender o funcionamento intelectual da criança, o seu processo de aprendizagem, assim como seus transtornos e pode contribuir para a efetivação de uma intervenção mais eficiente. Publicamos, ainda nesta edição, o trabalho de Rossana Maia Angelini, A qualidade da educação no Brasil: um problema de metodologia?, outra instigante reflexão, que nos coloca frente a algumas questões sobre a Educação no atual contexto educacional, sociopolítico, histórico e econômico, quando impera a globalização no cenário mundial. Agradecendo a todos aqueles que contribuíram como autores do livro Aprendizagem:tramas do conhecimento,do saber e da subjetividade, publicamos nesta edição sua resenha, onde poderão ser lidos os resumos dos artigos escritos por mais esses notáveis conferencistas do VII Congresso Brasileiro de Psicopedagogia. Para encerrar, homenageamos a todos os autores que ao longo das setenta e duas edições contribuíram para o crescimento desta publicação, assim como às editoras que nos precederam e aos membros dos diversos Conselhos Editoriais, pois, sem a sua dedicação, não poderíamos ter a honra de lançar hoje o CD comemorativo dos 25 anos da revista da Associação Brasileira de Psicopedagogia-ABPp. Que a leitura desta, acompanhe os próximos dias de Festas, de merecido descanso e nos prepare para mais um ano de trabalho e de luta em prol desta profissão que amamos, na qual acreditamos e estamos vitalmente comprometidos. Maria Irene Maluf Editora Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 191 ' FERREIRA TL ET AL. ARTIGO ORIGINAL AVALIAÇÃO DAS HABILIDADES FONOLÓGICAS, DE LEITURA E ESCRITA EM INDIVÍDUOS COM PARALISIA CEREBRAL CONGÊNITA HEMIPARÉTICA Tais de Lima Ferreira; Simone Aparecida Capellini; Sylvia Maria Ciasca RESUMO O presente estudo teve por objetivos caracterizar e comparar o desempenho fonológico e de leitura e escrita em indivíduos com Paralisia Cerebral Hemiparética à direita e à esquerda (PC-H). Participaram deste estudo 16 indivíduos com PC-H, com idade entre 7 e 13 anos, que freqüentam ensino fundamental regular público. Os indivíduos foram divididos em dois grupos: GSd (grupo de indivíduos com PC-H à direita) e GSe (grupo de indivíduos com PC-H à esquerda). Os resultados demonstraram que os sujeitos avaliados apresentam alterações de leitura e escrita de base fonológica, apesar dos indivíduos do GSe apresentarem melhor desempenho nos resultados do que os indivíduos do GSd no que se refere à emissão e à recepção da linguagem escrita. UNITERMOS: Aprendizagem. Paralisia cerebral. Transtornos de aprendizagem. Tais de Lima Ferreira - Fonoaudióloga do Laboratório de Distúrbios e Dificuldades de Aprendizagem e Transtornos da Atenção DISAPRE UNICAMP. Membro do grupo de pesquisa CNPq: Neurodesenvolvimento, Aprendizagem e Escolaridade. Aluna especial do programa de Pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas FCM UNICAMP. Simone Aparecida Capellini - Fonoaudióloga do DISAPRE UNICAMP. Membro do grupo de pesquisa CNPq: Neurodesenvolvimento, Aprendizagem e Escolaridade. Doutora em Ciências Médicas - Faculdade de Ciências Médicas FCM UNICAMP. Docente do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Ciências UNESP. Sylvia Maria Ciasca - Professora Livre Docente da Disciplina de Neurologia Infantil do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas FCM UNICAMP. Coordenadora do DISAPRE UNICAMP. Coordenadora do grupo de pesquisa CNPq: Neurodesenvolvimento, Aprendizagem e Escolaridade. Correspondência Sylvia Maria Ciasca Praça XV de Novembro, 40 apto.41 Cambuí Campinas SP - 13024-180 E-mail: [email protected] Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 192-202 ' LINGUAGEM ORAL E ESCRITA X PARALISIA CEREBRAL CONGÊNITA HEMIPARÉTICA INTRODUÇÃO A Paralisia Cerebral (PC) é uma desordem do movimento e da postura, persistente, porém não fixa, que ocorre nos primeiros anos de vida pela interferência do desenvolvimento do Sistema Nervoso Central (SNC), causada por uma desordem cerebral não progressiva1. Esta doença possui uma prevalência de 2 a 2,5% a cada 1.000 nascimentos e pode ocorrer devido a fatores pré, peri ou pós-natais2. Entre as causas pré-natais encontram-se as infecções intra-uterinas, mal formações cerebrais, anomalias genéticas e teratógenos3. Os fatores peri-natais são prematuridade, encefalopatia hipóxico-isquêmica, infecções do SNC, distúrbios metabólicos transitórios e hemorragias intracranianas. Entre os fatores pós-natais destacam-se as infecções, o traumatismo cranioencefálico, a desidratação grave e a parada cardiorrespiratória. Piovesana et al.4 realizaram estudo com 175 crianças com paralisia cerebral hemiparética (PCH) congênita e verificaram etiologia pré-natal para hemiparesia em 23% dos casos, peri-natal, em 18% e indeterminada, em 41%, porque os sujeitos apresentaram fatores de risco nos dois momentos (pré e peri-natais). Os casos de hemiplegia encontram-se em torno de 30% dos casos de PC, com predomínio de hemiplegias à direita e com maior freqüência no sexo masculino, segundo a revisão de diversos estudos4,5. Levine et al.6, Goodman & Yude7 referiram que estudos neuropsicológicos, neurológicos e fonoaudiológicos com indivíduos com PC-H têm sido realizados ao longo dos anos e evidenciado a presença de diferenças entre o desempenho do quociente intelectual (QI) verbal e de execução quando comparados com sujeitos controles normais. Lennenberg8 refere que o fato de não ocorrerem diferenças no QI verbal nos hemiparéticos à esquerda ou à direita é atribuído à hipótese de equipotencialidade, considerando a existência de uma capacidade de preservação das funções lingüísticas frente a uma lesão temporal unilateral. Esta hipótese deriva do efeito crowding9, segundo o qual os sujeitos com lesão no hemisfério esquerdo preservam a linguagem utilizando o hemisfério contralateral. A respeito da linguagem, estudos têm indicado que crianças e adolescentes com PC apresentam alteração em pelo menos um aspecto da linguagem, como a fonologia e sintaxe e preservação da semântica e da pragmática. Um estudo realizado com crianças prematuras de 5 anos, com e sem PC, observou que as crianças prematuras e com PC apresentaram menores pontuações nos subtestes de completar frases e de gramática do Teste Illinois de Habilidades Psicolingüísticas10. Sandeberg & Hjelmquist 11 analisaram a relação entre fala e leitura em crianças com PC com presença ou não de transtornos de fala. Os autores verificaram que as crianças com PC e transtornos de fala apresentaram um rendimento significativamente inferior aos sujeitos com PC sem transtornos de fala nas atividades de subtração fonêmica. Quanto à leitura, os autores verificaram os sujeitos com PC e transtornos de fala apresentaram alteração na leitura referente à discriminação de palavras reais e inventadas. De acordo com Frampton et al.12, sujeitos com hemiparesia à direita apresentam desempenho inferior aos sujeitos hemiparéticos à esquerda em tarefas de compreensão oral, porém, estudos revelaram que 35,6% dos sujeitos com PC-H à direita ou à esquerda apresentam déficit em pelo menos um dos aspectos da aprendizagem (leitura, escrita ou aritmética). As alterações de fala congênita interferem no processamento fonológico, resultando em dificuldades na aquisição do código oral e leitura13. Pesquisas sugerem que as dificuldades com a linguagem escrita em portadores de distúrbios de fala podem ser conseqüências de um déficit anterior em consciência fonológica14,15, porém, por outro lado, o desenvolvimento da consciência fonológica parece ser relativamente independente da fala, pois o trabalho de Brady et al.16 mostrou que sujeitos disártricos podem desempenhar muito bem tarefas de análise e manipulação de informação fonológica. Cerca de 70% dos indivíduos com paralisia cerebral apresentam alteração no desenvol- Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 192-202 '! FERREIRA TL ET AL. vimento da linguagem oral. Freqüentemente se observa um emprego mais limitado quanto às funções lingüísticas, na freqüência de uso e nas interações com um menor número de interlocutores17,18. Possivelmente, por esses indivíduos terem menores oportunidades para utilizá-lo, e em uma variedade mais reduzida de situações19,20. A ocorrência de limitações no processamento fonológico ou lingüístico pode desencadear problemas de leitura e escrita. As possibilidades de manifestações deste processo podem causar: alteração no desenvolvimento do processo de leitura e escrita; alteração na segmentação fonêmica; dificuldade na elaboração de especificações fonológicas na memória a curto prazo, durante o processo de aquisição lexical (vocabulário); alteração na discriminação e diferenciação entre palavras e sentenças e déficits de memória fonológica a curto prazo14. Estudo realizado por Kiessling et al.21 analisou diferentes aspectos lingüísticos, dentre eles a capacidade de nomeação seriada rápida de dígitos em sujeitos com PC-H à direita e à esquerda. Os resultados demonstraram que os sujeitos hemiparéticos apresentaram desempenho de nomeação inferior, quando comparado ao grupo controle normal, e que os hemiparéticos à direita apresentaram melhor desempenho que os hemiparéticos à esquerda e que a dificuldade de recodificação fonológica dos hemiparéticos à direita está relacionada a maior dificuldade no planejamento e execução da ação motora22. Crianças com distúrbio de aprendizagem por comprometimento anterior no desenvolvimento da linguagem apresentam a relação desenvolvimento / aprendizagem comprometida desde os primeiros anos de vida. Como a criança com PC apresenta, geralmente, em seu histórico, atraso no desenvolvimento da fala e linguagem, comumente, o distúrbio de aprendizagem está presente, secundário ao quadro de paralisia cerebral23. Os objetivos deste estudo foram caracterizar e comparar o desempenho fonológico e de leitura e escrita nos indivíduos com paralisia cerebral hemiparética à direita e à esquerda. MÉTODO Sujeitos Participaram deste estudo 16 sujeitos com Paralisia Cerebral Hemiparética, com idade entre 7 e 13 anos e grau de escolaridade entre 1ª e 6ª série. Os sujeitos foram divididos em dois grupos: I - Grupo Sd (GSd): composto por 8 sujeitos com PC-H à direita, sendo 4 do sexo feminino, 4 do sexo masculino, com faixa etária variando entre 7 e 13 anos, com grau de escolaridade entre 1ª e 7ª série do Ensino Público Fundamental e Médio. II - Grupo Se (GSe): composto por 8 sujeitos com PC-H à esquerda, sendo 3 do sexo masculino e 5 do sexo feminino, com faixa etária variando entre 8 e 12 anos, com grau de escolaridade entre 1ª e 6ª série do Ensino Público Fundamental e Médio. Foram critérios de inclusão no estudo: Paralisia Cerebral Hemiparética Congênita; Idade cronológica entre 7 e 13 anos; Nível mental médio avaliado pela Escala Wechsler de Inteligência para Crianças (WISC)24; Ausência de alterações auditivas e oftalmológicas. Procedimento Termo de Consentimento: após a assinatura do termo de consentimento pelos responsáveis, as crianças hemiparéticas foram submetidas à avaliação proposta neste estudo (Parecer do Comitê de Ética nº 306/2001). A) Realização de entrevista com os pais: Os pais das crianças previamente selecionadas foram submetidos à entrevista, com o objetivo de levantar dados referentes ao desenvolvimento neuropsicomotor, fala e linguagem, podendo, assim, propiciar melhor caracterização dos sujeitos. B) Avaliação Fonológica: Esta etapa foi realizada por meio de provas normalizadas na população brasileira, com o objetivo de verificar o desempenho fonológico na oralidade e na leitura e escrita dos sujeitos. Tal avaliação constou dos seguintes testes: Avaliação Fonológica da Criança (AFC) 25, Prova de Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 192-202 '" LINGUAGEM ORAL E ESCRITA X PARALISIA CEREBRAL CONGÊNITA HEMIPARÉTICA Consciência Fonológica (PCF)26, Prova de Leitura Oral e Escrita sob Ditado27. C) Provas Complementares: Prova de Nível de Leitura28, Prova de Velocidade de Leitura Silenciosa29, Teste de Desempenho Escolar30, Prova de Velocidade de Nomeação Seriada Rápida31,32. D) Análise dos dados: Foi realizada análise estatística por meio do Teste Exato de MannWhitney 33 e Teste de Fisher 34 , além da comparação entre grupos dos dados obtidos nos testes e comparados com os resultados da padronização dos testes. RESULTADOS Em situação de entrevista com os pais, os mesmos refiram que 7 dos sujeitos avaliados (3 PC-H à direita e 4 PC-H à esquerda) não apresentaram alteração no desenvolvimento da linguagem e 4 sujeitos com Paralisia Cerebral Hemiparética à esquerda apresentaram atraso em todas as etapas do desenvolvimento motor (3 PCH à direita e 1 PC-H à esquerda). O dado referente ao nível de leitura evidenciounos que os sujeitos de ambos os grupos apresentaram o mesmo desempenho, não havendo diferença estatística significante (p=1,0000). Na prova de velocidade de leitura silenciosa, verificou-se que os sujeitos dos dois grupos apresentaram desempenho inferior ao esperado para idade cronológica e nível de escolaridade. Observou-se que os sujeitos do grupo GSd apresentaram menor velocidade de leitura, quando comparados com os sujeitos do grupo GSe. Não houve diferença estatisticamente significante entre os dois grupos (p>0,05). A Tabela 1 demonstra o desempenho dos sujeitos hemiparéticos na Prova de Consciência Tabela 1 - Desempenho dos indivíduos com paralisia cerebral à direita e à esquerda na prova de consciência fonológica (PCF). Síntese Silábica Síntese Fonêmica Rima Aliteração Segmentação Silábica Segmentação Fonêmica Manipulação Silábica Manipulação Fonêmica Transposição Silábica Transposição Fonêmica Escore Total Grupo GSd GSe GSd GSe GSd GSe GSd GSe GSd GSe GSd GSe GSd GSe GSd GSe GSd GSe GSd GSe GSd GSe Média 4.00 3.13 3.13 2.25 2.75 2.00 2.88 2.38 3.75 2.75 2.38 1.75 3.63 3.13 2.38 1.25 3.13 1.88 2.00 0.50 30.13 20.88 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 192-202 '# p 0.0769 0.0769 0.1539 0.1539 0.2858 0.2858 0.5399 0.5399 0.1515 0.1515 0.4379 0.4379 0.4365 0.4365 0.0656 0.0656 0.1683 0.1683 0.0317 0.0317 0.0632 0.0632 DP 0.00 1.13 0.99 1.16 1.04 1.31 1.46 1.51 0.46 1.39 1.60 1.49 0.52 0.99 1.41 1.16 0.99 1.73 1.41 0.76 5.79 9.76 FERREIRA TL ET AL. Fonológica (PCF). Observamos piores desempenho de todos os sujeitos nas provas fonêmicas do que nas silábicas. Os dados apresentaram diferença estatística somente no subteste de transposição fonêmica, o qual foi mais bem desempenhado pelos sujeitos do grupo GSd (p=0,0317). O resultado nos permitiu verificar tendência ao melhor desempenho total na prova dos sujeitos do grupo GSd (0,05 < p<0,10). Quanto à prova de escrita sob ditado de palavras reais e inventadas (Tabela 2), verificamos que os sujeitos de ambos os grupos apresentaram melhor desempenho qualitativo em escrita sob ditado de palavras reais e inventadas de alta freqüência comparado ao desempenho em leitura oral destas palavras. Na escrita sob ditado, os sujeitos dos dois grupos apresentaram maior ocorrência de regularizações do que de neologismos (substituição surda-sonora). A análise estatística apresentou diferenças significantes (p=0,0291) entre os dois grupos somente na escrita de palavras inventadas de baixa freqüência, sendo que o grupo GSd apresentou maior quantidade de erros e, portanto, desempenho inferior ao GSe. No que se refere aos resultados verificados na prova de leitura oral de palavras reais e inventadas, observamos que o grupo GSd apresentou desempenho inferior quanto às palavras inventadas de alta e baixa freqüência do que os sujeitos do grupo GSe, revelando a dificuldade quanto ao uso da rota fonológica para o processamento da leitura e escrita. Na leitura oral, os sujeitos do grupo GSd apresentaram maior quantidade de regularizações das palavras reais inventadas do que o grupo GSe. Nesta prova, verificou-se diferença estatisticamente significante (p>0,05) Tabela 3. No Teste de Desempenho Escolar (TDE), os dados nos indicaram desempenho inferior ao esperado pelos sujeitos dos dois grupos no subteste de aritmética (Tabela 4). Não foi possível observar diferença estatística entre os dois grupos avaliados. A avaliação da velocidade de acesso lexical ou da nomeação seriada rápida demonstrou ausência de diferenças estatísticas entre os dois grupos (GSd e GSe), porém a análise permitiunos observar tendência (0,05 < p<0,10) dos sujeitos do grupo GSd a serem mais eficazes no acesso lexical de cores, letras e números (Tabela 5). Os resultados obtidos dos sujeitos com hemiparesia à direita ou à esquerda encontram-se em nível inferior quando comparado com escolares sem dificuldades de aprendizagem, ficando clara a relação intrínseca com o desempenho da leitura e escrita, pois a velocidade de acesso ao léxico está diretamente relacionada com a habilidade do processamento fonológico, como também de processos perceptivo-visuais e de processos mnemônicos. DISCUSSÃO Correlacionando os achados deste estudo, observamos que, quando os sujeitos com Paralisia Cerebral Hemiparética à direita e à esquerda são submetidos à avaliação fonológica envolvendo as modalidades orais e escrita, ocorre alteração no processamento fonológico evidenciada por distúrbio fonológico, presente na oralidade, caracterizado por substituição surda-sonora e transposição da oralidade na escrita. Os resultados da Prova de Consciência Fonológica (PCF) não corroboram com o estudo realizado por Blischak 35 e Sandberg & Hjelmquist11, os quais sugeriram que as crianças com distúrbios motores e de fala podem desenvolver consciência fonológica em níveis avançados, chegando a ter desempenhos em tarefas de consciência fonológica semelhantes aos de crianças sem tais distúrbios, pois neste estudo evidenciamos prejuízos quanto à habilidade fonológica que não foram superados, comprometendo seu uso em atividades de emissão oral e escrita. Mesmo na ocorrência de erros de escrita sob ditado ou de leitura oral, porém sem diferenças estatisticamente significantes, os dados corroboram com os estudos de Rack & Snowling36, nos quais as palavras regulares de baixa freqüência funcionam como não palavras, mas pessoas com boas habilidades fonológicas conseguem lê-las Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 192-202 '$ LINGUAGEM ORAL E ESCRITA X PARALISIA CEREBRAL CONGÊNITA HEMIPARÉTICA Tabela 2 - Desempenho dos sujeitos hemiparéticos à direita e à esquerda na prova de escrita sob ditado. REGULARIZAÇÕES NEOLOGISMOS N p DP N p DP GSd 2 0.1923 33.33 2 1.0000 28.57 GSe 0 0.1923 0.00 3 1.0000 42.86 PRRBF GSd 0 1.0000 0.00 1 1.0000 14.29 Gse 0 1.0000 0.00 2 1.0000 28.57 PRIrAF GSd 2 0.1923 33.33 0 1.0000 0.00 Gse 0 0.1923 0.00 0 1.0000 0.00 PRIrBF GSd 2 0.5594 33.33 0 1.000 0.00 Gse 1 0.5594 14.29 0 1.000 0.00 PRRgAF GSd 0 1.0000 0.00 2 1.0000 28.57 Gse 0 1.0000 0.00 3 1.0000 42.86 PRRgBF GSd 4 0.5594 0.00 5 0.2861 71.43 GSe 6 0.5594 0.00 2 0.2861 28.57 PIRRAF GSd 4 0.1923 33.33 2 1.0000 28.57 GSe 7 0.1923 0.00 2 1.0000 28.57 PIRRBF GSd 0 1.0000 0.00 1 0.5594 14.29 Gse 0 1.0000 0.00 3 0.5594 42.86 PIIrAF GSd 3 0.5921 50.00 3 1.0000 42.86 Gse 2 0.5921 28.57 4 1.0000 57.14 PIIrBF GSd 5 0.1026 83.33 0 1.000 0.00 GSe 2 0.1026 28.57 0 1.000 0.00 PIRgAF GSd 3 0.0699 50.00 0 0.4615 0.00 GSe 0 0.0699 0.00 2 0.4615 28.57 GSd 5 0.0291 83.33 0 1.0000 0.00 GSe 1 0.0662 14.29 0 1.0000 0.00 PRRAF PIRgBF corretamente. Os mesmos tipos de erros na leitura não ocorrem com as palavras irregulares de baixa freqüência, ou seja, é menor a probabilidade de que elas sejam lidas erroneamente por uma pessoa com boas habilidades fonológicas, conforme o sugerido por Snowling37, que acredita que a dificuldade na conversão grafema-fonema pode ser expressão de um déficit verbal de caráter mais geral. Para esta autora, a tradução letra-som é uma tarefa bastante complexa, formada por vários componentes, como, por exemplo, a segmentação fonêmica, o uso de rótulos verbais, a consciência ortográfica e, talvez, a memória verbal. A resolução do cálculo matemático está muito relacionada com a emissão e compreensão da linguagem. Por este motivo, indivíduos com problemas de linguagem, como os mencionados neste estudo, apresentaram dificuldades para relacionar noções básicas de números com as situações vivenciadas no cotidiano. A ocorrência de alterações fonológicas na oralidade nos sujeitos hemiparéticos à direita e à esquerda vai de encontro com os achados do Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 192-202 '% FERREIRA TL ET AL. Tabela 3 - Desempenho dos sujeitos hemiparéticos à direita e à esquerda na prova de leitura oral. REGULARIZAÇÕES NEOLOGISMOS N p DP N p DP GSd 7 1.0000 100.00 1 1.0000 14.29 GSe 7 1.0000 100.00 1 1.0000 14.29 PRRBF GSd 7 1.0000 100.00 0 1.0000 0.00 Gse 7 1.0000 100.00 2 1.0000 28.57 PRIrAF GSd 1 1.0000 14.29 0 1.0000 0.00 Gse 1 1.0000 14.29 1 1.0000 14.29 PRIrBF GSd 0 1.0000 0.00 0 1.0000 0.00 Gse 1 1.0000 14.29 2 1.0000 28.57 PRRgAF GSd 6 1.0000 85.71 5 1.0000 71.43 Gse 1 1.0000 14.29 4 1.0000 57.14 PRRgBF GSd 0 1.0000 0.00 5 1.0000 28.57 Gse 1 1.0000 14.29 7 1.0000 71.43 PIRRAF GSd 6 1.0000 85.71 5 1.0000 71.43 GSe 6 1.0000 85.71 5 1.0000 71.43 PIRRBF GSd 1 1.0000 14.29 6 1.0000 85.71 Gse 2 1.0000 28.57 4 1.0000 57.14 PIIrAF GSd 1 1.0000 14.29 4 1.0000 57.14 GSe 2 1.0000 28.57 3 1.0000 42.86 PIIrBF GSd 0 1.0000 0.00 4 1.0000 57.14 GSe 2 1.0000 28.57 1 1.0000 14.29 PIRgAF GSd 2 1.0000 28.57 0 1.0000 0.00 GSe 2 1.0000 28.57 2 1.0000 28.57 GSd 2 1.0000 28.57 3 1.0000 42.86 GSe 0 1.0000 0.00 5 1.0000 71.43 PRRAF PIRgBF Tabela 4 - Desempenho dos sujeitos dos grupos GSd e GSe no teste de desempenho escolar. ES CRITA ARITMÉTICA LEITURA TOTAL Média p DP GSd 20.38 0.9378 5.66 GSe 20.38 0.9378 12.26 GSd 13.13 0.8998 9.05 GSe 13.38 0.8998 7.74 GSd 58.63 0.7375 10.00 GSe 56.63 0.7375 23.21 GSd 92.13 0.6454 22.45 GSe 90.38 0.6454 39.99 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 192-202 '& LINGUAGEM ORAL E ESCRITA X PARALISIA CEREBRAL CONGÊNITA HEMIPARÉTICA Tabela 5 - Desempenho dos sujeitos do grupo GSd e GSe na prova de nomeação automática rápida (RAN). CORES (/ segundos) LETRAS (/ segundos) NÚMEROS (/ segundos) OBJETOS (/ segundos) Média p DP GSd 60.68 0.6250 16.03 GSe 57.93 0.6250 14.15 Gsd 43.10 0.7786 26.32 GSe 43.63 0.7786 31.14 GSd 36.72 0.7984 10.80 GSe 34.55 0.7984 6.90 GSd 63.77 0.4418 22.63 GSe 70.81 0.4418 18.59 estudo de Yavas et al.25, que relataram que a maioria das crianças com significativas desordens de comunicação tem pelo menos alguma dificuldade em nível fonológico da linguagem e esta dificuldade acarretará dificuldade na aprendizagem escolar. Os problemas de aprendizagem relacionados com o desenvolvimento da linguagem oral e suas conseqüências verificadas neste estudo corroboraram com o estudo de Mark et al.38, Gerber 39 e com as hipóteses sugeridas por Rumelhart40, os quais referiram que o desenvolvimento da leitura e da escrita é baseado numa interação complexa de desenvolvimento cognitivo e experiências que funcionam paralelamente e não seqüencialmente, propiciando o contato ou envolvimento com processos fonológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos; indivíduos com alteração no processamento fonológico e/ou habilidades de decodificação fonológica fazem uso de estratégias visuais para compensar tal déficit; estes indivíduos apresentam dificuldade de percepção de unidades lingüísticas. CONCLUSÃO A partir dos dados estatísticos deste estudo, pôde-se concluir que a presença do transtorno fonológico prejudicou o desempenho dos sujeitos hemiparéticos nas avaliações, provas e testes aplicados. No que se referem às habilidades fonológicas da linguagem escrita, todos os sujeitos avaliados apresentaram alterações, mas os sujeitos do grupo GSe apresentaram desempenho inferior aos sujeitos do grupo GSd, quando realizada a comparação intergrupal. Entretanto, apesar de, em todos os momentos, serem realizadas comparações entre os grupos de sujeitos, verificamos que o desempenho dos grupos variou, ocorrendo por muitas vezes desempenhos melhores ou piores em determinadas avaliações, provas ou testes, porém ressaltamos que apesar deste fato ter ocorrido, o desempenho fonológico de todos os sujeitos foi abaixo do esperado para idade e escolaridade, tanto em linguagem oral como escrita, evidenciando a necessidade de continuidade de estudos que verifiquem o acesso ao léxico e a habilidade fonológica destes sujeitos. Os achados deste estudo possibilitaram-nos concluir que os sujeitos apresentam alterações de leitura e escrita de base fonológica, apontando para influência da linguagem oral sobre a escrita, pois quando há alterações de linguagem oral, a percepção da estrutura fonológica e sintática da língua, geralmente, encontra-se alterada, como foi possível verificar neste estudo. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 192-202 '' FERREIRA TL ET AL. SUMMARY Phonological habilities,reading and writing of individuals with hemiparetic cerebral palsy The objective of the present study is to characterize and compare the phonological performance, in subjects with Hemiparetic Cerebral Palsy and its correlation with learning and writing abilities. Sixteen children, between 7 and 13 years old, with Hemiparetic Cerebral Palsy, all of them going to elementary public schools, participated in this study. The individuals were divided into two groups: GSd (group of individuals with right hemiparetic cerebral palsy) and GSe (group of individuals with left hemiparetic cerebral palsy). All the subjects showed learning disabilities because of their language developmental retard and its relation with phonological, writing and reading disorders, besides disorders in the phonological codification, that causes disturbs in the use and representation of phonetics in the working memory. We concluded that the GSe group showed better results than the GSd group concerning to the emission and reception of written language. KEY WORDS: Learning. Cerebral palsy. Learning disorders. 5. Rosen MG, Dickinson JC. The incidence of cerebral palsy. Am J Obstet Gynecol. 1992;167(2):417-23. 6. Levine SC, Huttenlocher P, Banich MT, Duda E. Factors affecting cognitive functioning of hemiplegic children. Dev Med Child Neurol. 1987;29(1):27-35. 7. Goodman R, Yude C. IQ and its predictors in childhood hemiplegia. 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Realizamos um estudo de caso de uma menina de três anos de idade, de maternal II, ouvindo o depoimento materno para obtenção dos dados sobre núcleo familiar, gestação e desenvolvimento. O método de observação Esther Bick adaptado foi utilizado para a colheita de dados, durante a atividade livre. Foram realizadas 37 observações. Registramos condutas da criança, seu relacionamento com adultos, outras crianças e objetos. Os resultados obtidos a partir da leitura dos relatos de observação foram recortados em episódios relativos ao brincar. Foram identificados 119 episódios interpretados segundo as categorias: ansiedade de separação, função de holding e relacionamento entre pares e adultos. Nossas conclusões indicam que a criança demonstrou dificuldades em separar-se da mãe para freqüentar a creche. Condutas da professora e a própria estrutura da creche indicam a necessidade de um maior conhecimento das questões que envolvem o brincar. O brincar de uma criança pequena constitui a expressão de seu mundo interno, tal como suas ansiedades, emoções, desejos e recursos. Assim, os profissionais, ao aprofundarem-se sobre o brincar, poderiam oferecer uma melhor qualidade de atendimento aos pequenos. UNITERMOS: Educação infantil. Jogos e brinquedos. Psicanálise. Vanêssa R. P. Kawagoe Mestre em Educação pela Universidade de Franca e docente no ensino superior. Psicóloga Clínica Prefeitura Municipal de Mococa. Maria Cecília Sonzogno Docente do Centro de Desenvolvimento do Ensino Superior em Saúde CEDESS/Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina Psicopedagoga clínica. Correspondência Maria Cecília Sonzogno Rua Áurea, 25 apto. 101 São Paulo SP 04015-070 Tel: (11) 5579-6612 E-mail: [email protected] Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 ! KAWAGOE VRP ET AL. INTRODUÇÃO O presente estudo buscou uma aproximação entre a Psicanálise e a Educação infantil, investigando quanto a instituição creche compreende o brincar de uma criança pequena, inserida no seu tempo e espaço, segundo a perspectiva teórica de Winnicott. Sentimos existir, no meio acadêmico, uma resistência em usar a Psicanálise para enfrentar a problemática da educação infantil. Contudo, além de ter sido a Psicanálise a primeira a estudar o inconsciente humano, o olhar clínico pode trazer ampliações das competências de um professor de educação infantil. A escolha do psicanalista Winnicott não foi ao acaso, pois o autor consegue viabilizar a nossa aproximação do objeto pesquisado, de maneira que a significação do problema seja pautada a partir do pessoal. Preocupa-nos o número de crianças encaminhadas para atendimento terapêutico, que freqüentam a educação infantil, e a dificuldade do professor em olhar as questões emocionais das crianças diante da atividade livre. A dificuldade emocional na creche deveria impulsionar o professor e as pessoas envolvidas na instituição a desvendarem os mistérios do brincar. A educação fornece as bases para uma boa apreensão do real e do social que envolve o brincar, assim como os conhecimentos que nos permitem manejar melhor o mundo, podendo tornar-se ainda mais enriquecedora, com a introdução de um olhar psicanalítico que permeia o brincar. Segundo Winnicott1, brincar está além da diversão, do entretenimento: a característica do brincar é o prazer, mas esta atividade só dará prazer se for significada. A significação do brinquedo depende do uso de símbolos e, nessa visão, o entendimento sobre o brincar não deve focalizar apenas o brinquedo em si, o objeto ou a atividade realizada pela criança e sim, a representatividade da atividade e da brincadeira. Na perspectiva de Winnicott, o brincar possibilita à criança quebrar barreiras da realidade, viver uma experiência, é uma forma de viver, transitando entre o subjetivo e o objetivo. Essa mesma experiência vai ser adjetivada, ou seja, tem qualidade. O autor também chama atenção para o lugar em que a experiência criativa ocorre. Winnicott nomeia esse lugar de espaço potencial, terceira área da experiência ou zona intermediária. O brincar se situa, como espaço potencial, inicialmente na relação mãe-bebê e, depois, este mesmo espaço é transposto para outras situações. Para o autor1 (...) é a brincadeira que é universal e que é própria da saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma comunicação na psicoterapia; e a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. Neste trabalho, acima de tudo, ficam definidos os seguintes objetivos: Observar e registrar o brincar individual e grupal da criança, durante a atividade livre, em sala de aula de Maternal II, com a presença da professora, auxiliar e demais crianças; Compreender e analisar as situações do brincar relacionando-as com a prática pedagógica. MÉTODO Tipo de estudo Optamos por realizar um estudo de caso de uma criança de três anos de idade, que será identificada por (D.) de uma classe de Maternal II, ouvindo o depoimento materno para obtenção dos dados sobre o núcleo familiar, gestação e desenvolvimento da criança. O método de observação Esther Bick2 adaptado foi utilizado para a colheita de dados, no contexto da creche. Método Esther Bick de observação A metodologia da observação Esther Bick implica na observação da relação mãe-bebê na família, durante um período de dois anos, semanalmente. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 " UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O BRINCAR DE WINNICOTT A supervisão semanal, realizada no grupo de observadores (em torno de 6 a 8 observadores), tem como objetivo principal ouvir e discutir, em rodízio, o relato de um dos membros do grupo, proporcionando clareza de linguagem, fidedignidade da observação e a compreensão do que se passou nessa relação mãe-bebê. O método Esther Bick difere de outros métodos de observação, na medida em que se preocupa com os detalhes da relação mãe-bebê mais do que o comportamento individual do bebê2-4. Bick2 estabeleceu um lugar para o observador de modo que sua presença não cause grandes interferências na família. Ao mesmo tempo, ele se coloca dentro do campo emocional da família e, especificamente, na relação mãe-bebê, sem, entretanto, se sentir obrigado a desempenhar papéis, tais como: aconselhar, aprovar, desaprovar ou intervir de modo a mudar os comportamentos a serem observados. A partir do relato é possível ter uma visão analítica aplicada ao contexto no qual o fenômeno ocorreu. Coleta de dados Foram realizadas 37 observações, de uma hora de duração, ao longo dos meses de março a junho de 2002. Na observação, estávamos atentas às condutas da criança e seus relacionamentos com adultos, outras crianças e objetos. Todas as observações foram supervisionadas. Análise de dados Procedeu-se à leitura dos 37 relatos de observação dos quais foram recortados episódios relativos ao brincar. Foram identificados 119 episódios segundo as categorias de ansiedade de separação, função de holding e relacionamento entre pares e adultos. Definindo as categorias utilizadas Ansiedade de separação: buscando condições para a independência do bebê, a mãe promoverá uma desadaptação na relação mãe-bebê que, num primeiro momento, é intensa, desenvolvendo no bebê a capacidade de tolerar sua ausência, gradativamente. Função de holding: implica no ato físico de conter, dar suporte e no ato mental de entender as necessidades do bebê e atendê-las adequadamente. Relacionamento entre pares e adultos: abordagem do outro (aproximação/verbalização), seja num clima amistoso, questionador ou agressivo. RESULTADOS No caminho da Psicanálise à Educação, não fizemos apenas uma análise individual de D., mas consideramos o ambiente em que ocorreram as observações. No decorrer das 37 observações realizadas, a qualidade do brincar da criança pode ser visualizada como indicador de seu desenvolvimento emocional. Chamamos de qualidade ao emprego de uma rica percepção criativa da criança. Winnicott1 define a criatividade como um colorido de toda a atividade com a realidade externa. D. faz uso do espaço potencial ao brincar, demonstrando um caminhar para o jogo compartilhado e para as experiências culturais. Os episódios de brincar demonstram não só aspectos individuais de D., mas, sobretudo, dados relevantes ao contexto da creche e da prática pedagógica. Nos momentos de atividade dirigida, a professora mostrou-se presente, atendendo às solicitações da criança, apresentando um relacionamento afetivo. No entanto, verificamos que, nas atividades programadas, as crianças não tinham espaço de brincar e de criar em função das atividades serem muito dirigidas. A atividade livre ocorre no início da manhã, num momento em que a professora e a auxiliar recebem as crianças e respectivas mães, permitindo que as crianças se movimentem e brinquem mais livremente. Por outro lado, na hora da atividade livre, a professora e auxiliar não interagem com as crianças, nem quando solicitadas a fazerem às parte do espaço potencial; atendem neste Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 # KAWAGOE VRP ET AL. momento às mães e realizam atividades profissionais individuais, deixando as crianças atuarem livremente. D., no brincar, demonstra uma preocupação com a brincadeira, não considerando muito o material disponível; podemos ver que as coisas simples como um pedaço de papel e uma caneta transformam-se em objetos lúdicos. A Tabela 1 apresenta os episódios de brincar; os dois primeiros algarismos se referem ao relato de observação, portanto, compreendem os números 01 a 37; os dois algarismos seguintes, após o ponto, se referem aos episódios identificados em cada relato de observação, independentemente de terem sido classificados em uma ou outra categoria de análise, com base na teoria do brincar de Winnicott. A Tabela 2 apresenta a distribuição de freqüências dos episódios, em três momentos, segundo as categorias estudadas, na qual se verifica um decréscimo, ao longo do tempo, da categoria ansiedade de separação e, ao mesmo tempo, um aumento nas outras duas categorias função de holding e relacionamento entre pares e adultos, parecendo indicar atividades de simbolização e criatividade mais desenvolvidas. DISCUSSÃO Dos 119 episódios, 43 foram classificados como ansiedade de separação, 24 como função de holding e 52 episódios dizem respeito à relação entre pares e adultos. A seguir, descreveremos cada categoria, trazendo para cada uma delas um episódio como ilustração. 