Software livre na disciplina de
Tecnologias da Informação e
Comunicação
Autores
Alexandre Martins ([email protected])
Carla Mansilha ([email protected])
Fernando J. Leal ([email protected])
Tiago Assis Barbedo ([email protected])
1.
Introdução
O fenómeno do software livre está cada vez mais difundido, sendo o sector da
Educação um dos que mais o tem adoptado e contribuído para a sua divulgação.
A Escola Secundária Artística de Soares dos Reis há já alguns anos que tem vindo a
preferir soluções baseadas em software livre quer a nível do seu sistema de informação,
gestão de rede e serviços, quer a nível pedagógico [1]. Neste sentido, no passado ano lectivo
optou-se pelo uso de software livre na disciplina de Tecnologias de Informação e
Comunicação (TIC), recentemente incluída em todos os currículos para os alunos dos 9º e 10º
anos de escolaridade.
Seguidamente descreve-se a experiência de utilização de software livre na disciplina
de TIC (10º ano), abordando não só as principais vantagens obtidas, como as principais
dificuldades deparadas.
Para além disso, analisam-se os resultados das respostas dos alunos a um inquérito
que procurou aferir a sua opinião acerca da utilização de software livre.
2.
A Escola Secundária Artística de Soares dos
Reis
As origens desta Escola remontam ao ano de 1885 e, desde então, esteve sempre
esteve ligada ao ensino artístico, em particular, ao das artes visuais. Actualmente, é uma
Escola Especializada em Ensino Artístico, vocacionada para o ensino e a prática das artes
visuais,
oferecendo
quatro
cursos
artísticos
especializados:
Curso
de
Comunicação
Audiovisual, Curso de Design de Comunicação, Curso de Design de Produto e Curso de
Produção Artística. Estes quatro cursos, exclusivamente dirigidos para o nível de estudos
secundários, decorrem em três anos - 10º,11º e 12º - e funcionam em regime de frequência
diurna e nocturna. Estão orientados numa dupla perspectiva: o prosseguimentos de estudos
em cursos de especialização tecnológica ou de ensino superior (universitário ou politécnico) e
a inserção no mundo do trabalho.
3.
A disciplina de TIC
No sentido de assegurar que todos os jovens que frequentam o ensino básico e
secundário desenvolvam um conjunto de competências mínimas na área das novas
tecnologias, foi introduzida uma nova disciplina de carácter obrigatório nos planos de estudo
do 9º e 10º anos de escolaridade, designada “Tecnologias de Informação e Comunicação”
(TIC).
No que diz respeito aos conteúdos para 9º ano de escolaridade é feita uma
abordagem inicial às TIC, começando pelos conceitos introdutórios e funcionamento básico
de um computador, seguindo-se o estudo do sistema operativo, processamento de texto e
criação de apresentações. No 10º ano são abordadas as unidades: Trabalho de projecto,
Folha de cálculo, Introdução aos sistemas de gestão de bases de dados (SGBD) e Criação de
páginas Web [2].
Em ambos os programas existem unidades alternativas que poderão ser abordadas
com alunos que mostrem já dominar as competências essenciais:
• Sistema operativo Linux;
• Aquisição e tratamento de imagem bitmap;
• Aquisição e tratamento de imagem vectorial.
No programa do 9º ano estão também como unidades alternativas: Folha de cálculo e
Criação de páginas Web, pertencentes ao 10º ano.
4.
Software livre
Resumidamente, o software livre caracteriza-se pela liberdade conferida ao utilizador
de usar, distribuir, estudar, alterar ou melhorar um programa [3].
Na base da opção pela utilização de software livre esteve a consideração das várias
vantagens inerentes que poderiam beneficiar quer os alunos, quer o próprio funcionamento
da disciplina [4]. Essas vantagens podem ser agrupadas em:
• pedagógicas;
• económicas;
• técnicas.
Utilizando software livre é possível oferecer aos alunos os programas utilizados nas
aulas para que possam instalar e utilizar em suas casas. Deste modo, garante-se que podem
praticar em casa os conteúdos leccionados nas aulas. Evita-se também a cultura das cópias
ilegais de software (vulgo, pirataria), contribuindo assim para uma maior consciência social e
moral dos alunos. Para além disso, como o software livre é desenvolvido pela contribuição e
partilha de conhecimento, estamos também a incutir e fomentar junto dos alunos estas
atitudes. Finalmente, uma vez que o código é aberto, é possível aos alunos e professores
estudar a forma como as ferramentas estão implementadas.
