UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL PROGRAMA DE EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE ESPECIALIZAÇÃO EM GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS COM FOCO EM RAÇA E GÊNERO MARIA CECÍLIA PEREIRA UGALDE MULHERES INDÍGENAS: DESTRIBALIZAÇÃO E MENDICANCIA NAS RUAS DAS CIDADES DE RIO BRANCO E SENA MADUREIRA-ACRE RIO BRANCO 2012 MARIA CECÍLIA PEREIRA UGALDE MULHERES INDÍGENAS: DESTRIBALIZAÇÃO E MENDICANCIA NAS RUAS DAS CIDADES DE RIO BRANCO E SENA MADUREIRA-ACRE Monografia apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação para a Diversidade da Universidade Federal de Ouro Preto, como requisito parcial à obtenção do grau de Especialista em Gestão de Políticas Públicas. Área de Concentração: Raça e Gênero. Orientador: Ms. Germano Moreira Campos RIO BRANCO 2012 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho aos meus filhos Mellyssa Maria, Daniel Francisco, Roberto Miguel, Nick Andrew, Marlla Munick e Stella Beatrice, por constituírem toda minha riqueza. Aos meus netos Giovanna Safira, Bruno, João Artur e Víctor Miguel, pela certeza da continuação. Em especial, a Roberto Miguel Ugalde Solórzano (in memorian). Saudades! AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, que em sua infinita misericórdia e bondade, permitiu a conclusão deste curso. Ao meu tutor e orientador, Germano Moreira Campos, pela paciência, incentivo constante e ideias tão valiosas para o rumo deste trabalho. Aos meus filhos, em especial ao Daniel, pelas ideias e ajuda constantemente na configuração, formatação dos textos e utilização de ferramentas de informática. Ao meu amigo, Ocimar Leitão Mendes, pelas dicas e explicações, que foram de suma importância na compreensão dos modos de vida dos povos indígenas. Ao Antonio Luiz Batista de Macedo, sertanista da FUNAI, em Rio Branco, que esteve sempre aberto a conversas e entrevistas. Ao senhor José Correia da Silva Jaminawá, chefe do posto da FUNAI, do Município de Sena Madureira-Acre, pela sua disponibilidade de conceder informações tão importantes, quando da realização de minhas pesquisas. À Rosenilda Nunes Padilha, missionária do Conselho Indigenista Missionário CIMI, de Rio Branco, por disponibilizar dados e informações tão relevantes para o desenvolvimento deste trabalho. Ao meu cunhado, Renã Leite Pontes, pelo empréstimo de materiais necessários ao desenvolvimento deste trabalho. À minha mãe, Maria das Mercês e meus irmãos e irmãs, por existirem na unidade da família. E por fim, aqueles que direta ou indiretamente colaboraram para que este momento fosse possível. A todos, muito obrigada! EPÍGRAFE Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sêlo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros... (Darcy Ribeiro) RESUMO Buscamos com esse trabalho compreender a prática da mendicância entre as mulheres indígenas do Estado do Acre. Para tanto, usamos como referencial teórico, obras de diversos autores, que compreende uma perspectiva multidisciplinar, para atender nossas expectativas acerca do objeto pesquisado. Realizamos uma investigação teórico-histórica, abordando autores das áreas de história, sociologia e antropologia política e social como SOUZA (2002), CLASTRES (2003), NEVES (2002), IGELSIAS (2008), MALINOWSKI, (2003) WEBER (2006), LACERDA (2009), HEILBORN (2010; 2011), SILVA (2010), AQUINO (1982), ÔCHOA (2003), FERREIRA (2002), entre outros. Com o propósito de obtermos dados mais precisos, realizamos ainda, visitas a órgãos responsáveis pela implementação e desenvolvimento de políticas de atendimentos aos povos indígenas da região acreana, bem como entrevistas orais com funcionários da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Conselho Indigenista Missionário – CIMI e Assessoria Especial dos Povos – AEP. Assim, analisamos o processo de formação do Estado do Acre, as consequências da ocupação e exploração, pelo homem “branco”, que se configurou como a negação de uma cultura dita inferior, resultando na expulsão dos povos indígenas de seu habitar natural e consequentemente na mendicância de mulheres indígenas nas ruas das cidades do Estado do Acre. PALAVRAS CHAVES: destribalização e/ou desaldeamento; cultura indígena; mendicância. RESUMEN El objetivo de este trabajo es comprender la práctica de la miseria, en el medio de las mujeres indígenas del Estado de Acre. Para este objetivo, utilizamos como referencia teórica obras de los más diversos autores, que alcanzan una perspectiva multidisciplinar, para atender nuestras expectativas acerca del objeto pesquisado. Realizamos una investigación teórico-histórica, enfatizando autores de las disciplinas de historia, sociología y antropología política y social como SOUZA (2002), CLASTRES (2003), NEVES (2002), IGELSIAS (2008), MALINOWSKI, (2003) WEBER (2006), LACERDA (2009), HEILBORN (2010; 2011), SILVA (2010), AQUINO (1982), ÔCHOA (2003), FERREIRA (2002), y otros. Con el propósito de obtenernos datos más exactos, también realizamos visitas a las instituciones responsables por la implementación y desarrollo de políticas de atendimiento a los pueblos indígenas de la región acreana, bien como entrevistas verbales con oficinistas de La Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Conselho Indigenista Missionário – CIMI y Assessoria Especial dos Povos – AEP. Precisamente, razonamos el proceso de formación del Estado de Acre, las consecuencias de la ocupación y explotación, por el hombre “blanco”, que se configuró como la negación de una cultura señalada como inferior, resultando en la expulsión de los pueblos indígenas de su hábitat natural y, consecuentemente, en el desamparo de las mujeres indígenas por las calles de las ciudades del Estado de Acre. PALABRAS CLAVES: destribalización y/o desordenamiento; cultura indígena; miseria. SUMÁRIO Introdução .................................................................................................08 1 O Estado do Acre e os povos sem Estado ........................................11 1.1 A descoberta do ouro negro e o nascimento do Estado Acre ..................11 1.2 Seringueiros, indígenas e as dimensões de gênero no contexto dos Seringais ...................................................................................................14 1.3 A função da produção indígena e o viés etnocêntrico evolucionista .......16 2 A população indígena e as conquistas atuais: um resgate de muitas lutas ................................................................................................19 2.1 A inserção da população indígena na sociedade acreana .........................19 2.2 Políticas Públicas no contexto da diversidade cultural ........................... 24 2.3 Políticas Públicas e Projetos voltados às populações indígenas do Estado do Acre .....................................................................................................28 3 Mulheres indígenas e políticas públicas de (ex) inclusão ...........33 3.1 As relações de gêneros nas comunidades indígenas/atribuições da mulher.......................................................................................................33 3.2 Indígenas pedintes e as ações governamentais: o que não funciona? .......38 3.3 Mulheres indígenas e a prática da mendicância: em que contexto surgiu? Por quê?....................................................................................................42 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..........................................................................45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFRICAS ........................................................47 ANEXO I ...........................................................................................................50 ANEXO II ....................................................................................................... 52 INTRODUÇÃO O presente trabalho busca explicação para surgimento da mendicância, nas ruas das cidades de Rio Branco e Sena Madureira – Acre, no viver de mulheres de etnia indígenas. A questão “mendicância indígena” faz parte de debates, reuniões e ações, que envolve o governo do Estado do Acre e os órgãos que lidam com as causas indígenas, como Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Conselho Indigenista Missionário, Assessoria dos Povos Indígenas, entre outros. Tal temática é evidenciada no cotidiano da sociedade acreana e através dos meios de comunicação de massa como um problema social que causa transtorno e repudio ao “homem branco”, porém sem mencionar os motivos da personificação e instauração dessa prática na realidade da população indígena. O tema “mulheres indígenas: destribalização e mendicância nas ruas das cidades de Rio Branco e Sena Madureira-Acre,” foi escolhido por se tratar de questões que vivenciam crescente interesse na mídia local, emergindo de um longo silêncio, que possibilitou, de alguma forma, a fundamentação deste trabalho. Contudo, a escassez de produção acadêmica na área em questão, limita e dificulta a orientação deste trabalho. Mas, é por meio da análise dessa mínima produção, que procuramos respostas para algumas inquietações, mantendo a reserva necessária, por perceber-se o quanto a questão indígena suscita conflituosos debates. Por conseguinte, não pretendemos historiar o processo violento iniciado em 1903, com a ocupação das terras do atual Estado do Acre, que de algum modo, ainda impõem aos povos indígenas dificuldades de existência física e cultural. Nem fazer uma genealogia de conceitos apresentados ao longo da escrita. Procura-se apenas situar os conceitos utilizados no contexto que buscamos compreender, como as concepções de índio, cultura indígena, destribalização e/ou desaldeamento, mendicância e modos de vida. Desse modo, no primeiro capítulo, trabalhamos o processo de ocupação e exploração das terras acreanas, demonstrando como ocorreu a institucionalização do Estado do Acre, com base na produção de pesquisadores e historiadores locais. 9 Também, dialogamos com as reflexões teóricas de CLAUTRES, 2003, sobre a visão etnocêntrica evolucionista, que influenciou o pensamento europeu no que diz respeito à definição de Estado. Evidenciamos os conflitos suscitados entre os agentes da frente de exploração econômica e a população nativa, por ocasião da ocupação e exploração das terras acreanas, demonstrando os dois lados da questão e procurando compreender como sociedades distintas convivem e (re) constroem suas identidades culturais no contexto dessas diversas formas de ver o mundo. No segundo capítulo, procuramos ressaltar as lutas pela conquista dos direitos indígenas e os desafios suscitados, a partir da Carta Magna de 1988, quando o Estado Nacional assume a responsabilidades e o ato de legislar em defesa daqueles que resistiram e sobreviveram a negação e o preconceito dos colonizadores e exploradores. Destacamos, ainda, o processo de demarcação das terras indígenas acreanas, encontros, seminários, ações governamentais e não governamentais que objetivam a efetivação de políticas públicas de defesa dos direitos dos povos indígenas, como saúde e educação diferenciada, que preservam a língua, a cultura, o modo de organização interétnicas, como produção e sociabilização de saberes e fazeres, que se distinguem e conflitam, com fundamentos jurídicos, legais e políticos, a despeito do discurso do respeito à diferença. Esses conceitos fornecem material para referenciar o protagonismo feminino dentro dos Movimentos Indígenas, nos quais buscam um espaço na articulação de ações e políticas públicas de abolição ao racismo e ao preconceito feminino. No que se refere ao terceiro capítulo, procuramos analisar mais profundamente, relatórios e publicações nos meios de comunicação local, sobre a temática em questão. Realizamos visitas e entrevistas orais, para obtermos dados mais precisos sobre a questão dos povos indígenas desaldeados e mais especificamente, das mulheres indígenas mendicantes nas ruas das cidades de Rio Branco e Sena Madureira- Acre, com intuito de explicitar e compreender os motivos que levaram tais mulheres buscarem a mendicância como meio de sobrevivência. Procuramos investigar