1) Ansiedade de Separação O brincar, para Winnicott, antecede ao brincar simbólico, cujo pressuposto e possibilidade são a separação sujeito-objeto, eu e não-eu, subjetividade-objetividade. E, tudo isso começa para o bebê na sua relação com a mãe. A jornada à independência caminha da dependência absoluta, passa pelo estágio da dependência relativa e, finalmente, ruma à independência. A falha ou a demora na satisfação das necessidades, mais do que a criança, a princípio, é capaz de suportar, viabilizará o que Winnicott denomina de ansiedade1. Episódio (30.04) Retornando do cabideiro, D. aproxima-se da mesinha em que estou instalada e, olhando para mim, aponta direcionando a mão para as costas dizendo: Mamãe coçou minha costa! Tabela 1 - Identificação dos episódios de brincar segundo as categorias trabalhadas. Ansiedade de Separação Função de holding Relação entre pares e adultos 01.02 01.03 01.05 01.07 01.04 01.06 04.02 01.01 02.01 03.01 03.02 04.01 05.04 07.04 11.02 09.01 09.03 10.03 11.03 12.01 04.03 05.01 05.02 05.03 15.02 15.04 16.02 12.02 13.01 13.02 13.04 14.03 06.02 06.04 07.01 07.03 18.03 20.04 21.02 15.03 16.01 16.03 17.02 18.01 08.02 09.02 10.01 10.02 22.03 26.04 29.01 18.04 19.02 19.03 20.02 22.02 11.01 13.03 14.01 14.02 29.02 30.02 31.01 22.04 22.05 23.02 24.01 24.02 14.04 15.01 17.01 18.02 32.04 32.06 33.03 24.03 24.04 25.02 25.03 26.01 19.01 20.01 20.03 2101 33.05 34.02 36.01 26.03 27.01 27.02 28.01 30.03 22.01 23.01 25.01 26.02 31.02 32.01 32.03 32.05 33.01 30.01 30.04 32.02 33.02 33.04 34.01 35.02 37.01 37.03 34.03 35.01 37.02 37.04 37.05 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 $ 06.01 06.03 07.02 08.01 UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O BRINCAR DE WINNICOTT Tabela 2 - Distribuição de freqüências dos episódios, em três momentos, segundo as categorias estudadas. Categorias 1 a 12 13 a 24 25 a 37 Total Ansiedade de separação 21 13 9 43 Função de holding 6 7 11 24 Relação entre pares e adultos 11 22 19 52 Total 38 42 39 119 Levanta a blusa, em seguida, e mostra-me algumas picadas de inseto. Sabendo que D. mora no sítio, pergunto: Lá tem bastante mosquito? D. responde com a cabeça em sinal afirmativo, vai em seguida até a mesa da professora e fica olhando a professora escrever algo. Abre a boca (sono) e, após observar a professora, leva o polegar à boca e diz, com o polegar ainda na boca: Cadê minha mãe ? Nesta hora, J. chega com a mãe e todas as crianças vão com a professora até a porta. J. dá vários beijos em sua mãe (já está no chão). D. vai até sua mesinha e fica observando a mãe de J. ir embora; acompanha a saída da mãe de J. olhando pelo visor da sala. Quando a mãe de J. desaparece de seus olhos, D. sobe em uma cadeirinha e olha pelo visor da porta vendo se ainda enxerga a mãe de J. A solicitação de D. para olharmos suas costas vai além da necessidade comportamental em enxergarmos as picadas de inseto. D., neste episódio como em outros classificados como ansiedade de separação, pede um holding para a professora e observadora diante da dificuldade em tolerar a ausência materna. No episódio acima (30.04), D. deixa explícito o elevado nível de ansiedade, e a postura de incompreensão da professora parece permanecer. Em nenhum momento, a professora parece entender que, ao perguntar sobre a mãe e levar o polegar à boca, D. busca incansavelmente manter a sua ansiedade num nível suportável. A professora seria suficientemente boa, naquela situação, se demonstrasse uma qualidade no seu olhar para com D.; reconhecendo o nível de ansiedade da criança e oferecendo-lhe condições para experimentação da ansiedade sem ameaça. A orientação da professora deve ir além da relação ensino-aprendizagem. A professora, estando mais próxima emocionalmente da criança, sabe como a criança se sente, de modo que é capaz de promover o holding e providenciar situações ambientais adequadas, suficientemente boas. Sem tal envolvimento, a ansiedade é inevitável. Assim, nos episódios de ansiedade de separação, podemos verificar a excitação e a agitação de D., quase sempre, logo em seguida à chegada das mães das crianças na creche. Geralmente, a ansiedade é acionada em D. pela chegada e relacionamento dos colegas com suas respectivas mães. Nas observações, pudemos constatar que o momento de desligamento da criança da mãe ficava exclusivamente a cargo da própria mãe; a professora pouco atuava no sentido de receber a criança na creche. Momentos de desligamento da realidade externa e o ato de chupar o dedo são constantes nos episódios caracterizados como ansiedade de separação no mecanismo de expulsão da ansiedade. Winnicott5 explica o ato de chupar o dedo como comportamento observável desde o nascimento e, portanto, pode-se presumir que ele vá do primitivo ao sofisticado, remetendo a criança a voltar-se para dentro como resultado da frustração no amor por um objeto externo. Então, o chupar o dedo significa também consolo, uma defesa contra a perda do objeto (mãe), contra sentimentos de insegurança ou contra ansiedades primitivas. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 % KAWAGOE VRP ET AL. Aqui o questionamento à instituição creche torna-se necessário: Como a instituição creche proporciona, na figura do professor, na atividade livre, no ambiente da sala, um sentimento de segurança contra a ansiedade de crianças? A resposta a esta pergunta é muito complexa, porém alguns dados nas observações podem ser retirados de forma satisfatória. Começamos chamando a atenção para a qualidade do olhar da professora para a criança. Embora a instituição faça um esforço para apresentar o mundo de forma objetiva, a precariedade da relação professor-aluno inviabiliza a plena realização deste projeto; as coisas objetivamente percebidas passam antes por questões subjetivas. Nos episódios de ansiedade de separação, há pontos nos quais a ansiedade manifestou-se ou permaneceu implícita, porém fez-nos pensar sobre o papel da instituição e a importância da figura do professor, no sentido de favorecer estratégias de D. para lidar com os seus sentimentos desagradáveis pela falta da mãe. A ansiedade de separação de D. demonstra, sobretudo, uma dificuldade da instituição creche em viabilizar um espaço-potencial para as crianças experienciarem, elaborarem o sentimento de ansiedade em conseqüência da falta da presença materna. 2) Função de holding O conceito de holding foi desenvolvido por Winnicott e envolve todas as particularidades do cuidado materno que antecedem e advêm depois do nascimento. Holding significa sustentar, conter, dar suporte. No caso da relação mãe-bebê, isto pode ser feito por meio do ato físico de segurar no colo ou entender as necessidades específicas do bebê e atendê-las de modo mais adequado; para o autor holding sempre incluiu a comunicação silenciosa entre mãe-bebê, que é a raiz e a origem de outras comunicações entre seres humanos6. Episódio (15.04) Corre satisfeita, sorrindo para o grupo de crianças que se encontra junto da professora; chega e se instala em seu colo (não diz nada), carrega consigo a boneca. Quando corre em direção à professora, carrega a boneca sem preocupação, ou seja, segura o brinquedo com uma das mãos e pelos cabelos, porém, ao sentarse no colo da professora, acolhe e arruma com cuidado em seu colo. A professora começa a cantar uma música de ninar para a boneca de D. D. segura a sua boneca em posição de ninar, batendo com as mãos em suas costinhas, com carinho. A professora, terminando de cantar a música, continua por alguns segundos com D. em seu colo (D. continua ninando a boneca). Em seguida, a professora vê as horas em seu relógio de pulso e pede para as crianças guardarem seus brinquedos, pois está na hora do café. A professora olha para a boneca e para D. e diz: vamos deixar ela dormir! D. coloca sua boneca em cima do último colchonete (empilhado atrás da professora, faz isso ainda no colo da professora, pois, só assim alcança a pilha de colchonetes). Enquanto coloca boneca, fala que ela vai dormir. No episódio descrito acima (15.04), D. manifesta um comportamento cuidador para com a boneca; no entanto, este comportamento cuidador parece ter sido acionado com o acolhimento da professora, e todo o contexto ambiental (setting) em que D. estava se relacionando. Ao mesmo tempo, D. cuida da boneca, mas ela também busca aconchego e ajuda da professora. Com a boneca, D. projeta estágios primitivos vivenciados anteriormente enquanto bebê, pois, a capacidade para relações objetais só será alcançada e mantida se houver, de alguma maneira, uma condição ambiental de holding. Notamos que nos episódios de holding, a professora não estava fazendo nenhuma outra atividade, senão recepcionar as crianças . Na creche, a função de holding da professora poderia ser um facilitador, por exemplo, das situações de separação mãe-criança. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 & UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O BRINCAR DE WINNICOTT A idéia de Winnicott de um ambiente de holding inaugura-se com a relação mãe-bebê dentro da família e expande-se para outros grupos sociais, no caso, a creche6. Como a creche pode proporcionar um ambiente de holding para as crianças? Como deve ser este ambiente? E a professora? Novamente transpondo as particularidades do cuidado materno para a creche, Winnicott chama a atenção para a sensibilidade, para a intuição que o professor de creche tem que ter, ou seja, o professor de creche tem que ser suficientemente sensível para perceber a criança, possibilitar o holding e, ao mesmo tempo, possibilitar à criança o direito de exercer o seu próprio eu. A professora suficientemente boa, em termos de holding, só poderá reconhecê-lo, se um dia teve uma mãe cuidadora. Diante dessas constatações, a função do professor de creche exige que ele seja acolhedor; porém, ele só o será se um dia obteve esse cuidado, via mãe ou substituto. Observamos que, a partir da décima oitava observação, D. começa a transferir o cuidar para a professora e amigos e demonstra a capacidade de aceitar, ou mesmo buscar o holding. Abram7 enumera as características necessárias à provisão ambiental, em que a função de holding não tem uma diferenciação entre a fisiologia e a psicologia, ou ambas estão caminhando juntas. A provisão do ambiente confiável implica a empatia materna, a sensibilidade auditiva e toda a rotina do cuidado que se estende. De modo análogo, a professora de creche tem o cuidar sobreposto ao educar. O cuidar tem como característica o toque - a forma com que o professor toca o seu aluno (criança) no dia-a-dia da creche - tocar no sentido físico e psicológico. Os episódios - função de holding - representam uma mostra viva da consciência de quanto holding o professor de creche necessita a fim de poder trabalhar com crianças pequenas que apresentam uma demanda emocional nesta fase de inserção na instituição. 3) Relação entre pares e adultos Nos episódios aqui classificados, a criança observada denota saúde ao usar a agressividade contra forças externas que ameaçam o que ela julga valioso e, ao mesmo tempo, apresenta o que Winnicott chama de concernimento, ou seja, a capacidade do indivíduo de importar-se com o bem estar do outro e, conseqüentemente, trazer implícita a capacidade de dar, construir algo e reparar5. Episódio (06.01) No chão, senta-se entre as mesas, depois de ter pegado a caixa do Crie e Monte. Encaixa uma peça em outra, à medida que tira, uma peça de cada vez, da caixa. Dessa forma, pouco a pouco, monta um quadrado. Dirige-se para próximo da professora, levando as peças parcialmente desmontadas do Crie e Monte. Senta-se próxima da professora (professora está sentada perto da mesa), naquele instante consegue encaixar todas as peças. A professora começa a dar atenção para a criança W. D., com as peças encaixadas, encosta o brinquedo nos pés da professora e, em seguida, levanta as peças encaixadas diante do rosto da professora. Obtendo o olhar da professora, retorna ao chão, a uma distância de mais ou menos um metro da professora, senta-se com as pernas cruzadas e termina o encaixe das peças. Neste episódio (06.01), D. mostra persistência numa tarefa: vai em busca do que quer e busca o contato com a professora. Os episódios de relação entre pares e adultos nos fazem refletir sobre o fato de reconhecermos não só o desenvolvimento físico da criança, mas o que concerne à conjugação de mãe e filho e desta relação o caminhar para as outras relações (com pares/adultos, com o conhecimento, etc.). No decorrer das 37 observações, D. demonstra uma evolução no brincar: no início, sozinha; posteriormente, compartilhado; e, muitas vezes, demonstrando experiências Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 ' KAWAGOE VRP ET AL. culturais; em todos os episódios do brincar há envolvimento do corpo e manipulações. Nos episódios relação entre pares e adultos, há demonstração da comunicação, da agressão, da amizade e do concernimento, ou seja, uma resultante da seqüência do desenvolvimento situado dentro do contexto das relações . Na verdade, uma descrição da amizade e da capacidade de estabelecer vínculos, baseada na tese de Winnicott8, requer a capacidade da criança em reter o amigo no psiquismo; ao mesmo tempo ocorrerá o reconhecimento da separação. A busca cultural será realizada pela criança utilizando o espaço transicional existente entre os indivíduos. Acreditamos que a creche poderia viabilizar mais tempo em sua programação diária para o brincar e para a atividade criativa. Observamos que tanto para D. como para as outras crianças, a atividade livre é uma forma de comunicação, de apreensão de novas situações e uma possibilidade de elaboração de vivências. Winnicott1 descreve que o brincar possibilita à criança desenvolver relações sociais e a seqüência do desenvolvimento das relações transforma a natureza do brincar. No episódio (06.01), visualizamos o desconhecimento por parte dos educadores no referente ao contexto da brincadeira e o fato da atividade consistir apenas um momento de preparação, espera de crianças, ou seja, uma hora em que a creche se organiza para começar suas atividades. Contribuições da Psicanálise à Educação Para uma aproximação sobre o brincar, reportaremo-nos à relação mãe-bebê, assim como fez Winnicott. A unidade existente entre o bebê e sua mãe está além das limitações corporais, tanto que a mãe deve concretizar as buscas do bebê deixando, muitas vezes, de ser ela própria. Aos poucos, o bebê vai passando pela dolorosa dinâmica de separação desta mãe6. O brincar acompanha esta difícil dinâmica, ajudando a criança a elaborar de forma criativa esse corte saudável e necessário do cordão umbilical simbólico5. O espaço potencial se situa no brincar, inicialmente na relação mãe-bebê e depois este mesmo espaço é transposto para outras situações em que haja interação1. Quando a mãe consegue alternar e completar de forma equilibrada o papel de mãe e o papel de pessoa, o bebê começa a experimentar uma sensação boa, ao mesmo tempo de confiança na mãe e de controle saudável do meio, lidando pouco a pouco com pequenas e suportáveis situações. Essa mãe é chamada pelo estudioso de mãe suficientemente boa, por proporcionar ao bebê o fato do objeto (mãe) continuar existindo, mesmo quando é rejeitada ou agredida. Winnicott9 faz referência à ansiedade como processo de crescimento e aprendizagem no manejo da frustração. Na análise do depoimento materno, percebemos que D. está vivenciando e elaborando o processo de separação materna, demonstrando uma ansiedade de separação que, provavelmente, não deve ser percebida apenas pela mãe. Com certeza, toda esta ansiedade não ocorre apenas em casa, mas também na creche, onde a criança passa boa parte do tempo. A função da educação infantil, mais precisamente da creche, deve ser a de ampliar o seu papel no desenvolvimento da criança. A professora de educação infantil deve compreender a psicologia do desenvolvimento e as adaptações infantis, reconhecendo, por meio desses processos, a dinâmica emocional da criança. A criança pequena, por estar ainda no processo de desligamento de sua mãe, deve encontrar na figura da professora e no ambiente da creche meios facilitadores para o brincar. Acreditando que o brincar também ocorre no tempo e espaço da creche, na relação professor-aluno, torna-se bastante importante que a figura desta professora seja também suficientemente boa. A freqüência de uma criança em uma instituição de educação infantil permite uma Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O BRINCAR DE WINNICOTT vivência social exterior à família, podendo criar ansiedade, inquietação e, ao mesmo tempo, a oportunidade para a professora realizar uma contribuição sadia no desenvolvimento emocional e social da criança. A escola maternal também oferece à criança a companhia de outros pares da mesma idade. É a primeira experiência da criança como participante de desenvolver a capacidade de relações harmoniosas em tal grupo8. Diante dos episódios, podemos observar que a creche é para a criança uma possibilidade de compartilhar experiências além da mãe e, ao mesmo tempo, é um choque devido ao fato da criança estar elaborando um eu relacionado com uma realidade que gradativamente está sendo definida. A professora deve aceitar que a integração ao grupo de crianças é um processo que causa ansiedade. Associando o conceito utilizado por Winnicott de mãe suficientemente boa6 ao de professora suficientemente boa, a educação na creche também exigirá da professora restrições, controles sobre os impulsos e instintos das crianças, fornecendo, ao mesmo tempo, instrumentos e oportunidades para o desenvolvimento criador , experiência criativa e intelectual da criança. A professora suficientemente boa pode e deve ser facilitadora de uma interação criativa, principalmente na creche. É necessário que ative, explore e amplie o espaço potencial da criança, com sensibilidade, facilitando a transição, uma passagem tranqüila da experiência exclusiva que a criança tem com a mãe e com a família para o ambiente da creche. No território da creche, há muito mais do que rotinas, projetos e conteúdos. Há um espaço potencial que pode ser criativamente transitado pelo professor e pelo aluno. CONCLUSÕES Os resultados decorrentes deste estudo evidenciam que a creche deveria fornecer um olhar sobre o brincar direcionado ao desenvolvimento pessoal e emocional da criança. A atividade livre deveria ter mais tempo e espaço dentro da creche, na qual o professor poderia proporcionar a qualidade do brincar de seu aluno. A freqüência de uma criança em uma creche permite uma vivência social exterior à família, um desligamento da figura materna que é realizado gradativamente. A conduta da professora e a estrutura da creche demonstram que há necessidade de trabalharmos na instituição a ansiedade de separação das crianças, bem como gerar um maior conhecimento das questões que envolvem o brincar. O educar aproxima-se do cuidar visto que o professor deveria fornecer um ambiente de holding para a criança poder se constituir sujeito. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 KAWAGOE VRP ET AL. SUMMARY An investigation about child playing within the Winnicotts perspective, on the time-space in the kindergarten: contributions of the Psychoanalysis for the Education The purpose of this study is to investigate how much the school understands about child playing, on the time-space in the kindergarten, within the Winnicotts perspective. We analyzed a three-years-old child during play in the presence of the professor, assistant and other children. Interviews with her mother performed to obtain family history data, gestation and child development. The adapted Esther Bick Observational Method has been used to collect data during the play. Thirty-seven observations (37 hours, from March to June/2002) were performed. The observer took notes of the childs behavior, relationships with adults, other children and objects. All the observations have been supervised. Based on the observation reports, 119 playing episodes were selected and classified into the following categories: separation anxiety, holding and relationship with children and adults. Our results showed that the child had difficulties to separate from her mother to attend the kindergarten. The teachers behavior and the kindergarten structure indicated the need of an enhanced knowledge about the child playing. A child play involves the expression of her internal world, such as anxieties, emotions, desires, resources. Better quality of care will be offer to infants when professionals understand more about the play. KEY WORDS: Child rearing. Play and playthings. Psychoanalysis. REFERÊNCIAS 1. Winnicott DW. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro:Imago;1975. 2. Bick E. Notes on infant observation in psycho-analytical training. Int J Psychoanal. 1964;45(4):558-66. 3. Melega MP. Observação da relação mãebebê na família: uma metodologia para ensino, pesquisa e profilaxia. In: Publicações Científicas (Centro de estudos mãebebê-família de São Paulo) 1990;1:17-37. 4. Melega MP. A supervisão da observação mãe-bebê: ensino e investigação. Rev Bras Psicanálise. 1995;29(2):263-82. 5. Winnicott DW. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago;2000. 6. Winnicott DW. Os bebês e suas mães. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes;1999. 7. Abram J. A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro:Revinter;2000. 8. Winnicott DW. A criança e seu mundo. Tradução de Alvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar;1971. 9. Winnicott DW. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre:Artes Médicas; 1982. Trabalho realizado para obtenção do título de mestre, realizado na Universidade de Franca (UNIFRAN), Franca, SP. Artigo recebido: 30/05/2006 Aprovado: 20/07/2006 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 203-12 A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO NO BRASIL ARTIGO ESPECIAL A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO NO BRASIL: UM PROBLEMA DE METODOLOGIA? Rossana Aparecida Vieira Maia Angelini RESUMO Esse artigo tem o intuito de colocar em discussão algumas questões sobre a Educação no atual contexto educacional, sociopolítico, histórico e econômico, quando impera a globalização no cenário mundial. Como decorrência, observamos uma tendência internacional de mundialização do capital e da reestruturação da economia, o que vem impondo uma nova compreensão frente ao conceito de qualidade na educação. Nesse sentido, discutiremos, nesse artigo, a proposta que o Ministério da Educação encaminhou aos educadores sobre a revisão do processo de alfabetização e estabelecer uma relação quanto à qualidade da educação no Brasil, por meio de uma profunda reflexão. UNITERMOS: Educação. Políticas educacionais. Ao escrevermos esse artigo, o pensamento acendeu a palavra e a indignação frente às políticas educacionais que regem as crianças e os homens de nosso país. Assim sendo, Paulo Freire vem juntamente conosco nesse discurso sobre alfabetização, letramento, ou seja, sobre a educação enquanto processo de humanização e libertação dos homens: Em linguagem direta: os homens humanizam-se, trabalhando juntos para fazer do mundo, sempre mais, a mediação de consciências que se coexistenciam em liberdade. Aos que constroem junto o mundo humano compete assumirem a responsabilidade de dar-lhe direção. Dizer a sua palavra equivale a assumir conscientemente, como trabalhador, a função de sujeito de sua história, em colaboração com os demais trabalhadores o povo1. Enquanto professores e educadores, nossa palavra se faz de fundamental importância Rossana Aparecida Vieira Maia Angelini Psicopedagoga Clínica. Profª Mestre da Universidade de São Paulo - UNIP Curso de Pedagogia; Profª Mestre da Universidade São Marcos UNIMARCO Curso Lato Senso de Psicopedagogia. Correspondência Rossana Ap. V.M. Angelini Av. Divino Salvador, 175 apto. 51 04078-010 E-mail: [email protected] Fone: 5056-0568 Não junto a minha voz à dos que, falando em paz, pedem aos oprimidos, aos esfarrapados do mundo, a sua resignação. Minha voz tem outra semântica, tem outra música. Falo da resistência, da indignação, da justa ira dos traídos e dos enganados. Do seu direito e do seu dever de rebelar-se contra as transgressões éticas de que são vítimas cada vez mais sofridas. (Paulo Freire, 2002)1 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 213-20 ! ANGELINI RAVM perante os novos rumos que se pretende frente à Educação, especialmente, quanto ao ensino fundamental, no que se refere à Alfabetização. Esse pronunciamento se faz oportuno no atual momento, quando o Ministério da Educação pretende revisar o processo de alfabetização para as primeiras séries do Ensino Fundamental, em virtude do preparo das Novas Diretrizes Curriculares Nacionais para as séries iniciais do ensino fundamental, que passa a ser, a partir de então, de nove anos. Nesse sentido, o senhor Ministro da Educação solicita à Secretaria de Educação Básica a discussão com os educadores a respeito do método de alfabetização. Consideramos, dessa forma, apresentar trecho da fala do senhor Ministro da Educação: Na oportunidade em que estamos mudando a estrutura e o padrão de financiamento da educação [com a aprovação do Fundef], entendemos que seria interessante iniciar um debate sobre alfabetização, tendo em vista os altos índices de repetência na primeira série do ensino fundamental. O ministério não está tomando partido de nenhuma corrente, mas, se o mundo inteiro fez esse debate, achamos que é preciso fazê-lo no Brasil, disse2. Temos hoje em vigor as Diretrizes Curriculares que são encaminhadas a todos os professores do país por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs, elaborados na gestão anterior. Os PCNs apresentam uma linha de ação para todas as disciplinas de estudo dentro de uma abordagem sociointeracionista, construtivista. Os referenciais não sugerem método, mas, sim, uma concepção, um posicionamento da ação pedagógica frente aos alunos e aos conteúdos a serem desenvolvidos. O método e a estratégia competem ao professor desenvolver para que a aprendizagem aconteça. Contudo, o que gera a discussão proposta pelo ministério são os altos índices de repetência na primeira série do Ensino Fundamental. Essa afirmação nos leva à seguinte observação perguntamos a que repetência o Ministério se refere se o sistema é o da Progressão Continuada, onde não há séries nem reprovação e, sim, ciclos. Não será esse um dos dispositivos que colaborou para a falência de nossa Educação, fundamentalmente, a básica? O texto diz que (...) o ministério não está tomando partido de nenhuma corrente, provavelmente referindo-se à corrente socioconstrutivista, e sugerindo uma contraposição a ele, talvez, uma referência ao método fônico de alfabetização? Lembramos que a ênfase no ensino, na codificação e na decodificação, a fim de que a criança aprenda associar letras e fonemas para desenvolver sua capacidade de ler e escrever, tem sido usada em países desenvolvidos, como nos Estados Unidos. O método fônico, como o próprio nome aponta, está voltado para o ensino dos fonemas, dos sons que as letras apresentam em relação à sua grafia. Alfabetizar, dentro dessa proposta, é ter a competência de identificar as letras do alfabeto e associá-las aos fonemas, às sílabas e às palavras. Lembramos, ainda, que Construtivismo não é método. O texto também faz referência à seguinte discussão: o mundo inteiro fez esse debate, achamos que é preciso fazê-lo no Brasil também. Outro aspecto importante que precisamos salientar é o de que precisamos discutir nossos problemas com a Educação, simplesmente porque outros países (desenvolvidos) estão discutindo o melhor método. Será que não estamos numa fase anterior a essa, quando são tantos nossos problemas com a Educação e que geram o alto índice de analfabetismo? Nesse contexto, discutir método, apenas, parece-nos superficial. Será que estamos sendo influenciados ao implante de métodos que outros países desenvolvidos, como França, Inglaterra e Estados Unidos da América, desenvolveram em seu contexto sociopoliticoeconômico? Será que estamos submetidos a um jogo de poder das 1 Genericamente, Banco Mundial é um conjunto de instituições lideradas pelo Banco Internacional de Reconstrução e de Desenvolvimento (AID); o Centro Internacional para Resoluções de Disputas sobre Investimentos (CIRDI); a Corporação Financeira Internacional (IFC) e a Agência de Garantia de Investimentos Multilaterais (MIGA) (Soares, 1996; Lichtensztejn & Baer, 1986; Arruda, 1996). Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 213-20 " A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO NO BRASIL políticas educacionais internas (e externas)? Será que estamos nos deixando submeter às políticas educacionais dos países desenvolvidos que sempre implantaram seus costumes nas terras conquistadas? Por exemplo, os Estados Unidos da América que proibiram o uso do Método Global e que não financiam programas que descartem o Método Fônico. A atual política educacional do Banco Mundial1 traz em suas concepções políticas, segundo Souza (2005), três eixos articuladores: 1 - a educação como serviço; 2 - a educação portadora de uma racionalidade econômica e 3 professor entendido na dimensão instrumental. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) nasceram de convênios firmados na Conferência de Bretton Woods, em 1944, e influenciaram, decisivamente, as mudanças ocorridas na economia internacional após a Segunda Guerra Mundial. Sem dúvida, deram visibilidade à hegemonia dos EUA no bloco dos países capitalistas centrais e, desde então, não têm modificado substantivamente suas orientações oficiais, respondendo sempre aos interesses do sistema financeiro e aos do governo dos Estados Unidos (Lichtensztejn & Baer, 1986). No contexto das mudanças sociais e políticas, nas últimas décadas, a concepção de educação defendida pelo Banco Mundial, educação como produtividade, compreende a educação como instrução e desenvolvimento de habilidades e conhecimentos que permitam aos estudantes o ingresso ou sua permanência no mercado de trabalho. A ênfase, nessa concepção, é a de que o processo educacional é acumulação de capital humano. Cada estudante é compreendido com capacidade de produção potencial e o desenvolvimento desta potencialidade exige o esforço dos professores e das famílias. A educação, ao promover a produtividade dos indivíduos, seria um dos fatores mais importantes para elevar o produto social e, conseqüentemente, reduzir a pobreza (Souza, 2005, p. 115). Será que a solução de todo o sofrimento educacional a que o povo está submetido está no Método? Implantar um Método como o Método Fônico exclusivamente para sanar o problema do analfabetismo é o caminho mais viável? Para Freire1, a alfabetização não é mero jogo de palavras. Ela representa a consciência reflexiva de cultura, o que leva o homem à reconstrução crítica do mundo humano, para que se possa construir um projeto histórico de um mundo comum e a coragem de cada um poder dizer sua palavra e ter voz. A alfabetização, portanto, é toda a pedagogia e ação: aprender a ler é aprender a dizer sua palavra. E a palavra humana imita a palavra divina: criadora. A palavra é entendida, aqui, como palavra e ação; não é o termo que assinala arbitrariamente um pensamento que, por sua vez, discorre separado da existência. É significação produzida pela práxis, palavra cuja discursividade flui da historicidade palavra viva e dinâmica, não categoria inerte, ixânime. Palavra que diz e transforma o mundo. A palavra viva é diálogo existencial. Expressa e elabora o mundo, em comunicação e colaboração1. Há um grande equívoco em todo o país sobre a questão do Método de Alfabetização. Equívoco criado pelos próprios representantes da educação em acordo com as diferentes políticas governamentais pelas quais passamos. Referimo-nos à palavra equívoco no sentido de induzir alguém a um engano; a algo que dá lugar a várias interpretações; que dá margem à suspeita. Todo esse processo teve seu início quando o Construtivismo desabou na cabeça dos professores (fazendo-os desmoronar, pôr abaixo sua prática, abater-se), por volta das décadas de 70/80. Nesse período, os docentes da rede pública receberam a orientação de trabalhar dentro de uma nova proposta: O Construtivismo. Em primeiro lugar, precisamos esclarecer o que é Construtivismo. Jean Piaget (1896 1980), suíço, biólogo, foi um importante pesquisador e deixou grandes contribuições acerca do desenvolvimento da inteligência humana. Piaget preferiu ser classificado como um epistemólogo genético. A epistemologia genética é a ciência que explica como o conhecimento é adquirido. Sua pesquisa trouxe a possibilidade de se Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 213-20 # ANGELINI RAVM compreender como a criança pensa desde seus primeiros anos de vida. O fato de termos acesso a essa compreensão, com certeza, seria um facilitador para o campo da Pedagogia, ou seja, os professores e os educadores, conhecendo os processos de desenvolvimento da inteligência, desde a infância, teriam subsídios teóricos para desenvolverem os conteúdos de suas disciplinas de forma adequada ao desenvolvimento psicológico da criança, isso em todas as disciplinas de estudo. De fato, essa foi uma grande contribuição no sentido do professor conhecer os estágios de desenvolvimento e elaborar os conteúdos de suas disciplinas de forma adequada a esse conhecimento. Piaget, por meio de sua pesquisa, observou que as crianças constroem conhecimento; entendeu o conhecimento como adaptação e como construção individual e pensou a aprendizagem e o desenvolvimento como auto-regulados. Ponto esse de convergência com os estudos de Vygotsky. Ambos apresentaram o desenvolvimento/ aprendizagem da criança como um processo ativo, que não ocorre de maneira automática. Podemos afirmar que Piaget interessava-se por pesquisar como o conhecimento é construído e sua teoria é uma teoria da construção que ocorre na mente do indivíduo (Wadsworth, 1997). Desde que nasce, então, a criança inicia seu trabalho de conhecer o mundo e esse conhecimento vai sendo construído à medida que se relaciona com os objetos do seu contexto. É fundamental que o professor leia e estude as pesquisas de Piaget, de Vygotsky, de Wallon e outros pesquisadores, para compreender como se desenvolvem os processos da construção do conhecimento (o que não vamos tratar aqui). A palavra construção é essencial à teoria de Piaget, porque, por meio dela, sabemos que a criança, desde que nasce, busca conhecer o mundo que a rodeia, de acordo com suas possibilidades orgânica; física; cognitiva; afetiva; social e esse é um processo de ensaio e erro, de hipóteses que vai construindo para melhor se adaptar e viver criativamente o mundo. Dessa forma, a criança constrói conhecimento, porque faz parte do humano o desenvolvimento da inteligência. Vale ressaltar que o trabalho de Piaget demorou a ganhar atenção nos Estados Unidos: A razão disto, além do fato de ser escrito em francês, estão amplamente relacionadas com a natureza da sua teoria e com a metodologia da pesquisa. Os conceitos que ele usou não foram, facilmente, aceitos na América; nem sua metodologia experimental. A psicologia, nos Estados Unidos, tinha uma forte tradição behaviorista. Teóricos como Thorndike, Tolman, Hull, Watson, Spence e Skinner dominavam o cenário, todos interessados na relação estímulo-resposta e no conceito de reforçamento. Os psicólogos americanos da escola behaviorista, tradicionalmente, não inferiam a existência dos processos mentais internos (de pensamento). Assim, os conceitos piagetianos como assimilação eram totalmente estranhos à posição behaviorista. Piaget não defendia comportamento em termos de estímulo-resposta e ele não usava o construto do reforço. Alguns dos importantes conceitos piagetianos são esquemas, assimilação, acomodação e equilibração. Ainda, Piaget inferia a existência de processos mentais internos. Foi difícil para muitos psicólogos americanos virem a entender tais conceitos (Wadsworth, 1997, p. 9). Com certeza, a teoria de Piaget foi difícil de ser aceita nos Estados Unidos em vista dos aspectos que regem a cultura americana: prática, pragmática e que requer soluções rápidas para os seus problemas. Mesmo a psicanálise freudiana, ainda hoje, é pouco compreendida e aceita, por ser profunda e demandar um tempo maior para a elaboração dos problemas. Por isso, as teorias comportamentais (behaviorismo, por exemplo) e os métodos objetivos e práticos de ensino e terapêuticos serem aceitos sem maiores problemas. Dentre eles, está o método fônico; a programação neurolingüística - PNL (um tipo de terapia) e a farmacologia (o uso de remédios para resolver as doenças da alma e também os problemas com a aprendizagem). Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 213-20 $ A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO NO BRASIL Nós precisamos compreender nossa cultura, nossos valores, nossas concepções de homem, mundo, sociedade e cultura, a fim de que possamos construir nossas pontes para a resolução de nossos problemas. Importar métodos e estratégias, sejam de onde for, sem avaliá-los de acordo com nosso contexto é um grande risco social para todo o povo. Já a teoria de Piaget nos traz algo inédito acerca do desenvolvimento da inteligência humana, que se amplia por meio da construção, da busca de conhecimentos, tal como a humanidade fez e faz ao longo dos anos, um processo filo-ontogenético. Construímos conhecimento a todo tempo e isso nos modifica culturalmente ao longo da vida. Esse processo não é método, não é técnica. É um dado importante acerca da compreensão do desenvolvimento humano que deveria ser um facilitador para o educador desenvolver suas estratégias didáticas frente ao seu grupo. Esse movimento é o que permite a autoria do professor, porque nesse sentido ele deverá observar o grupo, seu desenvolvimento para, então, criar estratégias e métodos de ensino de acordo com as necessidades apresentadas no contexto. Nesse sentido, o professor é observador, é pesquisador. Tem autoria e autonomia para desenvolver estratégias didáticas que sejam condizentes com seu grupo. O professor também constrói conhecimento dentro dessa perspectiva: constrói um conhecimento sólido, fundamentado sobre seus alunos e quais estratégias desenvolver. Para viver esse movimento, o professor deve conhecer e estudar as teorias psicológicas aplicadas à Educação; as concepções teóricas sobre ensino-aprendizagem; os métodos e as estratégias para alfabetizar; compreender o paradigma em que está inserido; pensar sobre o contexto sócio-histórico-cultural-político, a fim de que possa ter uma compreensão ampla sobre o que é ser professor e fundamentar sua prática de forma consistente. Cabe ao professor se preparar, estudar, para não fazer uma leitura equivocada e descontextualizada das teorias que se apresentam como salvadoras e, muitas vezes, impostas pelos especialistas da educação que não produziram uma discussão clara e profunda com os professores e com a sociedade frente às mudanças que impõem à Educação. O professor precisa ser ouvido e se pronunciar urgentemente sobre suas experiências e pensamentos e a melhor forma de ensinar. O Construtivismo jamais poderia ser um método, como muitos apregoam. Construtivismo é uma proposta filosófica de como olhar e compreender o como a criança avança em seus conhecimentos. O erro nessa teoria serve para que o professor possa entender como o aluno levanta hipóteses sobre um determinado conhecimento, ou seja, todo aluno apresenta um conhecimento prévio que precisa ser acionado, para tornar-se significativo para ele, bem como para envolver-se diretamente como um sujeito ativo-interativo no processo de sua aprendizagem. Nesse sentido, o erro é para ser trabalhado, sim, confrontado com o que é chamado de certo, para que o aluno possa compreender e construir o conteúdo adequado ao conhecimento. Quantos equívocos essa teoria trouxe aos professores, aos pais e aos alunos, à Educação em geral, por falta de conhecimento teórico, por falta da leitura aprofundada das pesquisas, por falta de uma discussão adequada por parte de todos os envolvidos com a Educação: Educadores, Governantes e Sociedade. O equívoco maior recaiu sobre o Ensino Fundamental, no período da Alfabetização da criança. Lembramo-nos de muitos professores assustados, sem saber o que fazer com a nova proposta que vinha encaminhada pelos órgãos superiores da educação: o Construtivismo. Muitos professores não preparados, sem conhecimento da teoria de Piaget e das contribuições que poderia representar na sala de aula, zeraram todo seu conhecimento e começaram a fazer algo que não compreendiam. Muitas vezes, os professores diziam: Agora não poderemos mais corrigir os erros dos alunos! Quanto equívoco! Quanto sofrimento! Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 213-20 % ANGELINI RAVM Atualmente, estamos colhendo os frutos de tamanha confusão: crianças e jovens semianalfabetos, professores desencantados e, para completar, o equívoco que se tornou a progressão continuada; salas numerosas; baixa remuneração; formação inadequada de profissionais; a divisão sociopolítica das escolas e universidades entre públicas e privadas; enfim, são muitos os problemas e a discussão se faz urgente. Falta um verdadeiro e competente diálogo entre os setores superiores da educação, os professores que necessitam ser ouvidos e a sociedade, contudo, qual o real interesse disso tudo?! Será o de manter o povo como um todo: pais, professores, alunos nesse marasmo que virou a Educação. Educar quem? Educar como? Educar para o quê?! Será que há real interesse em educar, em construir o letramento; o pensamento alfabetizado no país? Servimos a que interesses enquanto professores?! A quem todos esses equívocos interessam?! Como se deu essa proposta: O Construtivismo na Alfabetização? Mais um grande equívoco por parte de todos. Emília Ferreiro é psicóloga e pesquisadora argentina, seus trabalhos deram origem aos pressupostos teóricos sobre a Psicogênese do Sistema da Escrita (1974). Se Piaget quis estudar a gênese do conhecimento, Emília Ferreiro, aluna de Piaget, quis estudar a gênese da escrita. Tal como Piaget, Emília Ferreiro partiu para uma grande pesquisa entre as crianças, cujo intuito era o de compreender como iniciavam suas interações com a escrita e como a produziam. Emília Ferreiro apresentou, então, para o mundo sua grande contribuição, comprovou por meio de suas observações que a criança, muito antes de entrar na escola, desde cedo, apresenta hipóteses sobre o como se escreve e como se dá o desenrolar desse processo, à medida que se desenvolve. Assim, sua teoria representou um grande avanço sobre as hipóteses de escrita da criança. A autora chegou, a partir de suas observações, a cinco hipóteses que a criança constrói, o que faz parte de seu desenvolvimento. Em momento algum, em sua teoria, disse estar organizando um método de alfabetização, a partir das hipóteses que levantou em seu trabalho. E mais uma vez, o equívoco se instaura: sua pesquisa é apregoada como método e de forma confusa entre os professores que não compreenderam como proceder no período de alfabetização da criança, por não conhecerem a teoria e não terem discutido mais profundamente suas teorias sobre o desenvolvimento humano (Piaget, Vygotsky, Wallon, entre tantos). No entanto, aquilo que foi o legado desses autores, um caminho, um norte para nossas discussões enquanto educadores, é ignorado. Nenhum dos autores citados tinha por intenção criar um método, uma técnica de alfabetização. O método compete ao professor. A partir de seus estudos e pesquisas, desenvolver estratégias adequadas para que o aluno aprenda com competência. O professor foi esvaziado do movimento da autoria e do ato político que é educar; tornou-se um instrutor, um transmissor do conhecimento por meio de estratégias, técnicas e métodos prontos e acabados para suas aulas, não para o seu aluno, o sujeito do processo. Onde está, então, a autoria do professor, seu engajamento político e social, que lhe possibilite pensar métodos e estratégias, condizentes a uma práxis atuante e reflexiva de sua atuação como Educador que é? Que pensa em seus alunos e no país em que vivem, na sociedade e no povo? E no cenário mundial, quem somos nós, seremos apenas massa trabalhadora e consumidora a servir os países desenvolvidos e oportunistas dentro de nosso próprio país? Que se dá conta do caos social que estamos vivendo: merendas, bolsa escola, fome zero, até quando esse humanitarismo vai prevalecer em detrimento da humanização e da educação do povo. Falta autoria, reflexão, engajamento, transformação social para a liberdade de ser dignamente humano. Em vista de nossa atual crise na Educação, parece-nos que discutir o método de alfabetização é ter uma visão reducionista dos problemas que enfrentamos, fundamentalmente, no que se refere à alfabetização. Será, de fato, que o analfabetismo, a falta de letramento que está tomando conta do país é simplesmente uma questão de método?! Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 213-20 & A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO NO BRASIL Podemos pensar mais uma vez nos grandes equívocos em que estamos todos envolvidos. Nesse sentido, levantamos alguns dispositivos, um conjunto de meios planejadamente dispostos para um fim determinado: jogo de poder e saber. Os dispositivos relacionados têm como função gerar questionamentos sobre os rumos da Educação em nosso país e ampliar essa discussão, para que de fato os envolvidos no processo educacional possam ter voz. Citamos aqui alguns dos dispositivos que impedem e comprometem a qualidade de nossa Educação: 01. O equívoco das discussões sobre métodos de alfabetização; 02. Classes numerosas; 03. O equívoco da Progressão Continuada; 04. A baixa remuneração dos profissionais da educação; 05. O apartheid da educação: escola e universidade públicas e escolas e universidades privadas; 06. Formação de professores: Ensino Superior; Graduação de Pedagogia e Licenciaturas; 07. Falta de formação continuada para o professor; 08. Péssimas condições de trabalho; 09. Problemas sociais: a desestruturação familiar (as crianças abandonadas dentro de casa); 10. A necessidade da mulher estar no mercado de trabalho, o que compromete a qualidade do acompanhamento escolar e social dos filhos; 11. Crianças que precisam trabalhar; 12. O império da farmacologia: o aluno que não aprende torna-se doente; 13. A escola como fonte de assistencialismo; 14. O discurso da mídia e da sociedade que desvaloriza a educação como possibilidade de transformação social; 15. O ensino fundamental de nove anos: a infância reduzida; a antecipação da construção dos processos de leitura e escrita? Para coroar, a falta de ética e de responsabilidade de nossos representantes. Enfim, salas numerosas, falta de professores, péssimas condições de trabalho em vários aspectos, péssima remuneração, falta de formação adequada, progressão continuada e tantos outros problemas de ordem política nos fazem pensar que discutir apenas Método na atual conjuntura da Educação, em nosso país, é desviar a questão, desviar o olhar de algo extremamente grave que ocorre em nosso contexto: a desumanização do homem em prol do capital desenfreado. Já que estamos na maré da globalização, dentro de uma ideologia neoliberal, pensar a escola não é pensar apenas o método, mas, sim, pensar no seu processo de reestruturação, para que possa formar cidadãos preparados e qualificados para um novo tempo: formar indivíduos capazes de pensar e de aprender permanentemente (capacitação permanente) em um contexto de avanço das tecnologias de produção, de modificação da organização de trabalho, das relações contratuais capital-trabalho e dos tipos de emprego: prover formação global que constitua um patamar para atender à necessidade de maior e melhor qualificação profissional, de preparação tecnológica e de desenvolvimento de atitudes e disposições para a vida numa sociedade técnico-informacional; desenvolver conhecimentos, capacidades e qualidades para o exercício autônomo, consciente e crítico da cidadania; formar cidadãos éticos e solidários3. Como podemos avaliar, a questão é muito mais profunda e somente uma discussão e uma ação efetivas poderão nos ajudar a construir uma Educação mais humanizadora, que zele pelos princípios da autonomia, da responsabilidade e da solidariedade. De acordo com Gadotti (1999), Somos muitos professores neste país. Preocupados com salários, com capacitação, com condições de trabalho, com a tarefa de ensinar. Precisamos nos preocupar também com a construção de nossa sociedade, por meio de uma educação digna e humanizadora, que possa possibilitar uma vida melhor em todos os seus aspectos: saúde; segurança; trabalho; para nosso povo. Para onde caminhamos?! Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 213-20 ' ANGELINI RAVM SUMMARY The quality of the Education in Brazil: a problem of methodology? This article has the intention of putting in discussion some subjects about the Education in the current educational context, social-political, historical and economical, when globalization governs the world scenery. As consequence, we observe a worldwide tendency of the capital and of the restructuring of the economy, the one that comes imposing a new understanding front to the quality concept in the education. In that sense we will discuss in this article the proposal that the Ministry of Education forwarded to the educators on the revision of the literacy process and to establish a relationship concerning the quality of the education in Brazil through a deep reflection. KEY WORDS: Education. Educational policies. organização. 2ª ed. São Paulo: Cortez;2005. 4. Azenha MG. Construtivismo: de Piaget a Emília Ferreiro. 7ª ed. São Paulo:Ática;2002. 5. Freire P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 10ª ed. São Paulo:Paz e Terra;1999. 6. Ganzeli P. Gestores Estudo, pensamento e criação Livro II. Campinas:Universidade Estadual de Campinas;2005. 7. Soares L. Com a palavra, o professor. São Paulo: Revista Veja, nº13, seção:Educação, 5 de abril de 2006. REFERÊNCIAS 1. Freire P. Pedagogia do oprimido. 33ª ed. São Paulo:Paz e Terra;2002. 2. Góis A. Governo vai rever processo de alfabetização; debate opõe linha construtivista, predominante hoje no país, e o método fônico MEC discute a volta do vovô viu a uva. São Paulo: Folha de São Paulo, caderno Folha Cotidiano, pág. C 1;11 de fevereiro de 2006. 3. Libâneo JC, Oliveira JF, Toschi MS. Educação escolar: políticas, estrutura e Trabalho realizado na Universidade Paulista (UNIP), São Paulo, SP. Artigo recebido: 01/07/2006 Aprovado: 15/08/2006 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 213-20 AVANÇOS DA PSICOPEDAGOGIA EM SERGIPE ARTIGO ESPECIAL AVANÇOS DA PSICOPEDAGOGIA EM SERGIPE Auredite Cardoso Costa RESUMO Este artigo tem como objetivo analisar os avanços da Psicopedagogia em Sergipe, sua inserção social na comunidade sergipana, especialmente na área da Saúde e da Educação, no âmbito da Rede Pública, da Rede Privada e do Terceiro Setor. Percebe-se que a Psicopedagogia em Sergipe tem mostrado sua real função, na esfera da aprendizagem, a partir de seu contato com a comunidade, por meio dos estágios curriculares e da intervenção psicopedagógica voluntária. UNITERMOS: Comunidade. Psicopedagogia. Saúde. Educação. A análise do processo de desenvolvimento da Psicopedagogia em Sergipe nos leva a inferir, pela sua ação na comunidade, o quanto esta área de conhecimento, que lida com os processos de aprendizagem e suas dificuldades, tem contribuído para as relações que se estabelecem entre o ensinar e o aprender nos espaços da Saúde, da Educação Pública e Privada e do Terceiro Setor. O compromisso profissional, a luta pelo reconhecimento social e os resultados galgados pela intervenção psicopedagógica realizada por meio do estágio curricular Clínico e Institucional, têm pontuado a ação do psicopedagogo e minimizado problemas de aprendizagem de aprendentes que, por motivos especiais e variados, apresentam dificuldade para aprender. A Faculdade Pio Décimo, pioneira na formação de psicopedagogos, encaminha seus estagiários em Psicopedagogia para intervirem em crianças e adolescentes com problemas de aprendizagem, vindas de escolas públicas municipais e estaduais. Para tanto, os Postos de Saúde, a Ação Social Comunitária, o Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente, e outras instituições, disponibilizam espaços para o atendimento psicopedagógico, que se repete nas comunidades num período de dez anos. É nesse espaço que a intervenção psicopedagógica se faz necessária, não só para minimizar os problemas de aprendizagem já instalados, mas também para proceder sessões de orientações aos pais, objetivando a instituição de um compor- Auredite Cardoso Costa Psicopedagoga, Psicomotricista, Graduada em Psicologia e Pedagogia, Coordenadora e Docente da Pós-Graduação Lato-Sensu em Psicopedagogia da Faculdade Pio Décimo, em Aracaju-SE e no Centro de Estudos Superiores de Maceió - CESMAC, Psicopedagoga do Centro de Especialidades Médicas da Criança e do Adolescente CEMCA da Prefeitura Municipal de Aracaju-SE, Presidente da Seção Sergipe da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Correspondência Auredite Cardoso Costa Rua Duque de Caxias, 167, apto. 1001 Aracaju SE 49015-320 E-mail: [email protected] Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 221-3 COSTA AC tamento para com as questões de aprendizagem de seu filho, no sentido de contribuir para um processo de aprendizagem saudável. Muitos pais, por ignorarem as causas das dificuldades de aprendizagem de seus filhos, manifestam insatisfação com os resultados do rendimento escolar, aplicando-lhes punições que só contribuem para manter o sintoma e reforçar o fracasso escolar. Esse comportamento é, muitas vezes, assumido por alguns professores que conseguem rotular os alunos como deficientes mentais, incapacitando-os para o processo de aprendizagem. [...] parto da hipótese de que crianças e jovens com Dificuldades de Aprendizagem podem ser beneficiados com uma intervenção familiar, que lhes permite sair da posição de portador do sintoma [...] para construir uma nova relação com o saber. [...] Seja qual for a etiologia da dificuldade de aprendizagem (neurológica, emocional, cognitiva ou genética), o grupo familiar é um fator decisivo para a condução e/ou resolução dessa situação1. Partindo desse pressuposto, a intervenção psicopedagógica pode diagnosticar as possíveis causas do não aprender ou do aprender perturbado e criar condições que possibilitem a ressignificação do desejo de aprender, oferecendo ao aprendente um espaço de confiança em que seus afetos possam ser manifestados e compreendidos. O grande número de crianças e adolescentes da rede pública com necessidade de atendimento psicopedagógico é notório, dessa forma, não sendo possível aos estagiários atenderem a essa demanda, cria-se insatisfação nas famílias por não conseguirem beneficiar-se com esse serviço no propósito de ressignificar o processo de aprendizagem de seus filhos, livrando-os do fantasma do fracasso escolar. A Associação Brasileira de PsicopedagogiaSeção Sergipe, consciente da demanda para o atendimento psicopedagógico e do seu papel social frente à comunidade sergipana, investe, junto à Secretaria de Saúde Municipal, na possibilidade de atendimento psicopedagógico nos Postos de Saúde Pública da capital.Viabilizada essa proposta com sucesso, hoje podemos contar com a intervenção psicopedagógica na rede pública, na qual o psicopedagogo faz parte do Centro de Especialidades Médicas da Criança e do Adolescente, em Aracaju. Nesse espaço, a intervenção clínica psicopedagógica assume uma proporção significativa em termos de número e qualidade de atendimentos, não deixando de lado a tão importante orientação às famílias e aos professores das crianças com problemas de aprendizagem atendidas por esse serviço. Esse reconhecimento despertou, nas Secretarias Municipais de Educação do interior do Estado, o interesse pela realização de concurso público, dando cada vez mais credibilidade ao psicopedagogo sergipano e oportunidade de um maior número de crianças e adolescentes saírem do lugar de quem não aprende, haja visto que o vínculo na relação com o aprendente e com a aprendizagem só acontece se o sujeito que ensina envolve-se como professor, além de como profissional2, reforçando para o professor o interesse por novos conhecimentos para poder entender, com mais clareza e cientificidade, o não aprender e o aprender. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 221-3 AVANÇOS DA PSICOPEDAGOGIA EM SERGIPE SUMMARY Advances of Psychopedagogy in Sergipe This article has as purpose to analyze the advances of Psychopedagogy in Sergipe, its social insertion in the sergipana community, especially in the Education and Health areas, in the scope of the Public Sphere, Private and of the Third Sector. It realizes that Psychopedagogia in Sergipe has been showing its real function, in the learning sphere, from its contact with the community, by means of the curricular apprenticeships and of the voluntary psychopedagogical intervention. KEY WORDS: Community. Psychopedagogy. Health. Education. REFERÊNCIAS 1. Polity E. Psicopedagogia: avanços teóricos e práticas. escola-família-aprendizagem. V Congresso Brasileiro de Psicopedagogia. I Congresso Latino Americano de Trabalho realizado na seção ABPp Sergipe, Aracaju, SE. Psicopedagogia. IX Encontro Brasileiro de Psicopedagogia; São Paulo;2000. p.131. 2. Fernàndez A. A inteligência aprisionada. Porto Alegre:Artes Médicas;1991. Artigo recebido: 01/08/2006 Aprovado: 10/09/2006 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 221-3 ! PAULADE GR ET AL. ARTIGO REVISÃO NEUROPSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM Giovana Romero Paula; Bárbara Costa Beber; Sandra Boschi Baggio; Tiago Petry RESUMO As relações entre as funções do sistema nervoso e o comportamento humano são objeto de estudo da neuropsicologia, a qual tem o intuito de relacionar a psicologia cognitiva com as neurociências, desvendar a fisiopatologia do transtorno e encarar racionalmente a estratégia de tratamento. A aprendizagem é definida como uma mudança de comportamento resultante de prática ou experiência anterior. Também pode ser vista como a mudança de comportamento viabilizada pela plasticidade dos processos neurais cognitivos. Devido ao fato da aprendizagem ser constituída por processos neurais, é de grande valia fazer uso da neuropsicologia como ferramenta de estudo para compreender esses processos. Alterações nos processos neurais que regem a aprendizagem levam aos chamados transtornos de aprendizagem. Estes, por sua vez, acarretam um prejuízo considerável no futuro social da criança, já que perturbam a conduta pedagógica esperada de acordo com sua inteligência normal. Tais transtornos podem se manifestar em dificuldades motoras ou psicomotoras, de atenção, memorização, compreensão, desinteresse, escassa participação e problemas de comportamento.Após compreender o funcionamento intelectual da criança, o processo de aprendizagem, assim como seus transtornos, a neuropsicologia pode instrumentar diferentes profissionais, tais como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos, promovendo uma intervenção terapêutica mais eficiente. UNITERMOS: Neuropsicologia. Aprendizagem. Transtornos de aprendizagem. Giovana Romero Paula Fonoaudióloga, Mestre em Distúrbios da Comunicação Humana pela Universidade Federal de Santa Maria. Bárbara Costa Beber Fonoaudióloga, Especializanda em Fonoaudiologia com área de concentração em Linguagem pela Universidade Federal de Santa Maria. Sandra Boschi Baggio Fonoaudióloga, Especializanda em Fonoaudiologia com área de concentração em Linguagem pela Universidade Federal de Santa Maria. Tiago Petry Fonoaudiólogo, Especializando em Fonoaudiologia com área de concentração em Audição pela Universidade Federal de Santa Maria. Correspondência Tiago Petry Rua Silva Jardim, 2229/203 Centro - Santa Maria RS -97010-493 Tel.: (55) 3027-4984 E-mail: [email protected] Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 224-31 " NEUROPSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM REVISÃO DE LITERATURA Este trabalho tem o intuito de discutir a aprendizagem, por meio de um estudo das funções neurais no processamento das informações. Com isso, pretende-se abordar a aprendizagem sob a óptica neuropsicológica. Não é intenção discutir especificamente os distúrbios da aprendizagem, porém, é inevitável não efetuar tais correlações. Para melhor compreender a aprendizagem, sob o ponto de vista da maturação nervosa, é necessário saber como o comportamento acontece, a fim de investigar os processos neurais de sua mudança. A neuropsicologia é a ciência que tem por objeto o estudo das relações entre as funções do sistema nervoso e o comportamento humano1. A neuropsicologia pretende inter-relacionar os conhecimentos da psicologia cognitiva com as neurociências, desvendar a fisiopatologia do transtorno e, sobre esta base, encarar racionalmente a estratégia de tratamento2. Entende-se como neuropsicologia o estudo dos distúrbios das funções superiores produzidos por alterações cerebrais, investigando, especificamente, os distúrbios dos comportamentos adquiridos, pelos quais cada homem mantém relações adaptadas com o meio. Somente há pouco mais de cem anos é que se passou a conhecer o funcionamento ao nível do córtex cerebral, por meio do estudo das lesões espontâneas localizadas e ressecções parciais do cérebro, que permitiram demonstrar que as diversas partes hemisféricas não possuem a mesma função e que existe uma organização cerebral semelhante em todos os indivíduos3. A neuropsicologia entende a participação do cérebro como um todo, no qual as áreas são interdependentes e inter-relacionadas, funcionando comparativamente a uma orquestra, que depende da integração de seus componentes para realizar um concerto. Isso se denomina sistema funcional. Dessa maneira, sabe-se que, a partir do conhecimento do desenvolvimento e funcionamento normal do cérebro, pode-se compreender alterações cerebrais, como no caso de disfunções cognitivas e do comportamento resultante de lesões, doenças ou desenvolvimento anormal do cérebro4. É através da neuropsicologia que podemos compreender os processos mnêmicos, perceptivos, de aprendizado e de solução de problemas, dentre outras atividades cognitivas5. Quando falamos de aprendizagem estamos nos referindo a um processo global de crescimento, pois toda aprendizagem desencadeia, em algum sentido, crescimento individual ou grupal6. Às vezes, os termos aprendizagem e conhecimento são utilizados como sinônimos, porém, é por meio do processo de aprendizagem que se adquire conhecimento, no entanto, o conhecimento resultante do processo não pode ser confundido com aprendizagem. Em alguns manuais de psicologia da aprendizagem, a aprendizagem é definida como uma mudança de comportamento resultante de prática ou experiência anterior7. Já, para outros autores, a aprendizagem é a mudança de comportamento viabilizada pela plasticidade dos processos neurais cognitivos8. A aprendizagem é um processo contínuo, que opera sobre todos os dados que alcançam um umbral de significação, dependendo, essencialmente, da memória e da atenção. A capacidade de especialização cerebral em armazenar dados (engramas) para a sua utilização posterior permite, mediante a memória, codificar e decodificar informação; existem vários tipos de memória (sensorial, curto prazo ou de trabalho, e longo prazo) que podem trabalhar, não só seqüencialmente, mas também em paralelo, dependente basicamente da plasticidade sináptica. Atenção permite focalizar atividades conscientes dependentes de sistemas e subsistemas anátomo-funcionais, que trabalham como redes em paralelo, permitindo uma atuação simultânea e interativa nas tarefas cognitivas9. Os transtornos de aprendizagem representam a conseqüência de um transtorno na organização funcional do sistema nervoso central, em geral de caráter leve, mas com conseqüências de considerável importância para o futuro social da Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 224-31 # PAULA GR ET AL. criança, já que perturbam a conduta pedagógica esperada de acordo com sua inteligência normal. Desde o ponto de vista etiopatogênico, estes transtornos se inserem dentro das alterações funcionais (disfunções), porém sua base é evidentemente orgânica9. Dificuldades, transtornos, distúrbios e problemas de aprendizagem são expressões muito usadas para se referir às alterações que muitas crianças apresentam na aquisição de conhecimentos, de habilidades motoras e psicomotoras, no desenvolvimento afetivo e outras10. Há alunos com dificuldades para aprender, cuja afecção mais evidente é a deficiência de aprendizagem, apesar de adequadas inteligência, visão, audição, capacidade motora e equilíbrio emocional. Estudos sobre a neuropsicologia da aprendizagem demonstram que, nesse grupo, a generalizada integridade orgânica convive com a deficiência na aprendizagem. Esta pode se manifestar como dificuldades motoras ou psicomotoras, de atenção, memorização, compreensão, desinteresse, escassa participação e problemas de comportamento10. A noção de maturação nervosa é uma das mais fundamentais para se explicar o processo de aprendizagem 11. Psicólogos acreditam que os comportamentos não podem ser externados até que seu mecanismo neural tenha se desenvolvido12. A aprendizagem infantil, no que tange ao processo escolar em geral, está intimamente relacionada ao desenvolvimento da criança, às figuras representativas desta aprendizagem (escola, professores), ambiente de aprendizagem formal, condições orgânicas, condições emocionais e estrutura familiar. Qualquer intercorrência em um ou mais destes fatores pode influenciar, direta ou indiretamente, o processo de aquisição da aprendizagem6. Um dos aspectos fundamentais envolvidos com a aprendizagem é a valorização dos processos neurais, além do fato de diferentes formas de aprendizagem envolverem não só circuitos neurais diferentes, mas diversos mecanismos fundamentais, que devem ser ressaltados13. O cérebro humano é um sistema complexo que estabelece relações com o mundo que o rodeia por meio de fatores significativos como: a especificidade das vias neuronais, que da periferia levam ao córtex informações provenientes do mundo exterior; e, a especificidade dos neurônios, que permitem determinar áreas motoras, sensoriais, auditivas, ópticas, olfativas, etc, estabelecendo inter-relações funcionais exatas e ricas que são de extrema importância para o aprendizado13. O processo de aprendizagem exige um certo nível de ativação e atenção, de vigilância e seleção das informações. A ativação, por meio da vigilância, conecta-se com a atenção no sentido da capacidade de focalização da atividade. São elementos fundamentais de toda atividade neuropsicológica, essenciais para manter as atividades cognitivas, inibindo o efeito de muitos neurônios que não interessam à situação. Sem uma organização cerebral integrada, intra e interneurossensorial, não é possível uma aprendizagem normal. Os processos de codificação e decodificação são de extrema importância, quando se abordam problemas de aprendizagem. A linguagem, oral e escrita, receptiva ou expressiva, faz parte com toda sua especificidade, do sistema cognitivo. Distinguindo a dimensão de percepção e gnose, como sendo o reconhecimento modal específico por meio de analisadores visuais, auditivos e somestésicos do processamento conceptual e ação, como pensamento e resposta (verbal ou não-verbal), a linguagem é um dos componentes fundamentais na organização cognitiva e nos processos complexos da aprendizagem. Os componentes cognitivos e as regiões cerebrais, que os processam, constituem um todo interconexo3. A aprendizagem resulta da recepção e da troca de informações entre o meio ambiente e os diferentes centros nervosos. Desta forma, a aprendizagem inicia com um estímulo de natureza físico-química advindo do ambiente que é transformado em impulso nervoso pelos órgãos dos sentidos11. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 224-31 $ NEUROPSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM Prestar atenção, compreender, aceitar, reter, transferir e agir são alguns dos componentes principais da aprendizagem. Assim, a informação captada é submetida a contínuo processamento e elaboração, que funciona em níveis cada vez mais complexos e profundos, desde a extração das características sensoriais, a interpretação do significado até, finalmente, a emissão da resposta13. As áreas de projeção estão relacionadas com a sensibilidade, a motricidade, e as áreas de associação e de sobreposição estão relacionadas com funções psíquicas complexas: gnosias, linguagem, esquema corporal, memória, emoções, etc14. O aprender implica em certas integridades básicas, que devem estar presentes, quando oportunidades são oferecidas para a realização da aprendizagem. Essas integridades são caracterizadas em três níveis: Funções psicodinâmicas à medida que o organismo internaliza o observado ou o experienciado, começa a assimilar hierarquicamente, pelos processos psíquicos, devendo, portanto, existir controle e integridade psicoemocional para que ocorra a aprendizagem; Funções do sistema nervoso periférico responsáveis pelos receptores sensoriais, que são canais principais para aprendizagem simbólica. Uma subcarga sensorial implicaria em privação do cérebro de estimulação básica, para o crescimento e amadurecimento dos processos psicológicos; Funções do sistema nervoso central responsável pelo armazenamento, elaboração e processamento da informação, resultante da resposta apropriada do organismo15. Considerando a aprendizagem humana como processamento de informações, veremos que os processos centrais são modificações e combinações que ocorrem nas estruturas cognitivas. Na verdade, o aprendiz é concebido como um manipulador inteligente e flexível, que busca a informação e trata de organizá-la, integralizá-la, armazená-la e recuperá-la, quando necessário, de forma ativa e ajustada às estruturas cognitivas de que dispõem internamente16. O modelo neuropsicológico aplicado aos transtornos de aprendizagem assume que estes constituem a expressão de uma disfunção cerebral específica, causada por fatores genéticos ou ambientais que alteram o neurodesenvolvimento17. A investigação neuropsicológica permite conhecer a estrutura interna dos processos psicológicos e da conexão interna que os une. Ela também nos possibilita realizar um exame pormenorizado das alterações que surgem nos casos de lesões cerebrais locais, assim como as maneiras pelas quais os processos psicológicos são alterados por essas lesões. Esse exame também se estende ao processo ensinoaprendizagem em geral, pois nos permite estabelecer algumas relações entre as funções psicológicas superiores (linguagem, atenção, memória, etc.) e a aprendizagem simbólica (conceitos, escrita, leitura, etc.), ou seja, o modelo neuropsicológico das dificuldades da aprendizagem se preocupa em reunir uma amostra de funções mentais superiores envolvidas na aprendizagem simbólica, as quais estão, obviamente, correlacionadas com a organização funcional do cérebro. Sem essa condição sine qua non, a aprendizagem não se processa normalmente e, neste caso, podemos nos deparar com uma disfunção ou lesão cerebral1. Muitos procedimentos de aprendizagem se apóiam precisamente em um marco de referência que inclui a noção clássica de psicomotricidade, o conhecimento implícito que o sujeito possui de seu próprio corpo, estático e em movimento, e sua relação com os objetos externos. O desenvolvimento da somatognosia, normalmente, se realiza posterior ao uso dos diversos componentes corporais: assim, por exemplo, uma criança de cinco anos possui uma notável capacidade manipulativa, entretanto, suas gnosias digitais se mostram bastante imaturas18. Em geral, os testes que seguem a orientação neuropsicológica apresentam algumas diferenças Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 224-31 % PAULA GR ET AL. com os que se utilizam habitualmente em psicopedagogia. A neuropsicologia explora funções pontuais da mente que correspondem, por sua vez, a áreas e circuitos bem identificados do cérebro. Mas, na realidade, a diferença na abordagem que propõe a neuropsicologia não se apóia tanto no tipo de teste utilizado, mas, sim, no reconhecimento das síndromes e quadros clínicos caracterizados sobre as bases anátomofuncionais do cérebro19. No processo ensino-aprendizagem, a avaliação global das funções psicológicas deve levar em conta todo o mecanismo cerebral, nos seus níveis sucessivos de evolução. Sendo assim, a avaliação neuropsicológica é a única forma possível de se avaliar uma determinada função, posto que somente quando a mesma é colocada à prova (mediante testes específicos), podemos observar sua integridade ou comprometimento20. A exploração neuropsicológica na infância pode ser dividida em dois grandes grupos: a investigação mais rigidamente conduzida sob a forma de uma bateria sistematizada, levando-se em conta, na inclusão de cada item, os mecanismos subjacentes à função examinada; o exame menos sistemático decorrente da releitura neuropsicológica do próprio psicodiagnóstico clássico e de toda produção escolar dos dados da anamnese, bem como da observação do comportamento21. Para identificar precocemente alterações no desenvolvimento cognitivo e comportamental, a neuropsicologia infantil se tornou um dos componentes essenciais das consultas periódicas de saúde infantil, sendo necessária a utilização de instrumentos adequados a esta finalidade (testes neuropsicológicos e escalas para a avaliação do desenvolvimento). A importância desses instrumentos reside, principalmente, na prevenção e detecção precoce de distúrbios do desenvolvimento/ aprendizado, indicando de forma minuciosa o ritmo e a qualidade do processo e possibilitando um mapeamento qualitativo e quantitativo das áreas cerebrais e suas interligações (sistema funcional), visando a intervenções terapêuticas precoces e precisas4. A contribuição da avaliação neuropsicológica da criança é extensiva ao processo de ensinoaprendizagem, pois nos permite estabelecer algumas relações entre as funções corticais superiores, como a linguagem, a atenção e a memória, e a aprendizagem simbólica (conceitos, escrita, leitura, etc.). O modelo neuropsicológico das dificuldades da aprendizagem busca reunir uma amostra de funções mentais superiores envolvidas na aprendizagem simbólica, as quais estão, obviamente, correlacionadas com a organização funcional do cérebro. Sem essa condição, a aprendizagem não se processa normalmente4. As disfunções cerebrais, bem como as lesões, interferem no processamento das informações: recepção (ocasiona problemas perceptuais); integração (surgem dificuldades na retençãomemória e elaboração); e expressão (surgirão distúrbios na ordenação, seqüencialização, planificação e execução), sendo essas informações envolvidas pelo aprendizado5. As funções psicológicas e o funcionamento cerebral são descritos, considerando o cérebro como um sistema inter-relacionado a partir de três unidades funcionais: unidade para regular o tono, a vigília e os estados mentais (área de projeção que abrange a formação reticular); unidade para receber, analisar e armazenar informações (área de projeção que abrange parietal, occipital e temporal primários; área de associação que abrange parietal, occipital e temporal secundários); unidade para programar, regular e verificar a atividade (área de sobreposição que abrange as áreas pré-frontais e frontais)22. Cada unidade funcional compreende, portanto, um conjunto de órgãos ou de áreas corticais que, em termos interdependentes, constituem o grande sistema neuropsicológico da aprendizagem humana23. A maturação cognitiva e comportamental é conseqüente à estrutural e à fisiológica e esta se Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 224-31 & NEUROPSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM produz de maneira diferente, cronológica e qualitativamente, nas distintas regiões cerebrais24. De certa forma, a aprendizagem é fruto do desenvolvimento dessas unidades funcionais que estão organizadas verticalmente e se estabelecem geneticamente da primeira unidade (reflexos) à terceira unidade (intenções), passando pela segunda unidade (experiências e ações multissensoriais). Assim, por exemplo, as aprendizagens complexas, como a leitura, assentam sobre aprendizagens compostas, como a discriminação e identificação perceptiva, que, por sua vez, decorrem de aprendizagens simples, como a aquisição de postura bípede e das aquisições preensivas na primeira idade1. A leitura, um dos processos mais complexos da aprendizagem, compreende a discriminação visual de símbolos gráficos (grafemas) por meio de um processo de decodificação que se passa na segunda unidade, só possível com um processo de atenção seletiva regulada pela primeira unidade. Posteriormente, e ainda na mesma unidade, há que selecionar e identificar os equivalentes auditivos (fonemas) por meio de um processo de análise e transdução, de síntese e comparação, a fim de edificar a busca da significação (conjectura) e avaliar os níveis de compreensão latentes. A partir daqui, surgirá uma nova operação de equivalência que compreende a codificação, ou seja, a rechamada dos articulemas que são executados e verificados na área da Broca, isto é, na terceira unidade. Dos motoneurônios superiores frontais, a linguagem interior se transformará em linguagem expressiva, por meio da oralidade, ou seja, da produção de sons articulados. É este o todo funcional que caracteriza a aprendizagem da leitura. É dentro desse conjunto funcional que se pode verificar um distúrbio ou disfunção neuropsicológica que pode, por conseqüência, redundar numa dificuldade de aprendizagem23. No que se refere aos problemas de aprendizagem, tem sido assinalado que reprovações escolares têm múltipla etiologia, justificando, portanto, múltiplo enfoque21. A relevância da abordagem neuropsicológica da aprendizagem está no reconhecimento dos quadros clínicos caracterizados sobre as bases anátomo-funcionais do cérebro, e não no tipo de teste utilizado. Ao fornecer subsídios para investigar a compreensão do funcionamento intelectual da criança, a neuropsicologia pode instrumentar diferentes profissionais, tais como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos, promovendo uma intervenção terapêutica mais eficiente. Somente dessa forma é que as dificuldades de aprendizagens serão melhor compreendidas e, principalmente, tratadas. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 224-31 ' PAULA GR ET AL. SUMMARY Neuropsychology of learning The relation between the function of the nervous system and the human behavior are the object of study of neuropsychology which has the purpose of relating the cognitive psychology to neuroscience, revealing the physiopathology of the disturbance and facing the treatment strategy rationally. Learning is defined as a change in the behavior as a result of practice or previous experience. It can also be seen as a change in the behavior made possible for the plasticity of neural cognitive processes. Because learning is constituted by neural processes is necessary to consider neuropsychology as a tool of study to understand these processes. Alterations in neural processes that control learning are called learning disturbances. These learning disturbances cause a considerable damage to the social future of the child considering that they disturb the pedagogical behavior expected in accord with the normal intelligence. Such disturbances can be shown as motor or psychomotor difficulties, as well as attention, memorization and understanding difficulties. Understanding the intellectual functioning of the child, the learning process, as well as its disturbances, the neuropsychology can qualify professionals such as doctors, psychologists, therapists of language and psychopedagogues, to make possible a more effective therapeutical intervention. KEY WORDS: Neuropsychology. Learning. Learning disorders. REFERÊNCIAS 1. Luria AR. Higher cortical functions in man. 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ARTIGOCOSTA DEDAF REVISÃO SUPERANDO LIMITES: A CONTRIBUIÇÃO DE VYGOTSKY PARA A EDUCAÇÃO ESPECIAL Dóris Anita Freire Costa RESUMO O presente texto tem como objetivo mostrar a contribuição da obra de Vygotsky para o trabalho com sujeitos com necessidades educativas especiais. Além de oferecer um novo paradigma para a compreensão dos problemas desses sujeitos, a obra do autor aponta alternativas inovadoras para a educação dos mesmos. Numa abordagem dialética e prospectiva do indivíduo e da sociedade, Vygotsky centraliza seu trabalho nas possibilidades dos sujeitos e não nos seus déficits ou limites, mostrando que estes, contrariando o que muitos pensam, podem se tornar uma fonte de desenvolvimento. UNITERMOS: psicopedagógica. Educação especial. Vygotsky. Intervenção É inegável a contribuição de Vygotsky para a educação; inegável também é a incrível aceitação e adequação de sua obra à nossa realidade brasileira. Entretanto, o que muitos ignoram é que Vygotsky dedicou boa parte de sua vida à educação de crianças com necessidades educativas especiais e que uma razoável parte de sua obra é dedicada a elas. Quando, hoje, falamos em inclusão e os nossos olhos se voltam para aquelas crianças que vêm sofrendo um processo perverso de exclusão social e educacional, é de suma importância verificar o que esse grande educador tem a nos dizer a respeito. Apesar de produzida por volta de 1930, sua obra é mais do que atual e lança muitas luzes para a compreensão dos problemas relativos à educação especial e para a busca de uma intervenção inovadora. O que mais nos fascina em Vygotsky é que sua obra centrou-se na idéia da emergência de novas formas de compreensão da psyché humana1. Numa sociedade acostumada a uma concepção imutável e estática do indivíduo e da sociedade, é muito enriquecedora a contribuição deste autor que, contrariando a herança que nos foi deixada por grande parte das ciências sociais e psicológicas, vê aquelas entidades como sistemas complexos, constantemente submetidos a processos de desenvolvimento. Dóris Anita Freire Costa Mestre em Educação/ UFMG. Doutora em Lingüística/UFMG. Professora de cursos de Pós-Graduação-especialização em Psicopedagogia e Educação Especial, em Belo Horizonte e grande Belo Horizonte. Correspondência Dóris Anita Freire Costa Rua Timbiras, 249 Apto. 501 Belo Horizonte - MG Tel: (31)3227-3659 - Telefax: (31) 3222-6986 e-mail: [email protected] INTRODUÇÃO Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 232-40 ! VYGOTSKY E A EDUCAÇÃO ESPECIAL A concepção do ser humano como imutável, por nós herdada, gerou na sociedade, e também nos educadores, uma expectativa muito negativa com relação às possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento do aluno com necessidades educativas especiais, o que pode acarretar conseqüências desastrosas no processo educativo e de intervenção. Assumindo a perspectiva de Vygotsky, partimos do princípio de que nós e o mundo real, que nos insere, estamos em permanente movimento e transformação. Sob essa ótica, o que objetivamos nesse texto é oferecer ao leitor algum conhecimento a respeito da obra do autor dedicada às crianças com necessidades educativas especiais denominada Defectologia Soviética - e oferecer algumas pistas para a prática de intervenção. Visão dialética do problema O olhar com o qual Vygotsky nos propõe examinar as possíveis limitações dessas crianças não é de complacência ou desânimo, mas, sim, o de uma visão dialética do real, que leve à constatação de que, se existem problemas, existem também possibilidades. E os problemas podem ser uma fonte de crescimento. Desse modo, para o autor, um defeito ou problema físico, qualquer que seja sua natureza, desafia o organismo. Assim, o resultado de um defeito é invariavelmente duplo e contraditório. Por um lado, ele enfraquece o organismo, mina suas atividades e age como uma força negativa. Por outro lado, precisamente porque torna a atividade do organismo difícil, o defeito age como um incentivo para aumentar o desenvolvimento de outras funções no organismo; ele ativa, desperta o organismo para redobrar atividade, que compensará o defeito e superará a dificuldade. Esta é uma lei geral, igualmente aplicável à biologia e à psicologia de um organismo: o caráter negativo de um defeito age como um estímulo para o aumento do desenvolvimento e da atividade2. Vygotsky deixa transparecer a sua crença na plasticidade capacidade de se transformar do organismo e do ser humano na capacidade do indivíduo de criar processos adaptativos com o intuito de superar os impedimentos que encontra. Apesar de o organismo possuir, em potencial, essa capacidade de superação, ela só se realiza a partir da interação com fatores ambientais, pois o desenvolvimento se dá no entrelaçamento de fatores externos e internos. Nessa perspectiva, no caso dos cegos, seres privados de visão, todo o organismo se reorganiza para que as funções restantes trabalhem juntas para superar o impedimento, processando estímulos do mundo exterior com a ajuda de meios especiais, tal como o Braille. O mesmo acontece com os surdos, seres privados da audição, que desenvolverão capacidades visuais e espaço-temporais, na interação com instrumentos diversos, tendo a Língua de Sinais um papel preponderante nesse processo. É nessa perspectiva, também, que, para sujeitos com sérios problemas motores e que tenham grande dificuldade no ato da escrita, o uso de instrumentos como o computador ou, na falta desse, da máquina de escrever - atua como estímulo e como suporte para a superação de dificuldades. O defeito se converte, assim, no ponto de partida e na força propulsora do desenvolvimento psíquico e da personalidade. Qualquer defeito, segundo Vygotsky, origina estímulos para a formação da compensação ou superação. A lei geral da compensação, segundo ele, aplica-se da mesma forma ao desenvolvimento dito normal e ao complicado. Segundo Adler (apud Vygotsky2), a elevada tendência em direção ao desenvolvimento é originada pelo defeito. O autor afirma, ainda, que a lei da compensação ou superação desvela o caráter criador do desenvolvimento. Citando Stern, ele² completa que: tudo o que não me destrói, me faz mais forte, pois na compensação da debilidade surge a força, e das deficiências, as capacidades. O autor, entretanto, enfatiza constantemente o papel do contexto sociocultural nesse processo de superação. Esse processo não se realizaria de uma forma espontaneísta. Tal concepção seria avessa à perspectiva sociohistórica do autor, segundo a qual o desenvolvimento humano é um processo e um produto social. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 232-40 !! COSTA DAF Concepção dinâmica da inteligência Adotar o paradigma vygotskyano implica, como foi dito, apostar nas possibilidades de desenvolvimento do sujeito com necessidades educativas especiais. Nessa perspectiva, um conceito que devemos ter sempre em mente e que está implícito na noção de plasticidade é o de que a inteligência não é estática, mas dinâmica, podendo, portanto, evoluir. Outra noção que não pode ser esquecida é a de que um dos objetivos da educação é promover o desenvolvimento da inteligência. Vygotsky nos fornece as bases dessa concepção ao postular que a inteligência não é inata, mas se constrói nas trocas constantes com o meio ambiente. A educação se insere nesse contexto, tendo a escola um papel privilegiado nesse processo. Para isto, torna-se essencial lembrar o que o autor diz sobre as relações entre aprendizagem e desenvolvimento, o que é bem sintetizado no seu conceito de zona de desenvolvimento proximal. Nas palavras do autor3, a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) é compreendida como: a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. O conceito de ZDP nos mostra que, com a ajuda do outro adultos, professores, colegas mais capazes a criança terá possibilidades de produzir mais do que produz sozinha. Esse conceito nos aponta o que a criança tem em potencial, para as suas possibilidades não realizadas. Foi a partir dele que Vygotsky investiu no desenvolvimento de sujeitos com uma enorme gama de dificuldades: crianças diagnosticadas como deficientes mentais, crianças com Síndrome de Down, crianças cegas, surdas, com lesões cerebrais, etc. A crença nas possibilidades do indivíduo e no papel do aprendizado no desenvolvimento dessas possibilidades está bastante explícita nas obras de Vygostky dedicadas aos sujeitos com necessidades educativas especiais. Assim, ele diz: O comportamento atualizado é apenas uma infinitésima parte do comportamento possível. O homem está cheio de possibilidades não realizadas (...) Todas as crianças podem aprender e se desenvolver... As mais sérias deficiências podem ser compensadas com ensino apropriado, pois, o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental². Nessa abordagem, a expectativa com relação às possibilidades de desenvolvimento de nossos sujeitos é bem diferente daquela dominante na sociedade de uma forma geral. Entretanto, não é qualquer ensino que promove o desenvolvimento. É necessário que o processo de ensino-aprendizagem seja adequadamente organizado. Como seria essa organização? Vejamos, a seguir, algumas de suas pistas. Implicações para a prática de intervenção Os pressupostos apresentados têm ricas implicações na prática pedagógica e/ou psicopedagógica. Segundo tais pressupostos, o sujeito real, no caso, o sujeito com necessidades educativas especiais determinaria os recursos metodológicos a serem utilizados. É assim que: nas crianças com os problemas mais sérios deve-se desenvolver os sentidos sadios para compensar os que foram perdidos4. Desse modo, para os cegos, os recursos e instrumentos metodológicos devem explorar preferencialmente as sensações auditivas, táteis, cinestésicas, tal como se dá no uso do Braille, da música, no desenvolvimento da oralidade, etc. Enfim, deve-se propiciar ao cego possibilidades de explorar e interagir com os objetos de conhecimento, por meio dos seus sentidos sadios. No caso dos surdos, por sua vez, devem-se privilegiar recursos visuais, espaciais. Esse caminho seria o mais fácil, pois parte das reais possibilidades do aluno, o que lhe permitiria se apropriar do objeto de conhecimento de uma maneira mais eficiente5. Se os recursos metodológicos devem se adequar às necessidades dos alunos, o que dizer do conteúdo a ser assimilado? Tal questão Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 232-40 !" VYGOTSKY E A EDUCAÇÃO ESPECIAL preocupa os docentes e para ela Vygotsky também tem uma solução. Para ele o objetivo da educação do aluno dito especial é atingir o mesmo fim da criança dita não especial, utilizando meios diferentes. Isto parece implicar uma contradição que é apenas aparente porque é precisamente para que a criança dita especial possa atingir o mesmo que a criança dita não especial, que se devem utilizar meios absolutamente especiais. São, portanto, três os pontos que determinam todo o círculo do que é chamado de defectologia prática: 1. O que há em comum entre os objetivos da educação especial e da geral; 2. A particularidade e a peculiaridade dos meios aplicados na educação do aluno dito especial; 3. O caráter criador que deve fazer da educação do especial uma educação de superação social, de educação social e não uma escola de retardados mentais, o que impõe não se subjugar-se à deficiência, mas superá-la. A educação do aluno com necessidades educativas pressuporia, assim, a passagem de uma pedagogia terapêutica, que se centra nos déficits dos alunos, para uma pedagogia criativamente positiva, cuja visão é prospectiva, isto é, uma pedagogia que visa ao desenvolvimento do aluno, que investe nas suas possibilidades. Assim sendo, em vez de se centrar a atenção na noção de déficit ou lesão que impede ou limita o desenvolvimento, a atenção é focalizada nas formas como o ambiente social e cultural podem mediar relações significativas entre as pessoas com necessidades educativas especiais e o meio, de modo que elas tenham acesso ao conhecimento e à cultura. Os pressupostos de Vygotsky, apesar de formulados na década de 30, são, como já dissemos, absolutamente atuais e coincidem com muitos dos objetivos da escola inclusiva. Implicam o enriquecimento do ambiente de aprendizagem, dos recursos e meios a serem utilizados e não em uma educação empobrecida, como era comum se encontrar em escolas especiais. Vygotsky considera que a deficiência, defeito ou problema não constituiriam, em si, um impedimento para o desenvolvimento do indivíduo. O que poderia constituir esse impedimento seriam as mediações estabelecidas, as formas de lidarmos com o problema, negando possibilidades de trocas e relações significativas que possibilitam o crescimento do indivíduo. Nas palavras do autor: O efeito do déficit/defeito na personalidade e na constituição psicológica da criança é secundário porque as crianças não sentem diretamente seu estado de handicap. As causas primárias, a sua dita forma especial de desenvolvimento são as limitadas restrições colocadas na criança pela sociedade. É a realização sociopsicológica das possibilidades da criança que decide o destino da personalidade, não o déficit em si2. Em outras palavras, podemos dizer que, para o desenvolvimento do indivíduo, Vygotsky centraliza seu enfoque nas possibilidades oferecidas pelas mediações estabelecidas. O conceito de mediação é central em sua teoria e faz-se necessário determos um pouco nele. Mediação pedagógica e semiótica O termo mediação deve ser entendido como o elo intermediário entre o indivíduo e o meio. Quando feita pelo OUTRO adultos, professores, colegas mais adiantados, amigos costumamos chamar de mediação pedagógica. Quando feita pelos SIGNOS dentre os quais o mais importante é a linguagem - denominamos de mediação semiótica. Essas dimensões não são independentes, nem excludentes. Na verdade, são interdependentes e acontecem ao mesmo tempo. A separação que aqui se faz das duas se dá apenas por motivo de ordem didática. O conceito de mediação remete à questão da intervenção. Como já vimos, não é qualquer intervenção que possibilita o desenvolvimento do indivíduo. Uma intervenção adequada deve possibilitar trocas do indivíduo com o objeto de conhecimento; deve possibilitar ao indivíduo agir sobre o objeto de conhecimento, qualquer que seja sua natureza, explorando sua constituição física, estabelecendo relações entre objetos da Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 232-40 !# COSTA DAF mesma natureza comparando, ordenando, seriando, classificando, levantando hipóteses, etc. Apesar desse ser um dos pilares da teoria de Piaget, para quem a inteligência tem sua origem nas coordenações de ações, também Vygotsky enfatiza a necessidade da ação para o desenvolvimento intelectual, pois para ele o desenvolvimento da inteligência abstrata está profundamente interligado ao da inteligência prática5. Na perspectiva vygotskyana, a ação planejada seria um dos marcos diferenciadores entre o homem e o animal. Segundo Leontiev6, a atividade humana (ação planejada) implicaria intenção e volição ou ação voluntária, uma finalidade ou objetivo a atingir e os meios ou recursos para agir. Essa atividade estaria implicitamente ligada a uma necessidade básica do sujeito. Assim sendo, é preciso que o professor fique atento para que as ações sobre os objetos não se esgotem em si mesmas, não se reduzam a mero treino de habilidades perceptivo-motoras. Nessa perspectiva, colocar o aluno como sujeito do processo, implica conhecer as suas necessidades, sua volição (seu desejo) e coordenar as intenções deste com as de quem intervém, tendo sempre em mente que o objetivo é promover o desenvolvimento cognitivo do aluno. Tendo isso em mente, será mais fácil estabelecer os meios ou instrumentos para realizar a ação planejada. Para a mediação pedagógica, aqui assumida, são de extrema importância os pressupostos de Vygotsky, relacionados ao conceito de constituição social da mente e à relação que estabelece entre aprendizado e desenvolvimento, no qual se insere a noção de ZDP. Para Vygotsky, o indivíduo é constituído socialmente: todas as suas funções psicológicas têm origem social. Suas interações com o meio são construídas a partir de sua inserção em um universo histórico-cultural. A família, escola, comunidade e seus elementos constituintes pais, irmãos, professores, colegas, amigos fazem parte desse universo histórico-cultural e servem de elo intermediário entre o sujeito e o objeto de conhecimento. Esse conceito de constituição social da mente é formalmente explicitado por Vygotsky: Um processo interpessoal (entre pessoas) é transformado num processo intrapessoal (no interior da pessoa). Todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro no nível social, e, depois, no nível individual; primeiro entre pessoas (interpsicológica) e, depois, no interior da criança (intrapsicológica). Isso se aplica igualmente para a atenção voluntária, para a memória lógica e para a formação de conceitos. Todas as funções superiores originam-se das relações reais entre indivíduos humanos3. O texto acima chama a atenção para a importância das interações no aprendizado do indivíduo. Sendo assim, além de possibilitar ações, trocas entre o sujeito e o objeto de conhecimento, é fundamental possibilitar trocas entre os sujeitos, inter-ações. Ressaltamos, aqui, tanto a relação adulto, educador/aluno, quanto a relação entre alunos. A qualidade das interações é essencial para todos, mas, sobretudo, para aquelas crianças com necessidades educativas especiais que passam pelo processo de inclusão. O desenvolvimento desse processo é constituído pelas formas de interação e pode produzir êxitos ou fracassos, dependendo da maneira como ela é conduzida. Nessa mesma linha de pensamento, Smolka & Laplane7 afirmam que a maior facilidade ou dificuldade para aprender, assim como as muitas diferenças entre os indivíduos, teriam origem na complexa trama de relações e na participação de diferentes grupos na vida social, nos modos de fazer parte da cultura. O trabalho em grupos, e principalmente em duplas, é muito produtivo para o aprendizado do aluno. Vários estudos, tanto piagetianos, quanto vygotskianos, mostram a importância das trocas com colegas para o aprendizado. O trabalho em dupla é extremamente produtivo para os alunos que estão se incluindo. Mas, atenção, o professor deve ser cuidadoso ao constituir os grupos ou duplas. Teberosky (apud Freire Costa)4 chama a atenção para o fato de que as duplas ideais são aquelas constituídas por alunos de níveis de desenvolvimento diferente, mas não com Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 232-40 !$ VYGOTSKY E A EDUCAÇÃO ESPECIAL uma defasagem muito grande entre os mesmos. Assim sendo, o companheiro mais adiantado pode ajudar o colega, sem, entretanto, anular a sua participação. Ao se falar em mediação pedagógica, não podemos deixar de retomar a noção de ZDP. Estudos recentes têm ampliado essa noção e se referem a ela como um sistema de suporte ou andaime e estabelecem uma relação desse sistema com o desenvolvimento do aluno. Nesse sistema de suporte ou andaime, o professor, pares mais competentes e, também, recursos metodológicos e materiais utilizados são representados pela metáfora dos andaimes que, na construção de um edifício, são usados como suporte, a partir do qual se fazem subir as paredes . Observam Mortimer & Carvalho8: Há uma relação entre o sistema de suporte externo apostilas, experiências, professor e as estruturas internas. Os componentes desse sistema externo são janelas na evolução e aparecimento de construtos cognitivos, sendo uma parte essencial do sistema funcional, pois dão oportunidade a que mudanças ocorram nos sujeitos e permitem ao pesquisador ter acesso a essas mudanças. Dessa maneira, é interessante considerar a importância dos recursos oferecidos pelo desenvolvimento tecnológico - como o uso do computador e outros recursos multimídia - na educação dos sujeitos com necessidades educativas especiais. Assim como a produção de instrumentos técnicos, a produção de instrumentos semióticos ou desenvolvimento da função semiótica está no cerne da teoria de Vygotsky. A significação (criação e uso de signos) é atividade fundamental do ser humano, atividade que o constitui e o transforma, que, como a ação planejada, o diferencia do animal do ponto de vista psicológico. A função semiótica se manifesta pela capacidade de a criança representar objetos e fatos ausentes conhecidos, através de um conjunto de condutas que aparecem mais ou menos simultaneamente: a imitação na ausência do modelo, as imagens mentais, o desenho, o jogo simbólico ou brincadeira do faz-de-conta, a linguagem de uma forma geral (língua oral, Língua de Sinais, etc). Observe-se que a capacidade de representação, por possibilitar ao indivíduo evocar objetos ausentes, tornando-os presentes para os sujeitos, permite comunicação efetiva entre eles e construções mentais sobre a realidade5. No desenvolvimento da função semiótica, Vygotsky enfatiza a importância das brincadeiras e dos jogos do faz-de-conta. Nesses jogos, ao substituir um objeto por outro (um cavalo por um cabo de vassoura; um bebê por um pano enrolado), a criança está trabalhando a capacidade de representação, essencial para o desenvolvimento da linguagem (e muito especificamente da linguagem escrita), a mais importante das funções representativas ou semióticas. O desenvolvimento da linguagem, a mais importante das funções de representação, pressupõe, assim, o desenvolvimento dos sistemas semióticos (ou sistemas de signos). Para Vygotsky, os signos são meios auxiliares: agem como instrumentos da atividade psicológica, de maneira análoga ao papel de um instrumento no trabalho. Na sua forma mais elementar, o signo é uma marca externa, que auxilia em tarefas que exigem memória, atenção. O signo, como instrumento psicológico, isto é, como mediador, aumenta a capacidade de atenção e de memória e, sobretudo, permite maior controle voluntário do sujeito sobre sua atividade. A memória, mediada por signos, por exemplo, é mais poderosa do que a memória não-mediada9. Ao longo do processo de desenvolvimento, a utilização de marcas externas vai se transformando em processos internos de mediação. O desenvolvimento da função semiótica constitui uma das tarefas essenciais para quem trabalha com sujeitos com necessidades educativas especiais, uma vez que é fundamental para o desenvolvimento da linguagem de uma forma geral (não só da linguagem oral, mas também da linguagem escrita e de outras formas de representação, como a Língua de Sinais). Muitos deles apresentam um atraso significativo nessa função, Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 232-40 !% COSTA DAF o que se constitui em um obstáculo para o desenvolvimento da linguagem e apropriação da língua escrita. Muitas são as formas que podem ser trabalhadas em relação à função semiótica, promovendo o uso de signos diversos, em atividades, jogos, em que se usam determinadas marcas para registrar lugares, sons, objetos, conceitos. Trabalhar com sinais convencionais usados na sociedade, como sinais de trânsito, bandeiras, etc, leva os alunos a descobrirem o que esses sinais representam. Podem-se trabalhar, também, associações entre sinais e execução de determinadas ordens, brincadeiras de faz-deconta, teatros, fantoches, etc. Enfim, é importante que se explorem intensamente os signos ou marcas externas, objetivando levar os aprendizes a perceberem que eles representam algo, mas não se confundem com aquilo que representam5. Devido à natureza sociocultural do homem, a linguagem se dá na e pela interação verbal, seja diretamente com outros membros da comunidade, seja através de elementos culturais estruturados e oferecidos pelo meio ambiente. O desenvolvimento da linguagem pressupõe, pois, a possibilidade de imersão e ação intensas no mundo da linguagem - quer falada, quer escrita, ou demais códigos como a Língua de Sinais. Essa imersão implica possibilidades de dialogia, de interação verbal, de expressão do pensamento pela linguagem, de contato e manipulação dos mais variados portadores de texto (rótulos, histórias em quadrinhos, contos, jornais, revistas, bilhetes, cartas, anúncios, receitas, cartazes, etc). É no exercício da linguagem que a criança a desenvolve. As possibilidades de diálogo entre adulto, educador/aluno, entre aluno e seus pares é fator decisivo para o seu desenvolvimento lingüístico. Nos trabalhos dedicados ao ensino especial, Vygotsky enfatiza que ...os instrumentos lingüísticos, qualquer que seja sua forma, determinam desenvolvimento. Todos os sistemas (Braille, Língua de Sinais, datilologia, etc.) são instrumentos embebidos na ação e dão origem a significados. Eles permitem a uma criança internalizar a linguagem e a desenvolver aquelas funções mentais superiores para as quais a linguagem serve como base10. O parágrafo acima destaca que é a necessidade de comunicação que impulsiona, inicialmente, o desenvolvimento da linguagem. Além da função comunicativa, Vygotsky enfatiza, também, sua função de pensamento generalizante. A linguagem ordena o real, possibilita o agrupamento de todos os elementos de uma mesma classe de objetos, eventos, situações, sob uma mesma categoria conceitual9. Assim, segundo o autor 11 , a linguagem organiza o pensamento. Entretanto, tal função organizadora não exclui a comunicativa, pois é para se comunicar melhor, para interagir que o pensamento é organizado. Podemos verificar que, à medida que a criança se expressa e percebe que há um interlocutor procurando entender o que diz, sentirá a necessidade de se organizar, de deixar seu pensamento claro para que seja entendida. E quanto mais possibilidades tiver de interagir verbalmente com outros, mais possibilidades terá de desenvolver sua linguagem e organizar seu pensamento. O exercício da linguagem implica, também, a possibilidade de expressão. Expressar o que se pensa e como se pensa. Falar do que está planejando fazer, contar sobre um passeio ou um evento qualquer, narrar uma história que ouviu. O surgimento e desenvolvimento da linguagem implicam, além da possibilidade de, a necessidade de se expressar, o que é provocado pelo enfrentamento de situações práticas, que impulsionem, motivem o sujeito a falar. Isto seria válido, tanto para o aprendizado de palavras quanto para a construção de enunciados. Neste sentido, linguagem e atividade prática estão intimamente relacionadas. Esta relação é assim expressa por Vygotsky11: ...o momento de maior significado no curso do desenvolvimento intelectual, que dá origem às formas puramente humanas de inteligência prática e abstrata, acontece quando a fala e a atividade prática, então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento, se convergem. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 232-40 !& VYGOTSKY E A EDUCAÇÃO ESPECIAL As colocações acima são de suma importância para a educação dos sujeitos com necessidades educativas especiais! Pois, se a linguagem pressupõe dialogia, e se há uma relação íntima entre linguagem e pensamento, entre linguagem e atividade prática, uma forma bastante profícua de os educadores promoverem o desenvolvimento cognitivo de seus alunos é criar situações práticas que os motivem a interagir e exercitar a linguagem. Um exemplo das implicações da importância das formas de mediação pedagógica e semiótica sobre o desenvolvimento de alunos com necessidades educativas especiais pode ser visto em artigo publicado pela autora no número 65 dessa revista12. Considerações finais Como o texto nos mostra, as contribuições de Vygotsky para a educação dos alunos com necessidades especiais são inúmeras. Aqui oferecemos apenas alguns pontos centrais de sua obra, objetivando provocar no leitor o desejo de conhecê-la melhor. Um dos valores inestimáveis da obra de Vygotsky é que, além da preocupação em buscar novos paradigmas para a compreensão da psyché humana, propõe novas propostas de intervenção a partir deles. Assim é que, ao mesmo tempo em que nos propõe um novo olhar sobre a dita deficiência, nos dá pistas de como agir para superá-la. A sua crença na plasticidade do ser humano e da inteligência abre nossos horizontes com relação às possibilidades de desenvolvimento do indivíduo, qualquer que seja sua limitação. Os seus conceitos de mediação pedagógica e semiótica, de ZDP entre outros valorizam e dignificam o papel de quem intervém e nos mostram a importância da linguagem no desenvolvimento do indivíduo, das inter-relações, da dialogia, do que e como se fala na prática de intervenção. Seus trabalhos mostram-nos, também, que a educação do aluno com necessidades educativas especiais almeja os mesmos objetivos da educação do aluno dito não-especial. Os meios, as formas de se atingir esses objetivos é que seriam diferentes. Produzir esses meios implica pensar uma educação enriquecida, criativa, que possa se utilizar de instrumentos diversos, inclusive os produzidos pela modernidade, para que esse sujeito desfrute de uma educação de alta qualidade. Enfim, toda a obra de Vygotsky aponta para uma radical mudança frente aos alunos com necessidades educativas especiais. Nesse sentido, a deficiência ou limites, caso existam, não podem mais ser usados como álibi, como justificativa da estagnação, da educação empobrecida, da discriminação ou exclusão. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 232-40 !' COSTA DAF SUMMARY Overcoming limits: Vygotskys contribution to special education This text has the aim to show the contribution of Vygotsky to the work with individuals having special educative necessities. Vygotskys work points out innovative alternatives concerning special education besides offering a new paradigm for the understanding of flowing problems. Vygotsky uses a dialectic prospective approach of the individual and the society as well. By doing so, he concentrates his work considering the individuals possibilities, not their deficits or limitations. He shows that such deficits can become a source of development, which contradicts many opposing views. KEY WORDS: Education, special. Vygotsky. Psychopedagogical intervention. REFERÊNCIAS 1. Valsiner J. Developmental psychology in the Soviet Union. Sussex:The Harvester Press; 1988. 2. Vygotsky LS. Obras completas. Tomo cinco: Fundamentos de Defectologia. Havana: Editorial Pueblo Y Educación;1989. 3. Vygotsky LS. A formação social da mente. São Paulo:Martins Fontes;1984. 4 . Freire Costa DA. A apropriação da escrita por crianças e adolescentes surdos: interação entre fatores contextuais, L1 e L2 na busca de um bilingüismo funcional. [Tese Doutorado]. Belo Horizonte:FALE, Universidade Federal de Minas Gerais; 2001. 5. Freire Costa DA. Construindo possibilidades educativas para alunos com necessidades especiais. Educação especial inclusiva. PUC Minas Virtual;2004:97-114. 6. Leontiev AN. Actividad, consciência y personalidad. Buenos Aires:Ciências del Hombre; 1978. O presente trabalho faz parte do programa de doutoramento da autora, realizado na Faculdade de Letras da UFMG, tese defendida em setembro de 2001. 7. Smolka ALB, De Laplane ALF. Processos de cultura e internalização. Revista Viver: Mente e Cérebro. Coleção Memória da Pedagogia: Lev Semenovich Vygotsky uma educação dialética, São Paulo:Duetto;2005. p.76-83. 8. Mortimer EF, Carvalho AMP. Referenciais teóricos para análise do processo de ensino em salas de aula de ciências. Versão modificada de trabalho apresentado na 17a Reunião Anual da ANPED;Caxambu, MG;1994. 9. Oliveira MK. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento um processo sóciohistórico. São Paulo:Scipione;1993. 10. Werstsch J. Culture, communication and cognition: vygotskian perspectives. Cambridge:Cambridge University Press; 1990. 11. Vygotsky LS. Pensamento e linguagem. Lisboa:Antídoto;1979. 