OS SURDOS E AS NOTAÇÕES NUMÉRICAS MÁRCIA CRISTINA AMARAL DA SILVA (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ). Resumo O presente estudo é resultado de uma pesquisa de mestrado e tem como objeto questões afetas à escrita numérica por crianças surdas, mediadas pela libras (língua brasileira de sinais). O propósito é compreender o percurso dos surdos para a apreensão desse conceito, bem como as hipóteses que elaboram acerca deste conhecimento. O subsídio teórico–metodológico que norteou a pesquisa perpassa por trabalhos de autores que tratam de alguns aspectos da escrita numérica por crianças ouvintes. Os dados foram coletados por meio de entrevistas com onze crianças surdas de cinco a nove anos de idade, alunas de uma escola de Educação Especial de Surdos, usuárias da libras e sem comprometimento mental. O método utilizado para a pesquisa foi a versão clínico–crítica de Piaget. Os resultados encontrados demonstram que a criança surda elabora hipóteses sobre a escrita numérica semelhantes às identificadas nas crianças ouvintes das pesquisas consultadas. Muito embora a literatura especializada aponte que as possibilidades do surdo e do ouvinte são coincidentes, o isolamento causado pela surdez torna–os dependentes da escola, espaço onde se pressupõe o uso hegemônico da língua de sinais. Para os surdos, o contato com o meio ambiente não acontece de maneira natural, logo o planejamento das práticas pedagógicas deve contemplar atividades que reproduzam situações das quais são privados, a fim de proporcionar–lhes as trocas simbólicas necessárias para a conceitualização e efetiva participação na construção coletiva do conhecimento. Essas questões implicam em reavaliar a educação inclusiva para esses sujeitos. Nosso estudo corrobora ser o papel da libras, no desenvolvimento global do surdo, similar ao da língua oral para o ouvinte. Logo, essa língua se constitui, então, fator essencial para a efetivação das notações numéricas. Palavras-chave: Educação Matemática, Escrita numérica, Educação de Surdos. 1. INTRODUÇÃO Este trabalho é resultado de pesquisa de mestrado e objetiva tratar da escrita numérica por crianças surdas mediadas pela libras. As pesquisas demonstram que o desenvolvimento cognitivo dos surdos e dos ouvintes é compatível. Os subsídios teórico-metodológicos que nortearam o trabalho foram pesquisas sobre a construção da notação numérica por ouvintes, como Sinclair (1990), Lerner, Sadovsky (1996), Brizuela (2006), Orozco (2005) Teixeira (2005) e Danyluk (1998), por não encontrarmos estudos que abordem este tema com surdos. 2. OS COLABORADORES E O MÉTODO Trabalhamos com 11 alunos de uma Escola de Educação Especial de Surdos, com idades ente 5 e 9 anos; usuários da libras, sem comprometimento mental (Anexo 1). O método utilizado foi a versão clínico-crítica de Piaget. Como a escrita numérica e o conceito de número podem ser elaborados independentemente com intercâmbio nessa elaboração, as provas contemplam qualidades do número, pois sua construção não apresenta "[...] um ponto de partida absoluto" (NOGUEIRA, 2002: 192). 3. O REPERTÓRIO NUMÉRICO O repertório numérico dos surdos demonstra que eles estabelecem relações entre os sinais dos números e suas grafias, ou seja, transpõem um tipo de representação a outro. Investigamos, então, suas condutas no uso desse repertório, categorizados como "números da escola" e "números do cotidiano". Junto à indicação de cada sujeito, especificamos sua idade e a escolaridade em anos: J3 (~6; ~4), indica uma criança da Educação Infantil, com aproximadamente seis anos de idade e quatro anos de escolarização. 