pONtO dE vIStA www.urologiaessencial.org.br ERNESTO REGGIO Chefe do Grupo de Endourologia | Departamento de cirurgia minimamente Invasiva | SBU RENATO NARDI PEDRO Centro Litotripsia | UNICAMP Ênfase no Tratamento da Urolitíase | Clínica Padre Almeida | Campinas Endourologia Universidade de Minnesota | USA Ureterorrenoscopia no tratamento do Cálculo Renal maior que 2 cm O cálculo renal de maior volume é uma das doenças com maior número de possibilidades terapêuticas, desde a cirurgia convencional aberta, já utilizada por décadas, mas em desuso nos dias de hoje, passando pela LECO, que revolucionou o tratamento da litíase urinária na década de 80 e, mais recentemente, a laparoscopia; porém, sem dúvida, a principal forma de tratamento são as técnicas minimamente invasivas. Dentre estas últimas, destacam-se a nefrolitotripsia percutânea (NPC) e a cirurgia intrarrenal retrógrada com endoscópio flexível, que vem ampliando sua indicação para cálculos renais de maior volume. A NPC trouxe enormes vantagens, quando comparada à cirurgia aberta convencional, pois oferece taxas stone free 44 UROLOGIA ESSENCIAL V.2 N.1 JUL SET 2012 comparáveis (95%), com menor agressão ao parênquima renal, tempo de recuperação pós-operatória muito mais curto e retorno mais rápido às atividades cotidianas. Entretanto, a cirurgia renal percutânea demanda treinamento específico, sendo necessárias algumas dezenas de casos para se atingir a curva de aprendizado ideal; está associada a taxas de complição cirúrgicas maiores, como transfusão sanguínea, em torno de 10% em alguns centros, confirmando a importância do treinamento adequado 1,2. A LECO, por sua vez, tem menor eficiência em cálculos volumosos, com altas taxas de reaplicação e maiores complicações. As taxas de sucesso são inferiores, com necessidade de retratamentos. Fragmentos gerados por sessões de LECO para cálculos mais volumosos podem obstruir a URF NO TRATAMENTO DO CÁLCULO RENAL MAIOR QUE 2 CM Ernesto Reggio unidade renal, exigindo tratamento endoscópico adicional, que já poderia ter sido usado como tratamento inicial 3. Neste cenário e durante décadas, a cirurgia renal percutânea foi a modalidade cirúrgica de escolha para tratamento de cálculos renais volumosos. Porém, recentemente, avanços tecnológicos permitiram aprimoramento dos aparelhos endoscópicos, com o surgimento de equipamentos mais finos, longos, flexíveis e com melhor resolução de imagem. A endourologia fortaleceu-se ainda mais como subespecialidade, sendo o acesso renal retrógrado empregado em várias enfermidades. A litotripsia com Holmium-YAG laser, com emprego de fibras finas e flexíveis, tornou, então, a via retrógrada intrarrenal um método muito eficiente e uma atraente opção para o tratamento dos cálculos renais. Inicialmente utilizada para casos selecionados e de pequeno volume de cálculo, os limites para a utilização de ureterorrenoscopia flexível (URF) foram se ampliando, com muitos autores demonstrando, também, resultados promissores para cálculos mais volumosos. Rilley et al mostraram, em 2009, sua experiência inicial com abordagem retrógrada no tratamento de cálculos intrarrenais maiores que 2,5 cm, em 22 pacientes (tamanho médio de 3 cm), com taxas de sucesso global de 90,2%, sendo que 14 pacientes necessitaram de 2 intervenções e 1 paciente realizou 3 procedimentos; ocorreram apenas duas falhas de tratamento, relacionadas a cálculos maiores que 4 cm ou anatomia renal calicinal desfavorável (duplicidade pielocalicinal e infundíbulos longos e estreitos). Nesses pacientes, a cirurgia percutânea foi realizada posteriormente, com sucesso. Nenhuma complicação maior relacionada à ureterorrenoscopia flexível foi descrita, porém foram citadas 13% de complicações menores, como ITUs e pequeno hematoma