Leitura, literatura e construção de identidade: a formação do leitor
Autoria: Profa. Ms. Luciana Boose Pinheiro ([email protected])
Instituição: Centro Universitário Feevale – Novo Hamburgo – RS
Palavras-chave: Leitura-Literatura – Identidade – Inclusão Social
Resumo
O Instituto de Ciências Humanas, Letras e Artes do Centro Universitário Feevale mantém, dentre seus programas de
extensão universitária, o LABELLI (Laboratório de Estudos de Língua e Literatura) e o NIGERIA (Núcleo de
Identidade, Gênero e relações Interétnicas). O LABELLI contempla projetos que visam à continuidade da construção
de conhecimentos na área da linguagem, da literatura e da língua portuguesa brasileira, abrangendo o uso de novas
tecnologias e oportunizando, também, o debate acerca de temas de relevância e repercussão na sociedade globalizada
do século XXI. Já o NIGERIA tem como propósito fomentar a discussão e reflexão continuada em torno das
questões de gênero, identidades culturais e diversidade étnica, contribuindo, através do debate acadêmico, com a
formulação de políticas públicas de inclusão social e desenvolvimento humano da região de abrangência da Feevale.
O Curso de Letras participa do Projeto Banda Mirim – pertencente ao NIGERIA - que tem por finalidade, além da
constituição de uma banda carnavalesca composta por crianças das comunidades carnavalescas de Novo Hamburgo,
promover a prática da inclusão social na legitimação do indivíduo como atuante na sua comunidade por meio do
reconhecimento da sua identidade étnico-cultural. O projeto intitulado “Leitura, literatura e construção de identidade:
a formação do leitor” desenvolve este reconhecimento a partir da leitura de textos literários que discutam a questão
identitária da etnia afro-brasileira e tem como objeto a leitura de textos literários como fator contribuinte para a
formação da identidade dos indivíduos participantes do projeto Banda Mirim. As oficinas de leitura literária são
planejadas e aplicadas pelos acadêmicos do Curso de Letras. Com a realização das oficinas, os acadêmicos do Curso
de Letras do Centro Universitário Feevale têm mais uma oportunidade de conhecer a realidade social das
comunidades da cidade de Novo Hamburgo in loco e também de aplicar a teoria estudada em aula nas oficinas. Para
as crianças do projeto Banda Mirim, este espaço consiste em mais uma oportunidade de construção de
conhecimentos e cidadania dentro da instituição à qual pertencem, por meio do desenvolvimento da competência
discursiva, a partir da leitura literária e da produção textual. Busca-se, a longo prazo, a melhoria da qualidade de vida
da comunidade através do contato com a leitura de textos literários. Nessa perspectiva, o projeto contempla a
indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão e contribui para o desenvolvimento cultural, intelectual e social
da região de abrangência do Centro Universitário Feevale.
A leitura de mundo e a construção da identidade a partir da leitura literária
Muitas são as questões envolvidas quando se fala em leitura e seus propósitos. A verdade é que,
historicamente, a escola assumiu o papel de difusora de conhecimentos, e a leitura, fonte
inesgotável de apreensão de conhecimentos, foi sendo substituída por aulas expositivas, resumos
de obras para vestibular e também foi assumindo um caráter intencional: o leitor passou a ler por
necessidade e não por prazer. O processo de “morte do leitor” começa ainda no período da
alfabetização e às vezes, perdura para o resto da vida. Regina Zilberman, em artigo para o livro
“Aprendizado da leitura” constata que
a leitura proposta pela escola só se justifica se exibir um resultado que está além dela. [...]
Eis que a utopia da leitura, utopia, no entanto, que a desfigura, porque promete uma
felicidade que está além dela, mas pela qual não pode se responsabilizar. Vale perguntar
se isso é o que os leitores esperam. Em depoimentos de escritores sobre suas leituras de
infância, verifica-se que sua atitude perante os livros não coincide com as expectativas da
escola, e vice-versa: a escola não lhes oferece o modelo desejado de aproximação aos
textos literários. (ZILBERMAN, 2002, p.21-22)
A realidade de leitura no Brasil reflete a necessidade de criação de estratégias que motivem e
incentivem ações de formação de leitores. A proposta do projeto teve origem também na
consideração do diagnóstico do trabalho com textos literários em sala de aula. Os relatórios
produzidos a partir das observações e das práticas dos acadêmicos do Curso de Letras nas
disciplinas de Seminário de Pesquisa e Prática Pedagógica em Letras apontavam para uma
abordagem pedagógica inadequada do texto literário ou mesmo a inexistência desse trabalho nos
espaços formais de ensino. De posse dessas informações, as autoras do projeto criaram uma
proposta de ação junto à comunidade, pois concluíram que se fazia necessário complementar a
formação escolar dos participantes através de oficinas literárias e discutir, com os acadêmicos de
Letras, propostas inovadoras de abordagem em sala de aula nos Ensinos Fundamental e Médio,
em espaços formais e não-formais, para que fossem agentes transformadores dessa realidade em
sua prática pedagógica. Por essas questões, a perda do prazer de ler e o resgate da leitura e do
papel do leitor foram as questões norteadoras do projeto Leitura, Literatura e Construção de
identidade: a formação do leitor, que tem como objeto a leitura de textos literários como fator
contribuinte para o resgate do leitor e para a formação da identidade dos indivíduos participantes
do projeto Banda Mirim. A finalidade do Projeto Banda Mirim, além da constituição de uma
banda carnavalesca, é promover a prática da inclusão social na legitimação do indivíduo como
atuante na sua comunidade por meio do reconhecimento da sua identidade étnico-cultural. A
inclusão social se desenvolve a partir de vários níveis, e um deles é o plano lingüístico, pois, ao
saber articular-se de forma profícua no âmbito da linguagem, que é a forma de expressão do
pensamento, o sujeito se torna membro ativo e transformador da sociedade. O projeto, que visa à
formação do leitor, influencia no desenvolvimento lingüístico e, portanto, promove a inclusão
social.