3.1 Números da escola Essa categoria numérica expressa a influência da educação matemática formal, que se caracteriza pela repetição da escrita da sequência numérica como um processo mnemônico, sem significado. A criança S1 (~7, ~6) faz o sinal do número 2 em libras, referindo-se à série que frequenta e grafa a sequência numérica, conforme Anexo A - 1. Para S1, a seqüência numérica é a resposta às perguntas feitas sobre os números conhecidos, o que indica uma influência do processo de ensino e aprendizagem escolar. Portanto, a interação social contribui para a construção do sistema de representação numérico, pois mesmo que não consigam justificar suas produções gráficas de acordo com as regras constitutivas do sistema de numeração decimal, as crianças elaboram e interpretam, a seu modo, as escritas convencionais. 3.2 Números do cotidiano A criança P1 (~7, ~6) mostra sua compreensão sobre as notações como marcas, ou seja, os números têm um significado. Explica que tem dois cachorros, um com 021 anos e o outro com 9080 anos. Veja Anexo A -2. Aponta para o número 9080 como a idade do cão mais velho e para 021 como a idade do mais jovem. A relação entre a quantidade de algarismos e as idades - cão velho, mais algarismos; cão jovem, menos algarismos - sugere que a elaboração da escrita numérica dos surdos se orienta pela hipótese de "quanto maior a quantidade de algarismos de um número, maior é o número" (LERNER; SADOVSKY, 1996). S2 (~8, ~ 2,5) e P1(~7, ~6) utilizam a escrita convencional em suas respostas para os números de suas casas e dos transportes, o que indica que apreendem informações sobre a escrita numérica do cotidiano e as associam com o número como marca, de acordo com o Anexo A - 3. Os surdos apresentam um repertório numérico como o dos ouvintes de mesma idade. A preponderância para a elaboração da escrita numérica não é a idade das crianças, mas a fluência em libras. A apropriação da língua favorece a intermediação e a interação com o meio, fatores primordiais para a construção do conhecimento. 4. CONTAGEM, CARDINALIDADE, SERIAÇÃO E TIPOS DE NOTAÇÃO ORDINALIDADE, CLASSIFICAÇÃO, Lerner e Sadovsky (1996) afirmam que a noção da contagem é necessária para as relações entre a notação numérica e a numeração falada e, para os surdos, entre a notação e os sinais dos números. Há uma dialeticidade entre a escrita e a fala, logo, concluímos que para os surdos o mesmo ocorre entre a escrita e a libras. Analisamos as notações conforme os descritores a seguir (Anexo 2): ordinalidade; retenção da totalidade; uso de signos para quantidades de contagem e de informação; notações em desenhos ligados ou não à forma do objeto ou cópia; representação global de quantidade; uma só figura para representar a cardinalidade; correspondência termo a termo; algarismos aleatórios; cardinal sozinho ou com desenho ou nome do objeto; série de algarismos até a totalidade; um só número que represente a cardinalidade. 5. SEQUÊNCIA NUMÉRICA, COMPARAÇÃO E VALOR PSOCIONAL Orozco (2005) aborda a necessidade da compreensão das características operatórias do sistema de numeração e o uso das regras do valor de posição para a transformação das notações espontâneas em convencionais. Observamos como os surdos comparam, classificam, apreendem o valor posicional e as relações entre o sistema numérico e o alfabético, por meio da interpretação de grafias e leitura de algarismos, pois a gênese da língua escrita é considerada referência para a gênese numérica. Para Danyluk (1998), a série numérica de 0 a 9 é um conhecimento pré-reflexivo, construído nas práticas sociais. Mas a continuidade desta "seriação" não apresenta essa característica, então, alcançamos as dezenas, centenas, unidades de milhar até os "nós"[1]. Identificamos os critérios usados para a comparação de números escritos, comparação que independe do conhecimento do nome ou sinal dos números, da seqüência e das regras do sistema de numeração escrita. Lerner e Sadovsky (1996) afirmam que a comparação é uma "ferramenta poderosa" para a compreensão da notação numérica, pois possibilita a reflexão sobre a escrita de dois números com quantidades de algarismos diferentes e a elaboração de hipóteses advindas dessa ação. Utilizamos os seguintes descritores: quanto maior a quantidade de algarismos de um número, maior é o número; a posição dos algarismos como critério de comparação ou "o primeiro é quem manda"; alguns números especiais: o zero e os "nós"; diferença entre letras e números; compreensão do valor posicional; noção de ordem. Distinguimos duas categorias, quais sejam a de Relações Simples e a de Relações Refletidas. 