INSTITUIÇÕES, POPULAÇÕES E COMÉRCIO NA FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA Marco Aurélio Machado de Oliveira1 Davi Lopes Campos2 Eixo temático: POLÍTICAS DO ESTADO NA FRONTEIRA RESUMO: Na fronteira que envolve os municípios de Corumbá, Brasil, e Puerto Quijarro, Bolívia, existem, pelo menos, três modalidades de atuação de bolivianos no comércio: como ambulantes nas ruas e nas calçadas da cidade, como feirantes nas feiras livres itinerantes ao longo de toda semana e como comerciantes na Feira Brasbol. Seja em qual for a atividade, grande parcela dos moradores da cidade brasileira fazem uso cotidiano e a partir disso estabelecem algumas relações. Neste artigo abordaremos a Feira Brasbol, considerando as formas como as instituições e a população constroem suas formas de relacionar e se expressar com aquele lugar. PALAVRAS-CHAVES: Fronteira, Instituições, Populações, Preconceito 1 INTRODUÇÃO Uma das características marcantes das regiões fronteiriças é a mescla cultural. Povos de nações distintas promovem um intercâmbio constante de costumes, folclore, culinária, religião, entre outros. Sabemos que diversos são os elementos que podem causar aproximação ou distanciamento entre esses povos de fronteira. Guerras, ou conflitos dos mais variados matizes, podem ser dadas como exemplo de aproximação ruidosa e dolorida. 1 Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, [email protected] 2 Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, [email protected] Contudo, há outra forma que alinhava os povos de maneira muito mais perene e menos traumática. Falamos aqui do comércio, elemento fundamental para tentar compreender as dinâmicas da vida fronteiriça, ao menos naquela que estamos estudando. Segundo Paixão (2006, 25-42), o estudo da fronteira é ainda algo polêmico e esquecido, que ao ser recordado tem sido associado à destruição, conflitos, vigilância e repressão, porém existem vários atrativos que são rotas turísticas, como: o de lazer, de comércio, etc. No tocante ao sentido de “polêmica” que o autor aborda isso é bastante notável, contudo, no do “esquecimento”, devemos ressaltar que diversos estudos sobre fronteira, em variadas instituições de pesquisa têm mostrado resultados significativos, como o Mestrado em Estudos Fronteiriços, na UFMS. E, um dos assuntos mais polemizados, quando abordados juntamente com a temática fronteiriça, é o comércio, objeto deste estudo. Este artigo, fruto de pesquisas realizadas no âmbito daquele Mestrado, patrocinada pelo CNPq e pela FUNDECT, aborda a fronteira entre Brasil-Bolívia, envolvendo as cidades de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, e Puerto Quijarro, Província de Germán Busch. Nosso objetivo é estudar nesta fronteira, suas práticas comerciais e suas repercussões na mídia. Na questão comercial, a polemização dos estudos de fronteiras encontra elementos que exigem observações detidas, principalmente, no sentido de passagem que a fronteira possui. Por poderem-se encontrar produtos que são vendidos a preços mais baixos que em outros centros, atrai uma grande quantidade de pessoas a essa região, como afirma Oliveira (1998, p. 59): O aparecimento de uma gama de produtos asiáticos de baixíssimo preço, no lado boliviano, tem atraído para a região uma quantidade cada vez maior de pessoas que trasladam esse tipo de mercadorias para outras cidades do Estado. Há, contudo, que distinguir esses compradores. Uns, na realidade, são turistas que fazem compras de produtos na Bolívia, como atividade complementar. Salvo exceções, compram objetos para uso próprio ou para doações. Outros, porem vêm até a região com o intuito de comprar produtos para revender. Ambos os casos têm aumentado seu fluxo, o segundo em especial – em novembro de 1995, próximo de 20% dos produtos vendidos nas barracas das feiras (especializadas nesse negócio) de Campo Grande eram da Bolívia, segundo informações colhidas aleatoriamente. Ainda sobre as opiniões que derivam das práticas comerciais na fronteira, em estudo realizado por MULLER (2006), a autora descreve notícias veiculadas em jornais de cidades fronteiriças e um deles está citando Corumbá/MS: Com o