XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE MATEMÁTICA E AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO – A PRODUÇÃO DAS REVISTAS ZETETIKÉ E BOLEMA. Natiele Silva Lamera Elorza Programa de Pós-Graduação em Educação FCT, Unesp, Univ Estadual Paulista Resumo: O presente artigo foi apresentado como trabalho final da disciplina Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e Educação Escolar do Programa de Pós-graduação em Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Unesp/Campus de Presidente Prudente e é resultado de discussões e leituras realizadas durante o curso. O objetivo geral do artigo é analisar a publicação de artigos referentes à formação de professores de Matemática e as TIC, no período de 2008 a 2010, em dois importantes periódicos brasileiros da área de Educação Matemática, Bolema e Zetetiké. Esses periódicos foram selecionados, entre outros aspectos, por apresentarem suas publicações em formato digital, facilitando o acesso aos artigos produzidos no período de tempo delimitado pela pesquisa. O levantamento dos artigos foi realizado através do título e de palavras-chave, relacionados a temática em questão. Os artigos selecionados foram lidos a fim de analisar como são tratadas as TIC na formação dos professores de Matemática, seja ela inicial ou continuada, e as conclusões dos autores destas pesquisas, levando em conta o avanço das TIC e os impactos por elas causados no espaço escolar e na prática dos professores. A análise foi realizada à luz do referencial teórico trabalhado na disciplina TIC e Educação Escolar, que tem entre seus objetivos, o de refletir sobre as possibilidades de uso das TIC na educação escolar como meio de aprendizagem. Ainda que considerando somente a produção de 2008 a 2010 das duas revistas, os resultados dos artigos que fazem referência TIC e formação de professores de Matemática são similares e, na maioria das vezes, destacam os mesmos aspectos. Palavras-chave: Formação de Professores de Matemática; Tecnologias de Informação e Comunicação; Produção do Conhecimento. INTRODUÇÃO Com o advento da Internet e as inúmeras possibilidades por ela oferecidas, temos percebido o aumento e a veiculação rápida das informações bem como a ampliação do acesso a elas. Neste contexto, a comunicação científica tem uma participação importante no desenvolvimento de algumas áreas do conhecimento. As revistas e outros meios de publicação periódica são relevantes dadas as suas características técnico-científicas, tanto no formato convencional como no eletrônico, e muitas revistas no formato convencional também viabilizam seu acesso online (VICENTELLI; WITTER, 2009). Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001151 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 2 Com essa explosão das revistas científicas, tem crescido o número de pesquisas que avaliam não somente a produção científica, como também as revistas que são o principal veículo para divulgação do conhecimento gerado. Trabalhos como estes têm sido realizados por diversos autores, entre eles Vicentelli e Witter (2009), que ressaltam a importância deste tipo de pesquisa. Amparada nesta tipologia de trabalho e na possibilidade de contextualizar a teoria discutida na disciplina TIC e Educação Escolar, do Programa de Pós-graduação em Educação, Mestrado, da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Unesp/Campus de Presidente Prudente, realizei uma pesquisa sobre a produção do conhecimento em Formação de Professores de Matemática e TIC. A Matemática foi abarcada nesta pesquisa por ser uma matéria básica, que abrange a escolaridade desde os anos pré-escolares até as turmas das universidades e, mesmo fora do cenário escolar, se faz presente no cotidiano das pessoas, de forma direta ou indireta. Porém, embora o domínio dos conceitos matemáticos seja tão necessário nos diferentes espaços sociais, em minha prática como professora dos anos iniciais do Ensino Fundamental tenho constatado as dificuldades de aprendizagem dos alunos. Tais dificuldades originaram meu interesse por esta disciplina, não somente no desenvolvimento deste artigo, mas também na realização de minha pesquisa de mestrado, na qual busco pesquisas sobre a utilização de jogos e a aprendizagem de conceitos matemáticos por crianças nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Diante das dificuldades, uma questão fundamental é a formação de professores. Como formá-los para que dominem os saberes necessários a prática docente e saibam utilizar as diferentes potencialidades das TIC a favor da aprendizagem matemática? Buscando refletir sobre esta pergunta e amparada em alguns dos autores que oferecem subsídios teóricos para se pensar na questão das TIC no espaço escolar (COLL; MAURI; ONRUBIA, 2010; GOMES, 2002; VALENTE, 1999) é que analisei os artigos publicados nas revistas Bolema e Zetetiké. O objetivo principal da pesquisa é conhecer as publicações desses periódicos sobre a temática formação de professores de Matemática e TIC e analisar as conclusões dos trabalhos selecionados à luz do referencial teórico apresentado na disciplina cursada. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001152 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 3 REFERENCIAL TEÓRICO O avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) tem impactado a sociedade e as instituições escolares, demandando uma mudança de postura e até de concepções seus representantes imediatos, os professores. A escola não é mais o único espaço onde se aprende. O computador e a web possibilitam que todas as pessoas, independente de onde estejam, acessem qualquer informação. A internet não restringe o acesso à informação, possibilita uma organização de ideias que antes não era possível e promove o surgimento de cenários educacionais que não existiam, como é o caso dos espaços virtuais. Neste cenário, a educação deixou de ser vista apenas como um instrumento para promover o desenvolvimento, a socialização e a enculturação das pessoas, um instrumento de construção da identidade nacional ou meio para construir a cidadania. Neste cenário, a educação adquire uma nova dimensão: transforma-se no motor fundamental do desenvolvimento econômico e social (COLL; MAURI, ONRUBIA, 2010, p. 68). Para tanto, não basta o acesso às tecnologias no espaço escolar. A aquisição de modernos equipamentos e salas destinadas ao uso de alunos e professores (quando isso é possível) não basta. Não há como adquirir uma nova dimensão sem levar em conta os aspectos referentes à formação dos professores. “É necessário repensar os paradigmas existentes para a adoção de novas práticas educativas” (GOMES, 2002, p. 120). Há que se buscar uma formação inicial e continuada que dê mais atenção para a discussão e reflexão sobre o uso das TIC na escola, de forma que o professor e a própria instituição percebam seu papel fundamental de preparar as novas gerações. A utilização dos novos recursos comunicacionais e informáticos não deve ser encarada como mais uma novidade, mas como uma possibilidade para que alunos e professores assumam o papel de sujeitos críticos, criativos e construtores de seu próprio conhecimento (GOMES, 2002, p.121) Se esta revisão de paradigmas não acontecer, corremos o risco de perpetuar obsoletas práticas, amparados por TIC que apenas servirão para compor um cenário educacional que se diz integrado às novas tecnologias. METODOLOGIA Para realizar este trabalho, selecionei duas revistas brasileiras da área de Educação Matemática: Zetetiké e Bolema (Boletim de Educação Matemática). Esses periódicos foram escolhidos por possuírem como objetivo principal a disseminação da Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001153 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 4 produção científica em Educação Matemática, contribuindo para a formação e atualização dos pesquisadores desta área. Existem outras revistas, não menos importantes, que dividem com estas os mesmos objetivos. A possibilidade de acessar on line os números dessas duas revistas foi um fator preponderante na escolha das mesmas. A revista Zetetiké é publicada semestralmente pelo Centro de Estudos, Memória e Pesquisa em Educação Matemática (CEMPEM) da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Seu foco é a Educação Matemática e a divulgação de estudos e pesquisas realizados por educadores de instituições brasileiras ou estrangeiras para contribuir com a formação de pesquisadores da área. Apresenta-se nas versões impressa e online, sendo que esta última é de acesso livre e gratuito através do endereço http://www.fae.unicamp.br/zetetike, onde se tem acesso a todos os exemplares desde o ano de 1993. O Bolema, (Boletim de Educação Matemática) é um periódico nacional, com corpo editorial e consultores de renome, do país e do exterior. Sua primeira edição foi em 1985, sendo um dos mais antigos periódicos brasileiros da área de Educação Matemática. Surgiu vinculado ao Programa de Pós-graduação em Educação Matemática da UNESP de Rio Claro. Em suas três edições anuais objetiva disseminar a produção cientifica da área e publica artigos, ensaios, resenhas e resumos de teses e dissertações