6. CATEGORIA DAS RELAÇÕES SIMPLES Apresenta as construções do sujeito em um patamar mais primitivo, empírico de seu desenvolvimento. As estratégias não exigem um nível elevado de abstração e se estabelecem pelo contato com o real. Ferreiro e Teberosky (1985) explicam que, em determinado estágio do desenvolvimento cognitivo, a criança não concebe a palavra e o objeto referido como duas realidades distintas, fenômeno denominado de realismo nominal. A criança não faz relações entre letras e sons e associa as características do objeto à sua forma física, independente da forma lingüística. O mesmo ocorre com as notações numéricas. Analisamos a contagem; cardinalidade; classificação e seriação e "números especiais": o zero e os "nós". 6.1 Relações simples de contagem As crianças surdas fazem uso da correspondência termo a termo "[...] uma marca para cada ‘coisa' é primitiva, mas poderosa [...] simbolização escrita da contagem, conservando todas as suas características" (SINCLAIR, 1990: 91-94). A contagem está implícita ao conceito e às notações dos números e, para os surdos, não segue a seqüência de palavras-número convencional, mas as relações entre os sinais em libras e a escrita convencional. A criança P2 (~7, ~4) conta de 1 a 5 e escreve com uma correspondência termo a termo, cinco números para representar cinco objetos. Não compreende que apenas o último número representa a totalidade (Anexos 2 e 3, situação I e Anexo A - 4). 6.2 Relações simples de cardinalidade Para representar as quantidades, as crianças utilizam advérbios, adjetivos, gestos, desenhos e ideogramas. J2 (~5, ~2) representou 12 bolas com desenhos de círculos: muitas bolas! (representação global de quantidade). Em seguida, realizou correspondência termo a termo, para cada bola um desenho (SINCLAIR, 1990) seguido do nome do número: Uma amarela! Duas verdes! Três azuis: um azul escuro e dois azuis claros! (Anexos 2 e 3, situação 1). A conduta de J4 (~5, ~2,5) demonstra o aparecimento dos algarismos (SINCLAIR, 1990) representando a quantidade de objetos pela seqüência numérica. Para os 4 objetos grafa 4 4 4 4 para mostrar a totalidade. Estabelece uma grafia para cada objeto e utiliza as cores para correspondência termo a termo. A criança encontra-se em um estágio intermediário da psicogênese da escrita numérica, transitando entre noções mais elaboradas e elementares de notações, estabelecendo uma relação imediata com o objeto representado. Vide Anexo A - 5. A notação da criança com cardinal escrito tantas vezes quantos forem os objetos possibilita um desequilíbrio no pensamento infantil ao descobrir que não precisa escrever todos os algarismos, pois somente o último dá conta da cardinalidade requerida. 6.3 Relações simples de classificação e seriação A comparação é um subsídio para a ordenação numérica, para classificação e agrupamentos. Os surdos reconhecem semelhanças e diferenças entre as figuras que representam pessoas, um referencial concatenado ao vivido, com elementos observáveis como altura, peso, idade e vínculos afetivos (Anexos 2 e 3). Analisamos se as crianças, ao compararem, compreendem a relação de ordem no sistema de escrita numérica, fundamental para a grafia e interpretação das notações. Observamos se estabelecem relações entre a cardinalidade e o conceito de idade e se classificam e agrupam, pois os critérios de comparação são construídos pelas crianças antes do ensino formal. Sem conhecerem centenas, dezenas e unidades, as