Integral de Riemann: Condições Necessária e Suficiente Luis Gustavo Longen∗ Elisandra Bar de Figueiredo Francielle Kuerten Boeing† Ivanete Zuchi Siple Depto. de Matemática, CCT, UDESC, 89219-710, Joinville, SC E-mail: [email protected], elis.b.fi[email protected] [email protected], [email protected] RESUMO Em geral, nos cursos de Cálculo Diferencial e Integral ao se apresentar o conceito de funções Riemann integráveis usa-se como suposição que a função seja contı́nua. Porém, o conceito de integração e de função integrável vai além da continuidade. Por exemplo, a função { 1, se x < 0 f (x) = 0, se x ≥ 0 é descontı́nua em x = 0, mas integrável em qualquer intervalo [a, b] ⊂ R. Como condição necessária para que uma função f seja integrável em um intervalo fechado [a, b], tem-se que f deve ser limitada neste intervalo. Para tal, lembremos que se f é integrável segundo Riemann, então para todo ε > 0 dado existe uma partição P = {x0 , x1 , · · · , xn } do intervalo [a, b] tal que n ∫ b ∑ f (c )∆x − L f (x)dx. < ε, com c ∈ [x , x ] e L = i i i i−1 i a i=1 Em particular, para ε = 1, usando inequações modulares, temos n n n ∑ ∑ ∑ |f (cj )∆xj |− f (ci )∆xi −L ≤ f (cj )∆xj + f (ci )∆xi − L = f (ci )∆xi −L < 1. i=1,i̸=j i=1,i̸=j i=1 Por fim, n ∑ f (ci )∆xi − L. |f (cj )∆xj | < 1 + (1) i=1,i̸=j Cabe ressaltar aqui que, por menor que seja ∆xj , ele é maior que zero e está fixo pela partição P que existe para a escolha de ε = 1. Como (1) é válida para todo cj ∈ [xj−1 , xj ], fixando ci ∈ [xi−1 , xi ], com i ̸= j, temos que f é limitada em [xj−1 , xj ] e consequentemente em [a, b]. Tem-se assim uma condição necessária para que uma função seja Riemann integrável. Como condição suficiente sabe-se, apesar da falta da prova formal nos cursos de cálculo, que se uma função f é contı́nua em [a, b], então f é integrável em [a, b]. Para demonstrar isso, vamos utilizar os seguintes lemas. ∗ † bolsista de Iniciação Cientı́fica Voluntária PIVIC/UDESC bolsista de Iniciação Cientı́fica Voluntária PIVIC/UDESC 213 Lema 1 Se f for contı́nua em [a, b], então para qualquer partição P de [a, b] n ∑ f (ci )∆xi − L ≤ S(f, P ) − S(f, P ), i=1 sendo S(f, P ) e S(f, P ) as somas superior e inferior de f com relação a P, respectivamente e L = inf{S(f, P )}. Lema 2 Se f for contı́nua em [a, b], então dado ε > 0 existe δ > 0 tal que |s − t| < δ ⇒ |f (s) − f (t)| < ε, ∀s, t ∈ [a, b]. Assim, se f é contı́nua em [a, b], então, pelo Lema 2, dado ε > 0 existe δ > 0 tal que ε (2) , ∀s, t ∈ [a, b]. b−a Logo, para toda partição P de [a, b] com max ∆xi < δ, tem-se que para si , ti ∈ [xi−1 , xi ] tais f (si ) = Mi e f (ti ) = mi , sejam respectivamente o máximo e o mı́nimo de f em [xi−1 , xi ]1 , segue de (2) que |s − t| < δ ⇒ |f (s) − f (t)| < S(f, P ) − S(f, P ) = n ∑ (Mi − mi )∆xi < i=1 n ∑ i=1 ε ∆xi = ε, b−a Agora, da inequação (3) e do Lema 1, n ∑ f (c )∆x − L ≤ S(f, P ) − S(f, P ) < ε, i i ∀i ∈ {1, · · · , n}. (3) ∀i ∈ {1, · · · , n}. i=1 Portanto, se f for contı́nua, o limite das somas de Riemann existe e f é integrável em [a, b], ∫ b com L = inf{S(f, P )} = f (x)dx. a Assim, temos uma relação de continência entre os conjuntos de funções: Funções Contı́nuas ⊆ Funções Integráveis ⊆ Funções Limitadas Como exemplo de função limitada e não integrável, temos a função { 1, se x ∈ Q f (x) = 0, se x ∈ / Q, que é limitada por M = 1, mas não é integrável em [0, 1], já que, para toda partição P de [0, 1], n ∑ { f (ci )∆xi = i=1 1, se ci ∈ Q 0, se ci ∈ / Q. Como entre dois racionais sempre há um irracional e entre dois irracionais sempre há um racional, a função é descontı́nua em todo o intervalo. Assim, o limite lim max∆xi →0 n ∑ f (ci )∆xi i=1 não existe e a função dada não é integrável à Riemann em [0,1]. Sendo assim, as igualdades das continências são descartadas, resultando na relação 1 Que existem pelo Teorema de Weierstrass 214 Funções Contı́nuas ( Funções Integráveis ( Funções Limitadas Apesar desta relação entre funções ser válida ela não é a mais precisa. Por fim, podemos tratar da integrabilidade de funções limitadas e descontı́nuas para tentar encontrar critérios mais precisos para integração. Definimos medida de um conjunto A, m(A), como uma função que leva um conjunto A em um número real positivo e tal que m(ϕ) = 0 e m(A ∪ B) = m(A) + m(B), se A ∩ B = ∅. A medida pode ser vista como um tamanho, tendo como exemplos o comprimento (em R), a área (em R2 ) e o volume (em R3 ). Como estamos interessados em subintervalos de R, a ideia de medida aqui usada pode ser interpretada como um comprimento. Assim, pode-se pensar em m([a, b]) = b − a, para todo subintervalo [a, b] de R. Dizemos que um conjunto A ⊂ R tem medida nula uma sequência {In } de intervalos ( nse existe ) ∪ ∪n tal que A ⊂ i=1 Ii e para todo ε > 0 temos m Ii < ε. i=1 Note que toda sequência enumerável (xn ) de pontos tem medida nula, pois, dado um ε > 0, ε ε ε para cada xn podemos construir In = {xn − n+1 , xn + n+1 }, tal que {xn } ⊂ In e m(In ) = n . 2 2 2 ∪ Assim, (xn ) ⊂ ni=1 Ii e (n ) n ∪ ∑ ε m Ii = < ε. 2i i=1 i=1 Tendo este conceito em mente, podemos enunciar o Critério de Lebesgue para Integral de Riemann. Critério de Lebesgue: Uma função f limitada em [a, b] é integrável em [a, b] se, e somente se, o conjunto dos pontos onde f é descontı́nua tem medida nula. A partir do critério acima, se f é contı́nua, tem apenas um ponto de descontinuidade ou o conjunto de pontos de descontinuidade de f é enumerável, segue que f é Riemann-integrável. Como exemplo de função integrável com conjunto de descontinuidades não-enumerável, temos { 1, se x ∈ C f (x) = , 0, se x ∈ /C sendo C o conjunto de Cantor. De fato, f é descontı́nua em todos os pontos de C, que é não-enumerável, mas tem medida nula, logo a função dada é integrável, pelo Critério de Lebesgue. Assim, temos a seguinte relação entre funções, sendo Df o conjunto das descontinuidades de f: Df = ϕ ⇒ Df < ∞ ⇒ Df é enumerável ⇒ m(Df ) = 0 ⇔ f é integrável ⇒ f é limitada. Palavras-chave: Integral de Riemann, função limitada, critério de Lebesgue, condição necessária, condição suficiente Referências [1] H.L. Guidorizzi, “Um curso de cálculo”, Vol.1, LTC, Rio de Janeiro, 2000. [2] J. Klippert, Advanced Advanced Calculus: Counting the Discontinuities of a Real-Valued Function with Interval Domain, Mathematical Associantion of America, Vol. 62, No.1 (1989) 43-48. 215