Mario da Silva Oliveira Gestão Setorial - Produção “De maneira geral, o principal ponto da área de produção no estabelecimento gastronômico é a cozinha.” (Mario da Silva Oliveira) Gestão Setorial – Produção 1 De maneira geral, o principal ponto da área de produção no estabelecimento gastronômico é a cozinha. Temos também o bar, a panificação, a confeitaria e outros, de acordo com a estrutura de cada estabelecimento do setor de A&B. A produção caracteriza-se por transformar matéria-prima em produto final a ser consumido. De outra forma, a atividade de atendimento de clientes no salão de um restaurante promove a venda de produtos e a prestação de serviços como mais uma das unidades de negócio. De acordo com a estrutura de cada estabelecimento, identificam-se as unidades de negócio como os setores, áreas, departamentos ou partes de uma empresa que realizam negócios e/ou prestam serviços aos clientes na busca de receitas para a empresa. As unidades de negócio são células autônomas na estrutura por obter: receitas, gastos e resultados próprios, como se fossem empresas individuais dentro de uma mesma empresa. De acordo com a complexidade de cada empresa, devem ser analisados e controlados de forma individual e criteriosa (cozinha - quente e fria -, bar(es), padaria, confeitaria e outras) para que resultados negativos de setores ineficientes não sejam acobertados por outros eficientes e geradores de lucros. 1. Ficha Técnica le É um dos mais importantes documentos de um restaurante. Registra a elaboração dos pratos e as matérias-primas utilizadas, de duas formas: - Operacionalmente: identifica etapas da produção. - Gerencialmente: identifica os custos da matéria-prima. Alem disso, estabelece importantes parâmetros operacionais: - registra a quantidade de matéria-prima utilizada; - padroniza a montagem do prato; - identifica os custos de produção; - registra os processos de produção; - mantém um histórico das preparações do restaurante; - permite a comparação das informações de consumo; - facilita as projeções de compras e especificações de mercadorias; - ajuda a controlar os volumes de matéria-prima requisitados; - proporciona a comparação entre as informações de consumo com informações de venda. 2 Gestão Setorial – Produção **Modelo adotado pela Escola de Gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi Instrução para preenchimento das células da ficha técnica Nome do Prato: deve figurar nesta célula o nome que irá constar no cardápio. Grupo: trata-se do grupo de alimentos em que o prato deve ser classificado: entrada, carnes, saladas, sobremesas etc. Código: numeração do prato de acordo com o “plano de contas”. Número que o identifica para efeito de controle de vendas. Para que seja um número permanente, além da numeração, pode-se complementar com dados relativos ao mês e ao ano em que o prato permanecerá no cardápio. Por exemplo: Código : 203/0305 (número 203, do grupo 200; 03 – do mês de março e 05 – do ano de 2005). Gestão Setorial – Produção 3 Observações: campo destinado para que se apresente alguma particularidade da ficha técnica do prato ou do produto. Por exemplo: quando se trata da ficha de um molho a ser utilizado em outros pratos (molho ao sugo utilizado nos pratos de massa: 402, 405, 408 etc.). Data: campo para registro da data em que o foi finalizada a elaboração do prato. Ingredientes: lista dos ingredientes ou a matéria-prima que será utilizada no preparo do prato. Devem ser especificados, um a um, todos os ingredientes. Unidade: muitas vezes, para identificar a unidade, utiliza-se como padrão de medida o padrão referido na nota fiscal de compra dos produtos. Porém, o ideal, para efeito de controle de custos e baixa de estoque é utilizar o menor número possível de unidades, centrando em: quilo, litro, unidade, quanto baste e porção. Dentre as unidades temos: Co = consumo de óleo Dz = dúzia Kg = quilo Lt = litro Mç = maço Pé = pé Pç = porção Qb = quanto baste Us ou Un = unidade Quantidade Líquida: é a quantidade de