crianças pensam sobre as posições dos algarismos e os seus valores (LERNER, SADOVSKY, 1996). J2 não diferencia números e letras, agrupa-os como uma única categoria de signos. J1 e J4 consideram que as letras "servem para contar" e determinam para cada letra uma quantidade. No caso das letras B, M, N, U, V e W, em libras, J1 e J2 colocam 4 palitos para a letra B, 3 palitos para M e W e 2 palitos para N, U e V. A relação feita entre os sinais do alfabeto manual e a quantidade numérica se caracteriza por uma associação primária das unidades menores com os sinais que trazem os indícios dessas quantidades, o que não descarta a suspeição de elas conhecerem as especificidades das letras e números, haja vista a utilização do alfabeto manual na nomeação de objetos. Confira no Anexo B - 1 Observamos as relações entre ordenação e magnitude dos números e encontramos a comparação entre as alturas, as idades, o peso e o grau de importância conferido pelas crianças aos bonecos. Piaget e Szeminska afirmam que "[...] muito antes de aprender a classificar e a seriar os objetos, já os percebem segundo certas relações de semelhança e de diferença" (PIAGET; SZEMINSKA,1975: 17). J2, por exemplo, afirma que "O vovô é velho, o bebê é jovem!" Compara as alturas: "O vovô é muito alto, o bebê é pequenininho!", expressões que sugerem que a construção dos números se dá por sua relação com o objeto, coordenando semelhanças e diferenças entre os bonecos e as cardinalidades numéricas, como uma correspondência termo a termo. 6.4 Relações simples com os "números especiais": o zero e os "nós" As notações dos surdos para os "números especiais" ocorrem como "invenções" e convenções. São construções idiossincráticas, pois relacionam esses números às "coisas da vida" como idades, séries escolares e dia do aniversário (Anexo 3, situações I e III). J1 (~5, ~4) atribui idades aos bonecos: 0 ao bebê, 10 ao menino, 100 ao vovô e 1000 ao papai: O papai é forte, tem muito! O vovô é alto, tem mais ou menos, mas o papai é muito forte. O bebê é pequenininho, é nada, é zero e o menino é pouco. J1 compreende que os "nós" demonstram a magnitude das potências de dez. Mas conhece apenas as cardinalidades até 7, o que nos permite inferir que J1 utiliza os "nós" pela hipótese de "quanto maior a quantidade de algarismos de um número, maior é o número" (LERNER; SADOVSKY, 1996). Associa o número "alto" ao pai "mais forte" -, e o número "baixo" ao bebê - "pequenininha", processo ligado ao realismo nominal. 7. CATEGORIA DAS RELAÇÕES REFLETIDAS Nessa categoria as construções são elaboradas por abstrações. Os critérios envolvem contagem; cardinalidade; ordinalidade; classificação; seriação; "números especiais" e valor posicional (Anexos 2 e 3). 7.1 Relações refletidas de contagem, cardinalidade e ordinalidade Pela estreita relação entre as noções de contagem, cardinalidade e ordinalidade para a notação numérica, tratamo-las conjuntamente. A contagem extrapola a forma mnemônica da série numérica, pois se estende para o domínio do conceito de quantidade. Brizuela (2006) afirma que isso se explica pelo fato de a contagem evidenciar uma ordem existente na numeração, estabelecida pelas convenções sociais. Os surdos realizam a contagem convencionalmente, conforme a série escolar e o tempo de contato com a libras. Contam mentalmente quantidades pequenas e expressam a totalidade apenas pela cardinalidade, ou acompanhada do nome ou desenho do objeto. Algumas crianças optam por representar graficamente o nome dos objetos, ou por um desenho-cópia. S1(~7, ~6) representou o cardinal acompanhado do nome do objeto. S2 (~8, ~2,5) grafou a série numérica até o algarismo que representa a totalidade dos objetos. P3 (~7, ~9 meses) representou o cardinal acompanhado dos desenhos dos objetos, o que configura a correspondência termo a termo da parte icônica representada e J3 (~6; ~4) realizou as diversas