CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ
FACULDADE CEARENSE
CURSO DE SERVIÇO SOCIAL
ESTER BARROS ALBUQUERQUE
FAMÍLIA × INSTITUCIONALIZACÃO: CONCEPÇÃO DOS IDOSOS
INTITUCIONALIZADOS NO RECANTO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
FORTALEZA-CEARÁ
JANEIRO-2015
ESTER BARROS ALBUQUERQUE
FAMÍLIA × INSTITUCIONALIZACÃO: CONCEPÇÃO DOS IDOSOS
INTITUCIONALIZADOS NO RECANTO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
Monografia apresentada ao curso de graduação em
Serviço Social do Centro de Ensino Superior do
Ceará, outorgado pela Faculdade Cearense-FAC
como requisito parcial para a obtenção de grau de
Bacharel em Serviço Social.
Orientadora: Prof. Ms. Dra. Mariana de Albuquerque
Dias Aderaldo.
FORTALEZA-CEARÁ
JANEIRO-2015
ESTER BARROS ALBUQUERQUE
FAMÍLIA × INSTITUCIONALIZACÃO: CONCEPÇÃO DOS IDOSOS
INTITUCIONALIZADOS NO RECANTO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
Monografia apresentada ao curso de graduação em
Serviço Social do Centro de Ensino Superior do
Ceará, outorgado pela Faculdade Cearense -FAC
como requisito parcial para a obtenção de grau de
Bacharel em Serviço Social.
Data de aprovação: ____/ ____/____.
BANCA EXAMINADORA
_______________________________________________
Prof.ª Ms. Mariana de Albuquerque Dias Aderaldo.
(Orientadora/ Faculdade Cearense)
_______________________________________________________
Prof.ª Ms. Flaubênia Maria Girão de Queiroz
( Faculdade Cearense)
_______________________________________________
Prof.ª Ms. Cícera Geórgia Félix de Almeida
(Universidade Federal do Ceará)
Aos meus pais e aos meus irmãos que, com muito
carinho е apoio, não mediram esforços para qυе еυ
chegasse аté esta etapa dе minha vida.
AGRADECIMENTOS
A Deus, meu refúgio, fortaleza e socorro bem presente nas horas de
angústia.
Aos meus pais, que me ensinaram a caminhar pela vida com honestidade
e perseverança. Obrigada por apostarem em mim e renunciarem a muitas coisas
para que eu alcançasse meus ideais. Essa vitória é também de vocês.
Às minhas irmãs, Arquese, Danielle e Dayane, e ao meu cunhado, Davi,
pelo carinho e pelas palavras de incentivo e fé. Vocês não sabem o quanto são
importantes para mim.
Aos meus sobrinhos, Ariádinne e Artur, pela alegria contagiante,
espalhada por seu sincero sorriso infantil.
Às minhas queridas amigas, Cristiana, Débora Maria, Thaís, Nara
Gonçalves, Débora Bezerra, Elizandra Carvalho, e demais colegas de turma pela
solidariedade, troca de experiências e ajuda mútua. Seu carinho e companheirismo
tornaram esta caminhada menos fatigante.
À assistente social Naiandra, por sua disposição em ajudar. Seu apoio foi
essencial para que essa pesquisa fosse possível.
Aos mestres, pela troca de saberes e pela disposição em ensinar.
Em especial à minha orientadora, Mariana Albuquerque Dias Aderaldo,
pela paciência e compreensão. Professora, sua ajuda foi imprescindível para vencer
esta etapa.
“Na minha velhice, não me rejeiteis; ao declinar de
minhas forças, não me abandoneis.” (Sl 70. 9)
RESUMO
Este estudo teve como objetivo compreender como se estabelecem as relações
familiares na perspectiva do idoso institucionalizado no Recanto do Sagrado
Coração de Jesus, localizado na Avenida da Universidade, n° 3106, bairro Benfica,
Fortaleza/Ceará. Os objetivos específicos foram: traçar o perfil sociodemográfico do
idoso institucionalizado; analisar os significados atribuídos pelos idosos ao conceito
de família; investigar alterações nos vínculos familiares percebidos pelo idoso após a
institucionalização. Quanto à natureza da pesquisa, esta caracterizou-se por ser de
abordagem qualitativa, pois buscou refletir teoricamente as categorias velhice,
família e institucionalização. A coleta de dados se deu a partir da pesquisa de
campo, com entrevistas semiestruturadas das quais participaram seis idosas. Esta
pesquisa permitiu a compreensão de que as idosas, mesmo institucionalizadas,
continuam atribuindo significados positivos a seus familiares, destacando diferentes
aspectos necessários à relação familiar saudável, entre eles o amor, a importância
da união e da boa convivência e a relação de ajuda mútua atribuída à instituição
familiar.
Palavras-chave: Velhice, Família, Institucionalização.
ABSTRACT
This study aimed to understand how to establish family relationships in perspective
elderly institutionalized in Recanto do Sagrado Coração de Jesus. The institution is
located at 3106, Avenida da Universidade, Benfica, Fortaleza-CE. The specific goals
were: to trace the sociodemographic profile of institutionalized elderly; analyze the
meanings attributed by the elderly to the concept of family; investigate changes in
family ties noticed by the elderly after institutionalization. The nature of research is
characterized by being a qualitative approach, as sought theoretically reflect the age
categories, family, institutionalization. Data collection occurred from the research
field, with semi-structured interviews in which six elderly took part.
This research allowed that we could understand that even though institutionalized
elderly continue attributing positive meanings to their families, highlighting different
and necessary aspects to healthy family relationship, including love, the importance
of unity and coexistence and mutual aid relationship attributed to family institution.
Key Words: Elderly, Family, Institutionalization.
LISTA DE SIGLAS
AVDs – Atividades de Vida Diária
ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia
ILPIs – Instituições de Longa Permanência para Idosos
PNI – Política Nacional do Idoso
OMS – Organização Mundial da Saúde
SUS – Sistema Único de Saúde
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .................................................................................10
2
A VELHICE.......................................................................................13
2.1 Aspectos psicossociais relacionados ao envelhecimento...............14
2.2 Envelhecimento saudável × envelhecimento ativo .........................19
3
FAMÍLIA ...........................................................................................22
3.1 Conceituando família...................................................................... 22
3.2 Papel da família diante do envelhecimento de seus membros........23
4
INSTITUIÇÃO DE LONGA PERMANÊNCIA (ILP) ...........................28
4.1 Breve histórico da institucionalização de idosos .............................28
4.2 Critérios mínimos para o funcionamento das ILPs .........................30
5
PERCURSO METODOLÓGICO ......................................................33
5.1 O lócus da pesquisa .......................................................................33
5.2 Caracterização dos participantes da pesquisa ...............................36
6 RESULTADOS .................................................................................38
6.1 Concepção de velhice.....................................................................38
6.2 Por que institucionalizar?.................................................................40
6.3 Relações familiares × idosos institucionalizados..............................47
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................51
REFERÊNCIAS ....................................................................................53
ANEXOS................................................................................................58
10
1 INTRODUÇÃO
O interesse em pesquisar as relações familiares de idosos residentes em uma
instituição de longa permanência surgiu a partir da convivência com meus avós
durante minha infância e adolescência. Nesse período, pude vivenciar a importância
da relação idoso-família, uma vez que o idoso carrega consigo uma história de vida,
sabedoria e experiência que pode ser repassada e compartilhada.
A inserção do idoso no convívio familiar possibilita dignidade e qualidade de
vida a ele. Nessa perspectiva, a família deveria perceber-se como sociedade
essencial à fase da velhice, pois pode garantir apoio e proteção aos indivíduos mais
velhos. Essas observações despertaram no pesquisador o interesse de conhecer de
forma mais aprofundada como os idosos em situação de acolhimento institucional
relacionam-se com seus familiares.
O envelhecimento populacional é um fenômeno observado em todo mundo. A
Organização
Mundial
da
Saúde
(OMS)
estima
que
no
mundo
existam
aproximadamente 600 milhões de idosos (WORLD HEALTH ORGANIZATION,
2010). No Brasil o número de pessoas com idade superior a 60 anos cresceu de
forma acelerada, passando de três milhões, em 1960, para sete milhões em 1975, e
vinte milhões em 2008, ou seja, um aumento de quase 700% em menos de 50 anos.
Atualmente, 550 mil novos idosos são incorporados anualmente à população
brasileira (VERAS, 2009).
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,
2008), o número de idosos no Brasil é de aproximadamente 28 milhões, o que
corresponde a cerca de 9% da população total. Isso tem ocorrido em decorrência da
queda da fecundidade e mortalidade, controle das doenças infecciosas, avanço
científico e crescimento das tecnologias na assistência à saúde.
Contudo, a
condição de longevidade associa-se à fragilização pelo envelhecimento, tornando o
idoso vulnerável às diversas situações de vida e saúde.
O envelhecimento é um processo dinâmico e contínuo, no qual ocorrem
alterações
morfológicas,
fisiológicas,
bioquímicas
e
psicológicas,
que
progressivamente reduzem a capacidade do indivíduo de adaptar-se ao meio
ambiente, resultando em maior fragilidade. Diante desse contexto, destaca-se a
assistência ao idoso que apresenta limitações físicas ou mentais decorrentes do
processo de envelhecimento, exigindo uma maior demanda de cuidados, geralmente
11
exercida pelos filhos ou por um parente próximo (CARVALHO FILHO; NETTO;
GARCIA, 2006).
O Estatuto do Idoso destaca a obrigação da família, da comunidade, da
sociedade em geral e do poder público de assegurar ao idoso, com absoluta
prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à
educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à
dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária, apontando o seio
familiar como primeiro e principal lócus de efetivação desses direitos (SILVA;
BESSA; OLIVEIRA, 2004).
A família do idoso pode ser um espaço de afetividade e pertencimento
necessários no processo de envelhecimento. No entanto, o número de idosos
institucionalizados cresce significativamente no Brasil. Sem o respaldo familiar do
sistema formal (representado pelo Estado) e com a falta de engajamento da
sociedade, aumenta para o idoso a possibilidade de sua inserção em uma instituição
asilar (FLORIANO; AZEVEDO; OLIVEIRA, 2012).
O fenômeno da institucionalização da velhice está ocorrendo devido a
fatores como transformações na estrutura familiar e na sociedade, ocasionando a
inserção dos integrantes da família no mercado de trabalho, especialmente a
mulher, o que resulta em enfraquecimento do suporte de cuidado aos idosos. Outro
fator que merece ser destacado é a redução no total de filhos por casal, resultando
em menor número de pessoas disponíveis para prestar cuidados ao idoso.
A Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI)* é considerada um
sistema social organizacional. Quando a família procura uma instituição de longa
permanência (ILP) para idosos como local para seu familiar morar, ela está tentando
proporcionar um ambiente que ofereça cuidados e companhia, além de um espaço
de convivência e socialização. Porém, na maioria das vezes, os idosos são asilados
contra sua vontade, necessitando de adaptações para inserir-se na instituição. Além
disso, muitos familiares, após a institucionalização do idoso, não retornam para
visitá-lo, transferindo os cuidados aos profissionais da instituição (RISSARDO;
FURLAN; GRANDIZOLLI, 2011). Pode-se relacionar essa postura familiar de
transferência dos cuidados ao idoso a relações intergeracionais conflituosas e
problemas de relacionamentos familiares nunca resolvidos.
A partir da inserção do idoso em ILPs, indaga-se como tem sido a presença
da família na vida do idoso e como a família consegue empoderar-se do seu papel,
12
apesar da institucionalização. A partir desses questionamentos, surgiu a seguinte
problematização: como se estabelecem as relações familiares na perspectiva do
idoso após o acolhimento institucional em uma instituição de longa permanência?
Diante do exposto, esse estudo teve como objetivo principal compreender
como
se
estabelecem
as
relações
familiares
na
perspectiva
do
idoso
institucionalizado; além disso, ao longo da pesquisa, procurou-se analisar os
significados atribuídos pelos idosos aos conceitos de velhice e família, bem como
investigar de que modo os idosos percebem a institucionalização. Este estudo teve
uma abordagem de cunho qualitativo com uma pequena parcela da população do
abrigo (não teve como foco o fator numérico, mas a qualidade dos dados coletados).
Na pesquisa de campo, utilizou-se uma entrevista semiestruturada que abordava
variáveis de identificação no intuito de investigar, através de observação e
entrevista, captando o envelhecimento institucionalizado. Foram utilizados na
fundamentação teórica da pesquisa autores como: Moragas, 2004; Beauvoir,1990;
Mascaro, 1997.
O estudo foi dividido em cinco capítulos. O primeiro conceitua a velhice,
descrevendo brevemente os estigmas e estereótipos, além dos aspectos
psicossociais relacionados ao envelhecimento saudável e ativo. O segundo capítulo
trata de família, seus diferentes conceitos, múltiplas composições e o papel exercido
diante do envelhecimento de seus membros. O terceiro capítulo tem como temática
a institucionalização do idoso, por isso se inicia com um breve histórico das
instituições de longa permanência (ILPS) – surgimento, aspectos estruturais e
legislação relacionada –, além de discutir os critérios mínimos para o funcionamento
das (ILPS). O quarto capítulo é o relato sobre o lócus da pesquisa, como também a
caracterização das participantes da pesquisa em relação aos objetivos do estudo. O
quinto capítulo aborda as percepções dos entrevistados acerca da categoria – que
compreende os idosos acolhidos no abrigo –, da velhice, do fato de estarem
institucionalizados e de questões referentes às suas relações familiares.
