1 GRUPO TEMÁTICO PERSPECTIVAS 6: CIUDADES INTERMEDIAS: TRANSFORMACIONES Y CIDADES MÉDIAS E OS “NOVOS ESPAÇOS PRODUTIVOS”: UMA ANÁLISE DA CIDADE DE UBERABA NO TRIÂNGULO MINEIRO Profa. Dra. Maria Terezinha Serafim Gomes Departamento de Geografia - Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM Centro Educacional - CE Av.Getúlio Guaritá, 159 CEP 38025-440 Uberaba/MG – Brasil Email: [email protected] 1. Introdução Nas últimas décadas vêm ocorrendo alteração no conteúdo da urbanização brasileira com uma grande concentração urbana nas metrópoles, com um esvaziamento das pequenas cidades e um crescimento das “cidades médias”. Estas cidades crescem mais que as metrópoles, ocorrendo um crescimento econômico, demográfico e também uma expansão territorial. As cidades médias vêm assumindo um papel relevante na organização do território. O processo de reestruturação produtiva vem produzindo “novos espaços produtivos”, resultante da “desconcentração industrial” a partir de São Paulo em direção ao Interior e a outros estados, no qual as empresas passaram a buscar por lugares vantajosos para sua reprodução, com menor custo de força de trabalho, com incentivos fiscais de governos, seja estadual ou municipal, bem como sem as “deseconomias de aglomeração” das grandes cidades e metrópoles. Desse modo, as cidades médias têm sido atrativas tanto população quanto para novos investimentos empresariais nos setores da indústria, do comércio e dos serviços, configurando-se como “cidades emergentes”, uma nova dinâmica econômica fora do espaço metropolitano. Neste texto, teceremos algumas considerações sobre cidades médias e os novos espaços produtivos, dando ênfase à cidade de Uberaba na região Triângulo Mineiro. Pode-se inferir que a cidade Uberaba-MG também faz parte dos “novos espaços produtivos”, por estar estrategicamente localizada e sua proximidade com estado de São Paulo, o que favorece a entrada de novos capitais produtivos. A temática de cidades médias tem sido objeto de análise de vários pesquisadores no Brasil e também de outros países. Dada a complexidade das cidades médias não é possível analisá-las apenas por critérios demográficos, pois os mesmos são insuficientes para definir o que vem a ser uma “cidade média”. O conceito de “cidades médias” surge na França no final da década de 1960, devido à necessidade de desaglomeração de população e equilíbrio econômico após a Segunda Guerra Mundial. Estas surgem num contexto de continuidade das metrópoles de equilíbrio, onde sua função é ordenar seus espaços e acentuar a complementaridade das suas 2 funções, sendo vistas como espaços complementares não como unidades opostas, de acordo com Costa (2002). Segundo Costa (2002,p.21): Num quadro de globalização a individualização e caracterização das cidades médias passa pela identificação das dinâmicas fundadas nos recursos locais e na articulação com o meio social, cultural e ambiental. A regulação esta presente quando interagem de forma equilibrada, as esferas econômicas, social, política e cultural da sociedade, combinando a dinâmica funcional e o comportamento individual. Ainda, Costa (2002) ao tratar das cidades médias portuguesas afirma no contexto da globalização as cidades médias desempenham novas funções e se transformam em espaços de fluxos, tornando-se um elo fundamental para interações desses fluxos. Para Bellet Sanfeliu e Llop Torné (2004,p.572-573): La ciudad intermedia es aquella que media entre extremos (entre el pequeño y el grande; entre el próximo y el lejano), que desarrolla funciones de intermediación entre espacios/escalas muy diversas (locales-territoriales-regionales-nacionales globales); un nudo en que convergen y se distribuyen flujos muy diversos (de información, ideas, bienes y servicios); una ciudad-espacio de transición entre los territorios de lo concreto (la escala local/regional) y el carácter etéreo y fugaz de lo global. En este punto reside una de las claves que ayuda a identificar las ciudades intermedias: su vínculo con el lugar, con el territorio o hinterland, no solo a nivel funcional, sino también a nivel social y cultural. Las ciudades intermedias se convierten, en cuanto a sus funciones, en un centro de servicios y equipamiento (más o menos básicos) del que se proveen tanto los habitantes del mismo núcleo como aquellos que residen en su área de influencia. Centros de servicios que interactúan con amplias áreas territoriales, más o menos inmediatas. No Brasil o debate sobre cidades médias surgiu nos anos 1970 e ganha dimensão nos anos 19901. A noção de “cidades médias” é de difícil consenso, alguns partem do tamanho demográfico, considerando “cidades médias” aquelas que possuem entre 100 e 500 mil habitantes (IBGE) e outros partem dos papéis desempenhados por essas cidades. Dentre eles, podemos destacar: Amorim Filho (1984), Amorim e Serra (2001), Soares (1999, 2000, 2002, 2005 e 2007), e Sposito (1999,2001, 2004, 2007, 2009 e 2010). Segundo Sposito (2004,p.338-340) as “cidades médias”podem, em princípio, ser definidas por: a) sua situação geográfica em relação às outras cidades de mesmo porte; b) sua distância maior ou menor das cidades de maior porte; c) número de cidades pequenas que estão em sua área de influência, já que as empresas e as instituições se orientam pelo limites entre as áreas de mercado.” Os papéis das cidades médias dependem, assim, da forma como o território que comandam e representam participa da divisão regional do trabalho que, por sua vez, é orientada pela redefinição internacional do trabalho. (p.338) [...] O conjunto de mudanças produzidos pelo processo de concentração e centralização econômicas, com desconcentração espacial das atividades de produção e consumo, 1 Em 2007, no Brasil, foi criada a RECIME- Rede de Pesquisadores sobre cidades médias, coordenada pela Profa. Maria Encarnação Beltrão Sposito, da UNESP de Presidente Prudente. Esta rede tem sido uma grande expoente das pesquisas sobre cidades médias com a participação de pesquisadores de diversas regiões brasileiras e países, como Argentina e Espanha. 