que ações governamentais e não governamentais foram desenvolvidas e efetivadas no contexto das políticas 10 públicas para os povos indígenas do Acre, têm como objetivos a retirada de mulheres e crianças indígenas, que vivem em situação de risco nas ruas das cidades. E por fim, buscamos identificar em que contexto surgiu, entre as mulheres indígenas, à prática de mendicância, e por quê. 11 CAPÍTULO I O Estado do Acre e os povos sem Estado 1.1 A descoberta do ouro negro e o nascimento do Estado Acre As lutas pela posse da terra sempre foram motivos de conflitos que justificaram grandes guerras. Motivo pelo qual milhares de índios foram exterminados pelos exploradores que cobiçavam a Amazônia brasileira. E, como vencedores, impuseram aos vencidos sua língua, suas leis, cultura e religião. No atual Estado do Acre não podia ter sido diferente. A descoberta da borracha como matéria-prima nas indústrias automobilísticas, no uso da bicicleta e outros artefatos, na segunda metade do século XIX; a invenção do processo de vulcanização do látex, por Charles Goodyear, em 1839, fazendo o produto se transformar em algo resistente às mudanças de temperaturas e a fabricação dos pneus Dunlop, em 1888, impulsionando a indústria automobilística, foram algumas das transformações que ocasionaram a invasão de terras indígenas (SOUZA, 2002; NEVES, 2002). Aliado a esses fatores, está ainda, a descoberta por pesquisadores de diversas partes do mundo, da existência de maior reserva da hevea brasiliensis, na Amazônia brasileira. Todos esses fatos foram determinantes para a Europa despertar seu interesse pela região, abrindo caminho para a implantação dos seringais, transformando a Amazônia em palco de investimentos internacionais, impondo novas relações sociais, comerciais e de produção. Ocasião em que foram deslocadas mãos de obras do Nordeste para a região, ocupando áreas ainda não alcançadas pelo homem branco e originando o atual Estado do Acre (SOUZA, 2002). Entretanto, identificar a gênese do Estado do Acre, num dado período histórico e social, elimina a possibilidade dos grupos humanos que habitavam o território, de serem responsáveis pela elaboração de modos próprios de organização social. Capazes de responder adequadamente pela vida em coletivo e de elaborar sistemas que lhes garantissem a harmonia da vida em grupos e com a natureza, como por exemplo, entres os povos indígenas do Acre. 12 Dessa forma, para análise dessa mudança política e conceitual, embasamo-nos na reflexão teórica de (CLASTRES, 2003), sobre a existência do Estado em comunidades primitivas, a partir da visão de Estado, tal com está definida pela sociedade ocidental. Uma instituição construída historicamente com vistas a assegurar o exercício autorizado da força para regulamentar as relações entre proprietários e não proprietários. Visão essa que impossibilita a compreensão de sistemas de organização social entre os povos indígenas. Para o autor, a “falta” da trilogia governo, lei e religião legitimou as ações do Estado e das missões religiosas nos 498 anos antecedentes ao ano de 1988, período no qual viveram sob a negação de seus modos de vida e organização sociocultural. Sendo o pós 1988 considerado como o ano da conquista de um “novo tempo”, para os povos indígenas. CLASTRES (2003), justifica que essa “falta” se relaciona com a visão etnocêntrica e evolucionista que marcou a violenta relação dos europeus com os povos indígenas. Visão que explicita como os europeus compreendiam a si e o outro e a maneira como intervinham no mundo. Essa atribuição dos colonizadores referida pelo autor é vinculada diretamente à visão cientificista e etnocêntrica, utilizada para analisar o “outro”, o “diferente”, através de concepções culturais e categorias de análise que negam à sociedade analisada a sua alteridade sociocosmológica. Tal “falta” justifica a concepção evolucionista e poderíamos admitir que “o Estado é o destino de toda sociedade” (CLASTRES, 2003, p.207), mas será que o Estado é a única instituição social capaz de permitir a coexistência entre grupos humanos? Será que a visão etnocêntrica dos europeus não embaçou suas próprias visões, os impedindo de reconhecer nas instituições societárias autóctones, modos de vida que assegure a reprodução física e cultural dos povos indígenas habitantes da Amazônia brasileira? A história aponta para cerca de 50 grupos indígenas vivendo na região do atual Estado do Acre, antes da chegada dos exploradores. Grupos esses que cresceram e se desenvolveram social, cultural e espiritualmente. Cada grupo com sua própria história, mitos, crenças, modos de vida, tradição, religião e sabedoria. Conhecimentos adquiridos ao longo de uma antiga relação com a natureza e seus mistérios. (FUNDAÇÃO DE CULTURA ELIAS MANSOUR, 2010; ÔCHOA, 2002). Entretanto, afirmar que os povos indígenas habitavam essas terras muito antes da chegada do homem branco, reforça o preconceito de que eles não têm 13 história, já que não dominam a escrita e sua memória é baseada na tradição oral, repassada pelos mais velhos as gerações mais jovens (NEVES, 2002). Para se chegar a um consenso, necessitamos recorrer à história, analisando, por um lado à visão da chamada “civilização” e por outro, a dos povos autóctones, que habitavam imemorialmente a região, bem como as consequências advindas do confronto dessas duas raças. Em 1878, a empresa extrativista alcançava o rio Acre dominando todo o médio Purus e, em 1880 ultrapassava a linha Cunha Gomes, que limitava as fronteiras legais do Brasil. No mesmo período, caucheiros peruanos extraíam o caucho na região das cabeceiras dos rios Juruá e Purus. Época na qual os primeiros seringalistas bolivianos começaram a expandir seus domínios pelo vale do Madre de Dios e invadiam o território acreano pelo sul. Tais acontecimentos fizeram com que os povos nativos ficassem cercados por brasileiros, peruanos e bolivianos, ao mesmo tempo. De senhores da floresta, os nativos passaram a ser considerados obstáculos à empresa extrativista e consequentemente, a indústria internacional que dependia da borracha amazônica para a fabricação de seus produtos (NEVES, 2002). Nesse contexto, surge ainda, a situação difícil de adaptação dos nordestinos à atividade de exploração do látex, uma vez que a força de trabalho primária era de homens e mulheres provenientes do Nordeste brasileiro. Seres humanos que encontraram um ambiente diverso do seu habitar natural, expostos às intempéries climáticas; ao ataque de animais selvagens e condições precárias de trabalho, para realizar o corte nas estradas de seringa e pagar as dívidas contraídas com os custos do deslocamento da terra natal ao seringal e o custeio de alimentos e equipamentos necessários à extração de borracha. A esses fatores somavam-se, os ataques furtivos dos indígenas que de algum modo, tentavam defender seu território (MARTINELLO, 2004; TOCANTINS, 1979). Durante quase duas décadas, a presença indígena seria considerada pelos patrões como eminente obstáculo à consolidação da ocupação, ao funcionamento de suas propriedades e ao trabalho e “segurança” de seus fregueses. Os seringalistas não realizariam qualquer iniciativa para incorporar os indígenas às atividades produtivas (...) (IGLESIAS, 2008, p.92). 14 1.2 Seringueiros, indígenas e as dimensões de gênero no contexto dos Seringais. As ‘veias’ abertas do Acre foram muitas. O total de leite de seringa defumado e do caucho retirado, na região acreana, corresponde a mesma quantidade de sangue derramado dos corpos dos índios durante os primeiro tempos de seringais. (SOUZA, 2002, p. 23). Inconformados com a presença indígena, os seringalistas adotaram práticas que passaram a ser denominadas “correrias”. Estas eram justificadas pelo fato de conceberem os índios como "selvagens", "feras", "animais", "pagãos" ou "infiéis" (IGLESIAS, 2008). Por três décadas, as práticas das “correrias” aterrorizaram os povos indígenas da região acreana, já que consistia em expedições armadas, organizadas com objetivo de matar, e aprisionar homens para o trabalho escravo e mulheres para serem vendidas aos seringueiros. Segundo NEVES (2002, p.14) “depois de queimadas as malocas e mortos os principais guerreiros, os vencedores se divertiam jogando as crianças para cima e aparandoas com a ponta do punhal numa demonstração cruel de habilidade no manejo das armas”. As tribos indígenas enfrentaram o terror da dizimação de seu povo, que tanto morriam em consequência do confronto armado com o homem branco, quanto por contrair doenças trazidas por este, contra as quais não tinham defesas. De acordo com SOUZA (2002, p.31), “nessas ‘correrias’ alguns índios eram obrigados a ajudar os brancos nos ataques a outros índios”. De modo que, a reação dos diversos grupos indígenas, habitantes das terras acreanas, frente à chegada dos exploradores, foi tão variada quanto à multiplicidade das culturas intertribais da região. Muitos dos sobreviventes fugiram para as terras firmes dos fundos dos seringais e cabeceiras dos rios, longe da ação do homem “civilizado”. Algumas tribos decidiram se aliar ao homem branco e muitos índios tornaram-se remadores, guias, mateiros, seringueiros, agricultores etc. Outras passaram a se relacionar com os seringais negociando os produtos da caça, da pesca e de suas lavouras em troca de ferramentas, armas e objetos dos brancos. Os povos que pretenderam resistir à invasão de seus territórios e tiveram a intenção de impedir o contato com o não índio, foram perseguidos e exterminados, por dificultar a abertura das estradas de seringa para a extração do látex. A intensidade da perseguição contra alguns grupos indígenas foi tão 15 acirrada que alguns passaram a esconder sua verdadeira etnia, para evitar o total extermínio de seus membros. Como a exemplo, grupo dos Jaminawá (NEVES, 2002). Subir os rios indomados, repletos de índios ferozes, doenças desconhecidas e rumos incertos era tarefa para homens destemidos. Entre 1880 e 1900 os rios acreanos foram tomados por milhares de homens, alguns audazes, outros famintos, outros fugidos, loucos ou iludidos. Nas ricas florestas, repletas de seringueiras dos altos rios acreanos a única justiça vigente era a Lei 44, calibre do papo-amarelo arma de todos e última palavra quando havia pendências a resolver. Não havia lugar para mulheres em tal mundo... (NEVES, 2002, p. 7). O texto acima provavelmente justifica a exclusão das mulheres no processo de formação histórica do Estado do Acre. Entretanto, essas mulheres, violentadas sob o decreto de exclusão no contexto histórico e político, vieram cada vez em número maior do Nordeste brasileiro, acompanhando seus pais, maridos, noivos e até para fugir da seca. Outras, que residiam nas cidades de Belém e Manaus, para escaparem da situação de miséria e prostituição em que viviam, aceitavam o convite dos donos dos seringais e eram entregues aos melhores seringueiros, como premio pela maior quantidade de borracha produzida (SOUZA, 2002). Outras ainda, (mulheres indígenas), em números mais elevados foram violentamente privadas da convivência com seu grupo de origem. Segundo Carlos Alberto, “com as ‘correrias’ praticadas por seringalistas, muitos seringueiros passaram a ‘casar’ com mulheres índias, raptadas das aldeias”. De modo que todas participaram diretamente do processo de formação, exploração e extração do látex, nos seringais acreanos, pois além dos afazeres domésticos, elas também aprenderam as tarefas masculinas, transmitindo aos filhos e filhas, que cresciam sabendo o que lhes cabia realizar. E nesse contexto, muitas mulheres tornaram-se seringueiras, agricultoras e pescadoras, vivendo e participando de todas as dimensões sociais de uma Colocação, no seringal e ocasionando a miscigenação de raças e de culturas existentes (SOUZA, 2002; NEVES, 2006). Entretanto, esse fator não foi considerando pela sociedade dita “civilizada”, nem no que se refere à participação delas no processo de formação e desenvolvimento dos seringais, nem no que diz respeito à valorização da cultura, modos de produção, sistematização e socialização de saberes e fazeres das mulheres indígenas. Fato que para melhor compreensão, necessitamos retomar a 16 análise de (CLASTRES, 2003), mencionando a “falta”, que justifica o viés etnocêntrico e evolucionista, por nos levar a uma tradução que induz considerar a República como parte final do processo evolutivo dos sistemas políticos e sociais, e, a democracia imposta, como condição única de acesso ao poder, instrumento legítimo de participação popular. Tais elementos, na teoria, formam um conjunto de condições para definir o “mundo civilizado” e a partir dessa visão, teríamos que reconhecer como legítimas as ações desenvolvidas pelo Estado brasileiro, que visaram à aculturação, à assimilação e a integração dos índios à sociedade “civilizada”. Para a superação desse conceito, faz-se necessário recorrer a uma análise de mediação intercultural, que nos possibilite compreender os processos próprios de organização social dos povos indígenas. O que impõe o reconhecimento das diferenças presentes nos modos de exercer o controle social, nas manifestações culturais, nas formas de produção, sistematização e socialização de saberes e fazeres desses povos. Visto que o tempo destinado à produção de legumes, a caça e a pesca, têm sentido e função diversa da concepção eurocêntrica do colonizador e constituem atividades que se caracteriza pela reprodução física e cultural. 