Esta pesquisa é relevante para a sociedade por buscar a sensibilização para
o fenômeno do envelhecimento. Conhecer de forma mais aprofundada temáticas tão
complexas acerca da vida do idoso acolhido facilita a elaboração de estratégias a
serem implementadas com o objetivo de promover a manutenção e o fortalecimento
dos vínculos familiares, que muitas vezes encontram-se fragilizados em decorrência
da institucionalização.
13
2 A VELHICE
A velhice é uma das etapas de um ciclo natural composto de nascer, crescer,
envelhecer e morrer, no entanto, durante muito tempo, a velhice foi identificada
como doença. Intervenções científicas tentavam retardar o envelhecimento e seus
males através de medidas de higiene e muitas teorias foram elaboradas com o
objetivo de explicar e decifrar os mistérios dessa fase (MASCARO, 1997).
É importante destacar que o processo de envelhecer não é resultado de um
único fator, mas representa muitos fenômenos funcionando conjuntamente, por isso
o envelhecimento humano precisa ser considerado num contexto amplo, no qual se
relacionam aspectos biológicos, psicológicos, sociais, históricos, ambientais e
culturais (MASCARO, 1997).
Envelhecer está diretamente relacionado ao avançar da idade. Para melhor
compreensão dessa temática, destacam-se alguns conceitos (NETTO, 2006).
1- Idade cronológica – A idade cronológica refere-se ao tempo transcorrido a
partir da data de nascimento do indivíduo. Segundo esse critério,
considera-se idoso o indivíduo a partir de 65 anos (em países
desenvolvidos) e de 60 anos (em países em desenvolvimento). Tal critério
é bastante utilizado em instituições, trabalhos científicos e outros aspectos
legais.
2- Idade biológica – Define-se como o grau de conservação das funções
responsáveis pela adaptação individual ao meio em comparação com a
idade cronológica. Vale salientar que o envelhecimento biológico se
manifesta de maneira distinta entre os diferentes indivíduos, visto que está
relacionado a fatores externos, como disponibilidade de recursos
socioeconômicos.
3- Idade psicológica – A idade psicológica refere-se à relação entre idade
cronológica e aspectos subjetivos como percepção, aprendizagem,
memória e autoestima. É a dimensão psíquica dos impactos biológicos,
sociais e psicológicos decorrentes do acúmulo de experiência de vida.
Corresponde a fatores que podem determinar o comportamento de uma
pessoa diante de determinadas situações.
4- Idade social – A idade social significa a capacidade de adaptação do
indivíduo à execução do comportamento esperado para sua idade, em seu
contexto social. Nesse sentido, o desempenho de papéis pode se
14
modificar ao longo do tempo, impactando as experiências de envelhecer e
podendo assumir imagens preconceituosas e repletas de estereótipos.
Ainda sobre esses conceitos, salienta-se que as manifestações somáticas
que caracterizam a última fase da vida começam a evidenciar-se geralmente
próximo aos quarenta anos, bem antes da idade cronológica demarcada socialmente
como seu início.
2.1
Aspectos psicossociais relacionados ao envelhecimento
As transformações que caracterizam a senescência ocorrem de forma
dinâmica e contínua, e decorrem de alterações morfológicas, fisiológicas,
bioquímicas e psicológicas, que progressivamente reduzem a capacidade do
indivíduo de adaptar-se ao meio ambiente, gerando uma maior fragilidade
(CARVALHO FILHO; NETTO; GARCIA, 2006). Como resultado, o conceito que
prevalece sobre velhice é negativo, quer seja avaliado pela ótica individual ou social.
Doenças, declínio, solidão, desprestígio, abandono, pobreza e maus tratos são
persistentemente associados às vivências individuais (FARIA, 2010).
Em diferentes sociedades, o adjetivo velho desperta a sensação de algo
obsoleto, inútil e fora de época. Denota algo depreciativo e é um vocabulário
aplicável a alguém que deixou de fazer planos, de temperamento difícil, cheio de
manias, independentemente da idade cronológica. Isso reforça os estereótipos,
muitas vezes reproduzidos pelos contos de fada, nos quais os velhos estão
associados a personagens como bruxas e pessoas perversas; a questão da velhice
pode, inclusive, estar ligada à ideia de decadência ou pobreza (ALCÂNTARA, 2004).
Falando sobre velhice, Beauvoir (1990) destaca:
O velho – salvo exceções – não faz mais nada. Ele é definido por um exis, e
não por uma práxis. O tempo o conduz a um fim – a morte – que não é o
seu fim, que não foi estabelecido por um projeto. E é por isso que o velho
aparece aos indivíduos ativos como uma ‘’ espécie estranha’’, na qual eles
não se conhecem. Eu disse que a velhice inspira uma repugnância
biológica; por uma espécie de autodefesa, nós a rejeitamos para longe de
nós; mas essa exclusão só é possível porque a cumplicidade de princípio
com todo empreendimento não conta mais no caso da velhice (BEAUVOIR,
1990, p.226).
Tanto entre idosos como entre não idosos a percepção da chegada da velhice
se associa a aspectos ruins. Características como desânimo, perda de vontade de
viver e dependência física são muitas vezes apontadas como sinais de
envelhecimento. A maioria de adultos não idosos percebe um número de aspectos
negativos superiores ao de positivos quando pensa em envelhecimento. Além disso,
15
as debilidades físicas e doenças, a perda da autonomia e a discriminação são
componentes da imagem de envelhecimento (VENTURI; BOKANY, 2007).
Ao refletir sobre velhice, os resultados da ação do tempo no organismo
humano é o aspecto que se destaca no imaginário social. Isso limita e denigre a
concepção de envelhecimento, bem como impulsiona os indivíduos a maquiarem a
todo custo este processo.
Envelhecer, ao que parece, é uma das mais difíceis etapas da vida de um
ser humano porque ainda não somos capazes de ver além das alterações
físicas. Não reconhecemos, por trás dessa aparência, muitas vezes
assustadora, as experiências vividas, resultando em crescimento e
realizações pessoais profundos, que aí deixaram suas marcas. Vivemos em
uma cultura em que os jovens e adultos procuram ignorar a realidade do
envelhecimento gradual de cada um. Com o progresso moderno,
diminuímos o valor do envelhecer, não consideramos o idoso como detentor
de extensos e sólidos conhecimentos, talentos e experiências que podem
auxiliar as gerações futuras (GUIMARÃES, 2007).
Salienta-se que, ao se conceituar velhice, é necessário considerar, além da
deformação biológica do corpo humano à medida que o tempo passa, o fato de que
aspectos emocionais, cognitivos e sociais contribuem fortemente para sua
configuração. Estudos sobre envelhecimento em diferentes grupos sociais
demonstraram uma diversidade de maneiras de envelhecer profundamente
influenciada pela cultura e transcendente aos fatos naturais e universais (FARIA,
2010).
Essa realidade pode ser observada em países em desenvolvimento, como o
Brasil, no qual a velocidade com que o aumento do número de idosos tem
acontecido, nas últimas décadas, gera uma série de questões cruciais, que
repercutem na sociedade como um todo, principalmente porque aspectos sociais –
como
acentuada
desigualdade,
pobreza,
pouco
acesso
a
oportunidades
educacionais e baixa adoção de cuidados em saúde são vivenciados por grande
parte da população e determinam o estado biopsicossocial ao longo de todo o curso
da vida, comprometendo a qualidade dos anos adicionais vividos (VERAS, 2009).
De forma geral, os idosos são considerados como uma categoria
independente do restante da sociedade, que tem vivenciado isolamento social
superior ao experimentado por outros grupos, como crianças, adultos, operários e
funcionários públicos (MORAGAS, 2004), sendo vítimas de um sistema injusto que
favorece dentro de sua própria categoria vantagens a uma pequena minoria em
16
detrimento do atendimento às necessidades básicas da maioria dos indivíduos (VON
SIMSON; NERI; CACHIONI, 2006).
A rotulagem estética negativa do idoso constitui um processo similar ao que
experimentaram outros grupos, tais como os deficientes físicos e os negros que se
viram marginalizados porque não se encaixavam no ideal estético promovido pela
sociedade de massa. A rejeição apresentada por boa parte da população diante de
um idoso cujo corpo revela a marca dos anos constitui uma resposta aprendida
mediante a pressão social que insiste nos valores juvenis e força a aceitá-los como
único padrão de beleza (MORAGAS, 2004).
Além disso, Von Simson (2006) destaca que os idosos são vistos como um
fardo econômico para as instituições sociais, para as gerações mais jovens e para
os próprios familiares. São comparados com crianças abandonadas, porém geram
menos compaixão. Essa visão de dependência faz com que se torne pior a condição
social do idoso, levando ao medo de envelhecer.
No Brasil, por exemplo, o envelhecimento é visto muitas vezes como um peso
para a sociedade, acarretando graves problemas. Assim, a subida da expectativa de
vida de 43 para 70 anos em cinco décadas tornou-se motivo para tristeza e
preocupação, um problema social, apontado como um motivo para se reformular o
sistema previdenciário.
A valorização da juventude e o fortalecimento da imagem de que somos um
país jovem faz com que o pessimismo voltado à velhice aumente (VON SIMSON,
NERI, CACHIONI; 2006). De maneira geral, ainda há uma visão estereotipada e um
estigma acerca dos idosos, pois eles são rejeitados pela sociedade, principalmente,
por terem perdido sua força e capacidade de trabalho e não se constituírem nem
produtores nem reprodutores, devendo ser tutelados como um menor (FARIA,
2010).
A desvalorização dos idosos tem refletido em prejuízos ao grupo de
indivíduos que ultrapassa os sessenta anos. Nos últimos anos, é evidente a falta de
respeito aos idosos por parte dos jovens, a piora na qualidade do atendimento de
saúde e o aumento do preconceito contra a velhice. A violência, o desrespeito e os
maus-tratos fazem parte do cotidiano de muitos idosos brasileiros. Ocorrem casos
de violência urbana, como assaltos e estupros; violência física e psíquica praticados
por familiares; descumprimento dos direitos da terceira idade cometido por agentes
públicos diversos. No campo econômico, a maioria dos idosos não recebe qualquer
17
tipo de preparo para enfrentar a aposentadoria, enquanto os economicamente ativos
estão em sua grande maioria trabalhando no mercado informal (VENTURI;
BOKANY, 2007).
No entanto, a velhice pode assumir diferentes roupagens e, certamente,
essas significações provêm das relações sociais e de poder socialmente
estabelecidas (MASCARO, 1997). Em algumas sociedades indígenas, por exemplo,
o velho é aquele que detém mais conhecimento e sabedoria, advindos de sua
experiência de vida e, por isso, possui um status social mais elevado (FARIA, 2010).
É o caso de muitos países desenvolvidos, nos quais o envelhecimento
populacional ocorreu em um cenário socioeconômico favorável, permitindo ao idoso
integração e bem-estar social (SANTOS, ANDRADE, BUENO, 2009; VERAS, 2009).
Nesse contexto, tal fenômeno passa a ser concebido como uma experiência
heterogênea, um fato biológico, no qual os indivíduos reagem constantemente, a
partir de suas referências pessoais e culturais, um modo específico de viver,
contrapondo-se ao conceito de que a velhice é uma etapa da vida na qual os
indivíduos são passivos e submissos (FARIA, 2010).
No sentido de combater ideias pejorativas, a expressão “velho” vem sendo
substituída por “idoso”, que significa “a passagem do tempo” e “aquele que tem
bastante idade”. A denominação de “fase da velhice” foi substituída por “terceira
idade” e, mais recentemente, por “maturidade” (MASCARO, 1997). Maior ênfase tem
sido dada a aspectos positivos, como a sabedoria, a tranquilidade, o senso de
humor, a liberdade para se fazer o que quer, a prudência, a aceitação e o senso de
realização pessoal que podem advir com o avançar da idade (VON SIMSON, NERI,
CACHIONI; 2006).
Destaca-se ainda a criação de instrumentos como o Estatuto do Idoso (2003),
que aponta o Estado e a sociedade como responsáveis pela garantia dos direitos
civis, políticos, individuais e sociais pessoa idosa:
Art. 10. É obrigação do Estado e da sociedade assegurar à pessoa idosa a
liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa humana e sujeito de
direitos civis, políticos, individuais e sociais, garantidos na Constituição e
nas leis.
§ 1º O direito à liberdade compreende, entre outros, os seguintes aspectos:
I – faculdade de ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços
comunitários, ressalvadas as restrições legais;
II – opinião e expressão;
III – crença e culto religioso;
IV – prática de esportes e de diversões;
V – participação na vida familiar e comunitária;
VI – participação na vida política, na forma da lei;
18
VII – faculdade de buscar refúgio, auxílio e orientação.
§ 2º O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física,
psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da
autonomia, de valores, ideias e crenças, dos espaços e dos objetos
pessoais.
§ 3º É dever de todos zelar pela dignidade do idoso, colocando-o a salvo de
qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou
constrangedor.
Sobre a sobrevida na velhice, vale
envelhecimento
está
relacionado
à
salientar que o processo de
acumulação
de
anos,
não
sendo
obrigatoriamente um processo patológico, não é uma doença, nem necessariamente
limitante, podendo ser uma fase tão sã quanto outras. Assim podemos definir esse
processo vital de diferentes formas (MORAGAS, 2004).