12. Freire Costa DA. Produção escrita e mediação: o papel do contexto escolar na produção escrita de sujeitos com necessidades educativas especiais. Rev Psicopedagogia 2004;65:94107. Artigo recebido: 10/06/2006 Aprovado: 08/08/2006 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 232-40 " A (IN) DISCIPLINA ESCOLAR NAS PERSPECTIVAS DE PIAGET, WINNICOTT E VYGOTSKY ARTIGO DE REVISÃO A (IN) DISCIPLINA ESCOLAR NAS PERSPECTIVAS DE PIAGET, WINNICOTT E VYGOTSKY Célia Godoy; Glaucy Abdon; Ivanil Correa Lopes; Lilian Cássia Bacich Martins; Silvia Regina Gramstrup; Wedja Oliveira Leal; Marisa Irene Siqueira Castanho RESUMO Neste artigo, os autores discutem o fenômeno da indisciplina escolar, com base nas teorias de Piaget, Winnicott e Vygotsky. UNITERMOS: Desenvolvimento.Aprendizagem. INTRODUÇÃO Vivemos dias de incerteza no plano das relações interpessoais, incertezas quanto às regras e ditames que regem essas relações, quer nos espaços macrossociais, quer nos espaços microssociais. Vivemos dias de assombro diante das forças agressivas do homem, o qual em nome de quaisquer princípios arbitrários, em defesa de interesses particulares, instaura regras acima e além do bem e do mal para regerem as relações sociais. Somos bombardeados por cenas de violência que refletem o nível de incivilidade e de confron- Célia Godoy; Glaucy Abdon; Ivanil Correa Lopes; Lilian Cássia Bacich Martins; Silvia Regina Gramstrup; Wedja Oliveira Leal - Mestrandas integrantes da Linha de Pesquisa Desenvolvimento Humano e Processo Ensino-Aprendizagem, do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade São Marcos. Marisa Irene Siqueira Castanho - Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo IPUSP; docente e pesquisadora da Linha de Pesquisa Desenvolvimento Humano e Processo EnsinoAprendizagem, do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade São Marcos. tos justificados para salvaguardar o poder, não importando de onde ele vem e em nome de quem ele se impõe. Se este é o cenário social com o qual nos deparamos, é nesse cenário que assistimos à transmutação constante dos elementos que dão sustentação a um certo universo simbólico cultural, cujas representações, crenças e valores dão o sentido das ações no plano das relações entre os homens, onde quer que elas ocorram. No caso da instituição escolar, espaço por excelência do processo de educação e de socialização, tem sido enorme o desafio de manter uma postura reflexiva e de ação frente à invasão Correspondência Dra. Marisa Irene Siqueira Castanho Rua Loreto, 61 apto. 81 V. Sto. Estéfano São Paulo SP 04152-130 Tel.: (11) 5077-4417 (11) 3491-0522 E-mail: [email protected] [email protected] Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 241-7 " GODOY C ET AL. histórica, damos pistas das abordagens escolhidas para tratar do tema da indisciplina. Salientamos não ser pretensão deste trabalho fazer correlações ou aproximações entre as teorias de Piaget, Winnicott e Vygotsky, pois estas possuem visões de homem e mundo diferentes. O objetivo é, a partir desses autores, refletir sobre o fenômeno da indisciplina escolar e encontrar apoios para seu enfrentamento no universo escolar. Alguns recortes das teorias em estudo podem trazer as contribuições anunciadas. No caso de Piaget, o foco recai sobre a idéia do julgamento moral como uma conquista do desenvolvimento das estruturas cognitivas na criança. A teoria do amadurecimento de Winnicott permite pensar sobre a natureza da agressividade e da conduta anti-social e nas possibilidades construtivas dessas forças agressivas. Por fim, a abordagem Sócio-Histórica de Vygotsky traz elementos fundamentais para compreender a constituição do humano nos espaços sociais. permanente de novas formas de relações, de crenças e de valores minando o cotidiano escolar e grassando a dinâmica das relações, diante das quais os educadores se mostram perplexos e, na maior parte das vezes, sem parâmetros de ação. É comum os professores se queixarem a respeito de alunos indisciplinados, sem limites, agressivos. Nesse sentido, entendemos a indisciplina escolar como um tema imprescindível aos professores, aos pais e a todos de alguma forma envolvidos com o desenvolvimento da criança. Optamos por abordar o tema pela ótica do desenvolvimento humano entendido como processo iniciado na família, depois com agregação da escola como responsável pela passagem dos estádios imaturos para a vida em sociedade. A indisciplina escolar pode, a depender de como for compreendida e enfrentada, revelar-se como fator de crescimento para professores, alunos e pais. Falar sobre (in)disciplina implica refletir sobre as questões de autonomia, de independência, de interdependência e de controle social presentes em todas as culturas. Tais questões estão na base de como é entendido o processo que leva à passagem do indivíduo à sociedade e da natureza à cultura. Ou seja, é nas relações construídas no cotidiano dos espaços institucionais sociais que se galga a lenta e conflituosa passagem para o desenvolvimento de um ser autônomo, em espaços potenciais para criar e viver sua condição social e histórica. As velhas teorias psicológicas tecem posicionamentos compreensivos sobre como e para que o homem se desenvolve. A questão é saber se estas teorias ainda podem trazer contribuições face às perplexidades do mundo de hoje. Quanto elas nos ajudariam a compreender o anseio pelo poder e controle como parte do desenvolvimento humano? Quão tênue seria o divisor de águas entre a ordenação dos desejos e os limites externos impostos, traçando os contornos do que é ou não possível e aceitável em cada grupo social? Ao falarmos no ser autônomo, ao referirmonos aos espaços potenciais e à condição social e A (in)disciplina escolar na perspectiva de Piaget A questão da indisciplina no cotidiano escolar, analisada sob a perspectiva da teoria de Piaget, nos leva à reflexão sobre sua concepção do desenvolvimento da moralidade. O estabelecimento de regras e a maneira como os alunos percebem essas regras está na base desta reflexão sobre a indisciplina, pois, ao discutir as relações entre moralidade e indisciplina, devemos estar atentos aos princípios subjacentes às regras implantadas e elaboradas pela escola: em especial, o princípio de justiça e a forma como a regra é estabelecida, ou seja, se o princípio é o da coação, por exemplo. Assim, ao considerarmos um ato indisciplinado ou não, necessitamos conhecer a natureza das regras que regem o grupo ao qual o sujeito pertence e a forma como as regras foram estabelecidas. Tal questão polêmica deve ser tratada em sua complexidade e na relação dialética entre a noção de justiça e o respeito às regras as quais, em Piaget1, desenvolvem-se dentro de um processo psicogenético de evolução. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 241-7 " A (IN) DISCIPLINA ESCOLAR NAS PERSPECTIVAS DE PIAGET, WINNICOTT E VYGOTSKY A partir da análise dos jogos de regras, Piaget1 identifica as etapas do processo de conscientização das mesmas. Na etapa da anomia, há a ausência de regras, por desconhecimento e pela falta de necessidade destas, pois a criança brinca para satisfazer suas necessidades motoras. Na fase da heteronomia, a criança percebe a existência de regras, mas sua fonte é externa, é determinada pelo adulto, não faz parte da brincadeira. Finalmente, quando atinge a autonomia, a fonte de existência das regras é o próprio indivíduo na sua relação com o outro. Piaget julga que o desenvolvimento do juízo moral segue as mesmas etapas. A disciplina, portanto, pode ser analisada a partir da interação estabelecida pelo indivíduo em relação a um conjunto de regras. Piaget pesquisa, também, as concepções infantis relacionadas ao dever moral, percebendo que, inicialmente, o dever é heterônomo, caracteriza-se por um respeito unilateral à ordem determinada, geralmente pelo adulto responsável. A primeira moral da criança é a da obediência e o primeiro critério do bem é, durante muito tempo para os pequenos, a vontade dos pais. A moral da primeira infância fica, com efeito, essencialmente heterônoma, isto é, dependente de uma vontade exterior, a dos seres respeitados ou dos pais. Logo, os primeiros valores morais são moldados a partir da regra recebida; por meio do respeito unilateral, esta regra é tomada ao pé da letra e não em sua essência. A descrença na lei estabelecida pelo adulto acontece quando este diz uma coisa e faz outra. Na fase intermediária de interiorização e generalização das regras, a criança passa a respeitar a regra em si e não às ordens do adulto. Ao atingir a próxima fase, a da autonomia, a criança passa a conceber o dever como sendo decorrente da reciprocidade, tornando-se capaz de uma certa reflexão, coordenando suas ações com as dos outros. A criança pode cooperar porque não confunde mais seu ponto de vista com o dos outros; é capaz de dissociar seu ponto de vista para coordená-lo com o dos outros e, assim, as discussões tornam-se possíveis. Ao analisar uma situação sob o ponto de vista do outro, colocando- se em seu lugar, é capaz de distanciar-se de suas concepções e compreender, não necessariamente aceitando, a posição adotada pelo outro frente à situação. Surge o sentimento de respeito mútuo baseado na cooperação, na colaboração e na solidariedade. Ou seja, aparece o sistema de coordenações sociais e individuais, produzindo uma moral de cooperação e de transição para a autonomia pessoal, em oposição à moral intuitiva de heteronomia, característica das crianças do período precedente. Com a autonomia, o indivíduo é capaz de discernir entre o certo e o errado, a partir de sua moral interna: as regras passam a serem internalizadas e sua percepção sobre o respeito a elas está regida pelos princípios de justiça característicos de sua sociedade. Toda moral consiste num sistema de regras, e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras1. Podemos concluir que, apesar de Piaget não se referir ao tema indisciplina, a revolta às regras ou o desconhecimento delas pode ser um dos fatores determinantes nos atos de indisciplina. Indivíduos autônomos não são, necessariamente, indivíduos disciplinados, mas, sem dúvida, são indivíduos capazes de analisar as regras e, a partir de sua reflexão, posicionarse em relação a elas. A (in)disciplina escolar na perspectiva da teoria do amadurecimento de Winnicott Winnicott não abordou especificamente o tema indisciplina escolar. Entretanto, em sua teoria do amadurecimento, encontramos conceitos relevantes, os quais podem fornecer pistas ao professor para o entendimento e enfrentamento da indisciplina na sala de aula. Referimo-nos aos conceitos de agressividade, de privação/ deprivação, de tendência anti-social e de espaço potencial. No entanto, antes de explorarmos estes conceitos, é necessário expor que, na perspectiva winnicottiana, o homem é compreendido na relação mantida com o ambiente. A interação com o ambiente, inicialmente, é a relação do bebê com a mãe (dependência absoluta), do qual depende Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 241-7 "! GODOY C ET AL. para constituir-se como humano. A relação com o ambiente iniciada com a mãe estende-se na relação com o meio no qual o indivíduo está inserido (dependência relativa) e isto inclui a escola como um ambiente socializador. A partir desta visão, apresentamos o primeiro conceito, o da agressividade. Segundo Winnicott2, a agressividade é motilidade, é energia potencializadora da ação e da expressão da criança no mundo, de natureza inata. Para Abram3, Winnicott afirma que o ambiente externo determina a forma como o bebê e, futuramente a criança, vai lidar com sua agressão inata, isto é, em um ambiente facilitador, esta agressão pode ser transformada e integrada na personalidade da criança, como uma energia que potencializará atividades no brincar, na escola e no trabalho. Já, em um ambiente no qual o bebê sofre de deprivações e ou privações, a agressão pode se reverter em violência e destrutividade. A deprivação para Winnicott2 é a perda de condições facilitadoras do ambiente, pressupondo que a criança tenha, em algum momento, vivido em um ambiente suficientemente bom e, por algum motivo, o perdeu. A privação acontece quando a criança nunca possuiu um ambiente facilitador, ou seja, nunca experimentou essas condições benéficas. O poema de Abram intitulado Comunicação da mãe para a criança nos faz compreender melhor e metaforicamente o que vem a ser um ambiente facilitador: Eu encontrei você;/Você sobreviveu a tudo o que eu fiz, e eu passo, então, a reconhecê-la/ Como não-eu;/Eu uso você;/Eu esqueço de você;/ Mas você se recorda de mim;/Continuo a esquercer-me de você;/Eu perco você;/Fico triste (Abram, 1968/2000, p.223). A criança que sofreu de privação ou deprivação no primeiro ambiente, ao apresentar comportamentos considerados como atos indisciplinares na escola, pode estar sinalizando um pedido de socorro, um S.O.S, na perspectiva winnicottiana. Trata-se da tendência anti-social que não é um diagnóstico, pois pode ser encontrada em indivíduos normais, indivíduos neuróticos, indivíduos psicóticos e em qualquer faixa etária. A criança anti-social olha além, pois busca os limites na sociedade a fim de desenvolver seu crescimento emocional. Winnicott2 entende que a tendência anti-social implica esperança, pois essa tendência [...] caracteriza-se por um elemento nela que compele o meio ambiente a ser importante. O paciente, por meio de pulsões inconscientes, compele alguém de se encarregar, de cuidar dele (Winnicott2, 1995, 130, grifos do autor). A criança pode cometer atos infracionais com o objetivo de que alguém a barre. Quando as forças destrutivas ameaçam dominar as forças de amor, o indivíduo precisa fazer algo para salvar-se. A saída, assim, é a dramatização do seu mundo interior (fantasia) no mundo exterior. Uma vez que ele possa representar o papel destrutivo, será capaz de provocar o controle de sua destrutividade por uma autoridade externa, isto é, ele espera que os limites que foram perdidos (a autoridade do pai) sejam redescobertos. O indivíduo está em busca do ambiente que está preparado para dizer não, não como punição, mas como um incentivador do sentimento de segurança (Abram3, 2000, p. 44, grifo do autor). Desse modo, pais e professores não devem deixar as crianças diante de uma autoridade frouxa, a tal ponto que elas mesmas assumam a autoridade. Além da dramatização, um outro método é por meio de jogos ou trabalhos que envolvam ação, podendo causar prazer, eliminando os sentimentos de frustração e ofensa, por exemplo: lutar boxe; chutar bola, ou a menina que brinca de estar esperando um bebê. Em todo jogo, trabalho e arte está o remorso inconsciente por um dano causado na fantasia inconsciente e um desejo (também inconsciente) de começar a corrigir as coisas. Em seu artigo Moral e educação, Winnicott4 afirma que a criança tem a capacidade para ser educada moralmente, mas a insistência em uma organização moral imposta faz com que se perca sua criatividade. Muitas vezes, é preciso favorecer os espaços potenciais de criação para que a criança tenha a ilusão que criou a educação moral. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 241-7 "" A (IN) DISCIPLINA ESCOLAR NAS PERSPECTIVAS DE PIAGET, WINNICOTT E VYGOTSKY O espaço potencial, outro importante conceito desenvolvido por Winnicott, é um lugar que não é nem interno nem externo, é uma instância intermediária na qual o ser humano pode criar e recriar experiências a partir das oportunidades e condições ambientais suficientemente boas5. Assim, em um contexto de condições suficientemente boas, o ambiente poderá fornecer elementos para suprir ou reparar necessidades que o indivíduo tem ou teve no primeiro ambiente. Na abordagem psicanalítica de Winnicott, entendemos os atos de indisciplina como, muitas vezes, um pedido de socorro demonstrado em uma tendência anti-social. A escola como um ambiente suficientemente bom pode fazer uso de sua especificidade pedagógica, propiciando ao aluno espaços potenciais, nos quais ele exerça sua criatividade e, assim, utilize sua agressividade (motilidade) e atividade de maneira positiva. A (in)disciplina escolar na perspectiva sócio-histórica de Vygotsky A questão da indisciplina pode ser entendida na perspectiva de Vygotsky de várias formas. Inicialmente, é necessário entender alguns pressupostos da Psicologia Sócio-Histórica, mais especificamente como o homem é visto nessa perspectiva. É válido ressaltar que Vygotsky não fez referências diretas à indisciplina, porém, a partir de suas idéias, nos propusemos a fazer uma relação entre alguns pressupostos de sua teoria e a indisciplina, como fez a autora Teresa Rego6. Vygotsky criou uma teoria de desenvolvimento da mente humana que, ainda nos dias atuais, traz contribuições significativas para a educação. Sua teoria, também conhecida como Sócio-Histórica ou Histórico-Cultural, tem se constituído como base para as práticas educativas. Para Davidov e Zinchenko7, Vygotsky enfatizou a importância do convívio social, afirmando que as práticas educativas, formais e informais, são meios sociais para organizar uma situação de vida, a fim de promover o desenvolvimento mental da criança. Segundo Oliveira8,9, o pressuposto básico da obra de Vygotsky é a idéia do homem constituirse como tal a partir da sua relação com o outro. O outro se representa, então, pela cultura historicamente acumulada. O homem é, portanto, entendido como ser social e histórico, porém não condicionado a essa história, tendo possibilidades de transformar sua realidade. Uma das muitas preocupações de Vygotsky10 foi a relação entre desenvolvimento e aprendizagem, buscando entender a origem dos processos psicológicos. A diferença básica entre os estudos do autor e de outros pesquisadores dá-se, principalmente, pelo fato de, para este autor, o aprendizado estar relacionado ao desenvolvimento. Ou seja, o indivíduo, na medida em que aprende, desenvolve-se e, por meio do aprendizado, processos internos estruturamse, em especial, o pensamento e a linguagem. Vygotsky11 ressaltou a importância da linguagem como instrumento de formação do pensamento, ou seja, a linguagem age decisivamente na estrutura do pensamento e é a ferramenta básica para a construção de conhecimentos. Em seus estudos, Vygotsky postulou a possibilidade de transformar o mundo concreto, pelo emprego de ferramentas, estabelecendo condições para mudar suas ações e transformar qualitativamente sua consciência. A consciência e as funções superiores, para este teórico sóciohistórico, têm origem no espaço externo, na relação com os objetos e com as pessoas, nas condições objetivas da vida em sociedade. Vygotsky enfatizou o desenvolvimento psicológico de cada sujeito como resultado do progresso geral da humanidade mediado por instrumentos desenvolvidos pelos homens, pois, [...] é na atividade prática, nas interações que os homens estabelecem entre si e com a natureza, que se originam e se desenvolvem as funções psíquicas especificamente humanas12. Segundo Rego6, a mediação possibilita dois processos que favorecem a constituição psicológica do sujeito: o interpsicológico e o intrapsicológico. A atividade mediada passa por um processo Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 241-7 "# GODOY C ET AL. interpsicológico ou interpessoal. Quando esta atividade torna-se independente e voluntária, passa por um processo intrapsicológico ou intrapessoal, baseado em valores, imagens e representações mentais. Vygotsky (apud Rego6) entende a constituição psicológica como [...] um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social. Podemos inferir que a relação homem-mundo é uma relação mediada. Para Rego6, com base na construção social do sujeito, as características psicológicas e socioculturais não são dadas a priori, nem fornecidas pelas pressões sociais, e sim, formam-se a partir das inúmeras e constantes interações do indivíduo com o meio. A sociedade e o indivíduo são vistos como sistemas complexos e dinâmicos, submetidos a ininterruptos e recíprocos processos de desenvolvimento e transformação. Todavia, falar em desenvolvimento humano é falar em seu contexto cultural. Nesta perspectiva, a indisciplina escolar resulta de um processo compartilhado com pessoas e outros elementos da cultura na qual os sujeitos estão inseridos. O comportamento indisciplinado dependerá, portanto, de experiências e de relações com o grupo social e a época histórica. Entende-se a família como primeiro contexto de socialização do indivíduo; contudo, os traços que caracterizam a criança e o jovem ao longo de seu desenvolvimento não dependerão exclusivamente das experiências vivenciadas no interior da família, mas das inúmeras aprendizagens do indivíduo, em diferentes contextos socializados, tais como: instituições sociais, meios de comunicação e práticas sociais, entre outros instrumentos de mediação. Dessa forma, o ato tido como disciplinado ou indisciplinado resulta das considerações do todo do contexto social e cultural, no qual os alunos estão inseridos e por meio dos quais constroem suas relações. Considerações finais Os objetivos deste artigo foram: primeiro, entender a indisciplina escolar como parte processo de desenvolvimento das nossas crianças e, segundo, compreendê-la como fenômeno complexo constituído nas relações sociais e como processo de constante burilação da natureza humana rumo a um projeto de desenvolvimento social. Buscamos, na revisão de alguns aspectos das teorias de Piaget, Winnicott e Vygotsky sobre o desenvolvimento humano, subsídios teóricos para tal reflexão, trazer contribuições para os educadores refletirem sobre a indisciplina e recriarem situações de sala de aula. Retomando a análise inicial do contexto no qual vivemos hoje, no que diz respeito à escola, talvez imponha-se a premência da revisão de discursos extremos de leis não aplicáveis a uma realidade mutante historicamente, alguns limites de certo e errado estão se reconfigurando, gerando um desconforto generalizado, acompanhado o sentimento de impotência sobre o que fazer. Impõe-se um esforço aos participantes da dinâmica escolar, alunos e professores, diretores e coordenadores, funcionários e pais para o estabelecimento de ações de reciprocidade e de reflexões coletivas propiciadoras da construção participativa de um projeto educacional, o qual indique os rumos da educação que se quer seguir. O presente estudo não tem a pretensão de esgotar ou finalizar a discussão, mas de fazer parte da espiral de conhecimento que se procura construir acerca do desenvolvimento humano. Considerar as regras dele como parte do desenvolvimento humano não significa impô-las, mas implicar-se nos processos educacionais favorecedores de condições de criação, autonomia, de ética e moral nos relacionamentos interpessoais. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 241-7 "$ A (IN) DISCIPLINA ESCOLAR NAS PERSPECTIVAS DE PIAGET, WINNICOTT E VYGOTSKY SUMMARY The school (in) discipline in the Piagets, Winnicotts and Vygotskys perspectives In this article, the authors discuss the school indiscipline phenomenon, with base in Piagets, Winnicotts and Vygotskys theories. KEY WORDS: Development. Learning. REFERÊNCIAS 1. Piaget J. Juízo moral. Rio de Janeiro: Forense;1994. 2. Winnicott D. Privação e delinqüência. Porto Alegre:Artes Médicas;1995. 3. Abram J. A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro:Revinter;2000. 4. Winnicott D. Os processos de maturação da criança. Porto Alegre:Artes Médicas;1983/ 1990. 5. Dias EO. A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott. São Paulo:Imago;2003. 6. Rego TC. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis:Vozes; 1995. 7. Davidov V, Zinchenko VP. A contribuição de Vygotsky para o desenvolvimento da Psicologia. In Daniels H, ed. Vygotsky em foco: Trabalho originalmente apresentado à disciplina Fundamentos Psicossociais do Desenvolvimento Humano, do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade São Marcos, em novembro de 2005 e em Mesa-Redonda com o mesmo título no evento Saber 2006, São Paulo, em 3 de setembro de 2006. 8. 9. 10. 11. 12. pressupostos e desdobramentos. São Paulo: Papirus;1994. Oliveira MK. Vygotsky - aprendizado e desenvolvimento: um processo sóciohistórico. São Paulo:Scipione;1993. Oliveira MK. A indisciplina e o processo educativo: uma análise na perspectiva Vygotskiana. In: Aquino JG, org. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo:Summus;1996. Vigotski LS. A formação social da mente. São Paulo:Martins Fontes;1998. Vigotski LS. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo:Martins Fontes; 2001. Palangana IC. Desenvolvimento & aprendizagem em Piaget e Vygotsky - A relevância social. São Paulo:Plexus;1994. Artigo recebido: 03/07/2006 Aprovado: 14/09/2006 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 241-7 "% MASINI ARTIGO DE EFS REVISÃO FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOPEDAGOGIA: EMBATES E DESAFIOS Elcie F. Salzano Masini RESUMO As publicações sobre Psicopedagogia, em livros e revistas especializadas, comprovam que essa área de estudos já existe há décadas, no Brasil e na Europa. Esses anos de existência, no entanto, não foram suficientes para uma clara delimitação do objeto e especificidade da área. Restam, entre os próprios profissionais, embates sobre fins, local de exercício, modalidades e recursos de atuação e, com profissionais de outras áreas, discussões sobre os limites de seu objeto de estudo. Em meio aos problemas de delimitações, há concordância que a Psicopedagogia é a área que estuda o processo de aprendizagem e seus bloqueios. Ao tratar de aprendizagem no Século XXI um cenário onde o homem se debate no movimento entre o real e o virtual, submerso cada dia mais em profusão de informações a Psicopedagogia enfrenta um dos maiores desafios de nossa época. Como lidar com o aprender do ser humano neste cenário? A busca de uma resposta demanda, em primeiro lugar, a definição precisa de seu objeto de estudos e especificidade, como quadro referencial de delimitação dessa área. Isso requer aprofundamento de estudos, de pesquisas e análise crítica das mesmas condição indispensável para discussão sobre a formação de profissionais. Este é o tema desta comunicação. UNITERMOS: Psicopedagogia, história. Competência profissional. Área de atuação professional. Elcie Masini Doutora e Livre Docente. Correspondência Dra. Elcie Masini Rua dos Franceses, 498 Bloco F apto 142 São Paulo SP Tel.: (11) 3287-8765 E-mail: [email protected] Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 "& FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOPEDAGOGIA: EMBATES E DESAFIOS INTRODUÇÃO A identidade da Psicopedagogia não está ainda bem delimitada como área de estudos, apesar de décadas de existência, no Brasil e na Europa, comprovadas em livros e revistas especializadas. Permanecem discussões e embates com os próprios pares, em meio a mal entendidos sobre fins, locais, modalidades e recursos de atuação. Persistem questionamentos de outros profissionais sobre a especificidade de seu objeto de estudos, frente a: 1) diversidade de atividades sob essa denominação, em publicações, na atuação dos que se denominam psicopedagogos, em cursos de extensão, especialização e pós-graduação lato sensu; 2) desempenho de funções de áreas com as quais apresenta interfaces: Psicologia Educacional, Didática e Ensino, Psicoterapia, Psicologia Institucional e Educação Especial. Esses embates assinalam a necessidade de precisão e clareza sobre o objeto de estudos e a especificidade da Psicopedagogia, tornando-se indispensável compor um quadro referencial de delimitação dessa área. Apesar das difusas demarcações, há concordância que a Psicopedagogia é a área que lida com questões referentes ao processo de aprendizagem e seus bloqueios. Ao adotar essa definição, os psicopedagogos assumem um dos maiores desafios no contexto do Século XXI cenário em que vive o homem, tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento. Ovadia 1 (Frédéric Ovadia - professor da equipe pedagógica do Institut dAdministration des Entreprises de Nice) contribui para tornar mais claro o significado desse desafio. Conforme assinala esse pesquisador, a cada instante, o mundo se enriquece de paradigmas e paradigmas... e o homem aí está em um mundo homogeneizado, enfrentando enorme quantidade de informações, das quais participa virtualmente e pelas quais compartilha angústias realmente. No movimento entre o real e o virtual, o homem se debate, submerso a cada dia mais em profusão de informações, distante das complexidades e mistérios do que vivencia. Com a globalização do mundo e os novos contextos sistêmicos fica, assim, condenado a uma aprendizagem modelada por estratégias impostas e sem fundamentos... e... para poder criar e recriar em um mundo permanentemente em mudança e participar de forma mais livre, mais justa e, especialmente, mais ética, há necessidade de chaves para incluir, para compreender, para aprender, chave para abrir a porta de um caminho em que o homem recobre sua maneira própria de sentir, pensar, agir em meio a tantas informações... Este é o panorama para nossa reflexão em Psicopedagogia. Como enfrentar essas questões para lidar com o ser humano neste cenário do século XXI: como lidar com o seu aprender, que traz implícito o lidar com o próprio aprender? Serão retomados alguns pontos de embates e de desafios que a Psicopedagogia tem enfrentado e enfrenta, em um breve histórico desta área desde seu surgimento. A partir daí, serão pontuadas algumas questões referentes à formação do profissional em Psicopedagogia. Histórico A Psicopedagogia, como área de estudos, surgiu da necessidade de atendimento e orientação a crianças que apresentavam dificuldades ligadas à sua educação, mais especificamente à sua aprendizagem, quer cognitiva, quer de comportamento social. Procuravase, assim, o porquê ocorria essa problemática, avaliando e diagnosticando a criança, física e psiquicamente. Envolvidos nessa busca, estavam professores, psicólogos, médicos, fonoaudiólogos e psicomotricistas. Nessa primeira etapa da história da Psicopedagogia, todo diagnóstico recaia sobre a criança, o que significava que nela estava o problema, sendo então encaminhada para atendimento especializado. Esse enfoque de diagnóstico, prescrição e tratamento, envolvendo prognóstico, trazia implícita uma concepção de que o fim da educação era de adaptar o homem à sociedade. O Quadro 1 mostra essa tendência na Europa, nas décadas de 20 a 40, presentes ainda na década de 60. Mauco2, diretor dos Centros Psicopedagógicos da Academia de Paris, em Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 "' MASINI EFS publicação, esclarece que a denominação psicopedagógico foi escolhida, em vez de médico-pedagógico, porque os pais enviariam com mais facilidade seus filhos a uma consulta psicopedagógica do que a uma consulta médica. Os Centros contavam com equipes de médicos, psicólogos, psicanalistas, pedagogos, reeducadores de psicomotricidade, da escrita e grafia. O médico era responsável pelo diagnóstico: realizado a partir de dados da investigação familiar, condições de vida, atmosfera familiar, relações conjugais, métodos educativos, resultados de testes de Q.I. - época em que os testes de inteligência eram considerados de alta credibilidade. Após o diagnóstico, o médico dava orientação para o tratamento, quer de reeducação, Quadro 1 - Breve esboço de uma linha histórica da Psicopedagogia na Europa. 1920 1946 Década de 60 Década de 70 Áustria Clínicas Pedagógicas Orientação de professores para trabalharem com dificuldades educacionais. Adler3 Academia de Paris 1o Centro Psicopedagógico Claude Bernard- para crianças com problemas escolares e/ou de comportamento. Discordâncias na concepção diagnóstica. Vasquez e Oury4 questionam a Educação e a Psicologia. Renunciam à ótica do medir, testar, rotular. Criticam as referências padronizadas, descontextualizadas. Desenvolvem Pedagogia Institucional: pedagogo e psicóloga convivem com professores e alunos, participando de todas as atividades nas quais conhecem os alunos e propõem novas atividades para seu desenvolvimento. Instituto de Pesquisa e Documentação Pedagógica de Paris publica, em 1972, debate sobre o tema problema escolar x inadaptaçãopatologia No enfoque inadaptação, estava Heuyer8 , eminente neuropsiquiatra infantil na França -reprovava nos pedagogos atitudes anti-médicas, e reivindicava a criança inadaptada como propriedade de sua área de atuação. Heuyer denominava inadaptadas ou deficientes crianças com dificuldades ou atraso escolar, enfatizando a importância do diagnóstico completo de psiquiatra infantil para estabelecer a etiologia e avaliação orgânica e psicológica para tratamento médico e educação apropriada. No enfoque problema escolar, Bloch Laine, encarregado pelo Primeiro Ministro francês, mostrava que o excessivo número de fracassos na escola não podia ser atribuído à patologia da criança. Dessa forma, pôs em questão as patologizações ligadas ao fracasso escolar, enfatizando o aspecto social. Mauco (1964), diretor dos Centros Pedagógicos, esclarece a denominação: sendo psicopedagógico, os pais levariam com mais facilidade seus filhos do que médico-pedagógico. Equipe dos centros: médicos, psicólogos, psicanalistas, pedagogos, reeducadores de psicomotricidade/ escrita e grafia. O Médico era responsável pelo diagnóstico e pela orientação para o tratamento e reeducação. O diagnóstico pedagógico visava esclarecer a inadaptação escolar e social e corrigi-la. Título da publicação de Mauco sobre os Centros Psicopedagógicos: A inadaptação escolar e social e seus remédios. Manonni5-7 reiterava essas críticas afirmando: diagnosticar, encaminhar para a reeducação para adaptar a criança à Sociedade e à Escola não é educar, é adestrar é submetêla docilmente às instituições e a uma sociedade onde deve ser eficiente. Critica o diagnóstico que fragmenta a criança e encaminha para atendimento especializado com finalidade de readaptála. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 # FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOPEDAGOGIA: EMBATES E DESAFIOS quer de terapia. Nesse enfoque de trabalho, o diagnóstico pedagógico visava esclarecer a inadaptação escolar e social e corrigi-la. O título da publicação de Mauco sobre os Centros Psicopedagógicos ilustra isso: A inadaptação escolar e seus remédios2. Na França, na década de 60, tiveram início as críticas a essa linha de trabalho dos Centros. Vasquez e Oury4 não aceitavam essa conceituação diagnóstica, bem como questionavam a Educação e a Psicologia. Argumentavam que, sem considerar as manifestações da criança em sua classe e outras situações na escola e fora dela, corriase o risco de estar apenas comparando-a com padrões abstratos. Manonni5-7 reiterava essas críticas ao afirmar que todos sabiam falar de diagnóstico e encaminhar para reeducação, para adaptar a criança ao que a sociedade e a escola dela esperavam, o que, segundo afirmava, não era educar, mas forçá-la a submeter-se, docilmente, às instituições que reproduziam os valores sociais, adestrando-a. Esses estudos aprofundados e pesquisados eram documentados em publicações especializadas. O problema da pesquisa em psicopedagogia foi analisado em artigo de periódicos especializado por Henriot9, discutido sob diferentes ordens: 1) prática, referente à especificidade da psicopedagogia de ter como objeto o estudo do comportamento do aluno e as relações deste frente ao que lhe era ensinado, diferenciandoa de outras áreas; 2) teórica, referente às implicações da fundamentação teórica da pesquisa em psicopedagogia; 3) subjacentes às duas anteriores, referente às interrelações entre psicólogos e pedagogos em psicopedagogia. O Instituto de Pesquisa e Documentação Pedagógica de Paris publicou, em 1972, o debate problema escolar x inadaptaçãopatologia: Nesse debate, Heuyer8, um dos mais eminentes neuropsiquiatras infantis na França, defendia o diagnóstico dos Centros; Bloch Laine, designado pelo primeiro ministro francês, argumentava que não se podia reduzir a questão do problema escolar à patologia da criança, frente ao excessivo número de fracassos que a escola vinha enfrentando. A questão do fracasso pôs em xeque a crença no diagnóstico e contribuiu para que a Psicopedagogia entrasse em outra fase. No Brasil, como pode ser visto no Quadro 2, as fases da Psicopedagogia assemelham-se às que ocorreram na Europa, embora em décadas posteriores. Os primeiros registros de atividades de uma psicopedagoga Genni C. Moraes dizem respeito ao atendimento a alunos com dificuldades para aprender. A trajetória dessa pioneira na área ilustra dados relatados por Rubinstein10, sobre a história da Psicopedagogia no Brasil. Conforme esta autora, as dificuldades para aprender eram atribuídas a uma inaptidão ou distúrbio do aluno, o que o impedia de aprender como seus demais pares, as causas ficando depositadas nele, principalmente. Os primeiros psicopedagogos eram profissionais da educação, que queriam ajudar na reintegração daqueles que estavam à margem. Assim, na própria prática eram encontradas as técnicas que melhor atendessem à necessidade do aprendiz para reeducá-lo de forma mais eficaz e específica. Buscavam entender melhores as questões referentes às dificuldades, estudando psicologia, neurologia e psicomotricidade. Para formar esses profissionais, surgiram cursos de extensão de professores brasileiros com experiência em atendimento a crianças com dificuldades escolares e professores estrangeiros, principalmente da França e Argentina. Na década de 70, começaram os cursos de especialização, com profissionais experientes na área de educação, de psicologia, de aconselhamento escolar e em aprendizagem. Foram, concomitantemente, desencadeadas várias pesquisas sobre aprendizagem e sobre alunos de escolas públicas: Poppovic11-14, Ronca16, Masini17, Oliveira Neto18, Saad19, entre muitas outras. A questão do fracasso, que pôs em xeque a crença no diagnóstico, teve início também no Brasil: Gatti et al.20; Collares24 retomou o tema, discutindo-o frente às questões de ordem orgânica versus social; Fonseca22 apontou o problema das responsabilidades para lidar com o fracasso escolar; Patto22 focalizou o fracasso escolar e o discurso que evidencia os padrões Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 # MASINI EFS década de 70 já assinalavam essa mudança de enfoque. É importante esclarecer que não se está negando a existência de distúrbios ou transtornos neurológicos desencadeadores de problemas de aprendizagem. O aprendiz com esses problemas merece atenção e requer específicos conhecimentos para seu atendimento psicopedagógico. O que importa frisar é que estes casos constituem pequena porcentagem dos fracassos na escola. Ciente disso, a Psicopedagogia ampliou seu campo de atuação, deixou de focalizar o problema para focalizar o aprendiz1 . estabelecidos. Esses autores são aqui citados para ilustrar a tendência a enfocar os aspectos sociais, em vez de restringir-se aos fatores intrapsíquicos, orgânicos e familiares. Surgia, dessa forma, no Brasil, como em outros países, o que alguns denominavam tendência de trabalho preventivo em Psicopedagogia. Nas décadas de 60 e de 70, na Europa, e de 80, no Brasil, aparece a ênfase ao aspecto social ligado ao fracasso escolar. O Ministério de Educação da França, no documento já citado, mostrou que mais de 50% das crianças não faziam o primário no tempo estabelecido. Segundo dados de 1999, do Instituto Nacional de Educação e Pesquisa (INEP/ MEC26), sobre a aprendizagem nas escolas públicas, o porcentual de alunos que estão acima da idade correta é de 45,8%, na 1ª série do Ensino Fundamental, 69,2%, na 5ª série e 67,5%, no Ensino Médio. Os dados de escolarização no Brasil, em 2001 (MEC), apontam a seguinte porcentagem de alunos com idade acima do esperado no Ensino Fundamental, em cada série: 1ª série - 25,3% ; 2ª série - 31,9%; 3ª série 38,0%; 4ª série - 39,4%; 5ª série - 50,0%; 6ª série - 45,0%; 7ª série - 45,5%; 8ª série - 45,7%. Essas porcentagens crescem em cada série devido ao número de reprovações acumuladas, que, em outras palavras, significa fracasso escolar. Esses dados corroboram com os questionamentos às patologizações, como gênese do fracasso escolar e os problemas de aprendizagem serem investigados com enfoque exclusivo nos fatores individuais do aluno. O ponto nevrálgico da questão passou a ser o papel da escola para efetivo preparo da clientela que a freqüentava, analisando a adequação da estrutura e funcionamento dessa instituição, do currículo, e das condições de preparo do professor e de ensino aí propiciadas. A escola passou a ser vista como uma das instituições de uma comunidade ligada por uma trama de valores, hábitos, linguagem, conceitos e padrões de comportamento. Ampliaramse os temas e passaram a ser pesquisados, também, os fatores intra-escolares e os de ordem social, econômica e política envolvidos na aprendizagem. As pesquisas desencadeadas a partir da Embates O Quadro 2 Breve esboço da Psicopedagogia no Brasil - assinala a convivência de trajetórias paralelas, isto é, o caminhar sem complementaridades de pesquisas referentes à aprendizagem e de atividades de entidades e profissionais da área da psicopedagogia. Por que isso tem ocorrido? Por que pesquisadores de renome nacional, como Poppovic, cujas contribuições referentes a processos de aprendizagem, que foram e são reconhecidas nos meios acadêmicos, ficam no esquecimento e não são referenciados em livros, revistas e sites especializados em psicopedagogia? Por que as pesquisas de dados da realidade brasileira, ligadas à aprendizagem, realização escolar, criança culturalmente marginalizada, escola e comunidade, formação de professores e currículo, orientação cognitiva, ensinoaprendizagem não são utilizadas ou referendadas pelos psicopedagogos? O que significa essa trajetória paralela que o Quadro 2 mostra? Para nossa reflexão a esse respeito, retomamos as idéias de Erney Camargo - presidente do CNPq, uma das mais renomadas instituições responsáveis por pesquisas no território nacional. De acordo com esse experiente pesquisador, é coletando dados do próprio contexto social, organizandoos e sistematizandoos que as ciências sociais, em cada comunidade científica, fortalece-se e sua contribuição passa a ser reconhecida. Há, além disso, necessidade da comunidade científica estar *O termo aprendiz é utilizado aqui no sentido geral de o ser que aprende, e não no sentido específico de aqueles que aprende arte ou ofício Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 # FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOPEDAGOGIA: EMBATES E DESAFIOS Quadro 2 - Breve esboço de uma linha histórica da Psicopedagogia na Brasil. Década de 50 Genny Golubi de Moraes, psicopedagoga de 1959 até 1996, realizou trabalho pioneiro, na Clínica Psicológica da PUC-SP, convidada por Ana Maria Poppovic: acompanhamento a crianças com dificuldades escolares. Atendia crianças, em grupos de 5, dando exercícios gráficos e corporais para a lateralidade. As crianças eram observadas em atividades, para ser identificada qual era a dificuldade de cada uma e se seria necessário atendimento separado do grupo (Rubinstein10) Coordenou a formação em psicopedagogia nessa Universidade. Sua formação recebeu influência marcante da psicopedagogia francesa. Formava, em geral, pedagogas, afirmando que as psicólogas, de modo geral, não se interessavam por essa área. Década de 70 Década de 80 Ana Maria Poppovic11-13 interessase pela psicopedagogia e realiza pesquisas e publica livros e artigos sobre: realização escolar, criança culturalmente marginalizada, escola, comunidade, currículo, orientação cognitiva, ensinoaprendizagem. Início de Cursos de Especialização em São Paulo (Instituto Sedes Sapientiae), em 1978 Masini. Objetivo: fornecer recursos a profissionais para compreenderem e lidarem com o processo de aprendizagem - condições que facilitam e recursos para prevenir problemas nessa área, recursos para diagnosticar e lidar com dificuldades de aprendizagem em situações reais (Masini14). 