título “Fronteira, um caso de segurança” (Folha de Corumbá, 18/Set/ 2004, p. 11), o jornal corumbaense reclama da falta de policiamento que expõe o cidadão local às “conturbadas” relações com a Bolívia, contribuindo para a criação de uma “imagem negativa lá fora” da “Capital do Pantanal”. De outro modo, a matéria ressalta que uma das causas dessa relação tensa entre a população local é a situação de empobrecimento que assola os moradores de ambos os lados da linha divisória, ocasionando desemprego e favorecendo o “tráfico formiga e ao vício”. Desta forma pelos dois exemplos citados, se pode notar que a ideia abordada por Paixão, de que a fronteira é ainda algo “esquecido‟‟ não se ajusta. Quanto ao seu sentido “polêmico”, sua vinculação ocorre, imediatamente, ao poder repressivo do estado e seus desdobramentos através da mídia. Sobre isso, há que se notar que tem passado por transformações, uma vez que, do ponto de vista da segurança nacional, diversos elementos envolvendo as porosidades da fronteira estão na ordem-do-dia, como a questão da imigração. 2 LIMITES E FRONTEIRAS É importante que façamos a distinção entre os conceitos de limites e fronteira, tão confusos quando tratados no senso comum. O limite pode ser definido como uma linha que determina uma área de sujeição jurídica de um determinado estado, e por isto tem grande relação com sua soberania. Enquanto que as fronteiras são áreas povoadas, constituindo se um fator “de integração, na medida que for uma zona de interpenetração mútua e de constante manipulação de estruturas sociais, políticas e culturais distintas”. Machado, (1998, 42). O embaraço trazido pelo senso comum passa a possuir conotações de legitimidade quando valores simbólicos são atribuídos ao limite internacional: (...) que torna praticamente impossível reduzi-lo ao seu aparato funcional (aduanas, policia, serviço imigratório) e de regulador de intercâmbios. Basta lembrar dos aeroportos internacionais, que podem exercer as mesmas funções sem que ninguém lhes atribua a importância simbólica dos limites internacionais. (MACHADO, 2010, 62). Notamos que é consenso em vários estudiosos que os marcos geográficos não dão conta da tarefa de delimitar o espaço fronteiriço, uma vez que, rotineiramente, eles são persuadidos a ser esquecidos ou ignorados. Por ter uma integração entre pessoas e produtos, na fronteira os marcos geográficos acabam por ficar em segundo plano, pois não há preocupação em delimitar o território passando assim a ser simbólico. Sobre isto observa Raffestin (2005): A fronteira vai muito mais além do fato geográfico que ela realmente é, pois ela não é só isso. Para compreendê-la, é preciso retornar à expressão “regere fines” que significa traçar em linha reta as fronteiras, os limites. É o mesmo procedimento utilizado pelo padre na contrução de um templo ou de uma cidade, quando ele determina esse espaço consagrado sobre o terreno. Nessa operação o caráter mágico fica evidente: trata-se de delimitar o interior e o exterior, o reino do sagrado e o reino do profano, pois segundo Benveniste, a fronteira é ao mesmo tempo material e moral. Assim, uma fronteira não é somente um fato geográfico, mas também é um fato social de uma riqueza considerável pelas conotações religiosas nele implícitas. Mesmo reconhecendo que os limites geográficos e políticos não dão conta de compreender o espaço fronteiriço notamos que por diversas vezes as diferenças entre os nacionais emergem. Seguindo essa linha de raciocínio, notamos que aquela fronteira Brasil – Bolívia hoje é um importante pólo para aquisição de conhecimentos, pois podemos compreender mais de perto questões como cultura, língua, costumes entre outros. Porém existe também um forte preconceito de parcela da população brasileira contra o povo boliviano onde são marginalizados, e, em diversos casos que notamos, por mais que exista uma aproximação, são vistos somente como meros comerciantes. Sobre isso, Oliveira (2009) notou que o brasileiro possui um jeito muito peculiar de relacionar-se com seus imigrantes, o que corrobora com a noção de que os bolivianos são alvo de desqualificações, principalmente, por causa de sua naturalidade. Assim, não causaria nenhuma estranheza em encontrar falas de brasileiros que enalteceriam aproximações com franceses ou ingleses, com passado criminal em sua terra natal, como Ronald Biggs, assaltante do trem pagador na Inglaterra em 1963, enquanto diminui os efeitos das aproximações com os bolivianos, independentemente de suas ocupações. 