3 dinâmicas que se acentuam na passagem do fordismo para a acumulação flexível, tem repercussão direta nos papéis desempenhados pelas cidades médias, uma vez que as possibilidades de escolhas territoriais para o desenvolvimento de atividades produtivas e para a instalação de pontos de redes de consumo de bens e serviços é maior, quanto mais capitalizada for a empresa. As cidades médias têm sido escolhidas como pontos de apoio dessas empresas em suas políticas de desconcentração das atividades e de expansão das redes de comercialização de bens e serviços. (p.340) Amorim Filho (1984, p.9 apud Soares,1999,p.57) destaca que na análise das cidades médias devem-se considerar os seguintes atributos: - interações constantes e duradouras tanto com seu espaço regional, quanto com aglomerações urbanas de hierarquia superior; - tamanho demográfico e funcional suficientes para que possam oferecer um leque bastante largo de bens e serviços ao espaço microrregional a elas ligado; - capacidade de receber e fixar os migrantes de cidades menores ou da zona rural, através do oferecimento de oportunidades de trabalho, funcionando, assim, como pontos de interrupção do movimento migratório na direção das grandes cidades, já saturadas; - condições necessárias ao estabelecimento de relações de dinamização com o espaço rural microrregional que as envolve; - diferenciação do espaço intra-urbano, com um centro funcional já bem individualizado e uma periferia dinâmica, evoluindo segundo um modelo bem parecido com o das grandes cidades, isto é, através da multiplicação de novos núcleos habitacionais periféricos; - aparecimento, embora evidentemente em menor escala, de certos problemas semelhantes aos das grandes cidades, como por exemplo, a pobreza das populações de certo setores urbanos. Na mesma linha de análise, Soares (1999) destaca que devem ser consideradas para identificação das cidades médias diversas variáveis como: tamanho demográfico, qualidade das relações externas, especialização e diversificação econômica, posição e sua importância na região e na rede urbana de que faz parte da organização espacial e índices de qualidade de vida; atributos que podem variar de região para região, de país para país, tendo em vista sua formação histórico/geográfica, que é diversificada segundo sua localização espacial. Desse modo, pode-se dizer que as cidades médias são definidas pelo lugar que ocupam, não somente na rede urbana, mas também no sistema econômico global. Castelo Branco (2007,p.90) afirma que “as cidades médias constituem nós da rede urbana e servem a sua área de influência como pontos de prestação de serviços em escala regional”. Segundo (Correa, 2007,p.24) “[...] quanto maior o tamanho demográfico e mais complexas as atividades econômicas, particularmente as funções urbanas, mais fragmentada e, por conseguinte, mais articulada será a cidade”. Portanto esses fatores não podem ser analisados separadamente, mas sim uma particular combinação entre eles. Neste texto, tomamos como referência o entendimento de cidades médias proposto por Sposito (2004), que a compreende não do ponto de vista demográfico, mas pelos papéis desempenhados por essas cidades. A partir dessas considerações nos propusemos discutir sobre as cidades médias e os “novos espaços produtivos”, dando ênfase à cidade de Uberaba na região Triângulo Mineiro, tendo em vista que nos últimos anos essas cidades vêm tornando-se locais atrativos para novos investimentos, seja do setor produtivo ou terciário. Tais cidades vêm redefinindo seu papel na rede urbana brasileira. 4 2. As Cidades Médias como “novos espaços produtivos” O processo de reestruturação produtiva2 em curso a partir dos anos 1990 intensifica com a incorporação de inovações tecnológicas, flexibilidade na produção, mudanças na gestão e organização da força de trabalho, nas relações entre empresas, bem como as alterações ocorridas na organização espacial da indústria e na localização das unidades produtivas. Desse modo, a reestruturação produtiva tem implicações no processo produtivo e do trabalho, bem como no espaço, produzindo “novos espaços industriais” resultantes da desconcentração industrial3, em que as empresas passam a buscar novos lugares, com menor custo da força-de-trabalho, com incentivos fiscais e sem as “deseconomias de aglomeração” das grandes metrópoles, conforme já salientamos anteriormente. Sendo assim, alguns pontos do território são escolhidos para a instalação dos novos capitais produtivos. Neste sentido, as regiões Sudeste e Sul do país concentram os sistemas técnicos e de informação, tornando-as atrativas aos novos investimentos. O processo de desconcentração industrial a partir de São Paulo apresenta-se dois movimentos simultâneos, um em direção ao interior do Estado e outro em direção a outros Estados. Esse movimento da indústria em direção ao Interior ocorre em função da “deseconomias de aglomeração” da metrópole paulista, como os preços dos terrenos, congestionamento, custos salariais, poder sindical dos trabalhadores, entre outros. Já o movimento da indústria em direção a outros Estados ocorre, além desses mesmos fatores, devido às políticas dos Estados e ao Plano Nacional de Desenvolvimento – PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), que preconizava a uma maior intervenção do Estado para propiciar o desenvolvimento regional e reduzir as desigualdades regionais. Além disso, pode-se acrescentar a “guerra dos lugares4”, ou guerra fiscal, em que Estados e municípios passaram a oferecer incentivos fiscais como a isenção de impostos e a doação de terrenos. Essas alterações na participação da indústria paulista podem ser observadas na tabela 1, que mostra a participação da indústria de transformação no período de 1970 e 1990. Observa-se que a partir dos anos 1970 há uma queda da participação de São Paulo no total produção industrial do país. Em 1970, o Estado detinha 58,1% da produção, passando para 49,2% em 1990. A RMSP (Região Metropolitana de São Paulo) tinha uma participação de 43,40% em 1970, passando para 26,2% em 1990 e o Interior tinha 14,7% em 1970, passando para 23,0% em 1990. Nesse mesmo período, outros Estados tiveram aumento na participação da produção industrial, como Bahia (de 1,5%, em 1970, para 4,0%, em 1990), Minas Gerais (de 6,4% em 1970, para 8,7% em 1990), Paraná (de 3,1% em 1970, para 5,7% em 1990), Santa Catarina (de 2,6% em 1970, para 4,2% em 1990) e o Rio Grande do Sul (de 6,3% em 1970, para 7,7% em 1990), conforme mostram os dados da tabela 1. 