representações, tal qual está explicitado no Anexo B - 2. Quanto à ordinalidade, consideramos as expressões maior/menor/mais ou menos, alto/baixo/mais ou menos, gordo/magro/mais ou menos. Por meio dessas relações, as crianças podem perceber a hierarquia existente entre a magnitude dos números, os antecessores e os sucessores de uma seqüência numérica, bem como suas cardinalidades. Mas podem apresentar apenas as posições antes/depois na série automatizada. Logo, não podemos afirmar que o esquema de "mais um" e "menos um" esteja compreendido. J3, por exemplo, mostra o 5 como o número maior da sequência numérica: 4, 3, 2, 1, diminui; 6, 7, 8, 9, 10, aumenta. Estabelece o 5 como um "divisor de águas" entre os demais números e afirma que é o maior entre as unidades, pois seus antecessores diminuem e seus sucessores, aumentam. Logo, conhece a magnitude das unidades e só anuncia o 5 como a maior unidade por relacioná-lo à sua idade e não à cardinalidade. Para as noções de maior e menor, a criança utiliza a sua idade como parâmetro, um "nó móvel", "nó" por ser um número especial, uma das primeiras aquisições da criança que facilita a construção da escrita numérica, e móvel, porque, ao se limitar à idade, muda a cada ano. O pensamento de J3 aponta-nos que seu conhecimento convencional das notações matemáticas se consubstancia por perspectivas ingênuas, incompreensíveis para os adultos, mas que são a gênese para as "formas mais complexas de notações e sobre a matemática em geral" (BRIZUELA, 2006: 18). T1 (~9, ~3), por exemplo, ao olhar o tamanho da coluna de marcação de pontos expressa: Eu ganhei! Derrubei 8 pinos e você 6. Mas, ao somar os números surpreende-se: Igual! Eu 32 e você 32. Essa reação está ligada à fase intuitiva de seu desenvolvimento, pois sua percepção visual volta-se para o tamanho das colunas desconsiderando as cardinalidades pela coluna maior. Como os ouvintes, os surdos se relacionam com sistemas simbólicos socialmente, elaboram e analisam hipóteses e regras. 7.2 Relações refletidas de classificação e seriação Acreditávamos que os surdos construíssem precocemente critérios para a comparação dos números pela compreensão das regularidades na interação com a sequencia numérica escrita (Anexos 2 e 3). S3 (~8, ~7), por exemplo, compara 90 e 20 e afirma: 90 é pouco, não é 100, é 90! e para o 20: muito pouco, é mais que 10, é 20! 20 é pouquinho, é mais que 10, é 20! Utiliza o advérbio "pouco" para a quantidade maior, a locução adverbial "muito pouco" e o diminutivo "pouquinho" para a quantidade menor. Deixa transparecer a carência dos vocábulos "mais que", "menos que", "maior que", "menor que", indispensáveis para a compreensão das relações assimétricas de seriação dos processos lógicos matemáticos de adição e subtração. Os "nós" 10 e 100 são usados como subsídios para a comparação entre as cardinalidades, o que lhe permite determinar a magnitude das dezenas 20 e 90. Compara as dezenas e os "nós", bem como estabelece comparação entre as próprias dezenas. 7.3 Diferenciação entre números e letras Os surdos estabelecem a diferença entre letras e números muito antes de saberem seus sinais em libras. Suas comparações se encaminham para generalizações das hipóteses infantis, logo, a abstração se encontra presente no pensamento e próxima das invenções elaboradas, que seguem a mesma trajetória dos ouvintes. 7.4 Relações refletidas com os "números especiais": o zero e os "nós" Observamos como os surdos se apropriam das notações convencionais dos "nós" antes da grafia dos números entre os "nós" na seqüência numérica (Anexos 2 e 3). S2 (~8, ~2,5) e P1(~7, ~6) demonstram que a apreensão dos "nós" é anterior à dos números em seus intervalos. Com os pares 10 e 1, S2 afirma que 10 é mais, maior e que 1 é pequeno. Com os pares 10 e 20, S2 diz que 10 é mais (é um "nó"), grande e 20 é pequeno. Com os pares 10 e 100, compara-os: 10 é pouco e 100 é maior. As respostas da criança sugerem a apreensão dos "nós" das dezenas, centenas e unidades de milhar exatas, pois despreza a hipótese do "primeiro é quem manda" (LERNER; SADOVSKY, 1996). P1, antes de somar as quantidades, se deu por vencido, pois a pesquisadora derrubou um pino com o 100 e o "nó" da centena exata é conhecido pela criança em sua magnitude: Você ganhou! Você tem 100. 