Em nome da integração, uma posição aceitável seria conceber aos idosos um
papel social com menos tensões que permita viver de acordo com as menores
possibilidades vitais, visto que seus órgãos e serviços foram afetados pelo decorrer
do tempo, enquanto as tarefas físicas mais exigentes devem ser atribuídas às
gerações jovens (MORAGAS, 2004).
É importante optar por vislumbrar a velhice apenas como o que ela realmente
é: uma fase em que as pessoas que vivem o suficiente para envelhecer, que terão
que vivenciar ou, ainda, uma das etapas a ser percorrida na trajetória da vida.
Compreender que, por mais que se busque adiar o envelhecimento através de
múltiplos artifícios, é inevitável, em vida, a chegada do mesmo. Sobre esse aspecto,
Beauvoir (1990) exorta:
[...] paremos de trapacear; o sentido de nossa vida está em questão no
futuro que nos espera; não sabemos quem somos, se ignorarmos quem
seremos: aquele velho, aquela velha, reconheçamos-nos neles.
(BEAUVOIR, 1990, p. 12).
Em suas palavras, a autora chama à sensibilização de que a velhice não pode
ser encarada como uma temática a ser tratada no futuro, mas como uma questão
contemporânea a cada indivíduo, pois faz parte da totalidade que é composta por
nascer – crescer – amadurecer, devendo as condições para o envelhecimento de
qualidade serem construídas no presente. Sobre a importância social dada à
construção dessas condições, a autora denuncia o desinteresse dos jovens em
adquirir meios de captar, de saber ouvir e de descobrir com clareza e inteligência a
forma como são criadas as políticas da velhice, e afirma que o tratamento que
dispensamos à velhice “denuncia o fracasso de toda a nossa civilização”.
19
2.2 Envelhecimento saudável × envelhecimento ativo
A portaria que institui a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa
considera “o conceito de saúde para o indivíduo idoso relacionado mais à sua
condição de autonomia e independência que à presença ou ausência de doença
orgânica”. O foco da saúde está intimamente relacionado à funcionalidade global do
indivíduo, conceituada como a competência de gerir a própria vida ou cuidar de si
mesmo (BRASIL, 2005).
Dentro dessa nova perspectiva, o envelhecimento saudável é considerado um
construto multidimensional, resultado do somatório entre saúde física, saúde mental
e independência na vida diária. Um estado em que apesar da existência de doenças
crônicas, as mesmas encontram-se controladas, não estando associadas à limitação
das atividades ou à restrição da participação social. Nesse sentido, um idoso com
uma ou mais doenças pode ser considerado um idoso saudável, se comparado com
outro com as mesmas afecções, no entanto, sem controle destas, apresentando
sequelas e incapacidades associadas (RAMOS, 2003).
Conservar a autonomia e independência à medida que se envelhece é uma
meta fundamental para indivíduos e governantes. Nesse contexto, valores como
interdependência e solidariedade entre gerações despontam como princípios
importantes, visto que o envelhecimento ocorre dentro de um cenário que envolve
outras pessoas, amigos, colegas de trabalho, vizinhos e membros da família,
fazendo com que a qualidade de vida que as pessoas terão na terceira idade
depende, em parte, da maneira como as gerações posteriores irão oferecer ajuda e
apoio mútuos, quando necessário (BRASIL, 2005).
Idosos
saudáveis
são
indivíduos
que
podem
contribuir
social
e
economicamente em trabalhos voluntários ou remunerados, ajudam a cuidar dos
netos, são participativos em questões políticas, dentre outras atividades.
Nos
Estados Unidos, por exemplo, cerca de três milhões de idosos apoiam instituições
que acolhem crianças abandonadas, adultos dependentes de drogas, moradores de
rua, doentes de AIDS e outros necessitados. Na França, uma rede de supermercado
verificou que os idosos faltam menos no trabalho, são mais motivados do que os
jovens, contribuem para reduzir as tensões internas nas empresas, são mais
tolerantes e mais experientes (VON SIMSON, NERI, CACHIONI; 2006).
Ao se manterem saudáveis, a maioria das pessoas mais velhas pode
continuar a representar um recurso vital para as famílias e comunidades, para isso,
20
são necessários artifícios que permitam que as pessoas continuem a trabalhar de
acordo com suas capacidades e preferências à medida que envelhecem, e para
prevenir e retardar incapacidades e doenças crônicas que são caras para os
indivíduos, para as famílias e para os sistemas de saúde (BRASIL, 2005).
Vale lembrar que envelhecer saudável é uma conquista relacionada a um
estilo de vida construído paulatinamente, adquirida em longo prazo, como resultado
do somatório de fatores determinantes favoráveis, como boa alimentação, atividade
física e condições adequadas de saneamento. Enfim, faz-se necessário que fatores
determinantes positivos exerçam influência sobre os indivíduos ao longo de toda a
vida.
Em complementação a esse paradigma, desponta o ideal de “envelhecimento
ativo”,
que
procura
transmitir
uma
mensagem
mais abrangente
do
que
“envelhecimento saudável”, e reconhecer, além dos cuidados com a saúde, outros
fatores que afetam o modo como os indivíduos e as populações envelhecem
(BRASIL, 2005).
A abordagem do envelhecimento ativo baseia-se no reconhecimento dos
direitos humanos das pessoas mais velhas e nos princípios de independência,
participação, dignidade, assistência e autorrealização. Trata-se de uma política de
planejamento estratégico que abandona o enfoque fundamentado nas necessidades
e assume uma abordagem pautada em direitos, permitindo o reconhecimento do
direito dos idosos à equidade de oportunidades em todos os aspectos da vida à
medida que envelhecem, apoiando a responsabilidade dos mais velhos no exercício
de sua participação político-comunitária (BRASIL, 2005). A perspectiva de curso de
vida para o envelhecimento ativo reconhece que os mais velhos não constituem um
grupo homogêneo e que a diversidade entre os indivíduos tende a aumentar com a
idade.
Sabe-se que os países podem custear o envelhecimento se os governos, as
organizações internacionais e a sociedade civil implementarem políticas e
programas de “envelhecimento ativo” que melhorem a saúde, a participação e a
segurança dos cidadãos mais velhos, tendo em vista o exercício de cidadania, as
necessidades, preferências e habilidades das pessoas mais velhas e que incluam
uma perspectiva de curso de vida que reconheça a importante influência das
experiências de vida para a maneira como os indivíduos envelhecem (BRASIL,
2005).
21
Sobre o papel do Estado, o Estatuto do Idoso (2003) destaca: “Art. 9° É obrigação do
Estado garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas
sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade”.
A palavra “ativo” vai além da capacidade de estar fisicamente ativo ou de
fazer parte da força de trabalho, alude à participação contínua nas questões sociais,
econômicas, culturais, espirituais e civis. A amplitude dessa definição permite que
mesmo indivíduos idosos que se aposentam e os com alguma doença ou
necessidade especial possam ser considerados ativos e continuar a contribuir para
seus familiares, companheiros, comunidades e países. O alvo do envelhecimento
ativo é proporcionar uma vida mais saudável e a qualidade de vida no período da
velhice, inclusive para as pessoas frágeis ou fisicamente incapacitadas e que
requerem cuidados (BRASIL, 2005).
Envelhecimento ativo aplica-se tanto a indivíduos quanto a grupos
populacionais, é o processo de potencialização das oportunidades relacionadas aos
direitos da cidadania, com objetivo de melhorar a qualidade de vida dos indivíduos à
medida que envelhecem. Tal política é importante para permitir que as pessoas
continuem produtivas de acordo com suas competências e preferências ao longo do
processo de envelhecimento e para evitar e amenizar as incapacidades e doenças
crônicas que trazem ônus aos indivíduos, famílias e sistemas de saúde (BRASIL,
2005).
Pode-se concluir que estimular as potencialidades individuais através do
acesso a bens, serviços e interações sociais favoráveis é um dos fundamentos para
a construção de uma velhice mais digna. Tal garantia perpassa pelos entes político,
social e familiar, e vem sendo formulada através de lutas. Vale salientar que a
velhice ativa é uma construção da coletividade para a coletividade e que ficar inerte
não pode ser uma opção em meio a esse processo, pois o jovem de hoje será o
idoso de amanhã, que poderá ter maior qualidade de vida como fruto de programas
e políticas exitosas, além do conjunto de princípios e valores morais fundamentados
no respeito ao ser humano, independentes de sua idade.
22
3 FAMÍLIA
De forma geral a família pode ser compreendida como a comunidade formada
por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por
afinidade ou por vontade expressa (BRASIL, 2005) e constitui a entidade
responsável pelo aprendizado social. As relações familiares estabelecem a
preparação para as relações na sociedade, sendo caracterizadas pela inclusão de
todos os seus membros. A função universal da família é a de preservar a espécie,
porém, dentre as suas atribuições, capacitar para a cidadania parece a meta a ser
atingida em qualquer espaço domiciliar. Isso porque os indivíduos necessitam da
adequação social para desenvolverem seu papel (VIEIRA, 2004).
3.1 Conceituando família
O termo “família” vem de uma expressão latina cujo correspondente grego é
okonomia, do qual derivou a palavra economia. Baseado nisso, pode-se também
compreender a família como uma organização econômica. Encontrada em toda a
sociedade humana, a família certamente precede o próprio homem, pois pode ser
identificada em várias espécies animais. No entanto, sua existência universal não
imprimiu estaticidade em suas características, pelo contrário, estas têm se
modificado de acordo com as diferentes épocas (VIEIRA, 2004).
Nas últimas décadas, a composição da família tornou-se multifacetada,
podendo ser identificada biologicamente, legalmente ou como uma rede social
construída com laços e ideologias. Para alguns indivíduos, família inclui apenas
pessoas relacionadas pelo casamento, nascimento, ou adoção; para outros, essa
instituição inclui tios, tias, amigos próximos, parceiros e até animais de estimação
(POTER PERRY, 2009).
A concepção de padrões familiares distintos, cada família com sua própria
história e suas próprias explicações, permitiu que a definição desse termo se
apresentasse como modelo construído historicamente, o que não ocorre quando o
padrão de família é visto como norma, pois, nesse caso, aceitam-se determinados
valores, regras, crenças e padrões, que geralmente inviabilizam a aceitação de
outras formas de vida familiar, em outros momentos históricos (VIEIRA, 2004).
Quanto à forma como é composta a família, pode ser classificada em: família
nuclear, família ampliada, família de monoparentais, família mista e relacionamentos
de padrões alternativos. Cada arranjo familiar possui características específicas: a
família nuclear consiste em marido, mulher e algumas vezes crianças; a família
23
ampliada refere-se à inclusão de parentes à família nuclear; a família de
monoparentais é formada quando apenas um dos pais participa do núcleo familiar; a
família
mista
é
estabelecida
quando
os
cônjuges
trazem
crianças
de
relacionamentos anteriores para um novo relacionamento; já os relacionamentos e
padrões alternativos referem-se à agregação de adultos, membros da geração de
suporte, grupos comuns com crianças, parceiros vivendo juntos, dentre outros
(POTER, PERRY, 2009).
Cada família possui uma estrutura e um modo de funcionamento, aspectos
que estão intimamente ligados e interagindo. A estrutura é baseada no curso e nos
padrões de relacionamento, os quais formam as bases do poder e os papéis
desempenhados. A estrutura implicará na capacidade da família de responder às
crises, sendo necessário que ela evite os extremos de rigidez ou flexibilidade.
Quanto ao funcionamento, refere-se ao processo utilizado pela família para alcançar
seus objetivos. Para isso, exigem-se processos, como comunicação entre membros,
resolução de tensões, ajuste de objetivos e utilização adequada de recursos internos
e externos (POTER, PERRY, 2009).
Apesar das diferentes composições, o que define a família é a capacidade de
satisfazer as inúmeras necessidades de seus componentes, quer físicas
(alimentação, habitação, cuidados durante doenças), psíquicas (autoestima, amor,
afeto e equilíbrio psíquico) ou sociais (identificação, relação, comunicação, pertencer
a um grupo) (MORAGAS, 2004).
No entanto, a forma como a família exerce esse papel tem se modificado
como reflexo das transformações sociais e econômicas das últimas décadas. Até a
época em que os povos viviam em comunidades agrícolas, dedicando-se à
economia familiar, o lar era o centro não só das atividades econômicas como
também das educacionais, sociais, recreativas e religiosas (VIEIRA, 2004).
Atualmente, embora a família seja responsável pelas principais decisões relativas a
seus membros, muitos dos cuidados que outrora eram exercidos diretamente por ela
foram delegados a organizações terceiras, exemplo disso ocorre com a educação
dos filhos ou a prevenção e o tratamento de doenças (MORAGAS, 2004).
3.2 Papel da família diante do envelhecimento de seus membros
A Política Nacional do Idoso aponta a família como a primeira das instituições
responsáveis por assegurar ao idoso participação na comunidade, defesa da sua
dignidade, bem-estar e direito à vida. Vale destacar que na velhice os mecanismos
24
de defesa de equilíbrio da personalidade são ameaçados por inúmeras tensões. A
saúde geralmente torna-se o ponto mais frágil do idoso. A incapacidade, funcional
ou cognitiva, tende a torná-lo mais carente de cuidados, e a necessidade de auxílio
– físico, financeiro ou afetivo – faz com que muitos idosos não tenham possibilidade
de viver de forma independente (CAMARGOS; RODRIGUES; MACHADO, 2011).