subcapsular 4. Hussain et al avaliaram 36 pacientes portadores de cálculos maiores que 2cm, submetidos a URF; a taxa livre de cálculos, após um único pro- Renato Nardi Pedro ponto de vista cedimento, foi de 58,3%, porém, quando submetidos a dois ou mais tratamentos, o sucesso atingiu 94,4%. É interessante notar que, nos intervalos de tratamento, os pacientes voltaram as suas atividades cotidianas. Apenas uma falha foi documentada nesta série, também sendo tratado o paciente com sucesso pela NPC 5. Aboumarzouk et al realizaram uma revisão sistemática da literatura sobre o uso da URF no tratamento do cálculo intrarrenal maior que 2 cm. Foram selecionados 9 estudos, somando 445 pacientes tratados; a taxa de sucesso atingiu 93,7%, com uma média de 1,6 procedimentos por pacientes. As complicações maiores corresponderam a 5,3%. Quando estes dados foram subanalisados, de acordo com o tamanho do cálculo, a taxa de sucesso para pedras de 2 a 3 cm foi de 95,5% e, para as maiores que 3 cm, 84,6%. A conclusão desta meta-análise é a de que a URF, em mãos experientes, representa uma alternativa à tradicional NPC 6. Estes estudos demonstram que, quando comparada com a NPC, a URF apresenta menor taxa de complicações, com altas taxas de sucesso, tornado o procedimento uma modalidade atraente tanto ao paciente quanto ao cirurgião urológico. Vale ressaltar que, nos estudos acima mencionados, a NPC foi usada como cirurgia de resgate nos casos em que a abordagem retrógrada não teve sucesso, evidenciando a importância do treinamento e domínio da técnica percutânea anteriormente à prática da URF. Entretanto, os pontos negativos da URF devem ser considerados. Os endoscópios flexíveis são frágeis, de alto custo, com imagem inferior aos endoscópios rígidos, particularmente o nefroscópio usado em cirurgia renal percutânea. A NPC é mais resolutiva, particularmente em cálculos volumosos, sendo que o paciente é, geralmente, tratado em apenas um procedimento; as complicações são maiores que a URF mas, mesmo assim, são incomuns e bem controladas, se tratadas rápida e adequadamente. V.2 N.1 JUL SET 2012 UROLOGIA ESSENCIAL 45 ponto de vista URF NO TRATAMENTO DO CÁLCULO RENAL MAIOR QUE 2 CM Ernesto Reggio Renato Nardi Pedro Confirmando, ainda, que as técnicas minimamente invasivas são as de escolha para cálculos renais volumosos e acendendo ainda mais o debate entre NOC e URF, as diretrizes da Associação Europeia de Urologia de 2012 recomendam a abordagem endoscópica (NPC e URS) como primeiras opções a cálculos maiores que 2 cm, deixando a LECO e a cirugia laparoscópica como 3ª e 4ª opções, respectivamente 7. Podemos concluir que a NPC é mais eficiente como monoterapia para tratamento de cálculos renais volumosos. Não devemos, entretanto, fechar os olhos para as inovações tecnológicas, que tornaram a URF factível nos dias de hoje. Como todo avanço e novidade, há a necessidade do crivo do tempo definir os limites da URF no tratamento de cálculos renais de maiores dimensões. Talvez a avaliação do volume do cálculo, e não somente a maior dimensão, proporcione maiores entendimento e planejamento do tratamento minimamente invasivo, permitindo a escolha entre a via retrógrada ou a percutânea. A anatomia da via excretora, com avaliação do formato dos cálices, dos infundíbulos, além da presença de malformações renais, também devem ser consideradas no momento da decisão da abordagem e da via de acesso ao sistema coletor renal. Figura 1 Cálculo piélico de 2,3cm (fig. 1), associado a pequeno cálculo calicial inferior. 46 UROLOGIA ESSENCIAL V.2 N.1 JUL SET 2012 URF NO TRATAMENTO DO CÁLCULO RENAL MAIOR QUE 2 CM Ernesto Reggio Renato Nardi Pedro ponto de vista Figura 2 Anatomia favorável para URF. 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