7.5 Relações refletidas e o valor posicional Verificamos se os surdos compreendiam o valor posicional dos algarismos de números maiores e se estabeleciam relações entre a numeração escrita e os sinais, entre a lógica das potências de base 10 e sua notação convencional (Anexos 2 e 3). De posse das cartelas com 396, 36 e 3, S1 (~7, ~6) especifica os atributos Maior, Menor e Menorzinho para os números na seqüência. Explica que 3 é um número; 396 é muito, grande, alto e 36 é mais ou menos. A criança P1 (~7, ~6), para os pares 100 e 10, explica que os dois números são grandes, mas o 100 é mais. Lerner e Sadovsky (1996) afirmam ser o sistema posicional mais econômico e menos transparente que o sistema aditivo. A transparência é ofuscada porque "o valor de cada símbolo depende da posição que ocupa, e porque essa posição é o único vestígio da presença de uma potência da base" (LERNER; SADOVSKY, 1996: 111). A economia do sistema posicional está no fato de "uma quantidade finita de símbolos dez - em nosso caso - ser suficiente para registrar qualquer número" (LERNER; SADOVSKY, 1996: 111). Compreendemos que a libras apresenta uma peculiaridade em relação aos sinais dos números: a transparência. Os números transparentes são "aqueles em que os elementos dos números escritos podem ser identificados a partir dos números falados" (BRIZUELA, 2006: 36). Quanto aos surdos, generalizamos essa afirmação aos sinais, isto é, os elementos dos números escritos podem ser identificados a partir dos sinais em libras. Para representar por sinais um número como 379 em libras, fazemos da forma descrita no Anexo B 3. Esse número é interpretado pela justaposição dos símbolos utilizados. Diferentemente da numeração falada, que não coincide com a escrita, os surdos, pela libras, se apropriam da escrita numérica convencional e, em outro momento, compreendem que a quantidade de algarismos se vincula à magnitude do número representado e que o valor do número é determinado pela posição que cada algarismo ocupa - valor posicional. Esses dados sugerem que, para os surdos, todos os números são transparentes, no sentido de que "se escreve como se fala", os sinais são expressos na mesma ordem em que são escritos. Diferentemente, os ouvintes utilizam a linguagem numérica oral não posicional e devem realizar uma transcodificação para a escrita numérica posicional. CONSIDERAÇÕES FINAIS Muito embora a literatura especializada aponte que as possibilidades do surdo e do ouvinte são coincidentes, e de nossa pesquisa demonstrar que os surdos elaboram a escrita numérica na interação com o meio, o isolamento causado pela surdez torna-os dependentes da escola, espaço onde se pressupõe o uso da língua de sinais. Nosso estudo corrobora ser o papel da libras, no desenvolvimento global do surdo, similar ao da língua oral para o ouvinte. Cognitivamente, este último não depende apenas da escola. Entretanto, se esta for rudimentar, podemos encontrar defasagens em seu desenvolvimento. Para os surdos, o contato com o meio não acontece de maneira natural, logo o planejamento das práticas pedagógicas deve contemplar atividades que reproduzam situações das quais são privados, a fim de proporcionar maior participação na construção coletiva do conhecimento, o que implica reavaliar a educação inclusiva para esses sujeitos. A incompletude deste trabalho aponta para a importância de se prosseguir com estudos dessa natureza. REFERÊNCIAS BRIZUELA, B. M. Desenvolvimento matemático na criança: explorando notações. Porto Alegre: Artmed, 2006. DANYLUK, O. S. Alfabetização matemática: as primeiras manifestações da escrita infantil. Porto Alegre: Sulina, 1998. FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985. LERNER, D.; SADOVSKY, P. O sistema de numeração: um problema didático. In: PARRA, C.; SAIZ, I. et al. Didática da Matemática: reflexões psicopedagógicas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. NOGUEIRA, C. M. I. O desenvolvimento das noções matemáticas na criança e seu uso no cotidiano escolar: o caso particular do número. 