Suplemento FOTOS:RICARDO BARROCA Pelo Interior Cataguases - Nº 1 -Julho de 2006 Luiz Antônio Ienacco é juiz titular da Vara do Trabalho de Cataguases desde 1993, mas mora em Leopoldina, a apenas 20 minutos do trabalho. Optou por viver numa cidade pequena, onde viu crescerem, livres, seus quatro filhos, junto da esposa Marilda. Quem poderia, morando na capital, fazer tantas coisas como o juiz Ienacco? Ele joga tênis, veleja, pratica motociclismo, toca três instrumentos... E, para completar, faz curso de Psicanálise no Rio de Janeiro. No momento, está finalizando uma monografia sobre o papel do inconsciente nas decisões. Tudo isso trabalhando numa cidade arborizada, tranqüila e de grande importância cultural, de localização privilegiada - a duas horas e meia do Rio de Janeiro e três horas e meia de Belo Horizonte. Saiba mais sobre a vida do juiz Luiz Antônio Ienacco nesta agradável entrevista concedida aos juízes João Alberto de Almeida (presidente da Amatra3), Rosângela Paiva (juíza substituta na Vara de Muriaé) e Orlando Tadeu de Alcântara (juiz titular da Vara de Curvelo) e à jornalista Virgínia Castro (assessora de Comunicação da Amatra3), na bela Cataguases. Jornal da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho 3ª Região Página 2 Da esq. p/ dir.: Juízes João Alberto de Almeida, Rosângela Paiva, jornalista Virgínia Castro, juízes Luiz Iennaco e Orlando Tadeu, no Hotel Cataguases VC – O sr sr.. tem uma forte ligação com a Zona da Mata Mineira. Conte-nos um pouco sobre sua trajetória de vida, aqui, na região. I – Nasci em Muriaé, mas fui criado em Leopoldina. Fiz Direito em Juiz de Fora, onde eu já morava, na época. Quando me formei, abri um escritório de advocacia em Juiz de Fora, mas advoguei por pouco tempo. Em 1987 fiz concurso para servidor do TRT. Passei e, em 1988, tomei posse como auxiliar de Judiciário, vindo trabalhar em Cataguases. No mesmo dia em que tomei posse, fiz inscrição para o concurso de juiz do Trabalho, de 1989. Preparei-me durante um ano e fui aprovado. Tinha 27 anos, na época. JA - Qu ais foram seus conQuais temporâneos de concurso? I – João Bosco Pinto Lara, Mônica Sette Lopes, Alaor Satuff, Cristiana Fenelon, Maurício Godinho (primeiro colocado). Acho que uns 30 foram aprovados. Minha primeira substituição foi aqui, em Cataguases. Três anos depois fui promovido para Teófilo Otoni, onde fiquei por um ano. Surgiu uma vaga para Cataguases em 1992. Na época, pensei em ir para Belo Horizonte ou Juiz de Fora. Consultei meus filhos sobre a possibilidade de mudarmos para a capital, mas eles optaram pelo interior. Com a aposentadoria da Dra. Maria Ilma, assumi a presidência da Vara do Trabalho de Cataguases, 1993. VC – O que o levou a fazer Direito? I – Na verdade, eu não queria fazer Direito. Passei minha vida toda acreditando que seria engenheiro. Passei no vestibular para Engenharia Mecânica e Eletrônica, na UniRio. Mas, como eu almejava independência financeira, e o Direito me possibilitaria estudar e trabalhar, desisti da Engenharia e fui fazer Direito, em Juiz de Fora, sempre pensando em, um dia, assumir novamente a Engenharia. Ao final do curso de Direito, a ficha caiu. “Não vou sair mais desse negócio”, pensei. Quando me formei e fui advogar, meus contatos eram com os sindicatos de Juiz de Fora. Isso foi me conduzindo para a área trabalhista. Como servidor do TRT, trabalhei em quase tudo que tinha que fazer dentro das secretarias das Juntas. Aprendi muito com o Dr. Silvério Cerqueira (à época, juiz do Trabalho em Juiz de Fora). OT – V ocê está há muitos Você anos aqui. Que imagem acha que a comunidade tem do juiz? I –A imagem que a Justiça do Trabalho vai ter, em qualquer lugar, vai ser a que o juiz passar para a sociedade. Quem vai criar esta imagem é quem está representando a Justiça, ali, naquele local. Ninguém, aí fora, está preocupado com a questão institucional. Tenho 13 anos como juiz em Cataguases e substituí aqui antes. Já são quase 20 anos. Isso facilita muito a relação com a comunidade, o contato com os advogados, com as partes... Mas acho que você não precisa ficar 20 anos num lugar para criar essa relação. Em Teófilo Otoni, eu recebia o mesmo tratamento que recebo aqui, hoje. E olha que