que discutem questões relacionadas ao ensino e aprendizagem de Matemática e/ou aquelas relacionadas ao papel desta disciplina na sociedade. Também edita fascículos temáticos especiais. A versão integral dos textos para download gratuito está disponível em http://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/bolema. A busca foi feita nos dois endereços acima, considerando o período de 2008 a 2010. Em cada exemplar foram selecionados os artigos que tinham em seu título palavras relacionadas a formação de professores, Matemática e Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). No site da revista Zetetiké foram encontrados quatro artigos relacionados a temática buscada. Destes, um foi produzido no ano de 2008, dois no ano de 2009 e um último no ano de 2010. No site da revista Bolema, foram selecionadas seis publicações, das quais duas são datadas do ano de 2008, duas de 2009 e duas no ano de 2010. Nem todas essas publicações são artigos, uma delas é uma resenha de tese de doutorado e duas são resumos de pesquisa. Nesses casos foi necessário recorrer ao trabalho completo para ter acesso às conclusões de maneira mais detalhada e completa. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001154 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 5 ANÁLISE DOS ARTIGOS Encontradas as dez publicações, realizei uma primeira classificação quanto ao tipo de formação de que tratavam: inicial ou continuada. Três trabalhos focalizam a questão da formação inicial. São eles: Oliveira (2008); Carneiro e Passos (2010) e Richit e Maltempi (2010). Os outros sete abordam a formação continuada de professores: Gadanidis, Namukasa e Moghaddam (2008); Viol (2009); Marin (2009); Tractenberg, Barbastefano e Struchiner (2010); Cannone, Robayana e Medina (2008); Bairral e Abreu (2009) e Carneiro e Passos (2009). Os artigos que discutem a formação inicial ressaltaram a importância de se pensar em uma mudança na estrutura curricular dos cursos, já que as possibilidades encontradas por eles para se trabalhar com as TIC nos cursos de licenciatura ainda são muito escassas, como revela o excerto a seguir: ... consideramos que mudanças na estrutura curricular dos cursos de licenciatura tornam-se necessárias, de modo que o conhecimento específico seja valorizado, mas que não seja o fim único da formação inicial docente. Para tanto, entendemos que a construção do conhecimento matemático deve acontecer de forma contextualizada, ou seja, entrelaçada às demais atividades formativas do licenciando, usando recursos diversos, incluindo as tecnologias, e no âmbito de diferentes situações de sala de aula, isto é, de docência (RICHIT; MALTEMPI, 2010, p. 27). Em outro artigo, a questão da mudança na estrutura curricular aparece associada à metodologia utilizada pelos professores dos cursos de licenciatura e suas concepções sobre o profissional que formarão. A utilização das tecnologias pelos professores em sua prática de sala de aula demanda mudanças nos cursos de formação inicial... uma delas refere-se aos novos currículos, com disciplinas que possibilitem discussões acerca das potencialidades e dos limites das TIC na Educação. Outras transformações deveriam ocorrer nas metodologias utilizadas nesses cursos e nas concepções dos professores formadores a respeito do profissional que estão formando (CARNEIRO; PASSOS, 2010, p. 780) Oliveira aponta que a forte constituição curricular dos cursos de licenciatura não dão espaço a novas formas de tratar o conhecimento, possibilitadas pelas TIC. Quando isso ocorre, é apenas em uma disciplina e de forma isolada. Outro aspecto por ele apontado é a distância entre a proposta curricular do curso e o que os alunos relatam que acontecia no decorrer de sua formação. Com base nas entrevistas concedidas pelos licenciandos, é preciso destacar a aparente distância entre a proposta curricular e o que de fato Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001155 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 6 vinha sendo desenvolvido nos momentos letivos. Partindo desta observação, é possível e preciso redirecionar o foco dessas disciplinas com o objetivo de fornecer subsídios teóricos e práticos para a utilização educacional da TI (2008, p.80). De acordo com Valente (1999), o professor precisa ser preparado para exercer o papel de facilitador do processo de construção de conhecimento, para desafiar e desequilibrar o aprendiz, propondo situações novas e diversificadas com o auxílio das TIC, abandonando o papel de mero comunicador do conhecimento. Outro aspecto considerado importante