Nesse contexto, é essencial a família do idoso compreender seu papel, uma
vez que ela está presente no dia a dia dele, tendo que lidar com o processo de
envelhecer e com os problemas que podem se desenvolver com o avançar da idade.
Essa dinâmica vem ocasionando mudanças na própria estrutura familiar, em que
famílias envelhecem junto com os seus membros, reorganizando-se para suprir as
demandas da velhice, o que fez despontar a intergeracionalidade como uma das
características do processo de envelhecimento coletivo (REIS et al., 2011).
A
dinâmica
familiar
se
estabelece
adequando-se
aos
intercâmbios
decorrentes das diferentes etapas da vida, produzindo o mecanismo da
compensação vital. Ou seja, o indivíduo nasce completamente dependente de
cuidados e com ligação extrema aos pais; à medida que cresce, vai adquirindo
independência até chegar à completa autonomia; então, ao chegar à velhice,
quando surgem limitações de diversos tipos, é previsível o surgimento de um novo
tipo de relação devido às maiores necessidades dos pais, nas quais o filho intervém
para compensá-las com sua atenção e com seus cuidados. Na idade avançada, a
família tem um papel fundamental nas soluções, por isso muitos pais que viveram de
modo independente optam por residir com os filhos ou próximo a eles (MORAGAS,
2004).
No entanto, é necessário bom senso da parte dos adultos e jovens ao
enfrentarem a modificação de papel – de provedor para receptor de cuidados –
imposta continuamente pelo envelhecimento, de forma a evitar o surgimento de
posturas inadequadas.
Beauvoir (1990) relata que indiretamente o indivíduo adulto age para com o
idoso de modo a submetê-lo às suas tiranias, uma vez que o adulto não se arrisca a
passar ordens de maneira clara. Portanto as atitudes do adulto, aliadas à
cumplicidade dos outros membros familiares, consistem em vencer a resistência e
vigor do idoso. Ao tratar o idoso com prudência excessiva, prejudica-lhe a autonomia
e infantiliza-lhe, além de enganar-lhe ao omitir os fatos. Diante do que foi dito,
Beauvoir (1990) afirma que:
25
O que caracteriza a atitude prática do adulto para com os velhos é sua
duplicidade. O adulto inclina-se até a moral oficial que vimos impor-se nos
últimos séculos, que o abriga a respeitar os velhos. Mas ele tem interesse
em tratar os idosos como seres inferiores, e em convencê-los de sua
decadência. Irá aplicar-se em fazer sentir a seu pai as deficiências de
incapacidades deste, a fim de que o velho lhe ceda a direção dos negócios,
poupando-o dos conselhos e resignando-se a um papel passivo. Se a
pressão da opinião o obriga a assistir seus velhos pais, ele pretende
governá-los a seu modo: terá tanto menos escrúpulos quanto mais os julgar
incapazes de tomarem conta de si próprios. (BEAUVOIR, 1990, p. 268).
Baseado nisso, pode-se afirmar que muitas vezes a família assume uma
postura preconceituosa, tornando-se indiferente às potencialidades do idoso e, sob
pretexto de protegê-lo, deprecia-o, dando destaque às limitações, que às vezes
ainda não se manifestaram. Assim, conseguem de forma ditatorial manipulá-los e
convencê-los a abandonar suas funções de costume, tornando-os indivíduos
totalmente inertes. No entanto, salienta-se que o respeito às diferenças e a
valorização do indivíduo são fatores essenciais a uma convivência salubre.
Uma família estruturada pode proporcionar ao idoso um espaço social menos
competitivo, menos agressivo e mais adequado às suas necessidades, um meio
favorável para manter a identidade pessoal e evitar os perigos do meio ambiente,
uma atmosfera que dê significado às suas vidas, ao atribuir ao idoso seu papel na
transmissão dos valores familiares e propiciar a valorização dele pelos membros das
jovens gerações. As relações intergeracionais são solidárias e garantem ajuda em
momentos críticos, quando se percebe a necessidade da compensação entre
gerações e se educam os jovens para praticá-la, impulsiona-se a integração entre as
diferentes idades e a redução dos conflitos sociais (MORAGAS, 2004).
Quanto ao apoio às necessidades fisiológicas, a participação da família em
atividades como alimentação são um diferencial, a refeição em família, por exemplo,
eleva a qualidade dessas atividades. A convivência do idoso numa família possibilita
dietas melhor balanceadas, pouco frequentes quando ele mora sozinho. A relação
do idoso com a família propicia saúde física, devido ao controle e à qualidade da
alimentação. Outro aspecto importante é a inviabilidade da vida independente de
indivíduos idosos por gerar elevados custos econômicos e ser pouco aconselhável
do ponto de vista físico e psíquico (MORAGAS, 2004).
No que se refere à questão econômica, diferentes cenários podem ser
observados. Salienta-se que o idoso, em resposta aos processos limitativos
resultantes da idade, requer maior número de medicamentos, alimentação e outros
cuidados. Em algumas famílias o que se apresenta é que os filhos constituem, em
26
caso de necessidade, a principal parte da ajuda econômica aos idosos. No entanto,
muitos idosos convivem em uma estrutura familiar que dispõe de recursos
financeiros escassos, participando do núcleo familiar como principal provedor. Com
isso, a necessidade de amparar parentes desempregados ou doentes compromete,
por exemplo, os custos com os cuidados de sua saúde (IBGE, 2008).
Quanto aos cuidados de saúde, a família é um intermediário útil na procura de
recursos, visto que o indivíduo idoso pode apresentar dificuldades na compreensão
dos atuais sistemas de saúde, que se mostram cada vez mais complexos
(MORAGAS, 2004). Além disso, muitos idosos apresentam doenças crônicas diante
das quais a atenção prestada pelos familiares a certas funções – como auxílio na
administração medicamentosa, incentivo à adequação alimentar e vigilância de
intercorrências – pode impactar positivamente na saúde.
Ainda sobre condições de saúde, salienta-se que um elevado número de
idosos apresenta limitações importantes, necessitando de auxílio para a realização
de atividades complexas, como realizar compras, atender telefone, utilizar transporte
público, ou mesmo para a realização de necessidades básicas e de autocuidado,
como banhar-se, vestir-se, alimentar-se e mobilizar-se.
Acerca desse aspecto, Montezuma, Freitas e Monteiro (2008) destacam que a
família encontra grande dificuldade para definir quem será o cuidador do idoso
dependente, visto que tal papel está relacionado à disponibilidade de tempo e boa
vontade para assumir as tarefas, que são muito pesadas e exigentes, mudam
drasticamente a rotina e provocam excessivo desgaste físico e mental. Nesse
contexto, a função de cuidador, na maioria das vezes, surge como uma obrigação,
relacionada aos fortes laços familiares e à gratidão pela dedicação dos pais durante
toda a vida. Sobre essa função, observa-se a influência cultural e de gênero, pois,
apesar das mudanças na divisão sexual dos papéis sociais, o que predomina é que
as mulheres assumem o papel de cuidadora dos idosos doentes, enquanto os
homens se responsabilizam pela tomada de decisões e pelo apoio financeiro
(MORAGAS, 2004).
Ainda sobre a capacidade familiar de prestar cuidados, destaca-se que,
quando existe com um cenário de disfuncionalidade, as famílias podem ter a sua
habilidade assistencial prejudicada e não conseguir prover o atendimento das
necessidades, resultando em interferência na independência, autonomia e qualidade
de vida dos idosos. A diminuição da renda e a falta de acesso à assistência médica,
27
falta de moradia, violência e a presença de doenças agudas ou crônicas são alguns
dos problemas enfrentados pelas famílias atuais.
Além disso, na família moderna desponta a problemática da escassez de
espaço e de tempo. Geralmente os membros adultos têm diversos afazeres
relacionados ao trabalho e ao estudo, estando a maior parte do tempo fora de casa
por força de seus compromissos, o que pode resultar em prejuízos na assistência
familiar, mesmo aos idosos residentes com filhos e netos (ZIMERMAM, 2000).
Vale salientar que aspectos como número de filhos, viuvez, separações,
migrações, condições sociais e de saúde, os diferentes tipos de arranjos familiares e
a qualidade dos laços estabelecidos entre os membros da família são fatores que
podem colocar o idoso, do ponto de vista emocional e material, em situação de
segurança ou de vulnerabilidade (CAMARGOS; RODRIGUES; MACHADO, 2011).
No entanto, para os idosos que não podem contar com a ajuda informal, resta
como principal alternativa a institucionalização, visto que existe uma carência por
parte do Estado na oferta de programas formais que prestem assistência aos idosos
que não possuem auxílio da família ou recursos financeiros e necessitam de apoio
(CAMARGOS; RODRIGUES; MACHADO, 2011).
28
4 INSTITUIÇÃO DE LONGA PERMANÊNCIA (ILP)
O fenômeno do envelhecimento populacional tem gerado grandes desafios
aos governos, família e sociedade em geral, principalmente quando se questiona:
“Quem cuidará dos idosos?”. Mediante as novas demandas por cuidado, o
fenômeno da institucionalização tem aumentado nas últimas décadas.
4.1 Breve histórico da institucionalização de idosos
As instituições de longa permanência que abrigam idosos são “instituições
governamentais ou não governamentais, de caráter residencial, destinadas ao
domicílio coletivo de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, com ou sem
suporte familiar, em condição de liberdade, dignidade e cidadania” (BRASIL, 2005).
O surgimento destas instituições teve início, por volta do século V da era
cristã. A literatura registra que o primeiro asilo foi fundado na Inglaterra pelo papa
Pelagio II, que transformou sua casa em um hospital para velhos. No Brasil, as
primeiras casas de apoio surgiram no final do século XIX, com o intuito de abrigar
soldados velhos que haviam prestado serviço à pátria. Antes da existência das
casas de acolhimento, os idosos sem apoio familiar eram obrigados a viver nas ruas
junto a pessoas com diversos perfis: mendigos, doentes mentais, crianças
abandonadas, desempregados. Com o intuito de resolver esse problema social, foi
fundado em 1890 o asilo São Luiz, primeira instituição com a finalidade de acolher
exclusivamente idosos (ARAÚJO, SOUZA E FARO, 2006).
Segundo Groisman (1999), o asilo São Luiz foi uma instituição particular e
possuía os objetivos de receber idosos de ambos os sexos, sem distinção de cor ou
nacionalidade e comprovadamente desamparados. A eles ofereciam casa, sustento,
vestuário, médico e farmácia, e, em caso de morte, um decente sepultamento. Nas
primeiras décadas do século XX, esse asilo tornou-se uma instituição beneficente
modelo, alcançando uma relevante visibilidade social. Porém, a criação de quartos
particulares para velhos que não eram desamparados modifica o aspecto filantrópico
da institucionalização da velhice e o transforma também em uma fonte de lucro.
Pestana e Santos (2008) afirmam que foi principalmente a partir da década de 1980
que se pôde ver um crescente número de instituições de prestação de serviços com
o objetivo de prover aos idosos cuidados integrais à saúde.
A residência de idosos em instituições de longa permanência (ILPs) no
Brasil não é tida como um ato comum. Um estudo das características das
instituições de longa permanência na região Nordeste, realizado pelo IBGE no ano
29
2000, identificou 103 mil idosos em condições de residência em domicílios coletivos,
o que representa aproximadamente 0,8% da população idosa. No Nordeste, essa
porcentagem é bem menor, em torno de 0,3%. No Ceará apenas 0,1% dos idosos
residem em ILPs, sendo que são considerados domicílios coletivos pelo IBGE
conventos, presídios, hotéis e hospitais.
O mesmo estudo relatou que no Nordeste grande parte das ILPs são
privadas/filantrópicas: 81,4%, as quais se dividem entre filantrópicas religiosas, que
são mais da metade, e as legais. Há também um pequeno número de instituições
privadas com fins lucrativos (12,6%) e uma minoria pública (6,0%). No Ceará, esse
dado é ainda mais crítico, pois apenas 7,6% dos municípios possuem ILPs; ao todo
são cerca de 30 instituições, a maioria localizada em Fortaleza (10) e em Juazeiro
do Norte (7).
O baixo número de idosos nas instituições de longa permanência se dá por
diversos fatores, dentre eles a pequena quantidade de instituições, altos custos e
preconceitos ligados ao fato de que os idosos atualmente preferem ser cuidados
pelas famílias (IPEA, 2008).
Embora não seja elevada a quantidade de idosos morando em instituições de
longa permanência, a demanda pela institucionalização do idoso tende a crescer,
como resultado da mudança no perfil demográfico, da situação de pobreza em que
vive grande parte da população e das modificações na estrutura familiar, que se
apresenta com menor número de membros e aumento na quantidade de idosos de
sua composição. Nesse contexto, os membros mais velhos e frágeis apresentam
maior longevidade, significando uma convivência familiar intergeracional mais
prolongada, o que gera a necessidade de se rever o suporte familiar disponível ao
idoso, visto que esse apoio pode ficar limitado (SANTOS; PAIVA; BARHAM, 2011).