1.3 A função da produção indígena e o viés etnocêntrico evolucionista “O nosso pajé mais forte é como se fosse um Presidente da República. É respeitado por todos” (...) (Relatório do aluno Ensino Médio, Andresson Rosa Jaqueira - Oficina RICHKITI, 2011, p.11). De acordo com relatórios dos agentes que representaram o Estado, nos anos iniciais de ocupação e exploração do Acre, essa questão é explicitamente evidenciada. Segundo a descrição do engenheiro civil Antônio Manuel Bueno de Andrade “Os homens, em geral, são possantes, e têm prática1 de derrubar as matas, executam grandes roçados para o plantio do milho, mandioca e arroz, entre outros. Portanto, se cumprirem a promessa, terá o governo, nas obras do Acre, por preço mínimo, algum alimento, roupa e valentes auxiliares” (ANDRADA, 1907, p. 28 apud IGLESIAS, 2008, p.130). 1 Relatório da Comissão de Obras, encaminhado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. 17 A aludida aptidão dos “homens possantes”, para executar “grandes roçados”, na visão do agente do Estado, representava uma possibilidade de integração produtiva nas obras do governo. Enquanto que para este, a produção se caracterizava pelo valor econômico, seja pelo trabalho de homens não remunerados (indígena), ou através do uso da produção já existente na região, visando aos fins definidos pelo Estado. Para os povos indígenas, o trabalho produtivo tem caráter ritual, que objetiva à reprodução física e cultural, gerando somente uma produção suficiente para manutenção do grupo. Tal modo de produção assentava-se em laços sociais próprios, representando elemento de coesão social que assegurava aos povos indígenas o domínio de conhecimentos, adquiridos por meio da intervenção ativa, estabelecida com o grupo de pertencimento e com os demais grupos, com os quais interagiam direta e indiretamente, na região. A incompreensão dos agentes do Estado se justificava pela não identificação nos modos próprios de organização, nos processos de coesão social, fundamentados em valores presentes nas narrativas míticas, nas experiências cotidianas e nas manifestações culturais e nos rituais indígenas. Coesão social manifestada através de um sistema articulado de regras que antecedem ao indivíduo, que tem sua sobrevivência relacionada ao grupo a que pertence e no qual constrói suas referências socioculturais. Dentro de um sistema que impõe obrigações recíprocas, pois à medida que o indivíduo constrói suas referências no grupo, e no grupo inscreve sua personalidade, deve respeito às regras instituídas (MALINOWSKI, 2003, p. 29). Os povos indígenas, da região acreana, construíram sistemas de sociabilidade próprios e utilizam para isso estratégias de produção, articulando o conhecimento entre seus membros. Uma maneira de socializar informações se dá através da oralidade, de um vasto repertório de narrativas que versam sobre tabus alimentares, incesto, relação homem/mulher, bem como as contradições avareza e generosidade, entre outros aspectos. A narrativa contada pelos mais velhos aos mais jovens é usada como estratégia de não expor membros do grupo e assegurar a boa convivência social, mesmo quando ocorrem práticas inadequadas ou consideradas como desvio social, como por exemplo: roubo, realização de feitiçaria, falar mal dos parentes, entre outras. Essas são algumas das atitudes que pode levar ao rompimento dos laços de 18 coesão social e ao enfraquecimento da harmonia do grupo. Conforme COLLET (2006), a acusação de feitiçaria é um fenômeno social muito comum entre os povos indígenas e pode acirrar conflitos intra-étnicos, pré-existentes. Essa mediação era assumida historicamente entre os povos indígenas, da família linguística Pano, pelo shaneyhu (pajé), sujeito social que assume função central na tarefa de conduzir e mediar às relações inter-étnica e intra-étnica. Importância ainda vigente no Acre indígena contemporâneo. E pode ser exemplificada com a narrativa do “macaco bagunceiro2”: “Quando eu ainda era pequeno, nós mudamos para essa aldeia porque na aldeia que a gente morava tinha um “macaco bagunceiro” que não deixava a roça vingar e destruía todo o roçado” (HUNI KUĨ, 2009, p. 17). Nesse sentido, a “falta” identificada pelos europeus e posteriormente pelos agentes do Estado, que desenvolveram ações nos primeiros anos de ocupação e que, em certa medida norteia a política indigenista, se relaciona direta e unicamente à incapacidade de reconhecer os modos próprios de controle social, para atenuar os conflitos inter-étnicos. Mediação de responsabilidade dos chefes tradicionais, no caso, o shaneyhu, que mantinha imemorial a sociabilidade dos povos indígenas. Contudo, no contexto de afirmação étnica e constitucionalização dos direitos, o Shaneyhu assume novas configurações, e a “falta” referida por CLASTRES (2003) se atualiza, pois novas demandas se inserem, novas questões são postas. Agora, para ser um bom shaneyhu, é preciso dominar a escrita as “palavras técnicas” (WEBER, 2006), que permita a articulação com os agentes do Estado. 2 A história era contada pelo responsável do grupo, sem fazer referências ao roubo rotineiro, realizado no roçado, por outros parentes. O informante explica os motivos para abertura de uma localidade. 19 Capítulo II 2. A população indígena e as conquistas atuais: um resgate de muitas lutas 2.1 A inserção da população indígena na sociedade acreana De acordo com Iglesias, em meados de 1900, com a criação do Território Federal do Acre, a Prefeitura do Alto Juruá e a Comissão de Obras Federais, implantaram ações que estariam inseridas em um projeto mais abrangente do governo federal para a região. Tais ações visavam à institucionalização do poder público, a integração territorial, o controle de zonas fronteiriças; a regularização das relações de trabalho nos seringais, a ampliação da utilização dos recursos naturais, uma maior arrecadação de impostos e a promoção de novos fluxos migratórios. Incluída a essas ações estava ainda, a construção de uma estrada de rodagem que ligaria a sede do Alto Juruá aos outros dois departamentos do Território. Esse projeto teria como pré-requisito a "pacificação da região". Entretanto, ainda que surgissem propostas para estabelecer ou reservar terras para os povos indígenas, a principal ação privilegiada pela Prefeitura e a Comissão de Obras, seria o "policiamento" e a "fiscalização" dos grupos indígenas, no sentido de evitar que estes constituíssem empecilho à abertura e ao funcionamento da estrada (IGLESIAS, 2008). Ainda, segundo Marcelo Piedrafita Iglesias, o Estado realizou ações de “integração” e “pacificação” dos indígenas presentes na região, no sentido de cessar as “correrias”, os saques aos seringais, promovidos pelos indígenas, e as “guerras intertribais”. Além de normatizar as relações dos patrões seringalistas com os indígenas. Embora, como demonstra o autor, os seringalistas na ausência e/ou presença do Estado, teriam sido os responsáveis por tais ações, quando instituídos como “delegados de índios”: Apesar das propostas iniciais para a criação de “postos de atração” e de “povoações indígenas”, os representantes do Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores 20 Nacionais – SPILTN3 acabariam por nomear alguns dos principais patrões como "delegados de índios", atribuindo-lhes o encargo da supervisionar os índios que viviam em suas propriedades e nas adjacências (IGLESIAS, 2008, p.13). A conquista legal da terra, bem como dos direitos indígenas, data de um período recente. O marco fundamental no Estado do Acre, foi a partir da instalação da Fundação Nacional do Índio - FUNAI, em 1976, quando este órgão federal passou a atuar diretamente na defesa dos direitos dos povos indígenas, sobretudo com relação à demarcação e regularização das terras. Na década de 70, surgiram entidades de apoio aos índios, no Acre e em todo país, como o Conselho Indigenista Missionário - CIMI, criado em 1972, a Comissão Pró-Índio do Acre - CPI, em 1979, e o Conselho de Missão entre os Índios (AQUINO, 1978; IGLESIAS, 2008). Entretanto, de acordo com a antropóloga Ingrid Weber “(...) Foi com a instalação do posto da FUNAI e, principalmente, depois da queda da borracha no final dos anos 80, que essas famílias voltaram a viver mais próximas, passando, então, a reunir-se em aldeias” (WEBER, 2006, p.136). Na década de 1980, as lideranças dos grupos indígenas criaram a União das Nações Indígenas - UNI, que por quase 15 anos representou politicamente os povos indígenas do Acre e do Sul do Amazonas, na luta por seus direitos. Tais acontecimentos serviram como estímulo à reconcentração das famílias, que anteriormente estavam dispersas em colocações ou vivendo nas periferias das cidades, criando espaços de sociabilidade e motivações para estarem juntos, reestabelecendo elementos de coesão socioculturais rompidos em tempos anteriores. Contudo, a promulgação da Constituição brasileira de 1988, que alterou a forma da Lei e em seu Art. 231, assegurando aos povos indígenas o “reconhecimento de sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens” foi a base legal que orientou as populações indígenas lutarem pela reconquista de todos os seus direitos. O novo texto constitucional rompe com a longa história de 3 O Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais – SPILTN, instituído pelo Decreto nº 8.072, de 20 de junho de 1910, vinculado ao então Ministério da Agricultura, Indústria e comércio – MAIC, teve origem na proposta do General Cândido Mariano Rondon. Seus objetivos principais seriam prestar assistência e proteção aos índios aldeados, arredios ou já integrados e a promoção dos direitos territoriais. Este órgão foi denominado oito anos mais de Serviço de Proteção aos Índios (LACERDA, 2009, p. 130; GOMES, 1988, p. 87). 