3 INSTITUIÇÕES, POPULAÇÕES E COMÉRCIO Na fronteira que envolve os municípios de Corumbá, Brasil, e Puerto Quijarro, Bolívia, existem pelo menos três modalidades de atuação de bolivianos no comércio: como ambulantes nas ruas e nas calçadas da cidade, como feirantes nas feiras livres itinerantes ao longo de toda semana e como comerciantes na Feira Brasbol. Seja em qual for a atividade, grande parcela dos moradores da cidade brasileira fazem uso cotidiano e a partir disso estabelecem algumas relações. Neste artigo abordaremos a Feira Brasbol, considerando sua estrutura organizacional e as formas como as instituições e a população constroem suas formas de relacionar se expressar com aquele lugar.Situada entre as ruas Edu Rocha, Cuiabá, 21 de Setembro e Alameda Joaquim A. Pereira, ao lado do cemitério Santa Cruz e da Justiça do Trabalho, a Feira Brasbol, tal como existe atualmente, foi criada pela Prefeitura Municipal de Corumbá, em 1995, e assim regulamentada destinando-se ao comércio de produtos varejistas, confecções, calçados e armarinhos em geral e artesanatos. Sua localização está em uma área de notável facilidade de acesso à população em geral, pois além de estar no itinerário do limite entre Brasil-Bolívia, é circundada por linhas de ônibus coletivo e está a menos de cem metros do Aeroporto Internacional de Corumbá e do principal supermercado da cidade. Uma das maiores dificuldades encontradas no correr desta pesquisa diz respeito à metodologia. O emprego de técnicas tradicionais como entrevistas, questionários, etc., sem a justa adequação à realidade fronteiriça, não foi suficiente para capturar o que nossos objetos de estudos insistiam em nos revelar. Por exemplo, o imigrante, elemento fundamental desta pesquisa, se apresentou da forma como Edward W. Said (1998) nos ensina, é um ser fora do lugar, um ente que busca, incansavelmente, refletir-se naquilo que ainda não existe para ele: o novo lugar iludido. E ainda mais à sombra dessa ilusão, o imigrante se rende e vive, criando assim seu status de sobrevivência e de acomodação à nova realidade, ainda muito difusa para ele. Nas diversas feiras pesquisadas o imigrante sempre esteve presente, mais notadamente, na Feira Brasbol, anunciando então uma diversidade que a diferencia das outras por reunir pessoas que estão em busca da mesma “ilusão”. Desta forma, a abordagem inibidora do gravador distanciava o sujeito da pesquisa, nos forçando a encontrar novas formas que pudessem nos garantir acesso às suas histórias de vida e às formas como percebem o seu redor. As dificuldades metodológicas não se restringiram às formas de abordagens junto aos sujeitos da pesquisa, estendendo-se a outros momentos. Isso aconteceu, em especial, quando das inevitáveis comparações entre as feiras apresentadas, uma vez que todas elas transacionam mercadorias de origens nacionais diversas, as semelhanças assaltam aos olhos e nos exige muita observação e cautela. Neste aspecto, a Feira Brasbol possui um enorme diferencial em relação às demais apresentadas: trata-se de uma feira fronteiriça. Falamos isso, não penas por sua localização geográfica, mas, sobretudo, pelas suas inserções nas dinâmicas fronteiriças. Seja através do trânsito cotidiano de pessoas e mercadorias que para lá se deslocam, vindas da Bolívia, para estarem presentes na Feira, seja através das trocas linguísticas ou das manifestações de preconceito, naquele lugar ocorrem típicas interações de fronteira, algo não observado nas outras feiras estudadas. Costa (2010, p, 05) ressalta que são inúmeros os exemplos de operações de repressão realizadas, como a Polícia Federal que é um órgão subordinado ao Ministério da Justiça, cuja função é, de acordo com a Constituição de 1988, exercer a segurança pública para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A Polícia