Para Araújo, Paúl e Martins (2011), a família é, sem dúvida, uma estrutura
essencial de apoio. É a primeira unidade social onde a pessoa se insere, e a
primeira instituição que contribuiu para o desenvolvimento e a socialização, sendo
uma realidade de chegada, permanência e partida do ser humano. No entanto, nem
todas as famílias possuem condições psicossociais e econômicas de prestar
cuidados adequados ao seu idoso (ALCÂNTARA, 2004). Diante disso, a instituição
de longa permanência adquire caráter protetor, pois exerce o papel da família em
atender as necessidades dos idosos, supre a falta de programas voltados à sua
30
permanência na comunidade e no seio familiar e propõe a política nacional do idoso
(VON SIMSOM; NERI; CACHIONE, 2006).
A partir do que foi dito, percebe-se que o atendimento a idosos em instituições
em sua maioria é voltado às classes mais carentes e ainda jovens da população
idosa. A procura pelas ILPs é realizada não só por idosos com dependência que
necessitam de cuidados especiais, mas também por idosos jovens com faixa etária
de 60 a 65 anos que foram afastados do mercado de trabalho e da convivência
familiar (VON SIMSOM; NERI; CACHIONE, 2006).
4.2. Critérios mínimos para o funcionamento das ILPs
Os aspectos estruturais e funcionais das ILPs são problemáticos e merecem
atenção. As deficiências da estrutura dessas instituições já eram citadas em 1970
por Beauvoir, que, em seu livro A velhice, descreve os asilos como estruturas
antigas que dificultavam a mobilidade do idoso por possuírem, em sua maioria,
inúmeras escadas, cômodos antigos e sombrios, além de armários coletivos. Nessas
instituições, oferecia-se a mesma refeição para todos os moradores, não existindo
regimes apropriados para cada um, e havia precariedade de atendimento médico,
visto que havia apenas um médico disponível para atender a todos os internos.
Em contrapartida às deficiências estruturofuncionais das ILPs, o poder público
criou documentos específicos para normatização delas, como a resolução n° 283 de
26 de setembro de 2005, que determina critérios mínimos necessários às
instituições de longa permanência para idosos. Dentre eles, estão a posse de alvará
sanitário atualizado expedido pelo órgão competente e a comprovação da inscrição
de seu programa junto ao Conselho do Idoso.
Dentre as exigências estruturais contidas nessa resolução, pode-se citar a
construção de instalações físicas com condições adequadas de habitação, higiene,
salubridade, segurança e garantia de acessibilidade a todas as pessoas com
dificuldade de locomoção e de instalações prediais de água, esgoto, energia elétrica,
telefonia e outras existentes de acordo com as exigências locais para obras e com
as normas técnicas brasileiras. Também aponta, de forma bem específica, o padrão
para ambientes utilizados para atividades individuais e qual o mínimo de ambientes
destinados a atividades coletivas:
4.7.7 - A Instituição deve possuir os seguintes ambientes:
4.7.7.1 Dormitórios separados por sexos, para no máximo 4 pessoas,
dotados de banheiro.
a) Os dormitórios de 01 pessoa devem possuir área mínima de 7,50 m²,
incluindo área para guarda de roupas e pertences do residente.
31
b) Os dormitórios de 02 a 04 pessoas devem possuir área mínima de 5,50 m² por
cama, incluindo área para guarda de roupas e pertences dos residentes.
c) Devem ser dotados de luz de vigília e campainha de alarme.
d) Deve ser prevista uma distância mínima de 0,80 m entre duas camas e
0,50 m entre a lateral da cama e a parede paralela.
e) O banheiro deve possuir área mínima de 3,60 m², com 1 bacia, 1
lavatório e 1 chuveiro, não sendo permitido qualquer desnível em forma de
degrau para conter a água, nem o uso de revestimentos que produzam
brilhos e reflexos.
4.7.7.2 Áreas para o desenvolvimento das atividades voltadas aos
residentes com graus de dependência I, II e que atendam ao seguinte
padrão:
a) Sala para atividades coletivas para no máximo 15 residentes, com área
mínima de 1,0 m² por pessoa
b) Sala de convivência com área mínima de 1,3 m² por pessoa
4.7.7.3 Sala para atividades de apoio individual e sociofamiliar com área
mínima de 9,0 m².
[...]
4.7.7.5 - Espaço ecumênico e/ou para meditação
4.7.7.6 - Sala administrativa/reunião
4.7.7.7 - Refeitório com área mínima de 1m² por usuário, acrescido de local
para guarda de lanches, de lavatório para higienização das mãos e luz de
vigília.
[...]
Resumindo, a instituição deve apresentar uma infraestrutura física que facilite
o acesso e a movimentação dos residentes, proporcione prevenção de acidentes e
redução dos riscos à saúde dos idosos e permita a socialização, assim como a
manutenção da individualidade e da privacidade.
Quanto aos serviços prestados, o Ministério do Desenvolvimento Social
(MDS), que é o órgão responsável pela política federal para as ILPIs, determina que
as instituições devem oferecer serviços na área social, psicológica, médica,
odontológica, de enfermagem, nutricional, farmacêutica, atividades de lazer
atividades de reabilitação física, apoio jurídico e administrativo (IPEA, 2008).
Destaca-se ainda que as instituições devem realizar atividades de educação
permanente na área de gerontologia, com intuito de aprimorar tecnicamente os
recursos humanos envolvidos na prestação de serviços aos idosos (BRASIL, 2005).
No que se refere ao exercício da cidadania, a instituição deve assegurar os
direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e individuais; respeitar a
liberdade de credo e o direito de ir e vir; preservar a identidade e a privacidade do
idoso, garantindo um ambiente de respeito, dignidade e acolhedor, que permita a
convivência e a integração dos idosos, favoreça o desenvolvimento de atividades
conjuntas com pessoas de outras gerações, incentive e promova a participação da
família e da comunidade na atenção, desenvolva atividades que estimulem a
32
autonomia, promova condições de lazer e realize atividades e rotinas para prevenir e
coibir qualquer tipo de violência e discriminação contra pessoas nela residentes
(BRASIL, 2005).
Ainda sobre a manutenção do direito dos idosos institucionalizados, pode-se
citar o Estatuto Nacional do Idoso (2004), que traz no seu capítulo II, artigo 49, o
seguinte:
Art. 49 As entidades que desenvolvem programas de institucionalização de
longa permanência adotarão os seguintes princípios:
I. Preservação dos vínculos familiares;
II. Atendimento personalizado e em pequenos grupos;
III. Manutenção do idoso na mesma instituição, salvo em caso de força
maior;
IV. Participação do idoso nas atividades comunitárias, de caráter interno e
externo;
V. Observância dos direitos e garantia dos idosos;
Enfim, perpassando as características dispostas no arcabouço legal, existe a
expectativa de que as ILPIs lembrem um lar e ofereçam suporte semelhante ao
encontrado na vida em família, que visa à promoção, recuperação e manutenção da
autonomia do idoso, além do estabelecimento e da manutenção dos vínculos
afetivos sociais e familiares.
Vieira destaca três tipos de estabelecimentos expostos pela portaria
SAS73/2001 que prestam assistência à terceira idade.
1. A instituição criada para idosos dependentes e independentes na
execução de suas AVDs.
2. A instituição destinada a idosos dependentes e independentes que
necessitam de auxílio e de cuidados especializados.
3. A instituição destinada a idosos dependentes e que precisam de
assistência integral.
Embora existam vários documentos que tentam definir e classificar esses
estabelecimentos, a diferenciação e classificação parecem estar, em todos os casos,
diretamente relacionadas ao tipo de paciente que eles atendem e às suas
necessidades. O que se pretende é adequar a assistência à necessidade do idoso,
evitando o desperdício e a ociosidade de recursos materiais e humanos disponíveis
na instituição. (VIEIRA, 2004, p.178).
33
5
PERCURSO METODOLÓGICO
O presente capítulo refere-se ao delineamento do estudo na instituição. Trata-
se de pesquisa de abordagem qualitativa. A abordagem qualitativa acontece quando
o interesse não está focalizado em contar o número de vezes em que uma variável
aparece, mas sim que qualidade elas apresentam (LEOPARDI, 2001).
Para obtenção dos dados, utilizou-se a pesquisa de campo, que é definida por
Gil (2002) como um estudo de cunho empírico que se realiza em determinado local,
com o intuito de investigar uma dada realidade, em que, através de observações,
entrevistas ou questionários, obtém-se suporte para captar elementos que possam
explicar o fenômeno em questão. Sobre essa modalidade de pesquisa, Severino
(2014) afirma:
Na pesquisa de campo, o objeto/fonte é abordado em seu meio ambiente,
próprio. A coleta dos dados é feita nas condições naturais em que os
fenômenos ocorrem, sendo assim diretamente observados, sem intervenção
e manuseio por parte do pesquisador. Abrange desde os levantamentos
(surveys), que são mais descritivos, até estudos mais analíticos.
5.1 O lócus da pesquisa
A pesquisa de campo foi realizada no Recanto do Sagrado Coração de Jesus,
em Fortaleza-CE, uma associação civil e religiosa, de direito privado, de caráter
formativo e assistencial, sem fins lucrativos, fundada em 02 de setembro de 1917,
sediada na Avenida da Universidade, 3106, Benfica, Fortaleza-CE, inscrita no CNPJ
07.370.422/0001-06.
A instituição mantém o seu caráter beneficente, procurando resgatar a
dignidade da pessoa humana, através da promoção integral, visto que a sua
atividade social tem sido sempre de acordo com as demandas dos mais
necessitados. Numa trajetória de mais de oito décadas de serviços em favor dos
pobres, o Dispensário já prestou diferentes modalidades de serviço no limiar de sua
história, sob a direção das Senhoras Católicas, assistindo a velhice abandonada,
através de visitas domiciliares e da distribuição de víveres e remédios. No final da
década de 1920, as Filhas da Caridade assumiram as obras sociais do Dispensário,
dando continuidade à ação caritativa, levando às famílias não só ajudas materiais,
mas o conforto de sua presença amiga e da palavra orientadora para suas vidas.
A estrutura organizacional do Recanto do Sagrado Coração de Jesus em
Fortaleza contempla quatro áreas: social, saúde, nutrição e gestão. A equipe
multiprofissional é composta por assistente social, educador físico, enfermeiro,
34
psicólogo e terapeuta ocupacional, além dos profissionais auxiliares que se
distribuem entre os diversos serviços, como segurança, limpeza, alimentação, entre
outros serviços gerais.
A estrutura física da instituição é ampla com salas apropriadas para os
profissionais, espaços de convivência para a realização de atividades coletivas,
capela, cozinha, refeitório, lavanderia, além de alas residenciais nas quais localizamse os quartos, sendo que cada moradora reside em quarto particular com banheiro.
Atualmente a instituição promove o desenvolvimento humano através de
ações de caridade e assistenciais para a velhice desamparada e a população que
vive nas ruas. Para isso realiza trabalhos com pessoas em situação de rua através
do Projeto Globalização da Caridade com o objetivo de proporcionar, no período da
manhã, atendimento a 130 (cento e trinta) beneficiários, oferecendo local para
banho, lavanderia, oficinas profissionalizantes, alimentação material e espiritual.
Também desenvolve o Projeto A Arte de Envelhecer, que proporciona moradia com
qualidade de vida a mulheres na faixa etária acima de 60 anos.
A população do estudo foi constituída por todas as idosas residentes na
instituição, que se enquadravam nos critérios de inclusão. Utilizou-se para a
categorização de idoso o critério adotado pelo art. 2º da Lei nº 8.842/94, que
considera idosa a pessoa com 60 anos ou mais.
Foram estabelecidos como critérios de inclusão no estudo: ter idade igual ou
superior a 60 anos, ser residente em regime de internamento na instituição por um
período superior a um ano, possuir parentes vivos, não possuir limitações que
impossibilitem a comunicação verbal, aceitar participar da pesquisa mediante
assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (ANEXO 1).
Foram critérios de exclusão: ter idade menor de 60 anos, ser portador de
alterações que comprometam a comunicação verbal, recusar-se a assinar o termo
de consentimento livre e esclarecido.
Durante o período de entrevista, residiam na instituição 30 idosas; destas, oito
apresentavam déficit cognitivo que impossibilitava a comunicação, quatro não
possuíam familiares vivos, doze recusaram-se a participar da pesquisa. A amostra
final foi composta por seis idosas (FIGURA 1).
35
Figura 1 Composição da amostra da pesquisa.
O período de coleta de dados ocorreu durante os meses de maio e junho de
2014. Ela aconteceu em oito visitas à instituição. A primeira visita foi de
reconhecimento, momento no qual a direção da instituição foi contatada, autorizando
a pesquisa e informando quais as idosas que se adequavam nos critérios
estabelecidos. Nessa mesma data, ficou acordado com a assistente social que nas
duas visitas seguintes o pesquisador seria inserido nas atividades sociais de rotina
com o intuito de promover a familiarização com as idosas; somente após esses
encontros iniciais as entrevistas seriam realizadas. Esse primeiro processo facilitou
muito na captação dos idosos.
Para a execução investigativa, utilizou-se de entrevista semiestruturada
(ANEXO 2) que abordou as variáveis de identificação (nome, idade, sexo,
escolaridade); sociais (número de filhos, renda familiar, situação conjugal) e nove
perguntas abertas relacionadas à temática sob estudo.
Todas as entrevistas foram gravadas e posteriormente ouvidas e transcritas
(FIGURA 2). Os dados foram analisados a partir do método de análise de conteúdo,
que consiste em um conjunto de técnicas que busca compreender criticamente o
significado aberto ou oculto das mensagens, envolvendo, assim, a análise do
conteúdo dos discursos, os enunciados das falas, a busca do sentido das
mensagens, a linguagem, a expressão verbal e os enunciados, que são encarados
como indicadores significativos necessários à compreensão dos problemas ligados
as práticas humanas e a seus componentes psicossociais (SEVERINO, 2014).
