UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
PROGRAMA DE EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE
ESPECIALIZAÇÃO EM GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS
COM ÊNFASE EM GÊNERO E RAÇA-ETNIA
Oleones Maria Dutra
A ABORDAGEM E REPRESENTAÇÃO DO NEGRO
NOS LIVROS DIDÁTICOS DE HISTÓRIA
CONSELHEIRO LAFAIETE
2012
UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
PROGRAMA DE EDUCAÇÃO PARA A DIVERSIDADE
ESPECIALIZAÇÃO EM GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS
COM ÊNFASE EM GÊNERO E RAÇA-ETNIA
Oleones Maria Dutra
A ABORDAGEM E REPRESENTAÇÃO DO NEGRO
NOS LIVROS DIDÁTICOS DE HISTÓRIA
Trabalho de conclusão de Curso
apresentado ao Curso de Gestão de
Políticas Públicas com ênfase em Gênero
e Raça-Etnia.
Área de Concentração: Gênero e Raça
Orientador: Rafael Dias Castro
CONSELHEIRO LAFAIETE
2012
AGRADECIMENTOS
Aos membros da Banca Examinadora, muito obrigada.
À Direção, Coordenação e Professores do Curso de Curso de Gestão de Políticas
Públicas com ênfase em Gênero e Raça-Etnia, pelo apoio recebido.
Ao Professor Rafael Dias de Castro pela disponibilidade e orientações.
Ao corpo técnico-administrativo do Curso, que sempre nos atenderam com atenção
e presteza.
Aos colegas, pelo companheirismo e momentos de alegria.
Aos familiares pelo apoio incondicional e a compreensão nos momentos de
ausência.
RESUMO
DUTRA, Oleones Maria. A abordagem e representação do negro nos livros didáticos
de História. Conselheiro Lafaiete: UFOP, 2012. (Trabalho de Conclusão de Curso)
O objetivo deste trabalho foi abordar a temática da representação do negro
nos livros didáticos. Foi realizada uma revisão de literatura e análise dos livros
didáticos adotados nas séries finais do Ensino Fundamental, de autoria de Nelson
Piletti e Claudino Pilletti; Patricia Ramos Braick e Myriam Becho Mota. A forma com
que os negros têm sido mostrados nos livros didáticos certamente leva a reflexão da
necessidade uma mudança.
Os negros foram, ao longo dos anos, categorizados de várias formas,
representados com as mesmas características e histórias que nem sempre fazem
justiça à importância do negro para a formação da sociedade brasileira.
Atualmente, porém, sabe-se que as diferenças observadas no tratamento
dados aos negros, não são decorrentes de maior conscientização sobre esse papel,
mas resultados de conquistas adquiridos com a experiência. De muitas lutas.
Os livros didáticos que são o suporte de professores para desenvolver a
prática pedagógica ainda divulgam a figura do negro sem a representação real, mas
como uma tentativa de minimizar os efeitos negativos de sua história, possibilitando
um crescimento digno, e maiores possibilidades de adaptação social.
Palavras-chave: Educação. Livro didático. Negros. Racismo.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 4
1.1 Justificativa .......................................................................................................... 5
1.2 Objetivo ................................................................................................................ 6
1.3 Metodologia ......................................................................................................... 6
2. ABORDAGEM E DESCRIÇÃO DO NEGRO .......................................................... 8
2.1 O papel o negro na sociedade brasileira e o livro didático ........................... 11
3. OS ASPECTOS DA VIDA DO NEGRO REPRESENTADA NOS LIVROS
DIDÁTICOS ............................................................................................................... 17
CONCLUSÕES ......................................................................................................... 31
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 33
4
1. INTRODUÇÃO
O papel do estudo da História na formação dos alunos deve ter como objetivo
principal formar cidadãos dotados de visão crítica da rearidade e de espírito
participativo. Essa visão pode ser representada pela capacidade de compreender
os significados dos diversos acontecimentos do mundo contemporâneo e de ludo o
que se relaciona a eles.
Assim ao compreender esses significados, o aluno poderá posicionar- se date
das diversas situações do dia-a-dia, identificando como elas interferem em sua
realidade e, sobretudo, na do grupo social a que ele pertence.
Outro sentido do ensino é formar cidadãos dotados de espírito participativo. A
democracia só se constrói com participação e fazer o aluno sentir-se responsável
por essas instâncias democráticas é prática fundamental para todos os envolvidos
no processo de ensino-aprendizagem.
A representação que se encontra nos livros didáticos, geralmente não traduz
a realidade vivida pelos negros, deixando de considerar aspectos importantes sobre
a influência na formação da história do povo brasileiro.
Considerando-se essa afirmativa esta pesquisa tratará da abordagem dos
negros nos livros de História utilizados nos anos finais do Ensino Fundamental. Para
o estudo foram selecionados três livros de História recomendas pelo Programa
Nacional do Livro Didático (PNLD).
O livro didático deveria contribuir efetivamente para a consecução
dos objetivos do ensino sendo para tanto necessário que ele deixe
de lado preconceitos discriminatórios e, mais do que isso, seja capaz
de combater a discriminação sempre que oportuno, isto é, estimular
a cidadania, produzir efeitos contra qualquer forma de preconceitos e
discriminações no contexto escolar ou fora dele. (RANGEL, 2001,
p.13).
Observa-se uma desigualdade bastante acentuada no processo organização
dos livros didáticos de História, quando se trata da abrangência do papel dos negos
no desenvolvimento econômico e social do Brasil, contribuindo para o favorecimento
do preconceito e da discriminação.
5
1.1 Justificativa
Tendo em vista que o livro didático é parte fundamental no quotidiano do
aluno na instituição escolar este trabalho justifica-se como meio de compreender
como tem sido feita a apresentação da imagem dos negros nos livros didáticos
utilizados nas escolas brasileiras, a partir da observação e da prática pedagógica em
relação ao trabalho desenvolvido nas classes do ensino fundamental.
Segundo Nascimento (2010)
Os autores buscam equiparar a escravização tanto dos africanos
quanto dos indígenas, atentando para a importância e as
interrelações destes grupos frente ao trabalho compulsório no Brasil
colônia.Um olhar para estes textos nos faz perceber que muitas
destas obras não tratam do importante papel dos africanos e afrobrasileiros na História do Brasil, suas lutas, suas resistência.
