GÊNEROS TEXTUAIS NA ESCOLA: MODELO DIDÁTICO PARA O ENSINO DA LEITURA. Maria Aparecida Crissi KNUPPEL (Universidade Estadual do Centro-Oeste) ABSTRACT: The research looked for identify which textual genders are privileged in classroom and how they can work like a support to the teaching of reading. The interacionist conception of language was the starting point, especially the works of Geneva School, Bronckart (1997) and Scheneuwyl and Dolz (2004), as the mark of theoretical methodological configuration.The objective was centralized in identify which and how the textual genders are being used in school during the process of readers constitution. Therefore, from a central public school, another peripheral public school and a particular school, we analyzed the reading practices in eighth grades groups from Ensino Fundamental (Elementary School) and third grades from Ensino Medio (High School), with the support of textual genders to understand how this scholar practice works.Searching a purpose which could include the investigating process, the diagnostic and the practice of intervention, this research was characterized as an ethnographic tendency. KEYWORDS: textual genders; readers constitution; reading practices A perspectiva sócio-histórica do conhecimento, sobretudo, pela contribuição de Baktin(1986) e Vygotski (1988), no que se refere ao processo intersubjetivo harmônico/desarmônico da prática de leitura de sujeitos sociais, na interação com diversas esferas sócio-institucionais (família, escola) torna-nos possível o entendimento de que os leitores podem recriar culturalmente estas práticas, como novas formas sociais de letramento e, vão construindo seu conhecimento espontâneo e científico, mediados por gêneros discursivos e textuais diversos. A leitura, enquanto prática cultural na formação do cidadão ocorre a partir das situações que a realidade apresenta, numa perspectiva interacionista. No momento da prática social processam-se leituras, as quais habilitarão os cidadãos a ampliar as possibilidades de leitura dos textos e da própria realidade social. O ato de ler, nessa linha de análise, logra mapear a pluralidade que permeia o universo cultural, ensejando, por seu turno, a diversidade interpretativa no ato da leitura. Portanto, a prática de leitura pressupõe a atividade do leitor, em interagir com o texto, partindo das relações que com ele estabelece, segundo suas experiências. Nesse sentido, é que julgamos pertinente que essa ação ultrapasse as paredes da escola/ casa, para que a leitura não estacione no pressuposto de mera interpretação em que tudo é previsível. Assim, a partir das representações que as pessoas inferem por suas leituras de mundo, lhes é possível visualizar-se na perspectiva de sujeitos da história. Sendo assim, por sua natureza dialógica, o ato de ler vai além do texto e começa antes do contato efetivo com ele. Os leitores trazem a sua experiência sócio-cultural no momento da leitura e, este aspecto é básico para a compreensão do texto, pois, entram em jogo os referenciais contextuais externos ao texto, advindos da interação social do leitor. De acordo com Certeau(1994),a apropriação de um texto, seja ele qual for, implica em táticas e estratégias de consumo, que lhe conferem sentidos plurais, na medida em que estará condicionado às categorias de que dispõem o leitor para a sua interpretação. Sob essa ótica, os textos se revestem do aspecto simbólico, ao cruzarem lugar e metáfora. Para Silva (1981, p. 22) 1335 [...]o ato de ler inicia-se quando um sujeito, através da sua percepção, toma consciência de documentos escritos existentes no mundo. Ao buscar a intencionalidade, o sujeito abre-se para possibilidades de significação, para as proposições de mundo que os signos do documento evocam ou sugerem. Ampliando essa perspectiva, necessário que o aprendizado da leitura seja visto como o desenvolvimento da competência do leitor, no uso de gêneros textuais. “Essa competência engloba igualmente a capacidade de compreender de maneira também crescente as práticas discursivas e as relações sociais associadas ao uso de diferentes gêneros.”