2002. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Marília, 2002. OROZCO, M. H. Os erros sintáticos das crianças ao aprender a escrita dos numerais. In: MORO, M. L. F.; SOARES, M. T. C. (Org.). Desenhos, palavras e números: as marcas da matemática na escola. Curitiba: Ed. da UFPR, 2005. PIAGET, J.; SZEMINSKA, A. A gênese do número na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. SINCLAIR, A. A notação numérica na criança. In: SINCLAIR, H. et al. A produção de notações na criança: linguagem, números, ritmos e melodias. São Paulo: Cortez, 1990. (Coleção Educação Contemporânea). TEIXEIRA, L. R. M. As representações da escrita numérica: questões para pensar ensino e aprendizagem. In: MORO, M. L. F.; SOARES, M. T. C. (Org.). Desenhos, palavras e números: as marcas da matemática na escola. Curitiba: Ed. da UFPR, 2005. [1] Denominação utilizada por Lerner e Sadovsky (1996) para designar dezenas, centenas ou unidades de milhar exatas. ANEXO 1 Sujeito Sexo Idade 5 anos Tempo de escolarização 3 anos e 9 meses Fluência em libras Fluente J1 Masculino J2 Masculino 5 anos 1ano e 7 meses J3 Feminino Completou 6 anos no decorrer da pesquisa 4 anos Faz uso de libras e gestos Fluente (faz uso de gestos) J4 Feminino 5 anos 2 anos e 4 meses P1 Masculino Completou 7 anos no decorrer da pesquisa 1 ano e 10 meses (nesta escola) 4 anos e 2 meses (em outra escola) Fluente (faz uso de gestos) Bilíngüe (libras e português) P2 Feminino 7 anos 4 meses P3 Feminino 7 anos 9 meses S1 Masculino 7 anos 5 anos e 10 meses Faz uso de libras e gestos Faz uso de libras e da fala Fluente S2 Masculino 2 anos e 4 meses Fluente S3 Feminino Completou 8 anos no decorrer da pesquisa 8 anos 6 anos e 11 meses Fluente T1 Feminino Completou 9 3 anos Fluente anos no decorrer da pesquisa Planilha 1- Caracterização das crianças participantes da pesquisa: o sexo, idade, tempo de escolarização e fluência em libras. Legenda 1: Os códigos J se referem aos alunos da Educação Infantil; os códigos P aos alunos da primeira série; os S aos alunos da segunda série e o código T à criança da terceira série, todos do ensino fundamental. FONTE: A autora. Situações de verificação Situação I- Jogo da bola na boca do palhaço Material: Objetivos: Contagem, cardinalidade e tipos de notação. Descrição das ações da pesquisadora e ações e justificativas das crianças Situação I – Convidamos as crianças a jogar. P: Quer jogar as bolas na boca do palhaço? S: P: Pode contar quantas bolas você acertou? S: P: Da próxima vez trarei balas na mesma quantidade de bolas que você acertou. Como vou saber quantas balas devo trazer? P: O que você pode fazer para não esquecer quantas bolas acertou? P: Uma criança disse que poderia anotar em um papel? O que você pensa sobre isso? P: Pode anotar o total de bolas? Situação II - Jogo de Boliche Situação II- Convidamos as crianças a jogar. Objetivos: Ordinalidade, classificação e seriação P: Observe que nos pinos que você derrubou há uma etiqueta com algo escrito S: P: O que está escrito? P: Anote os números referentes a cada pino. P: Pode anotar o seu total e o meu? Quantos pontos nós fizemos? P: Você quer os palitos e as fichas para ajudar a contar? P: Eu não derrubei pinos. Posso colocar zero no quadro de giz? Após cada pergunta sobre a quantidade, eram oferecidos às crianças os materiais auxiliarespalitos e fichas coloridas- para apoio nas