Federal, de acordo com o artigo 144, parágrafo 1º da Constituição Brasileira, é instituída por lei como órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira. Atua, assim, na clássica função institucional de polícia e a Receita Federal do Brasil, que coíbem práticas comerciais, tidas como danosas ou ilegais pelo Estado. Porém a vida fronteiriça oferece vantagens de realizar compras e vendas de um lado a outro da fronteira e representando estímulos quase irrecusáveis para os habitantes e turistas daquelas fronteiras. A questão da vigilância abordada pelo autor pode ser compreendida no contexto de que o Estado “recolhe” o que julga ser de direito. Contudo, é frequente várias pessoas entrarem no Brasil junto ao posto da Receita Federal com compras que ultrapassam o valor fixado, pois não é sempre que neste local há algum agente fiscalizador. Este órgão é específico e singular, subordinado ao Ministério da Fazenda, que tem como responsabilidade a administração dos tributos federais e o controle aduaneiro, além de atuar no combate à sonegação, contrabando, descaminho, pirataria e tráfico de drogas e animais. Contudo, para entendermos os bolivianos e suas práticas comerciais naquela fronteira é imprescindível que estudemos a Bolívia. E um aspecto marcante é o de que o governo boliviano incentivou nas últimas décadas saída da população do campo para cidade sob o argumento de que se ali estivessem instalados seria mais fácil aplicar suas programas sociais e a população viveria com um pouco mais de conforto Silva (2004, p, 12). Porém, não podemos descartar a possibilidade de que parcela significativa desses migrantes estivesse em melhores condições de vida do que nas cidades, conforme pudemos notar em Santa Cruz de La Sierra, San Jose de Chiquitos, Puerto Suarez e Puerto Quijarro cidades que visitamos para essa pesquisa. É de fácil visualização que nas cidades as dificuldades tornam-se maiores por conta de um mercado de trabalho exigente. Nos últimos trinta anos, em decorrência das prolongadas crises socioeconômicas e da redução das oportunidades no mercado de trabalho, houve um importante fluxo emigratório na Bolívia. Trata-se de uma emigração de natureza econômica: os bolivianos buscam melhores condições de vida em outros países. As migrações internas têm igualmente causas econômicas. As populações das regiões mais pobres deslocam-se para as que apresentam maior desenvolvimento e oportunidade de trabalho e vida. Assim, fala-se em áreas de atração e áreas de expulsão. Este longo processo, ao qual a população boliviana esteve sujeito, trouxe diversas consequências, uma delas foi migrar em direção àquela fronteira, notadamente composta por bolivianos migrantes. Outra consequência está relacionada às suas origens étnicas, que eles carregam consigo, associadas a conflitos que advém de longa data. Portanto para tentar compreender a forma preconceituosa, e por vezes racista que os brasileiros expressam com os bolivianos naquela região faz-se necessário estudar não apenas o comportamento dos brasileiros, mas, sobretudo, a trajetória histórica dos bolivianos. Da mesma forma que não é mais necessário cruzar o limite para encontrar bolivianos, também não o é para encontrar produtos mais baratos. No lado brasileiro tanto os trabalhadores e comerciantes quanto os produtos oriundos daquele país tem fortes conotações de informalidade. A própria categorização da mercadoria como legal ou ilegal é bastante frágil e problemática, vejamos o exemplo dos produtos produzidos na China que recaem em locais onde são considerados ilícitos ou lícitos: Da linha de produção de uma mercadoria na China até o seu destino final em uma banca de camelô de uma cidade brasileira qualquer (...) há um sistema econômico complexo e multifacetado, alternando níveis de formalidade e informalidade ao longo de uma extensa cadeia mercantil. Nesse circuito global de bugigangas made in China, a noção de “ilícito” também se torna de difícil apreensão, ao se metamorfosear durante um ciclo transnacional, cujas fronteiras com o mundo ideal da regulamentação do Estado são extremamente tênues e confusas. (PINHEIRO-MACHADO, 2008, 1). Nesse sentido