(MEURER, 2000,p.149) Para o autor acima citado: Gêneros textuais são tipos específicos de texto de qualquer natureza, literários ou não. Tanto na forma oral como na escrita, os gêneros textuais são caracterizados por funções específicas e organização retórica mais ou menos típica. São reconhecíveis pelas características funcionais e organizacionais que exibem e pelos contextos onde são utilizados. Gêneros textuais são formas de interação, reprodução e possível alteração social que constituem, ao mesmo tempo, processos e ações sociais e envolvem questões de acesso (quem usa quais textos) e poder.(MEURER, 2000, p.150) Assim, a leitura necessita ser entendida no seu contexto textual, ou seja, professores precisam entender como se constróem os sujeitos enquanto leitores, em suas várias dimensões, para que se tenha a idéia da construção histórico-cultural do ato de ler e, neste sentido, o trabalho com gêneros textuais, como objeto de ensino, se torna fundamental. Conforme adverte Chartier(1998), os textos são apreendidos e compreendidos de formas diferenciadas pelos leitores, ou seja, a partir da condição de leitores populares ou não. Ao que chama a atenção para não se recair no que diz respeito à leitura enquanto fonte, numa relação arbitrária entre signo e significado. Geraldi em seu livro “O texto em sala de aula”(1985) e, posteriormente na obra “Portos de Passagem” (1991), enfatiza o uso do texto com unidade de significação, ancoragem para o processo ensino- aprendizagem. Tal concepção indica como atividades básicas no ensino da Língua Portuguesa: leitura, análise lingüística e produção textual. No mesmo enfoque, importa considerar a manifestação de Rojo e Cordeiro (2004,p.08): O texto na sala de aula, ou o texto como objeto de ensino ou como material sobre qual se desdobra um ensino procedimental (processual), em leitura e compreensão de textos e em produção de textos, afirma-se juntamente como o deslocamento dos eixos do ensino aprendizagem de língua materna: de um ensino normativo, que priorizava a análise da língua e a gramática, para um ensino procedimental, em que os usos da língua escrita, em leitura e redação são também valorizados. Para as autoras, em um primeiro momento, o texto foi tomado como objeto empírico, objeto de uso e não de ensino, fixando-se em atividades de leitura, produção e análise lingüística. Mais tarde, o texto passou a ser suporte para o trabalho com estratégias procedimentais e aqui, algumas propriedades do texto passam a ser utilizadas como atividades de ensino, sobretudo, as estruturais, por meio da lingüística textual. Assim, o que ensinar sobre os textos, se tornam objetos de ensino procedimental. Além disso, as teorias textuais ofereciam conceitos e instrumentos que generalizam as propriedades e grandes conjuntos de textos (tipos), abstraindo suas especificidades e propriedades intrínsecas em favor de uma classificação geral (tipologias) que acabava por preconizar formas globais nem sempre compartilhadas pelos textos classificados. [...] Finalmente, uma última crítica que se faz à abordagem textual- baseada essencialmente em textos escritos canônicos e potencialmente normalizadora e 1336 gramatical – é a de que, nas práticas ligadas ao uso, à produção e à circulação dos textos, faz-se abstração das circunstâncias ou da situação de produção e de leitura desses textos, gerando uma leitura de extração de informações (explícitas e implícitas) mais do que uma leitura interpretativa, reflexiva e crítica, e uma produção guiada pelas formas e pelos conteúdos mais do que pelo contexto e pelas finalidades dos textos. (ROJO e CORDEIRO, 2004,p.08 e 09) Os avanços da Lingüística Textual e a utilização de textos, como objetos de ensino, fez com que se referenciasse o texto em seu funcionamento, em seus contextos de produção, enfatizando as significações oriundas destes procedimentos. Essa virada passou a ecoar com mais força nos programas e propostas curriculares oficias brasileiros a partir de 1997/1998, com sua incorporação nos PCNS de língua portuguesa.[...