2 Ver Gomes (2007), Mourão (2002), Oliveira (2002). Sobre o processo de desconcentração industrial, mais detalhes, consultar Lencioni (1991, 1998), Negri (1996), Pacheco (1994 e 1999), Tinoco (2001) e Tunes (2004). 4 Guerra dos lugares – termo utilizado por Milton Santos. 3 5 Tabela 1-Brasil, regiões e estados selecionados: Distribuição espacial da indústria de transformação-1970-1990 Regiões e Estados 1970 1975 1980 1985 1990 Nordeste (menos BA) 4,2 4,5 4,4 4,8 4,5 Bahia 1,5 2,1 3,1 3,8 4,0 Minas Gerais 6,4 6,3 7,8 8,3 8,7 Rio de Janeiro 15,7 13,6 10,2 9,5 9,8 São Paulo 58,1 55,9 54,4 51,9 49,2 A) Metrópole 43,4 38,8 34,2 29,4 26,2 B) Interior 14,7 17,1 20,2 22,5 23,0 Paraná 3,1 4,0 4,1 4,9 5,7 Santa Catarina 2,6 3,3 3,9 3,9 4,2 Rio Grande do Sul 6,3 7,5 7,9 7,9 7,7 Outros Estados 2,1 2,8 4,2 5,0 6,2 Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Fonte: Negri (1996,p.143) e IBGE/DEIND- Censo Industrial de 1985 No período analisado (1970-1990) observa-se que os estados da Bahia, Minas Gerais, Paraná apresentaram o melhor desempenho, sendo considerados os estados ganhadores no processo de desconcentração industrial, por apresentarem um crescimento na participação da indústria. Nos anos 1995-2000 o crescimento da participação da indústria no Brasil foi de 17,75%, enquanto que a região metropolitana de São Paulo apresentou um decréscimo de -8,24% na sua participação. Para o estado de São Paulo, o crescimento foi de 0,53%,ou seja, seu crescimento foi muito pequeno. Já para os demais estados o crescimento foi de 24,14%, ou seja, a tendência é o crescimento da participação da indústria em outras regiões fora da região metropolitana de São Paulo. Os anos 2000-2004 apresentaram uma pequena recuperação da RMSP de 2,51% na participação da indústria, um crescimento menor na participação em relação ao Brasil de 11,45%. Também foi observada uma recuperação da participação do Estado de São Paulo de 7,08%. Essa tendência de crescimento do estado de São Paulo é observada pelo crescimento da indústria fora da região metropolitana, principalmente nas “cidades médias”. Os demais estados tiveram um crescimento na participação da indústria de 19,32%. Nos anos 2005-2010, sinalizaram a mesma tendência apresentando um crescimento na participação da indústria menor na RMSP e no estado de São Paulo do que em relação ao Brasil, 13% e 14,26%, respectivamente, enquanto que o país teve um crescimento de 20%. Os demais estados tiveram um crescimento de 22%, sendo a maior participação em Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Ceará, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Os estudos realizados por Diniz (1991) sobre o processo de desconcentração industrial afirma que: [...] Este movimento estaria condicionada à existência de uma rede urbana dotada de serviços básicos, infra-estrutura de ensino e pesquisa e alguma base industrial, além do maior nível relativo de renda destas regiões. Este processo, na minha concepção, tenderia atingir as cidades do interior do próprio estado de São Paulo, o sul do triângulo de Minas Gerais e norte do Paraná, podendo estender, no sentido sul, para o estado de Santa Catarina e noroeste do Rio Grande do Sul e, no sentido norte, para a região central de Minas Gerais. 6 Diniz (1993) destaca dois momentos da desconcentração industrial. No primeiro, o grande beneficiado foi o entorno de São Paulo e, um segundo, em andamento, cobriria o polígono formado por Belo Horizonte, Uberlândia, Londrina, Maringá, Porto Alegre, Florianópolis, São José dos Campos e Belo Horizonte, denominado de “desenvolvimento poligonal”. Sendo assim, partindo da ideia de “desenvolvimento poligonal”, as mudanças nas economias de aglomeração e a crescente integração do mercado nacional confirmaria o crescimento econômico nacional na região que vai de Belo Horizonte a Porto Alegre. Esse crescimento já apontado por Diniz (1993 e 1995) confirma a participação das cidades médias no que ele denominou de “desenvolvimento poligonal”. Nas últimas décadas vêm aumentando o número de cidades médias e também um aumento populacional, conforme demonstrado na tabela 2. As cidades médias vêm apresentando-se um crescimento maior do que as outras cidades tanto em termos de crescimento (PIB) quanto de população. Sendo assim, “nos últimos anos, as cidades médias foram aquelas que apresentaram maior crescimento anual do PIB (cerca de 4,7% ao ano) e crescimento mais elevado da população (aproximadamente 2% ao ano)”. (MOTTA e MATTA, 2009) Tabela 2 Brasil: número de cidades de 100 a 500 mil habitantes Ano Nº de cidades Participação da População em relação ao total (%) 1970 80 15,5 1980 120 19,1 1991 160 21,7 2000 193 23,3 2008 229 24,8 2010 283 Fonte: IBGE, Censos demográficos. Desde os anos 1990, as cidades médias têm desempenhado um papel importante na dinâmica econômica do país. Motta e Matta (2009) salientam que “A importância das cidades médias reside no fato de que elas possuem uma dinâmica econômica e demográfica própria, permitindo atender às expectativas de empreendedores e cidadãos, manifestadas na qualidade de equipamentos urbanos e na prestação de serviços públicos, evitando as deseconomias das grandes cidades e metrópoles. Dessa forma, as cidades médias se revelam como locais privilegiados pela oferta de serviços qualificados e bemestar que oferecem”. As cidades médias vêm desenvolvendo um papel urbano-regional