36
Gravador
Figura 2. Entrevista à idosa.
5.2 Caracterização dos participantes da pesquisa
IDOSA 1
Nascida em Massapê/CE, tem 89 anos, é viúva tem Ensino Médio completo,
é aposentada e trabalhava como costureira, nunca teve filhos, está há 05 anos na
instituição.
IDOSA 2
Nascida em Massapê/CE, tem 81 anos, é viúva, tem Ensino Médio completo,
é aposentada, trabalhava como secretária, está há 07 anos na instituição. Tinha
apenas um filho, que faleceu há quatro anos.
IDOSA 3
Nasceu no Município de Quixadá/CE, tem 92 anos, viúva, tem Ensino
Fundamental Completo, era doméstica, é pensionista, nunca teve filhos, está há 11
anos na instituição.
IDOSA 4
Nasceu no estado de Pernambuco, tem 84 anos, solteira, nunca casou, tem
Ensino Superior completo, é aposentada como professora, tem uma filha adotiva,
está há 03 anos na instituição.
IDOSA 5
Nasceu em São Luís/MA, tem 83 anos, é divorciada, estudou até a quarta
série do Ensino Fundamental, é aposentada, tem uma filha, está há 05 anos na
instituição.
37
IDOSA 6
Nascida em Manaus, tem 71 anos, é solteira, nunca casou, está há 07 anos
na instituição, terminou o Ensino Médio, era professora de Inglês, é aposentada,
nunca teve filhos, tem um irmão.
38
6
RESULTADOS
Durante o período de coleta de dados, participaram da pesquisa 6 idosas que
residem no Recanto do Sagrado Coração de Jesus. A apresentação e a discussão
dos resultados foram organizadas em quatro etapas: Caracterização dos
participantes da pesquisa; Concepção de velhice; Por que institucionalizar?;
Relações familiares × idoso institucionalizado.
A investigação dos aspectos sociodemográficos permitiu o primeiro contato
com a realidade das idosas. Os dados obtidos nesse momento inicial constituem as
primeiras peças do quebra-cabeça que tentamos elucidar.
Apesar do enfoque qualitativo deste estudo, algumas informações obtidas
podem ser destacadas, dentre elas a predominância de idade superior a 80 anos,
que exemplifica o grande avanço da expectativa de vida dos brasileiros e o grau de
escolaridade das idosas, visto que elas possuem pelo menos quatro anos de estudo,
sendo que, no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio,
realizada em 2008 pelo IBGE, as taxas de analfabetismo dos idosos são alarmantes:
32,2% deles não sabiam ler e escrever; 51,7% tinham menos de 4 anos de estudo.
Pode-se considerar que, no cenário da institucionalização, o hábito de estudo
(leitura) torna-se um passatempo complementar, reduzindo a inatividade.
6.1 Concepção de velhice
A velhice é a fase da vida que vem após a maturidade e que traz consigo
efeitos específicos ao homem, como resultado do decorrer dos anos (VIEIRA, 2004).
Conversar sobre velhice desperta nos indivíduos sentimentos diversos, que vão
nortear a forma como se conceitua essa fase. Diante da pergunta “Qual seu
entendimento sobre velhice?”, pode-se categorizar diferentes definições:
IDOSA 06 – 71 anos, institucionalizada há 07 anos: Velhice é uma coisa
completamente natural; se você não morre quando novo, você vai morrer
depois de velho.
IDOSA 01 – 89 anos, institucionalizada há 05 anos: Eu não entendo por
nada, não me preocupo de ser velha não, que todo mundo fica velho [...]
ninguém quer ficar velho, mas fica com a passagem do tempo, os anos vão
passando e a gente vai chegando naquela vida de velhice. Quem não morre
nova pensa que não vai ficar velha, aí que fica velha mesmo.
IDOSA 04 – 84 anos, institucionalizada há 03 anos: A velhice é um dom de
Deus, a velhice é a passagem dos anos porque a gente não espera viver
tanto. Minha mãe viveu só 75 anos e minha irmã morreu com 38 anos.
Nas falas anteriores, pode-se verificar que as idosas percebem a velhice
como algo natural e inevitável; de fato, a única maneira de não ficar velho é morrer
antes, assim o envelhecimento é a continuidade da vida. Apesar disso, percebe-se
39
que, para o idoso, esse processo pode ser algo desafiador e causador de grande
insatisfação. É o que será observado nos relatos a seguir.
IDOSA 05 – 83 anos, institucionalizada há 05 anos: É a pior coisa, velhice a
gente tem que aceitar, agora a gente não pode se integrar porque tá velha,
já morreu.
IDOSA 01 – 89 anos, institucionalizada há 05 anos: Vocês pensam que vão
ficar toda vida novinha andando nas casas atrás disso e daquilo, vão nada,
vão pra lá, chega um dia que você não tem nem condição de sair de casa.
IDOSA 02 – 81 anos, institucionalizada há 07 anos: Eu não gosto de jeito
nenhum, a minha vida era muito boa, eu casei muito bem, vivia muito feliz,
todo mundo gostava de mim, minha vida mudou completamente, a velhice
eu não adoto, ser velho pra mim é morrer porque quem não morre novo de
velho não escapa, e eu já tou numa idade muito avançada, né? E eu fico
triste em ir praquele buraco.
Dentre as grandes contradições da velhice, destaca-se o fato de que muitas
pessoas desejam a longevidade, mas poucos desejam ser “velhos’’, por significar “o
que não tem mais uso por ser gasto pelo tempo”. Mas a grande problemática da
velhice não recai apenas sobre esse paradoxo, mas também sobre o binômio
saúde/doença. O dilema não é ser jovem ou velho, mas ser saudável ou doente,
autônomo ou não (VIEIRA, 2004).
Apesar das perdas enfrentadas com o avançar da idade, como prejuízo na
estética corporal e comprometimento da função dos sistemas (como visual, auditivo,
cardiovascular), é possível encarar a velhice de forma otimista. Nesse contexto, a
manutenção da autonomia é um aspecto indispensável.
IDOSA 03 – 92 anos, institucionalizada há 11 anos: Levo uma vida
maravilhosa de velho, graças a Deus ainda ando de ônibus sozinha, desço
do ônibus, as pessoas têm o maior orgulho de pegar na minha mão pra me
ajudar a atravessar a rua, só encontro gente boa. A vida de velho é
maravilhosa eu tenho saúde, durmo bem, me alimento bem, faço minhas
coisas, lavo meu banheiro, minhas roupa, às vezes faço minha comida
quando não me agrado com a daqui, eu não conto nada ruim da minha
velhice.
IDOSA 04 – 84 anos, institucionalizada há 03 anos: A gente nem sabe o
que dizer sobre a velhice, mas é um dom de Deus, é bom viver, viu? Mas
quando a gente luta pra fazer as coisas certas, é bom viver para fazer bem
aos outros, trabalhar, estudar.
IDOSA 05 – 83 anos, institucionalizada há 05 anos: Sinto-me bem em ser
uma mulher idosa, pois me cuido, cuido da minha saúde e do meu bemestar, estar em paz comigo mesma é mais importante que qualquer coisa, a
paz de espírito é tudo pra mim, me faz rejuvenescer por dentro [...], eu faço
tudo no meu quarto, eu que varro, eu que passo pano molhado, eu que lavo
o banheiro, eu que faço tudo.
Para uma velhice bem-sucedida, faz-se necessário manter uma boa saúde e
bom funcionamento físico, mental e social, fatores indispensáveis na qualidade de
vida. A perda da saúde no idoso pode ter diversos motivos, mas a imagem social
40
dominante sobre o processo de envelhecimento, muitas vezes, está distante da
realidade. O melhor é, ao longo da vida, desenvolver ações e atitudes que permitam
ao indivíduo desfrutar de uma velhice bem-sucedida, tanto do ponto de vista físico e
funcional como psicossocial (VIEIRA, 2004).
Park (2006) fala que o que se considera é a juventude da alma, a condição de
espírito que motiva e gera vontade de viver. Com essa visão moderna de terceira
idade, saúde não tem idade, todos passam a viver melhor, na confiança de que a
velhice não é algo assustador, sinônimo de doença e solidão. Velhice é o período
em que o homem se encontra de frente com a própria vida. Infelizmente alguns
desperdiçam o convívio com uma fonte tão rica de conhecimentos.
6.2 Por que institucionalizar?
Neste
momento
do
estudo,
despontam
as
questões
sobre
a
institucionalização, como quem optou por ela, além da percepção dos idosos acerca
da família, com quem os idosos residiam antes da institucionalização, e quais fatores
determinaram o ingresso do idoso no Recanto do Sagrado Coração de Jesus.
Para melhor compreensão do perfil das participantes, a tabela seguinte
resume os dados relacionados à constituição familiar, citados pelas idosas
entrevistadas (TABELA 1).
Tabela 1. Apresentação dos dados relacionados à constituição
familiar, citados pelas idosas institucionalizadas
Dados
Estado civil
Total de idosas (N)
Viúva
04
Solteira
02
Total de filhos
0
03
01
03
Familiares com quem
residiam antes da
institucionalização
Filhos casados
02
Cônjuges
03
Filhos solteiros
01
Dados colhidos pela pesquisadora Ester Barros Albuquerque.
41
De acordo com a tabela, observa-se que quatro das idosas são viúvas e duas
nunca se casaram; quanto ao número de filhos, três não tiveram filhos e três tiveram
apenas um. Antes da institucionalização, três idosas residiam com o cônjuge, uma
morava com a filha solteira e a neta, duas moravam com o(a) filho(a) casado(a) e
netos.
Sobre a institucionalização, a tabela 2 retrata resumidamente dados
fornecidos pelas entrevistadas.
Tabela 2. Dados relacionados à institucionalização das idosas
Dados
Quem decidiu pela institucionalização
Familiar
Próprio idoso
Tempo de institucionalização
1-5 anos
6-10 anos
> 10 anos
Total de idosas (N)
02
04
03
02
01
Dados colhidos pela pesquisadora Ester Barros Albuquerque.
Quem decidiu pela institucionalização foi o próprio idoso (04 idosas) ou sua
família (02 idosas). Três das participantes residem no abrigo de um a cinco anos,
duas de seis a dez anos e uma reside há mais de dez anos. Os motivos para o
afastamento do idoso do seio da família foram os mais diversos, conforme se
observa nos depoimentos a seguir.
Nota-se que a família nuclear construída pelas idosas ao longo da vida é
bastante reduzida. Sabe-se que o pequeno número de descendentes é um fator que
pode predispor à institucionalização, visto que muitas vezes o indivíduo do qual se
esperava o cuidado pode não dispor de tempo suficiente para assumir o papel de
cuidador.
Essa indisponibilidade de tempo torna-se um problema mais agravante
quando o idoso apresenta perdas funcionais, necessitando de atenção especial para
atividades rotineiras, pois pode gerar situações características de descaso e maustratos ao idoso, sendo necessária, como medida protetiva a transferência do idoso
para instituições de longa permanência. Um estudo realizado em uma ILPI em São
Paulo corrobora essa ideia, pois, em grande parte, a admissão ao asilo se deu pela
escassez do vínculo familiar (MARTINS et al., 2006).
IDOSA 04 – 84 anos, institucionalizada há 03 anos: Quem me trouxe pra cá
foi um padre que foi me visitar, viu meu estado, porque estava prostrada e
42
não me levantava, aí ele falou com minha filha, ela ficou contente porque
trabalhava e não podia cuidar de mim. As pessoas que ela arranjava eram
pessoas muito ruim, não me davam água, depois minha filha arranjou outra
que me banhava e dava de comer, ela ficou com pena de mim e falou com
um padre, ele viu minha situação, ficou com pena de mim e me trouxe pra
cá, minha filha ficou na expectativa de que quando pudesse me devolvesse,
mas agora tá dando problema porque o padre não quer que eu saia, a
assistente social quer falar com minha filha, mas ela não quer vir e eu acho
que ela não vai comparecer porque ela tá muito cansada de insistir que eu
voltasse porque ela deixava o emprego pra cuidar de mim. Eu não queria vir
pra cá, eu vim à força porque era o jeito.
A temática institucionalização do idoso remete a preconceitos, como local
para depósito de velhos ou local para esperar a morte chegar. Essa afirmativa se
torna mais intensa quando a decisão pela institucionalização é tomada pela família
do idoso, já que mais da metade dos idosos encontrados em situação de
institucionalização estão ali por decisão da família no contexto de que no asilo teriam
melhor assistência médica, mas sempre com a promessa de que em breve voltariam
para casa (ALCÂNTARA, 2004).
Destaca-se que, ao mesmo tempo que a família pode ser considerada o lócus
do amor e compreensão, pode tornar-se um local de grandes conflitos. Vale salientar
que geralmente no âmago da família caem as máscaras e convenções sociais,
podendo
predominar,
entre
parentes
próximos,
um
tratamento
grosseiro,
desrespeitoso e até violento. Assim, o seio familiar, que era pra ser um local de
proteção, pode tornar-se inseguro à convivência do idoso.