} Nela, passam a ter importância considerável tantos as situações de produção e de circulação dos textos como a significação que nelas é forjada, e, naturalmente, convoca-se a noção de gêneros (discursivos ou textuais) como um instrumento melhor que o conceito de tipo para favorecer o ensino de leitura e de produção de textos escritos e, também, orais. (ROJO e CORDEIRO, 2004, p.11) Outro fator importante que precisa ser considerado é a valorização dos diferentes tipos de textos existentes. Sejam eles oriundos dos segmentos sociais populares, seja a leitura dita “clássica”. Segundo Martins (1991,p.66), leitura é "um processo de compreensão de expressões formais e simbólicas, não importando por meio de que linguagem". Orlandi (1985,p.45) afirma: "ler é saber que o sentido pode ser outro", e do outro. Sendo assim, ler as linguagens da realidade e, especialmente, ler textos, implicam o resgate da cidadania, porque o leitor percebe o poder que possui, ao criar sentidos para os textos que se apresentam a cada passo do cotidiano. A leitura vista nesta perspectiva ampla e dinâmica, desacomoda o indivíduo, ele passa a questionar, criticar, aumentando sua capacidade de compreender o que ocorre a sua volta, conseqüentemente há uma ampliação no universo cultural. No entanto, é habitual se pensar em leitura e ter logo a idéia do texto escrito, mas o conceito é mais amplo do que comumente se imagina. Entende-se que tudo o que faz parte do contexto em que o homem vive é passível de leitura: ilustrações, músicas, textos publicitários, obras de arte, entre outros. Conforme Ferreiro(1985,p.23): “O texto é uma unidade significativa complexa, de natureza não apenas lingüística, mas comunicacional, na qual intervêm elementos contextuais em sentido amplo” Se há uma variedade de gêneros textuais e dentro deles especificidades, o ato de ler precisa ser compreendido como algo capaz de despertar no cidadão efeitos de sentidos, isto porque, num processo de leitura não é só quem escreve que dá sentido ao texto, quem lê também precisa dar sentido ao objeto lido. Esta significação se dá de acordo com as situações sócio-históricas do leitor, seu conhecimento e compreensão de mundo. De acordo com Orlandi (1991, p. 59): “quando lemos estamos produzindo sentidos (reproduzindo-os ou transformando-os). Mais do que isso, quando estamos lendo, estamos participando do processo (sócio-histórico) de produção de sentidos e o fazemos de um lugar e com uma direção histórica determinada ” Isto quer dizer que no ato de leitura, o leitor interage ideologicamente num processo de inferir sentido ao que lê. A leitura, no âmbito da comunicação social, tem uma dimensão bem mais ampla que a decifração da escrita. Embora decodificar seja imprescindível para a aprendizagem da leitura, é necessário ir, além disso. Uma leitura baseada apenas na decodificação estaria reduzida a uma experiência unilateral, sem a oportunidade de inferir significados diversos que se dá no próprio ato de ler. O leitor, sujeito de uma leitura dinâmica, realizada de forma interacional, recebe muitas informações que constituem seu referencial e, é capaz de estabelecer trocas, questionamentos 1337 sobre o teor do que foi lido, capacitando-se para selecionar dados significativos para a sua vivência de mundo, somente assim será capaz de entabular um diálogo com o texto, consigo mesmo e com sua realidade. Desta forma, é possível construir conceitos e saberes que proporcionem a mudança de comportamentos, que possibilitam uma melhor compreensão de realidade. Para se entender todo o processo de formação do leitor necessário se entender também os avanços da Lingüística, a qual produziu muitos trabalhos e pesquisas a partir da década de 80, sobremaneira na década de 90, principalmente com o avanço da Lingüística Aplicada, direcionada particularmente para o processo de formação do leitor e do escritor (produção de textos) ancorados na concepção interacionista. Segundo Bonini (2002,p.30): Nos últimos anos da década de 80, começa a se sedimentar a concepção interacionsta, composta de duas perspectivas bastante visíveis, mas têm em comum a ênfase na autonomia subjetiva do ato discursivo (seja com relação aos aspectos interacionais ou enunciativos). Diante das considerações tecidas até aqui