importante na rede urbana. Nesta direção, elas vêm se destacando no “papel de “núcleos estratégicos da rede urbana brasileira, na medida em que congregam as vantagens do estar aglomerado no espaço urbano e a possibilidades de estarem articuladas a um espaço regional”. (STEINBERGER e BRUNA (2001, p. 71) De acordo com Santos e Silveira (2001, p. 203), “[...] as cidades de porte médio passam a acolher maiores contingentes de classes médias e um número crescente de letrados, indispensáveis a uma produção material, industrial e agrícola, que se intelectualiza”. As cidades médias vêm se configurando como “cidades emergentes”, marcadas pela dispersão da indústria de transformação, corolário do processo de desconcentração industrial. Tais cidades médias estão localizadas, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país. 7 Braga (2005) salienta que Em geral as cidades desenvolvidas do Sul e Sudeste atraem segmentos da indústria de transformação mais intensivos em capital e as cidades do interior do Brasil central (Nordeste e Centro-Norte) atraem os segmentos industriais intensivos em trabalho, pouco dependentes de serviços modernos, qualificação profissional e externalidades urbanas cujas empresas migrantes buscam o baixo custo da força de trabalho local acoplado a elevados incentivos fiscais. As cidades médias possuem redes de informação, de transporte e de comunicação, garantindo a articulação em diferentes escalas geográficas. Essas cidades tornam-se espaços alternativos no processo de reestruturação, constituindo “novos espaços industriais”, já que possuem infra-estrutura capaz de receber as novas indústrias. Sendo assim, elas passam a ocupar uma nova posição econômica, em virtude das transformações ocorridas nas atividades industriais, decorrentes do processo de reestruturação produtiva em curso, assumindo assim “um novo papel na organização do território e no desenvolvimento regional, conforme destacou Gomes (2007). O capital prioriza em suas escolhas locacionais os lugares mais vantajosos para sua reprodução. Essa mobilidade do capital ocorre através das transferências empresas industriais para regiões onde o custo da mão-de-obra é menor e também, onde recebem incentivos fiscais de governos, seja estadual ou municipal, conforme já salientamos anteriormente. Assim, no contexto da reestruturação produtiva os espaços produtivos extrapolam os limites do Estado de São Paulo, surgindo “novos espaços produtivos” no sul de Minas Gerais, Norte do Rio de Janeiro, Norte do Paraná e Triângulo Mineiro. A título de exemplo, selecionamos algumas cidades para mostrar o crescimento no setor industrial. A tabela 3 mostra a participação da indústria de algumas médias brasileiras no período de 1990 a 2009. Os dados da tabela 3 revelam o crescimento da participação da indústria em algumas cidades médias, localizadas na região Sudeste e Sul no período de 1990 a 2009, demonstrando que com o processo de desconcentração industrial, as cidades médias vêm tornando lugares atrativos para novos investimentos. As cidades que tiveram maior crescimento da participação da indústria foram: Uberlândia,Uberaba, Franca, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Londrina, Maringá, Blumenau, Joinville e Caxias do Sul. 8 Tabela 3 - Participação dos estabelecimentos industriais - 1990-20002009 Município 1990 2000 2009 Estado de Minas Gerais Juiz de Fora Uberlândia Uberaba Estado de São Paulo Araçatuba Bauru Franca Marília Presidente Prudente Ribeirão Preto São José do Rio Preto São Jose dos Campos Estado do Paraná Londrina Maringá Estado de Santa Catarina Blumenau Joinville Estado doRio Grande do Sul Caxias do Sul Pelotas Fonte: RAIS/MTE , 1990,2000 e 2009 1327 839 567 1278 946 660 1468 1371 806 356 450 1182 321 371 969 839 440 386 566 1732 389 378 1092 980 616 414 626 2584 497 491 1435 1418 899 798 639 1231 1160 1781 1903 848 819 1464 1506 2255 2090 1743 558 2495 596 3293 666 No processo de desconcentração industrial dos últimos anos, algumas empresas industriais localizadas na cidade de São Paulo, por meio de incentivos fiscais de governo municipal instalaram em cidades médias, mas a gestão contínua em São Paulo, como tem ocorrido no Norte do Paraná, em Londrina e outras regiões do país. Dessa forma, a separação territorial da gestão e produção, não se dá apenas com as empresas que foram instaladas no Interior do Estado de São Paulo, particularmente no entorno metropolitano, como Lencioni (2003) chamou de cisão territorial, mas também em direção a outros estados. Segundo Lencioni (2003) a dispersão de unidades produtivas está relacionada aos movimentos de desintegração vertical e às condições gerais de produção. Essas “condições gerais de produção” são equipamentos e serviços que atendem a reprodução da força de trabalho, aeroportos, estradas para circulação de mercadorias e pessoas. Tais condições não são homogêneas, são desiguais, portanto não são todos os territórios que possuem condições para receber esses novos investimentos ou ampliar os já existentes. Sendo assim, como destacou Lencioni (2003), a produção dessas condições não é ilimitada, por isso mesmo a dispersão territorial da indústria encontra seus limites territoriais. Há uma mobilidade geográfica do capital industrial favorecida pelas condições gerais de produção também em outros lugares fora do espaço metropolitano. Essas condições devem-se, sobretudo ao desenvolvimento dos fluxos imateriais como as fibras ópticas que favorecem essa descontinuidade geográfica do capital. 