IDOSA02 – 81 anos, institucionalizada há 07 anos: Meu filho me trouxe pra
cá, antes eu morava com ele, ele casou e me levou pra casa dele, só que
não deu certo, porque a mulher dele não me queria lá [...], nós brigava
muito, teve um dia que ela chegou até a me empurrar, aí meu filho viu eu
sofrendo por causa dela e me trouxe pra cá [...]. Ele mesmo dizia,: “Mãe, eu
vou trazer a senhora pra cá porque essa mulher que eu casei não presta”.
Através desse discurso, podemos observar claramente o que foi citado por
Beauvoir (1990) em relação à família e aos seus idosos, de que, quando há uma
relação de afeto entre os pais e os filhos, estes serão prováveis cuidadores daqueles
na velhice, no entanto a influência ou imposição (direta ou indireta) dos cônjuges
poderá limitar a dedicação para com os pais.
A impossibilidade de residir sozinho, quer por problemas econômicos, quer
por problemas de saúde, também foram apontados como motivo para a
institucionalização:
IDOSA 01 – 89 anos, institucionalizada há 05 anos: A morte da minha mãe
e do meu marido, primeiro morreu minha mãe, depois meu marido, aí não
deu pra ficar morando sozinha porque eu não conseguia pagar aluguel,
energia sozinha, aí eu resolvi vir pra cá, meu irmão me trouxe.
43
IDOSA 03 – 92 anos, institucionalizada há 11 anos: A decisão de vir pra cá
foi minha porque eu vi que não podia mais pagar a casa, água, luz e
comida, ainda morei uns dias com a sobrinha do meu marido, mas viver na
casa dos outros não quero não, por isso vim pra cá.
IDOSA 05 – 83 anos, institucionalizada há 05 anos: Foi minha, foi de livre e
espontânea vontade porque eu acho que o casal deve morar só, minha filha
já morou comigo muito tempo quando ela teve os meninos, ela tinha a casa
dela, aí quando ela foi ter o mais velho, ela foi morar comigo, só como eu
vim pra Fortaleza e ela ficou em São Luís, vim pra cá, porque eu não queria
morar sozinha.
IDOSA 06 – 71 anos, institucionalizada há 07 anos: Foi minha mesmo, eu
conheci e vim pra cá, por causa da minha condição financeira não dava pra
eu ficar morando na minha casa, que era muito grande e eu não podia
pagar água, luz, imposto, empregado, não dava pra eu sustentar isso tudo,
aí eu vim pra cá, que é mais barato, é bom, ainda bem que encontrei aqui,
foi Deus que me guiou.
Apesar do estigma relacionado à institucionalização, observa-se nos
depoimentos anteriores que as participantes foram ao abrigo de idosos
voluntariamente, confirmando o discurso de Freitas e Noronha (2010), que diz que,
apesar da conceituação negativa, os estigmas vêm aos poucos sendo quebrados e
o perfil do idoso institucionalizado se modifica. Atualmente, encontram-se idosos que
estão nas instituições por falta de escolha ou por vontade própria, pois, embora
tenham família, resolveram ir para uma instituição por diversos motivos, como ser
viúvo, não ter filhos, preferir ser independente em lugar de incomodar os filhos e
netos, maus tratos familiares, entre outros.
Segundo Scharfstein (2006), pessoas que decidem viver em uma instituição
são pessoas que perderam ou nunca tiveram familiares próximos, não têm renda
fixa ou autonomia física e mental para administrar a sua vida, ou podem também
considerar que a instituição representa uma alternativa de amparo, proteção e
segurança.
No entanto, a institucionalização leva os idosos a ter uma vida reprimida,
levando a uma extinção da sua identidade, pois o ambiente institucional faz com que
o idoso perca o controle de sua vida, predominando uma adaptação às normas,
incluindo horários para deitar, levantar e alimentar-se, uso de uniformes, além de ter
sua privacidade violada na aceitação de dividir o quarto com pessoas estranhas
(ALCÂNTARA, 2004).
No estudo de MARTINS et al., 2006, alguns idosos colocam a instituição
como um local muito hostil para se viver, e evidenciaram intensa angústia por
estarem longe de suas casas e filhos, além de não conseguirem formar vínculos
44
com outros moradores da instituição, que se encontram na mesma condição que
eles.
IDOSA03 – 92 anos, institucionalizada há 11anos: Eu não gosto das
atividades daqui, elas quase sempre se reúnem no pátio, mas eu não vou
pra lá, eu acho uma perca de tempo, fico é aqui ajeitando as minhas coisas
lavando meu banheiro, e minha roupa, tem uma mulher que lava as roupa,
aqui só que eu não gosto do jeito que ela lava, não acho que fica bem
lavada [...]. Às vezes a mulher da cozinha faz umas carnes lá de um jeito...
eu não gosto.
Vale lembrar que os idosos são indivíduos que construíram ao longo da vida
um modo específico de realizar suas atividades diárias e de passar o tempo,
apresentando-se diversas vezes muito resistentes a mudanças na rotina. Tal
resistência é exemplificada na insatisfação relatada pela idosa em relação às
atividades grupais desenvolvidas, a forma como o serviço de lavanderia é
executado, entre outros.
Além do aspecto da despersonificação, a institucionalização também pode
gerar impactos na saúde dos idosos. Para alguns deles, a quebra das relações
sociais gera uma fragilidade que resulta em depressão e solidão, que adiantam o fim
da vida. Um estudo apontou que, dentre 174 pessoas que faleceram em uma
instituição, metade morreu antes de um ano de internação, um percentual de 19%
morreu em menos de um mês de internação e outros 21% tinham entre um e seis
meses. Apesar de alguns já estarem em fase terminal, outros morreram porque se
tornaram deprimidos ao chegarem na ILP (ALCÂNTARA, 2004).
IDOSA 02 – 81 anos, institucionalizada há 07 anos: Eu já amanheço o dia
com uma tristeza, minha filha, fico aqui tão isolada, no meio dos estranhos,
tão fora do que eu era, é bom quando tem algum movimento, alguma coisa,
porque passa rápido o dia, as meninas vêm me chamar pra participar, eu
vou.
IDOSA 03 – 92 anos, institucionalizada há 11 anos: Na minha vida tudo
mudou pra solidão. A vida que eu tinha com meu filho e com meu marido do
meu lado, eu tinha empregada, vivia num ambiente bom, muitos amigos,
hoje não, a cada dia fico mais solitária.
Apesar de as idosas entrevistadas não contribuírem com a estatística de
mortalidade citada no parágrafo anterior, elas retratam claramente o fenômeno do
isolamento e da solidão relacionados com a institucionalização; parece que o
sentimento de indivíduo com importância social ficou restrito ao passado.
Para alguns idosos, principalmente os colocados contra a vontade, a chegada
à casa de repouso torna-se traumática. A tristeza por estarem sozinhos e distantes
da vida que construíram, de seus objetos pessoais, como casa, móveis e pequenas
45
recordações construídas com o tempo, é frequente. Além disso, muitos acabam aos
poucos perdendo vínculos com a família, que passa a visitá-los com menos
frequência. O turbilhão de sentimentos negativos advindos do fato de não serem
cuidados de perto pela sua família é comum, e outros referem-se aos intensos
sentimentos de dor ocasionados pelo desinteresse da família em tê-los próximos.
No entanto existem diversas maneiras de se enfrentar a mesma situação.
Mesmo estando distantes da família, o discurso de algumas idosas aponta
predominantemente aspectos positivos, evidenciando uma boa adaptação e
enfrentamento adequado da institucionalização.
IDOSA 05 – 83 anos, institucionalizada há 05 anos: Aqui é ótimo, foi a
melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida. [...] Eu acho muito
bom, foi a melhor coisa que aconteceu porque muitos velhos estão
abandonados aí no meio da rua e eu achei um amparo aqui com as irmãs
de caridade, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, foi uma coisa de
Deus, foi por causa de uma carteira de identidade que eu fui tirar ali, eu
passei por aqui e conheci, foi um milagre de Deus, eu nem esperava, aí eu
vim pra cá. Isso foi dois meses depois que minha mãe faleceu.
Alguns idosos encaram a casa de repouso como um local no qual têm a
possibilidade de ter contatos com outras pessoas, ter apoio médico e emocional.
Para essas idosas, as atividades desenvolvidas na instituição são momentos
prazerosos, de muita interação, além de diminuírem a ociosidade.
IDOSA 02 – 81 anos, institucionalizada há 07 anos: Eu gosto de participar
das atividades daqui, não perco um, aí elas me ligam e perguntam eu posso
ir hoje aí eu falo não porque vai ter uma atividade hoje [...]. Todas as
atividades que tem aqui eu participo, as meninas que fazem as atividades
vêm me chamar aqui no meu quarto porque elas sabem que eu gosto, e
todas elas gostam de mim, tenho até foto com elas.
As atividades que são desenvolvidas na instituição têm um papel muito
importante, pois ocupam o dia a dia dos idosos e estimulam os vínculos, além disso
podem minimizar o sofrimento causado pela ausência de família e ajudar a
melhorar-lhes a vida (MARTINS et al., 2006).
Após a abordagem sobre institucionalização, questionou-se às idosas sobre o
que elas pensam acerca de família. Vale salientar que nesse estudo foi
compreendido por família a instituição composta por companheiro, filhos, netos ou
parentes – irmãos, tios e sobrinhos (HEREDIA et al., 2004).
Através das respostas, observa-se que elas destacaram diferentes aspectos
intrínsecos à relação familiar, dentre eles o amor e a importância da união e da boa
convivência. Rissardo et al. (2011) afirma que, para os idosos, o mais importante é a
46
família viver unida – algo insignificante para muitos, mas de extrema relevância para
essa população, muitas vezes privada do afeto familiar.
Idosa 01 – 89 anos, institucionalizada há 05 anos: Família é uma pessoa
que a gente ama... e a gente tem aquela coisa sabe... que tem família, uma
necessidade de uma convivência boa com a família e vai e é assim.
Idosa 02 – 81 anos, institucionalizada há 07 anos: Família serve porque um
dia a gente precisa deles né, mas aqui eu tenho minha acompanhante que
faz tudo por mim, me dá tudo que eu preciso, meus remédios na hora certa.
Família é um conforto.
IDOSA 03 – 92 anos, institucionalizada há 11 anos: A família unida é a
coisa mais importante do mundo, família é muito importante.
IDOSA 04 – 84 anos, institucionalizada há 03 anos: Família é bom em umas
partes em outras nem serve né, porque às vezes é muito difícil. É bom
quando se ama quando a gente ama é bom. Família é pra se ajudar um ao
outro.
IDOSA 05 – 83 anos, institucionalizada há 05 anos: Pra mim família é tudo.
Em uma análise mais aprofundada, observam-se ainda citações sobre a
relação de ajuda mútua atribuída à instituição familiar. Sem dúvida, diante da família,
o
indivíduo
assume
suas
dificuldades
econômicas,
de
relacionamento
e
principalmente as ligadas ao processo saúde-doença, e, como resposta, aguarda o
suprimento de suas necessidades.
Sobre esse aspecto, Moragas (2004) afirma que, de forma geral, o que
importa para os idosos é o potencial de relação e ajuda, a certeza de que existe
alguém que, em momentos de necessidade, quer física, psíquica, econômica ou
social, proporcionará o apoio solicitado de forma concreta e resolutiva. Essa pessoa
é o responsável ou cuidador principal, a quem, em caso de necessidade, o idoso
pode recorrer, pois corresponderá às suas solicitações.
Algumas idosas também citaram situações de desajustes que podem permear
a dinâmica familiar, dentre elas a quebra dos laços afetivos, como gerador de
violência, situações de estresse que desajustam a funcionalidade familiar e
modificações nos valores familiares.
IDOSA 05 – 83 anos, institucionalizada há 05 anos: [...] Mas na época de
hoje essa palavra família desapareceu né, a gente vê filho matando pai, pai
matando filho, não tem mais aquele aconchego de família, o mundo eu acho
que tá muito doido.
IDOSA 06 – 71 anos, institucionalizada há 07 anos: Família é importante,
mas às vezes acontecem coisas contra a vontade da gente, a morte dos
nossos pais quando a gente é criança, aí a gente cai nas mãos dos outros.
47
Vieira
(2004)
afirma
que
a
modernização
da
sociedade
provocou
reestruturação do papel e das funções realizadas pela família; com isso, os laços
familiares passaram a depender quase que unicamente dos vínculos gerados com o
convívio diário, no entanto, quando esses vínculos não são legítimos, serão
rompidos diante da responsabilidade para com os membros da família.
Em um estudo realizado em uma ILPI privada da zona sul da cidade de São
Paulo, também foi identificado que, para aqueles idosos, as famílias da atualidade
modificaram-se em relação àquelas de gerações anteriores, no que se refere aos
valores que permeiam a constituição familiar – o enfoque voltou-se aos bens e
objetos materiais propiciados pelo dinheiro, em detrimento dos ensinamentos e
virtudes – principalmente por influência negativa da televisão, da falta de tempo para
se encontrar, da velocidade da sociedade pós-moderna (RISSARDO et al., 2011).
A família, para os idosos, é algo de extrema importância. Como apontado
anteriormente, os sentimentos negativos que se tem com relação à família, na
maioria das vezes, dizem respeito ao fato de eles se sentirem esquecidos pelos
membros de sua família nuclear, e até mesmo pelos da família extensa. Os idosos,
depois que vão para a instituição, acabam perdendo o contato com a maioria dos
membros da família.
6.3 Relações familiares × idoso institucionalizado
Falar sobre “relações” remete à ideia de ligação, convivência e envolvimento.