produto (ingrediente) pronta para ser servida ou posta no prato do cliente após o preparo. Trata-se da quantidade de produto efetivamente pronta para ser utilizada, isentas de perdas do processo de cocção. As quantidades devem ser expressas em unidades-padrão: 4 • Quilo = 0,250 Kg • Litro = 0,200 Lt • Porção = 01 • Unidade = 02 Gestão Setorial – Produção Observações: 1. CONSUMO DE ÓLEO: para calcular a quantidade de óleo gasta com ingredientes que são fritos, em fritadeira, pode-se apropriar o custo de duas formas: • divide-se o óleo consumido em um determinado período pelo número de pratos que utilizam fritura nesse mesmo período; • faz-se uma apropriação do tipo quanto baste para facilitar a valoração do custo da fritura utilizada em cada prato. 2. QUANTO BASTE (Qb): trata-se da unidade que irá identificar os ingredientes com participação muito baixa em quantidade e custo; ingredientes que não interferem significativamente na composição do custo do prato e, se valorizados por peso ou litro, seu custo não alcançará R$ 0,01. Esses produtos são: sal, pimenta, ervas aromáticas, azeite, óleo etc. Seria o mesmo que dizer “um punhado” de sal ou “um fio” de óleo. A valoração do custo do ingrediente “quanto baste” pode se dar por: • centavos de real digitados na coluna de custo bruto: R$ 0,01 ou até R$ 0,05; saiba mais • apropriação do consumo de sal em um determinado período, nos moldes da apropriação do “consumo de óleo”. 3. PADRÃO DE PESO E LITRO: veremos a seguir, mas é importante frisar a relevância da utilização na ficha técnica do padrão quilo (Kg) e litro (Lt) e não, os padrões grama (Gr) e mililitro (Ml), pois aquela padronização facilita na obtenção dos resultados de custo financeiro da ficha. Gestão Setorial – Produção 5 Rendimento: é o índice percentual (%) de aproveitamento de determinada matéria-prima. Reflete o que efetivamente utiliza-se de um ingrediente no preparo e cocção. São excluídos dos 100% originais (quantidade bruta) as perdas do processo de corte, limpeza, lavagem etc. Pesa-se a quantidade bruta (matéria-prima “in natura”) e, depois de finalizado o preparo, pesa-se novamente para verificar a quantidade líquida obtida. O quociente entre quantidade líquida, dividido pela quantidade bruta resulta em um índice percentual que é o rendimento (quanto rendeu de produto original). Na ficha técnica, deve estar grafado o rendimento de cada ingrediente utilizado no preparo de cada prato. Porém, de tempos em tempos, deve-se refazer os cálculos de rendimento em função de que alguns lotes de mercadorias podem apresentar variações de rendimento ou, os processos operacionais podem sofrer modificação. Exemplo: digamos que uma carne de 300 gramas fica com 225 gramas depois de pronta. Então teremos: Rendimento = QUANTIDADE LÍQUIDA R = 0,225 Kg ÷ 0,300 Kg = 0,75 ÷ QUANTIDADE BRUTA ⇒ a carne rendeu 75% Outro exemplo interessante é do arroz que aumenta de peso com a água: R = 0,200 Kg ÷ 0,100 Kg = 2,00 ⇒ o arroz rendeu 200% Fator de Correção: é o número inverso do rendimento ou o valor que resulta do quociente entre quantidade bruta dividido por quantidade líquida, ou seja, trata-se da quantidade que se deve ter de produto inicial (bruto) para se obter uma quantidade final (líquida). Fator de correção = 1 ÷ Rendimento FC = 1 0,75 = 1,33 FC = QB ÷ QL ⇒ 1,33 x 0,225Kg = 0,300Kg FC = 0,300 Kg 6 ou, ÷ 0,225 Kg = 1,33 Gestão Setorial – Produção Quantidade Bruta: conforme visto acima, a quantidade bruta é o volume de matéria-prima (ingrediente) a ser requisitada para compra no preparo de um prato ou produto. É a matériaprima bruta adquirida junto aos fornecedores. QB = QL ÷ Rendimento ou, QB = QL x FC QB = 0,225 Kg ÷ 0,75 = 0,300 Kg ⇒ QB = 0,225 Kg x 1,33 = 0,300 Kg Adiante, será discutida a questão do rendimento de produtos e a melhor-valia entre a compra de produto pré-elaborado ou pré-porcionado. ($) Custo Unitário ou Valor Unitário: é o valor de custo por unidade de cada produto. Será obtido junto às notas fiscais de compra dos insumos (matéria-prima). ($) Custo Bruto ou Custo Total de Ingrediente: é o custo ($) da quantidade bruta de cada ingrediente da ficha técnica. Caso o quilo da carne custe R$ 10,00, teremos: Custo bruto = valor unitário x quantidade bruta ⇒ CB = R$ 10,00 x 0,300 Kg = R$ 3,00 Valor Total da Ficha Técnica ($): é o somatório do custo de todos os ingredientes ou o custo de matéria-prima da ficha técnica. VT = Σ CB de toda a ficha técnica Nº de Porções (ou rendimento de porções): a quantidade de ingredientes utilizados no preparo pode gerar mais de uma porção (mais de 01 prato). Assim, pode-se desenvolver fichas técnicas para uma porção (01 prato) ou várias porções. Muitas vezes, o preparo de uma única porção pode gerar um CMV por prato (unitário) diferente de um preparo para várias porções. Sendo assim, é interessante apurar as fichas técnicas de uma porção e de várias porções e também a forma como se dá a produção normal, no momento da operação. Custo Unitário ou Valor da Porção: é o valor ou custo de cada prato que a receita rende, ou seja, o custo total do preparo da ficha técnica dividido pelo número de porções indicadas no “Nº de porções”. Será considerado como o CMV do prato (o custo da mercadoria que será vendida). Valor da porção = VALOR TOTAL DA FICHA TÉCNICA ÷ Nº DE PORÇÕES ⇒ VP = R$ 10,00 ÷2 = R$ 5,00 Gestão Setorial – Produção 7 Percentual de Participação: é o valor de cada matériaprima utilizada no preparo em relação ao total da ficha técnica. Detecta quais itens possuem maior influência e com que percentual. leitura recomendada % de participação = custo bruto do ingrediente ÷ valor total da ficha técnica Periodicamente, deve-se fazer um levantamento do custo de cada produto (ingrediente) na produção do período. Esse custo será lançado em uma ficha de apuração de consumo de cada item. % de Indexação ou % de Precificação: este campo está destinado ao estudo do índice percentual de CMV mais adequado para utilizar-se na indexação ou precificação de um prato, como veremos na próxima aula, item de política de preços. Na célula (%), aplica-se o índice percentual que se está estudando. Na célula ($), tem-se o resultado da divisão do custo unitário pelo índice de CMV estudado. para um CMV de 30% = 0,30 teremos: Exemplo: para um CMV de 30% = 0,30, teremos: R$ 5,00 ÷ 0,30 = R$ 16,666 R$ 16,666 = possível valor de venda do prato Preço de Venda ($): deve-se estudar o preço de venda com base no índice de CMV a fim de ser definido para o prato (produto). O preço de venda depende do mercado, ou seja, depende diretamente de sua adequação ao preço praticado pelo mercado (conjunto de estabelecimentos com as mesmas características de tipologia e conceito). Margem de Contribuição ($) e (%): financeiramente, é a diferença entre o preço de venda e o custo unitário ou custo de porção [valor ($)]. Percentualmente (%), é o quociente resultante entre o seu valor financeiro, dividido pelo preço de venda. Margem de Contribuição = preço de venda – custo unitário ⇒ MC = $ 16,66 – $ 5,00 = R$ 11,66 8 Livro: Administração de custos em Hotelaria Autor: Zanella, Luiz Carlos A contabilidade e o sistema de custos são pontos-chave para o administrador atuar em todas as linhas da organização. A contabilidade fornece informações econômicas, patrimoniais e financeiras. O sistema de custos é um instrumento de controle e gestão que interfere em operações, custos, volume de produção, preço e lucro, que são os elementos fundamentais para a avaliação de desempenho e tomada de decisões. Essas técnicas são abordadas nesta obra. A matéria é apresentada de forma didática e prática, sendo recomendada para administradores, contadores, estudantes e profissionais de hotéis, restaurantes e similares. Gestão Setorial – Produção % de Margem de Contribuição = MC ÷ preço de venda ⇒ % MC = $ 11,66 ÷ $ 16,66 = 0,6996 ⇒ 0,70 ou, 70% de margem de contribuição Modo de Preparo: é a receita do prato ou a descrição de como se deve preparar ou conduzir o preparo do prato. É importante frisar que