é visível a presença de ambulantes pela cidade, tanto na frente de hotéis e restaurantes, como nas feiras-livres que percorrem a cidade, onde além de produtos importados dos mais variados tipos, também são encontrados verduras, legumes e frutas trazidas das cidades bolivianas daquela fronteira. Por diversas vezes essas atividades são alvo de ações conjuntas da Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal, Ministério Público Estadual (GAECO), Ministério Público Federal, Receita Estadual e Receita Federal, que em 2009, por exemplo, apreenderam, de acordo com o site de notícias www.Portalms.com.br, diversos produtos ali comercializados como: bebidas, eletroeletrônicos, cigarros, roupas, fraldas e produtos do gênero alimentício com o objetivo de combater o contrabando, o descaminho e outros ilícitos no comércio da fronteira Brasil-Bolívia. Dentre os produtos apreendidos foi possível notar em diversas visitas à Brasbol que, cigarros e bebidas, por exemplo, não são comercializados dentro da Feira, pois, conforme os comerciantes afirmam os mesmos não podem ser vendidos nesse local, sendo encontrados em seu entorno. Tais ações são vistas de forma insuficiente por alguns seguimentos da sociedade, pois mesmo havendo uma ação efetiva das forças repressoras do Estado, não gera desdobramentos. Ou seja, tais seguimentos questionam a finalidade dessas grandes operações uma vez que a Feira continua em pleno funcionamento. Tal questionamento não teve resposta por parte das autoridades. As noticias veiculadas pelos meios de comunicação acabam fixando na mente de seus expectadores de que os bolivianos da Feira Brasbol sejam traficantes ou meros “muambeiros”, sendo que, dificilmente revelam que eles são chefes de família que dependem de tal serviço da mesma maneira que outros comerciantes informais brasileiros. E, por serem pessoas de baixa renda, são dependentes daquela atividade. Por fim, que tais ações são efetuadas principalmente em grandes datas do comércio, como natal, dia das mães, etc. O comércio considerado como “contrabando” ou “descaminho” pelo Estado, configura uma economia ao mesmo tempo subversiva e constitutiva dos processos de povoamento e de construção de fronteiras, cuja importância histórica, econômica e social são implícitas Costa (2010, p, 07) dessa maneira: O comércio entre fronteiras, portanto, não pode ser considerado como uma atividade marginal dentro do sistema capitalista, mas sim como uma atividade estrutural. O que se percebe nos discursos “oficiais” é que este tipo de comércio não é identificado como uma atividade econômica transfronteiriça, pois em geral, a fronteira só aparece propriamente dita nessas narrativas, quando se trata de comércios realizados nas regiões limítrofes entre os países e não referidos às exportações e importações de uma nação. Ou seja, todo comércio entre países, todas as relações econômicas entre países são relações entre fronteiras. É neste sentido que o combate ao “contrabando” formiga ou ao comércio realizado por moradores fronteiriços em pequena escala é um problema tão importante para o Estado, já que esta “subversão” afeta suas estruturas mais profundas de controle e poder soberano; isto é, o que subjaz às atividades de repressão nas aduanas é a questão de vigiar e gerir o território e obter o monopólio dos negócios entre o Estado e seus “sócios”, reprimindo atividades que possam rivalizar com este monopólio. (COSTA, 2010, 07) As ações, que não ocorrem em outras localidades, na Feira Brasbol são constantes. As autoridades utilizam-se de vários argumentos para justificar suas intervenções, todos fundamentados nos princípios jurídicos. Esse raciocínio acompanha todas as suas ações como, por exemplo, no dia 27 de abril de 2011, uma ação coordenada pelo NUREP (Núcleo de Repressão ao Contrabando e Descaminho), pertencente à Receita Federal, e com sede em Campo Grande, tendo o apoio da Polícia Federal, fez mais uma grande apreensão de mercadorias naquela Feira, que depois foram encaminhadas ao depósito da Receita Federal, a Feira foi fechada e nenhuma pessoa foi presa. Em entrevista para o site de notícias Diarionline, Jimmy Antezana, presidente da