O estudo contribui para a prática pedagógica pelo fato de que permitirá
analisar os aspectos relativos a cada período histórico representado nos livros, suas
diferentes representações, concepções e discursos sobre os negros e sua relação
com a sociedade de cada época, aspecto importante para compreensão sobre o que
cada sociedade ofereceu aos negros além da escravidão.
Para tanto o ensino de Hrstória pode estimular a formacão da visão critica ao
fornecer ao aluno um instrumental que o auxilie na interpretação da realidade
vivenciada por ele.
O livro didático deve ter o papel de mostrar ao aluno que o mundo do qual ele
hoje faz parte foi construído ao longo do tempo, como resultado de processos
históricos que envolveram vários e diferentes grupos sociais.
Assim, o aluno poderá perceber que a realidade venciada por eele não é
eterna e tampouco imutável, mas conseqüência das ações de pessoas como ele,
que viveram em tempos e espaços diferentes.
6
1.2 Objetivo
O objetivo do estudo será abordar a representação do negro em livros
didáticos e paradidáticos, apontando como uma de suas principais conclusões um
aspecto que incide nos livros didáticos de História que é a representação do negro
feita de maneira preconceituosa.
1.3 Metodologia
A metodologia da pesquisa será constituída de revisão bibliográfica, com
levantamento de bibliografia que aborda o problema do preconceito na instituição
escola. Tal método permitirá realizar uma análise comparativa das obras
selecionadas com objetivo de observar as divergências e considerações pertinentes
ao tema
que possibilitará conhecer
a realidade observada com a bibliografia
utilizada na pesquisa.
Para a o estudo serão considerados alguns aspectos das coleções dos
autores relacionados à abordagem do negro, bem uma análise dos textos
elaborados sobre história da escravidão nos períodos Colonial e Imperial,
apresentadas nos livros da disciplina de História do Brasil.
As obras escolhidas foram:
História & vida. Brasil: da Pré-História à
Independência (1997) e História & vida integrada. 7ª série (2001), ambos de autoria
de Nelson Piletti e Claudino Pilletti e Desafios do terceiro milênio de Patricia Ramos
Braick e Myriam Becho Mota.
A pesquisa bibliográfica será realizada mediante a busca eletrônica em sites
acadêmicos, com o objetivo de verificar a incidência de artigos sobre abordagem do
negros nos livros didáticos. As publicações foram selecionadas a partir de uma
leitura prévia dos resumos.
Após a leitura prévia dos artigos, estes serão analisados tendo em vista
estarem dentro das propostas de estudo dessa pesquisa. Os artigos serão
selecionados levando-se em consideração temas abordados pelos autores, visando
identificar as principais abordagens e focos de análise referentes ao tema.
7
O estudo permitirá ainda a perceber as influências que abordagem
apresentada nos livros didáticos de história pode trazer para a compreensão dos
alunos com relação quando se trata das questões étnico-raciais.
8
9
2. ABORDAGEM E DESCRIÇÃO DO NEGRO
O livro didático se apresenta como um recurso didático que pode oferecer
elementos para a concretização dos objefivos propostos para a educação
o
processo ensin e aprendizagem.
Nese aspecto entende-se que um livro didático de história deve oferecer
conteúdo diversificado, correto e atualizado, que, com as propostas de atividades,
estimulem o desenvolvimento de diversas competências e principalmente as de
reflexão, sobre o contexto social que envolve o estudo de História.
Os livros analisados aprewentando as informações que permitem localizar os
assuntos e realizar análises a partir de um texto básico. Além disso, apresenta
também imagens e mapas, essenciais como fontes de conhecimento e de análise,
com identificação adequada, bom vocabulário e estruturação das frases.
Nesees aspectos constitu referência importante para as pessoas envolvidas
no processo de ensino-aprendizagem, trazendo conteúdos e apresentando técnicas
para o desenvolvimento do aprendizado.
Com relação à descrição do papel dos negros nos livros didáticos tem servido
para mostrar o branco como o mais forte, levando à construção de conceitos
tradicionais sobre o papel do negro na história, sem, entretanto considerar a real
participação do da representação do negro na formação dessa história.
Geralmente, os livros didáticos de História apontam a África como o
local de onde os escravos vieram, e por extensão a naturaliza como
terra de escravo, o que faz com que no imaginário dos estudantes
essa imagem seja recorrente, “o continente africano é formado por
países pobres, miseráveis, onde se encontra a fome, o racismo, o
analfabetismo e a escravidão”. (CHAGAS, 2010, p.7)
Percebe-se que o livro didático, nas raras ocasiões em que apresenta o
negro, o focaliza como um elemento muitas vezes à margem da sociedade, o fato é
que tal procedimento caracteriza a política de branqueamento. (MENESGASSI;
SOUZA, 2004, p.4).
Percebe-se nesse aspecto uma demonstração de que a educação brasileira
parece não ser desenvolvida para alunos negros, pois os mesmos não conseguem
10
se identificar diante das características que lhes são atribuídas, já que por vezes
elas aparecem retorcidas no contexto escolar. (MENESGASSI; SOUZA, 2004, p.4).
Observa-se que o negro é lembrado além dos livros didáticos nas datas que
fazem parte do calendário civil e escolar, ou seja, 13 de maio dia Promulgação da lei
Áurea e 20 de novembro Dia nacional da Consciência Negra.
De acordo com Chagas (2008, p.3)
A partir das atividades desenvolvidas por ocasião dessas datas,
aprende-se e ensina-se a relação Brasil, Ensina-se a relação Brasil,
África, nesse processo, o negro ora é ressaltado como escravo, e
contribuiu com a formação cultural do Brasil, ora é apontado como
“forte”, haja vista ter suportado a escravidão e resistido às condições
desumanas a que foram submetidos.
Percebe-se a presença de uma desigualdade bastante clara com relação à
forma de organização dos livros didáticos de História, quando se trata da
abrangência do papel dos negos no desenvolvimento econômico e social do Brasil,
contribuindo para o favorecimento do preconceito e da discriminação.
No livro didático há diferentes personagens e modelos de
interpretações em jogo – o jogo das identidades. Assim como o
currículo, o manual escolar é lugar, espaço, território. Objeto de
relações de poder por ser trajetória, viagem, expedição, percurso na
formação de gerações de leitores-alunos [...]. O manual escolar é
texto, discurso, documento. (RIBEIRO, 2004, p. 10).