muitas e diferentes pessoas poderão utilizar a ficha técnica. Assim, no modo de preparo, as frases precisam ter clareza e objetividade em seu enunciado. Caso se faça necessário, amplia-se o número de linhas, porém o texto não pode ser extenso. A foto do prato pronto e como deve ser servido, ao ser afixada na ficha técnica, promoverá a manutenção do padrão de qualidade que se quer definir. saiba mais OBSERVAÇÕES: 1. No caso do emprego de produtos já elaborados, tais como, molhos e outros, devese abrir uma ficha técnica relativa a cada um desses produtos, sendo que o custo da porção de molho será computado na ficha técnica do prato principal. 2. Quando se tratar de venda em forma de buffet (restaurante a quilo, executivo, café da manhã etc.), para aferição do custo do buffet, deve-se elaborar uma ficha técnica que contemple todos os produtos servidos. Cada prato do buffet será lançado como porção da ficha técnica. Gestão Setorial – Produção 9 Fonte: FONSECA, Marcelo Traldi. Tecnologias gerenciais de restaurantes. SENAC. São Paulo: 2000 2. Ficha de Rendimento A ficha de rendimento é um instrumento de controle utilizado para avaliar o rendimento e porcionar alimentos adquiridos em peça ou em forma bruta (sem nenhum pré-preparo). Esses produtos, ao serem porcionados (divididos em porções de uso), geram sub-produtos (aparas, gorduras etc.), muito comum em carnes, peixes e aves. No caso de alguns produtos, pode valer a pena comprar a peça inteira, fazer a limpeza, o porcionamento em filés (uso principal) e utilizar as sobras em outros produtos (uso secundário), como recheios de massas etc. 10 Gestão Setorial – Produção Para outros produtos pode-se chegar à conclusão de que é mais interessante adquiri-los já porcionados, devidamente embalados, na quantidade e tamanho pré-estabelecidos na compra junto a fornecedores especializados. A partir do preço da peça bruta, ao limpar e separar as partes (sub-produtos) da peça bruta, calcula-se o peso e o valor de cada parte; subtrai-se da peça inteira aqueles sub-produtos e chega-se ao peso e valor da peça limpa ou da parte nobre do ingrediente. Peso da peça bruta: peso, preço por Kg e valor total de acordo com dados extraídos da nota fiscal. A partir da peça bruta, deve-se separar e pesar cada uma das partes (gordura, ossos etc.). Depois que são pesadas: gordura, carne para moer, aparas e ossos (sub-produtos), um valor “de mercado” é definido para cada uma dessas partes. Multiplicando os pesos pelo preço definido para os sub-produtos irá proporcionar o preço final de cada um desses subprodutos. Peso da carne limpa: a partir do peso da peça bruta inicial, subtrai-se o peso de todas as partes consideradas como sub-produto. O novo peso é dividido pelo peso bruto para determinar o percentual de aproveitamento (rendimento) da peça bruta. Por fim, a divisão do preço final pelo peso da peça limpa indica o preço por quilo limpo final. Exemplo: Ingrediente Filé Mignon Quantidade adquirida 15 kg Preço por Kg R$12,60 Valor pago R$ 189,00 Gestão Setorial – Produção 11 ⇒ Preço por Kg = preço final total ÷ ⇒ Preço/KG = Rendimento = peso total por Kg R$ 181,00 ÷ 12,70 Kg = R$ 14,251 12,700 = 0,84887 ⇒ 84,88% 15,000 Fator correção = 1 _______ = 1,181098 0,84667 12 Gestão Setorial – Produção Tabela de Fator de Correção A tabela abaixo foi construída no sentido de exemplificar a relação existente entre o rendimento e o fator de correção, no qual 100% de rendimento tem um fator 1,000; 80% de rendimento tem um fator 1,25 e assim por diante. Fique por dentro Note-se que RENDIMENTO é o índice calculado a partir da QUANTIDADE BRUTA para se obter a QUANTIDADE LÍQUIDA. O quociente de QUANTIDADE LÍQUIDA /QUANTIDADE BRUTA. FATOR DE CORREÇÃO é o multiplicador que, aplicado à QUANTIDADE LÍQUIDA, resulta na QUANTIDADE BRUTA que se necessita adquirir: QUANTIDADE LÍQUIDA x FATOR DE CORREÇÃO = QUANTIDADE BRUTA. Algumas pessoas, chefs inclusive, utilizam a mesma nomenclatura para designar o rendimento. O jargão “fator de correção” é