Brasbol, enfatizou que naquele local há pessoas que trabalham dentro da legalidade e que recolhem os impostos necessários, disse ainda que com a apreensão das mercadorias alguns comerciantes ficaram com poucos produtos para vender, e na intenção solidarizar com aqueles que sem nada ficaram, repassam parte do que restou. Disse ainda que tal situação “é muito triste”. O presidente declarou ainda que são mais de 1200 (mil e duzentos) postos de trabalho que a Feira oferece em seu entorno, aos quais contam com cozinheiros, balconistas, vendedores, etc. Com o possível fechamento da Feira ele questiona-se sobre o destino de tais profissionais. Ao término da entrevista diz ainda que: "Eu não posso ir contra as leis do Estado, mas também peço um pouco de sensibilidade pois somos dois povos irmãos. Não prejudicamos grandes comerciantes, grandes firmas, eu acho que havendo um diálogo, uma conversa daria pra regularizar isso". O mesmo site reserva um espaço aberto ao público para receber comentários sobre as notícias abordadas, no caso desse episódio envolvendo a Feira, algumas pessoas se expressaram contra outras a favor. Trouxemos alguns desses comentários, porém, para melhor ilustrar, para preservar a identidade de tais pessoas chamaremos senhor X, senhora Y. Reiteramos que os erros ortográficos, digitação e formatação estão idênticos ao original. Senhora Y: “ISSO Q UMA GRANDE PALHAÇADA PQ NAO VAI PREDER LADRÃO Q ROBA MOTO ASALTA A POPULAÇÃO DE CORUMBA VAI SE PREOCUPAR COM QUEM TA TRABALHANDO”!!!!!! Senhor X: “Não confundam as coisas, quem deve prender os assaltantes e criminosos é a PM,que não tem competencia para isso. Qunatos comerciantes corumbaenses são prejudicados por causa do contrabando,outra coisa,todos os funcionarios que trabalham na BRASBOL,são explorados e não têm carteira assinada,e quem ganha com isso são os tais "irmãos" bolivianos que fomentam os roubos de veículos na nossa cidade e até "encomendam" veiculos roubados mesmo sabendo que muitos de nós(corumbaenses)temos nossas vidas em risco.ALGUÉM JÁ VIU ALGUM CORUMBAENSE TRABALHAR TRANQUILO NA BOLIVIA?PELO CONTRARIO SOMOS ATÉ ESTORQUIDOS POR POLICIAIS BOLIVIANOS LÁ...COMBATE AO CONTRABANDO...PARABÉNS A RECEITA FEDERAL.” Senhor X: : REITERO MEU APOIO A OPERAÇÃO REALIZADA PELA RECEITA NA BRASBOL. AGORA SÓ FALTA TIRAR OS "COMERCIANTES" ILEGAIS DAS PRINCIPAIS RUAS DA NOSSA QUERIDA CIDADE. ATÉ QUANDO VAMOS TER QUE SUPORTAR OS BOLIVIANOS VENDENDO NA CALÇADA DA RUA FREI MARIANO EM PLENO CENTRO, ATRAPALHANDO NOSSOS COMERCIANTES E ENFEIANDO A NOSSA CIDADE E ATÉ IMPORTUNANDO OFENSIVAMENTE AS MULHERES, JOVENS E ESPOSAS QUE TRANSITAM NA CALÇADA E PASSANDO UMA IMAGEM DE TERRA DE NINGUÉM PARA OS TURISTAS QUE NOS VISITAM. TEMOS A OBRIGAÇÃO DE LUTARMOS POR CORUMBÁ. Senhor V: Já foi longe demais, é necessária uma "retirada da Laguna"... retirada para organizar. Senhor S: “ELA ESTA FUNCIONANDO SIM, DESDE ONTEM JA COMEÇAREM NOVAMENTE, EU SÓ QUERIA SABER UMA COISA SE NÃO TEM NOTA COMO COBRAM OS IMPOSTOS, O PRESIEDENTE DA FEIRA FALOU QUE PAGA ICMS PARA PREFEITURA, PAGAM SEM NOTA? SERÁ QUE A RECEITA FEDERAL E A POLICIA FEDERAL NÃO VÃO INVESTIGAR SOBRE ISSO?” As formas como as pessoas se manifestaram, com palavras tingidas pelo preconceito e intolerância, servem para demonstrar a hipocrisia que parte da sociedade local nutre quando menciona aquela Feira. Não apenas por parte da população local a Feira Brasbol é discriminada as instituições também reservam suas doses, uma vez que defronte à Feira está situada a Justiça do Trabalho, onde pessoas bachareladas circulam durante todos os dias, e atuam para defender os interesses de trabalhadores formais ou não. Uma casa da justiça do trabalhador, tão próxima e por vezes tão longe de quem se sente desprotegido. Em abordagem, Dona Cida, proprietária de um box na Feira, afirmou que “eles (as autoridades policiais) vêm levam toda mercadoria, somos levados a frente do delegado para prestar esclarecimento, mas esclarecimento de que? Meus produtos tem nota, tem origem brasileira, trago todos os meus produtos de Goiânia (GO), devo então prestar esclarecimento de que estou trabalhando, mas, autoridades são autoridades”. Dona