estabelecemos nosso recorte temático, que se constituiu enquanto problema de pesquisa: quais os gêneros textuais privilegiados em sala de aula e, como estes podem servir de suporte para o ensino da leitura? A concepção interacionista da linguagem foi o ponto de partida, e o estudo alicerçou-se nos fundamentos dos gêneros textuais, como objetos de ensino. Esta perspectiva é importante porque abre novos procedimentos de análise dentro da Lingüística Aplicada, e ainda ressalta os trabalhos da Escola de Genebra, Bronckart (1997) e Scheneuwyl e Dolz (2004), como marca da configuração teórico metodológica. Em conseqüência do exposto, a pesquisa em questão, propôs o trabalho de campo, com embasamento na Lingüística Aplicada de caráter processual, procurando identificar quais, e, como os gêneros textuais vêm sendo utilizados na escola no processo de formação de leitores. Sendo assim, a partir da uma escola pública central, uma escola púbica periférica e uma escola particular, buscamos analisar as práticas de leitura em turmas de 8as séries do Ensino Fundamental e 3as séries do Ensino Médio, tendo como suportes os gêneros textuais, para entender como funciona esta prática escolar. Isto, por certo ensejou instrumentos teóricopedagógicos, para a mudança de uma possível velha prática e, colocou a perspectiva de originalidade no tema, pela abordagem realizada, a qual primou por entender as relações que se constituem entre a leitura e seus diversos suportes de apresentação (gêneros textuais). E, então, pergunta-se: e o ensino da leitura, nesse contexto? Na prática de ensino da leitura, as pesquisas levadas a efeito ao longo de muitos anos, por influência de idéias positivistas e da própria conjuntura nacional (governo ditatorial) de 1964, ofereciam, na maioria das vezes, opções de investigação restritas, devido à própria metodologia adotada. Nessas pesquisas privilegiavam-se os aspectos quantitativos estabelecendo situações generalizantes e deterministas, como afirmam Lüdke e André (1986). As pesquisas mais recentes, década de 90, decorrentes dos últimos avanços do conhecimento e das metodologias de pesquisa, preocupam-se com aspectos teórico-práticos, na tentativa de tratar a questão teórica de forma convergente para uma prática consciente ou reflexiva. Estas pesquisas procuram, assim, centralizar suas abordagens na análise de situações e fatos do cotidiano. É, pois, neste aspecto, que esta pesquisa orientou-se para a sala de aula, como foco do processo de aprender/ensinar Língua Portuguesa. Acreditou-se que a pesquisa e o ensino ancoradas nos estudos dos gêneros, como elementos de ensino da leitura, podem operar novas abordagens sobre textos, ou uma nova concepção ligada também à análise e formas de poder que se exercita através de textos. 1338 Neste trabalho, a primeira etapa da pesquisa foi levado a efeito com um trabalho de 20 aulas consecutivas (com alunos de 8a série do ensino fundamental ou 3a série do Ensino Médio) em três escolas diferentes.: uma escola pública central, uma escola pública periférica e uma escola particular, As respostas às questões levantadas por ocasião dos recortes que buscamos tratar e, que se constituem como proposição de um problema a ser pesquisado, conforme já explicitado anteriormente foram sendo construídas lentamente, a partir de observações em salas de aula (registro escrito) e, também buscando entrevistar professores, gravar as aulas em fitas e vídeos, realização de reuniões com os professores sujeitos de pesquisa. Tendo em vista, a problemática a ser estudada, buscamos estabelecer um diálogo entre os dados e o referencial teórico, no sentido de lançar luzes ao objeto de pesquisa, às situações sócio-históricas do cidadão, seu conhecimento e compreensão de mundo. Posteriormente a análise dos dados, buscamos as evidências que necessitam de reflexão, para buscar a aplicação de modelos didáticos de gêneros textuais no trabalho de leitura, os quais serão demonstrados para os professores e, para os alunos numa prática intervensionista em sala de aula, buscando os avanços e dificuldades de tais procedimentos, a fim de descobrir qual seu significado para os