Em se tratando de relações familiares, vale lembrar que a família é um sistema
dinâmico em intercâmbio que pretende (ou deve pretender) ajudar a pessoa a
desenvolver uma presença afetiva, responsável e livre no mundo (REIS et al., 2011).
Mas, no contexto do idoso institucionalizado, como fica a relação idoso-família?
Através dos discursos das idosas, podem ser observadas diferentes realidades
acerca da relação familiar. A tabela 3 resume essas informações:
48
Tabela 3. Dados relacionados à relação familiar
Dado
Total de idosas (N)
Principais parentes com quem se relacionam
Filhos
02
Irmãos
02
Sobrinhos
02
Netos
0
Outros parentes
0
Como classifica a relação com a família
Ótima
03
Boa
02
Mais ou menos
01
Frequência de visitas
Mensal
02
Quinzenal
02
Semanal
01
Pelo menos a cada seis meses
01
Mantém contato frequente por telefone
Sim
03
Não
03
Dados colhidos pela pesquisadora Ester Barros Albuquerque.
Verifica-se que os principais parentes com os quais as idosas se relacionam
são os filhos (02), irmãos (02) e sobrinhos (02); a respeito de como classificam a
relação com a família, três idosas consideram ótima, duas consideram boa e uma
considera mais ou menos. Quanto à frequência com que recebem visitas dos
principais familiares, duas idosas são visitadas mensalmente, duas quinzenalmente,
uma semanalmente e uma idosa recebe visita pelo menos a cada seis meses. Além
do contato por visita, três idosas o mantêm frequentemente por telefone e três não.
As falas seguintes descrevem de forma mais aprofundada como são as relações
familiares.
49
IDOSA 01 – 89 anos, institucionalizada há 05 anos: É ótima, me dou muito
bem com eles [...]. Sim, recebia às vezes visita do meu irmão e da minha
cunhada, só que agora eles tão doente, a minha sobrinha vem às vezes, só
que ela trabalha muito e tá cuidando dos pais dela [...]. Ela mal vem, umas
duas vezes no ano. [...] às vezes ela me liga pra me dar notícia do meu
irmão e da minha cunhada.
IDOSA 02 – 81 anos, institucionalizada há 07 anos: Minha relação com elas
é boa [...]. Sim, minhas primas, elas vêm me visitar, trazem presentes pra
mim, visitam às vezes porque aqui tem muito movimento e atrapalha minha
vida, sabe? Eu gosto de participar das atividades daqui, não perco uma, aí
elas me ligam e perguntam eu posso ir hoje, aí eu falo não porque vai ter
uma atividade hoje [...]. Mesmo assim elas vêm me visitar umas duas vezes
no mês. E sempre que eu preciso de alguma coisa elas trazem aqui pra
mim. Quase todos os dias a gente conversa por telefone.
IDOSA 03 – 92 anos, institucionalizada há 11 anos: Ótima, minha filha é
tudo pra mim [...]. Eu é que vou, ela vinha, uma vez uma irmã perguntou pra
ela: “Por que que você não vem mais visitar sua mãe aqui?”. Ela disse:
“Irmã, se eu vier pra cá minha mãe não sai, e assim ela passa o dia
comigo.”. Nós vamos pro shopping, nós almoçamos fora, ver as novidades,
mas um dia eu pretendo alugar um apartamento e morar mais perto dela
[...]. Todo final de semana minha filha manda um carro pra vim me buscar e
no final da tarde eu volto [...]. Minha filha é ótima, ela me liga várias vezes
ao dia.
IDOSA 04 – 84 anos, institucionalizada há 03 anos: Ótima, gosto muito das
minhas sobrinhas, elas me ligam pra vir me buscar pra eu ficar alguns dias
com elas [...]. Recebo visita das minha sobrinhas frequentemente, vou na
casa delas, passo uns dias lá, depois venho embora.
Verifica-se nas falas anteriores que, apesar de as idosas estarem fora do
convívio familiar, existe um esforço de ambas as partes para preservar o contato, a
afetividade e alguma forma de assistência por parte da família. O suporte emocional
é essencial para a sanidade mental dos idosos, porém se sabe que, nos tempos
atuais, diversas razões podem impossibilitar que a família esteja presente na vida do
idoso na forma que eles desejam. Vale salientar que, ao envelhecer, o idoso deixa
transparecer que necessita de mais cuidado, atenção, amor e afeto e, também, que
nessa fase da vida esses sentimentos afloram e a necessidade de estar com a
família se intensifica (RISSARDO et al., 2011).
IDOSA 05 – 83 anos, institucionalizada há 05 anos: A minha relação com
meu irmão é financeira porque nós temos uma casa juntos e ele vem aqui
deixar o aluguel. Eu tenho minha aposentadoria, mas esse dinheiro da casa
também é muito importante, minha relação com ele é mais ou menos [...].
Sim, ele sempre vem aqui me ver pra poder deixar o dinheiro [...]. a gente
só fala por telefone se ele atrasar, aí eu ligo pra cobrar ele.
IDOSA 06 – 71 anos, institucionalizada há 07 anos: É boa, eu tenho um
sobrinho que ele passou mais de um ano pra vir aqui, aí disse que não vem
porque eu choro, mas eu não choro com consentimento, minha filha, porque
dói, minha filha, ninguém queira provar a separação da família a gente se vê
impossibilitada de fazer as coisas, tem medo de agir, não é bom não [...]. Eu
não recebo mais visita da minha filha porque ela ficou chateada com o
pessoal daqui que destratou ela [...]. Eu ligo todos os dias pra falar com ela,
só que eu não sei o que está acontecendo que ela não atende mais meus
telefonemas.
50
Percebe-se que, apesar do contato com a família, para duas idosas essas
relações estão fragilizadas, vemos isso claramente no depoimento da idosa 5, cuja
relação com o irmão aparenta um mero negócio. Já no depoimento da idosa 6, essa
fragilização é exemplificada pelo distanciamento manifestado pela filha, o que
provoca nas idosas sentimentos de angústia e solidão. RISSARDO et al. (2001)
destaca que o distanciamento da família na vivência com o idoso gera revolta e
mágoa, sentimentos acompanhados pelo esquecimento do ser humano, que está
relacionado à ambição pelos bens materiais, ou seja, o ser humano está se
esquecendo de si e de seus familiares por focalizar sua preocupação no seu status
financeiro.
Independentemente do tipo de relação familiar estabelecido, com a
institucionalização a convivência com os familiares resume-se ao contato em alguns
dias da semana, alguns dias do mês ou em espaços temporais mais dilatados.
Como resultado, a carência afetiva se manifesta significativamente na vida cotidiana
dos idosos, fortalecendo que a família deve estar presente nessa etapa, para prestar
o suporte necessário. Além disso, o vínculo familiar diminuído pode gerar
sentimentos negativos em relação à família, na maioria das vezes, pelo fato de os
idosos se sentirem esquecidos (RISSARDO et al., 2011).
51
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante
da
caracterização
do
perfil
sociodemográfico
das
idosas
institucionalizadas no Recanto do Sagrado Coração, verificou-se que em sua maioria
possuíam idade superior a setenta anos, todas elas frequentaram a escola por pelo
menos quatro anos, e sua família nuclear é composta por um pequeno número de
pessoas, sendo que as idosas tiveram no máximo um filho, ou seja, o núcleo familiar
apresentava-se constituído por pequeno grupo de pessoas.
As idosas percebem a velhice como algo natural, e inevitável na continuidade
da vida; metade das idosas encara essa fase com pessimismo, no entanto a outra
metade consegue vislumbrá-la de forma otimista, sendo que essas últimas enfatizam
em seus discursos a manutenção da autonomia como aspecto indispensável.
Quanto aos aspectos relacionados à institucionalização, as idosas residem no
abrigo há mais de três anos, sendo que mais da metade das participantes foram por
conta própria. Verificou-se que os principais motivos para o afastamento do idoso do
seio da família foram a indisponibilidade de tempo dos familiares para prestar os
cuidados demandados pelos idosos e a impossibilidade de residir sozinho, quer por
problemas econômicos, quer por problemas de saúde.
Quanto aos impactos da institucionalização, o sentimento de tristeza e
solidão, apesar de ser citado por todas, afeta as idosas com intensidade diferente.
Quatro idosas relataram muita tristeza por estarem sozinhas e distantes da vida que
construíram, de seus objetos pessoais, como casa, móveis e pequenas recordações
construídas com o tempo. No entanto, o discurso de duas idosas aponta
predominantemente aspectos positivos, evidenciando uma boa adaptação e
enfrentamento adequado da institucionalização.
Quanto à forma como se estabelecem as relações familiares, as idosas
destacaram diferentes aspectos necessários à relação familiar saudável, dentre eles
o amor, a importância da união e da boa convivência e a relação de ajuda mútua
atribuída à instituição familiar. A forma como as idosas classificaram a relação com a
família variou de financeira a ótima. Todas as seis idosas recebem visitas dos
familiares, mas a frequência com que recebem varia de duas vezes ao ano a
semanal.
Apesar de as idosas estarem fora do convívio familiar, existe um esforço para
preservar o contato, a afetividade e alguma forma de assistência por parte da
52
família, mas duas das idosas passam por um processo de fragilidade nas relações
familiares.
Diante do exposto, faz-se necessário fazer intervenções no sentido de que
idosos institucionalizados possam visualizar aquele ambiente como forma de
constituir novos laços afetivos, afinal as pessoas lá residentes permanecem na
instituição por longos anos; além disso, o estabelecimento de novos laços pode
amenizar a tristeza e a solidão provocadas pela distância da família. Um dos
métodos que podem ser utilizados nesse intuito são as atividades diárias e a
estimulação de vínculos entre os próprios idosos institucionalizados.
Compreender quais os motivos da institucionalização e como se estabelecem
as relações familiares com os idosos institucionalizados pode ampliar o
conhecimento acerca das necessidades do idoso referentes à relação familiar. Com
isso, espera-se fornecer subsídios aos profissionais que lidam com os idosos nesse
contexto para subsidiar intervenções com vista a minimizar situações de conflitos e
melhorar a qualidade de vida do idoso, além de estimular formas especiais de
cuidados com os idosos que contam com o suporte familiar.
53
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mar. 2014.
ANEXO A
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Convido o(a) Sr.(a) a participar do projeto de pesquisa intitulada: Como se
estabelecem as relações familiares na perspectiva de idosos institucionalizados, a
qual pretende identificar como são as relações entre familiares e idosos que residem
em instituição de longa permanência.
Caso o(a) Sr.(a) aceite o convite, irei entrevistá-lo(a). As entrevistas ocorrerão
de acordo com a sua disponibilidade e serão gravadas com seu consentimento.
O(A) Sr.(a) não estará exposto(a) a nenhum desconforto e/ou risco. O tempo
de entrevista é de aproximadamente 30 minutos. Gostaria de informá-lo(a) que:
- A sua participação é voluntária.
- O(A) Sr.(a) terá o direito e a liberdade de negar-se a participar da pesquisa ou dela
retirar-se a qualquer momento, se assim desejar, independente do motivo e sem
nenhum prejuízo à sua pessoa e nem ao seu atendimento na Instituição.
- Não sendo divulgada a sua identidade (seu nome), bem como qualquer informação
que possa identificá-lo(a).
- Comprometo-me em utilizar os dados coletados unicamente para fins acadêmicos,
a fim de atender os objetivos da pesquisa.
- Caso precise entrar em contato comigo, você terá acesso, em qualquer momento
da pesquisa, para esclarecimento de eventuais dúvidas. Informo-lhe o meu telefone:
Ester Barros Albuquerque, (85) 88531027. Se o(a) Sr.(a) tiver alguma consideração
ou dúvida sobre a ética da pesquisa, também pode entrar em contato comigo.
Eu, ___________________________________________________________, fui informado
sobre o que o pesquisador quer fazer e porque precisa da minha colaboração, e entendi a
explicação. Concordo em participar da pesquisa.
________________________________________
Assinatura do Participante
__________________________________________
Assinatura do Pesquisador Responsável
Data:
ANEXO B
ROTEIRO DE ENTREVISTA
1. Dados de identificação
a) Iniciais:______________________
Idade:_________________
b) cor/ raça:
( ) branca
( ) negra ( ) parda ( ) amarela
( ) indígena ( ) asiática
c) Estado civil:
() casada ( ) solteira – sem união estável ( ) solteira – com união estável ( ) viúva
() outra: ________________________________
d) Profissão: ___________________________________________________
e) Escolaridade
( )não alfabetizada ( )alfabetizada (
( )1° grau : 5ª – 8ª série (
) 1° grau : 1ª - 4ª série
)2° grau ( )superior
e) Total de filhos: _____________________
f) Total de filhos vivos: _________________
g) Tem outros familiares vivos
( ) Sim ( ) Não
Se sim descrever:
__________________________________________________________________________
________________________________________________________________
h) Há quanto tempo mora no recanto do Sagrado Coração?
2. Questões norteadoras
1) Qual o seu entendimento sobre velhice?
2) O que a senhora pensa sobre família?
3) Para a senhora o que é o acolhimento?
4) Qual a sua opinião sobre residir na instituição?
5) De quem foi a decisão de morar nessa instituição?
6) Quais os motivos que levaram a residir na instituição?
7) Como é a relação com seus familiares?
8) Seus familiares a visitam? Com que frequência?
9) Qual a sua opinião sobre residir na instituição?
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