situações de contagem ou como forma de contraargumentação às suas respostas. Situação III – Idades das personagens Materiais: “Bonecos” de madeira Objetivos: verificação da contagem, classificação, seriação, ordinalidade e cardinalidade Cartelas com unidades e cartelas com algumas dezenas, centenas e unidades de milhar Situação III - Os bonecos são apresentados às crianças. P: Quem são eles? S: P: Uma criança disse que os bonecos representam pessoas da sua família. O que você acha disso? P: Você sabe quantos anos eles têm? P: Pode anotar? P: Quem tem mais idade? P: Como você sabe? Pode me explicar? P: Quem tem menos idade? P: Como você sabe? Pode me explicar? Primeiramente distribuímos cartelas com as unidades impressas. P: Atribua idades aos “bonecos”. S: P: Quem tem mais idade? P: Como você sabe? Pode me explicar? P: Quem tem menos idade? P: Como você sabe? Pode me explicar? Após, acrescentamos cartelas com dezenas. Refazemos as perguntas anteriores. Repetimos as mesmas operações com as cartelas das centenas, acrescidas das dezenas e unidades. Trazemos, por fim, as cartelas dos milhares, somadas às anteriores. Fazemos os questionamentos descritos anteriormente. Obs: Os materiais auxiliares, descritos na situação II de verificação, foram utilizados para confirmação das quantidades relatadas pelas crianças e, principalmente, como apoio para contra-argumentações efetuadas quando precisávamos das comparações entre as idades e as relações entre mais/menos e velho/jovem Quadro 2: Provas de investigação de tipos de notação, contagem, cardinalidade, ordinalidade, classificação e seriação. Fonte: A autora Situações de verificação Situação I- Manusear cartelas Material: Descrição das ações da pesquisadora e ações e justificativas das crianças Antes de aplicar as provas averiguamos se as crianças conheciam os sinais dos números em libras. Distribuímos as cartelas das unidades, aleatoriamente sobre a mesa. Cartelas com as unidades Cartelas com as dezenas, centenas e milhares Obs: As atividades foram realizadas com algumas dezenas, centenas e milhares. Repetimos a operação de comparação com todas as unidades. Com as crianças que conheciam além, realizamos as atividades com as dezenas, centenas e milhares. Cartelas com as letras do alfabeto Situação II- Jogo de Boliche Objetivos: observar a seqüência numérica, a comparação e o valor posicional. P: Arrume os números do menor para o maior. S: P: Uma criança ensinou-me que posso começar assim: 1, 2 ........ O que você acha? P: Você quer mais números além desses? P: E o zero? P: Você sabe qual desses números é o maior? Pode me explicar como você sabe? P: E o menor? Pode me ajudar a entender o porquê? P: Podemos usar as fichas ou os palitos para confirmar. P: Você pensa que este número é o maior? Por quê? P: Onde tem mais fichas? P: Qual número tem mais? Qual é o maior, então? P: Explique sua resposta. P: Olhe os números 34 e 63. Quanto vale o algarismo 3 nos dois números? P: Você conhece letras? S: P: Letra é igual a número? P: Pode escrever palavras com números? Como? P: Pode escrever idade com letras? Como? P: Faço os sinais de letra e de número em libras. São iguais? P: Ele disse que letra é para escrever nomes e número a idade. O que você pensa? P: Pode separar as letras dos números? P: Mostro o zero. Qual é o sinal? P: É letra ou número? Situação II - Convidamos a criança a jogar. Pedimos que anote em um papel os números ou letras impressas nas etiquetas coladas nos pinos do boliche. P: Vamos anotar o que está impresso nas etiquetas dos pinos que você derrubou? S: P: B é número? Tem que anotar? P: Como vou somar a letra B aos números? P: 2 + 8 + A + L + 18. Como vou somar esses signos? . Quadro 3: Provas de investigação da seqüência numérica, comparação e valor posicional. Fonte: A autora Anexo A - 1 Anexo A – 2 Anexo A – 3 S2 Anexo A – 4 Anexo A – 5 P1 (número da casa e do painel do carro)