docentes. Tudo isso nos leva a pensar que ao analisar aspectos desta atividade social que é a prática da leitura e, que se constitui em termos de múltiplas determinações, teremos que realizar, de certa forma, uma análise do cotidiano, levando em conta aspectos reflexivos, que busquem não só o que é mais vislumbrado pelos olhos, mas o que aparentemente é insignificante, tentando-se chegar ao concreto da realidade social investigada. Não queremos com este trabalho chegar a generalizações que possam ser aceitas como verdades imutáveis, mas sim, obter dados e configurar abordagens que possam servir de parâmetros para novas investigações, ou seja, buscar as representações construídas pelos leitores. Acreditamos que apenas no final da pesquisa será possível mensurar as contribuições efetivamente realizadas. Contudo, alguns eixos norteiam o presente artigo. As primeiras análises, permitem afirmar que as instituições escolares observadas, têm a preocupação com o processo de formação do leitor, alicerçada numa concepção de linguagem interacionista. O sentido de leitura, nesta perspectiva, não é algo pronto, acabado no texto, mas processo de interação:autor-texto-leitor. Este processo de interação é um dos indícios do fortalecimento do leitor, porém é necessário estabelecer qualidades de relações que favoreçam o apego a leitura em situações intra e extra-escolares. Mas, esta preocupação se restringe a leitura escolar, pois os professores desconhecem outros tipos de leitura, que seus alunos realizam, fora do ambiente escolar. Não se sabe o que se lê, como se lê, quais são as práticas de leitura que ocorrem extra-muro escolar. Segundo Evangelista(1998,p.81), citando Smolka: “Sem saber, sem querer, com suas práticas de leitura, uns sujeitos certamente influirão na formação de outros. Assim constata Smolka, quando diz que “como se lê, para que se lê, o que se pode e não se pode ler, quem lê, quem sabe, quem pode aprender, são procedimentos implícitos, não ensinados, mas internalizados no jogo das relações interpessoais (1988,p.34)”, considerando-se que a história dos leitores de qualquer idade é continuamente marcada pelas oportunidades de interação com materiais escritos e com outros sujeitos. Consideramos importante ressaltar que a questão da leitura também passa pelo domínio político, cabe ao Estado promover o direito à leitura, através de muitas estratégias de divulgação e de incentivo ao estímulo à produção intelectual cultural e científica. E cabe ainda a sociedade, perceber que a leitura existe em qualquer espaço,e, em qualquer segmento social. Britto (1998,p.98) a este respeito coloca: 1339 [...] o leitor não é um sujeito desarraigado de sua condição de classe, que encontra na leitura uma forma de redenção individual. O que está em questão é o direito do cidadão ter acesso (material e intelectual) à informação escrita e à cultura letrada e não um comportamento de avaliação subjetiva. Ninguém fica necessariamente bom porque lê, nem faz sentido apelos morais para que as pessoas leiam... o que se está postulando é um direito: o de ter uma gama maior de objetos de leitura à disposição para que leia quando melhor (e de maneira que) lhe convier. A concepção da leitura, na qual o ato de ler seja visto como prática cultural de qualquer cidadão, perante a realidade não é percebida por vários segmentos da sociedade, mas sim, procedimentos de valorização da compra de livros (consumismo), pelo mercado editorial. E as escolas observadas reafirmam este procedimento. Acreditam essas instituições que tais iniciativas, por si só podem resolver a situação da leitura, de criar condições para que indivíduos se tornem sujeitos de suas leituras. E a função social da leitura, e as práticas sociais efetivas? Mas, infelizmente inexistem práticas de leitura fora da escola que sejam orientadas pelo poder público, ou outras organizações ou instituições escolares. Isto posto, é responsabilidade das instituições sociais, e nelas se inclui a escola, prover os cidadãos da formação necessária, a fim de que sejam leitores competentes, e que possam por meio da leitura ocupar um papel minimamente satisfatório em sua