na formação inicial de professores de Matemática é a forma de se trabalhar com as TIC. Há que se pensar em metodologias adequadas que não repitam as concepções de formas tradicionais de ensinar. Uma possibilidade é apresentada por Richit e Maltempi (2010), que defendem o trabalho com projetos para a inserção das TIC nos conteúdos a serem desenvolvidos no curso de Matemática. Os autores se apóiam nos princípios do construcionismo apresentados por Papert (2003), para criar um ambiente de aprendizagem que proporciona [...] o uso das TIC como ferramentas para a construção do conhecimento e para o desenvolvimento do aluno. Segundo essa concepção, podemos dizer que a aprendizagem é um processo próprio, reflexivo e transformador em que ideias, experiências e diferentes percepções são inter-relacionadas e algo novo é criado (GOMES, 2002, p.127-128) O trabalho com projetos proporcionou uma experiência de grande importância aos futuros professores, possibilitou uma integração entre “conhecimentos específicos, pedagógicos e tecnológicos de forma articulada e complementar” (RICHIT; MALTEMPI, 2010, p. 37). Durante a realização dos projetos os estudantes escolheram o conteúdo que trabalhariam utilizando a tecnologia, discutiram e investigaram com os colegas e professores diferentes formas de se chegar à resolução de um problema. Os autores concluem que “o trabalho com projetos e tecnologias constitui-se em alternativa para transformar a licenciatura em um espaço favorável à apropriação de conhecimentos, de que todos possam participar” (RICHIT; MALTEMPI, 2010, p.38). As conclusões apresentadas pelos artigos deixam claro que a mudança na estrutura curricular dos cursos de licenciatura deve acontecer juntamente com a mudança de concepção sobre o que é ensinar e aprender. Os artigos que tratam da formação continuada dos professores de Matemática também trouxeram em suas conclusões, questões sobre a necessidade de uma reforma Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001156 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 7 curricular nos cursos de formação inicial, que deve compreender a inserção das TIC como uma nova demanda do conhecimento: Junto com essa nova demanda de conhecimento para os professores, encontra-se também um currículo de matemática que necessita apresentar importantes mudanças em relação aos anteriores.Essas mudanças afetam a visão tradicional da matemática que a partir de agora se apresenta como um conhecimento em evolução contínua, que admite mudanças de resultados nos conceitos matemáticos através do tempo, consideração epistemológica de especial relevância no terreno didático, ao descartar as visões monolíticas, fechadas e afastadas da realidade que tinha a matemática tradicional. Nessas mudanças, o processo de ensino-aprendizagem, em sua finalidade, é visto a partir de um processo formativo, instrumental e funcional, como ferramenta básica da atividade intelectual e como instrumento que permite enfrentar a resolução de problemas na própria matemática, em outras disciplinas e fora do âmbito escolar.”(CANNONE; ROBAYNA; MEDINA, 2008, p. 109) Dos sete artigos com enfoque na formação continuada de professores de Matemática, três deles abordaram a utilização de cursos online. Os demais se dividiram nos seguintes temas: Matemática e TIC no ensino superior; Matemática e TIC no Ensino Fundamental de ciclo I; Matemática, TIC e políticas de inclusão digital e Matemática e TIC no início da carreira de professor. Caberá para o momento uma discussão sobre como vem se constituindo a possibilidade de ensino através dos ambientes online. Os artigos selecionados consideram que este ambiente é muito propício para o professor que está em serviço e que busca se atualizar e conhecer diferentes maneiras de ensinar. Existem características importantes do aprendizado online como a comunicação à distância e a discussão assíncrona que são distintas do ensino presencial. Entretanto, as ferramentas online tornaram-se mais sofisticadas e permitem uma comunicação multimodal, na qual a aprendizagem online torna-se excitante [...] Os professores levam uma vida ocupada e um ambiente de aprendizado assíncrono possibilita que eles possam participar e aprender ao mesmo tempo conforme suas disponibilidades de agenda. (GADANIDIS; NAMUKASA; MOGHADDAM, 2008, p.152) Os processos de ensino e aprendizagem mediados pela tecnologia promovem formas de comunicação e interação em espaços que até há pouco tempo não existiam. De acordo com Mülbert, Bittencourt e Roesler (2009, p. 90), esses novos espaços simulam o mundo real