21 imposição e desrespeito aos povos autóctones. Essa alteração, proposta na Carta Magna de 1988, é resultado das lutas históricas empreendidas por organizações indígenas que pleitearam o reconhecimento de seus direitos. Ao reconhecer o direito ao território, à língua e à tradição, como elementos fundamentais para sobrevivência física e cultural dos povos indígenas, o Estado Nacional assume o compromisso de resguardar os direitos sociais, linguísticos e culturais. E a promoção de políticas públicas, voltadas para educação indígena, passa a configurar um dos eixos principais dessa mudança conceitual e operacional do Estado. Visto que a história da educação indígena era pautada na incorporação dos índios à educação nacional não diferenciada, como expresso no diagnóstico do Plano Nacional de Educação – PNE: No Brasil, desde o século XVI, a oferta de programas de educação escolar às comunidades indígenas esteve pautada pela catequização, civilização e integração forçada dos índios à sociedade nacional. Dos missionários jesuítas aos positivistas do Serviço de Proteção aos Índios, do ensino catequético ao ensino bilíngue, a tônica foi uma só: negar a diferença, assimilar os índios, fazer com que eles se transformassem em algo diferente do que eram. Nesse processo, a instituição da escola entre grupos indígenas serviu de instrumento de imposição de valores alheios e negação de identidades e culturas diferenciadas (BRASIL, 2001, p.36). Esse conceito é retificado no Estatuto do Índio de 1973 – Lei nº 6001, Art. 1º que “regula a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comunidades indígenas, com o propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmoniosamente, à comunhão nacional”. A mudança na legislação brasileira orientou a elaboração e implementação das políticas públicas e a ação dos governantes desde a década de 80 até os dias atuais. Todavia, o efetivo gozo dos direitos indígenas, assegurados na Carta Magna de 1988, gerou e ainda gera conflitos jurídicos que limitam o desenvolvimento das políticas públicas direcionadas para estes povos. No Estado do Acre, as décadas de 70 e 80 foram marcadas por muitos conflitos e acontecimentos que tiveram repercussões internacionais e ficaram na história da sociedade acreana. Com a desvalorização da borracha, os seringais acreanos entraram no processo de falência e a Amazônia precisava crescer economicamente, motivo pelo qual o governo federal passou a incentivar a implementação de fazendas. Terras baratas e propícias à criação de bovinos 22 chamaram a atenção de criadores de outras regiões, que passaram a comprar e a transformar os antigos seringais em fazendas de criação de gado, não havendo mais lugar para os povos que ali residiam. Consequentemente muitos seringueiros, ribeirinhos e indígenas foram expulsos de forma violenta de suas colocações (SOUZA, 2002). Tais mudanças trouxeram um novo modelo de relação econômica e social para o Estado do Acre. O advento da expansão agropecuária, muito embora se assemelhasse a empresa extrativista, no que diz respeito empregadoempregador, se consolidou com bases diferentes da economia da borracha. Pois a relação seringalista-seringueiro se dava de forma direta, haja vista que o ajuste de contas, o fornecimento de mercadorias e quaisquer outras pendências, seriam resolvidos entre explorador e explorado. Diferentemente da relação com o fazendeiro que se apresentava de forma hierarquizada, já que o “empreiteiro” era o principal responsável pelo recrutamento de mão de obra para o desmatamento da floresta e, consequentemente, era quem justava as contas com o gerente ou administrador, encarregado das funções administrativa da fazenda (AQUINO, 1982). Nesse diapasão, observa-se que o trabalho para instalação e expansão de uma fazenda, que necessitava de maior número de mão de obra é o desmatamento, a derrubada das árvores, que ocorria na época em que cessavam as chuvas. Pois a parte de cuidar dos animais, além de exigir poucos empregados, estes teriam que dominar a prática de lidar com os animais, habilidades que índios e seringueiros não possuíam. Por este fato, quando findavam as derrubadas, os trabalhadores estavam novamente desempregados. Além disso, diferentemente da época dos seringais, nas fazendas era proibido o cultivo de roçados, extração de madeira ou qualquer outra atividade produtiva que servisse de subsistência aos índios e aos seringueiros, de modo que esses povos ficaram em situação mais delicada que nos tempos de exploração da borracha, já que nesta, eles eram incentivados a permanecer na terra. Como a expansão agropecuária, não tinha meios de sobreviver e muitos buscaram abrigo em outros seringais, outros procuraram se adequar, de alguma forma a nova realidade social. Nesse contexto, o antropólogo Terry Vale de Aquino expõe a situação dos povos Kaxinawá da seguinte maneira: Para os grupos indígenas que residem próximos à área em que estão sendo realizados os desmatamentos, só propõe-se uma 23 saída: ou se transformam em peões, ou procuram migrar para aqueles seringais que ainda não foram vendidos. Parte da força de trabalho Kaxinawá existente nos arredores das fazendas procura adaptar-se às novas situações. Muda-se para os seringais ainda não vendidos e durante o verão trabalham nos desmatamentos como peões [...]. Estas novas transformações econômicas e sociais têm ameaçado seriamente os Kaxinawa e demais grupos indígenas da região, uma vez que os novos proprietários, ao contrário dos patrões seringalistas, tendem a desligá-los de quaisquer vínculos com a terra, impedindo que cultivem os seus pequenos roçados de subsistência (AQUINO, 1982, p. 110) No mesmo contexto em que as fazendas se expandiam, surgiram no Acre, importantes lideranças dispostas a lutar em defesa da vida na floresta. Tais lideranças fundaram, em 1975, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, que tinha como objetivo defender os seringueiros e o desmatamento da floresta amazônica. De um lado, estavam seringueiros, ribeirinhos e indígenas, que unidos lutavam com apoio de entidades e órgãos governamentais e não governamentais, pelos direitos de permaneceram nas terras em que viviam e cultivavam imemorialmente. Do outro, poderosos fazendeiros, que vinham das regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste do Brasil, e desmatavam a região para o plantio de pastos e posterior inserção dos animais. Foi a partir de então, que se iniciaram as primeiras manifestações contra fazendeiros e a derrubada da floresta. Tais manifestações foram denominadas de “empates”, quando dezenas de homens e mulheres formavam (de mãos dadas) uma corrente humana para impedir o desmatamento. Outras vezes, os seringueiros cercavam o grupo de trabalhadores encarregados do desmatamento e os forçavam suspender a derrubada das árvores. Os efetivos “empates” aprofundaram a fúria dos grupos de fazendeiros, principalmente contra as lideranças sindicais, culminando com o assassinato do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia-Acre, Wilson Pinheiro, em 21 de julho de 1980. Com a morte de Wilson, Chico Mendes toma posse da presidência do Sindicato e as lutas esquentam. Os povos da floresta, cada vez mais organizados, seguiam lutando por seus direitos e contra o desmatamento, realizando manifestações e atos públicos para chamar a atenção das autoridades, no sentido de resolver os problemas ocasionados com chegada dos “sulistas”, como eram denominados os fazendeiros. 24 Em 1985, Chico Mendes, organizou, em Brasiléia, o primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, que deu origem ao Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). A partir desse evento, as lutas dos seringueiros tiveram como objetivo principal a “União dos Povos da Floresta”, uma articulação com os povos indígenas para unir os interesses de índios e seringueiros. Essa proposta repercutiu internacional e contou com o apoio de organizações nacionais e internacionais que ajudaram a dar visibilidade à luta dos seringueiros e dos grupos indígenas, no sentido de regularizar a situação fundiária das populações remanescentes do ciclo da borracha. Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado no município de Xapuri - Acre. Sua morte teve repercussão internacional e motivou ainda mais a luta pelo o respeita a vida na floresta, pela demarcação de terras para as populações indígenas e por políticas públicas de inclusão social. 2.2 Políticas Públicas no contexto da diversidade cultural O conceito de políticas públicas ainda é uma temática que gera muitas discussões, haja vista que apesar de se tratar de uma área de conhecimento em considerável crescimento, sua definição ainda é tema de estudos nas teorias criadas por diversos autores. Como área de conhecimento, segundo a cientista política, Celina Souza, numa revisão da literatura sobre o tema, surgiu na Europa como desenvolvimento de estudos sobre teorias que tentavam explicar o papel dos Estados e dos governos. Porém, no espaço acadêmico dos EUA, a política pública vai surgir com uma nova roupagem, sem constituir relações teóricas com as ações do Estado, mas sim, com as ações dos governantes. (...) Na Europa, a área de política pública vai surgir como um desdobramento dos trabalhos baseados em teorias explicativas sobre o papel do estado e de uma das mais importantes instituições do Estado - o governo -, produtor, por excelência, de políticas públicas. Nos EUA, ao contrário, a área surge no mundo acadêmico sem estabelecer relações com as bases teóricas sobre o papel do Estado, passando direto para a ênfase nos estudos sobre a ação dos governos (SOUZA, 2006: 22 apud HEILBORN, 2010). Todavia, para falar sobre políticas públicas, necessitamos em primeiro lugar, compreender o que são políticas públicas, como são elaboradas, desenvolvidas e implementadas. Já que o conceito de políticas públicas nos 25 remete as várias funções sociais possíveis de serem executadas pelo Estado e/ou governo, como educação, saúde, habitação, previdência social, saneamento básico entre outros. Pensamos assim, porque na prática corresponde exatamente a isso, mas antes que tais ações sejam desenvolvidas ou executadas, as políticas públicas percorrem um longo caminho. Maria Luiza Heilborn (2010), afirma que “de modo geral, política pública pode ser definida como tudo aquilo que o governo (municipal, estadual ou federal) faz no que diz respeito às leis, medidas reguladoras, decisões e ações”. Em outras palavras, as políticas públicas podem ser consideradas como o conjunto de decisões e ações de um governo, para solucionar problemas, considerados prioridades. Por este fato, a cientista política Celina Souza, define políticas públicas da seguinte maneira. O campo de conhecimento que busca, ao mesmo tempo, ‘colocar o governo em ação’ e/ou analisar essa ação (variável independente). A formulação de políticas públicas constitui-se no estágio em que os governos democráticos traduzem seus propósitos e plataformas eleitorais em programas e ações que produzirão resultados ou mudanças no mundo real (SOUZA, 2006: 26 apud HEILBORN, 2010:19). Para melhor compreensão da formulação das políticas públicas, foram desenvolvidos modelos explicativos, como por exemplo, o de Theodor Lowi, que as divide em quatro tipos: 1) Políticas distributivas, com relação aos recursos limitados e que têm efeitos mais individuais que gerais; 2) Políticas regulatórias, mais visíveis, envolvendo a burocracia e os grupos de interesses; 3) Políticas redistributivas, que atingem maior número de pessoas e impõe perdas a alguns, sendo de mais difícil aprovação e; 4) Políticas constitutivas, que tratam de procedimentos (SOUZA, 2006:28 apud HEILBORN, 2010: 19). As políticas públicas ainda são desenvolvidas em ciclo no qual se estuda todo o processo que vai desde a definição de agenda, elaboração da política pública, sua efetiva implantação e avaliação. Portanto, para que um dado problema, vivenciado por certa comunidade, seja solucionado, precisa ser inserido na agenda política do governo, através de indicadores que identificam o problema existente. Somente com a inserção da demanda na agenda governamental é 26 possível iniciar o ciclo das políticas públicas, que vai desde a definição da agenda a avaliação dos resultados. Desse modo, as políticas públicas funcionam como diretrizes ou princípios norteadores que orientam as ações do poder público, como regras e procedimentos para se relacionar com a sociedade civil. Uma mediação entre os diversos atores da sociedade e o Estado. Por este fato, em muitos casos, as políticas públicas são formuladas, sistematizadas ou explicitadas em documentos como leis, programas e linhas de financiamento, que orientam as ações que geralmente envolvem aplicação de recursos públicos. É interessante observar que a função redistributiva das políticas públicas, nas políticas ou projetos sociais, pode se apresentar com caráter compensatório, quando promove programas emergenciais que visam atender grupos específicos como, por exemplo: desempregados, negros, indígenas, analfabetos, excluídos, entre outros. Um exemplo de política pública de caráter compensatório é a institucionalização de cotas para negros, pardos e indígenas ingressarem nas universidades federais, que visa compensar, grupos menos favorecidos ou excluídos da sociedade. E nesse contexto, a institucionalização de vagas ou “cotas”, para o ingresso de negros, pardos e indígenas, nas universidades federais, foi pautada num longo processo de construção da temática racial na agenda governamental do Estado brasileiro. Em 1995, por ocasião da marcha do Tricentenário da Morte de Zumbi, que reuniu em Brasília aproximadamente 30 mil participantes do Movimento Negro, foi entregue ao presidente da república um conjunto de propostas para efetivação de políticas públicas de combate ao racismo. Esse evento teve fundamental importância para a construção da temática racial, pois no mesmo ano, foi criado por Decreto Presidencial, o Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da População Negra – GTI, que teve como função “inscrever definitivamente a questão do negro na agenda nacional”. Em 1996, foi lançado o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH I). Documento no qual o Governo Federal assume o compromisso de implementar políticas públicas específicas de combate às desigualdades raciais, através de ações desenvolvidas a curto, a médio e a longo prazo. Nas ações realizadas em curto prazo, estariam: 27 129. Inclusão do quesito “cor” em todos e quaisquer sistemas de informação e registro sobre a população e bancos de dados públicos; 133. Apoiar a definição de ações de valorização para a população negra, com políticas públicas; 134. Apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva (HEILBORN, 2011, p.105) Em continuidade as proposta apresentadas nas reivindicações da população negra, ao longo da década anterior, é lançado, em 2002, o segundo Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH II), que reforça as propostas do PNDH I, tornando-as mais claras e específicas. 