só Edgard Cine Teatro: projetado pelo arquiteto modernista Aldary Toledo, no início dos anos 40. No primeiro andar funciona um cinema para 900 espectadores. fiquei um ano lá. Se você se dispõe a derrubar barreiras, não se afastar da sociedade e não fugir do enfrentamento, você ganha respeito para a instituição a qual representa. berem que sou juiz não impede que eu ande na rua de bermuda e de chinelo de dedo. Quando vim para cá, já estava preparado para enfrentar essa questão do anonimato. VC – Que enfrentamentos seriam esses? I – Primeiro, assumir que a Justiça do Trabalho não é nehuma panacéia, que você não vai resolver todos os problemas e não tem superpoderes para tirar água de pedra. Se o Direito tem a função de proteger um determinado setor da sociedade, também cria empecilhos para um outro setor. É preciso transmitir à sociedade a existência desses empecilhos. OT – No interior interior,, é impossível para o juiz cometer “pequenos delitos ” , não éé,, delitos” Ienacco? I – Como é que eu resolvo a minha necessidade de transgredir? Acho que é isso que vocês querem saber, não é? Bem, tenho que ser moderado nas minhas transgressões, mas não preciso deixar de xingar ninguém no campo de futebol, por exemplo. No tênis, a manifestação máxima de estresse é jogar uma raquete no chão. Uma vez fiz isso, jogando com meu filho. Ele pegou no pé, não pelo fato de eu ser juiz, mas porque não estava acostumado com esse tipo de reação minha. Sou uma pessoa comedida. Quero dizer, com isso, que não é preciso ser juiz para sentir o peso da transgressão. OT – O fato de o juiz se integrar à comunidade é fundamental. As pessoas passam a ver o juiz como uma autoridade, que também pode contribuir para o convívio e a paz social. I – É verdade. Mas, por outro lado, existem algumas dificuldades, pois não sou juiz apenas aqui, dentro da Vara. Sou juiz na oficina, no campo de futebol, no clube, na piscina, no ringue... Não fujo disso. Se sou abordado para resolver uma questão, até processual, eu respondo. Nunca deixei de discutir uma questão processual, numa partida de tênis, por exemplo. Manifestação de gênero, é claro. VC – Para o juiz do interior,, não existe o anonimato. rior Como é isso para o sr .? sr.? I – A cobrança existe. Na capital você consegue ter anonimato. Lá são 50 juízes. Aqui, é só um. Mas o fato de as pessoas sa- VC – Os seus filhos já reem serem clamaram do fato de ser filho filhoss de juiz, no interior interior,, e, com isso, serem mais visados que outros jovens? I – Já, principalmente Guilherme, o mais velho, que é mais rebelde. Ele não aceita essa posição de filho de juiz. Não age como tal, não se cobra e não admite esse tipo de cobrança. VC – Ser juiz no interior oferece algum privilégio? Antigamente, juiz era paparicado no interior interior.. I –Se aqui eu quisesse ter o privilégio de ir direto ao gerente do banco, por exemplo, sem pas- Estação Ferroviária – prédio típico, segue o traço dos pavilhões industriais ingleses do séc. XIX. Pelo Interior sar pela fila, poderia sim. Mas não gosto disso. Prefiro entrar na fila, como qualquer outro. Esse tipo de privilégio pode pegar mal perante a sociedade. VC – O que a sociedade do interior exige no comportamento do juiz? I - Se eu chego aqui com um comportamento muito liberal e a cidade é mais conservadora, eu vou chocar, não é? E não aconteceria o inverso, porque é Judiciário é um poder conservador. Eu, como juiz, não posso estar na vanguarda da sociedade, pelo menos em termos de comportamento. Essa é minha visão pessoal. R – V ocê acha que a sociVocê edade vê, num mesmo nível, o juiz de Direito e o juiz do Trabalho? I –Acho que hoje sim, até pelo avanço da Justiça do Trabalho, sobretudo a partir de 1988 e, principalmente, em função das últimas reformas, que ampliaram sua atuação. Isso ajuda a mudar a visão que a sociedade tem do juiz do Trabalho. Mas houve um tempo em que as pessoas achavam que o juiz de verdade era o juiz da Justiça Comum. Isso porque, durante muitos anos, a Justiça do Trabalho foi um órgão administrativo e agia como tal. Até hoje, a gente faz notificação. Demorou muito para a Justiça do Trabalho se desvincular dessa natureza administrativa e se assumir como Judiciário. JA – No interior interior,, ainda há discriminação contra aqueles que procuram a Justiça do Trabalho ? Trabalho? I – As pessoas só vêm aqui depois de esgotadas todas as tentativas de acordo. Elas sabem das conseqüências de se ir à Justiça do Trabalho, principalmente numa cidade pequena. Num seminário, debatemos sobre a discriminação que ainda há contra a pessoa que procura a Justiça do Trabalho. Mas isso, hoje, não é tanto. Projetos como o Cidadania e Justiça também se Aprendem na Escola vêm mostrando para a população seus direitos e como funciona o Judiciário trabalhista. Isso influi nessa imagem que as pessoas formam do Judiciário. Hoje, a consciência do empregador também já avançou muito. JA – No interior interior,, alguns têm a sensação de que estão longe demais do Tribunal, da Amatra... V ocê sente isso? Você I – Não vejo problema. Se eu precisar de falar com alguém do Tribunal, ligo para lá. Na verdade, não estou abandonado, estou apenas escondido. (Risos). R – V ocê não acha que seVocê ria importante ter uma espécie de interlocutor interlocutor,, de correspondente junto ao Tribunal? Estamos afastados dos eventos que são promovidos pela Amatra e pela Escola Judicial. No caso da Escola, ainda temos o agrav ante de agravante depender dela para os critérios de promoção. I – Se você tem, hoje, um critério objetivo para promoção que te obriga a participar de um determinado evento realizado em Belo Horizonte, isso é complicado. Não ganhamos nem uma diária para estar lá, o que, legalmente, deveria existir. Essa é uma briga em que a Amatra tem que entrar. OT – Nesses quase 20 anos de Cataguases, observ ando a rotina dos servando processos, você percebe que a natureza deles mudou muito? I – De tempos em tempos a gente tem uma mudança do perfil das partes e até mesmo das ações. Na época em que eu vim para cá, existia muita ação de trabalhador rural. Estas foram as últimas de um período de alterações na natureza das relações de trabalho, e conseqüentemente, nos processos. Depois vieram as ações de bancários, até o quadro, no setor, ser reduzido para 20% do total e não haver mais ações dessa natureza. Depois foram as ações de servidores públicos, por causa da adequação das novas exigências da Constituição. De tempos em tempos, se um setor da economia sofre uma alteração qualquer, vem aquele monte de processos para cá, todos iguais. V C – Os juízes, em Belo Horizonte, através da própria Amatra3, convivem muito. Encontramse em eventos, em contram-se festas... O juiz do interior Escultura modernista, Violeta, da artista plástica Sônia Ebling, em frente à Chácara D. Catarina nem sempre tem a oportunidade de conviver com colegas. Qual é o seu grupo social, aqui? I – Minha convivência social não tem nada a ver com o meu trabalho. Quando posso, vou a reuniões de juízes, pois isso acrescenta muito para mim. Não só de juízes do Trabalho como de outros juízes. Mas o meu círculo de convivência maior, atualmente, é com o grupo de motociclistas. Viajamos muito juntos. Cada um tem sua profissão, o que não faz nenhuma diferença na nossa relação. Nossos assuntos não pendem para o lado jurídico. Página 3 para mim. Nos lugares aonde vou, procuro aprender as coisas que se ensinam naquele lugar. Quando vim para Cataguases, tentei aprender a pintar. Mas, como dizia Camões: não basta ter só o engenho, tem que ter a arte. Tento aprender coisas diferentes: estudei violino, flauta, piano, pintura. Não sou um músico, mas sei como se toca. Já participei também de grupo de coral. Minha mulher é musicista, e a música flui, naturalmente, dentro de casa. Meus filhos constituíram uma banda, minha esposa toca... Na época em que era estudante, eu complementava meu salário tocando flauta em casamento. OT – V Você ocê não tem recoisas,, ceio de iniciar as coisas não é? I – Todo aprendizado é válido. Coisas que eu sempre quis fazer, procuro fazer... Descobri, por exemplo, que gostaria de velejar. Aí aprendi e comprei um barco a vela. Velejei no Espírito Santo, em Guarapiranga, no Rio de Janeiro, aqui mesmo, em Cataguases. É uma coisa nova, sobretudo para quem mora no interior. Depois, abandonei a vela para iniciar no tênis. Aprendi a jogar e disputei os torneios regionais