através de softwares e hardwares e trazem à tona recentes paradigmas, por exemplo quanto “à noção de presencialidade em ambientes virtuais notadamente desterritorializados e incorpóreos”. A educação e a comunicação, neste Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001157 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 8 contexto, estão relacionadas às diferentes possibilidades de interlocução e de participação nos espaços denominados interativos. Assim, “o sujeito passivo perde lugar para um sujeito que está em permanente relação comunicacional com seus pares a partir de suas singularidades, diversidade de experiências e idiossincrasias”. Viol (2009) apresenta a tese de doutorado de Zullato (2007), que investigou a participação de professores em um curso online cujo objetivo foi familiarizar professores com o software Geometricks, abordando aspectos do uso da informática nas aulas de Matemática. Essa pesquisa também destaca o papel do ambiente online. Não posso deixar de mencionar aqui as relações do ambiente de aprendizagem constituído neste curso, com a formação dos professores nele envolvidos. O modo como o professor aprende nesse processo pode condicionar a maneira como ele percebe e desenvolve a Matemática em suas aulas. Isto é, possibilita a reflexão sobre elementos importantes do processo de aprendizagem, como conjecturar em cima de problemas específicos, trocar idéias, elaborar justificativas, entre outros. Assim, o curso foi planejado a partir de concepções de Educação Matemática à distância em que dialogar, discutir conceitos matemáticos, errar, interagir, enfim, produzir conhecimento matemático, foi seu principal objetivo. Tanto humanos como não humanos foram fundamentais para que essa produção acontecesse. As tecnologias de informação e comunicação (nesse caso, em especial a plataforma do chat e da videoconferência) propiciaram a participação ativa, atual ou virtual, dos alunosprofessores, estabelecendo um hipertexto que permitiu a constituição de uma rede-de-aprendizagem-com-tecnologia (ZULLATO, 2007, p.152-153). Os autores apontam que os ambientes virtuais de aprendizagem, além de possibilitar a aprendizagem de conceitos que também poderiam ser construídos em cursos presenciais sem o uso das TIC, desenvolvem novas habilidades comunicativas que podem servir para potencializar a construção do conhecimento, corroborando as afirmações de Mülbert, Bittencourt e Roesler. [...] por meio das redes de aprendizagem são construídas as situações de ensino e de aprendizagem on-line, por intermédio da concretização simultânea de diversas operações, que, ao serem realizadas, potencializam o processo de construção do conhecimento. Neste contexto, o Ambiente Virtual de Aprendizagem necessita ser composto por ampla diversidade de estratégias pedagógicas e tecnológicas para possibilitar aos alunos condições de interagir com as principais fontes de referência eleitas pelo professor para subsidiar a compreensão dos conteúdos de determinada disciplina, pois quando os alunos interagem com o professor o fazem para dirimir eventual dúvida ou para adquirir informações adicionais ou suplementares referentes aos estudos sobre um determinado assunto (2009, p. 92). Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001158 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 9 Fica claro, a partir do exposto acima, que o ambiente virtual de aprendizagem pode não ter sucesso algum se com ele não existirem vários desdobramentos pedagógicos que são alimentados principalmente pelas concepções dos professores, potencializando ou não as atividades propostas. De acordo com Coll, Mauri e Onrubia (2010) são os usos efetivos que professores e alunos fazem das TIC que determinarão se pode ou não haver algum progresso na qualidade educacional. Neste sentido, embora haja muitos argumentos que são encontrados justificando o uso das TIC no espaço escolar como uma possibilidade indiscutivelmente positiva, é preciso que a sua incorporação e seus efeitos positivos na educação não sejam considerados como fatos, que por si só já constituem benefícios, mas sim como “uma potencialidade que pode tornar-se efetiva, ou não, em função de uma complexa rede de fatores que, em grande medida ainda precisam ser identificados” (COLL; MAURI; ONRUBIA, 2010, p. 69). CONCLUSÕES O presente estudo sobre a produção do conhecimento em formação de professores de Matemática e TIC, ainda que considerando somente a produção de 2008 a 2010 das revistas Zetetiké e Bolema, aponta que embora não seja extensa a publicação de artigos nestes