utilizado para designar o rendimento. Gestão Setorial – Produção 13 3. Brigada de Produção Habilidades Operacionais - como fator de economia de custo Montar uma equipe de trabalho eficiente, comprometida e entrosada é o maior desafio para o empreendedor e para os gestores de um estabelecimento. Trabalhar em equipe, de forma eficiente, é determinante para o sucesso de uma operação. O planejamento detalhado desse trabalho baseia-se por definir funções, responsabilidades, rotinas, obrigações, deveres e a contratação de pessoal que deve ser treinado e competente. Porém, não garante um bom trabalho de equipe. O ponto de partida para avaliar, selecionar, gerenciar e treinar colaboradores é um bom planejamento da equipe com organograma, fluxograma e processos operacionais bem estabelecidos. Manuais com o descritivo de funções precisas e completas também são imprescindíveis. Essas instruções ajudam no planejamento de treinamento, pois identificam o que precisa ser desenvolvido na equipe; estruturam a avaliação formal periódica, pois mostram no treinamento fornecido, as expectativas com relação ao desempenho dos colaboradores, os pontos fortes e os que devem ser aprimorados. A descrição de funções com descrição de processos coordena o trabalho da equipe, identificando o fluxo de documentação e de informação necessários para o perfeito controle de cada processo operacional. O que mais observamos em equipes que estão começando a trabalhar é o desconhecimento das rotinas de trabalho, o fluxo de informação e documentação que cada um deve suprir a outros departamentos. Desta maneira, o improviso e a desorganização, muitas vezes, sobrecarregam a equipe, fazendo com que o trabalho seja mais demorado, cansativo e ineficiente, gerando os “custos invisíveis”. 14 Gestão Setorial – Produção Valorizar o colaborador, incorporar suas sugestões, oferecer treinamento e mostrar que existe uma política de benefícios e promoções justas são algumas das ações que diminuem o “turn-over” de uma operação e aumentam o comprometimento de cada um na equipe. Como conseqüência, diminui o custo de recontratação e treinamento de novos funcionários. Infelizmente, não é essa a postura da maioria dos empresários. Não são incomuns críticas que desqualificam a mão-de-obra, seu grau de preparo, seu comprometimento e disposição para o trabalho. No entanto, muito pouco se pensa na importância de uma operação com uma gestão de recursos humanos bem estruturada e que valorize a boa seleção e o treinamento de colaboradores. Parece que a crítica seria o caminho mais fácil, não o aprimoramento da gestão dos próprios negócios. Ser exigente com a brigada e premiá-la por meio de uma política de participação em resultados quantitativos e qualitativos, com certeza, melhora seu custo-benefício agregando valores para a empresa. Para a contratação é mister estabelecer as aptidões necessárias, perfil mais apropriado, qualidades obrigatórias e qualidades desejáveis para cada função. Além disso, estabelecer responsabilidades, rotinas e sistematização do trabalho de cada colaborador (principalmente dos gestores de cada setor). O planejamento deve ser realizado com cuidado por profissionais com experiência no negócio e implementado de maneira clara para que todas as pessoas identifiquem suas responsabilidades e obrigações. No negócio da área de hospitalidade, é importante que as pessoas sintam-se comprometidas com o sucesso do empreendimento e que cada membro da equipe aja como se fosse o “gestor” do processo que lhe cabe. Dimensionar uma brigada é garantir atendimento e produção no nível desejado e com a qualidade pretendida em todos os horários de funcionamento do estabelecimento, levando em conta os fatores de sazonalidade, as restrições legais, as características e o lay out do ambiente, através da maximização da carga horária de cada funcionário e minimização de seu custo. Dimensionar uma brigada de trabalho requer conhecimento da operação, das necessidades de habilidades específicas dos