O livro didático é parte fundamental no quotidiano do aluno na instituição
escolar este trabalho justifica-se como meio de compreender como tem sido feita a
apresentação da imagem dos negros nos livros didáticos utilizados nas escolas
brasileiras, a partir da observação e da prática pedagógica em relação ao trabalho
desenvolvido nas classes do ensino fundamental.
Segundo Nascimento (2010)
Os autores buscam equiparar a escravização tanto dos africanos
quanto dos indígenas, atentando para a importância e as
interrelações destes grupos frente ao trabalho compulsório no Brasil
colônia.Um olhar para estes textos nos faz perceber que muitas
destas obras não tratam do importante papel dos africanos e afrobrasileiros na História do Brasil, suas lutas, suas resistência.
11
Tal aspecto evidencia que o preconceito e discriminação ainda se fazem
presentes em várias situações do cotidiano, e nas escolas não é diferente e essas
discriminação ou racismo pode passar sem ser notados mesmo estando presentes
nos materiais didáticos utilizados pelos alunos. (SILVA, 2003)
A perspectiva é heroificá-lo, sem mencionar suas ações como
atitudes de resistência cultural e política. Esse modelo de
compreensão ainda desconsidera a presença de negros na
sociedade contemporânea, pois se refere a ele num único dia, como
se não existisse negro no Brasil. CHAGAS (2008, p.3)
Nesse aspecto percebe-se na escola situações onde existe a convivência de
diversidade cultural relacionada à cor, capacidades físicas, raça, dessa forma o
espaço escolar apresenta variadas especificações que devem ser observadas e
tratadas cada uma de acordo com sua realidade.
O conceito de representação é por nós entendido como estudo
situado no campo da História Cultural, que “tem por principal objecto
identificar como em diferentes lugares e momentos uma determinada
realidade social é construída, pensada, dada a ler”28. Por essa ótica,
os manuais escolares devem ser compreendidos como objetos que
são constituídos e capazes de constituir significados.(GARRIDO,
2008, 7)
Assim e com relação à racismo e o tratamento dados aos negros nos livros
didáticos percebe-se que a discriminação presente nos livros é uma forma
representativa da desigualdade racial dentro da escola.
Todavia inserir a temática cultura afro-brasileira nos currículos do
ensino fundamental e médio, não significa substituir a história dos
europeus pela dos africanos, mas representa legitimar na sala de
aula mediante os conteúdos a diversidade cultural que caracteriza o
Brasil.
Segundo Silva Filho (2005, p.101), o livro de Pilletti (1997),
ao reconstruir representações sobre a convivência de negros e
brancos, continuou a vitimizar os negros, inclusive, deixando de
relativizar o direito de matar e identificar a existência de negros livres:
“havia brancos (sempre livres), negros (sempre escravos).
12
Na leitura dos livros didáticos selecionados, observa-se que a representação
dos negros de faz de forma a evidenciar somente as parte histórica sem uma
preocupação e descrever a as perspectivas e o aspecto social da vida dos negros na
época da escravidão, assim como depois dela.
2.1 O papel o negro na sociedade brasileira e o livro didático
A importância do papel dos negros nem sempre se apresenta valorizada,
tendo em vista levar à construção de falsos conceitos preconceituosos contra o
negro, apesar dos próprios negros terem também tomado parte desses conceitos e
apresentações construídos ao longo dos anos e que tem se que se tem mantido até
os dias atuais.
Apesar das “boas intenções”, a construção desse modelo de nação
resultou na constituição de uma sociedade que nega ser
preconceituosa e inviabiliza a discussão do racismo fora do âmbito
da intimidade. Além disso, a naturalização de uma pretensa unidade
social, impossibilita que a questão da desigualdade social seja vista
pela ótica da desigualdade historicamente construída entre as
diferentes etnias. (GARRIDO, 2008, p.1)
E essa falta de cuidados quando da abordagem do papel do negro nos
contextos histórico e social, tratando tratar o assunto com imparcialidade justificam
esse tratamento através da idéia de que o negro seja alguém de menor valor e
portanto de menos direitos, nascendo um preconceito sem que ao menos possamos
nos dar conta.
As mudanças de consciência na sociedade, tendo em vista as denúncias de
racismo cometidas contra negros em nosso país, traduzem uma nova interpretação
das realidades ora apresentadas. Não foi por menos que muitos movimentos de
minoria se formaram e se organizaram para reivindicarem seus direitos aos
governantes da sociedade.
A educação sempre foi considerada pelas organizações negras como
importante campo de disputa a ser incorporado por suas discussões,
pois é entendida como instrumento de conscientização, valorização e
inclusão social. (GONÇALVES, 2000, p. 3)
13
Uma sociedade antiescravista e anti-latifundiária onde a todos os quilombolas
eram dados direitos e deveres comuns de produzir e adquirir os bens que eram
colocados à disposição de todos para a realização plena dos membros do quilombo.
Nesta perspectiva o papel dos
abolicionistas que, sem sombra de dúvidas,
tiveram uma presença ativa, guerreira e sempre com espírito de luta.
Entretanto o conceito de representação é por nós entendido como
estudo situado no campo da História Cultural, que “tem por principal
objeto identificar como em diferentes lugares e momentos uma
determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler. Por
essa ótica, os manuais escolares devem ser compreendidos como
objetos que são constituídos e capazes de constituir significados.
(1988, p.7)
As idéias desse grupo mostravam preocupações econômicas e sociais, e
também uma vontade de humanizar aqueles que sempre foram vistos como
inferiores.
Não resta dúvida de que a atuação dos abolicionistas foi de grande ajuda
para acabar com a escravidão, porém, tanto os moderados, quanto os radicais,
tinham algo em comum com os escravocratas: o temor de que o negro tomasse
frente no processo de emancipação.