periódicos que fazem referência a esta temática os resultados a que se tem chegado são similares e destacam na maioria das vezes os mesmos aspectos. A importância de reformas curriculares e a adoção de novas propostas metodológicas nos cursos de licenciatura de Matemática são questões presentes quando se trata da formação inicial. Novas possibilidades de ensino como os cursos online foram explicitados como uma modalidade positiva que se pode propor aos professores em serviço, que pode lhes permitir refletir sobre sua própria aprendizagem e as formas de ensinar seus alunos. Diante do exposto, é imprescindível considerar que não serão apenas as TIC as responsáveis pela melhora ou mudança educacional, mas, as atividades e mediações que alunos e professores passam a realizar graças a possibilidade de interatividade, acesso, troca de informação e conhecimento (COLL; MAURI; ONRUBIA, 2010). Para que essa mediação ocorra de forma eficaz, pensando em re-significar as práticas já utilizadas pelo professor e não apenas reforçá-las, é preciso considerar o projeto tecnológico, que se define como as possibilidades encontradas no instrumento Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001159 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 10 tecnológico escolhido pelos professores e alunos; o projeto pedagógico, que é entendido como a forma pela qual as atividades de ensino e de aprendizagem serão desenvolvidas e quais os objetivos almejados e também o processo formativo, que é o desenvolvimento total da atividade proposta e que traz em si a recriação e a redefinição, feita pelo próprio grupo, dos procedimentos de uso dos instrumentos utilizados (COLL; MAURI; ONRUBIA, 2010). Neste contexto é impossível deixar de mencionar a importância da formação do professor. Com a presença das TIC no espaço escolar, ele é colocado em um processo de reflexão, de redimensionamento sobre sua função e papel sociais e muitas vezes é apontado como o único responsável por um ensino de qualidade que integre e utilize os recursos tecnológicos disponíveis com eficácia e domínio. (ROSADO, 1998, p.229). É observável que os avanços alcançados no espaço escolar quanto ao uso das TIC ainda são muito pequenos e refletem a postura tradicional do ensino, na qual o professor transmite informações e os alunos as recebem e reproduzem. As escolhas da modalidade do uso do computador, segundo a abordagem instrucionista ou construcionista, ocorrem segundo as concepções que os professores possuem sobre educação (GOMES, 2002). É o modo como são usadas as TIC que determina seus limites e suas possibilidades no âmbito escolar. Quanto mais os professores e alunos se apropriarem, e redefinirem o potencial de determinada ferramenta tecnológica diante de uma atividade de ensino e aprendizagem, melhor estarão aproveitando as possibilidades que as TIC oferecem para uma transformação educacional. É portanto nos usos que são mediados pelos três elementos do triângulo interativo (professor, aluno e conteúdos), seja condicionando e determinando as formas de organização da atividade conjunta, seja construindo um ambiente ou espaço de ensino e aprendizagem, a relação da qual cabe esperar, em nosso critério, que o potencial das TIC para transformar e inovar as práticas educacionais se expresse com especial intensidade (COLL: MAURI; ONRUBIA, 2010, p. 86). A incorporação das TIC na educação deve estar centrada para além de uma imposição social, pois do contrário estará apenas substituindo recursos tradicionais, como giz e lousa, por recursos tecnológicos como computadores ou projetores, será apenas uma inserção material e sem significado. REFERÊNCIAS Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001160 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 11 BAIRRAL, M. A.; ABREU, P. F. Política de inclusão digital mediante a informática educativa: um estudo com professores de matemática, refletindo sobre objetivos do Cabri, do Excel e do PowerPoint. ZETETIKE. Campinas, v. 17, p. 151-180, 2009. Disponível em: http://www.fe.unicamp.br/revista/index.php/zetetike/article/view/2577/ 2321. Acesso em: 25 fev. 2012. CANNONE, G.; ROBAYNA, M.S.; MEDINA, M. M. P. O ensino da matemática e as novas tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC): estudo de caso de um grupo professores de ensino fundamental, Ciclo I, em Tenerife – Espanha. ZETETIKÉ, Campinas, v. 16, n. 30, p. 107-138, jul./dez. 2008. Disponível em: http://www.fe.unicamp.br/zetetike/viewissue.php?id=21. Acesso em: 18 fev. 2012. CARNEIRO, R. F.; PASSOS, C. L. B. Vivências de professores de