atuação social. Assim, deveria ser prerrogativa da escola trabalhar com as práticas de leitura de forma a colaborar no processo de inclusão social e não de uma inclusão/excludente, sobretudo, quando os alunos não conseguem ler textos de gêneros mais complexos, primários ou secundários. Chartier (1998,p.77) nesta perspectiva,aponta: [...] os hábitos que caracterizam em suas diferenças, as práticas de leitura. Os gestos mudam segundo o tempo e lugares, os objetos lidos e as razões de ler. A leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados. Segundo a bela imagem de Michel de Certeau, o leitor é um caçador que percorre terras alheias. Apreendido pela leitura. O texto não tem de modo algum – ou ao menos totalmente – o sentido que lhe atribui o seu autor, seu editor ou seus comentários. Toda história da leitura supõe, em seu princípio, esta liberdade do leitor que desloca e subverte aquilo que o livro lhe pretende impor...Mas esta liberdade do leitor, não é jamais absoluta. Ela é cercada por limitações derivadas das capacidades, convenções, atitudes são inventadas, outras se extinguem. No entanto, os professores de português, quando são questionados sobre o ensino centrado no trabalho da leitura de forma a afastar cada vez mais os alunos, dos diferentes gêneros textuais, não sabem responder, não possuem, na maioria das vezes sustentação teórica que explique suas práticas, e assim, não conseguem encontrar novas maneiras de ensinar, acabam usando o texto como pretexto para interpretações de textos, muitas vezes de forma equivocada. O que se observou foi o uso quase que exclusivo dos livros didáticos ou apostilas em sala de aula, e dos gêneros textuais que eles encerram, quais sejam: fragmentos de textos literários, textos informativos e textos dissertativos, ou seja, o predomínio das modalidades retóricas, esquecendo-se que a diversidade de textos e dentro destes suas especificidades, são elementos fundamentais para o trabalho com gênero textuais, numa ferramenta de ensino que busque a construção de leitores competentes, pois “ gêneros textuais são vistos como processos didáticos e mutáveis e como tais são também estratégias de responder aos contextos sociais”(MILLER, 1984, p.115). Um outro aspecto observado se refere ao uso de hipertextos por parte dos alunos, como um rico material de estudo, de pesquisa, de formação de leitores. Contudo, ainda há um grande 1340 distanciamento da escola, com relação a esta prática, e como este suporte textual, como veículo de diferentes gêneros textuais, em seu uso, pode auxiliar o aprendizado dos alunos Sabe-se que por mais que a escola deva valorizar a forma escolar já consagrada, precisa ainda buscar novas alternativas, no que se refere a Revolução Tecnológica, na qual o texto eletrônico se faça presente e remeta a um novo tipo de leitor e a outras práticas de leitura. A história da escrita do livro permite entender isso. Segundo Marquilhas (1999: 47): [...] a história da escrita do livro tem a vantagem de fazer perceber que, por complexo que seja o fenômeno da leitura, ele não pode ser visto de infinitas maneiras. Há modelos de leituras, práticas e competências várias, mas as experiências de cada indivíduo seguem normas partilhadas por muitos dentro da mesma comunidade. Também as características gráficas do suporte do texto nos abrem hipóteses infinitas de leitura.E mesmo outras características que aqui não vimos, como a do formato que passou do rolo de papiro ao códex de pergaminho, do grande in-fólio ao livro de notas portátil, do livro encadernado à folha volante, com orações, autos dramáticos ou cartilhas com o catecismo e o ABC, o formato determina diferentes experiências de leitura. Sendo assim, a sociedade hoje, se depara com a perspectiva da universalidade e da interatividade propiciada pelo texto eletrônico, Chartier (1998) ao se reportar a essa problemática, sublinha que teremos muito espaço para o livro, que ele não morrerá, porque não há espaço para o texto eletrônico, por exemplo, na cama, não deitamos com o computador e não podemos levá-lo a todos os lugares, mesmo assim, a revolução tecnológica é uma realidade e ela