SÃO JOSÉ DOS CAMPOS E SUA HISTÓRIA
Maria Aparecida Papali1
Valéria Zanetti de Almeida2
Maria José Acedo del Olmo3
A colonização das terras paulistas teve início no século XVI através de um impulso
similar às outras regiões brasileiras em processo de colonização. No entanto, muito embora
inserida na dinâmica do sistema colonial vigente, a região de São Paulo manteve
características peculiares em todo o processo.
Índios, colonos portugueses e clérigos da Companhia de Jesus formaram
inicialmente os três grandes grupos a comporem um cenário de tensões, guerras e conflitos
que balizaram todo o movimento de conquista dos povos indígenas, os quais eram os
primeiros e legítimos habitantes da região.
A cidade de São José dos Campos originou-se como aldeia, dentro da concepção
política colonial de aldeamento, situação que indicava presença do indígena do branco
colonizador em um mesmo local. Tal política teve início no século XVI, quando colonos e
jesuítas empreenderam sua luta pelo controle da mão-de-obra do indígena brasileiro.
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Doutora em História Social, Professora e Pesquisadora da UNIVAP, coordenadora do Laboratório de
Pesquisa e Documentação Histórica do IP&D/UNIVAP
O projeto jesuítico de aldeamento visava construir uma forte estrutura na qual o
indígena, uma vez submetido ao cristianismo, desse continuidade ao trabalho nas roças e
lavouras, e assim, mediante salários módicos, servir aos colonos nas mais diversas
modalidades de trabalho. Não obstante, a desestruturação social que tal mecanismo
engendrou entre as comunidades indígenas, os aldeamentos assim concebidos significavam
uma possibilidade de existência de uma mão-de-obra livre.
Os indígenas foram, portanto, os primeiros habitantes da Aldeia de São José do
Parayba, futura cidade de São José dos Campos. Em suma, o que se pode afirmar em
relação aos primórdios da atual cidade de São José é que ela está ligada às relações entre
jesuítas e indígenas e, posteriormente, com a expulsão dos padres inacianos em 1640, à
administração do poder civil, representado pelos Diretores de Aldeamentos, designados
pelo Governador da Capitania.
Em 1767 a pequena Aldeia de São José foi elevada à condição de Vila, em sintonia
com as políticas adotadas pelo então Governador da Capitania, Morgado de Mateus, o qual
buscou, com essa estratégia, intensificar a vigilância sobre a população indígena da cidade,
evitando sua dispersa. A Vila de São José da Parayba permaneceu pacata e com economia
uma economia basicamente de subsistência até meados de 1850, quando a fase áurea do
café no Vale do Paraíba deixa sua contribuição, embora pequena para São José, que é
elevada à categoria de cidade em 1864, ganhando Comarca própria em 1872. Em 1871 São
José recebe o nome que ostenta até hoje, ou seja São José dos Campos.
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Mestre em História Social, Doutoranda em História Social, Professora e Pesquisadora da UNIVAP,
coordenadora do Curso de História da UNIVAP
De acordo com a historiografia clássica, a lavoura cafeeira no Vale do Paraíba teria
surgido na região fluminense em torno de 1820 e a partir daí se disseminado por todo o
Vale do Paraíba Paulista, sendo que, em finais da década de trinta, algumas cidades
valeparaibanas como Areias, Lorena, Guaratinguetá, Bananal, Pindamonhangaba e Taubaté
se tornam importantes núcleos de produção cafeeira e com uma grande quantidade de
trabalhadores escravos. A partir do fim da década de setenta, essa lavoura intensifica-se
cada vez mais na região do Oeste Paulista, onde cidades como Campinas, São Simão,
Ribeirão Preto e outras próximas, conquistam de maneira acelerada, cafezais, escravos e
riquezas
A cidade de São José dos Campos, próxima à Jacareí, Caçapava, Santa Isabel,
Jambeiro, Paraibuna e Taubaté, com certeza nunca mereceu lugar de destaque entre as
cidades valeparaibanas produtoras de café, de finais do séc. XIX. Embora apresentando um
quadro de crescimento na produção cafeeira entre 1850 e 1886 ( sendo 1886 o seu ápice )
São José dos Campos não chegou a conhecer os famosos barões do café do Vale do
Paraíba, ou mesmo grandes e poderosos coronéis, que chegavam a comandar toda uma
região
São José dos Campos formou seus cafezais pela presença bastante numerosa de
pequenos e médios lavradores. Sitiantes e "meeiros" povoavam aquelas paragens em grande
quantidade. A cidade de São José possuia também seus coronéis, seus fazendeiros, seus
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Mestre em História Social, pesquisadora colaboradora do Projeto Pró-Memória
negociantes em ascensão, mas, certamente, nenhum deles com a característica de um
mandatário local que ultrapassasse os limites daquela municipalidade.