Os livros analisados mostram a história do negro de forma a do e nesse
sentido faz necessário encontrar formas de se como garantir
não direitos que
teoricamente já foram conferidos aos indivíduos e aos grupos sociais, mas fazer
valer esses mesmos direitos são postulados ou declarados a todo momento e que
refletem as condições reais de vida na segunda modernidade
A presença de capítulos específicos destinados a História da África
não é significativa, eles existem na “primeira geração” apenas na
coleção de Dreguer e Toledo, os autores apresentaram pelo menos
um capítulo específico em cada volume, assim África “existe” em
diferentes momentos da História, já na “segunda geração” os autores
mencionados acima abordam o continente em apenas dois volumes
– dois e quatro –, o primeiro destinado à África antes dos contatos
com os europeus e século XVI e XVII e, o segundo sobre as lutas
contra o neocolonialismo. (GARRIDO, 2008, p.9)
Percebe-se uma falta de propriedade no processo organização dessas
descrições, quando se trata da abrangência do papel dos negos no desenvolvimento
14
do Brasil e nossa sociedade construiu em torno disso um senso comum que é uma
base do preconceito e da discriminação.
O problema do preconceito e da discriminação contra o negro torna-se,
portanto, um problema da inclusão e de exclusão de indivíduos em uma dada
sociedade, onde os negros são mostrados como aqueles que não podendo
participar da grande maioria, foram colocados à margem, e por isto mesmo,
deveriam lá ficar e sofrer as conseqüências que lhes são impostas pela chamada
maioria.
Para Menegassi (2004, p. 2)
É notório que outras leituras podem ser levantadas para o texto, não
apresentando aí uma representação marginal do negro. Contudo, a
ilustração e as atividades que o acompanham levam à construção de
um sentido único.
O negro, nos livros didáticos sempre é abordado com inferioridade, tendo em
vista sua condição de diferença de cor e,
isto marcou e marca a sociedade
brasileira durante séculos, resultando em uma sociedade de vários segmentos mas
que nem todos esses segmentos têm acesso a direitos e mas têm deveres como a
grande maioria dos incluídos.
De acordo ainda com Menegassi (2004, p. 3)
As leituras e imagens expostas demonstram a visão preconceituosa
dos autores de livros didáticos de maneira geral, que ainda não
consideram o negro como um cidadão brasileiro que construiu e
constrói este país. Se este tipo de constatação é observado nos
livros didáticos de circulação nacional, escancaradamente exposto, o
que se espera de um aluno-leitor que está aprendendo na escola que
o negro, ainda em pleno século XXI, é representado na escola numa
condição marginal, inclusive com o aval do professor, que muitas
vezes também é negro. (MENEGASSI, 2004, p. 3)
Num ambiente social onde tanto se fala sobre direitos humanos, igualdade,
valorização dos indivíduos, deveria também favorecer a valorização da pluralidade
cultural, onde diferentes grupos sociais convivem em igualdade, entretanto o mito de
que o Brasil possui uma democracia racial talvez seja um empecilho para que
grupos étnicos possam alcançar o respeito e o espaço necessários na sociedade.
15
Os autores dão uma ênfase maior à questão dos povos indígenas, citando
tribos diferentes e seus costumes, os povos que aqui existiam quando os
portugueses chegaram, para, ao final do volume, citar a situação dos índios
brasileiros atualmente e como se organizam. (LIMA; COSTA; MOHAMED,
De acordo com Silva (2004, p.25) a representação do negro em situação
inferior à do branco, personagens negros tratados com desprezo, bem como a
representação da raça branca como sendo a mais bela e inteligente.
Entretanto, ainda observa-se nos livros adotados e especificamente nos
volumes tema desse estudo, a presença de formas de discriminação e práticas
racistas que contribuem de forma significativa para a manutenção e de uma visão
do preconceito contra os negros.
De acordo com essas ponderações observa-se que a questão da igualdade
informação racial ainda não é vista como dado que possua sentidos e significados
às práticas de atenção para com a raça negra.
Isso se deve à dinâmica cultural predominante, onde o quesito raça-cor não
desperta qualquer distinção para organizar os procedimentos cotidianos, numa
aparente atitude de que a identidade do negro é suficiente para orientar seus
afazeres, sem a necessidade de considerar as características dos sujeitos dentre
eles o racial.
A Declaração dos Direitos Humanos (1948) têm nos seus enunciados,
princípios direcionados para uma convivência de paz, assim está registrado já em
seu preâmbulo : 58
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos
os membros da família humana e de seus direitos iguais e
inalienáveis é o fundamento da liberdade da justiça e da paz no
mundo; Considerando que os povos das Nações Unidas
reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos fundamentais do homem,
na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos
do homem e da mulher, e que decidiram promover o progresso social
e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla;
Considerando que os Estados membros se comprometeram a
promover, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito
universal aos direitos e liberdade fundamentais do homem e sua
observância.
16
Já que o artigo 1º da referida Declaração relata: todas as pessoas nascem
livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem
agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.
Assim qualquer tratamento diferenciado por raça ou cor extrapola o
relacionamento de convivência entre as pessoas, quando as mesmas se sobrepõem
às outras por questões étnicas.
Qualquer forma de preconceitos não tem justificativa por estabelecer a
desigualdade entre as pessoas, sacrificando valores fundamentais e agredindo a
dignidade do ser humano e, portanto, deve ser, combatido e denunciado.
Mas o que se vê nos livros didáticos é que a história dos negros no Brasil, ao
contrário do que se imagina, não é uniforme e possui diferentes abordagens, tanto
pelos autos quanto pela organização didática das obras.
Os livros em questão trazem uma abordagem literária e trata o negro de uma
maneira diferente, os conceitos sofrem variações e diferentes aspectos, entretanto
apesar da variedade de obras e autores, ainda não se resgatou a verdade que
deveria ser apresentada aos educandos.
Tratando a realidade e o valor que deveria ser dado ao negro como membro
integrante da formação da sociedade brasileira, o negro ainda não teve seu papel
devidamente reconhecido sendo o assunto tratado dentro de uma norma padrão que
deixa de fora a verdade.
A discussão e preocupação em torno dos direitos do negro estão distantes de
se ter esgotado e nesse sentido faz necessário encontrar formas de se como
garantir
não direitos que teoricamente já foram conferidos aos indivíduos e aos
grupos sociais, mas fazer valer esses mesmos direitos são postulados ou
declarados a todo momento, mas os livros analisados não refletem as condições
reais em que os fatos aconteceram.