matemática em início de carreira na utilização das tecnologias da informação e comunicação. Zetetiké. Campinas, v. 17, n. 32, p. 101-134, jul/dez 2009. Disponível em: http://www.fe.unicamp.br/revista/index.php/zetetike/article/view/2718/2444. Acesso em: 25 fev. 2012. CARNEIRO, R. F.; PASSOS, C. L. B. As Concepções de Professores de Matemática em Início de Carreira sobre as Contribuições da Formação Inicial para a Utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação. Bolema, Rio Claro (SP), v. 23, n 36, p. 775 a 800, agosto 2010. COLL, C.; MAURI, T.; ONRUBIA, J. A incorporação da informação e da comunicação na educação. In: COLL, C. MONEREO, C. (Org.) Psicologia da Educação Virtual: aprender e ensinar com as Tecnologias da Informação e da Comunicação. Porto Alegre: Artmed, 2010. p. 66-93. GADANIDIS, G.; NAMUKASA, I.; MOGHADDAM, A. Matemática-para-professores Online: facilitando mudanças conceituais nas visões sobre matemática de professores do ensino elementar. Bolema. Rio Claro (SP), ano 21, n. 29, 2008, p. 131-155. GOMES, N.G. Computador na escola: novas tecnologias e inovações educacionais. In: BELLONI, M. L. (Org.). A formação na sociedade do espetáculo. São Paulo: Loyola, 2002. p.119-134. MARIN, D. Professores de Matemática que usam a Tecnologia de Informação e Comunicação no ensino superior. Bolema, Rio Claro, ano 22, n. 32, 2009. MARIN, D. Professores de Matemática que usam a Tecnologia de Informação e Comunicação no ensino superior. 2009. 162 f. Dissertação (Mestrado em Educação Matemática) – IGCE. Unesp, Rio Claro. Disponível em: http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/brc/33004137031P7/2009/marin_d_m e_rcla.pdf. Acesso em: 25 fev. 2012. MÜLBERT, A. L. ; BITTENCOURT, D. F. ; ROESLER, J. Do e-learning ao mlearning - reflexão para a mudança. Revista do Centro de Educação a Distância – CEAD/UDESC, v. 2, n. 2, p. 89 – 101, nov./dez 2009. Disponível em: http://revistas.udesc.br/index.php/udescvirtual/article/viewFile/1972/1530. Acesso em: 18.fev.2012 Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001161 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 12 OLIVEIRA, C. E. Expectativas e dificuldades de licenciandos em matemática relativas ao uso da Tecnologia informática. 2008. 95 f. Dissertação (Mestrado em Educação Matemática). Instituto de Geociências e Ciências Exatas. Unesp. Rio Claro. Disponível em : http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/brc/33004137031P7/2008/oliveira_ce _me_rcla.pdf. Acesso em: 23.fev.2012. PAPERT, S. Qual é a grande idéia? Passos em direção a uma pedagogia do poder das idéias. Teoria e Prática da Educação, Maringá: DTP/UEM, p. 369-387, 2003.Edição Especial. RICHIT, A.; MALTEMPI, M. V. Desafios e Possibilidades do Trabalho com Projetos e com tecnologias na Licenciatura em Matemática. ZETETIKÉ – FE – Unicamp – v. 18, n. 33 – jan/jun – 2010. Disponível em: http://www.fe.unicamp.br/zetetike/viewarticle.php?id=474&layout=abstract. Acesso em: 18 fev. 2012. ROSADO, E. M. S. Contribuições da psicologia para uso da mídia no ensinoaprendizagem. Águas de Lindóia: Anais do Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino. p.217-237, 1998. TRACTENBERG, L.; BARBASTEFANO, R.; STRUCHINER, M..Ensino Colaborativo Online (ECO): uma experiência aplicada ao ensino da Matemática. Bolema. Rio Claro (SP), v.23, n. 37, p. 1037-1061, dez. 2010. Disponível em: http://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/bolema/article/view/4314/3445. Acesso em: 15 ago. 2011. VALENTE, J. A. (Org.) Análise dos diferentes tipos de softwares usados na educação. In: VALENTE, J. A. O computador na sociedade do conhecimento. Campinas: UNICAMP/NIED, 1999, p. 89-110. VICENTELLI, H; WITTER, G. Producción Cientifica: Revista de Pedagogía de La Universidad Central de Venezuela (1971-2005). Revista de Pedagogía, Escuela de Educación Universidad Central de Venezuela, Caracas, Vol. 30, Nº 86, 161-188,EneroJunio de 2009. Disponível em: http://saber.ucv.ve/ojs/index.php/rev_ped/article/view/629. Acesso em: 13. set.2011. VIOL, J. F. A natureza da aprendizagem matemática em um ambiente online de formação continuada de professores. Bolema. Rio Claro, ano 22, n. 32, p. 241-246, 2009. ZULLATO, R.B.A. A natureza da aprendizagem matemática em um ambiente online de formação continuada de professores. 2007. Tese (Doutorado em Educação Matemática) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro. Disponível em: http://www.rc.unesp.br/gpimem/downloads/teses/zulatto_rba_dr_rcla.pdf. Acesso em: 23.fev.2012. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001162