9 Lencioni (1998,p.35) assevera que [...] essa expansão territorial da indústria tem uma forte relação com a tecnologia de informação no que diz respeito à incorporação das telecomunicações e à informatização do trabalho administrativo no âmbito da gestão empresarial. A difusão da micro informática e, principalmente, da rede de telecomunicações com fibra ótica é que tornou, cada vez mais, possível a cisão territorial entre produção e gestão e a eficácia de sua reintegração social à distância. Nesse sentido, essa difusão tornou-se elemento chave na expansão industrial do entorno metropolitano. Em outros termos, sem a incorporação de tecnologias de informação que possibilitassem a cisão e o distanciamento entre o local da produção e o local da gestão empresarial, a expansão da região metropolitana,nos moldes em que se deu sua expansão territorial, não territorial, não teria se viabilizado pela incapacidade de se reintegrarem o capital e seu espaço. O crescimento de infra-estrutura em outras regiões fora do espaço metropolitano contribuiu para o processo de desconcentração industrial. Diniz & Crocco (1996, p. 85) asseveram que “transporte, energia e telecomunicações alargaram e unificaram o mercado brasileiro, facilitando a localização industrial em novas áreas ou regiões, especialmente nas cidades de grande porte médio. [...] o desenvolvimento da infra-estrutura, conjugado com crescimento urbano e de serviços modernos em várias cidades brasileiras, propiciaram a criação de economias de urbanização em várias cidades e regiões, facilitando a desconcentração industrial”. Assim, a desconcentração industrial resultante do processo de reestruturação produtiva em direção às cidades médias, em particular das regiões Sudeste e Sul. Essas cidades têm sido lugares alternativos para este processo, por concentrar “condições gerais de produção” para instalação dos novos capitais produtivos, ou seja, possuem “economia de aglomeração” em novas áreas de atração e não há “deseconomias de aglomeração” freqüente nas grandes metrópoles. Em nossa tese de doutorado sobre o processo de reestruturação produtiva em cidades médias, na qual analisamos as cidades de Presidente Prudente, Marília, Araçatuba, Birigui e São José do Rio Preto, na região Oeste do Estado de São Paulo, constatamos a forte presença do capital local na origem do capital do setor industrial, porém nos últimos anos constatamos a presença de empresas de capital de fora, seja nacional ou internacional. Assim, apesar da forte presença do capital local, contudo, em algumas dessas cidades percebemos certas alterações na composição do capital das empresas com a entrada do capital de fora, seja nacional ou estrangeiro. Por exemplo, no caso de Marília, com a aquisição de empresas pela Nestlé, e em Araçatuba, a presença da Parmalat e Nestlé. Outro fato a ser destacado é alteração na dinâmica dos ramos industriais com a presença de empresas com maior uso intensivo de capital e tecnologia instaladas fora do espaço metropolitano. Em pesquisa realizada em 2007 sobre a região Oeste do Estado de São Paulo, observam-se alterações na estrutura setorial da indústria, os setores tradicionais, como o de alimentos continuam a crescer, no entanto, observa-se um fato novo nesse contexto, o surgimento de novos ramos industriais, com a exigência de maior incorporação de tecnologia, entre eles: química de produtos farmacêuticos e material elétrico e comunicação, ganhando destaque na indústria do Oeste Paulista. Em São José do Rio Preto, por exemplo, passam a se instalar empresas do ramo de produtos farmacêuticos de tecnologia avançada, como: Braile Biomédica, Embravest, Oligoflora, Rioquímica Farmacêutica, entre outras. O crescimento desse tipo de ramo foi de 386,95%, conforme Gomes (2007,p.140). 10 Muitas cidades médias apresentam condições gerais de produção, favorecendo assim a instalação de novas empresas industriais. Na região Oeste Paulista, a cidade de São José do Rio Preto apresentou as melhores condições de produção para receber novas empresas em função de alguns equipamentos (aeroporto com fluxo diário para São Paulo, rodovia – Washington Luiz –, a presença de distritos industriais e também a presença de alguns serviços especializados), como foi destacado por algumas empresas que vieram da Capital do estado. Todas essas condições de produção criam uma sinergia no território, tornando-o “fértil” para reprodução do capital, conforme salientou Gomes (2007). Em Marília também tem sido importante para o recebimento de novas empresas industriais advindas de São Paulo em função da presença de distrito industrial com infra-estrutura e sinergia gerada pelas grandes empresas de alimentos (Marilan, Dori, Bel, Nestlé). Um outro aspecto as ser observado nessas cidades médias, além das transformações industriais,é a alteração no espaço urbano. O espaço urbano também muda e novas atividades econômicas passam a se localizar nessas cidades, como as redes varejistas, principalmente através de grandes hipermercados como Carrefour, Pão de Açúcar, Wal Mart, serviços alimentares de fast food, lojas de departamentos (Renner, C&A, entre outras), seguradoras, agências bancárias estrangeiras, entre outros. Acrescenta-se a isso a implantação de grandes empreendimentos como os shoppings Center. Observa-se uma redefinição do espaço intra-urbano dessas cidades médias com surgimento de “novas centralidades urbanas”5. Além disso, o espaço urbano destinado à moradia também muda com as construções de casas populares e loteamentos fechados com grandes empreendimentos imobiliários. Acrescenta-se a implantação de distritos industriais, que passaram a abrigar unidades industriais antes localizadas em áreas residenciais. De acordo com Gomes (2007) as cidades médias são “ganhadoras”, nesse processo de desconcentração industrial e da reestruturação produtiva. Podem ser consideradas como lugares de “possibilidades”, já que elas continuam sendo atrativas tanto para população como para empresas. Nesse sentido, essas cidades médias tendem a ser “novas áreas de localização industrial” e de investimentos nacionais e estrangeiros fora do espaço metropolitano. Nesta direção, observa-se a configuração de “novos espaços produtivos” com crescimento na participação da indústria nas cidades médias no sul de Minas Gerais (Juiz de Fora), Norte do Rio de Janeiro (Macaé e Campos), Norte do Paraná (Maringá e Londrina),Triângulo Mineiro (Uberlândia e Uberaba), Santa Catarina (Blumenau e Joinville), Rio Grande do Sul (Caxias do Sul) e do interior do Estado de São Paulo (Araçatuba, Marília,Presidente Prudente, São José do Rio Preto, Franca, São José dos Campos e Ribeirão Preto). Nas últimas décadas as “cidades médias” brasileiras vêm se firmando como pólos atrativos aos novos investimentos empresariais. Essas cidades vêm ocorrendo um crescimento no PIB (produto interno bruto) e aumento populacional. Nessa direção, Motta e Malta (2009) afirmam que: Durante os últimos anos, as cidades médias têm apresentado maior crescimento do que as outras cidades do Brasil, tanto em termos do produto interno bruto (PIB), quanto da 5 Sobre a temática da centralidade urbana, consultar: Whitacker (2003), Sposito (1998 e 2010), Pereira (2001), Montessoro (1999) e Silva (2006). 