17
3. OS ASPECTOS DA VIDA DO NEGRO REPRESENTADA NOS
LIVROS DIDÁTICOS
O livro faz parte de uma coleção que apresenta conteúdos atualizados,
aliados a um texto crítico e instigante, estimulando o aluno a participar ativamente da
análise dos acontecimentos históricos. A coleção atende à Lei n. 10 639/2003, que
estabelece o ensino de História da África e da cultura afro-brasileira em nossas
escolas.
A relação passado-presente constitui um dos marcos desta coleção, dando
vida e dinamismo à apresentação dos conteúdos. Uma seção denominada Mundo
cultural incorpora de forma intermitente o estudo de temas culturais à análise dos
processos históricos.
Numerosos textos complementares - extraídos de livros, revistas, jornais e
sites - além de criar no aluno o hábito de ler e interpretar textos de fontes diversas,
emprestam leveza e variedade ao texto principal, tornando a leitura dinâmica e
agradável.
Fotos selecionadas e acompanhadas de legendas bem elaboradas, mapas
rigorosos, bem como ilustrações e esquemas, reforçam o conteúdo e facilitam o
entendimento do contexto histórico. As atividades propostas permitem um trabalho
eficiente de verificação do processo de ensino-aprendizagem.
No interior dos capítulos, aparecem nas seções: Janelas da História, A
História em cena, Discutindo a História e Conceitos da História. No final de cada
capítulo, compreendem as seções: Estudar & organizar; Leitura & reflexão e
Concluir & aprender. No fim de cada volume há um glossário e, no fim de cada
unidade, há dicas de filmes, livros e páginas da internet que tratam dos assuntos
vistos.
Ao analisar os livros didáticos percebe-se que geralmente não consideram de
forma abrangente a enorme diversidade étnico-cultural brasileira e especificamente,
na representação dos diferentes grupos étnicos que compõem a multifacetada
população nacional.
Percebe-se a importância de um tratamento adequado da diversidade étnicocultural brasileira, especificamente do papel do negro na História do Brasil, o que
18
não é feito de forma ampla tanto pelo professor, como pelo livro didático de que ele
se utiliza.
Além dos textos as imagens presentes no livro didático trazem a descrição do
negro e de seu ambiente fazem que mostram os afro-descedentes como
personagens, ressaltando que, para fins de pesquisa, consideramos como ilustração
as fotos, figuras e desenhos de seres humanos. Para a construção deste trabalho
adotamos como critério a classificação por cor, com base nas categorias usadas
pelo IBGE, o qual considera negro todos os pretos e pardos.
Os textos têm por característica o apelo à denúncia, no contexto da vida dos
negros, tanto em relação ao escravismo, no passado, quanto no presente, com a
apresentação das seqüelas decorrentes da condição de ser negro e de ter sido
escravo, considerado “coisa” nos discursos de seus contemporâneos.
Na coleção História & vida integrada (7ª série), o segundo capítulo da edição
é o primeiro que trata da História do Brasil, com o título “A expansão colonial
portuguesa na América”.
Seu texto focaliza nossa história a partir da União Ibérica (1580-1640), com
um discurso narrativo sobre o “domínio holandês”; nele, as referências sobre os
negros se encontram contextualizadas, apesar de o período coincidir com a
existência do Quilombo de Palmares (1602-1695) que, nas edições anteriores, era
referência para os movimentos de resistência dos negros.
Ameaçado de perder o lucrativo negócio, o governo holandês resolveu
assumir o controle de todas as etapas de produção e distribuição do açúcar. Para
isso resolveu ocupar as áreas de cultivo de cana no Nordeste brasileiro e os
entrepostos de escravos na África. (PILETTI & PILETTI, 2008, p. 20).
Esses dados, levantados por uma historiografia que tinha como parâmetro
cultural de “humanidade” os europeus e os seus feitos, aculturou intelectuais
responsáveis por reconstruir o passado, chegando à atualidade transformados em
preconceitos detectados por alguns dos textos incluídos na edição.
Sobre o tema do cotidiano do escravo negro durante o período de produção
da cana-de-açúcar as formas de abordar esse assunto variam inclusive na “primeira
geração” dos manuais analisados. As violências sofridas pelos africanos
19
escravizados, por exemplo, são descritas ora apenas como menção (Cotrim) ora
com riqueza de detalhes (Piletti), ou não são mencionadas.
Mostram que a revolta do escravo era resultado da dura carga de trabalho e
do cerceamento da liberdade, fato que consideramos falho, mas que é amenizado
pela ênfase que os autores dão as resistências desses africanos escravizados.
De forma geral, essas posturas são pouco modificadas nos livros da “segunda
geração”, Cláudio e Nelson Piletti, por exemplo, apenas amenizam os detalhes antes
apresentados na descrição dos castigos físicos.
Em 9 de janeiro de 2003 foi aprovada e promulgada a lei Nº. 10.639/03, que
garante ensino da história da África, dos africanos no Brasil, e dos afros brasileiros
em sala de aula.
Poderia dizer-se então para nossos alunos que essa compreensão já havia
sido feita com aprovação e que eles agora passariam a ser compreendidos dentro
da história. A temática dos negros nos livros didáticos de história tem convergências
polêmicas.
De acordo com a Lei 10 639 de 9 de janeiro de 2003, “Art. 26- Nos
estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se
obrigatório o ensino sobre a História e Cultura Afro-Brasileira.”
Num país em que a população negra foi trazida contra sua vontade e
escravizada por cerca de três séculos o reconhecimento do valor do negro para a
história e a cultura brasileira deveriam ser amplamente fortalecido nos livros
didáticos de história.
A ausência da história africana e, consequentemente, do negro no livro
didático, pode ser entendida como um mecanismo capaz de levar o aluno negro a
não aceitar sua identidade, ou seja, ele pode não querer se identificar com quem
aparece na história apenas em momentos de sofrimento ou como mão-de-obra a ser
explorada sem limites.
A função específica do livro didático é auxiliar o professor na tarefa de mediar
o saber historicamente acumulado pela sociedade, ajudando a democratizar e
socializar o conhecimento elaborado, bem como abrir a possibilidade de crítica
20
dessa herança e criação de novos saberes por parte dos educandos. (TEIXEIRA,
2009).
Tal aspecto pode ser observado nas ilustrações reproduzidas nos livros
didáticos, que mostram o negro numa condição negativa, o que pode fortalecer
ainda mais a tendência racista.
