ID: 24113385 14 08-03-2009 | P2 Tiragem: 59760 Pág: 14 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 27,52 x 37,19 cm² Âmbito: Informação Geral Corte: 1 de 2 P2 Manuel Doc no mundo do vinho A Essência do Vinho 2009, o maior e mais aplaudido encontro do vinho do país, termina hoje, no Palácio da Bolsa, no Porto. Relato de dois dias (quinta e sexta-feira) a provar vinho na sombra de um “cota-freak”. Por Pedro Garcias Primeiro dia Em todas as festas há um excêntrico. As portas do faustoso Palácio da Bolsa, no Porto, abriramse há pouco mais de duas horas para mais uma Essência do Vinho e já há um visitante em poses equilibristas. O homem, de chapéu à cowboy, calças tipo tropa e botas Doc Martens, verte sangue pela cara, de tão rosada, enquanto dá mais um gole e olha para a menina do stand à espera de uma palavra que exalte ainda mais o seu prazer. Não há nada de filosófico no seu olhar turvo e expressão sorridente. Nem tão pouco lhe assentam os versos que Omar Kayyam, o grande poeta do vinho, escreveu em nome da celebração da perenidade do momento. “Jamais desejei o manto do engano/Mas roubaria por um copo de vinho./Tenho setenta anos: o meu cabelo é de neve./Hoje quero ser feliz: amanhã será tarde”. A metafísica do homem de chapéu à cowboy, que aparenta ter menos de 50 anos, resume-se a beber alegremente até à embriaguês, esse limite funesto do vinho que tanto nos torna infantis como nos embrutece. Pelo menos é o que parece. Em pouco tempo, o Palácio da Bolsa enche-se de gente a cirandar de copo na mão, ensimesmada com a severidade das paredes de granito e o esplendor do pátio central, de cuja monumental cúpula metálica envidraçada entra uma poalha de luz que ilumina o colorido pavimento cerâmico de inspiração romana. Os mais de 350 expositores presentes espalham-se por todos os espaços livres do Palácio, desde a entrada até às galerias, numa ordem improvável mas perfeita, marcada pela sofisticação, o bom gosto e a civilidade festiva. São 17h00, a Essência encerra às 21h00 e há cerca de 2500 vinhos prontos a provar. Alguns italianos e espanhóis, mas na sua esmagadora maioria nacionais. O melhor de Portugal ao alcance de um copo. Dos jovens alvarinhos minhotos aos Bual datados da Madeira, dos grandes vinhos do Porto aos novos e fascinantes tintos do Douro e do Alentejo. Sem esquecer os espumantes, dos mais modernos aos clássicos, que nos fazem crer que há mais vida para além do champanhe. A dúvida é por onde começar, para não se acabar mal. Mas é impossível ser organizado. A tentação anda no ar e é difícil resistir à sugestão da beldade que nos convida para provar um vinho novo ou do produtor famoso que nos presenteia com o seu melhor vinho. Há cuspideiras em todos os stands, mas, salvo os provadores do ofício, quem se atreve a deitar fora um Redoma Reserva, um Abandonado, um Pintas, um Quinta dos Carvalhais, um Quinta da Pellada, um Mouchão, um Terrenus, um Quinta do Mouro, um Quinta do Noval ou um Taylor`s, só para dar alguns exemplos? É cool beber vinho, mas cuspilo continua a ser inestético. Não vai bem com o glamour criado em torno daquele que é “o segundo sangue da raça humana”, como chamou ao vinho o italiano Edmondo de Amicis numa conferência proferida em Torino, em 1881. O tempo corre depressa e não dá para tudo. Além dos vinhos, há provas comentadas, harmonizações e workshops temáticos. Na sala do Tribunal, António Graça, da Sogrape, conduz-nos pelo fascinante mundo das castas portuguesas, o mais rico de todos os países vinhateiros. No Salão Árabe, a jóia maior do Palácio da Bolsa do Porto está tudo preparado para uma prova comentada sobre o terroir do Douro a partir dos vinhos da Niepoort. Na luminosa e contemporânea sala da Viniportugal, o crítico Fernando Melo explica para uma pequena plateia como guardar e servir vinhos em casa. E como não se deve usar o esfregão ou o detergente nos bons copos. Na sala do Tribunal, já começou a prova vertical dos Alvarinho Soalheiro. Logo a seguir, o chefe Augusto Gemelli vai estar no Salão Árabe para maridagens entre o vinho e a comida. Ufa! Aos poucos, pequenos grupos vão-se encostando nos varandins das galerias, a conversar ou a apreciar o frenesim que se vive no pátio central. Há quem se sente nas escadas ou faça uma pausa para beber um café ou beber uma água.. Cristiano Van Zeller, um dos “Douro Boys” e produtor do CV e dos vinhos da Quinta do Vale D. Maria, sorri. “Acho isto fantástico. A decoração, a sobriedade dos stands, a organização…Só tenho pena de não poder aproveitar”, diz. Em 2004, quando se realizou a primeira Essência do Vinho, Cristiano começou muito céptico. “Mas, cinco minutos depois de entrar aqui, retratei-me logo”, recorda. Hoje, é