Provavelmente seja essa uma peculiaridade das lavouras de café de São José dos Campos
de finais do séc. XIX. Mesmo as maiores fazendas não deveriam ter as dimensões que as
grandes fazendas dos barões do café, tiveram nos áureos tempos da cafeicultura, no Vale do
Paraíba Paulista. O número de escravos encontrados nos Inventários e Testamentos das
décadas de setenta e oitenta da cidade de São José dos Campos é um indicativo dessa
característica. A grande maioria dos lavradores possuía, em média, de 10 a 15 trabalhadores
escravos em suas fazendas. Alguns poucos proprietários chegavam a contar com o trabalho
de 30 escravos em suas lavouras. Isso sem considerar que uma grande quantidade de
Inventários, indicam a existência de sítios com apenas 3 ou 5 trabalhadores escravos em
suas lides, ou seja, sitiantes e pequenos proprietários
O que parece ficar claro - dada a peculiaridade da existência de pequenas e médias
lavouras em São José dos Campos - seja talvez o destaque adquirido pelas firmas de
beneficiamento de café, algumas ligadas à exportação do produto, que certamente se
encontravam entre o ramo de negócio mais lucrativo do município. Para tais máquinas
deveria ser levada, toda a produção do município, dividida entre pequenas, médias e
grandes produções. A grande diferença iria naturalmente aparecer no montante da
produção, com o consequente benefício para o comércio local
São José dos Campos se industrializou sem que estabelecesse qualquer ligação com
o “complexo cafeeiro” como outros pólos paulistas. No século XX, São José dos Campos
se tornou uma cidade de destaque local, dando início a um processo de centralização e
concentração de investimentos, população, equipamentos, etc. O marco foi a cidade
sanatorial que atuou fortemente no setor terciário, através da instalação de serviços variados
para atendimento dos doentes.
Foi um período importantíssimo para a cidade, no qual a presença da doença e dos
doentes abriu a primeira porta de intervenções urbanísticas e das políticas públicas na
cidade. Atraídos pelos ares, os doentes do peito chegavam aos bandos, procurando
salvação. Foi pela via da doença que a cidade se modernizou. Essa modernização foi
impressa em prédios, estruturas urbanas e bairros planejados, pela indústria e pela técnica,
pela limpeza das ruas e alargamento das avenidas.
A cidade sanatorial transformou São José em um grande laboratório de políticas e
projetos. A cidade era um depósito de balões de ensaio de instituições paulistanas, como a
Santa Casa de Misericórdia. Numa ação conjunta da filantropia e do Estado, a cidade de
São José dos Campos, estrategicamente colocada no caminho da Metrópole, acabava
acolhendo os doentes que a capital paulista não dava conta de tratar. O sanatório Vicentina
Aranha, patrocinado pela Santa Casa de São Paulo é inaugurado depois de muita campanha
assistencialista, levando o nome da esposa do Senador Olavo Egydio de Souza Aranha, pela
força da sua campanha caritativa.