De outra forma os livros deveriam contemplar a participação do povo negro na
construção da riqueza nacional além de retratar as suas lutas mais contemporâneas,
a fim de amenizar os preconceitos dispensados aos negros.
Na maioria dos casos as imagens veiculadas nesses manuais são
representações negativas dos negros. em boa parte dessas imagens
os negros escravizados estão em alguma situação degradante, como
realizando trabalhos forçados, dispostos como mercadorias nos
comércios de escravos ou sendo punidos. (SILVA, 2008, p.1)
O livro de Pillet retrata a indústria açucareira como a primeira atividade
econômica importante da colônia, que exigia um número permanente de
trabalhadores para fazer funcionar os engenhos.
O uso do trabalho escravo, de índios e negros africanos estimulou a
formulação de teoria racistas para justificar a escravidão, o que também alimentou o
preconceito e a discriminação racial.
Nesse aspecto o autor retrata os fatores que levaram os fazendeiros a
escravizar os negros, ou seja, utilizar a mão-de-obra escrava utilizada na produção
açucareira foi mantida e estimulada pelo lucrativo tráfico negreiro, que também
alimentou o comércio transatlântico.
A crescente entrada de escravos africanos deixou uma triste herança no
Brasil, que se mantém até hoje. o preconceito e a exclusão social de grande parte
da população afrodescendente.
A escravidão é mostrada como uma das bases da sociedade colonial,
assumindo formas diferentes nas áreas rurais e urbanas da mineração. Mesmo
desempenhando essa função o trabalho do negro não deixava de ser desumano,
apesar de dar uma falsa idéia de liberdade tendo em vista que o controle social era
bem menor.
Mas mesmo assim o autor mostra que a
sociedade colonial comportava
atitudes variadas a respeito da condição do escravo, demonstrando as atitudes
21
tanto atitudes paternalistas dos senhores na relação a alguns escravos, quanto à
repressão e tortura adotadas pela maioria.
Tal situação levou os negros a se organizarem em quilombos demonstrando
ideais de resistência contra a violência da escravidão.
Vale destacar a importância da contribuição dada pelas três etnias
que vem originar o nosso povo, branco, negro e o índio, abordando a
questão num caráter científico de forma que ficou conhecida a sua
teoria da miscigenação. É entre essas etnias que vai se conformar no
paternalismo que segundo o autor caracteriza a sua relação: o
senhor branco dispensa um tratamento brando, humano e
benevolente ao escravo fundando assim a chamada democracia
racial. (SILVA, 2008, p.6)
Por outro lado em aparente
contradição com a escravidão africana, a
religiosidade católica tentava demonstrar certa tolerância à cultura e adaptação
religiosa dos negros, entretanto ainda assim havia o preconceito e as diferenças
que separavam ricos e pobres, senhores e escravos. Ao se comparar os aspectos
da descrição proposta pelo autor que muitos aspectos do passado ainda se fazem
presente na sociedade atual.
Observa-se esse aspecto que apesar da diminuição da desigualdade entre
negros e brancos, ainda existem indicadores que mostram desafios a serem
vencidos, tais como os afro descendentes como maiores vítimas da violência, da
discriminação, do subemprego, ou das diferenças de renda, reafirmando a urgência
da implantação de políticas públicas
que possam realmente garantir a plena
igualdade de direitos da população afro descendente.
Os contrastes sociais entre brancos e negros no Brasil têm estreita relação
com a forma como os negros foram trazidos para o Brasil, ou seja, na condição de
escravos. (SILVA, 2008)
Segundo o autor os mais de 300 anos de escravidão africana deixaram uma
herança ruim para a sociedade brasileira contemporânea e nem mesmo a abolição
da escravidão significou o fim da discriminação e da desigualdade. (SILVA, 2008)
Talvez tal situação seja resultado de uma política de inserção da população
escrava na sociedade, garantindo, por exemplo, educação, profissionalização,
especialização, desse modo os afro-descendentes, ainda hoje, sofrem com
condições desiguais em relação aos brancos. . (SILVA, 2008)
22
Na revisão de conteúdos o livro apresenta o negro de ganho, que mesmo
como escravo trabalhava com relativa autonomia em relação ao dono, realizando
diferentes atividades, embora tivesse que entregar ao senhor o produto e os ganhos
de seu trabalho. E o negro de aluguel, ou seja, o escravo que era emprestado a
outros fazendeiros para realizar diversas atividades.
Esse aspecto reforça a idéia de um discurso que atua exclusivamente no
âmbito da dramatização, caracterizado por estruturas simplificadas, fácil apreensão,
embora não totalmente direcionado para a reconstrução da vida dos negros, tanto
na fase em que africanos e seus descendentes foram escravos como após a
abolição da escravidão.
Os Quilombos são definidos como as comunidades de resistência formada
por negros fugitivos, sem reforçar a idéia de que nestas comunidades se refugiavam
também índios e brancos pobres.
Ainda na descrição e caracterização dos quilombos, o autor os identifica como
“comunidades”, porém, ao discursar sobre a prática da justiça nos mesmos,
apresenta um rigor contra diversos crimes, o que nos permitiu interpretar a
existência de uma instabilidade no quadro de vida nos quilombos.
A apresentação do conteúdo tenta minimizar a situação dos escravos de
ganho que podiam conseguir a liberdade trabalhando por conta própria durante
determinado período, juntar dinheiro e comprar sua liberdade, entretanto tal
liberdade dependia da vontade do senhor em querer se desfazer do escravo.
Analisando a marginalização dos negros, na atualidade, Piletti exemplifica o
fato, afirmando que os negros não exercem cargos importantes no Brasil. Aqui,
interpretamos que o autor exemplificou pela exceção, pois a marginalidade que gera
exclusão já dificulta o direito de milhares de negros ao trabalho.
Com esse discurso, o autor acabou por referendar o sentido das
interpretações de Lara: o excesso de discursos, tanto verbais quanto iconográficos,
sobre a violência, fez prevalecer a idéias de inferioridade e apresentação dos negros
sempre como vitimas.