Cida é uma comerciante que veio da Bolívia, da cidade de Santa Cruz de La Sierra no ano de 1995. Na visão de Patricia que chegou ao Brasil no ano de 1990 e que antes de trabalhar na Feira Brasbol atuou na feira livre daquela cidade e que não pretende voltar por achar o cotidiano muito desgastante e pesado. Ao ser questionada sobre a ação da polícia na Feira diz que “não acho nada é serviço deles tem que aceitar, somos estrangeiros não temos voz ativa”, percebe-se nesse sentido certo receio e medo de que possa voltar a seu país, algo não desejado por ela que explica “tenho até vontade de voltar, mas lá (Bolívia) o lucro é pouco quando se tem trabalho, não há oportunidades evidentes de estudo e trabalho para meus filhos, aqui eles tem boa escola, bom atendimento médico e com o que ganho da pra sustenta-los”. É de fácil percepção que os entrevistados têm “medo”, tanto de voltar ao seu país de origem quanto de perderem toda sua mercadoria e que não expressam o que realmente sentem sobre as ações repressivas por receio de que, quem os entrevista seja de algum órgão fiscalizador disfarçado de pesquisador. Fato esse constatado quando estávamos acompanhados por um segurança do estabelecimento, algo que aparentemente passa certa segurança aos comerciantes. São todos fragmentos que vão se juntando, formando e deformando, essa experiência que chamamos de autoridade. Como forma de perceber e registrar a experiência de cidade, Canevacci (2004, p.31) propõe a observação observadora, “que não é mais „participante‟ da ação, mas observa também a si próprio como sujeito que observa o contexto. É a meta-observação.” Faz parte da pesquisa observar e ser observado - por si próprio. Assim com nossa observação observadora entendemos que não é forçoso comparar a Feira Brasbol com o personagem principal da música Geni e o Zeppelin, de Chico Buarque de Holanda. 4 CONCLUSÃO Os comerciantes da Brasbol são, por excelência, os delineadores do uso daquele espaço, associados aos consumidores que por ali trafegam. E isto impera, inclusive, nas ideias formuladas no campo do senso comum. Manifestações das mais variadas, notadamente preconceituosas, são visíveis nos espaços destinados a comentários dos leitores dos jornais eletrônicos. Curiosamente, tais repercussões, encontradas quando as notícias são sobre intervenções de autoridades policiais naquele lugar, não são expressas nas falas dos usuários da Feira. Os comentários dos leitores dos jornais, no nosso entender, não buscam atingir apenas a Brasbol, ultrapassando seus limites espaciais, dirigem-se à própria fronteira, explicitando, uma vez mais, o sentido fronteiriço que aquele lugar possui. Parece-nos, que em Corumbá, existe a carência de autoridade que consiga conjugar o verbo transigir. A Feira Brasbol não necessita, imediatamente, de políticas públicas. Elas já existem e podem muito bem ser aplicadas ali, como a formalização das relações de trabalho e das mercadorias. Neste aspecto, vale ressaltar, o maior problema está na forma como as autoridades fiscalizadoras atuam naquela Feira, não demonstrando o menor conhecimento da dinâmica que a mesma possui. A alegação do descaminho é inválida, uma vez que em outras localidades, como o “camelódromo” de Campo Grande, não é notado que suas feiras sejam alvo das mesmas iniciativas. Compreendemos que instituições como Polícia Federal e Receita Federal do Brasil forma concebidas para a ação, e não para o diálogo. Contudo, insistir em ações que paralisam as atividades naquele local tem se mostrado com efeito muito curto e de eficácia duvidosa. Não temos a menor dúvida: a Feira Brasbol é uma referência para Corumbá, pois, é feira para todos. E isso, por um lado, incomoda setores da sociedade e as instituições estatais, e, por outro, acomoda demandas e perspectivas de comerciantes e clientes. REFERÊNCIAS COSTA, Gustavo V.L. Contrabando Para Quem? Controle e (in)disciplina na fronteira Brasil - Bolívia, em Corumbá-MS. In: Anais do II Congresso Internacional do NUCLEAS, Rio de Janeiro, 2010. OLIVEIRA, Tito C. M. Uma Fronteira para o Pôr-do-Sol. Campo Grande, Editora da UFMS, 1998. 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