A presença da doença e dos doentes abriu a primeira porta de intervenções
urbanísticas e de planejamento estatal, o que transformou São José dos Campos em pólo
regional do Estado de São Paulo. Foi com a condição sanatorial que São José se destacou
como cidade no Vale do Paraíba. O autoritarismo, marcado pelos dois períodos ditatoriais,
praticamente consecutivos ( Estado Novo e ditadura militar) transformou a pacata vida da
cidade de São José dos Campos. As intervenções do Estado nesta região foram,
aparentemente, maiores que nas outras.
Até a fase sanatorial, São José dos Campos não conseguia atrair e manter uma
população fixa. As novas terras do oeste paulista chamavam mais atenção, a ponto da
Câmara local discutir formas de impedir a saída dessa população da cidade. Foi com a
proposta sanatorial que São José dos Campos começa a ser atrativa, recebendo uma
migração de pobres e doentes que deram origem a uma intensa urbanização. Foi essa
população que movimentou a economia local.
Junto com essa migração de pobres e doentes veio o planejamento do espaço
joseense. Através do decreto que transformou São José em Estância Climática e
Hidromineral, O Estado buscou disciplinar a cidade, colocando em pauta a necessidade de
uma normalização do espaço e das condutas em relação à doença e ao doente.
Nota-se, a partir da condição sanatorial, uma segregação espacial na cidade,
diferenciando sãos e doentes. Considerada uma doença típica dos pobres e operários, o
espaço da doença tinha que ser disciplinado. A expulsão dos pobres do centro da cidade
justificava a higienização e a defesa da sociedade. A defesa da higienização e da
salubridade do ar levou à desapropriação dos moradores da orla do banhado, por se
considerar que suas habitações e modos de viver constituíssem focos de contaminação. As
avenidas foram alargadas para darem vazão ao ar e torná-lo salubre. O medo passou a fazer
parte da mentalidade. Medo do contágio.
Como resultado da política sanatorial, acontece em 1938 o primeiro grande
zoneamento, dividindo a cidade em zonas sanatorial, industrial, residencial e comercial.
Nessa divisão funcional do espaço, devemos ressaltar a contraposição do espaço dos
doentes. Localizados no alto do platô, os tuberculosos se isolavam dos trabalhadores,
instalados em um Vale, no bairro de Santana.
Este foi o momento no qual São José dos Campos passou a receber investimentos
estatais e a fazer parte das estratégias governamentais, criando as bases infra-estruturais que
viabilizaram a cidade industrial moderna. Já no período sanatorial começou o processo de
industrialização, no decorrer da década de 1920. Em função de incentivos da Prefeitura de
São José dos Campos, chegaram as primeiras fábricas: as cerâmicas e a Tecelagem
Parahyba. Esta primeira industrialização direcionou o crescimento da cidade para o bairro
de Santana, primeiro bairro industrial da cidade.
A industrialização de São José dos Campos faz parte do processo de industrialização
do Brasil, como um todo, e particularmente do estado de São Paulo. Podemos dividir o
processo de industrialização joseense em três grandes fases:
1)
A primeira fase situa-se entre os anos de 1920 e o final da década da 1940. Nesse
período, e em sintonia com o processo de industrialização mais geral, as indústrias
instaladas em São José dos Campos representam o setor de cerâmica e tecelagem.
Final dos anos 1920, Fábrica de Meias Alzira, do Sr. Pedro David.
Entre 1921/1922 - Cerâmica Santo Eugênio e Cerâmica Santa Lúcia (depois Cerâmica
Paulo Becker)
1925/1927 - Tecelagem Parahyba
1936 - Cerâmica Conrado Bonádio
década de 1940 - indústria de Louças Irmãos Weis
A característica dessas indústrias nessa fase é o emprego em grande escala da mãode-obra feminina e infantil. È uma mão-de-obra pouco qualificada que faz seu aprendizado
dentro da própria fábrica. A tecelagem Parahyba que chegou a deter 70% da produção
nacional de cobertores caracterizou-se por seu assistencialismo (construção de uma vila
operária, escola da fábrica e cooperativa de alimentos). É claro que esse assistencialismo
tinha como contrapartida um controle maior dos trabalhadores por parte da fábrica. Não
apenas no espaço do trabalho como nos momentos de lazer.