profissionais, das necessidades de produção e da capacidade dos equipamentos, entre outras variáveis. Não existe fórmula pronta para o dimensionamento de uma equipe. Para tanto, deve-se começar por levantar: 1. horários de funcionamento de cada operação (almoço, jantar etc.); 2. necessidades relativas a cada operação; 3. sazonalidade da demanda (datas e horários que poderá haver retração); 4. restrições da equipe para cumprir a jornada de trabalho: a. horário regulamentar: 44 horas semanais; b. intervalos: 01 hora para refeição; c. folgas mensais: quatro folgas (equivalente a um dia por semana); d. folga aos domingos: pelo menos um domingo por mês; e. limite máximo de 10 horas de trabalho com intervalo mínimo 11 horas entre entrada e a saída. Gestão Setorial – Produção 15 Montar quadro de horários por setor para um melhor dimensionamento das necessidades de mão-de-obra e estabelecer cronograma para: o dia-a-dia, a semana e a quinzena. consolidar as informações: - mensalmente ou a cada quatro semanas - anualmente: levando em consideração as férias, licenças previstas etc. Deve-se pensar na possibilidade de utilizar: folguistas, horistas, cooperados, funcionários de meio período e na adoção de banco de horas. Hoje, dependendo do tipo de operação, os gestores optam por comprar ingredientes préelaborados para diminuir a quantidade de pessoas na operação. Outra forma para diminuir a necessidade de mão-de-obra, é utilizar uma quantidade menor de produtos diferenciados, ou seja, utilizar produtos básicos semelhantes em mais de um preparo. Diminui o custo fixo, a necessidade de espaço, de equipamentos e cria um cardápio mais racional. Restaurantes de rede, muitas vezes, desenvolvem fornecedores de itens exclusivos, mas para isso precisam ter um volume de compras alto. Em outros casos, centralizam todo o processo de produção em uma “cozinha central”, diminuindo a necessidade de pessoal nas lojas e conseguindo maior padronização, ganhos de escala e menor custo. O grande investimento neste caso é em logística e o ponto crucial é atingir o volume de vendas necessário para justificar a cozinha central de distribuição. Brigada de produção Para dimensionar uma brigada de trabalho, deve-se analisar: 1. o cardápio; 2. os métodos de cocção utilizados; 3. as necessidades de pré-processamento e preparo; 4. a complexidade dos pratos; 5. a necessidade de capacitação específica; 6. o lay out da cozinha; 7. os equipamentos e utensílios disponíveis; 8. tempos e movimentos de cada processo. 16 Gestão Setorial – Produção Como já visto no início de nossos trabalhos, a organização tradicional de uma cozinha foi realizada por Auguste Escofier no final do século XIX. O trabalho de Escofier estabeleceu hierarquia, código de conduta e uniformização das atividades dos profissionais da cozinha em algumas funções que derivaram e podem ser organizadas por estações de trabalho, tais como: Chefe Executivo 2o cozinheiro Saladeiro Chefe de cozinha Saucier Masseiro Sub Chefe Garde-Manger Padeiro 1 cozinheiro Pâtissier Churrasqueiro Açougueiro Ajudante Chapeiro o Custo de mão-de-obra Paralelamente ao controle de CMV (custo da mercadoria vendida) e de acordo com a “tipologia” do estabelecimento, é importante ter em mente que a brigada de trabalho faz parte do custo fixo do estabelecimento e que será mais ou menos onerosa, de acordo com o nível de exigência, da qualificação dos produtos e dos serviços prestados. Além do controle financeiro sobre gastos tidos com a brigada, é importante estabelecer um índice de acompanhamento do custo da brigada frente à receita, a fim de se ter claro o quanto esse custo onera a receita. Em suma, trata-se de um índice que evidencia a compatibilidade do CMO com a receita e, por conseguinte, confronta-se com a tipologia do estabelecimento. CUSTO DE MÃO DE OBRA = CUSTO TOTAL C/ FUNCIONÁRIO ÷ RECEITA Hipoteticamente, tem-se: C. MÃO-DE-OBRA = R$ 25.000,00 R$ 60.000,00 C. MÃO-DE-OBRA = 0,416667 = 41,67% Significa dizer que o CMO representou 41,67% da receita