A presença das imagens na coleção História & vida, por exemplo, avcam por
manter vivios os aspectos de driscriminação e preconceito sobre os negros na
sociedade brasileira, sendo no capítulo dois mantidas informações sem importância
sobre a vida dos negros,
23
No capítulo em questão não se nota a presença de tetos com abordagem
referente à realidade da população negra , bem como sua participação na vida da
sociedade da época, tal ausência pode ser vista como forma de apresentar o negro
de forma menos importante devido à sua condição de escravidão, sendo
mecionados no contexto de temas considerados mais importantes.
Como foi verificado na análise do capítulo, a história dos negros foi
contextualizada no ambiente da mineração, enfatizou-se a importância das riquezas
minerais tanto no passado quanto no presente, deixando de construir um discurso
verbal e iconográfico sobre o cotidiano dos negros.
Nas atividades, também identificamos a ausência desse discurso, pois a
autoria somente propôs questões sobre a exploração aurífera e a pobreza nas
Geraes, vindo a abordar o negro apenas quando tratou da condição de vida das
crianças pobres na região.
Quando fazem referência à abolição, os autores, apresentam tópicos sobre o
significado da extinção da escravidão para os negros, destacando entretanto que tal
libertação trouxe poucas mudanças para a situação de preconceito e discriminação
com relação à condição dos negros no país.
Em determinada trecho o autor escreve: "A vida do escravo é um inferno. Os
africanos são arrancados de sua terra de origem e trazidos como gado em navios.
Sua vida na colônia é ainda pior: têm uma existência amarga e penosa.
Os escravos começavam o trabalho ao raiar do dia e só paravam ao
escurecer. Quase não tinham descanso; em muitos engenhos,
aos domingos cultivavam pequenos roçados para seu próprio
sustento.” (NELSON e CLAUDINO PILETTI, 2008, p. 145)
O texto revela apresenta o dia a dia do negro marcado pelo trabalho,
demonstrando que na relação entre os escravos e os senhores, existia somente um
o aspecto do trabalho.
Esse contexto traz a idéia de que essa vida se limitava somente ao trabalho,
onde os escravos não possuíam vida social própria, e ainda mais, não causaram
nenhuma influência à sociedade vigente na época, alem do trabalho.
Os temas tráfico negreiro e abolição da escravidão foram intercalados pelo
subtítulo “Chegaram os imigrantes”. A autoria, no primeiro subtítulo, condensou a
24
narrativa apresentando um conjunto de fatores responsáveis pelo “fim do tráfico de
escravos”, e iniciou a subunidade com um texto sobre a questão escravocrata:
Grande parte dos escravos que trabalhavam principalmente nos
engenhos de açúcar do Nordeste, na região das minas e nas
fazendas de café do Sudeste, não se submetia passivamente à
escravidão. Resistiam de diversas maneiras: alguns se suicidavam,
outros fugiam, reuniam-se e organizavam-se para lutar pela sua
libertação. Assim ampliaram-se os núcleos de resistência dos
escravos, os quilombos. (PILLETI; PILLETI , 2008, pág. 216)).
Os autores apresentam de forma pouco clara os conflitos sociais existente na
época, no que diz respeito aos costumes, quando se referem ao fato dos negros
terem que deixar de lados duas tradições e adotar os hábitos impostos, dentro de
uma visão que leva à conclusão de que não houve qualquer tipo de resistência e
que os escravos aceitaram de forma pacífica todas as imposições.
A apresentação dos textos mantém destacada a superioridade do branco
sobre o negro, que sempre era levado a adotar uma cultura diferente da sua de seu
modo de vida .
Em lugar dos alimentos com os quais estavam acostumados na
África, os escravos se alimentavam com a comida que o senhor lhes
dava. Seu principal alimento era a mandioca, dela faziam farinha,
com a qual preparavam vários quitutes, ainda hoje consumidas em
diversas
regiões
brasileiras,
principalmente
no
Nordeste”.(NELSON e CLAUDINO PILETTI, 2008, p. 217).
Entretanto sabe-se que muitos negros que ascendiam socialmente e
constituíam famílias estáveis mesmo no período da escravidão. Mas em geral,
tratam os negros vindos para o Brasil por meio do tráfico de escravos como
"africanos", sem diferenciá-los culturalmente e com poucas referências aos seus
hábitos e meios de vida.
A resistência dos escravos, devido à influência ideológica do marxismo sobre
a autoria, foi apresentada como um ato “heróico” e as representações do reduto de
Palmares e do seu líder, Zumbi, transformadas em símbolo da resistência. Ainda
nessas edições, o discurso foi acompanhado pela apresentação de organizações
negras que, na atualidade, reagem contra a discriminação e o preconceito.
25
Outro aspecto é que Brasil é considerado o segundo maior país negro do
mundo, atrás apenas da Nigéria. No entanto, fala-se muito pouco da história da
África e de sua influência no Brasil.
Com uma presença marcante de negros escravos, que até então eram
considerados “coisas”, no discurso verbal, buscaram, talvez, personificá-los pelo uso
da expressão “homens trabalhando”.
No entanto, como sujeitos históricos, os negros, com uma presença numérica
inquestionável na sociedade mineradora, devido aos novos pressupostos de caráter
ideológico e didático-pedagógicos, sofreram um apagamento.
No desenvolvimento do capítulo, verificamos que a autoria, ao tratar das
características da sociedade, segue um discurso verbal nos padrões de uma
narrativa em que predominou o binômio senhor/escravo:
Em comparação com a sociedade que se formou em torno da produção do
açúcar, a das minas era mais flexível, com a existência de um número maior de
pessoas de classe média. A polarização entre senhores de terra e escravos,
característica da sociedade açucareira, não era tão radical na região mineradora,
apesar de continuar sendo a base da organização social. ( PILETTI & PILETTI,
2008, p. 31).
Registra-se a presença de representações sobre os negros, mas de forma
diluída no discurso textual que, de modo geral, coloca em foco situações relativas
aos interesses dos grupos ou segmentos dominadores. No último capítulo analisado
a história dos negros se restringe ao fim do tráfico negreiro e da escravidão.
No entanto, de acordo com Silva (1995, p. 47),
O livro didático, de modo geral, omite o processo histórico–cultural, o
cotidiano e as experiências dos segmentos subalternos da
sociedade, como o índio, o negro, a mulher, entre outros. Em relação
ao segmento negro, sua quase total ausência nos livros e a sua rara
presença de forma estereotipada concorrem em grande parte para a
fragmentação da sua identidade e auto estima.