191. Adotar, no âmbito da União, e estimular a adoção, pelos estados e municípios, de medidas de caráter compensatório que visem à eliminação da discriminação racial e a promoção da igualdade de oportunidades, tais como: ampliação do acesso dos/as afrodescendentes às universidades públicas, aos cursos profissionalizantes, às áreas de tecnologia de ponta, aos cargos e empregos públicos, inclusive cargos em comissão, de forma proporcional à sua representação no conjunto da sociedade brasileira; 198. Promover o cadastramento e a identificação das comunidades remanescentes de quilombos, em todo o território nacional, com vistas a possibilitar a emissão dos títulos de propriedade definitiva de suas terras; 210. Incentivar a participação de representantes afrodescendentes nos conselhos federais, estaduais e municipais de defesa de direitos e apoiar a criação de conselhos estaduais e municipais de defesa dos direitos dos afrodescendentes (HEILBORN, 2011, p.109). Porém, o acontecimento que realmente veio assegurar a promoção de políticas públicas de combate à discriminação e desigualdade racial, foi à criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), em março de 2003, pelo governo federal. Que se fundamentou no programa Brasil Sem Racismo, na Convenção Internacional de Eliminação de todas as Formas de Discriminação e no Plano de Ação de Durban, resultado da Conferência Mundial de 2001. Tal acontecimento originou, em novembro do mesmo ano, o decreto presidencial, da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PNPIR), uma instância de caráter consultivo, que integra a estrutura da SEPPIR e é constituído por representantes da sociedade civil e do governo federal (HEILBORN, 2011). Entretanto, o projeto de lei 3627/2004 que institui o Sistema Especial de Reserva de Vagas para estudantes egressos/as de escolas públicas, em especial 28 negros/as e indígenas, nas instituições públicas federais de educação superior, ainda não teve aprovação definitiva. Contudo, diversas universidades públicas já adotaram o sistema de reserva de vagas, tanto para alunos das raças negras e indígenas, quanto para os portadores de necessidades especiais, refletindo no espaço acadêmico a diversidade da sociedade brasileira. Já que no Brasil, um país miscigenado por natureza, as desigualdades e a discriminação de raças são problemas que afetam a maioria da população. Claro que algumas vezes, políticas públicas direcionadas a grupos específicos, geram uma verdadeira batalha política e ideológica, haja vista que a população negra e os povos indígenas foram e ainda são sistematicamente desfavorecidos. 2.3 Políticas Públicas e Projetos voltados às populações indígenas do Estado do Acre As políticas públicas, direcionadas para os povos indígenas acreanos, datam de um período bastante recente. No tocante a de marcação de terras, dados de pesquisadores mostram que antes de 1980, no Estado do Acre, nenhuma terra indígena havia sido demarcada. A efetiva demarcação ocorreu há alguns anos após a instalação da Fundação Nacional do Indio - FUNAI, através de um processo lento, de muitas lutas, negociações e conquistas. Atualmente, segundo dados da Assessoria Especial dos Povos Indígenas (2009), convivem no Estado do Acre, 15 povos indígenas cuja condição étnica o Estado Nacional os distingue em reconhecidos ou em processo de reconhecimento, a saber: Jaminawá, Manchinéri, Kaxinawá, Kulina/Madija, Ashaninka, Shanenawá, Yawanawá, Katukina, Kuntanawá, Apolima, Shawãdawa, Puyanawa, Nukini, Jamamdi, Apurinã, Kaxarari e Nawá. Povos indígenas pertencentes a três famílias linguísticas distintas entre si: Arawá, Aruak e Pano. Somam-se a essa diversidade cultural as populações indígenas em “isolamento voluntário” (SILVA, 2010). Esses povos indígenas habitam 35 terras, que totalizam 2.439.695 há, ou 14% da extensão total do Estado, localizadas em 11 (onze) municípios do Estado do Acre. Nessas terras vivem pouco mais de 16 (dezesseis) mil indivíduos, distribuídos em 186 aldeias, constituindo 2,4% da população acreana e 6% da população rural. Porém, esses dados não incluem as terras indígenas que se encontram em diferentes etapas de regularização fundiária, nem os índios que 29 vivem em isolamento voluntário, considerados pelos os moradores da floresta como os ‘brabos’ ou ‘arredios’. Para estes, a Fundação Nacional do Indio FUNAI, desenvolveu uma política que tem como principal objetivo proteger seus territórios, respeitando sua decisão de permanecer em isolamento (SILVA, 2010). No que diz respeito à educação escolar indígena, a Comissão Pró-Índio do Estado do Acre, realizou no período de março a maio de 1983, em Rio Branco, o primeiro curso de formação de professores indígenas. Esse primeiro encontro contou com a participação e representação de vários grupos e etnias, no qual formularam objetivos para nortear e desenvolver atividades no decorrer do curso. O projeto foi organizado em duas etapas: a primeira, constando de atividades presenciais, com o deslocamento de professores das aldeias para a cidade e a segunda, com a realização e acompanhamento das atividades nas próprias aldeias. Nessa última etapa, segundo a Coordenadora do projeto Nietta Lindenberg Monte, “surgiu à necessidade de produzir material didático específico, para subsidiar a formação e ação dos professores nas escolas de origem” (MONTE, 1987, p. 19). Em 1995, a Comissão Pró-Índio - CPI, a Secretaria Estadual de Educação - SEE e a Fundação Nacional do Índio - FUNAI firmaram convênio no qual definiram competências e responsabilidades para viabilizar o desenvolvimento das escolas indígenas em funcionamento. Através deste convênio foi assegurado pagamento de salários para os professores, o fornecimento de merenda escolar, pesquisa e publicação de material didático específico e formação e acompanhamento de professores bilíngue (idem, p. 66). Porém, tais iniciativas seriam apenas o início de uma grande jornada e a necessidade de criação de uma entidade de representação política para os professores indígenas, para articular questões emergenciais, começou a ser debatida entre os grupos. Desse modo, em 1997, os professores criaram uma comissão de representação política da Educação Escolar Indígena, junto às entidades de apoio governamentais e não governamentais. E em 2000, instituíram a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC), que segundo Maria Luiza Pinêdo Ôchoa, teve como principais objetivos: Promover a educação escolar indígena específica e diferenciada, de acordo com os interesses de cada etnia (...); defender perante os órfãos públicos, a implementação e melhoria de políticas educacionais e da legislação voltadas para a educação indígena específica e diferenciada; desenvolver ações com vistas a 30 possibilitar condições adequadas á educação escolar indígena diferenciada nas aldeias; preservar, registrar e divulgar as formas de manifestação cultural, de conhecimentos e as histórias próprias de cada povo indígena (...) (ÔCHOA, 2003, p. 165). A educação escolar indígena, iniciada pela Comissão Pró-Índio, se estendeu até 1999, quando foi criada, no contexto da Secretaria Estadual de Educação - SEE, a Coordenação de Educação Escolar Indígena - CEI, no primeiro governo Jorge Viana, quando este estabeleceu alianças com grupos que historicamente tiveram seus direitos negados. A proposta do então governador teve como meta principal inserir, na agenda social, as demandas advindas das necessidades dos povos indígenas, atitude esta que possibilitou aos gestores locais as condições primárias para viabilizar a universalização da escolarização entre os povos indígenas. Para efetivação da política educacional indígena, a CEI/SEE conta com uma equipe técnica multidisciplinar, que assessora os povos indígenas nos processos de pesquisa, elaboração e desenvolvimento do Projeto Político Pedagógico e material didático específico. Além de promover o Curso de Formação de Professores Indígenas, cuja proposta adotada pela CEI/SEE, foi elaborada pela Comissão Pró-Índio/Acre e reconhecidos pelo Conselho Estadual de Educação em 1998, por meio da Resolução 05/98 do Conselho Estadual de Educação - CEE (CPI, 2002). Paralelamente a essas ações, também surgiram políticas de assistência à saúde dos povos indígenas. A partir de convênio assinado entre a Fundação Nacional de Saúde - FNS e a União das Nações Indígenas do Acre e do Sul do Amazonas - UNI, o que possibilitou a criação, em 1999, de dois Distritos Sanitários Especiais Indígenas, no Estado do Acre. Esses distritos ficaram sob a coordenação da UNI, que estabeleceu objetivos como a construção de postos de saúde, compra de barcos e motores, capacitação de agentes de saúde indígenas e o pagamento desses agentes. Nos municípios onde estão situados os distritos, foram construídas casas de apoio que recebem, tratam e encaminham os pacientes vindos das aldeias para a cidade, quando estes necessitam de atendimento médico e ambulatorial. A Comissão Pró-Índio do Acre - CPI/AC, criou, em 1996, o projeto “Implantação e manejo dos Recursos Naturais em Terras indígenas”, que deu 31 origem a formação de agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs). Jovens e adultos de diversas etnias foram beneficiados com os cursos e segundo Ôchoa, “até o ano de 2002, foram realizados dezesseis cursos, formando sessenta e seis agentes que constituem uma nova categoria social e profissional em algumas aldeias”. A formação dessa categoria de profissionais levou as comunidades indígenas refletirem sobre os vários problemas socioambientais existentes em suas aldeias e a pensarem uma melhor alternativa de manejo dos recursos naturais, preservando e desenvolvendo a gestão ambiental de seus territórios (ÔCHOA, 2003, p. 183-5). Cabe ressaltar que as ações, políticas e projetos, voltados para as populações indígenas do Estado do Acre, abordados neste item, foram apenas as que tivemos acesso através de pesquisas em documentos, relatórios e literatura local sobre tema, ao longo do desenvolvimento deste trabalho. Porém, somos conscientes de que foram desenvolvidas muitas outras ações em benefícios dos povos indígenas do Acre, tanto no que diz respeito à educação, saúde, demarcação e terras, quanto no tocante aos esforços dos órgãos governamentais e não governamentais para manter e assistenciar esses povos em suas comunidades. Mas, se por um lado existem os esforços das autoridades competentes, no sentido de subsidiar meios para que os povos indígenas