de determinado período analisado. Gestão Setorial – Produção 17 O custo total de funcionário é representado pela soma de todos os gastos tidos, compreendendo: os salários (folha de pagamentos), encargos e os benefícios contratados (seguro-saúde, cesta básica etc.). Contabilizando-se todos os valores despendidos com funcionários pode-se chegar a um percentual relativo a 200%, ou mais, do salário contratado. Além do salário, há a incidência de encargos: FPAS (Fundo de Previdência e Assistência Social), FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), contribuições destinadas a terceiros (SESI, SESC, SENAC, INCRA etc.), férias remuneradas, 13º salário, adicional de salário noturno, horas extras etc. No tocante à convenção coletiva da categoria de funcionários ligados ao comércio alimentício, há especificações quanto: 1. Piso salarial: empresas que contratam plano de assistência médica para seus funcionários terão um piso salarial inferior ao das empresas que não concedem. Existem empresas cadastras junto ao sindicato com pacotes já formatados dentro das exigências da convenção coletiva de trabalho. 2. Auxílio uniforme: valor acrescido ao salário, a título de ajuda de custo, dos funcionários caso o estabelecimento não se encarregue da lavagem de seus informes. Observações: a. A média de horas extras e adicionais noturnos mensais é incorporada ao salário para cálculo de contribuições providenciarias e FGTS, bem como de rescisões. b. Feriados, se compensados, não são pagos com hora extra. Demais Encargos: 1. Vale-transporte: transporte coletivo para ida e volta ao trabalho, descontado 6% do funcionário até o limite do benefício. 2. Auxílio-maternidade: quatro meses pagos pelo INSS descontado do valor total da GPS. 3. Auxílio-doença: períodos de até 15 dias consecutivos são suportados pela empresa; o restante pela seguridade social. 4. Licença maternidade: período de 120 dias que a funcionária ausenta-se do trabalho e recebe o salário como no item 2, acima. 5. Seguro de vida (não obrigatório): a ser pago pela empresa para cada funcionário. Existem empresas cadastradas junto ao sindicato com pacotes já formatados dentro das exigências da convenção coletiva de trabalho. 18 Gestão Setorial – Produção Taxa de serviço De acordo com o contrato coletivo em convenção trabalhista da categoria (funcionários em estabelecimentos de A&B), a taxa de serviço, ou 10% de serviço, é considerada obrigatória: todos os funcionários que têm contato com os clientes devem receber uma gratificação pelo serviço. Muitos estabelecimentos incluem os profissionais da cozinha no rateio da taxa de serviço, pois consideram que a satisfação do cliente é resultado do trabalho das brigadas de cozinha e de salão. Por uma questão trabalhista e de incorporação dessas gratificações nos salários, existem duas possibilidades de cobrança de serviço previstas na convenção coletiva da categoria: 1. Incluir o serviço como obrigatório: nesse caso, fará parte do faturamento da empresa e incidirá sobre o valor do serviço todos os encargos trabalhistas normais. O sindicato permite que seja descontado pela empresa 35% do total do serviço recolhido e repassado aos funcionários, segundo tabela de rateio de serviço negociada com a equipe. 2. Definir como serviço não obrigatório (não incluir na conta): deve-se incorporar ao salário uma “estimativa de gorjeta” constante na convenção coletiva e não o total do serviço. A decisão sobre o rateio do serviço pago pelo cliente, “diretamente” à equipe, deixa de ter a atenção da empresa. Financeiramente, as duas opções se equivalem. A segunda, porém, retira da administração uma série de atribuições e diminui o nível de exposição da gerência às demandas dos profissionais que compõem a base para rateio da taxa de serviço. Terceirização de mão-de-obra Com a necessidade de enxugamento das estruturas, alguma diminuição de custo fixo e, principalmente, problemas nas relações trabalhistas diretas, muitos estabelecimentos optam pela contratação e