11 urbanização. Enquanto as cidades com mais de 500 mil habitantes estão perdendo participação no PIB nacional (queda de 1,64 p.p. no período de 2002 até 2005), as cidades médias estão ampliando sua participação (aumento de 1,28 p.p. no mesmo período). Do ponto de vista populacional, as cidades com mais de 500 mil habitantes estão crescendo a taxas percentuais abaixo das cidades médias (entre 100 mil e 500 mil habitantes). Isto porque, nos últimos anos, as cidades médias foram aquelas que apresentaram maior crescimento anual do PIB (cerca de 4,7% ao ano) e crescimento mais elevado da população (aproximadamente 2% ao ano). Conforme já salientamos, no contexto da reestruturação produtiva os espaços produtivos extrapolam os limites do Estado de São Paulo, surgindo “novos espaços produtivos” no sul de Minas Gerais, Norte do Rio de Janeiro e Norte do Paraná. O Triângulo Mineiro também pode ser considerado também como “novo espaço produtivo” com instalação de grandes grupos econômicos do setor industrial e comércio, principalmente ligado à agroindústria. 3. Uberaba: “novo espaço produtivo” no Triângulo Mineiro A formação econômica da região do Triângulo Mineiro teve origem na atividade comercial nascida para abastecer os tropeiros e mineradores que viajavam entre São Paulo e o Centro-Oeste. A intermediação do comércio entre essas duas regiões foi a atividade econômica mais importante na formação e desenvolvimento sócio-econômico do Triângulo. (MARTINS, BERTOLUCCI JR e OLIVEIRA, 2007) O processo de ocupação de Uberaba teve início no começo do século XIX, a partir da fundação do arraial de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba em 1816 às margens do Córrego das Lages; em 1820 o arraial é elevado à categoria de freguesia, despontando desde seu início como o principal núcleo urbano da região. Em 1836 é elevada à categoria de vila e, em 1856 à categoria de cidade. Nesse contexto, na primeira metade do século XIX, Uberaba se firma como o principal núcleo urbano de ligação entre o litoral de São Paulo e Rio de Janeiro e as províncias de Goiás e Mato Grosso, ou seja, torna-se o principal centro urbano da região chamada “Sertão da Farinha Podre”, hoje correspondente à parte da atual da região do Triângulo Mineiro. Dada sua localização privilegiada, a cidade se torna um nó de articulação e um dos pontos principais de parada dos viajantes com destino as essas regiões, assumindo a posição de “cidade primaz” do, então, “Sertão da Farinha Podre”. Segundo Lourenço (2007, p.322): Uberaba beneficiou-se de sua localização-chave, na intersecção entre esses dois eixos, um disposto no sentido leste-oeste (Minas – sertão) e outro no sentido norte-sul (Goiás – São Paulo). Na primeira metade do século XIX, formou-se uma rede de estradas inter-regionais e interprovinciais sobre o Sertão da Farinha Podre, tendo Uberaba como nó central. Essa primazia representada por Uberaba devia-se ao seu nível de centralidade em relação aos demais núcleos urbanos, pelo fato da região não contar com outros núcleos de maiores proporção e polarização nas suas proximidades. Era na cidade de Uberaba que concentravam-se os comércios e profissionais como juristas, médicos, farmacêuticos e cirurgiões, professores, comerciantes e guarda-livros, funcionários públicos, etc.; o que favoreceu o crescimento urbano e o desenvolvimento econômico da cidade nesse período. Nessa direção, Lourenço (2010,p.87) afirma que 12 [...] Uberaba era o nó de um sistema radial de estradas, os entrepostos obrigatórios de todos os fluxos mercantis de norte e oeste, dos territórios de Goiás e Mato Grosso. Nesta situação, os negociantes ali radicados estavam em posição favorável para extrair grande parte do excedente gerado pela economia situada a montante, por meio de manipulação das condições de mercado. Uberaba também centraliza atividades como atendimento médico, educação, acesso à justiça e administração pública. Ao longo do século XX a região do Triângulo Mineiro foi marcada por um processo de diversificação produtiva, com desenvolvimento de atividades agropecuárias, agroindústria moderna, atividade comercial e industrial e também de atividades modernas de serviços. Tais transformações alteram a dinâmica das cidades médias, como Uberlândia e Uberaba. A região do Triângulo Mineiro a partir do movimento de desconcentração econômica e industrial a partir de São Paulo, pois “a estrutura sócio-econômica dessa região foi diretamente afetada, iniciando uma nova fase de sua economia, representada pela expansão e modernização da agropecuária”, conforme destaca Guimarães (1990). A cidade de Uberaba está localizada na região do Triângulo Mineiro conta com aproximadamente 300.000 habitantes (IBGE, 2011). Possui uma posição geográfica estratégica, pois é rota de passagem do estado de São Paulo e do restante do estado de Minas Gerais para o Brasil Central (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Brasília e Tocantins). Sua localização é de aproximadamente 500 km de distância de centros urbanos nacionais importantes, como São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia e Brasília, sendo interligado por meio de rodovias federais (BR 050 e BR 262) e estaduais.Além das rodovias, a