daqui, até o ano retrasado. VC – O sr sr.. é um juiz que gosta de esportes e de aventuras: é tenista, motociclista, velejador ... Conte-nos um velejador... pouco sobre esse seu lado aventureiro. Que influência isso tem na sua vida, como juiz ? Que impacto isso tem juiz? no seu trabalho? I – Na verdade, eu gostaria de ter muitas habilidades. Mas, na verdade, não tenho nenhuma. Sou é muito esforçado. (Risos). Procuro fazer coisas diferentes, até mesmo como forma de diversificar um pouco o meu universo. Isso também tira um pouco do peso da profissão. Minha vida não é só processo, só audiência, é só lei. Quando estava em Teófilo Otoni, aprendi a lapidar e cheguei a montar uma lapidação VC – E o motociclismo? I – Desde os 20 anos de idade, eu não andava mais de moto. Achei que eu não tinha juízo para aquilo. Com 40 anos, achei que já estava preparado para começar de novo e comprei uma moto. Minha mulher se empolgou e comprou uma para ela também. Começamos a viajar, a conhecer pessoas ligadas ao motociclismo e, hoje, temos o nosso motoclube (eu, a Marilda e os meus filhos). (Risos). VC – Como esse esporte tem influenciado na sua vida como juiz? I - Talvez seja esta a minha transgressão. VC – O sr sr.. se sente um juiz realizado? I – Me sinto um juiz realizando... Ponte Metálica sobre o Rio Pomba: construída em material importado da Alemanha, suas obras foram concluídas em 1914. É um dos cartões postais da cidade. Jornal da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho 3ª Região Página 4 Um “Causo” Filho de juiz... Uma vez, eu tinha saído para fazer um curso no Rio. Estava lá em Nova Iguaçu, quando liguei para meus filhos, em Cataguases, para saber o que estavam fazendo. Aí um deles me disse: – Pai, estamos aqui, na Delegacia. O que vocês estão fazendo aí? Indaguei. É que a gente estava com uma espingarda. A polícia passou, achou estranho e trouxe a gente para cá. Agora estamos conversando com o delegado. Liguei para um advogado ami- go e pedi para ele ir à Delegacia ver o que houvera. Sabe o que eles haviam feito? Pegaram uma espingarda antiga, sem o mecanismo de funcionamento, e levaram para mostrar para algum amigo. A polícia viu e quis saber o que eles faziam com aquilo. Quando meu amigo advogado chegou lá e conversou com o de- legado, em seguida o delegado perguntou aos meninos: - Por que vocês não me falaram quem eram? Aí o mais velho disse: estou aqui como Guilherme e não como filho do juiz. Meus filhos nunca se deixaram envolver pelo mito de ser filho de juiz, nem se fizeram valer dessa posição, para nada. Fotos FOTOS:ARQUIVO DE FAMÍLIA O juiz Iennaco e a esposa Marilda compartilham da mesma paixão por motos Juiz Luiz Antônio Iennaco, a esposa Marilda e os filhos, da esq p/ dir,: Guilherme, Gláucio, Gustavo e Gabriel Juiz Luiz Antônio Iennaco e funcionários da Vara do Trabalho de Cataguases O juiz Iennaco e família: velejar é preciso... Conhecendo Cataguases Cataguases tem sido considerada a “cidade mineira do séc. XX”, pela arquitetura modernista e arte moderna ali presentes. Berço do cinema nacional, foi o local onde o cineasta Humberto Mauro viveu parte de sua vida e realizou seus primeiros filmes. Continua mantendo forte tradição cultural. Fica às margens do Rio Pomba. Possui ruas amplas e arborizadas, belas praças, recantos e edifícios históricos muito bem conservados. O clima é quente e úmido. População: 64.675 (2001) Distância das principais cidades: Belo Horizonte: 315 km Rio de Janeiro: 240 Km São Paulo: 655 Km Juiz de Fora: 110 Km Economia: baseada em indústrias, principalmente a têxtil. Hotel Cataguases – projetado por Aldary Toledo e Gilberto Lemos, com iniciação do projeto no fim dos anos 40, sua inauguração se deu no início dos Anos 1950. Os jardins foram projetados por Burle Marx. Na entrada, escultura da Jan Zach. Expediente Suplemento Pelo Interior N o 1 - Julho/2006 - Publicação da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 3 ª Região - Presidente: João Alberto de Almeida - Diretor de Comunicação: Maria Cecília Alves Pinto - Jornalista Responsável: Virgínia Castro/Reg. Prof. 3.422/MG - Revisão: Merrina Delgado - Projeto gráfico e diagramação: Carlos Domingos Reg. Prof. 6050/MG - Fotos: Ricardo Barroca