prestação de serviços de terceiros (não diretamente ligados à operação) para funções de: manobristas, segurança, contadores, assessoria de marketing, manutenção, pessoal de RH, consultores de segurança alimentar etc. Para tanto, tem tornado-se freqüente a contratação de mão-de-obra ligada a cooperativas que atuam em atividades específicas. É importante frisar que o sistema cooperativista ainda é suscetível a algum tipo de discussão do ponto de vista trabalhista e o padrão de qualidade dessa mãode-obra pode vir a custar mais caro que a mão-de-obra regida pela CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), caso o estabelecimento de A&B trabalhe com estrito padrão de qualidade na prestação de serviços. Gestão Setorial – Produção 19 Prime Cost É o somatório dos custos de matéria-prima e custos de mão-de-obra. Representa o custo primário de produção, ou seja, a soma dos custos diretos com a produção: CMV + CMO. A composição do CMO do “prime cost” é representada só pela brigada de produção. Um dos primeiros passos de controle de custo é conhecer ou estabelecer um parâmetro para o “prime cost”. Genéricamente, o mercado adota um índice padrão para o “prime cost” de acordo com a tipologia do estabelecimento e define uma tabela, variável de acordo com a estrutura, mas que dá uma noção de controle de custo: A fórmula do “prime cost” será então expressa por: PRIME COST = CMV + CMO RECEITA E, hipoteticamente, pode-se ter: PRIME COST = R$ 15.000,00 + R$ 25.000,00 R$ 60.000,00 PRIME COST = R$ 40.000,00 = 0,66666 ou 66,67% R$ 60.000,00 Significa dizer que o PRIME COST (custo básico da produção: CMV + CMO) representou 66,66% da receita de determinado período analisado. 20 Gestão Setorial – Produção Anotações: bibliografia _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ FONSECA, Marcelo _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Traldi. Tecnologias _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ gerenciais de _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ restaurantes. SENAC. São Paulo: 2000. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ JEOLÁS, R.Sollberger _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ e Santos, Elias _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Gomes. O negócio em _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ alimentos e bebidas. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Ponto Crítico. São _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Paulo: 2000. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ NINEMEIER, Jack D. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Controles para _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ alimentos e bebidas. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Instituto de _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Hospitalidade. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Salvador: 2000. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ TEICHMANN, Ione. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Tecnologia culinária. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ EDUCS. Caxias do Sul: 2000. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ WALKER, John R., _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ LUNDBERG, Donald E. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ O restaurante: conceito _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ e operação. Bookman. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 3a. Ed. Porto Alegre: _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 2003. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ ZANELLA, Luiz Carlos. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Administração de _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ custos em hotelaria. 2ª _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ ed. EDUCS. Caxias do _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Sul: 2001. _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Gestão Setorial – Produção 21