A vantagem económica mais evidente é a poupança em termos de licenciamento de
software. Esta vantagem aplica-se não só às escolas mas também aos próprios alunos e
encarregados de educação.
No que diz respeito a vantagens técnicas, salienta-se a fiabilidade e segurança do
software livre e a sua maior imunidade a vírus, worms, etc.
5.
5.1.
TIC na ESSR
Soluções adoptadas
Com vista a uma maior integração da disciplina no currículo dos cursos existentes na
ESSR, decidiu-se incluir as unidades de tratamento de imagem e desenho vectorial no plano
da disciplina. Desta forma, foi possível realizar alguns trabalhos interdisciplinares e
desenvolver um conjunto de conhecimentos que seriam alvo de aplicação prática aquando
da unidade Criação de páginas Web. Optou-se por uma abordagem mais breve na unidade
Introdução aos SGBD de modo a permitir a inclusão destas unidades.
Posteriormente, os professores consideraram a hipótese da inclusão de software livre
na disciplina de TIC para dar continuidade a um conjunto de experiências que vinham a ser
realizadas por vários professores em disciplinas que utilizavam as TIC para o seu
funcionamento (ex.: Multimédia, Meios Digitais, etc). Analisando o programa da disciplina,
verificou-se que era possível o seu cumprimento integral recorrendo às opções de software
livre existentes.
Como foi referido, esta opção permitiria a distribuição gratuita do software leccionado
nas aulas de forma a que os alunos o pudessem instalar livremente e sem custos de
licenciamento nos seus computadores pessoais. Se a disciplina pretende a difusão e
massificação da utilização das TIC, a livre distribuição das ferramentas utilizadas é um factor
chave para o cumprimento deste objectivo. Para além disso, as ferramentas adoptadas
estavam disponíveis em todos os sistemas operativos existentes: MS Windows, Apple Mac OS
X e Linux. Evitar-se-iam também despesas adicionais de licenciamento de software para a
leccionação da disciplina.
Assim, começou-se o ano lectivo por uma breve introdução ao sistema operativo
Linux (Fedora Core 4 [5]) abordada essencialmente na óptica do utilizador. Relativamente às
restantes unidades, foram leccionadas utilizando as seguintes ferramentas:
• Folha de cálculo: OpenOffice Calc [6]
• Sistemas de Gestão de Bases de Dados: OpenOffice Base [7]
• Tratamento de Imagem: GIMP (GNU Image Manipulation Program) [8]
• Desenho Vectorial: Inkscape [9]
• Criação de páginas Web: NVU [10]
5.2.
Problemas encontrados
Um dos principais obstáculos, que se conhecia previamente, era o facto de algumas
das aplicações adoptadas não terem versões em língua portuguesa ou, a existirem, estarem
apenas parcialmente traduzidas o que, para alguns alunos, podia constituir uma dificuldade.
No entanto, verificando-se que muitas das aplicações profissionais na área das artes digitais
existem apenas na Língua Inglesa, entendeu-se que poderia ser oportuna a introdução de
termos técnicos que os alunos terão de dominar no seu futuro.
Um outro aspecto a considerar foi o facto de a distribuição de Linux utilizada
apresentar algumas falhas no que diz respeito à estabilidade ocorrendo, por vezes, crashes
súbitos em algumas aplicações. No caso do OpenOffice Base salientou-se a falta de
maturidade da aplicação (na altura ainda na sua primeira versão). No entanto, alguns destes
problemas foram sendo solucionados com as actualizações da própria distribuição ou
recorrendo às versões mais actuais das aplicações.
5.3.
Feedback dos alunos
Para aferir a opinião dos alunos e identificar as suas principais dificuldades na
utilização de software livre, optou-se por aplicar um inquérito. Este foi respondido por 107
dos cerca de 200 alunos que frequentaram a disciplina. Como suporte, utilizou-se a
plataforma Moodle existente na Escola e utilizada na disciplina de TIC [11].
