Os setores produtivos de Bauru criaram 895 novas vagas de emprego com carteira assinada no mês passado. O número corresponde ao quarto melhor resultado para meses de agosto em toda a série histórica do Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, iniciada em 1999. Bauru, sábado, 22 de setembro de 2012 - Página 12 Proporção de carros em Bauru é maior qque em São Paulo, segundo o IBGE Tisa Moraes porta de um carro estacionado porque o motorista abriu sem olhar. Mas, por sorte, tive apenas alguns arranhões”, comenta. Para a estudante universitária Renata Mondini Takahashi, 23 anos, não há preguiça ou desculpa. De bicicleta, ela se locoReflexo cultural move por toda a cidade e consegue cumprir as taDe fato, trafegar em refas do dia a dia, que in- Bauru está cada dia mais cluem ir ao trabalho, à fa- difícil. Com as facilidaculdade, ao banco, à casa des de acesso ao crédito dos amigos e até mesmo e aos incentivos fiscais ao supermercado. proporcionados pelo goMas Renata é uma verno federal como forma exceção à regra. Segundo de estimular o consumo, a dados do Censo 2010, di- frota cresceu 87% nos úlvulgados ontem pelo Insti- timos dez anos. Em julho tuto Brasileiro de Geogra- passado, um dos melhores fia e Estatística (IBGE), meses de vendas registra66,1% das residências do na história da indústria bauruenses possuem carro, automobilística, 35 unidanuma proporção que supe- des foram emplacadas por ra até mesmo o percentual dia na cidade. da Capital. Em São Paulo, Mas, mais do que o índice é de 53,4%. uma consequência da meÉ claro que, em nú- lhoria do poder econômico meros absolutos, os engar- dos bauruenses, a corrida rafamentos quilométricos às concessionárias reflete da metrópole são a prova um traço cultural dos momaterial de que os trans- radores. Segundo o antrotornos em Bauru ainda são pólogo Cláudio Bertolli muito menores. No entan- Filho, professor da Unito, comparativamente, as versidade Estadual Paufamílias bauruenses estão lista (Unesp) de Bauru, mais motorizadas do que ter carro é sinal de status, as paulistanas. principalmente em países Atualmente, a cida- emergentes como o Brasil. de conta “Não com 225,6 temos muiHoje, Dia Mundial mil veícutas possilos. Das Sem Carro, grande bilidades 1 0 9 . 8 3 0 parte dos 225,6 mil de diferenr e s i d ê n - veículos da cidade ciação e o cias regis- deve estar nas ruas carro é um tradas pelo símbolo Censo 2010, 72.616 con- de autonomia e ascensão tam com um ou mais car- social. Cada vez menos, é ros na garagem. Nenhum sinônimo de rapidez e pradeles é de Renata. ticidade”, diz ele, que, por Hoje, no “Dia Mun- opção, não dirige há mais dial Sem Carro”, ela irá, de 20 anos. “Foi a maneira mais uma vez, trabalhar e que encontrei para poder estudar de bicicleta. Pau- observar as coisas à minha listana, mas atualmente volta”, diz. morando em Bauru, a joBertolli e Renata vem decidiu usar a bike fazem parte de um perfil como meio de transporte cada vez mais escasso há dois anos, quando fez no Brasil. Em países euum intercâmbio em Sevi- ropeus, por exemplo, o lha, cidade espanhola que sistema de transporte púconta com ciclovias em blico é bem mais desenquase todas as ruas. Hoje, volvido e explorado pela protegida por capacete população, conforme e luvas e com a bicicleta destaca o professor Ardotada de espelho retro- chimedes Azevedo Raia visor e refletores, Renata Junior, doutor em Envai a todo lugar, faça chu- genharia de Transportes va ou faça sol. pela Universidade de São “Não tenho paciên- Paulo (USP) e coordenacia para esperar ônibus e dor do Núcleo de Estudos nenhuma vontade de ter Sobre Trânsito da Unicarro. Pelo menos por en- versidade Federal de São quanto, não é um plano Carlos (UFSCar). que faça parte da minha “Lá, o nível de renda vida”, comenta. O único é maior do que o nosso e inconveniente, ela revela, as pessoas andam mais a é disputar espaço com a pé, de bicicleta ou de ônienorme quantidade de ve- bus. Aqui, existe preconículos nas ruas. ceito em relação a isso, “Tem sempre um que foi estimulado quando que passa muito perto e os financiamentos ficaram assusta a gente. Também mais fáceis e os carros, já cheguei a bater numa mais baratos”, frisa. Quioshi Goto Renata anda por toda a cidade com sua bicicleta ‘Vou de bike quando preciso chegar rápido’ O título acima não está errado. O estudante universitário Enrico Giorge Grando, 23 anos, tem carro, mas, quando precisa chegar rápido a algum lugar, prefere ir de bicicleta. “Só vou de carro para o trabalho e para sair com os amigos à noite, para não chegar suado. Mas, para todas as outras coisas, vou de bike”, comenta. O jovem mora perto do Bauru Shopping e conta que leva o dobro do tempo para ir de carro, por exemplo, até o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), onde participa de um curso duas vezes por semana. “Como o curso é à noite, pego horário de pico e demoro meia hora para chegar lá. Já de bicicleta, reduzo esse tempo pela metade”, garante. O trajeto quase todo em declive favorece, mas Enrico também vai de bicicleta até a Unesp, onde estuda, além de pedalar com frequência por hobby. “Além de ser prazeroso, é uma forma de economizar tempo e dinheiro. Só não vou para o trabalho porque fica no Distrito Industrial 2 e é muito longe”, diz. (TM) Números Na pesquisa do Censo em 2010, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 72.616 domicílios bauruenses de um total de 109.830 unidades contavam com pelo menos um automóvel na garagem. Na Capital, de 3,6 milhões de casas, havia carros em 1,9 milhão delas. Percentualmente, 66,1% das residências bauruenses possuem veículos, ante 53,4% na cidade de São Paulo. No Estado, a proporção é de 55,6% e, no Brasil, de 39,5%. (TM) Alternativas Aceituno Jr. “A solução não é o automóvel”, diz o professor Archimedes Raia Junior O transporte público ainda deficitário de Bauru e a parca infraestrutura viária disponível para os meios de transporte alternativos, segundo o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, também desestimulam as pessoas a procurar outras formas de se locomover. “Dependendo da região, os ônibus dispõem de poucas opções de itinerário e demoram a passar nos pontos”, observa. Mas, para o professor Archimedes Azevedo Raia Junior, não bastaria melhorar a qualidade do sistema público de transporte, sem que fossem criados mecanismos para inibir o uso de veículos individuais. “A solução não é o automóvel, e isso é algo que já foi compreendido pelas capitais europeias. Mas vai levar algum tempo até este entendimento fazer parte do Brasil”, frisa. De acordo com ele, apesar de a Política Nacional de Mobilidade Urbana Sustentável, assinada em abril, ter elencado as diretrizes para priorizar os meios de transporte alternativos, o governo federal, na prática, continua a favorecer a locomoção individual. “Os estímulos para a compra de veículos contradiz tudo o que está neste documento que tem força de lei”, pondera. (TM)