resgatem sua cultura, sua tradição, seus modos de vida, região, entre outros. Por outro lado, há de se compreender que por sete décadas os índios foram excluídos e negados pela sociedade não índia, fato que acarretou, não apenas a perda de identidade cultural, mas de toda e qualquer relação que eles tinham com a natureza. Já que a convivência com o homem branco levou os povos indígenas a um processo de aculturação no qual alguns grupos foram desprovidos até mesmo da língua materna, como é possível inferir no exposto por Manoel Estébio da Cunha, referenciando-se ao povo Puwanawa: (...) quando o professor Aldir começou a fazer a discrição da língua Puwanawa, no inicio dos anos 1990, havia 12 (doze) falantes. E naquele momento já havia Puwanawa estudando nos cursos da CPI, depois nos cursos que Secretária passou a oferecer. (...) No entanto, lá não houve ampliação de falantes, houve perda de falantes. Tecnicamente na naquela ocasião a língua já estava morta, a língua já estava praticamente morta do ponto de vista da linguística. Mas só que ela tinha mais condições de avivamento na década de 1990, no inicio da década de 1990, do que tem hoje. Porque hoje ela tem 02 (dois) falantes, um dos quais que tem a maior proficiência, sofreu um AVC, e não mora mais na aldeia. E o outro tem menos 32 proficiência na língua. Então assim, quer dizer, se de fato a educação escolar indígena cumprisse o que se propala no discurso, a gente teria um processo de avivamento linguístico da língua Puwanawa (...) (2009). O contato direto e regular dos povos indígenas com a sociedade nãoindígena, como no caso dos Puwamawa, está relacionado a um conjunto de fatores que vão além da intervenção da escola. Mas, apesar de sabermos que a língua não é a única condição de alteridade de um povo, a perda da língua materna influencia significativamente a maneira como estes povos se relaciona com o mundo. 33 CAPÍTULO III Mulheres indígenas e políticas públicas de (ex) inclusão 3.1 As relações de gêneros nas comunidades indígenas/atribuições da mulher Nos últimos anos foram desenvolvidas muitas ações em benefício dos povos indígenas acreanos, no sentido de encontrar meios para que estes resgatem sua cultura, sua tradição, seus modos de vida e região. Entretanto, o processo de apropriação das terras pelo homem branco e a prolongada convivência dos grupos indígenas com a sociedade não índia, ocasionou um processo de aculturação que dificulta as ações governamentais e não governamentais que ensejam o realdeamento de povos indígenas que vivem em situações de riscos nas cidades. Haja vista que sem muitas alternativas, muitos indígenas, principalmente mulheres, perambulam pelas ruas das cidades, pedindo de um e de outro. Nesse contexto, sentimos a necessidade de fazer um apanhado, mesmo que sucintamente, dos modos de vida de algumas etnias em suas aldeias, por acreditarmos que assim teremos capacidade de analisar mais profundamente as causas que justificam a permanência de alguns desses povos nas cidades. E que se faz necessário também, devido à grande diversidade de etnias que constituem grandes diferenças de costumes e tradições, inclusive quanto à importância e o papel da mulher dentro das comunidades. De modo que os problemas das populações indígenas sejam vistos também pela perspectiva feminina. Neste capítulo, acrescentaremos pesquisas e entrevistas realizadas em órgãos e com representantes dos povos indígenas, planejado e especificado em nosso projeto. A população indígena que habita no Estado do Acre, tem origem em três troncos linguísticos diferentes: Aruak, de onde se originaram os povos Apurinã, Ashaninka, (Kampas), Madija também conhecidos como Kulina, Manchinéri, Baré, Terena, entre outros grupos; o tronco linguístico Arawá, que deu origem aos grupos Kanamanti, Paumari, e Jamamadi e, os grupos oriundos da família linguística Pano, divididos em Yawanawá, Kaxinawá, Kaxarari, Shawãdawa, Jamináwa, Jamináwa-Arara, Katukina, Nukini, Poyanawa, Shaneanawa, Morubo, Nawa Apolina e Apolina-Arara. Dentre esses povos, os Nawa e Apolina-Arara, são indígenas que ficaram muito tempo sem contato com a sociedade não índia, 34 motivo pelo qual foram considerados extintos. Somente a partir do ano 2000, eles passaram a lutar por reconhecimento por parte do governo e da sociedade em geral. São considerados como povos emergentes ou “ressurgidos” (Ôchoa, 2003, Neves, 2002). Segundo pesquisas em documentos existentes, antes da ocupação das terras do atual Estado do Acre, cada povo tinha sua própria cultura, costumes, religião e tradições, que envolvia a economia tradicional, as festas, o modelo de moradia, de casamento, de relação com a natureza, com a terra e com outros grupos, como é possível inferir no depoimento de Geraldo Aiwa Apurinã, citado por Maria Luiza Ôchoa. O trabalho dos homens era caçar, pescar, tirar lenha, derrubar, plantar, e limpar o roçado. As mulheres faziam potes e camburões de barro, fiavam o algodão para amarrar flecha, teciam o algodão para fazer redes, tangas e pulseiras, preparavam as tintas para enfeitar as pessoas e pintar os tecidos, arrancavam os legumes do roçado. De manhã, iam buscar água no igarapé para fazer a comida do quebra jejum. Quando os homens iam caçar um pouco longe, suas mulheres ficavam cuidando da casa, das crianças e do terreiro. A mulher do chefe coordenava o trabalho das outras: preparar caiçuma, cozinhar banana, macaxeira e torrar o milho. Cada povo tinha diferentes festas de sua tradição. Os homens mais velhos faziam festas para ter muita produção no tempo dos roçados, da banana madura, do milho verde, das caçadas e das pescarias. Eram vários os tipos de festas: txiai (festa do líder), nixpu pina ou txani (festa do batismo), Kaxi ika (festa para se ter uma boa noite de sono), Hai ika (festa da caçada). Havia os pajés para prepara cipó e fazer remédios da mata para curar doenças que existiam nesse tempo (...) (Ôchoa, 2003, p.75). Na sociedade Kaxinawá, tradicionalmente, há uma organização social que gira em torno de grupos de famílias extensas, com A festa da caçada, (Hai ika) dura um dia inteiro, no qual homens e mulheres cantam para amansar os animais da floresta, dar força espiritual, abrir os caminhos e facilitar a caçada. O chefe combina o lugar e o tempo de voltar da caçada. Quando retornam, vem fazendo barulho, buzinando e gritando. As mulheres ouvem o barulho, e formam uma fila, cantando para receber o produto da caça trazido pelos homens. Depois, cada mulher vai para sua casa entregar ao marido macaxeira cozida, caiçuma, pamonha ou qualquer outro alimento preparado enquanto ele realizava a caçada. Na hora de se alimentar, se dividem em dois grupos: um só de mulheres e outro só de homens (SEE, 2010). 35 Entre a etnia Jamamadi (gente da mata), a base da organização social se constitui de três elementos principais: a aldeia, o masculino, por ser o grupo dominante e as relações de afinidade. O que determina o pertencimento ao grupo dominante é a linha paterna, por este motivo a regra preferencial de casamentos é entre primos cruzados bilaterais. A agricultura se constitui em forte tradição desses povos, de modo que cada família nuclear possui seu próprio roçado, no qual produzem principalmente mandioca, milho catiana, milho híbrido, banana, tingui, abóbora, inhame, cará, abacaxi, cana, arroz e feijão. A atividade referente à agricultura é o período das festas mais importantes e onde são realizados rituais específicos, para que a produção seja abundante. A caça e a pesca se constituem na base alimentar do povo Jamamadi. A pesca pode ser realizada por ambos os sexos. Já a caça é tarefa desenvolvida apenas pelos homens (CRUZ, 2002). Segundo Tereza Cruz, as mulheres Jamamadi produzem uma cerâmica que além de ser bastante diversificada é também de boa qualidade, como potes, vasilhas, tigelas, pratos, panelas, paneiros, cestos, peneiras, tapiti, abanos, vassouras e buzinas Huri-Huri de argila, que servem para emitir sons de comunicação entre eles. Em alguns grupos as mulheres trabalham com o algodão, tecem as redes, adornos para o corpo e fios para os enfeites ou para amarrar as flechas. Os homens confeccionam arcos, flechas e zarabatanas, utilizadas na caça de animais de grande porte e pesca. Produzem canoas e gamelas para colocar a macaxeira ralada. Os adornos de cabeça, braço e cinturas, também são feitos pelos homens. Na cultura Jamamadi, os jogos e brincadeiras, têm muito valor dentro da comunidade, pois serve para dispersar o clima de tensão entre famílias, comemorar e entrosar visitantes e favorecer o namoro entre os pretendidos. As festas Jamamadi são compostas de rituais que perduram por todos os meses de junho, julho e agosto, nos quais evocam principalmente abundancia alimentar (CRUZ, 2002). De acordo com Fátima Ferreira, algumas etnias, por ocasião do contato com o homem branco, passaram a receber outra denominação. É o caso do grupo Madija que passou a ser conhecido como Kulina. Os Kulina tiveram parte de sua cultura material substituída e o artesanato nativo trocado por objetos introduzidos pela sociedade não índia. De modo que foram perdendo sua autonomia e as grandes malocas de palha, passaram a ser construídas nos modelos de habitações 36 regionais. Entretanto, na visão de alguns autores, estes grupos indígenas regionais foram os que mais preservaram sua integridade cultural. Supõe-se que pelo fato de guerrearem constantemente com grupos rivais, tenham desenvolvido algum meio de defesa sociocultural. As relações numa aldeia Kulina, que explica em parte a sobrevivência desses povos é o hábito de manaco (trocar ou retribuir), com outro grupo o que é produzido numa aldeia, um sistema de reciprocidade. Um aspecto forte da cultura Kulina é a musicalidade, como o conto e a flauta, que podem ser ouvidos nas aldeias pelos visitantes. As doenças para os Kulina são causadas por dori (feitiço), que se apresenta na forma de um pedaço de pau, um osso, uma pedra ou qualquer outro objeto, alojado de forma mágica no corpo da pessoa doente.Um dos rituais mais comuns entre os Kulina é o dossehe, cerimônia da caça, pesca ou coleta, que ocorre durante o ano todo. São caçadores e coletores, cultivando uma agricultura de subsistência baseada na produção de macaxeira, banana, mamão e milho, plantam também urucum para a pintura corporal e algodão para tecelagem. Os homens, bichos e plantas vivem em nami (terra), porém os espíritos moram no mundo subterrâneo, nami budi. Os animais de caça e os bichos vivem também em nami budi e somente sobem a terra para serem caçados pelos homens (FERREIRA, 2002). A etnia Kaxinawá ou Huni Kui (gente verdadeira), como eles se autodenominam, são originários da família linguística Pano que eles chamam de hatxa-kuin (língua verdadeira), e a riqueza imaterial desses povos manifesta-se principalmente pela diversidade musical. Na cultura Kaxinawá a terra é de uso coletivo e as famílias são chefiadas pelos homens. Na aldeia os trabalhos são divididos por sexo e por idade, de modo que, há tarefas realizadas somente por mulheres e tarefas exclusiva dos homens, como por exemplo, botar o roçado. E algumas ainda destinadas aos mais jovens, bem como trabalhos que podem ser realizados por qualquer pessoa, de ambos os sexos e de qualquer idade (FERREIRA, 2002). Em conformidade com Paulo Roberto Ferreira e Maria Luiza Ôchoa, os Kaxinawá são portadores de imensa cultura material que abrange a tecelagem em algodão, com tingimento natural; a cerâmica feita em argila com cinzas obtidas de animais, árvores e ainda cacos de outras cerâmicas, onde são impressos os kenê (desenhos da cobra), que é uma marca na qual a cultura matéria dos Kaxinawá é identificada e tem significado que se relaciona com a coragem, a força, o poder e a 37 sabedoria. O artesanato da etnia Kaxinawá, por seu magnífico design tem grande aceitação no mercado, tanto a nível regional quanto nacional, gerando uma das principais fontes de renda das famílias (FERREIRA, 2002; ÔCHOA, 2002). destaque a duas figuras: a liderança e o pajé. A liderança porque tem um poder político de arregimentar a comunidade em torno dos interesses da coletividade, e o pajé porque tem o poder espiritual, da cura, de