Isto significa que é possível constatar formas de discriminação ao negro, além
da presença de estereótipos, que correspondem a uma espécie de rótulo utilizado
para qualificar de maneira conveniente grupos étnicos, raciais ou, até mesmo, sexos
diferentes, estimulando preconceitos, produzindo assim influências negativas, baixa
26
auto-estima às pessoas pertencentes ao grupo do qual foram associadas tais
“características distorcidas”. MENEGASSI; SOUZA (2005)
Com relação às atividades de pesquisa o livro destaca o dia 20 de novembro
como o Dia da Consciência, justificando essa data como sendo o dia da execução
de Zumbi dos Palmares, líder do quilombo do mesmo nome. Apresenta Zumbi como
símbolo luta contra a opressão sofrida pelos negros até os dias de hoje.
Nesse aspecto apresenta a instituição do Dia da Consciência Negra como
oportunidade de se colocar em discussão no país a importância
africanas
das origens
para a formação da sociedade brasileira e fortalecer a luta contra o
preconceito racial e as desigualdades entre negros e brancos, buscando estabelecer
o negro como cidadão respeitado e participativo.
Essa perspectiva nega a existência de problemas racistas nas práticas
educativas no processo formal de ensino, amparado no discurso do tratamento
igualitário e universalista da educação.
O livro traz bons recursos contribuindo para que os professores tenham mais
opções de trabalho sobre os temas desenvolvidos, tornando a aprendizagem mais
completa diante da proposta de construção do conhecimento, em um ambiente de
concorrência editorial.
As atividades propostas em do capítulo sobre escravidão contribuem parte
uma aprendizagem mais efetiva e completa, além de promover o desenvolvimento
de competências importantes para o amadurecimento dos alunos.
Ao realizá-Ias os alunos poderão, por exemplo, exercitar a construção do
conhecimento histórico, trabalhar conceitos, relacionar o tempo presente com o
passado, produzir e interpretar textos, relacionar conteúdos de diferentes áreas do
conhecimento. A atividade A História em debate (p. 151), tem o objetivo de despertar
o interesse e a curiosidade dos alunos a respeito da rotina de seus antepassados,
assim como verificar a diversidade étnica e cultural dd sociedade brasileira,
destacando a Importância da cultura africana para a nossa sociedade.
27
Na atividade sobre as ilustrações e imagens (pág. 153), possibilita a
investigação das tensões provocadas pela escravização de africanos no Brasil
colonial, a partir de concepções prévias estabelecer relações entre a imagem
apresentada e o universo cultural e religioso brasileiro.
Nesta atividade, os alunos deverão trabalhar com conceitos fundamentais do
período colonial da história do Brasil. Para responder às questões, usando os
conhecimentos estudados no capítulo sobre escravidão.
Foi proposta uma reflexão sobre o interesse que os senhores tinham que os
negros continuassem trabalhando na produção e no trabalho nos engenhos. A
atividade contribui para que os alunos percebam que o tráfico de escravos gerava
muitos lucros aos comerciantes.
Com relação à religiosidade mantém-se o aspecto que para a Igreja os
africanos deveriam ser trazidos e escravizados, pois essa era uma forma de eles
purgarem seus pecados, convertendo-se à força em cristãos, além de sofrerem com
a escravidão.
Embora os textos não sejam muito esclarecedores permite que os alunos
percebam que os africanos eram desligados da sociedade de seus lugares de
origem e, depois de atravessar o Atlântico, tinham de se adaptar a outro tipo de
sociedade na América, onde se tornavam outro tipo de ser social, além da violência
do abandono dos costumes aqui é muito Importante.
Na realização do estudo alunos podem conhecer melhor o universo dos
quilombos e possam entrar em contato com a história da resistência escrava.
Também essa atividade se torna uma maneira de aumentar o entendimento sobre
uma questão fundamental do trabalho dos historiadores, ou seja a falta de
documentos que limitam o que se pode conhecer sobre determinada realidade.
O valor da atividade está no fato de levar os alunos a buscar maiores
conhecimentos, por exemplo, sobre a história dos quilombos, a partir da criação de
uma ilustração baseado na descrição dos quilombos presente na página 155.
Por fim nos volumes analisados percebe-se a presença de representações
sobre os negros, mas de forma diluída no discurso textual que, de modo geral,
coloca em foco situações relativas aos interesses dos segmentos dominantes na
28
sociedade da época, restringindo-se a representação da historia dos ao
tráfico negreiro e da escravidão.
fim do
29
CONCLUSÃO
A partir da análise dos livros didáticos analisados pode-se afirmar que ainda
ocorre a promoção do papel do negro de forma incompleta sem priorizar a integral
participação desse povo na formação do povo e da sociedade brasileira.
Os temas nos livros didáticos não são desenvolvidos de forma interdisciplinar,
abrangendo poucos temas geradores de discussão a cerca do papel do negro, sem
fazer referências somente à período da escravidão.
A representação do negro nos livros adotados nas séries finais do Ensino
Fundamental, deixam claro que não há priorização para realização de um trabalho
participativo que contribua para discussão de problemas e potencialidades do negro,
capazes de efetivar uma mudança com relação aos valores e atitudes relacionadas
com o papel do negro.
É relevante destacar a importância do planejamento de programas de
educação para a diversidade no âmbito de instituições de ensino, e isto poderia ser
feito com apoio de um livro didático que realmente tratasse o negro como parte
integrante e inseparável da sociedade, proporcionando para mudanças de
comportamentos da sociedade fugindo da tradicional história que somente traz o
negro como inferior.
Os livros geralmente trazem atividades que não aprofundam a discussão
capaz de valorizar o papel dos negros, sua origem, sua cultura, como forma de
contribuir para a valorização do patrimônio cultural..
Os livros como instrumento de aprendizagem deveriam trazer temas e
atividades que pudessem propiciar aos alunos o aumento da consciência da em
relação
à
preservação
da
cultura
negra
como
fato
importante
para
o
desenvolvimento de uma sociedade justa socialmente, mostrando como os negros
tiveram influência nas decisões políticas, nas conquistas sociais.
Conclui-se que os livros didáticos analisados trazem tradicionalmente uma
abordagem genérica da questão da representação do negro, bastante desvinculada
do projeto educativo da escola.
30
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