cidade conta a estrutura ferroviária, o Aeroporto Regional de Uberaba, a Estação Aduaneira do Interior (EADI) de Uberaba. É considerada uma “cidade média”, apresentando uma relativa influência regional. Como vimos anteriormente, no contexto da reestruturação produtiva os espaços produtivos extrapolam os limites do Estado de São Paulo, surgindo “novos espaços industriais” no sul de Minas Gerais, Norte do Rio de Janeiro e Norte do Paraná. O Triângulo Mineiro também pode ser considerado como “novo espaço produtivo” com instalação de grandes grupos econômicos do setor industrial e comércio, principalmente ligado à agroindústria. A partir dos anos 1970 com o avanço do processo de modernização do campo começam a se instalar algumas indústrias de insumos agrícolas na cidade Uberaba, atraídas pelo desenvolvimento da agropecuária moderna no Cerrado mineiro. Também, nesse período, ocorreu um aumento da população urbana, conforme pode ser observado na tabela 4. Tabela 4 – Uberaba-MG: evolução populacional – 1970- 2011 Anos População urbana População rural População total 1970 108.259 16.231 124.490 1980 182.519 16.684 199.203 1991 200.705 11.119 211.824 2000 244.171 7.880 252.051 2010 289.376 6.612 295.988 2011 - - 299.000* Fonte: IBGE (Recenseamentos Decenais e Contagem da População de 1996) e Censo 2000 *estimativa 13 A partir desse período, em Uberaba ocorreu um crescimento populacional, chegando quase a dobrar seu número de habitantes entre as décadas de 1970 e 1980, de 108.259 para 182.519 habitantes. Entre as décadas de 1990 a 2010 observam-se um crescimento significativo da população urbana, passando de 200 705 habitantes para 289 376 habitantes, respectivamente. Esse processo observado na cidade é reflexo do próprio processo de urbanização brasileira, principalmente entre as décadas de 1970 e 1980, período de intensa migração campo-cidade, no qual grande parcela da população rural passa a morar em cidades. Não obstante, o crescimento da população urbana, nesse período houve poucos incentivos à instalação de novas empresas na cidade e consequentemente de novos empregos. Isso parece mudar a partir da década de 1990 como novos investimentos na cidade. Corroborando a essa afirmação, esse crescimento das atividades econômicas é constatado a partir dos anos 1990, conforme pode-se observar na tabela 5 (RAIS/MTE -1985-2010) que revelam o crescimento da participação dos setores de atividades econômicas. Os setores de comércio, serviços tiveram o melhor desempenho na participação do número de estabelecimentos, porém a indústria obteve um crescimento significativo com a entrada de capital externo a cidade, passou de 567 em 1990 para 660 e 819, em 2000 e 2010, respectivamente. Tabela 5- Uberaba-MG: Número de estabelecimentos por setores de atividades econômicas- 1985-2010 Setor de atividade 1985 1990 1995 2000 2005 2010 econômica Indústria 384 567 624 660 747 819 Comércio 1024 1278 1925 2408 2865 3345 Construção civil 44 277 487 599 542 758 Serviços 907 946 1465 2051 2341 2771 Agropecuária 81 127 1220 1270 1335 1281 Não classificados 26 437 101 0 Total 2466 3632 5822 6988 7830 8974 Fonte: RAIS, MTE , 1985,1990,1995,2000,2005 e 2010 Org. GOMES, M.T. S. Com relação à participação de trabalhadores por setores de atividades econômicas houve um forte aumento do número de empregados nos setores de comércio e serviços, principalmente entre os anos 2000 e 2010, conforme pode-se observar na tabela 6. Entre os principais fatores desse forte incremento de empregos deve-se a instalação de redes de hipermercados na cidade, ampliação da oferta de setores de prestação de serviços, principalmente educacionais e de saúde, com a criação de duas instituições públicas de ensino superior (UFTM e IFTM)6, além de outras instituições particulares (UNIUBE, FACTHUS, FAZU)7. No que tange ao setor da construção civil, observou-se um aumento considerável no número de empregos entre 2005 e 2010 em virtude dos incentivos promovidos pelo governo federal ao setor, tanto através de programas como “Minha Casa, Minha Vida”, quanto através de linhas de crédito para financiamento da casa própria fornecidas pelos bancos oficiais. 6 Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro. 7 Universidade de Uberaba, Faculdade Novos Talentos, Faculdade de Zootecnia de Uberaba. 14 Já o setor agropecuário, apesar de sua importância na economia uberabense, teve um decréscimo no número de trabalhadores entre 2005 e 2010; entre os fatores que levaram a essa redução está o processo de mecanização e modernização das atividades agropecuárias, que reduziu o número de funcionários necessários no processo de produção agrícola em diversos setores como colheita e plantio. Tabela 6- Uberaba-MG: Número de trabalhadores por setores de econômicas- 1985-2010 Setor de atividade 1985 1990 1995 2000 2005 econômica Indústria 8096 8.278 12.039 11.023 12.806 Comércio 5.536 6.726 8.235 10.426 14.044 Construção civil 1.740 2.439 4.025 3.084 2.017 Serviços 13.389 14.155 17.304 22.210 30.198 Agropecuária 915 1.033 3.705 3.731 4.480 Total 2.9676 32.631 45.308 50.474 63.545 Fonte: RAIS, MTE. , 1985,1990,1995,2000,2005 e 2010 Org. CHAGAS, Nadia Jamaica atividades 2010 14.593 18.997 7.780 36.246 4.154 81.770 Analisando os dados da participação dos setores da economia no PIB (Produto Interno Bruto) municipal de 2007, observa-se a predominância do setor de serviços, que correspondia a 50,78% do PIB municipal. O setor industrial é o segundo maior em valores totais, perfazendo 28,71% do PIB. O que nos chama atenção é o valor do setor agropecuário, correspondendo a 8% do PIB em 2007, o que demonstra que a agricultura e a pecuária tem um peso menor na economia em relação aos demais setores da economia. (cf. Tabela 7) Tabela 4: Uberaba-MG. Evolução e participação dos setores por atividade econômica no PIB. 2007 (em R$ 1.000,00) Setor de atividade econômica Uberaba % Agropecuário 435.691 8,03 Industrial 1.558.047 28,71 Serviço 2.756.016 50,78 Outros (impostos) 677.924 12,49 Total 5.427.678 100,00 Fonte: Prefeitura Municipal de Uberaba – Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo. A queda da participação do PIB agropecuário pode estar relacionada ao próprio crescimento da taxa de urbanização das cidades médias, pois há um crescimento de atividades ligadas ao setor terciário em detrimento as atividades agropecuárias. Os dados da tabela 8 revelam que entre os anos de 1999 e 2009 o PIB de Uberaba cresceu mais três vezes, acompanhando o desempenho do PIB mineiro, que também passa a ter forte crescimento nesta década em virtude da conjuntura econômica brasileira, estimulada pelo crescimento econômico que o país passa. 