1979 Vassimon Objetivo: formar educadores especializados, capazes de lidar com adaptação e reintegração dos alunos, nas defasagens de aprendizado. Integravamse, na prática, mecanismos psicológicos e construções do conhecimento além dos fundamentos pedagógicos. (Carvalho et al.15). Início de dissertações, pesquisas, publicações sobre processo de aprendizagem e relações professor aluno - Ronca16, Masini17, Oliveira Neto18, Saad19. unida para um aperfeiçoamento do sistema de avaliação de sua produtividade científica, participando ativamente e conjuntamente. Essas idéias constituem sugestão para que sejam analisados os problemas da pesquisa em psicopedagogia no Brasil, nos seus vários aspectos, Fundada a Associação Estadual de Psicopedagogia de São Paulo (1980). Início da publicação do Boletim da Associação de Psicopedagogia (1982). Publicações: artigos em periódicos e livros. Gatti et al.20 Moreira & Masini21, Patto22. 1º Curso pós lato sensu em Psicopedagogia, surge em 1985, na Universidade São Marcos cidade de São Paulo. Atendimentos a alunos universitários com dificuldades de aprendizagem em Centro de Atendimento em Psicologia Educacional (CAPE), Universidade São Marcos (Masini & Baptista23). Associação Estadual de Psicopedagogia passa a Associação Brasileira de Psicopedagogia, em 1988, com núcleos em vários Estados. Início da publicação de PSICOPEDAGOGIA Revista da ABPp, em 1991. conforme o fez Henriot9, anteriormente citado. Sem a devida atenção aos dados de investigações da realidade nacional, estaria a Psicopedagogia do Brasil dispersandose em pesquisas e literatura importadas? Isso poderia estar refletindo no reconhecimento da Psicopedagogia, no Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 #! MASINI EFS Brasil, como área de estudos com seu próprio objeto de investigação? Estudiosos e pesquisadores, sem dúvida, precisam ter acesso à bibliografia especializada e pesquisas realizadas em outros países, bem como ter oportunidades de participar de cursos e encontros com autoridades de outros países para o evoluir de uma área de conhecimento. Há, no entanto, necessidade de cuidado e vigilância para não se perder de vista o próprio referencial social, cultural, econômico, de valores, de hábitos de linguagem. Referencial que assegura a identidade cultural, individual e coletiva, do conhecimento. Comunicarse, preservando a própria língua, é um indicador do cuidado com a própria identidade, como pessoa e como profissional. Nesse sentido, cabe perguntar: Por que alguns psicopedagogos brasileiros adotam, sem titubear, termos de língua estrangeira como ensinante e aprendente - que não constam do Dicionário da Língua Portuguesa, do Brasil? Por que essa adoção, quando existem, em Português, os termos aprendiz e professor? A utilização de ensinante e aprendente, no atendimento psicopedagógico, significa que é função do psicopedagogo ensinar? É relevante esse esclarecimento, pois diz respeito à especificidade da área de estudos. O Quadro 2 evidencia, também, que a concepção de diagnóstico, no Brasil, sofreu mudança, ultrapassando a dimensão estritamente individual para ampliar-se com dados do contexto social. As publicações, já nos títulos, revelavam esse redimensionamento, como mostram as selecionadas a seguir. A escola, a criança culturalmente marginalizada e a comunidade, de Poppovic27; O fracasso escolar como objeto de estudo: anotações sobre as características de um discurso, de Patto22; Ajudando a desmistificar o fracasso escolar, de Collares24. Essa transformação aparece, também, no trabalho de muitos psicopedagogos, da década de 80 até o presente ano 2006, conforme ilustram as obras de Fagali 28, Scoz 29, Weiss 30, Maluf 31, dentre muitas outras. Para avaliar se essas transformações têmse estendido, de um modo geral, à atuação dos psicopedagogos e aos cursos de formação desses profissionais, caberia uma pesquisa cuidadosa, envolvendo análise de publicações especializadas, de relatos de experiências em eventos e de currículos e programas de cursos de psicopedagogia. Um ponto de sutileza, e que requer análise cuidadosa de todos que lutam por definir o objeto de estudos da psicopedagogia e sua delimitação, é refletir se a ação de um psicopedagogo pode legitimar as impropriedades do ensino. Sua atuação corre o risco de constituir recurso remediador para o baixo rendimento escolar? Quando o aluno é encaminhado ao psicopedagogo para diagnóstico e tratamento para recuperarse, ao realizar o atendimento sem analisar métodos e programas da escola para o processo de aprendizagem, o psicopedagogo estará reiterando a posição da escola de que o problema é do aprendiz? Se o psicopedagogo aceita assumir a função remediadora, está compactuando com as impropriedades da escola? Se o psicopedagogo não aceita assumir a função remediadora, considerando que estaria compactuando com as impropriedades do ensino, resta a pergunta: Em que situações caberia à Psicopedagogia oferecer recursos para o processo de aprendizagem e seus eventuais bloqueios? Essas perguntas e impasses dizem respeito à definição e ao significado da Psicopedagogia e trazem implícitas questões indispensáveis para compor um quadro referencial de delimitação e de avaliação desta área. Delimitação e avaliação prementes, cujas lacunas têm desencadeado embates entre profissionais da psicopedagogia e de áreas afins. Esperase que estas perguntas e questionamentos sugiram reflexões e possam contribuir para a identidade da Psicopedagogia como área de estudos com seu próprio objeto de investigação. Desafios A partir do que ficou exposto, podese esboçar os desafios com que se defronta a Psicopedagogia. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 #" FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOPEDAGOGIA: EMBATES E DESAFIOS Em primeiro lugar, está a definição da Psicopedagogia, fator de embates com profissionais da própria área e com os de outras áreas. Uma sugestão para a busca de resposta a essa questão seria a análise de pesquisas e registros de trabalhos psicopedagógicos desenvolvidos, identificando: 1) a prática e a especificidade das atividades, diferenciando as das de outras áreas; 2) a adequação da fundamentação teórica à prática e/ou à metodologia da pesquisa em psicopedagogia; 3) o subjacente aos itens 1 e 2 - as inter-relações entre psicopedagogos e outros profissionais afins e os mal entendidos no que diz respeito à pertença dessa área de estudos. Em seguida, está o desafio da Psicopedagogia frente ao cenário do homem no século XXI. Definindose a Psicopedagogia como a área que estuda a aprendizagem, é necessário, em primeiro lugar, ter claro o sentido atribuído à aprendizagem para assegurar consistência ao campo de estudos e especificidades da psicopedagogia. Nesta comunicação, aprendizagem é concebida como o processo responsável pelas transformações que acompanham o ser humano do seu nascimento à sua morte, transformações que emergem das interrelações sociais e interações ambientais no contexto de vida do indivíduo e são constituídas pelas aquisições de habilidades, raciocínios, atitudes, valores, vontades, interesses, aspirações, integração, participação e realização. A Psicopedagogia tem algo a dizer para assegurar que essa aprendizagem ocorra? Teria algo a contribuir para conservar vivos no ser humano (adulto, jovem ou criança), neste cenário do século XXI, seus interesses, aspirações, integração, participação e realização? Teria sugestões que apontassem alguma perspectiva à problemática evidenciada, também, em temas das publicações da época atual, como: Violência na escola: um desafio mundial?, de Debarbieux32; A inflação escolar as desilusões da meritocracia, de Bellat 33; A dificuldade de ensinar, de Salomé34; A mídia e seus truques, de Hernandes35. Essa literatura sobre educação retrata a perplexidade de especialistas e a necessidade de encontrar diretrizes para lidar com problemas comuns como: a inflação escolar, violência na escola e as dificuldades de ensinar; e de definir o que é a escola; dificuldades da submersão em imensa quantidade de informações, sobretudo informações e manipuladas. Há, na Psicopedagogia, interesse, disponibilidade e conhecimentos específicos para lidar com essas questões? No contexto da realidade educacional brasileira, Araújo (2002) afirma, em entrevista, que embora o Estado tenha investido bastante em programas de capacitação nos últimos vinte anos, não há um retorno significativo em termos da aprendizagem. O Brasil, em 2001, entre 32 países avaliados, ficou em último lugar no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), cuja ênfase era a compreensão de textos. De acordo com o autor, o país acabara de ganhar um tremendo certificado internacional de mau aluno - o aluno leu e não entendeu. Em outras palavras, não conseguiu elaborar a informação. Essa problemática diz respeito à Psicopedagogia? Acrescentese à problemática da aprendizagem nas escolas públicas, já referida (INEP/ MEC26) sobre os alunos que estão acima da idade correta no Ensino Fundamental, a explosão da demanda por Ensino Médio pelo retorno ao sistema da população que procura elevar sua escolaridade ante às novas demandas do mercado de trabalho. Esta é uma problemática que diz respeito à Psicopedagogia? Em que situações caberia à Psicopedagogia contribuir? Essas perguntas poderão ser vistas como pontos auxiliares para uma reflexão da comunidade científica da psicopedagogia sobre seu objeto de estudos e seus reais desafios. Por outro lado, poderá constituir um exercício para que se resgate das atividades já realizadas em Psicopedagogia aquelas que ofereçam diretrizes ou sugestões para encaminhamento a essas questões. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 ## MASINI EFS Para ilustrar esse exercício de resgate será exposto um episódio que teve lugar em 2002, no III Ciclo de Estudos de Psicopedagogia Mackenzie, cujo objetivo foi evidenciar que as possibilidades humanas desabrocham, e o aprender ocorre desde que se propiciem relações, recursos e ambientes apropriados36. Para alcançar esse objetivo, várias professoras da equipe de psicopedagogia realizaram um debate sobre a experiência comunitária de arte/ educação, denominada Meninos do Morumbi. Foram apresentados a proposta e o relato do desenvolvimento dessa experiência, juntamente com a exibição de um vídeo e uma palestra da coordenadora desse Projeto, a psicóloga Lígia Pimenta. Pôdese acompanhar as manifestações de auto-descoberta e realização de jovens, em suas ações, no ambiente físico e social em que viviam. Os debates evidenciaram as situações de ocorrência de aprendizagem enraizadas em seres humanos que vivenciaram essa experiência educacional: meninos de rua que se transformaram em componentes de uma banda conhecida nacionalmente e internacionalmente. Ficou ilustrado que as possibilidades humanas desabrocham e o aprender ocorre, quando são propiciadas relações, recursos e ambientes apropriados; quando há disponibilidade e atitude de abertura e cooperação das pessoas envolvidas, no caso dos Meninos do Morumbi, os profissionais de diferentes áreas, os meninos e jovens de rua co-participando das atividades desenvolvidas. O foco nas condições para aprender de pessoas em ação no seu contexto de vida deslocou o estudo esquematizado e abstrato da aprendizagem, para o sujeito do conhecimento na complexidade das inter-relações corporais, afetivas e cognitivas individuais, coletivas e sociais. Os meninos de rua que ali estavam sem nada fazer, transformaramse. Desenvolveram habilidades para tocar instrumentos musicais, raciocínios para acompanhar o que a escola pública ensinava, atitudes de responsabilidade junto à banda, prazer pela cultura e arte, amplia- ram valores como o de participar e integrar-se no grupo Meninos do Morumbi, vontade, interesses, aspirações de ir mais além do que tocar na banda, no próprio bairro. O aprender dos meninos ocorreu no empenho e contato com cada coisa do seu viver, do dia-a-dia. Essa experiência constituiu, para a equipe de professores da Psicopedagogia Mackenzie, um aprendizado profundo sobre o aprender. O exercício de resgate dessa experiência, do III Ciclo de Estudos de Psicopedagogia Mackenzie, propiciou revalorização da atividade de psicopedagogia realizada e retomada de diretrizes e sugestões para outras situações. O que foi relatado desse resgate pode ser pensado como contraponto para o desafio da aprendizagem do homem no cenário do século XXI. Os embates, desafios sugestões e contrapontos expostos constituirão referencial para as considerações a serem feitas no próximo item. Formação do Profissional em Psicopedagogia Os embates e desafios da Psicopedagogia, evidentemente, estão presentes em qualquer consideração sobre a formação do profissional nessa área. Assim sendo, serão retomados, aqui, apenas alguns princípios gerais a serem pensados, levando em consideração os embates e os desafios apontados. Tendo como referência o cenário do século XXI, é pertinente que a Psicopedagogia tenha como linha diretriz, ao lidar com o processo de aprendizagem, o desenvolvimento harmonioso do aprendiz e da consciência do significado de sua ação no contexto onde age. A busca da consciência do que realiza na situação de aprendizagem e o significado do que e porque o faz pode constituir um possível caminho para salvaguardar que o aprendiz (adulto, criança ou jovem) não se perca em um fazer automático e sem sentido de vida. A partir do exposto, são sugeridos alguns princípios gerais para essa formação. Na seleção de candidatos para um curso de Psicopedagogia, seria interessante ter entre os Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 #$ FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOPEDAGOGIA: EMBATES E DESAFIOS critérios, além dos referentes à escolarização e aos conhecimentos, outros que contemplassem interesse pelo processo de aprender e pelo trabalho junto aos envolvidos nesse processo (educadores e aprendiz), bem como condições de personalidade que não apresentassem graves problemas. Conviria que os cursos fossem em nível de pós-graduação, pois só um conhecimento amplo de Educação e Psicologia, fundamentado em uma visão crítica da realidade social e da investigação científica, propiciaria ao psicopedagogo segurança para decidir sobre sua ação, bem como posicionar-se e justificar suas diretrizes de trabalho diante de outros profissionais que lidam com o aprendiz. Os cursos precisam ter um direcionamento teórico-prático, por várias razões: 1) para o psicopedagogo vivenciar situações para lidar com o próprio aprender e para lidar com o aprender do outro; 2) para o psicopedagogo desenvolver, com propriedade, o uso de recursos específicos, quer para assessorar professores ou outros profissionais em situações específicas de aprendizagem, quer para o atendimento do aprendiz; 3) para o psicopedagogo saber, de forma cientificamente fundamentada, o porque utilizar um ou outro recurso para o aluno com quem está lidando. Por essa razão, os cursos necessitam ter um currículo composto de aulas teóricas e estágios supervisionados, que constituam um espaço de discussão e reflexão teórica sobre a prática. Frente a esses princípios gerais, seria prioritário que a formação do psicopedagogo propiciasse formas de: 1) ampliar sua percepção e a acuidade às manifestações do ser humano em situação de aprendizagem, considerando as relações que facilitam ou limitam seu ato de aprender; 2) assegurar sua atenção à totalidade do sujeito na situação do ato de aprender, considerando-o no seu contexto, em sua afetividade, valores, hábitos e linguagem; 3) garantir a aquisição de conhecimentos sobre o desenvolvimento do ser humano, teorias de aprendizagem, relações com o outro; 4) desenvolver visão crítica sobre as teorias que embasam sua ação em relação ao contexto no qual atua profissionalmente e sobre a utilização dos recursos propostos (instrumentos e técnicas), para o desenvolvimento global do aprendiz, considerando-o em seu meio social específico e em seu momento histórico; 5) incutir o cuidado em analisar quando os recursos científicos e tecnológicos da atualidade estariam distanciando o aprendiz de si próprio e de seus significados. Síntese Frente ao cenário do século XXI, é indispensável a Psicopedagogia caracterizar-se como a área que: estuda as relações envolvidas em situações do aprender, para nelas resgatar o que emerge da vida de crianças, jovens e adultos - de suas impressões, sentimentos, dúvidas valores, elaborações; cuida para não perder o que sucede, ao buscar os significados de situações do aprender para os que dela participam e assim contribuir para que cada um amplie e aprofunde seus próprios significados; esforçase para não enfeitar nem mascarar os encontros e desencontros do sujeito consigo mesmo, com o outro e com o próprio contexto social, dissimulando fealdades e tornando inexpressivas as situações. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 #% MASINI EFS SUMMARY Professional formation in Psychopedagogy: collisions and challenges The publications on Psychopedagogy, in specialized books and magazines, show decades of existence of this field of knowledge in Brazil and Europe. Those years of existence, nevertheless, were not enough to establish a clear delimitation of the object and specification of the area. There still remain, among its professionals, disagreements about place of exercise, modalities and resources of action and controversies with professionals of other areas about the limits of its object of study. Despite these delimitation problems, it is generally agreed that Psychopedagogy is the area that studies the process of learning and its difficulties. Dealing with learning in the XXI century a scenario where man struggling between the real and the virtual, overwhelmed in ever increasing superabundance of information the Psychopedagogy faces one of the major challenges of our time. How to deal with the learning of human being in such environment? The search for an answer demands first a definition of its object of study and specification, as a referential frame that delimits that area of study. This definition requests deepening of studies, researches and critical analyses of those a mandatory condition to the discussion about preparation of professionals. That is the subject of this paper. KEY WORDS: Psychopedagogy, history. Professional competence. Professional practice location. REFERÊNCIAS 1. Ovadia F. Apresentação do livro. In: Bertola L, ed. Ethique & education: um autre regard. Nice:Paradigme;2004. 2. Mauco G. Linadaptation scolaire et sociale et ses remêdes Cahiers de pedagogie moderne collection Bourrelier. Paris:Lib Armand Collin;1964. 3. Adler A. Guiando el nino. Buenos Aires: Paidós;1965 (Original publicado em 1948). 4. Vasquez A, Oury F. De la classe coopérative... à la Pédagogie Institutionnelle. Paris:François Maspero;1971. 5. Manonni M. Lenfant arrieré et sa Mére. Paris:Éd. du Seuil;1964. 6. Manonni M. Lenfant sa maIadie et les autres. Paris:Éd. du Seuil;1967. 7. Manonni M. Éducation impossible. Paris: Éd. du Seuil;1973. 8. Heuyer G. 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Psicopedagogia 2006; 23(72): 248-59 #' GASPARIAN ARTIGO DE MCC REVISÃO A PSICOPEDAGOGIA E AS QUESTÕES DA INTERDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE Maria Cecília Castro Gasparian RESUMO Este texto tem por objetivo colocar em debate alguns dos pontos fundamentais para a Educação do início deste século, ou seja, a mudança do modelo científico clássico para um novo paradigma que, embora já despontado, ainda não se mostra totalmente socializado. Embora muito se tenha discutido e muitos educadores tenham mostrado grande interesse, seus conceitos, muitas vezes, estão sendo divulgados de uma forma distorcida e, por isso, mal compreendidos. Tanto a interdisciplinaridade quanto a transdisciplinaridade estão sofrendo um processo de vulgarização quando se pretende socializá-la e divulgá-la. Cabe à Psicopedagogia, como sendo um campo de conhecimento inter e transdisciplinar, o destino de implementar, divulgar e exercitar, de uma forma consistente, este novo olhar científico para que a Educação seja realmente transformadora e transformada e dê um salto de qualidade no processo de ensino. Este artigo pretende mostrar alguns dos fundamentos que norteiam essas duas abordagens e esclarecer alguns pontos importantes que a definem como novos pilares para uma Educação das gerações vindouras. UNITERMOS: Educação. Conhecimento. INTRODUÇÃO Se você quiser alcançar as suas maiores aspirações e superar os seus desafios, identifique e aplique o princípio ou lei natural que governa os resultados que você procura. S. Covey Maria Cecília Castro Gasparian - Psicopedagoga PUCSP; Mestre em Educação: Currículo PUC-SP. A Psicopedagogia e as questões da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade estão indissoluvelmente associadas, simplesmente pelo fato de que a Psicopedagogia tem a vocação de trabalhar nestas duas abordagens. A Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade são dois termos que vêm assumindo Correspondência Maria Cecília Castro Gasparian Rua São Judas Tadeu, 204 Granja Viana Cotia SP 06708-520 Tel.: (11) 4702-2192 E-mail: [email protected] Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 260-8 $ A PSICOPEDAGOGIA E AS QUESTÕES DA INTERDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE importância crescente, como parte de um amplo movimento de interesse e, com isso, de crítica que se trava, atualmente, ao paradigma científico moderno que até então nos alicerçava. Tanto a Interdisciplinaridade quanto a Transdisciplinaridade apontam para outras possibilidades de atuação como resposta aos limites do modelo atual, caracterizado pela simplificação, redução e fragmentação da realidade, que já não mais responde às perguntas dos pesquisadores e pensadores em Educação. A Educação, por ser um campo de dimensões pública e coletiva, tradicionalmente, é considerada como multidisciplinar, mas muito tem a se beneficiar com as propostas de abordagem inter e transdisciplinar. Embora existam vários artigos e pesquisas neste campo, elas ainda são muito tímidas quando vistas da esfera teórico-prática, ressalto, porém, que existem algumas propostas que já se destacam por procurarem demonstrar a importância do emprego desses conceitos no campo educacional. Neste texto, procuro descrever e interpretar a emergência e a constituição de um pensamento recente sobre inter e transdisciplinaridade, partilhado por um número grande de pesquisadores, dentre eles, Ivani Fazenda, Hilton Japiassu, Georges Gusdorf, Gaston Pineau, Maria Mello, Américo Somermman e outros. Todos esses pesquisadores, cada um a seu modo, procuram destacar em seus trabalhos a importância da Inter e da Transdisciplinaridade, nas suas trajetórias profissionais e intelectuais. Eles nos dão um bom exemplo de como esses pensamentos recentes têm sido incorporados e desenvolvidos no campo da Educação, auxiliando-nos e imprimindo uma dinâmica e uma metodologia de pesquisa, abrindo, com isso, amplas possibilidades para uma prática pedagógica mais significativa, tanto para o professor quanto para o aluno. Da tensão à intenção: disciplinaridade, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade. Calorosas discussões sobre o tema e suas variações Do desejo da escolha à escolha do desejo Atualmente, nos perguntamos por que é tão difícil trabalhar em Educação e com a Educação. A necessidade da vida contemporânea está nos obrigando a fazer uma constante revisão de nossos valores e princípios que regeram nossas vidas até então e o trabalho nesta área é um grande desafio, pois temos que desenvolver algumas capacidades, habilidades e competências que até então não precisávamos. Existem vários desafios que devemos superar para termos um trabalho que funcione efetivamente no cotidiano escolar e um dos desafios é a mudança de modelo de atuação pedagógica. É aí que surge a possibilidade da Interdisciplinaridade e da Transdisciplinaridade. Uma das dificuldades que as pessoas têm com relação a essas duas abordagens é a de se transformar em um ser interdisciplinar e transdisciplinar. Como é normal, algumas pessoas sentem medo e insegurança, em adotar uma nova atitude pedagógica, pois temem seu futuro na escola, sentem-se vulneráveis, e isso as estimula a ter uma vida sem riscos e sem comprometimentos com seu trabalho. Essa condição leva a pessoa a tornar-se cada vez mais independente, achando que com isso ela não se comprometeria com os outros. O estabelecimento de um trabalho interdisciplinar e transdisciplinar provoca uma sobrecarga de trabalho como toda e qualquer ação a que não se está habituado a fazer. Há um certo medo de errar, de perder privilégios e direitos adquiridos. A orientação pelos enfoques interdisciplinar e transdisciplinar direcionada para a prática pedagógica implica em romper hábitos e acomodações; é ir em busca do novo e do desconhecido. Isso tudo, realmente, é um grande desafio. O ser humano nasce totalmente dependente, luta, ao longo de seu desenvolvimento, para ter liberdade e ser independente, a criança vai aos poucos tendo maior autonomia e sua independência vai se consolidando ao longo de suas experiências, culminando na adolescência e solidificando no jovem adulto. A independência Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 260-8 $ GASPARIAN MCC humildade para assumir responsabilidades por nossos atos e sermos corajosos o suficiente para tomarmos iniciativas criativas para superarmos nossos obstáculos já é um grande passo para sermos acertivos e podermos ter um bom relacionamento. Fazer escolhas não é uma tarefa fácil, principalmente quando se fala em Educação. Há tantos métodos, estratégias e técnicas que nós professores nos perdemos, muitas vezes, nesses caminhos, sem nos darmos conta que tudo não passa de uma mudança de atitude frente à vida. Os textos dos pesadores da atualidade nos remetem a essa reflexão. Cada um a seu modo expressa seu desejo de escolha que os levam à escolha de um desejo: explicar e colocar para o leitor o seu ponto de vista sobre os temas contemporâneos. Não vejo como certo ou como errado, mas sinto a tensionalidade e a intencionalidade de cada um dos autores. envolve um valor e uma realização pessoal importante e vital para os indivíduos, acontece que a sociedade, paradoxalmente, requer de nós uma outra atitude, ela nos apresenta uma realidade de interdependência, e as nossas realizações mais importantes exigem habilidades que estão bem além das que possuímos. Na realidade, não aprendemos ao longo de nossas vidas, pelo menos conscientemente, essas habilidades. Fomos aprendendo aos trancos e barrancos, como nos tornarmos interdependentes, mas nunca formalizamos essas atitudes e acredito que, por essa razão, muitos de nós sentem muita dificuldade e têm relacionamentos tão conturbados. Outro grande desafio para o trabalho interdisciplinar e transdisciplinar é a impaciência. Queremos tudo para ontem, não sabemos esperar. Aprendi, ao longo de minha vida, que minha capacidade de trabalho não pode ser menor do que meu desejo, ou seja, que a minha capacidade de adquirir coisas não pode superar a minha capacidade de produção. Pensar assim me auxilia a não sofrer e não passar por experiências dolorosas, mas que não resolvem nossas inter-relações. A paciência é uma grande virtude, principalmente na sociedade atual, onde o imediato e o descartável são cultuados. Como não conseguimos nos atualizar tão rápido como a sociedade atual exige, e ter aquilo que imaginamos como necessário para nós e nossa família, surge a culpa e, com ela, a condição de vítima. Sentimos culpa por não dar, nem a nós e nem aos que amamos, aquilo que o império do marketing diz que é bom e aí culpamos os outros por não termos o que queremos ou sonhamos ter. Culpamos o chefe por ser injusto, culpamos até o cachorro que latiu a noite toda e não nos deixou dormir e é por isso que não produzimos o esperado, enfim, não só nos sentimos culpados por não dar e não ter o que queremos, mas também culpamos os outros por não ter o que queremos. Somos, então, vítimas e algozes de nós mesmos. Isso me faz pensar que podemos ter escolhas. Não necessariamente precisamos sentir culpa e/ou sermos vítimas, acredito que com O pensamento Inter e Transdisciplinar: algumas considerações Uma pequena reflexão sobre a forma como a Ciência moderna se constitui, se fundamenta e se organiza, permitirá subsidiarmos o nosso entendimento sobre o significado assumido pelas propostas Inter e Transdisciplinar como uma forma de fazer avançar o conhecimento científico que até então é norteado pela concepção cartesiana. Se nos perguntarmos se o avanço dos conhecimentos científicos gerado pela ciência moderna, fundamentada em uma estreita concepção de racionalidade, beneficiou a humanidade, alguns dos autores contemporâneos, como Edgar Morin, Boaventura Sousa Santos, Habermas e outros, responderão que atualmente não, mas que auxiliaram por muitos anos a chegarmos onde estamos agora. Verificamos que, nos últimos trinta anos, houve um avanço significativo dos conhecimentos científicos, muito mais do que se fez durante o último milênio. Isso nos coloca diante da questão central que tem mobilizado todos esses pensadores da atualidade, sobre os objetivos, finalidade, valores filosóficos, e sobre o sentido e o significado da ciência moderna. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 260-8 $ A PSICOPEDAGOGIA E AS QUESTÕES DA INTERDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE Tanto a Interdisciplinaridade quanto a Transdisciplinaridade são vistas como uma forma de fazer avançar esta concepção atual para uma racionalidade mais ampla, que contempla o homem e a natureza como uma unidade e não de uma maneira dissociada, separada e distinta uma da outra. E aí nos perguntamos, mas não é isso que eu faço? Eu não olho meus alunos como um todo? Para responder esta questão seria preciso fazer uma profunda reflexão sobre nossa prática, nossa vida, enfim, sobre nossas relações inter e intrapessoais. Esta é uma das grandes questões que procuramos desenvolver nos cursos de formação continuada de professores, quando desenvolvemos junto a eles suas histórias de vida, mas, para que isso seja realmente eficaz, é importante que nós mesmos façamos esta reflexão, com maturidade e humildade, para reconhecermos nossa impotência para sermos o que pensamos que somos ou o que sonhamos ser. A maioria de nós conhece muito bem os passos de uma pesquisa científica: criar hipóteses, realizar experimentos, comparar provas, publicar seus resultados, os quais, ao serem aplicados em qualquer lugar, sejam sempre iguais. O objetivo é produzir um conhecimento que, além de poder ser verificado, seja aceito pela comunidade científica e, após sua comprovação, torna-se uma verdade em casos bem específicos, mas que pretende generalizada. Para isso, devemos ser bem racionais para sermos aceitos nesta comunidade, pois senão seremos considerados como gurus ou chamados de adivinhos. Vemos, portanto, que a ciência moderna se inscreve na racionalidade como elemento definidor deste pensamento e desta conduta. Esta racionalidade, fundada na consciência moderna, que teve como suas primeiras formulações em Descartes, com o racionalismo, e em Bacon, com o empirismo que se condensaram no positivismo, que concebe somente a existência de duas formas de conhecimento científico, ou seja, as disciplinas formais da lógica e da matemática e as ciências empíricas, segundo o modelo mecanicista das ciências naturais, constitui-se, segundo Boaventura Sousa Santos (1995), o paradigma dominante. Este modelo, então, passa a negar o caráter racional de qualquer outra forma de conhecimento que não esteja de acordo com seus princípios epistemológicos e pelas regras metodológicas que foram convencionadas por esse pensamento, e por si só tomadas como garantia de um critério de verdade. Com essa atitude, fecha-se o processo de conhecimento em compartimentos e a ciência moderna rompe radicalmente com a tradição do pensamento clássico, dissociando: saberes e práticas; indivíduo e sociedade; local e global; sujeito e objeto; objetivo e subjetivo, passando a trabalhar apenas com temas e problemas delimitados e especializados e, com isso, caracterizando-se por uma fragmentação sempre crescente do saber, sendo o espaço disciplinar seu principal sentido e finalidade. De uma maneira mais simples, mas sem ser simplista, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade representam uma nova abordagem científica, cultural, espiritual e social. Como, por exemplo, o prefixo trans indica, diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Como pode ser isso? Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para a qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento. A ciência moderna considera que os avanços epistemológicos verificados nas áreas das ciências naturais tiveram grandes desdobramentos e, com isso, deram não somente um aprofundamento sob novas bases, mas contribuíram para reduzir a grande rigidez entre as ciências naturais e as ciências como campos totalmente separados. Esses avanços no conhecimento foram se tornando tão complexos que nos conduziram à concepção de não linearidade em oposição à linearidade, a simplificação, além de constatar a impossibilidade de se separar o pesquisador (observador) do seu objeto de pesquisa. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 260-8 $! GASPARIAN MCC Para Morin1, por exemplo, o paradigma da simplificação, característico da ciência moderna, determina um tipo de pensamento que separa o objeto de seu meio, separa o físico do biológico, separa o biológico do humano, separa as categorias, as disciplinas, etc (...) Por isso, as operações comandadas por esse paradigma são principalmente disjuntivas, principalmente redutoras e fundamentalmente unidimensionais (...) chega-se a um puro catálogo de elementos não ligados (...) Por outras palavras, o paradigma da simplificação não permite pensar a unidade na diversidade ou a diversidade na unidade, as imitas multiplex só permite ver unidades abstratas ou diversidades também abstratas, porque não coordenadas1. As palavras de Morin mostram a grande dificuldade que a ciência típica do mundo moderno enfrenta: o seu próprio limite. Com o avanço do desenvolvimento no campo do conhecimento, houve uma diminuição entre as contradições existentes entre as Ciências Sociais e Ciências Naturais, que nos conduziu a conceber a humanidade não como algo mecânico, mas como possibilidade criativa e ativa. Esta mudança de concepção desvela novos espaços, onde o diálogo entre o modelo positivista moderno e a proposta de alternativas para superação deste modelo possibilitem alargar a concepção de racionalidade da ciência moderna e, com isso, seja capaz de articular o conhecimento existente, produzindo novos conhecimentos. Considerados como conhecimentos de ponta da ciência moderna, os avanços epistemológicos verificados nas áreas das ciências naturais e da matemática tiveram grandes desdobramentos e propiciaram não só o aprofundamento, sob novas bases, da polêmica em torno da mencionada racionalidade científica vigente, mas contribuíram igualmente para reduzir a rígida distinção entre as ciências naturais e as ciências sociais como campos totalmente separados. Thomas Khun2, em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, afirma que, para ele, paradigmas são uma espécie de modelos aceitos como dominantes por dada comunidade científica, cuja função é direcionar toda pesquisa em sua área. Portanto, é a comunidade científica que determina e define quais questões podem ser formuladas a respeito das coisas existentes no mundo e que técnicas podem ser empregadas na busca de soluções. Para ele, antes da aceitação de um novo modelo, tudo é mais difícil e complicado, porque surgem muitas teorias focando a atividade científica. Para que uma idéia se torne um paradigma, ela precisa amadurecer para que forneça respostas mais seguras e que tenha coerência nas suas respostas. Fiz essa breve introdução sobre mudança de paradigma para pontuar que tanto a inter quanto a transdisciplinaridade pertencem a um novo modelo de pensamento e, por isso mesmo, muitas vezes, mal interpretado, pois olhamos para cada um desses modelos com os olhos do modelo da ciência moderna, positivista. Segundo Sommerman3, duas teorias teriam cooperado muito para fomentar a pesquisa interdisciplinar: o estruturalismo e a Teoria Geral dos Sistemas. O estruturalismo, embora criado pelo lingüista Saussure (1857-1930), visando descobrir as estruturas abstratas por trás das línguas, expandiu-se para muitas outras áreas, especialmente com os trabalhos do antropólogo Claude Levi-Strauss, na década de 50, nos quais este procurou mostrar que por trás das culturas mais diversas há estruturas profundas comuns, que aparecem como que em camadas. A Teoria Geral dos Sistemas foi formulada pelo filósofo e biólogo Ludwig von Bertalanffy, na década de 60. (...) Ele chamou a atenção para a existência, naquela época, de duas vertentes básicas nas ciências dos sistemas, uma, mecanicista; outra organicista. A primeira correspondia à sua teoria Geral dos Sistemas e a segunda, à Teoria Cibernética. Sommerman3 também aponta que outras duas teorias colaboraram para o desenvolvimento da Inter e da Transdisciplinaridade, a saber, a Teoria Cibernética de Segunda Ordem e a Teoria da Complexidade. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 260-8 $" A PSICOPEDAGOGIA E AS QUESTÕES DA INTERDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE Bertallanfy afirma: A cibernética é uma teoria dos sistemas de controle baseada na comunicação (transferência de informação) entre o sistema e o meio e dentro do sistema, e do controle (retroação) da função nos sistemas com respeito ao ambiente. (grifo nosso) Bertallanfy considera a cibernética como a mais destacada ciência dos sistemas, não devendo, entretanto, ser confundida com a teoria geral dos sistemas. A palavra Cibernética vem do grego kibernetes (piloto) e kibernetike (arte de pilotar navios e a arte de governar homens). Maria José Esteves de Vasconcellos4, em seu livro Terapia familiar sistêmica: bases cibernéticas, afirma que: [a cibernética] Interessa-se por todos os comportamentos possíveis (um amplo conjunto de possibilidades), de todas as máquinas possíveis (mesmo que ainda inexistentes), propondo-se com um quadro de referência para compreensão de todas as máquinas. A cibernética pretende fornecer não só os princípios para a construção da máquinas com grandes poderes de regulação (como o cérebro), como também os princípios para restauração das funções normais dos sistemas de grande complexidade. Interessa-se, então, pelas formas de comportamento e aspectos do sistema que sejam determináveis, que possam obedecer a cursos regulares e reprodutíveis, ou seja, tem como tema central a regulação e o controle. Por isso costuma ser definida como a arte do comando, como a arte de tornar a ação eficaz, ou seja, a arte de maximizar a eficiência. Considerase eficaz a ação racional guiada, isto é, controlada em todas as etapas4. A cibernética se ocupa das transformações que de fato ocorrem nos comportamentos do sistema e não de hipóteses sobre as possíveis causas dessas mudanças. A principal característica das máquinas cibernéticas é a capacidade de auto-regulação, ou seja, a capacidade do próprio sistema corrigir desvios em sua trajetória, de modo a garantir o alcance de sua meta. A regulação, portanto, visa à sobrevivência do sistema, à manutenção de suas variáveis essenciais em níveis adequados. A cibernética baseia-se no princípio da retroação ou dos encadeamentos causais circulares, fornecendo mecanismos para a procura de uma meta e o comportamento auto-regulador. Mas a organização dos mais complexos sistemas existentes até agora, descobertos em nosso universo, continuava vedada para a cibernética, ou seja, permaneciam sem poder responder às perguntas: Qual é a organização do ser vivo? Qual é a organização do sistema nervoso? Qual é a organização do sistema social? Segundo Maturana e Varella5: a resposta que se buscava, mediante a aplicação do enfoque cibernético, deveria mostrar então qual era, ao tomar as moléculas como componentes, a organização do ser vivo, qual era, ao substituir a moléculas por neurônios, a organização do sistema nervoso, qual era, ao substituir os neurônios por pessoas, a organização de todo sistema social (ou relações comportamentais geradoras de cultura)5. Segundo Fazenda 6 , o movimento da interdisciplinaridade surge na Europa, principalmente na França e na Itália, em meados da década de 1960 (..) época em que se insurgem os movimentos estudantis, reivindicando um novo estatuto de universidade e de escola. (...) que buscavam o rompimento de uma educação por migalhas. Nesta perspectiva é que pensadores como Georges Gusdorf ganham grande expressão nos anos 60. Ele apresentou, em 1961, à Unesco um projeto de pesquisa interdisciplinar para as ciências humanas a idéia central do projeto seria reunir um grupo de cientistas de notório saber para realizar um projeto de pesquisa interdisciplinar nas ciências humanas. A intenção desse projeto seria a de orientar as ciências humanas para a convergência, trabalhar pela unidade humana6. O projeto de Gusdorf previa a diminuição teórica entre as ciências humanas. No final da década de 60, chega ao Brasil o eco das discussões sobre interdisciplinaridade, mas com sérias distorções, devido ao modismo e Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 260-8 $# GASPARIAN MCC próprias daqueles que se aventuram ao novo sem as devidas reflexões. Dois nomes surgem como pesquisadores, Hilton Japiassu e Ivani Fazenda. Os estudos e reflexões desenvolvidos por Japiassu provocam um grande avanço nas pesquisas sobre interdisciplinaridade, o seu livro Interdisciplinaridade e a patologia do saber foi a primeira produção significativa sobre o tema, onde o autor apresenta uma síntese das principais questões que envolvem a interdisciplinaridade e que anuncia os pressupostos fundamentais para uma metodologia interdisciplinar6. Outro trabalho que aparece no Brasil nesta época é de Ivani Fazenda que, partindo dos estudos de Japiassu, trata dos aspectos relativos à conceitualização. Segunda a autora6, os avanços mais significativos em relação à interdisciplinaridade poderiam ser assim sintetizados: A atitude interdisciplinar não seria apenas resultado de uma simples síntese, mas de sínteses imaginativas e audazes; Interdisciplinaridade não é categoria de conhecimento, mas de ação; A interdisciplinaridade nos conduz a um exercício de conhecimento: o perguntar e o duvidar; Entre as disciplinas e a interdisciplinaridade existe uma diferença de categoria; Interdisciplinaridade é a arte do tecido que nunca deixa ocorrer o divórcio entre seus elementos, entretanto, de um tecido bem traçado e flexível; A interdisciplinaridade se desenvolve a partir do desenvolvimento das próprias disciplinas. Muito poderíamos estar falando sobre a interdisciplinaridade no Brasil, infelizmente, o espaço tanto do papel quanto da fala são curtos e é bom que assim o seja, pois estaria cansando o leitor ou o ouvinte. Termino o espaço dedicado à interdisciplinaridade dizendo que Fazenda dedica-se à pesquisa da prática da Interdisciplinaridade e do cuidado com o professor: Os dados desses anos de pesquisa revelaramme que o professor interdisciplinar traz em si um gosto especial por conhecer e pesquisa; possui um grau de comprometimento diferenciado para com seus alunos, ousa novas técnicas e procedimentos de ensino, porém, antes, analisa-os e dosa-os convenientemente. Esse professor é alguém que está sempre envolvido com seu trabalho, em cada um de seus atos. Competência, envolvimento, compromisso marcam o itinerário desse profissional que luta per uma educação melhor6. A transdisciplinaridade Não é meu objetivo escrever sobre a transdisciplinaridade, mesmo porque não me considero habilitada para isso. Farei apenas algumas colocações que acredito pertinente, contando, em poucas linhas, alguns aspectos que considero importantes para os psicopedagogos e que poderão nos auxiliar a entender melhor esta questão para nossa prática. Embora extremamente reduzida, não pretende ser simplista. Para isso, embaso minha afirmação nas pesquisas efetuadas pelo CETRANS (Centro de Educação Transdisciplinar), criado em 1998 e abrigado pela Escola do Futuro, coordenada pelo Prof. Fredric Michael Litto, que acreditou na proposta. O que se segue é uma compilação dos livros Educação e Transdisciplinaridade I e II7,8; e Inter ou transdisciplinaridade?3 No livro Inter ou Transdisciplinaridade?3, Sommerman indica que o termo apareceu pela primeira vez no Seminário de Nice, o I Seminário Internacional sobre Pluridisciplinaridade e a Interdisciplinaridade, realizado na Universidade de Nice, de 7 a 12 de setembro de 1970, (...) a primeira definição conhecida de Transdisciplinaridade foi dada por Piaget em sua comunicação nessa conferência. De 1970 até os dias atuais, muitos outros encontros, Seminários e dois Congressos foram realizados, sendo o último realizado em Vitória no Espírito Santo, em 2005. No I Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, realizado em Arrábia, Portugal, em 1994 e no I Congresso Internacional, realizado em Locarno, Suíça, em 1997, foram definidos os três pilares da metodologia transdisciplinar: a Complexidade, a Lógica do Terceiro Incluído e os Níveis de Realidade. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 260-8 $$ A PSICOPEDAGOGIA E AS QUESTÕES DA INTERDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE Esses autores7,8 também nos dizem que: a transdisciplinaridade é uma teoria do conhecimento, é uma compreensão de processos, é um diálogo entre as diferentes áreas do saber e uma aventura do espírito. (...) é uma nova atitude, é a assimilação de uma cultura, é uma arte, no sentido da capacidade de articular a multirreferencialidade e a multidimensionalidade do ser humano e do mundo. Ela implica numa postura sensível, intelectual e transcendental perante a si mesmo e perante o mundo. Implica, também, em aprendermos a decodificar as informações provenientes dos diferentes níveis que compõem o ser humano e como eles repercutem uns nos outros. A transdisciplinaridade transforma nosso olhar sobre o individual, o cultural e o social, remetendo para a reflexão respeitosa e aberta sobre as culturas do presente e do passado, do Oriente e do Ocidente, buscando contribuir para a sustentabilidade do ser humano e da sociedade. Em 1996, foi publicado o Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Este Relatório foi elaborado por Jacques Delors, onde define os quatro pilares para a educação do século XXI: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser, que agregados aos dois pilares complementares, aprender a participar e aprender a antecipar, constituíramse em elementos norteadores para o exercício efetivo da Transdisciplinares. Temos, portanto, que entender e compreender conceitos como: Complexidade; Níveis de realidade; Terceiro incluído. Além de incorporar os quatro pilares elaborados por Delors: Aprender a conhecer; Aprender a fazer; Aprender a viver juntos; Aprender a ser. Acrescidos aos dois pilares complementares: Aprender a participar; Aprender a antecipar. Cabe, portanto, a nós professores e psicopedagogos, pesquisadores do saber humano, descobrir as inter-relações possíveis existentes entre disciplinas próximas e as mais distantes, tendo em vista instituir práticas interdisciplinares e transdisciplinares que expandam o processo de conhecimento, nas áreas do saber. Para que isso ocorra, será necessário a incorporação destes pensamentos, o que implicará para o pesquisador repensar sua própria formação e onde este profissional encontre espaço para uma totalidade do conhecimento articulado. O grande desafio para nós professores e psicopedagogos é primeiro entender o que tudo isso significa, depois como colocar em prática no nosso cotidiano. Entender o que é a complexidade, os níveis de realidade e o terceiro incluído é uma questão fundamental para nossa prática psicopedagógica. Compreender esses princípios transdisciplinares requer de nós um esforço de reflexão, muito estudo e dedicação, alterando nossa de visão de mundo, de ser humano e de sociedade. Mas apenas refletir e estudar não bastam. Sendo a Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade uma categoria de ação, isso nos sugere que devemos transformar nossa atitude e comportamento frente nossa prática, nossa vida, nossas relações inter, intra e transpessoais. Isso não é fácil, mas temos que dar um primeiro passo para um longo caminho de autoconhecimento. Termino minhas considerações com um gosto de incompletude, mas quem disse que a Psicopedagogia e as questões da Inter e da transdisciplinaridade têm fim? Estamos apenas começando nossa jornada para o autoconhecimento em busca de uma vida melhor, mais feliz, mais harmônica, onde a compaixão, a humildade, a paciência são alguns dos valores indissociáveis para se alcançar os altos fins de nossa existência e é sobre isso que a Interdisciplinaridade e a Transdisciplinaridade falam. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 260-8 $% GASPARIAN MCC SUMMARY The Psychopedagogy and the aspects of the interdisciplinarity and transdisciplinarity The objective of this text is to debate some fundamental aspects for Education in the beginning of this century. The changeover of the scientific classical method to a new paradigm that has already been showing, but is not yet socialized. Although much has already been discussed and many educators have showed great interest in the subject, the concepts have, over many times, been disclosed through a distorted point of view and because of this have been misunderstood. Interdisciplinarity and Transdisciplinarity are undergoing a process of vulgarization by the socializing process they are suffering. It is a responsibility and a destiny of Psychopedagogy, as it is in the inter and transdisciplinary field, the process of implementing, disclosing and using in a consistent manner this new scientific view so that Education turns out to be both a transformer and transformed and also steps up in quality through the teaching process. This article intends to show some of the fundaments that guide these views and also explain some important aspects that define it as new foundation for an Education for future generations. KEY WORDS: Education. Knowledge. conhecimento. Campinas:Editorial Psy II;1995. 6. Fazenda ICA. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. 7ª ed. São Paulo: Editora Papirus;2001. 7. Barros VM, Mello MF, Sommerman A, orgs. Educação e transdisciplinaridade I. Brasília: UNESCO;2000. 8. Barros VM, Mello MF, Sommerman A, orgs. Educação e transdisciplinaridade II. São Paulo:Triom/UNESCO;2002. REFERÊNCIAS 1. Morin E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro:Bertrand Brasil;1998. 2. Kuhn TS. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo:Perspectiva;1978. 3. Sommerman A. Inter ou transdisciplinaridade? São Paulo:Paulus;2006. 4. Vasconcellos MJE. Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência. 2ª ed. Campinas: Papirus;2003. 5 . M a t u r a n a H , Va r e l a F. A á r v o r e d o Trabalho realizado no consultório da autora. Artigo recebido: 02/06/2006 Aprovado: 09/08/2006 Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 260-8 $& APRENDIZAGEM: TRAMAS DO CONHECIMENTO R E S E N H A, DO SABER E DA SUBLETIVIDADE APRENDIZAGEM : TRAMAS DO CONHECIMENTO , DO SABER E DA SUBJETIVIDADE Editora: Vozes Organização: ABPp Resenha: Maria Irene de Matos Maluf Aprendizagem: tramas do conhecimento, do saber e da subjetividade é o tema central deste livro, por representar as preocupações da atualidade, fundamentar e incitar os debates sobre os desafios que o século XXI coloca para os especialistas em aprendizagem humana. Apesar de conter textos de autores que privilegiam abordagens diferentes entre si, como, por exemplo, os aspectos emocionais, as questões da educação e da saúde, a cognição, a linguagem, a interdisciplinaridade e a formação, há uma grande coerência e preocupação em atender ao temário central da obra, o que se revela na leitura destes interessantes artigos. Controvérsias inquietantes também estão presentes neste compêndio, para lançar dúvidas, criar frutíferas discussões, promover a busca de novos conhecimentos, do saber e da subjetividade, que formam a grande teia da aprendizagem humana. Pode-se dizer que esta publicação foi elaborada para psicopedagogos, mas não apenas para eles. Professores, educadores, psicólogos, médicos, fonoaudiólogos e pesquisadores vão percorrer estas páginas com igual interesse e proveito, tal a riqueza e amplitude dos trabalhos apresentados. Que estas páginas sejam prazerosas e enriquecedoras para todos os leitores! Maria Irene de Matos Maluf Presidente Nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia Gestão 2005/2007 N EUROPSICOLOGIA E P SICOPEDAGOGIA : DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DE COMPETÊNCIAS ESSENCIAIS PARA A APRENDIZAGEM Luiza Elena L. Ribeiro do Valle Resumo - Os estudos dos processos cognitivos são essenciais no desenvolvimento de competências. A compreensão da aprendizagem numa visão pedagógica neurocientífica pode permitir o planejamento de estratégias educacionais que incluam a todos num programa abrangente, envolvendo sistemas, potencializando resultados. As pesquisas neurocientíficas procuram desvendar o processo de aprendizagem, delineando outras perspectivas no sistema educacional. Novos conhecimentos e habilidades são exigidos, novas tecnologias despontam e um saber mais consistente se promove, não fragmentado, não superficial. Ele se constrói a partir das experiências anteriores, ligadas a emoções fixadas na memória e expressas na linguagem própria do indivíduo. O desenvolvimento de competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) tem sido o caminho apontado para a mudança que se faz necessária para que o aprendiz seja sujeito de sua aprendizagem. As competências são as funções cognitivas utilizadas para estabelecer relações com o ambiente e levar ao desenvolvimento das habilidades de pensar, decidir ou saber fazer , possibilitando nova aquisição de competências. A competência é uma construção mental e não a mera resolução de problema: envolve a compreensão do que se faz. Novas metodologias são necessárias para o desenvolvimento de competências na escola. É preciso trabalhar por projetos que incitem os alunos a mobilizar seus conhecimentos com a finalidade de alcançar um campo para a formação do cidadão mentalmente saudável e responsável, que irá focar o fortalecimento e a coesão de seu grupo social. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 269-74 $' MALUF MI P SICOPEDAGOGIA : UM SABER INTERDISCIPLINAR E SISTÊMICO Maria Luiza Puglisi Munhoz Resumo A Psicopedagogia, em sua ação educativa, ao articular disciplinas parcelares, caracteriza-se como um saber interdisciplinar, que utiliza os conhecimentos de outras disciplinas para a criação de conhecimentos próprios. Rompe com os paradigmas da ciência tradicional ao propor a integração das culturas da ciência e das humanidades, buscando promover a conscientização da condição humana. Por ultrapassar os limites disciplinares, aproxima-se da visão integradora do pensamento complexo e abre espaço para o uso de metodologias referendadas na abordagem relacional sistêmica, ao aprofundar seus estudos sobre os processos de ensino/aprendizagem em seus aspectos relacionais. A abordagem sistêmica é um instrumento metodológico adequado para o pensamento complexo, que considera o contexto e as complexidades inerentes aos processos biopsicossociais influenciadores das condutas do ser humano. A partir dos estudos da cibernética, o enfoque sistêmico cria uma teoria que procura dar conta das relações, ao invés das partes isoladas, valorizando todos os elementos dessa relação de forma igualitária. A fim de propor uma estratégia de aprendizagem dos novos paradigmas, Morin amplia os ensinamentos de Bateson, ao desenvolver os Metálogos, e introduz a argumentação como forma de chegar à aquisição de novos conhecimentos. A partir dessa proposta metodológica, desenvolvemos pesquisas qualitativas na atuação psicopedagógica, que citaremos como ilustração. A PRENDIZAGEM E FORMAÇÃO DE PSICOPEDAGOGOS : SUJEITO E SUBJETIVIDADE Beatriz Scoz Resumo - Este estudo trata de compreender a construção da subjetividade de psicopedagogos, com base na configuração de sentidos que produzem em seus processos de aprender e de ensinar em suas famílias, em suas comunidades de convivência, escolas e em seus processos formativos. Também é considerada a percepção que os psicopedagogos têm de suas próprias produções de sentido e, com base nestas, dos novos sentidos que vão produzindo. A técnica utilizada é vivencial, denomina-se Jogo de Areia (Sandplay) e foi criada por Dora Kalff, analista junguiana. Trata-se de uma caixa com areia e miniaturas onde os sujeitos constroem cenas. Os psicopedagogos constroem e relatam cenas de suas trajetórias de vida e de situações de ensino e aprendizagem. A utilização dessa técnica é alicerçada nos princípios que a norteiam, em minhas experiências profissionais e nas concepções de autores como Fernando González Rey, psicólogo; Alícia Fernández e Sara Pain, psicopedagogas; Estelle Weinrib e Ruth Ammann, analistas junguianas. O ato simbólico, os momentos reflexivos e o aflorar das emoções presentes na construção dos cenários possibilitam a compreensão dos sentidos que os psicopedagogos produzem em seus processos de aprender e de ensinar e, conseqüentemente, de suas subjetividades em construção. Além disso, eles mesmos percebem a situação em que se encontram, superam a maneira fragmentada de compreendê-la e redefinem novos sentidos em relação a seus processos de aprender e de ensinar. A vivência com o Jogo de Areia é também um meio educativo: a capacidade de produzir sentidos, de questioná-los e, a partir daí, fazer surgir novos sentidos faz com que os psicopedagogos reconheçam suas capacidades pensantes e transitem por uma zona de desenvolvimento próximo, abrindo-se assim espaços facilitadores de aprendizagem. Tais vivências podem, assim, constituir valioso recurso para a formação de psicopedagogos, na direção de uma melhor compreensão dos processos de aprendizagem e na direção de uma melhor qualificação profissional. F AMILIA E INFANCIA HOY : NUEVAS PROBLEMÁTICAS María Cristina Rojas Resumen - Se consideran en este artículo las transformaciones de la familia a partir de la variación de ciertas condiciones socioculturales, las que modificaron tanto su composición visible como las modalidades vinculares. Se propone pensar a la/s familia/s en términos de diversidades, cada una con su singular configuración. En relación con las formas de vincularse en la familia con niños, se toman en cuenta algunos modos de funcionamiento hoy frecuentes, abordándose, entre otras, la cuestión de las familias simétricas. En la atención clínica de tales familias se encuentran singulares impedimentos en los padres para asumir las funciones de sostén e interdicción que operan en la constitución del psiquismo e instalan la renuncia pulsional a la violencia y el incesto: son éstos temas indicados en el trabajo con padres desde la psicopedagogía y la psicología. La niñez considerada por la modernidad se diluye y es otra la idea del niño propuesta en el imaginario social actual: se analizan dichas concepciones epocales, que inciden en las prácticas sociales vinculadas con la niñez. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 269-74 % APRENDIZAGEM: TRAMAS DO CONHECIMENTO, DO SABER E DA SUBLETIVIDADE I NSERÇÃO DA P SICOPEDAGOGIA NOS SERVIÇOS DE SAÚDE E DE EDUCAÇÃO EM S ERGIPE Auredite Cardoso Costa Resumo - Este artigo tem como objetivo partilhar com outros estados brasileiros os avanços da Psicopedagogia em Sergipe, sua inserção social na comunidade sergipana, especialmente na área da Saúde e da Educação, no âmbito da Rede Pública, da Rede Privada e do Terceiro Setor. O impulso quanto à inserção do psicopedagogo no mercado como profissional, até então reconhecido socialmente, tem origem num grupo da Associação Brasileira de Psicopedagogia ABPp-Seção Sergipe, em parceria com a Faculdade Pio Décimo, pioneira na formação de psicopedagogos no Estado. Percebe-se que a Psicopedagogia em Sergipe tem mostrado sua real função na esfera da aprendizagem, a partir de seu contato com a comunidade por meio dos estágios curriculares, da intervenção psicopedagógica voluntária em instituições Públicas e do Terceiro Setor, da participação em atos públicos, palestras, encontros e do zelo por uma formação de qualidade respaldada uma competência teórica-prática. A O BSTÁCULOS COGNITIVOS NA APRENDIZAGEM MATEMÁTICA INICIAL : CONTAGEM , AS OPERAÇÕES INICIAIS E OS DIFERENTES SENTIDOS DE NÚMERO Beatriz Vargas Dorneles Resumo - Este texto descreve as dificuldades cognitivas, as quais chamamos de obstáculos, que as crianças, em geral, encontram ao realizarem a aquisição dos primeiros conhecimentos matemáticos. São retomadas pesquisas relativas à contagem, às operações matemáticas iniciais e aos números racionais, como exemplo de diferentes sentidos de número. Considera-se o conhecimento dos princípios da contagem essencial para a compreensão do conhecimento matemático posterior e analisa-se a necessidade de um tempo maior que algumas crianças, consideradas com dificuldade na matemática, necessitam para tal aprendizagem. São descritos alguns dos obstáculos que as operações de adição, multiplicação e divisão impõem às crianças. Além disso, são analisadas concepções iniciais a respeito dos números racionais que as crianças brasileiras apresentam. Pesquisas das três áreas do conhecimento matemático (contagem, operações e diferentes sentidos de número) são referidas. Salienta-se a compreensão evolutiva do conhecimento matemático e destacam-se as habilidades cognitivas prejudicadas em algumas crianças com dificuldades na área. AS ESTRATÉGIAS METACOGNITIVAS DE QUEM APRENDE E DE QUEM ENSINA Evelise Maria Labatut Portilho Resumo - O presente artigo objetiva destacar a importância do conhecer do próprio conhecer na prática educativa, isto é, a relação que se estabelece entre aquele que aprende e aquele que ensina. Ao tomar consciência e adquirir controle sobre sua aprendizagem, acredita-se que o aluno possa chegar a melhores e mais significativos resultados em seu trabalho acadêmico. E o professor, utilizando-se do ensino estratégico, ao conhecer a dinâmica das estratégias metacognitivas no contexto da atividade pedagógica, poderá eleger, com mais cuidado e responsabilidade ética, os conteúdos a serem trabalhados, observar os conhecimentos prévios, assim como variar seu estilo de ensinar, conforme os estilos diferentes de aprendizagem de seus alunos. O DESENHO DA CRIANÇA NO DIÁLOGO COM A CULTURA Rosa Iavelberg Resumo - Os processos subjacentes ao ato de desenhar, de acordo com as teorias ou idéias que as crianças constroem sobre desenho, produzem distintos resultados em diferentes momentos conceituais de seu desenvolvimento. Foram entrevistadas 40 crianças, individualmente, entre 3 e 14,11 anos. Concluiu-se que desenhar é um ato individual compreendendo atos socializados desde seu início. A esta compreensão sobre desenho de crianças nomeamos desenho cultivado. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 269-74 % MALUF MI A LUNOS QUE NÃO ACOMPANHAM O ENSINO : REFLEXÕES SOBRE ENSINO PÚBLICO E SERVIÇOS DE ATENDIMENTO Ilana Laterman Resumo - Este artigo apresenta reflexões sobre as interações entre escolas da rede pública municipal de ensino de Florianópolis e serviços institucionalizados de atendimento a alunos que não acompanham o ensino. Procura compreender as implicações no processo do ensino e da aprendizagem a partir das interações entre os profissionais das escolas e dos serviços que prestam atendimento aos alunos em questão. O texto é baseado em resultados de pesquisa realizada sobre o tema das possibilidades do ensino para o aluno que não acompanha sua turma quanto à aprendizagem e apresenta dados do mapeamento sobre os serviços de atendimento a estudantes existentes em Florianópolis, aprofunda o estudo em um local de atendimento recorrentemente reconhecido como tal e dialoga com autores da área que tratam sobre a visão clínica na escolaridade. Para contextualizar o debate no campo social, busca, ainda, autores que lidam com questões do tema fracasso escolar. A educação formal, ao lidar com processos de aprendizagem e socialização, questiona e é questionada por outras áreas de conhecimento que também tratam, em suas perspectivas, de processos de aprendizagem e socialização, como a psicologia, a pedagogia, neurologia, entre outras. No entanto, o diálogo entre estes diferentes campos em favor da educação pública democrática e de qualidade propõe ainda desafios e muitos questionamentos. I NSTRUMENTOS PSICOPEDAGÓGICOS DE AVALIAÇÃO E / OU DIAGNÓSTICO Maria Luiza Quaresma Soares da Silva, Raquel Pinto de Oliveira, Sérgio Antoniuk, Sandra Regina Kirchner Guimarães Resumo - O grupo de Psicopedagogia do CENEP, engajado na busca de soluções para os desafios da educação brasileira, têm se dedicado à elaboração de um instrumento psicopedagógico de avaliação e diagnóstico de problemas de aprendizagem. O instrumento aqui proposto foi desenvolvido para suprir a carência de instrumentos próprios para tal finalidade e obedece normas internacionais para diagnóstico e divulgação em pesquisa científica. Visa fornecer dados qualitativos do desempenho escolar, gerando subsídios para a intervenção e, ao mesmo tempo, fornecer dados quantitativos e comparativos entre os sujeitos e a população geral, tornandoo recurso útil à pesquisa. O protocolo de avaliação, composto por provas de leitura, escrita e matemática, já foi aplicado em um número significativo de crianças que freqüentam o CENEP, em alunos de escolas públicas de Curitiba-PR e João Pessoa-PB e em pesquisa de mestrado sobre desempenho escolar de crianças com problemas de aprendizagem. Os resultados obtidos até o momento mostram especificidade e sensibilidade do instrumento, permitindo delinear um perfil dos conhecimentos lingüísticos e matemáticos adquiridos pelos estudantes, bem como fornecer elementos para a elaboração de práticas educacionais adequadas às necessidades específicas identificadas. No momento, as provas se encontram em processo de padronização e validação. D ESAFIOS DA APRENDIZAGEM DO SEGUNDO MILÊNIO : ARTICULAÇÕES ENTRE O MICRO E MACROSSISTEMA E CONTRIBUIÇÕES DA I NSTITUCIONAL P SICOPEDAGOGIA NOS CONTEXTOS DA FAMÍLIA , DA SAÚDE E DA EMPRESA Eloísa Quadros Fagali Resumo - A proposta do presente texto é aprofundar nas reflexões e práticas em relação à função da Psicopedagogia institucional voltada para a aprendizagem das organizações, frente aos desafios no momento contemporâneo e aos conflitos em relação às questões de identidade institucional, fragmentações do conhecimento e do homem, gerando desrespeito frente às diferenças, sectarismos e exclusões. São práticas e reflexões teóricas fundamentadas numa visão ecossistêmica e do pensamento complexo, considerando a visão de rede dos múltiplos fatores psicosocioculturais e biológicos e as forças inconscientes e conscientes, individuais e coletivo. Destacam-se propostas de projetos de intervenção para o aperfeiçoamento do psicopedagogo e de outros profissionais e para oferecer suportes àqueles que se encontram excluídos no âmbito da família, da saúde e do ambiente de trabalho. Enfatiza a ampliação da concepção de aprendizagem da organização, do ponto de vista terapêutico e preventivo, com o trabalho de parcerias entre organizações privativas, públicas e de terceiro setor, que prestam serviços para ampliar as condições que garantem a qualidade saudável do trabalho em prol do desenvolvimento do homem, da cultura com o compromisso social. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 269-74 % APRENDIZAGEM: TRAMAS DO CONHECIMENTO, DO SABER E DA SUBLETIVIDADE D ESVELANDO HISTÓRIAS DE APRENDIZAGEM : TRAJETÓRIAS DE MULHERES ADULTAS UNIVERSITÁRIAS Fabiani Ortiz Portella Resumo - O estudo ora apresentado busca fazer uma análise da história de aprendizagens narradas por mulheres adultas participantes do curso de pedagogia. Proponho, como objeto de estudo, a análise dos processos de aprendizagem e formação durante o referido curso, realizando uma leitura na perspectiva do campo de atuação psicopedagógica. Pelos dados preliminares, por meios das histórias contadas e da produção textual de narrativas orais e escritas, busca-se encontrar nos discursos pontos de convergência centrados nas questões que envolvem a aprendizagem, ao mesmo tempo, analisando os percursos das acadêmicas, focados numa perspectiva psicopedagógica. A articulação teórica da Psicopedagogia na perspectiva da intervenção com adultos pensa os processos de aprendizagem referindo-se à dimensão social do processo de aprendizagem. Pelos dados preliminares, pode-se avaliar que o processo de formação leva-as a refletirem sobre seu fazer em sala de aula, antes totalmente empírico. É visível a metamorfose observada nas alunas no decorrer do curso, tanto no aspecto social, quanto afetivo e cognitivo. R ELAÇÕES SOCIAIS NA ESCOLA E DESENVOLVIMENTO DA SUBJETIVIDADE Maria Carmen V. R. Tacca Resumo - Neste artigo, queremos destacar que o processo de aprendizagem deve ser analisado, interpretado e compreendido acontecendo na integração da dimensão individual com a social, numa relação dialética que traz mudanças substantivas em ambas. Ao entrar na escola, ao participar de um grupo de colegas e interagir com eles e com os professores e em conjunto com todo o contexto social, histórico e cultural que representa a sala de aula, o aluno vai reunindo vivências e tecendo seus conhecimentos. Os processos de aprendizagem encontram-se imbricados em processos de significação que se sustentam tanto nas histórias subjetivas de cada um, como a história de suas relações sociais. Apresentamos, neste artigo, uma investigação de processos de aprendizagem, analisando as relações estabelecidas no âmbito de uma escola e o estudo de caso de um aluno na sua configuração subjetiva em relação à aprendizagem escolar. Em conclusão, argumentamos como a tensão entre subjetividade individual e social no contexto educacional é geradora de sentidos, cujos elementos criam um eixo de valor ímpar na constituição subjetiva de alunos e professores. Estas conclusões orientam para a importância de processos de comunicação e do diálogo como bases de relações sociais que possibilitam acompanhar e compreender a produção de sentido nos processos de ensinar e aprender. A P SICANÁLISE E A PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NO MEIO ESCOLAR David Léo Levisky Resumo - O autor entende como violência a força que transgride os limites dos seres humanos na sua realidade física, psíquica e no campo de suas realizações sociais, éticas, estéticas, políticas e religiosas. Força que desrespeita os direitos fundamentais do homem, que deixa de ser considerado sujeito de direitos e de deveres, para ser tratado como um simples objeto. A criança e o adolescente são focos prioritários na questão da prevenção da violência. Fatores complexos, endógenos e exógenos, constitucionais e simbólicos, conscientes e inconscientes, participam da geração de violência. Estresses que perturbam a auto-estima, que deturpam a construção da identidade e da subjetividade. Afetam a espontaneidade e a autonomia do sujeito. A violência banalizada transforma-se num valor de cultura. Deixa de ser sintoma da patologia social para se incorporar ao sujeito como um modo de ser. Violência que também é um grito de alerta e de esperança por mudanças. Depende de uma ética que se estabelece precocemente na infância, no seio da família, primeiro modelo social. Têm sua segunda e última oportunidade de reorganização durante a adolescência. As ações comunitárias na prevenção da violência e da melhoria da qualidade de vida estão acima de questões partidárias, étnicas, religiosas, sociais, econômicas. Dependem de políticas públicas que articulam e integram diferentes segmentos sociais, como expressão de um sentimento amplo e democrático. A escola, como espaço criativo, nutricional e reflexivo, deve ser o ambiente, após a família, fundamental para a formação do sujeito e das lideranças capazes de lidar com as vicissitudes da vida. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 269-74 %! MALUF MI L ÚDICO , APRENDIZAGEM E SAÚDE Vera Barros de Oliveira Resumo - O lúdico, em suas diversas modalidades, como os brinquedos, brincadeiras e jogos, acompanha nossa trajetória de vida, do nascimento à terceira idade, contribuindo para a saúde, física e mental de forma integrada, assim como para o processo de educação continuada. O brinquedo, com sua cor, forma, textura e sedução, convida ao toque e à exploração, o que gera um movimento de abertura ao meio, possibilitando o conhecimento do corpo, em seu espaço e tempo vividos. A brincadeira de faz-de-conta vem a ser a manifestação mais precoce de representação e introduz a criança no universo simbólico da linguagem e da cultura. Os jogos de socialização asseguram essa conquista e perduram vida afora. Nessa curva evolutiva lúdica, observa-se uma constante recursividade, tendo o sujeito em ação como núcleo central. Essa trajetória evidencia o corpo como alicerce da organização simbólica e social, e mostra como as manifestações simbólicas e sociais têm repercussões físicas. Essas constatações têm levado à maior utilização do brincar em ambientes de ensino/aprendizagem e de saúde, como nas brinquedotecas hospitalares. O Brincar, ao mesmo tempo que afirma sua validade, desvela sua imensa complexidade conceitual e metodológica. Nesse sentido, discute-se, por exemplo, se poderiam alguns jogos serem chamados de educativos e outros, não; sendo a mesma questão feita em relação aos brinquedos terapêuticos. Essa discussão pode levar inclusive a maior reflexão sobre as possíveis interseções da educação com a saúde, via lúdico. A LTERAÇÕES ORTOGRÁFICAS NOS TRANSTORNOS DE APRENDIZAGEM Jaime Luiz Zorzi Resumo - Os erros ortográficos fazem parte do aprendizado da escrita. Podemos encontrá-los nos texto de todas as crianças, quer sejam de escolas privadas ou públicas, quer apresentem ou não problemas no desenvolvimento. Se tais alterações se manifestam de uma forma generalizada, como é possível afirmarmos que sua ocorrência pode ser indicativa de transtornos como os distúrbios de aprendizagem ou dislexias? O objetivo deste artigo é apresentar os erros ortográficos mais comuns, assim como configurar as características que podem diferenciar o aprendizado considerado normal daquele desenvolvimento com desvios, indicativos dos chamados transtornos de aprendizagem. DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM E TRANSTORNOS DA ATENÇÃO : ALGUMAS REFLEXÕES Sylvia Maria Ciasca Resumo - Quando falamos em distúrbios de aprendizagem (DA) e transtornos da atenção (TDA), logo associamos um ao outro e, de fato, existe uma enorme confusão relacionada aos mesmos. Mas, estes conceitos não devem ser usados de forma igual ou como sinônimos, porque representam duas entidades distintas, e pesquisas recentes afirmam que as áreas cerebrais envolvidas nos dois problemas também são específicas; e, ainda, a criança com TDA pode ou não ter dificuldade em aprender academicamente e, diferentemente do DA, a criança com déficit de atenção apresenta outros problemas específicos, como dificuldade de relacionamento, problemas de comportamento, entre outros. Considero importantíssimo frisar que, tanto os DA como os TDA são compatíveis com inteligência normal, fato que não ocorre nos problemas de retardo no desenvolvimento neuropsicomotor ou nas deficiências mentais. Os dois temas são, sem dúvida, de caráter inter e multidisciplinares, porque precisam do envolvimento de vários profissionais e mesclam, em seus conteúdos, as áreas da saúde, educação e assistência social. Ambos requerem equipes de diagnóstico especializadas, além de trabalhos de intervenção e remedeio. Rev. Psicopedagogia 2006; 23(72): 269-74 %" Sandra Maria Cordeiro Schröeder Chácara das Pedras Porto Alegre RS (51) 3328-3872 [email protected] Sonia Maria Pallaoro Moojen Porto Alegre RS (51) 3333-8300 [email protected] RIO GRANDE DO NORTE Adriana de A. T. Gadelha de Freitas Capim Macio Natal RN (84) 3082-9781 [email protected] Ednalva de Azevedo Silva (84) 3221-6573 [email protected] Maria Cristina Limeira B. Vianna Tirol Natal RN (84) 9407-9698 [email protected] Rejane Bezerra Barros Natal RN (84) 9407-5397 Tania M. Leiros C. Cavalcanti Petrópolis Natal RN (84) 3221-3068 [email protected] Welshe Elda T. Noronha Natal RN (84) 3215-8507 [email protected] RIO DE JANEIRO Aglael Luz Borges Rio de Janeiro RJ (21) 2493-8481 Ana Maria Zenicola Flamengo Rio de Janeiro (21) 2556-3767 [email protected] Clelia Argolo Ferrão Estill Leblon Rio de Janeiro (21) 2259-9959 [email protected] Clytia Siano Freire de Castro Ipanema Rio de Janeiro (21) 2247-3185 [email protected] Dirce Maria Morrissy Machado Rio de Janeiro RJ (21) 2236-2012 [email protected] Dulce Consuelo Ribeiro Soares Ilha do Governador RJ (21) 3366-2468 [email protected] Heloisa Beatriz Alice Rubman Rio de Janeiro RJ (21) 2259-9959 [email protected] Maria Helena C. Lisboa Bartholo Rio de janeiro RJ (21) 2266-0818 [email protected] Maria Lúcia de Oliveira Figueiredo Rio de Janerio RJ (21) 2289-4932 [email protected] Maria Luiza Gomes Teixeira Rio de Janeiro RJ (21) 2439-1041 SANTA CATARINA Elza Adele Guerra Gobi Florianópolis SC (48) 3223-4031 [email protected] Ilana Laterman Florianopolis SC (48) 3232-0011 [email protected] SÃO PAULO Ada Maria Gomes Hazarabedian São Paulo SP (11) 6261-2377 [email protected] Alexandra M. Cristina Colini Vila Olímpia São Paulo (11) 3848-0906 [email protected] Aline Reck Padilha Abrantes Centro Araraquara SP (11) 3331-3377 Ana Lucia de Abreu Braga Ribeirão Preto São Paulo (16) 3021-5490/9994-7224 [email protected] Andrea de Castro Jorge Racy Vila Mariana São Paulo (11)5572-1331 [email protected] Beatriz Judith Lima Scoz Alto de Pinheiros São Paulo [email protected] Cristina Dias Allessandrini São Paulo São Paulo (11) 3037-5902 ou 3037-4322 [email protected] Cristina Vandoros Quilici (19) 9259-6652 - Vinhedo SP (11) 4586-7478/4521-0320 Jundiaí SP [email protected] Denise da Cruz Gouveia Moema São Paulo (11) 3743-0090 [email protected] Dilaina Paula Dos Santos Perdizes São Paulo (11) 3865-3171 [email protected] Edith Regina Rubinstein Vila Sonia São Paulo (11) 3743-0090/3744-4974 [email protected] Eliane Lagheto Vila Prudente São Paulo (11) 6965-8818 [email protected] Eloisa Quadros Fagali Perdizes São Paulo (11) 3864-2869 [email protected] Herval G. Flores Higienópolis São Paulo (11) 3257-5106 [email protected] Janice Maria Betave Santana São Paulo (11)6959-8569 [email protected] Lucia Bernstein Aclimação São Paulo (11) 3209-8071 [email protected] Margarida Azevedo Dupas Alto de Pinheiros São Paulo (11)3021-8707 [email protected] Maria Bernadete Giometti Portásio Santana São Paulo (11) 6950-6072 [email protected] Maria Cecilia Castro Gasparian Granja Viana Cotia São Paulo (11) 4702-2192 [email protected] Maria Célia R. Malta Campos Alto de Pinheiros São Paulo (11) 3819-9097 [email protected] Maria Cristina Natel Higienópolis São Paulo (11)5081-2057 [email protected] Maria de Fátima Marques Gola Jardim Paulista São Paulo (11) 3052-2381 [email protected] Maria Irene de Matos Maluf Higienópolis São Paulo (11) 3258-5715 [email protected] Marisa Irene S. Castanho Ipiranga São Paulo (11) 3491-0522 [email protected] Monica Hoehne Mendes São Paulo São Paulo (11) 5041-1988 [email protected] Neide de Aquino Noffs Perdizes São Paulo (11) 3670-8162 [email protected] Neusa Torres Cunha Brooklin São Paulo (11) 5506-5304/9153-7023 [email protected] Nivea Maria de Carvalho Fabricio Perdizes São Paulo (11) 3868-3850 [email protected] Patricia Vieira Pinheiros São Paulo (11) 3083-3557 [email protected] Quezia Bombonatto Vila Madalena São Paulo (11)3815-8710/3813-3267 [email protected] Rebeca Lescher N. de Oliveira Vila Madalena São Paulo (11) 3813-1088 [email protected] Sandra G. de Sá Kraft Moreira do Nascimento São Paulo São Paulo (11) 5044-4683/9165-1062 [email protected] Sandra Lia Nisterhofen Santilli Higienópolis São Paulo (11) 3259-0837 [email protected] Silvia Amaral De Mello Pinto Pinheiros São Paulo (11) 3816-8247 [email protected] Sonia Maria Colli de Souza Bela Vista São Paulo (11) 3287-8406 [email protected] Vania Maria C. Bueno de Souza Perdizes São Paulo (11) 3868-3850 vâ[email protected] Vera Meide Miguel Rodrigues São Paulo São Paulo (11) 3511-3888/3021-8009 [email protected] Yara Prates Santana São Paulo (11) 6976-9837 [email protected] ASSOCIADOS TITULARES (REVISTA 72) BAHIA Arlene Nascimento Pessoa Salvador BA (71) 9983-0470 [email protected] Debora Silva de Castro Pereira Candeal Salvador BA (71) 3341-2708 [email protected] Genigleide Santos da Hora Salvador BA (71) 9112-9765 [email protected] Iara Fernandes Pereira Lima Itaigara BA (71) 3351-9973/9119-9208 [email protected] Jacy Célia da Franca Soares Pituba Salvador BA (71) 3347-8777/3346-6868 [email protected] Karenina Azevedo Pituba Salvador BA (71) 3345-3535 [email protected] Leila da Franca Soares Pituba Salvador BA (71) 3347-8777/3346-6868 [email protected] Lourdes Maria da Silva Teixeira Salvador BA (71) 3221-3456 [email protected] Maria Angelica Moreira Rocha Pituba Salvador BA (71) 3345-1111 [email protected] Maria Auxiliadora de A. Rabello Salvador BA [email protected] BRASÍLIA Marli Lourdes S. Campos Brasília DF (61) 3322-7617 [email protected] CEARÁ Andréa Aires Costa de Oliveira Fortaleza CE (85) 3261-0064 Cleomar Landin de Oliveira Papicu Fortaleza CE (85) 3256-7301 [email protected]/ [email protected] Galeára Matos de França Silva Fortaleza CE (85) 3264-0322 [email protected] Maria José Weyne Melo de Castro Fortaleza CE (85) 3261-0064 [email protected] ESPÍRITO SANTO Maria da Graça Von Kruger Pimentel Vitória ES [email protected] GOIÁS Luciana Barros de Almeida Silva Goiânia GO (62) 3293-3067 [email protected] MATO GROSSO Angela Cristina Munhoz Maluf Cuiabá MT (65) 3025-7182 [email protected] MINAS GERAIS Claudia Marques Cunha Silva Centro Varginha MG (35) 9989-0692 [email protected] Helena Scherer Giordano Varginha MG (35) 3221-2284 [email protected] Julia Eugênica Gonçalves Varginha MG (35) 3222-1214 [email protected] Regina Rosa dos Santos Leal Belo Horizonte MG [email protected] Sandra Meire de Oliveira R. 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Oliveira Cornélio Procópio PR (41)3524-2377 Ivonilce Fátima Rigolin Gallo Maringá PR (44) 3224-7752 [email protected] Laura Monte Serrat Barbosa Curitiba PR (41) 3015-4178/3363-1500 [email protected] Maria Luiza Q. Soares da Silva Curitiba PR (41) 3264-9101/9136-5930 [email protected] Nerli Nonato Ribeiro Mori Campus Universitário Maringá PR (44) 3262-1161 [email protected] Regina Bonat Pianovski Curitiba PR (41) 3345-8798 [email protected] Rosa Maria Junqueira Scicchitano Londrina PR (43) 3342-7308 [email protected] Simone Carlberg Curitiba PR [email protected] Sonia Maria Gomes de Sá Kuster Curitiba PR (41) 3264-8061 [email protected] PERNAMBUCO Daisy Floriza C. Amaral Recife PE (81) 3326-1927 [email protected] Maria das Graças Sobral Griz Graça Recife PE (81) 3459-1448 [email protected] Maria Goretti Estima A. 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As duas parcelas restantes, no valor de R$ 55,00 cada, deverão ser pagas mediante boletos bancários com vencimento em 08/ 06/07 e 08/10/2007. 3 Contribuição especial para associado estudante matriculado em curso de pós-graduação em Psicopedagogia em 2007, para associados até 31/05/ 07, que poderá ser efetuada em uma das seguintes formas: a) À vista,em parcela única de :R$ 135,00 (referente à taxa de inscrição de R$ 15,00 e à anuidade de R$ 120,00) ou b) Três parcelas, sendo a primeira no ato da inscrição no valor de R$ 55,00 (referente à taxa de inscrição de R$ 15,00 mais a primeira parcela da anuidade no valor de R$ 40,00). As duas parcelas restantes, no valor de R$ 40,00 cada uma, deverão ser pagas mediante boletos bancários com vencimento em 08/ 06/07 e 08/10/2007. OBSERVAÇÕES IMPORTANTES: A associação é válida a partir da data de inscrição e o recebimento da revista estará vinculado à quitação da contribuição quadrimestral correspondente à edição da mesma. Todo Associado da ABPp que tenha efetuado o pagamento da anuidade de 2007 receberá a Carteirinha de Associado, com seu número de inscrição. Os associados inscritos no período de 01/01/07 a 31/ 05/07 em dia com suas obrigações financeiras terão direito às edições nº 73, 74 e 75 desse ano, aos descontos nos eventos da ABPp e de seus parceiros, de acordo com a proposta destes. Quando o interessado faz sua inscrição na ABPp, ele passa a ser um Associado Contribuinte. A ABPp, preocupada com a qualificação profissional dos psicopedagogos, mantém uma outra categoria de Associados, Associado Titular. Para que o Associado Contribuinte seja reconhecido pela ABPp como Associado Titular deverá satisfazer as seguintes exigências: 1 - Ser associado contribuinte da ABPp há pelo menos 3 (três) anos consecutivos e estar em dia com o pagamento da anuidade; 2 - Apresentar certificado de conclusão do Curso de Especialização em Psicopedagogia; 3 - Comprovar o exercício efetivo de atendimento psicopedagógico, em consultório ou instituição, pelo período de 5 (cinco) anos, no mínimo; 4 - Redigir e ler à Comissão de Reconhecimento, um Memorial descrevendo sua trajetória profissional; 5 - Apresentar Currículo Vitae Comprovado, xerocopiado e apresentado de maneira cronológica; 6- Apresentar atestado de Supervisão com psicopedagogo de, no mínimo, 5 (cinco) anos; 7 - Apresentar atestado de terapia pessoal de, no mínimo, 3 (três) anos; 8 - Comprovar a participação em pelo menos um Congresso Brasileiro e um Evento regional, promovidos pela ABPp; 9 - Além da anuidade como associado contribuinte, o associado titular deverá pagar para a ABPp Nacional a anuidade referente à sua titularidade. Os critérios para a transferência da categoria de Associado Contribuinte para a de Associado Titular foram propostos pelo Conselho Nacional e constam do Estatuto da ABPp, aprovado em A.G.E. Somente os Associados Titulares poderão se candidatar ao cargo de Diretor Geral de Seção, Coordenador de Núcleo, bem como a Conselheiro da ABPp. Apenas os Associados Titulares, em dia com suas contribuições, terão seus nomes, telefones e e-mails divulgados na Revista Psicopedagogia e no site da ABPp, desde que o autorizem previamente. NORMAS PARA PUBLICACIÓN La Revista Psicopedagogía, órgano de comunicación de la Asociación Brasileña de Psicopedagogía (Associação Brasileira de Psicopedagogia), indexada en: LILACS (Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), Bibliografia Brasileira de Educação (BBE), Latindex (Sistema Regional de Información en Línea para Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, España y Portugal), CLASE (Citas Latinoamericanas em Ciencias Sociales y Humanidades), EDUBASE (Faculdade de Educação, Universidade de Campinas), INDEX PSI (Conselho Federal de Psicologia), Catálogo Coletivo Nacional (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) y Descrição Bibliográfica da Fundação Carlos Chagas (DBFCC) tiene por objetivo publicar artículos en la área de psicopedagogía, en especial: resultados de investigación de carácter teórico / empírico; revisiones críticas de la literatura de investigación educacional temática o metodológica y reflexiones críticas respecto a experiencias pedagógicas que amplíen el conocimiento en el área y que no tengan sido publicados en otros periódicos. La Revista Psicopedagogía emplea las normas Vancouver (Uniform Requirements for Manuscript Submitted to Biomedical Journals, organizadas por el International Committee of Medical Journals Editors, disponible en http://www.icmje.org) y acepta para publicación lãs siguientes colaboraciones: 1. Artículo Original: relato completo de investigación. Limitado a 20 páginas, su estructura debe contener: introducción, métodos (procedimientos básicos), resultados, discusión y conclusión. Debe contener aun: sumario y summary, palabras llave y key words. 2. Artículo de Revisión: revisión crítica de la literatura abordando conocimientos respecto a determinado tema de manera a abarcar, por medio de consulta, análisis e interpretación de la bibliografía pertinente. Limite: 20 páginas y debe incluir sumario, summary, palabras llave y key words. 3. Relato de Investigación o experiencia: análisis de implicaciones conceptuales/investigación y descripción de experimentos originales. Limite: 20 páginas y debe contener: sumario y summary, palabras llave y key words. 4. Disertación, Tesis y Monografia: Límite: 20 páginas y debe contener: sumario, summary, palabras llave y key words. 5. Lectura y Reseña de Libros: abordaje de obra recién- publicada. Límite: 4 páginas. No requieren sumario, summary, palabras llave y key words. 6. Punto de Vista: temas relevantes para el conocimiento científico y universitario presentados en la forma de comentarios que favorezcan nuevas ideas o perspectivas para el asunto. Limite: 4 páginas No requiere: sumario, summary, palabras llave y key words. 7. Artículo especial: textos elaborados, a invitación del editor, de gran importância para la especialidad, no classificados en las categorias de artículos mencionados anteriormente. Debe contener: sumario y summary, palabras llave y key words. 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En la selección de los artículos para publicación, se evalúan la originalidad, la relevancia del tema y la calidad de la metodología científica utilizada, además de la adecuación a las normas editoriales adoptadas por el periódico. Artículos recusados no serán devueltos al autor. El Consejo Editorial se reserva el derecho de realizar pequeñas modificaciones en el texto de los autores, para agilizar el proceso de sumisión o publicación. Cuando de la publicación, pruebas impresas serán enviadas a los autores, debiendo ser revisadas y devueltos en el plazo de cinco días. En el caso que los autores no las devuelvan indicando posibles correcciones, el trabajo será publicado de acuerdo con la prueba. PREPARACIÓN DE LOS TRABAJOS Los artículos pueden ser escritos en portugués o español, y debem encuadrarse en una de las diferentes secciones de la revista. El trabajo deberá ser redactado en cuerpo 12 (Times New Roman), en una sola faz (anverso) del papel, en el máximo de 20 páginas con 30 líneas cada, espacio 1,5 línea, con margen de 3cm de cada lado, en el alto y al pie de cada página. Los manuscritos deben ser presentados en esta secuencia: página título, sumarios en portugués y inglés (summary), key words, palabras llave, textos, referencias bibliográficas, tablas y/o ilustraciones. PÁGINA TÍTULO Deberá contener: A) título del trabajo en portugués y inglés B) nombre, apelido de lo(s) autor (es) y institución a que pertenece(n); C) título resumido (no exceder quatro palabras); D) Carta de presentación, conteniendo firma de todos los autores, haciendose responsables por el contenido del trabajo, concordando con las normas de publicación y cediendo el derecho de publicación a la Revista Psicopedagogía, pero solamente uno de ellos debe ser indicado como responsable por la troca de correspondencia. Debe contener teléfono, fax y dirección para contacto. E) Aspectos éticos Carta de los autores revelando eventuales conflictos (profesionales, financieros y beneficios directos o indirectos) que puedan influenciar los resultados de la investigación. En la carta deberá constar aun la fecha de aprobación del trabajo por el Comité de Ética en Investigaciones de la institución la cual se encuentran vinculados los autores. ESTRUCTURA DEL TEXTO Los Artículos Originales deben contener, obligatoriamente: A) Introducción: Debe indicar el objetivo del trabajo y la hipótesis formulada; B) Métodos (Procedimientos Básicos): Breves descripciones de los procedimientos empleados; C) Resultados: Síntesis de los dos hallazgos, pudiendo ser presentados con figuras o tablas que ilustren puntos importantes; D) Discusión: Incluye el hallazgo, la validez y el significado del trabajo; E) Conclusión: consideraciones finales. Referencias de resultados no publicados y comunicación personal deben aparecer, entre paréntesis, siguiendo lo(s) nombre (s) individual (es) en el texto. Ejemplo: Oliveira AC, Silva PA y Garden LC (resultados no publicados). El autor debe obtener permisión para usar comunicación personal. SUMARIO y SUMMARY Son obligatorios para los Artículos Especiales, Artículos Originales, de Revisión, Relato de Experiencia o Investigación, Disertación, Tesis y Monografía, debendo contener en el máximo 250 palabras. Tras el sumario deberán ser indicados en el máximo seis palabras llave (se recomienda el vocabulario controlado del Decs-Descriptores en Ciencias de la Salud, publicación de la Bireme (www.bireme.br/ terminologiaemsaude). El Summary (traducción del sumario para el inglés) debe acompañar el mismo modelo del sumario y ser seguido de key words (traducción de las palabras llave para el inglés). AGRADECIMIENTOS Solamente a quien colabore de manera significativa en la realización del trabajo. Deben venir antes de las Referencias Bibliográficas. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS Las referencias deben ser dispuestas por orden de entrada en el texto y numeradas consecutivamente de manera sobrescrita, siendo obligatoria su citación. Ejemplo: como ya manifestaran diversos autores6,9,15. Deben ser citados todos los autores del trabajo si su número no es superior a seis; cuando superan este número, se citan los seis primeiros seguidos de et al. El nombre de la revista debe ser abreviado según el Cummulated Index Medicus o, si ello no fuere posible, según la Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Ejemplos de tipos de referencias: 1. Estándar ( Solamente un autor) Noffs NA. A formação de educadores para uma escola inclusiva. Rev Psicopedagogia 2002; 19: 41-4. 2. Estándar (Entre dos y seis autores) Wippel MLM, Goulart DF, Moreira ALGB, Bozza MGG. Capacidade para a prática interdisciplinar: um relato de experiência. Rev Psicopedagogia 2002; 19: 66-73. 3. Estándar (Más de seis autores) Araújo VJF, De Carlucci Jr D, Sasaki SU, Montag E, Azato FN, Cordeiro NC, et al. Perfil da incidência de câncer em hospital geral em São Paulo. Rev Hosp Clin Fac Med Univ São Paulo 1998; 53: 110-3. 4. Ausencia de autor Cancer in South Africa [editorial]. S Afr Med J 1994;84:15. 5. Organización como autor Sociedade Brasileira de Cardiologia. III Diretrizes Brasileiras sobre dislipidemias. Arq Bras Cardiol 2001; 77: 1-48. 6. Libros y otras obras monográficas - Autor(es) personal(es) Gasparian MC. A Psicopedagogia institucional sistêmica. São Paulo: Abril Cultural; 1997. 7. Capítulo en un libro Piaget, J. Problemas de epistemologia genética. In: Piaget J. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural; 1978. p. 211-71. 8. Disertación/Tesis Mendes MH. Psicopedagogia: uma identidade em construção [Dissertação/Tese]. São Paulo: Universidade São Marcos; 1998. 9. Referencia en formato electrónico Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Censo Demográfico e Estimativas, 1996. Disponível no URL: http://www.ibge.gov.br Otros tipos de referencias deberán seguir el documento de 2003, del International Committee of Medical Journal Editors (Grupo de Vancouver). Los editores se dan el derecho de excluir referencias no indicadas en el texto o elaboradas erróneamente. FIGURAS, TABLAS Y GRÁFICOS Serán aceptas el máximo de seis ilustraciones por artículo, las cuales comprenden: figuras, tablas, gráficos, diagramas, fotografías y diseños esquemáticos. En el caso de empleo de fotografías o figuras, se solicita el envío de los originales o copias digitalizadas en formato .TIF, con resolución mínima de 300 dpi. El aprovechamiento quedará condicionado a la cualidad del material enviado y deben ser presentados en negro y blanco, en hojas separadas y seguidos de leyenda que permita entender el significado de los datos reunidos. Señalar, en el texto, por su número de orden, los sitios en que los cuadros y tablas deben ser intercalados. Cuando extraídos de otros trabajos previamente publicados, deben venir seguidos de permisión, por escrito, para su reproducción. ABREVIAMIENTOS / NOMENCLATURA/ NOTAS DE RODAPIÉ El uso de abreviamientos debe ser mínimo. Cuando expresiones extensas deben ser repetidas, se recomienda que sus iniciales las reemplacen tras la primera mención. Esta debe ser seguida de las iniciales entre parêntesis. Notas de rodapié solamente se estrictamente necesario. Deben ser señaladas em el texto y presentadas em hojas separadas, o trás las referencias bibliográficas, com subtítulo nota de rodapié. NORMAS PARA PUBLICAÇÃO A Revista Psicopedagogia, órgão de comunicação da Associação Brasileira de Psicopedagogia, indexada em: LILACS (Literatura Latino - Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), Bibliografia Brasileira de Educação (BBE), Latindex (Sistema Regional de Información en Línea para Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, España y Portugal), CLASE (Citas Latinoamericanas em Ciencias Sociales y Humanidades), EDUBASE (Faculdade de Educação, Universidade de Campinas), INDEX PSI (Conselho Federal de Psicologia), Catálogo Coletivo Nacional (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) e Descrição Bibliográfica da Fundação Carlos Chagas (DBFCC) tem por objetivo publicar artigos inéditos na área de psicopedagogia, em especial: resultados de pesquisa de caráter teórico/ empírico; revisões críticas da literatura de pesquisa educacional temática ou metodológica e reflexões críticas sobre experiências pedagógicas que ampliem e aprofundem o conhecimento na área e que não tenham sido publicados em outros periódicos. A Revista Psicopedagogia utiliza as normas Vancouver (Uniform Requirements for Manuscript Submitted to Biomedical Journals, organizadas pelo International Committee of Medical Journals Editors, disponíveis em http://www.icmje.org) e aceita para publicação as seguintes colaborações: 1. Artigo Original: relato completo de investigação. Limitado a 20 laudas, sua estrutura deve conter: introdução, métodos (procedimentos básicos), resultados, discussão e conclusão. Deve conter ainda: resumo e summary, unitermos e key words. 2. Artigo de Revisão: revisão crítica da literatura abordando conhecimentos sobre determinado tema de forma abrangente, mediante consulta, análise e interpretação da bibliografia pertinente. Limite: 20 laudas e deve incluir resumo, summary, unitermos e key words. 3. Relato de Pesquisa ou Experiência: análise de implicações conceituais/investigação e descrição de pesquisas originais.Limite: 20 laudas e deve conter: resumo e summary, unitermos e key words. 4. Dissertação, Tese e Monografia: Limite: 20 laudas e deve conter: resumo, summary, unitermos e key words. 5. Leitura e Resenha de Livros: abordagem de obra recém-publicada. Limite: 4 laudas. Dispensam resumo, summary, unitermos e key words. 6. Ponto de Vista: temas de relevância para o conhecimento científico e universitário apresentados na forma de comentário que favoreçam novas idéias ou perspectivas para o assunto. Limite: 4 laudas. Dispensa resumo, summary, unitermos e key words. 7.Artigo Especial: textos elaboradoras a convite do editor responsável, de grande relevância para a especialidade, não classificáveis nas categorias de artigos listados anteriormente. Deve conter: resumo, summary, unitermos e keywords. INFORMAÇÕES GERAIS Os artigos e correspondências deverão ser enviados à: Revista da Associação Brasileira de Psicopedagogia Rua Teodoro Sampaio, 417 - Cj. 11 05405-000 - São Paulo - SP Cada original deverá vir acompanhado de duas vias, inclusive com disquete em sistema PC, fotografias, gráficos, etc. O conteúdo do material enviado para publicação na Revista Psicopedagogia não pode ter sido publicado anteriormente, nem submetido para publicação em outros veículos. A Revista Psicopedagogia possui os direitos autorais de todos os artigos por ela publicados. A reprodução total dos artigos em outras publicações requer autorização por escrito do Editor. Todos os artigos publicados são revisados por membros do Conselho Editorial, e a decisão sobre a aceitação do artigo para publicação ocorrerá, sempre que possível, no prazo de três meses a partir da data de seu recebimento. Na seleção dos artigos para publicação, são avaliados a originalidade, a relevância do tema e a qualidade da metodologia científica utilizada, além da adequação às normas editoriais adotadas pela revista. Artigos recusados não serão devolvidos ao autor. O Conselho Editorial reserva-se o direito de fazer pequenas modificações no texto dos autores para agilizar seu processo de submissão ou publicação. Quando da publicação, provas impressas serão enviadas aos autores, devendo ser revisadas e devolvidas no prazo de cinco dias. Caso os autores não as devolvam, indicando possíveis correções, o trabalho será publicado conforme a prova. PREPARAÇÃO DOS TRABALHOS Os artigos podem ser escritos em português ou espanhol, e devem se enquadrar em uma das diferentes seções da revista. O trabalho deverá ser redigido em corpo 12 (Times New Roman), numa só face do papel, no máximo em 20 laudas de 30 linhas cada, espaço 1,5 linha, com margem de 3cm de cada lado, no topo e no pé de cada página. Os manuscritos devem ser apresentados nesta seqüência: página título, resumos em português e inglês (summary), key words, unitermos, texto, referências bibliográficas, tabelas e/ou ilustrações. PÁGINA TÍTULO Deverá conter: A) título do trabalho em português e inglês B) nome, sobrenome do (s) autor (es) e instituição pertencente (s); C) nome e endereço da instituição onde o trabalho foi realizado; D) título resumido (não exceder quatro palavras); E) Carta de apresentação, contendo assinatura de todos os autores, responsabilizando-se pelo conteúdo do trabalho, concordando com as normas de publicação e cedendo o direito de publicação à Revista Psicopedagogia, porém apenas um deve ser indicado como responsável pela troca de correspondência. Deve conter telefone, fax e endereço para contato. F) Aspectos éticos Carta dos autores revelando eventuais conflitos de interesse (profissionais, financeiros e benefícios diretos ou indiretos) que possam influenciar os resultados da pesquisa. Na carta deve constar ainda a data da aprovação do trabalho pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição à qual estão vinculados os autores. ESTRUTURA DO TEXTO Os Artigos Originais devem conter, obrigatoriamente: A) Introdução: Deve indicar o objetivo de trabalho e a hipótese formulada; B) Métodos (Procedimentos Básicos): Breves descrições dos procedimentos utilizados; C) Resultados: Síntese dos achados, podendo ser apresentados com figuras ou tabelas que ilustrem pontos importantes; D) Discussão: Inclui o achado, a validade e o significado do trabalho; E) Conclusão: considerações finais. Referências de resultados não publicados e comunicação pessoal devem aparecer, entre parênteses, seguindo o(s) nome (s) individual (is) no texto. Exemplo: Oliveira AC, Silva PA e Garden LC (resultados não publicados). O autor deve obter permissão para usar comunicação pessoal. RESUMO e SUMMARY São obrigatórios para os Artigos Especiais, Artigos Originais, de Revisão, Relato de Experiência ou Pesquisa, Dissertação, Tese e Monografia, devendo conter no máximo 250 palavras. Após o resumo deverão ser indicados no máximo seis Unitermos (recomendase o vocabulário controlado do Decs-Descritores em Ciências da Saúde, publicação da Bireme (www.bireme.br/terminologiaemsaude). O Summary (tradução do resumo para o inglês) deve acompanhar o mesmo modelo do resumo e ser seguido de Key words (tradução dos Unitermos para o inglês). AGRADECIMENTOS Apenas a quem colabore de modo significativo na realização do trabalho. Devem vir antes das Referências Bibliográficas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS As referências devem ser dispostas por ordem de entrada no texto e numeradas consecutivamente de forma sobrescrita, sendo obrigatória sua citação. Exemplo: como já demonstraram diversos autores6,9,15. Devem ser citados todos os autores do trabalho, quando até seis; acima deste número, citam-se os seis primeiros seguidos de et al. O periódico deverá ter seu nome abreviado segundo o Cummulated Index Medicus ou, se não for possível, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Exemplos de tipos de referências: 1. Padrão ( Só um autor) Noffs NA. A formação de educadores para uma escola inclusiva. Rev Psicopedagogia 2002; 19: 41-4. 2. Padrão (Entre dois e seis autores) Wippel MLM, Goulart DF, Moreira ALGB, Bozza MGG. Capacidade para a prática interdisciplinar: um relato de experiência. Rev Psicopedagogia 2002; 19: 66-73. 3. Padrão (Mais de seis autores) Araújo VJF, De Carlucci Jr D, Sasaki SU, Montag E, Azato FN, Cordeiro NC, et al. Perfil da incidência de câncer em hospital geral em São Paulo. Rev Hosp Clin Fac Med Univ São Paulo 1998; 53: 110-3. 4. Ausência de autor Cancer in South Africa [editorial]. S Afr Med J 1994;84:15. 5. Organização como autor Sociedade Brasileira de Cardiologia. III Diretrizes Brasileiras sobre dislipidemias. Arq Bras Cardiol 2001; 77: 1-48. 6. Livros e outras obras monográficas - Autor(es) pessoal(is) Gasparian MC. A Psicopedagogia institucional sistêmica. São Paulo: Abril Cultural; 1997. 7. Capítulo em um livro Piaget, J. Problemas de epistemologia genética. In: Piaget J. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural; 1978. p. 211-71. 8. Dissertação/Tese Mendes MH. Psicopedagogia: uma identidade em construção [Dissertação/Tese] São Paulo: Universidade São Marcos; 1998. 9. Referência em formato eletrônico Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE. Censo Demográfico e Estimativas, 1996. Disponível no URL: http://www.ibge.gov.br Outros tipos de referências deverão seguir o documento de 2003, do International Committee of Medical Journal Editors (Grupo de Vancouver). Os editores se dão ao direito de excluir referências não indicadas no texto ou elaboradas erroneamente. FIGURAS, TABELAS E GRÁFICOS Serão aceitas no máximo de seis ilustrações por artigo, as quais compreendem: figuras, tabelas, gráficos, diagramas, fotografias e desenhos esquemáticos. No caso de utilização de fotografias ou figuras, solicita-se o envio dos originais ou cópias digitalizadas em formato .TIF, com resolução mínima de 300 dpi. O aproveitamento ficará condicionado à qualidade do material enviado e devem ser apresentados em preto e branco, em folhas separadas e acompanhados de legenda que permita compreender o significado dos dados reunidos. Assinalar, no texto, pelo seu número de ordem, os locais em que os quadros e tabelas devem ser intercalados. Quando extraídos de outros trabalhos previamente publicados, devem vir acompanhados da permissão, por escrito, para a sua reprodução. ABREVIAÇÕES / NOMENCLATURA / NOTAS DE RODAPÉ O uso de abreviações deve ser mínimo. Quando expressões extensas devem ser repetidas, recomendase que suas iniciais as substituam após a primeira menção. Esta deve ser seguida das iniciais entre parênteses. Notas de rodapé somente se estritamente necessárias. Devem ser assinaladas no texto e apresentadas em folha separada, ou após as referências bibliográficas, com subtítulo nota de rodapé.