De uma forma geral, o inquérito estava dividido em 3 partes:
• Caracterização da utilização de TIC em casa;
• Software utilizado (livre ou proprietário);
• Software livre na disciplina de TIC.
Este inquérito permitiu obter um conjunto de resultados que merecem reflexão1:
• 59% dos alunos que responderam ao inquérito nunca tinham ouvido falar de
software livre antes de ser abordado na disciplina;
• 72% instalaram algum do software livre utilizado nas aulas;
• 52% tencionam continuar a utilizar software livre no seu futuro e 40% acham
1
Os resultados do inquérito, obtidos directamente da plataforma Moodle, encontram-se em anexo a
este texto.
provável;
• 64% acham o software livre equivalente a outro software;
• 80% julgam que a principal vantagem da utilização de software livre em TIC é a
possibilidade de o instalarem livremente;
• 31% consideraram a língua/tradução uma das principais dificuldades na sua
utilização;
• 57% concordam totalmente e 38% concordam com a utilização de software livre
na disciplina de TIC.
Pode-se concluir que existe ainda uma grande falta de divulgação destas
ferramentas. Todavia, os alunos entenderam os seus princípios e, de uma maneira geral,
concordam com a sua utilização no âmbito da Educação. No entanto, a dificuldade com a
Língua Inglesa e, por outro lado, a carência de versões em Português constituem um
obstáculo à sua utilização.
5.4.
Trabalho futuro
Após este ano lectivo, entendeu-se que se devia dar continuidade a esta experiência
introduzindo algumas melhorias, sobretudo no que respeita às versões traduzidas e ao
desenvolvimento de mais documentação em Língua Portuguesa. Apesar da existência de
muita documentação gratuita e muitas comunidades disponíveis para auxiliar através de
fóruns e chats, a maior parte utiliza Língua Inglesa.
No sentido de colmatar as dificuldades sentidas optou-se, para o ano lectivo 20062007 por uma distribuição com melhor suporte em Língua Portuguesa e que tem apresentado
uma maior estabilidade (Ubuntu [12]).
A ESSR está também a desenvolver um projecto composto por pequenos grupos de
investigação que se encarregarão de estudar, analisar cada uma destas ferramentas e
produzir material didáctico de apoio à sua utilização.
6.
Conclusões
Os pressupostos em que o software livre se baseia enquadram-se perfeitamente num
cenário educativo e, em particular, na disciplina de TIC. Os alunos compreendem quer estes
pressupostos, quer as vantagens da utilização deste software na Escola. De uma forma geral,
o software livre atingiu uma maturidade e um nível que permite a sua utilização nesta
disciplina, não pondo em causa o cumprimento do currículo.
A evolução rápida do desenvolvimento das aplicações e o crescimento da
comunidade de utilizadores lusófonos, poderão vir a colmatar algumas das limitações no que
respeita à maturidade de algumas aplicações e às versões em Língua Portuguesa.
Referências
[1] A utilização de Software Livre na ESSR, https://www.essr.net/essr_gnu
[2] João, Sónia Mildred, Programa de Tecnologias da Informação e Comunicação - 9º e 10º
anos, 2003, http://www.dgidc.min-edu.pt/programs/prog_hom/tic_9_10_homol.pdf
[3] Free Software Foundation, Inc., The Free Software Definition,
http://www.fsf.org/licensing/essays/free-sw.html
[4] Leal, Fernando J., Reflexão sucinta sobre a adopção de software livre na Escola, 2005,
http://www.essr.net/portal/docs/software_livre_escola.pdf
[5] Fedora Project, http://fedora.redhat.com
[6] Open Office Calc, http://www.openoffice.org/product/calc.html
[7] OpenOffice Base, http://www.openoffice.org/product/base.html
[8] GIMP - The GNU Image Manipulation Program, http://www.gimp.org/
[9] Inkscape - Open Source Scalable Vector Graphics Editor, http://www.inkscape.org/
[10] NVU - Web Authoring System, http://www.nvu.com
[11] Moodle - Course Management System, http://moodle.org/
[12] Ubuntu, http://www.ubuntu.com
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Mansilha, Fernando J. Leal, Tiago Assis Barbedo.
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