taxativo. Este encontro “é o mais bem feito que já vi, não só em Portugal como no mundo”, assegura. A hora do fecho aproxima-se. Jorge Dias, o novo director-geral da Gran Cruz, o segundo maior operador de vinho do Porto, desafia-nos a provar no dia seguinte o Golden White de 1952 da Dalva Porto, uma das marcas do grupo. Amanhã pode ser tarde. Um gole chega para nos interrogarmos como é possível ainda haver um vinho do Porto branco com esta idade e esta extraordinária doçura e acidez. “Tem as características de um colheita tinto, mas é um branco”, explica Hubert Wolff, director comercial da empresa. As poucas garrafas que existem vendem-se a perto de 200 euros cada. As luzes apagam-se. Fora do palácio, vão-se formando grupos para um cigarro e um último gole. Parece um ambiente típico de after-hours de discoteca ou de um bar. O homem do chapéu à cowboy acaba de sair. De copo na mão, sorridente, vermelho e meio cambaleante como há quatro horas. Segundo dia O programa anuncia uma préapresentação no Salão Árabe do filme documental As Horas do Douro, de António Barreto e Joana Pontes. Alguém se enganou. Quem esteve presente, o que viu foram algumas fotos das rodagens e um ou outro plano. O filme ainda está a ser montado e só deverá chegar às salas do cinema no próximo Outono. É um retrato do Douro de hoje, das pessoas que fazem a paisagem e o vinho, desde a poda até à vindima, da videira até ao copo. Um “filme de amor que não quer esconder a razão”, um olhar que esquece de propósito os problemas institucionais da região e se centra apenas nas pessoas e na paisagem, como explicou António Barreto, nomeado este ano, juntamente com Joana Pontes, embaixador da Essência do Vinho. Não pára de entrar gente. Jovens, sobretudo, uns vestidos mais informalmente, outros mais produzidos, elas com vestidos reluzentes, eles metidos em fatos ID: 24113385 08-03-2009 | P2 Tiragem: 59760 Pág: 15 País: Portugal Cores: Cor Period.: Diária Área: 27,59 x 37,26 cm² Âmbito: Informação Geral Corte: 2 de 2 P2 15 O melhor de Portugal esteve ao alcance de um copo no palácio da Bolsa São 17h00, a Essência encerra às 21h00 e há cerca de 2500 vinhos prontos a provar. Alguns italianos e espanhóis, mas na sua esmagadora maioria nacionais. Dos jovens alvarinhos minhotos aos Bual datados da Madeira, dos grandes vinhos do Porto aos novos e fascinantes tintos do Douro e do Alentejo de executivo. O vinho também pode ser fashion, não tem que ser só agricultura e comércio. Há música ao vivo e, nos intervalos, um som ambiente que convida à degustação. “Música lounge, às vezes um jazz electrónico, uma Bossa Nova”, explica Carlos Araújo, o animador musical de serviço. Nos stands dos produtores abrem-se garrafas atrás de garrafas. Dependendo do número de marcas, há alguns que abrem dezenas ao longo dos quatros dias da Essência. Há outros que ficam mesmo perto da centena. E ainda têm que pagar o stand, cujo custo varia de acordo com o lugar. Por exemplo, o de João Brito e Cunha, produtor do vinho Ázeo, custou 1700 euros e foi partilhado com a Quinta da Casa Amarela. “Estamos a trabalhar para a notoriedade da marca”, explica. Para minimizar os custos, a maioria dos produtores associou-se a um parceiro. Só as grandes casas apostaram em stands próprios. Luis Gutierrez e José Peñim, dois dos principais críticos de vinhos de Espanha, ainda andam em provas pelo Palácio. Chegaram no dia anterior para integrar o painel internacional de críticos que, a partir de uma amostra de 42 vinhos, entre brancos, tintos e vinhos do Porto, vai eleger os melhores 10 vinhos portugueses. São ambos repetentes. “Isto é fantástico. O ambiente é incrível, há muita gente jovem, os melhores vinhos de Portugal estão aqui e qualquer consumidor, que é a parte mais importante, os pode provar”, sublinha Gutierrez. Peñim destaca, sobretudo, o “lado intimista” do encontro. “Nas grandes feiras, como a Vinexpo, que são feitas em pavilhões, é tudo mais frio. O gigantismo não tem futuro. Aqui, contacta-se directamente com os produtores e não com os comerciais”, diz, lamentando não haver em Espanha um modelo igual. O homem do chapéu à cowboy volta a aparecer. Sozinho como sempre. Vem igualzinho como no dia anterior. Vermelho e cambaleante. Não larga o copo. Dá um gole e olha para a menina que o serve, sorrindo. “Tem um bonito chapéu”, dizem-lhe. “Três euros e meio na loja dos chineses em Matosinhos”, responde. Como se chama? “Manuel. Manuel Doc. Doc de denominação de origem controlada, doc de botas Doc Martens, doc de doutor”. E o que faz? “Sou médico de Clínica Geral no Centro de Saúde de Amarante. Há 21 anos. Sou assim, um cota-freak que gosta de vinho, aguardente, brandy e uísque. Um totozinho pacífico”.