fazer e desfazer feitiços, o poder mágicoreligioso (FERREIRA, 2002, p.34). Durante o processo de colonização, por se tratar de representantes com papéis fundamentais nas comunidades indígenas, essas duas figuras foram as mais atingidas. Principalmente os pajés, que para os povos Kaxinawá ainda são líder de grande importância em sua cultura. Diferentemente de outros grupos, o povo Jaminawá não é constituído de uma única etnia, Fátima Ferreira afirma que: Na região do médio rio Ucayali, no Peru, habitavam vários grupos da família lingüística Pano. Lá estavam os Xixinawá (gente do quati), Kununawá (gente da orelha-de-pau), Sharanawá, Yawanawá (gente do queixada), Mastanawá (gente do socado), Bashonawa (gente da mucura), Sharanawá (gente povo bom) e Yawanawá (gente do queixada). Esses grupos, que eram conhecidos como grandes guerreiros, realizavam expedições para guerrearem entre si e com outros grupos da região. Com a chegada dos caucheiros peruanos tiveram o primeiro contato com a sociedade branca, obrigando a formarem um só grupo com a denominação de Jaminawá, e assim dificultando ou mesmo em alguns momentos tornando impossível a convivência, pois as diferenças eram grandes, deixando uma característica marcante que é a divergência interna (FERREIRA, 2002, p.32). Na cultura Jaminawá, o koshuit (pajé) era um grande caçador, provedor incomum, que tinha o dom da oratória, mantinha várias mulheres, além de ter o poder de mediar conflitos internos e externos, através do conhecimento das regras de sua tradição. Na época das praias, faziam passeios para visitar seus parentes distantes, sem pressa de retornar. Mudavam sempre da aldeia, quando morria um membro da família nuclear, para afastar as lembranças do falecido. Também tinham o hábito de tomar o shori (ayahuaska), em sessões são organizadas pelo koshuit (pajé), que para eles além de ser um remédio, também tem o lado lúdico, que permite ver ou viajar (FERREIRA, 2002). A economia é baseada principalmente no cultivo da macaxeira e banana, na caça e na pesca. Cada família nuclear possui seu próprio roçado, se tornando 38 economicamente autônoma, mantendo ainda as relações de reciprocidade, pois a carne e o peixe são distribuídos para toda a comunidade. A cultura material passa por uma revitalização, onde a cerâmica, a tecelagem e a cestaria, confeccionados pelas mulheres, são os artesanatos mais enfatizados. A arte oral e musical Jaminawá é composta por belos cantos xamânicos nos quais homens e mulheres descrevem os sentimentos do autor e as peripécias de sua vida (FERREIRA, 2002). É interessante observar que as diferenças culturais desses povos provocaram enormes divergências internas que acabaram por constituir uma característica marcante, que é o seminomadismo. As frequentes mudanças e as dispersões de famílias fizeram com que o povo Jaminawá entrasse em um estado de crise, resultando na vinda de famílias inteiras para as periferias das cidades, principalmente da capital. Porém, a vida na cidade faz com que passem a viver tempos diferentes e difíceis. Já que sem conhecimentos e credibilidades que lhes assegurem emprego, perambulam pelas ruas, adotando um sistema semelhante à mendicância como meio de garantir a sobrevivência. 3.2 Indígenas pedintes e as ações governamentais: o não funciona? A presença de indígenas nas ruas das cidades acreanas passou a incomodar a sociedade de modo geral, pois constitui problemas relacionados a fatores como a mendicância, o alcoolismo, a exploração sexual de adolescentes e as condições de moradia, que na maioria das vezes consistem em coberturas de palha, lona ou papelão, erguidas nos barrancos dos rios, como é possível constar nas imagens do anexo 1, ao final deste trabalho. Todas essas questões fizeram com que a sociedade não índia passasse a cobrar do poder público estadual, ações que resolvesse a situação desses povos e principalmente, promovesse o realdeamento (SOUSA, 2011). Todavia, que o fato da sociedade não índia sentir-se incomodada, não significa que esta esteja preocupada com a situação das condições adversas em que vivem os povos indígenas. O que realmente incomoda a sociedade acreana é o sentimento de rejeição e discriminação, por se manter o velho conceito de que os indígenas são donos de muitas terras, além de desfrutarem de inúmeros privilégios, reforçando a ideologia de que o hábito de vir para a cidade mendigar, 39 só prova que estes são preguiçosos, indignos de confiança e exploradores do trabalho feminino nas aldeias. Nesse contexto vale lembrar que a permanência de povos indígenas nas cidades acreanas, em situação de risco, vem ocorrendo há bastante tempo, haja vista matéria divulgada em 1997, no Jornal “PÁGINA 20” sobre a questão, na qual o então Administrador da Fundação Nacional do Indio - FUNAI no Acre, senhor José Vitor Santana afirmou em entrevista ao referido jornal que “Os índios Jaminawá que esmolam pelas ruas de Rio Branco têm o direito de fazer isto, pois enquanto cidadãos e cidadãs brasileiras, conforme garante a própria Constituição, possuem o sagrado direito de ir e vir, ou de ficar” (Jornal “Página 20”. Rio Branco – Acre, Domingo, 21 de setembro de 1997, p.12, apud SOUZA, 2002, p.33). Na ocasião, o senhor Antonio Luiz Batista de Macedo, funcionário da Fundação Nacional do Indio – FUNAI no Acre, quando procurado pela redação do citado jornal, explicou que: A vinda dos índios para as cidades possui vários fatores que contribuem com esta triste e lamentável situação. Existe uma velha desavença entre diferentes clãs que compõem o universo cultural do povo Jaminawá, uma guerra intertribal que dificulta a unidade desta nação indígena. [...] também a falta de projetos alternativos, por parte do governo federal, estadual e municipal faz com que eles, sem condições de sobreviver em seus habitats naturais, venham esmolar nas cidades, já que não podem e nem tem condições de competir no mercado dos homens civilizados, afirma o sertanista (Jornal página 20. Rio Branco – Acre, Domingo, 21 de setembro de 1997, p.12, apud SOUZA, 2002, p.33). Em 2004, o mesmo jornal publicou matéria referente à audiência pública sobre a situação de indígenas que esmolam nas ruas de Rio Branco e de alguns municípios do Estado do Acre. Tal audiência, realizada na biblioteca da Assembleia Legislativa do Estado, contou com a participação de deputados e representantes de instituições de defesa dos povos indígenas, incluindo o Ministério Público Federal. Segundo Francisco Pianko, representante da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas - SEPI, a dispersão da tribo Jaminawá é um problema que vem ocorrendo há cerca de dez anos. Algumas ações de planejamentos passados, voltadas para o auxílio desses povos acabou provocando a dependência de algumas famílias que já não conseguem se adaptar aos costumes e tradições das suas comunidades de origem. A Secretaria tem trabalhado para estreitar os laços de confiança que facilitem a alto-sustentabilidade 40 dos povos, além de uma política de desenvolvimento que garanta a independência dos mesmos e evite a evasão de suas áreas, explicou (SALES, Jornal “Página 20”, 09.06.2004). Diante dessas questões, de acordo com Alcinélia Sousa, foram implementadas políticas de assistência social, no contexto da gestão estadual, com ações voltadas para as populações indígenas. Tais ações consistiam em realizar diagnóstico social dessas famílias; levantamento situacional das aldeias de origem e o realdeamento das mesmas para as Terras Indígenas – TIs. De modo que, em 2006, o governo do Estado do Acre mobilizou todas as secretarias e órgãos que lidam com as causas indígenas, em ação conjunta sob a coordenação do órgão gestor de assistência social – SECIAS4 e SEPI - no que ficou denominado como “Operação Jaminawá”, envolvendo também os municípios do Estado, no sentido de implementarem um plano de ação para promover a remoção das famílias às suas terras de origem. Tal operação teve como principais objetivos: Realizar levantamento sócio-econômico das famílias indígenas do povo Jaminawá que vivem na cidade de Rio Branco e nas aldeias, visando à elaboração de um diagnóstico situacional das mesmas, para que sejam elaboradas propostas com a finalidade de solucionar as problemáticas existentes atualmente do povo Jaminawá (SOUSA, 2011, p.110). Em 2008, o governo do Estado do Acre, através da Secretaria de Estado de Planejamento implementou o PROACRE, projeto integrado e intersetorial, com plano de ação voltado as partes interessadas locais, incluindo os povos indígenas. O Plano para os Povos Indígenas - PPI, contou com a liberação de recursos para o desenvolvimento sustentável nas áreas da educação, saúde, agricultura, piscicultura, extrativismo, avicultura, apicultura e preservação do meio ambiente nas comunidades indígenas. O projeto destaca a importância da inclusão dos povos indígenas, não apenas por se tratar de grupos historicamente excluídos, mas principalmente, por causa da riqueza de suas culturas e sua habilidade de viver e trabalhar na floresta, mantendo seu balanço ecológico. O PPI ainda envolve as áreas de desenvolvimento comunitário, gestão territorial, promoção diferenciada de técnicas e qualificações e assistência especial para o desenvolvimento e 4 Em 2007, a SEPI deixou de ser a Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas e passou a ser uma Assessoria Indígena ligada ao gabinete do Governador. A SECIAS hoje é denominada de Secretaria de Desenvolvimento para Segurança Social. 41 fortalecimento de cadeias produtivas baseadas no uso sustentável dos recursos naturais da floresta. Contudo, a realidade cotidiana das ruas de Rio Branco e de muitos municípios do Estado; o noticiário em jornais de circulação local e textos publicados na internet vão de encontro ao discurso de que tais ações foram de fato desenvolvidas em prol dos povos indígenas que esmolam pelas ruas das cidades. O texto publicado no dia 07/03/2010, na Agencia de Notícias Contilnet, traz como título e subtítulo, respectivamente: “Indígenas do Acre não têm o que comemorar no Dia Internacional da Mulher” e “as mulheres indígenas do Acre continuam esmolando pelas ruas, mendigando restos de comida e perturbando, de certa forma, as pessoas que trafegam no centro de cidades, como Rio Branco e Sena Madureira”. A matéria além de conter várias fotos de mulheres indígenas no ato da mendicância, traz ainda, pesquisa de opinião pública e afirma que: Há cerca de três meses a Agência ContilNet entrevistou um dos representantes da FUNAI no Acre, e ele disse que o órgão não tem estrutura para levar os índios de volta às suas aldeias. Diante da inoperância da FUNAI, as prefeituras também cruzaram os braços e o número de índios pelas ruas das cidades acreanas têm se multiplicado a cada ano. Fato semelhante é referencia no Relatório das Atividades Desenvolvidas em 2010, nas Terras Indígenas Jaminawá, realizado pela Secretaria de Estado de Educação e Esporte – SEE e a Coordenação de Educação Indígena - CEI, quando assessores destes órgãos descrevem que: Em Sena Madureira, inúmeras famílias de indígenas (Madiha e Jaminawá), estavam nas barracas do rio Iaco. Eram aproximadamente 5 grupos formados por 6 ou 7 famílias, representando uma realidade que contrasta com os discursos governamentais relacionados às políticas indigenistas5 e sociais, possibilitando fazermos dialeticamente uma reflexão sobre o nosso papel junto às comunidades indígenas. Sendo assim, buscamos redefinir o objetivo de nosso trabalho, priorizando o inter-relacionamento com as famílias e principalmente com os atores sociais das aldeias, possibilitando uma compreensão dos diferentes contextos Jaminawá, dentro de um universo amplo de comunidade educativa, pois também a SEE, através da Coordenação Escolar Indígena, nos últimos anos não tem conseguido manter um acompanhamento sistemático a este povo. 5 Relatório das Atividades Desenvolvidas em 2010, nas Terras Indígenas Jaminawá, elaborado a partir de visitas realizadas por assessores da Secretaria de Estado de Educação e Esporte - SEE e da coordenação de Educação Indígena - CEI. 42 Dentro desta ótica, é importante salientar que se por um lado, existe a inabilidade das ações governamentais no que se refere ao realdeamento e promoção dos povos indígenas em suas aldeias, seja esta ineficácia provocada pelo descaso ou insuficiência de recursos. Por outro, há de se considerar que o fato de os povos indígenas terem permanecido no esquecimento durante décadas, o contato com a sociedade não índia, contribuiu para que muitas tribos perdessem sua verdadeira identidade cultural, não se adequando mais entre os grupos de origem e buscando nas cidades outros meios de sobrevivência, já que as aldeias não lhes oferecem nem espaço nem as condições de sobrevivência que ofereciam antes da ocupação das terras pelos não índios. 