faz-nos refletir sobre o caráter de disseminação universal e a segregação, entre a interação e o estar sozinho frente um computador. Esta dimensão do texto eletrônico é captada por Chartier (1998:146) ao afirmar: [...] são as mais poderosas dentre as empresas de multimídia, que determinam a oferta de informação. Sendo assim, o futuro da revolução do texto eletrônico poderia serpoderá ser, eu espero – a encarnação do Projeto das Luzes, ou então um futuro de isolamentos e de solipsismos. Ir-se-á ainda mais longe na concentração, isto é, no monopólio exercido sobre informação e o patrimônio textual que, aliás, anda junto com as dominações lingüísticas ou as imposições ideológicas? Ou então, sendo a técnica tão flexível quanto pode ser forte, conseguir-se- á propiciar a possibilidade de intervenção no debate público àqueles mesmos que, no mundo do impresso, não podiam fazê-lo? Eis aí um desafio maior de nosso presente. Isto posto, ainda que seja voz comum, entre professores e teóricos da educação, de que é responsabilidade da escola prover seus alunos a formação necessária, a fim de que sejam usuários da língua no padrão necessário à ocupação de um papel minimamente situado na escala social. É no campo do uso lingüístico (Antunes 2000) que ocorre a exclusão social, quando o aluno não sabe ler e escrever textos mais complexos, de gêneros mais especializados e/ou não sabe intervir em situações mais formais de comunicação e publicações. Nesse sentido, pelo menos teoricamente deveria mais que consensual ser os gêneros textuais o objeto de ensino de Língua Portuguesa, centralizado no programa de ensino de leitura, para que se possa discutir o desenvolvimento da competência dos leitores, em variadas situações de interação verbal, o que por certo implica o desenvolvimento de uma competência textual, propondo, para o ensino de leitura, o enfoque de uso, teórico, sobretudo reflexivo. O objetivo dessa reflexão pode acontecer como análise sobre os recursos expressivos que levam à construção de noções com os quais se torna possível categorizar tais recursos, falando sobre: a linguagem e seu funcionamento; as configurações textuais; as relações sociais, a competência discursiva, o desenvolvimento da argumentação, domínio lexical, desde que os 1341 gêneros textuais, sejam o centro, a unidade de ensino de Leitura e por conseguinte de Língua Portuguesa. Alternativas em se trabalhar com gêneros textuais, como objetos de ensino, serão discutidas e aplicadas na segunda etapa desta pesquisa, pois se acredita que aprender a língua, numa perspectiva interacionista, e o ato de ler como representativo deste aprendizado, implica sempre reflexão sobre a língua, a sociedade e o papel que desempenham. Uma outra questão que pode ser destacar e que a relevância desta pesquisa encontra-se na possibilidade de trabalhar com professores, que não receberam em sua formação acadêmica estudos da Lingüística Aplicada, que posicione o papel dos gêneros textuais, como objetos de estudos, pesquisas e ensino. Como afirma Meurer (2000,p.152): [...] o ensino tradicional da linguagem humana, fundamentado na gramática, coesão e nas modalidades retóricas. Bem como seus aspetos da coerência textual, tem se mostrado altamente ineficiente não se preocupando e não dando conta das situações específicas em que os indivíduos efetivamente utilizam a linguagem como instrumento de interação, reprodução e/ou alteração social. Dentro do contexto de investigações recentes em lingüística aplicada, trabalhos de pesquisa sobre gêneros textuais vêm recebendo atenção como uma opção atraente de se produzir conhecimentos que respondam de maneira mais adequada a questões relativas aos diferentes usos da linguagem e sua interface com o exercício da cidadania. Referências ANTUNES, L.C. A análise de textos da sala de aula: elementos e aplicações. In: Moura. D. (Org).Língua e ensino: dimensões heterogêneas. Maceió: EDUFAL, 2000. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1986. BONINI, A. Metodologias do Ensino de produção textual. Florianópolis: Perspectiva, v02, n 01, p.23-47, jan/jun.2002. 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