15 Tabela 8: Uberaba-MG. Produto Interno Bruto (PIB) a preços correntes. 1999 a 2009 Município 1999 2002 2005 2008 2009 (1) Uberaba 2.024.849 3.017.848 4.105.596 6.212.441 6.489.509 (Município) Minas Gerais (total 89.789.782 127.781.907 192.639.256 282.520.745 287.054.748 do estado) Fonte: Fundação João Pinheiro, 2012. Organizado por Marcos Kazuo Matushima Nos últimos anos, Uberaba vem passando por transformações na dinâmica econômica com a implantação de novas indústrias, como Valefértil, Bunge, Black & Decker, Dagranja, Atlântica, Sipcam, Stoppani do Brasil, Agronelli Insumos Agrícolas, Fertigran,Yara Fertilizantes, Ouro fino, Heringer Fertilizantes, entre outras ligadas ao setor agropecuário, a exemplo das agroindústrias. No distrito industrial III às margens do rio Grande divisa com o Estado de São Paulo há uma concentração de indústrias de fertilizantes. Observa-se também uma expansão dos investimentos industriais, como, por exemplo, a instalação de uma planta industrial da Petrobrás para a produção de amônia com apoio do Governo Federal. Mais recentemente, observa-se a expansão da produção sucroalcooleira que passa a ocupar áreas destinadas anteriormente às pastagens e à produção de grãos (soja e milho etc). A evolução do PIB de Uberaba na última década tem atraído novos investimentos em diversos setores econômicos, principalmente no comércio e na prestação de serviços, cujos investidores buscam na cidade novas oportunidades de investimentos. Esse fato é verificado pela entrada de novos agentes econômicos, entre eles: redes de hotéis, hipermercados ( WalMart e Carrefour, o último fechou em agosto de 2011), redes de departamentos (Lojas Americanas, Riachuelo, Renner e C&A), concessionárias, novas franquias de lojas no Uberaba Shopping, construção de novos shoppings centers, setor atacadista, como o Makro, Mart Minas, entre outras. Além das redes varejistas nacionais, observa-se a presença de redes regionais, como o Maxi. Esse conjunto de indicadores do PIB demonstra um crescimento econômico sistemático, fato que tem atraído vários investimentos nos setores da construção civil e imobiliário, que se materializam através do lançamento de novos empreendimentos imobiliários, tanto por construtoras de capitais locais quanto nacionais, a exemplo do Cyrela Landscape Uberaba, do grupo Cyrela (São Paulo), Damha (Grupo Encalso), Estâncias dos Ipês (grupo ITV). A implantação de loteamentos fechados para atender a demanda de classe alta, com empreendimentos de alto padrão tem levando a transformações socioespaciais na cidade de Uberaba, com a incorporação de novos espaços urbanos pelo capital imobiliário. Apesar de não ser objeto de análise neste texto, não podemos deixar de mencionar as transformações no espaço intra-urbano ocasionadas com a criação da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) em 2005, entre elas, a especulação imobiliária no Bairro Abadia, um dos principais subcentro da cidade, conforme Reis (2012). 4.Considerações finais As cidades médias tornaram-se “lugares atrativos” aos novos investimentos, pois as ”deseconomias de aglomeração” nas metrópoles favoreceram os deslocamentos desses investimentos em direção das cidades dotadas de infraestruturas capazes de recebê-los. 16 Essas cidades vêm se configurando como “cidades emergentes”, assumindo um novo papel na rede urbana brasileira. A entrada de novos agentes econômicos nas cidades médias tem produzido novas espacialidades urbanas ligadas às atividades de comércios e serviços. Esse movimento ocorre tanto da saturação dos grandes centros urbanos, mas principalmente do crescimento econômico do próprio interior do país, que promoveu o crescimento urbano das cidades médias, vistas pelo capital como “novas fronteiras” de investimentos para sua reprodução. Atualmente, a cidade de Uberaba vem passando por profundas transformações socioeconômicas e espaciais com a entrada de investimentos ligados aos setores da indústria, comércio, e prestação de serviços, contribuindo para sua polarização regional. Não obstante, a forte influência exercida por Uberlândia na rede urbana regional, a localização estratégica de Uberaba próxima à divisa com o estado de São Paulo, faz com que a cidade polarize parte do norte do estado de São Paulo e a porção sul e sudoeste do Triângulo Mineiro, além de parte da região do Alto Paranaíba. Atualmente, a cidade vem se tornando cada vez mais atrativa aos novos investimentos empresariais, contribuindo para formação de um “novo espaço produtivo” na região do Triângulo Mineiro. Neste contexto, a cidade torna atrativa não só aos investimentos, mas para população, que buscam em Uberaba novas oportunidades de trabalho. Enfim, nos últimos anos as “cidades médias” brasileiras têm sido atrativas tanto para população como para os novos investimentos empresariais, seja no setor da indústria ou no setor de comércio, setor de serviços e no setor imobiliário, promovendo transformações na dinâmica econômica dessas cidades fora do espaço metropolitano e em Uberaba isso não tem sido diferente. Referências ANDRADE, Thompson A., SERRA, Rodrigo V. (org.). (2001) Cidades Médias Brasileiras. Rio de Janeiro: IPEA. ______________. (2001) O desempenho das cidades médias no crescimento populacional brasileiro no período 1970/2000. 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