Nesse início de industrialização os trabalhadores ainda não tinham assimilado os
rigorosos horários do tempo do trabalho o que ocasionava tensões dentro da fábrica. A
segurança interna das fábricas também deixava a desejar já que não existia um controle
rigoroso sobre as formas do processo produtivo nem sobre a saúde dos próprios
empregados.
Como exemplos, o barulho ensurdecedor dos teares, o calor intenso na sala de
preparação das tinturas nas tecelagens e o pó constante nas indústrias de cerâmica e louças.
Essas indústrias utilizavam-se da mão-de-obra local, principalmente da feminina. Até os
anos 1950 São José dos Campos se debatia entre a indústria das chaminés e a indústria da
tuberculose.
2) A segunda fase industrial de São José dos Campos acontece a partir da década de 1950
até final dos anos 1960. O parque industrial de São José dos Campos nesse momento toma
novo alento e caracteriza-se pela diversidade da produção.
Em termos de tecelagem a modernização começa com a vinda das fábricas Kanebo
e Rodhosá (Rhódia). As indústrias que se instalam, porém, são dos mais variados tipos:
Johnson e Johnson (1953), na área farmacêutica; Ericsson (1954), telefones e componentes
eletrônicos; Bendix (1957) eletrodomésticos; General Motors (1957) automóveis; Eaton
(1959), indústria de peças para automóveis; e ainda no final dos anos 50, desponta uma
indústria aeronáutica, a Avibrás (1957; Alpargatas (1961) indústria de calçados e a Kodak
(1969).
Nesse período, as décadas de 50 e 60, trouxeram outras novidades que darão
impulso às indústrias: a Rodovia presidente Dutra (1951) ligando as grandes metrópoles do
Rio de Janeiro e São Paulo; O CTA, Centro Técnico Aeronáutico, hoje Aeroespacial, o ITA
e o INPE (1961).
A diversidade das indústrias desse período apontavam para a rápida industrialização
que o país estava passando nesses anos. Além disso o ITA, as escolas técnicas como ETEP
e a fundação de Faculdades pela Fundação Valeparaibana de Ensino, apontavam para a
necessidade de um operariado mais técnico e especializado. Enquanto isso, as indústrias de
cerâmica e louças, com uma gestão familiar, entravam em declínio. A Tecelagem Parahyba
procurava se modernizar para seguir em frente. A tônica nesse momento é a busca por
trabalhadores mais qualificados, sendo que muitos chegam a São José dos Campos vindos
de vários cantos do país e do exterior.
3) A terceira fase da industrialização de São José dos Campos situa-se a partir dos anos de
1970 em diante, representando outro marco na história da cidade.
A criação da Embraer, em 1969, vai acentuar o perfil da cidade em relação à alta
tecnologia. O novo boom industrial caracterizou-se por atender o projeto de sociedade e os
desejos estratégicos dos militares no poder. Assim a Embraer, como a indústria bélica que
se instalava na cidade, correspondiam a uma visão de mundo pragmática e militarista.
Passado o regime militar, em meados dos anos 1980 e 1990, a indústria joseense
cresceu ainda mais em função das necessidades dos ramos aeronáutico e automobilístico,
além de empresas que utilizam tecnologia de ponta. Sendo assim, o operariado joseense
está hoje bem distante de seus companheiros dos anos vinte. A indústria hoje exige uma
mão-de-obra extremamente qualificada o que faz com que São José dos Campos continue
como pólo de atração de migrantes, tanto de dentro como de fora do país.
Além disso, a industrialização transformou a paisagem urbana joseense, justamente
para atender as demandas dos novos trabalhadores. Shoppings, grandes supermercados,
avenidas largas, concentração imobiliária. São José perdeu o aspecto interiorano e pacato
de suas congêneres do Vale do Paraíba e transformou-se, conseguindo com isso não só as
benesses do crescimento e desenvolvimento como as mazelas das grandes cidades.
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SÃO JOSÉ DOS CAMPOS E SUA HISTÓRIA Maria Aparecida