3.3 Mulheres indígenas e a prática da mendicância: em que contexto surgiu? Por quê? É praticamente impossível precisar a época na qual as mulheres indígenas passaram a pedir nas ruas das cidades acreanas. Elas são destaque na impressa local quando a sociedade não índia começa a sentir-se incomodada com suas presenças, conforme se observa nas imagens do anexo 2, ao final deste trabalho, que apesar de não dialogar muito com os passantes, estão nas caçadas dos centros comerciais e até de porta em porta nos bairros das cidades, pedindo comida, roupas, produtos industrializados ou qualquer outro objeto que lhes possa servir. Em pesquisa realizada no município de Sena Madureira, onde entrevistamos o senhor José Correia da Silva Jaminawá, chefe do posto da Fundação Nacional do Indio - FUNAI, naquele município, ele nos explicou que muitos índios vêm à cidade em busca de tratamento de saúde, para tirar documentos, receber auxílios como pensão, aposentadoria, Salário Maternidade e Bolsa Família, entre outros. E os agentes agroflorestais, agentes de saúde e professores indígenas, vêm receber seus salários. “Como na tradição indígena o chefe faz se acompanhar por outros membros da mesma família nas caçadas, pescarias, no mundo dos negócios e contatos amistosos, na vinda para a cidade ocorre à mesma coisa”, assegurou José Correia. De acorde José Correia, em levantamento realizado em dezembro de 2011, no município de Sena Madureira, têm residência fixa apenas 14 famílias indígenas, 43 totalizando 136 indivíduos, pertencentes às etnias Jaminawá (maioria), Manchinéri, Kaxinawá e Apurinã. Porém, segundo este senhor, quando os indígenas aldeados chegam à cidade, pelos motivos citados no parágrafo anterior, o número chega ser cinco vezes mais, aumentando também os pedintes e os problemas como o alcoolismo. Quando perguntamos os motivos que fazem esses povos fixar moradia na cidade, ainda que em situação de mendicância, o funcionário da FUNAI nos afirma que além do processo de lentidão em que as terras são desapropriadas e demarcadas para os indígenas: Em muitos casos são terras improdutivas onde não existe mais a floresta, árvores para retirada de madeira e armação das casas, palheiras que forneçam palha para a cobertura, confecção de artesanato, cestaria, fechas e outros artefatos utilizados pelos indígenas; não tem onde caçar e pescar. Aliás, não existe nada em algumas dessas terras, somente capim. Índio não come capim. Se não tem, e o índio vai buscar onde tem e vira invasor. Não existe um projeto de assentamento que assegure a permanência desses povos nas terras demarcadas pelos órgãos governamentais e esse é o principal motivo da vinda desses povos para a cidade, conclui. Ainda, em conformidade com o depoimento do senhor José Correia: As mulheres indígenas pedem6 porque são induzidas por seus maridos, já que eles, como homens se envergonham de sair às ruas pedindo. Além disso, se um índio for pedir, vai ouvir expressões do tipo: vai trabalhar vagabundo. Todos mandam os índios trabalhar, mas ninguém lhes oferece emprego, afirmou. Isto por que, segundo este funcionário da FUNAI, a discriminação sofrida pelos povos indígenas, naquele município é tanta que o prefeito da cidade chegou ao ponto de entrar em contato com ele somente para pedir que retirasse os índios que passeavam na praça principal, afirmando que estes incomodavam a sociedade com suas presenças, pois ali não era lugar para índios. Em Rio Branco, de acordo com informações do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, referente a levantamento realizado em 2009, residem 250 famílias, totalizando 1.021 indivíduos, pertencentes a 17 etnias diferentes, distribuídos em quinze bairros da capital. Para a senhora Rosenilda Nunes Padilha, Missionária do Conselho Indigenista Missionário - CIMI: 6 Depoimento e dados obtidos através de entrevista realizada no município de Sena Madureira – Acre, no dia 04 de maio de 2012. 44 Todas as mulheres que vivem da mendicância nas ruas da cidade de Rio Branco, são da etnia Jaminawá. Porém não sabemos quantas são, nem os motivos que as fazem agir como pedintes, pois hoje temos muitas ações governamentais e não governamentais que cuidam do bem-estar desses povos. Portanto, vejo a mendicância como uma prática não justificável, 7 concluiu a senhora . Na opinião do senhor Antonio Luiz Batista de Macedo, funcionário da FUNAI, em Rio Branco, são vários os motivos que ocasionaram a dispersão desses povos de suas terras. Porém, os principais são: a falta de um projeto de enraizamento desses povos em suas terras; a busca de condições de desenvolvimento como educação escolar, saúde e cidadania; a falsa ideologia promovida pelo discurso de membros das entidades governamentais e não governamentais, no sentido da busca pelo progresso e, a facilidade dos produtos industrializados, introduzidos nas culturas indígenas pelo homem branco. Quando perguntamos se ele tinha conhecimento sobre ações ou políticas públicas, implementadas pelo governo estadual para o realdeamento e permanência desses povos nas aldeias, o sertanista Macedo nos respondeu que: Teoricamente existem programas de apoio a estas mulheres como participação em congressos, reuniões, palestras, algum incentivo para que elas confeccionem e vendam seus artesanatos. Porém, a maior parte dessas ações só funciona na teoria, já que pedintes, seja índio ou branco, são sempre vistos como mendigos e sobre estes recai todo tipo de discriminação e preconceito, concluiu Antonio Macedo8. O senhor Macedo ainda nos informou que ao contrário do que ocorre no município de Sena Madureira, onde segundo pesquisa, todas as famílias recebem algum tipo de benefício social, na capital do Estado do Acre muitas famílias não recebem benefício algum. Sendo, portanto, a prática de pedir o único meio de sobrevivência de alguns desses povos. 7 8 Entrevista realizada no dia 08 de dezembro de 2011. Entrevista realizada no dia 01 de junho de 2012. 45 CONSIDERAÇÕES FINAIS No primeiro capítulo deste trabalho, demonstramos, ainda que sucintamente, como ocorreu o processo de formação histórica do Estado do Acre, as formas de apropriação territorial, de utilização dos recursos naturais, que acontecia paralelamente ao principal período de atividade dos caucheiros peruanos, e, as consequências quando ambos os empreendimentos extrativistas adotaram iniciativa semelhante em relação aos grupos indígenas que habitavam a região. Como a promoção das "correrias", que acabou por dizimar muitas tribos indígenas e provocou a dispersão de outros grupos para terras desabitadas. Vimos ainda, que os processos conciliatórios, que visaram estabelecer a ordem e o controle social, como a criação do Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais – SPILTN teve como principal objetivo implantar medidas para a "contenção" dos "selvagens", a "segurança" dos seringueiros e a viabilidade da produção nos seringais. E resultou na transformação de muitos seringalistas em “delegados de índios”. Por ocasião das unidades administrativas (postos e povoações indígenas), como estratégia para a "proteção" e "assistência", serem instalados em propriedades de alguns desses delegados. Sendo-lhes atribuído o encargo de supervisionar os grupos indígenas, que ali se encontravam ou pretendiam futuramente se estabelecer. Também evidenciamos, no decorrer da escrita, as mudanças decorrentes da promulgação da Constituição brasileira de 1988, que alterou a forma da Lei e em seu Art. 231 e assegurou aos indígenas o “reconhecimento de sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários as terras que tradicionalmente ocupavam; o processo de demarcação de terras indígenas, com a instalação da Fundação Nacional do Indio – FUNAI, no Acre. Bem como os conflitos ocorridos nas décadas de 80 e 90, entre seringueiros e posseiros da região, por ocasião da expansão agropecuária, quando os indígenas foram “convidados” a lutar em defesa da terra e contra o desmatamento. Época na qual, muitos índios foram expulsos de suas terras; procuraram se adequar ao novo 46 modelo de relação econômica e social, e outros, migraram para as cidades em busca de novos meios de sobrevivência. Abordamos as políticas públicas, no contexto das diversidades culturais e mais especificamente, as direcionadas as populações indígenas do Estado do Acre, com recorte para mulheres indígenas pedintes, que vivem em situação de risco e exclusão social, por estas serem objeto do presente trabalho. Nesse ponto, pesquisamos e colhemos informações, através de entrevistas orais, realizadas em órgão e com servidores que lidam com as causas indígenas, para melhor analisarmos que o fator ou fatores contribuíram para a situação de mendicância em que vivem muitas famílias indígenas de Rio Branco e Sena Madureira, Acre. Observamos, durante a realização das entrevistas que, a Fundação nacional do Indio – FUNAI trabalha com dois conceitos: o de índio aldeados e desaldeados. Porém, para a sociedade não índia, o conceito de índio remete apenas aqueles que vivem em suas aldeias, de modo que as mulheres indígenas que vivem nas ruas pedindo para alimentar a si e os seus, são vistas como “mendigas”, conceito que as esvazia de qualquer signo reconfortante ou identidade cultural. Já que a mendicância, seja de índio ou não índio, além de constitui prática que fere a dignidade da pessoa humana, desnuda o indivíduo de toda e qualquer ligação sociocultural com a sociedade envolvente. A partir dos discursos apresentados, é possível inferir que as políticas públicas estaduais que promovem o realdeamento e permanência desses povos em suas comunidades de origem, são ineficientes e ineficazes. Haja vista que além de não existir ações concretas, na perspectiva de promover a inserção das mulheres indígenas mendicantes entre os grupos aldeados, também não existem ações que promovam a proteção ou inserção delas em projetos que forneça material para a produção de seus artesanatos, já que estes constituem, para a maioria das etnias indígenas, a principal fonte de renda. Faltou aos órgãos governamentais e não governamentais observar que a cultura indígena não é um balaio vazio. A cultura se realiza a partir de uma trama complexa de relações com a natureza, com os parentes, com os rituais e mitos. 47 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACRE. Povos indígenas no Acre. Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour, Governo do Estado do Acre, Rio Branco, 2010. AQUINO, Terry Vale de. Índios Kaxinawa: de seringueiros “caboclo” a “peão acreano”. Rio Branco: ENGRAPAL, 1982. COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO DO ACRE. Indíos do Acre: história e organização. 2ª. Ed. Rio Branco/AC, 2002. 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Antonio Luiz Batista de Macedo, Funcionário da Fundação Nacional do Indio – FUNAI, em Rio Branco – Acre. 50 ANEXO I FIGURA 1: [Acampamento indígena] Retirado de: <http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2012/04/10/acreregistra-14-casos-de-gripe-h1n1-entre-indigenas-e-antecipa-vacinacao/> Acessado em: 05/06/2012. 51 FIGURA 2: [Acampamento indígena] Fonte: < http://lindomarpadilha.blogspot.com.br/2012/07/povos-indigenas-doacre-mentiras.html > Acessado em: 09/07/2012. 52 ANEXO II FIGURA 3: [Mulheres indígenas mendicantes] Fonte: <http://www.contilnetnoticias.com.br/Conteudo.aspx?ConteudoID=4095> Acessado em: 17/02/2012. 53 FIGURA 4: [Mulheres indígenas mendicantes] Fonte: <http://www.contilnetnoticias.com.br/Conteudo.aspx?ConteudoID=4095>. Acessado em: 17/02/2012.