Quem lê, contudo, quer o lado de fora, para onde se desloca, comandado pela imaginação,
a palavra-chave da leitura. [...] Este é talvez o aspecto mais importante no que se refere ao
funcionamento da imaginação: são as palavras que enriquecem com mais propriedade o
imaginário, porque podem deflagrar incontáveis sugestões pessoais e inusitadas, enquanto
que as manifestações icônicas tendem à uniformidade e à padronização. Por essa razão, a
leitura provoca reações diversas nos indivíduos, sejam eles outros ou o mesmo leitor em
ocasiões distintas. Mas ela obedece invariavelmente a um mesmo percurso: o afastamento
do cotidiano e o retorno a ele, estando o leitor agora de posse de uma nova experiência
existencial. (ZILBERMAN, 2002, p.27-28)
Nesse sentido, o Curso de Letras desenvolve este reconhecimento a partir da leitura de textos
literários que discutam a questão identitária da etnia afro-brasileira. A proposta principal do
projeto é a de promover, a partir da leitura de textos literários em um espaço não-formal de
aprendizagem, a autonomia e o desenvolvimento social dos participantes do projeto Banda Mirim
através da construção da identidade e, para os acadêmicos do Curso de Letras, é o de criar
planejamentos que abordem na prática a inclusão social por meio da leitura literária. Para a
realização do projeto, os objetivos específicos para os alunos participantes das oficinas são: ler as
obras literárias e produzir sentidos a partir da leitura e das atividades promovidas nos encontros;
produzir textos de diversos gêneros motivados pelos textos estudados e analisados; estabelecer
relações intertextuais a partir das leituras dos textos literários, a fim de compreender o meio em
que estão inseridos; e reconhecer-se como cidadãos e membros da sua comunidade, na qual
podem atuar, a partir da produção e transposição de sentidos, promovidas pela leitura e pelas
atividades desenvolvidas. Os acadêmicos do Curso de Letras participam do projeto com os
objetivos de criar o planejamento de oficinas de Leitura Literária que demonstrem uma prática
realista e reflexiva do ensino e da pesquisa; propor situações de reflexão sobre os textos literários,
desenvolvendo sua criticidade e sua competência discursiva; propor reflexões sobre a
intertextualidade tanto em relação ao tema e ao estilo quanto às diferentes linguagens que
compõem a arte; propor produções textuais, refletir sobre os mecanismos de coesão e coerência
das produções e avaliar o processo de escrita. Desde 2003, o Centro Universitário Feevale - RS,
como meio fomentador do desenvolvimento regional, legitima a prática da inclusão dos sujeitos e
oportuniza estudos sobre a leitura e a literatura em espaços não formais de ensino, como este
projeto realizado no Banda Mirim.
O início da caminhada e o como fazer
O Centro Universitário Feevale, através do Instituto de Ciências Humanas, Letras e Artes,
mantém dois Programas de Extensão na área de inclusão social e estudos literários. São eles o
Programa LABELLI (Laboratório de Estudos de Língua e Literatura – Curso de Letras) e o
programa NIGERIA (Núcleo de Identidade, Gênero e relações Interétnicas – Curso de História).
A interface de ação desses dois programas ocorre desde 2004, a partir da participação do Curso
de Letras nas oficinas do Projeto Banda Mirim, que pertence ao NIGERIA. As oficinas
contemplavam estudos de leitura e produção textual. As oficinas de leitura e produção textual
ocorreram nas Escolas de Samba de Novo Hamburgo, constituindo um espaço de troca de
experiência entre os acadêmicos do Curso de Letras e as crianças da comunidade. Em 2005-1, o
Curso de Letras responsabilizou-se pelo espaço da Escola Os Marujos. Foram desenvolvidos
trabalhos com leitura e literatura em 20 encontros aos sábados pela manhã, antes do ensaio da
Banda Mirim. Assim, com o crescimento do Projeto Banda Mirim, houve a ampliação da
proposta inicial de ação e criou-se o projeto Leitura, Literatura e Construção de Identidade: a
formação do leitor, pois percebeu-se, com o desenvolvimento do trabalho nas oficinas, que as
fronteiras de significação do projeto são ultrapassadas pelas questões de leitura e produção
textual, mas que a ação efetiva dos acadêmicos de Letras junto à comunidade formam leitores e
também contribuem para uma afirmação identitária, na medida em que os textos trabalhados
abordam a questão de etnia, origem e também posicionamento do negro na sociedade brasileira.
No que diz respeito à questão da construção da identidade, acredita-se que o sujeito cria uma
autonomia de pensamento ao ampliar sua rede de relações cognitivas através da leitura e isso se
evidencia em suas práticas como cidadão. Nesse sentido, a relação deste projeto com o Programa
NIGÉRIA se solidifica na medida em que o espaço de atuação e implantação é o Projeto Banda
Mirim, no que diz respeito às questões da identidade negra e da literatura como agente de
legitimidade e consciência do negro como cidadão. As atividades de prática pedagógica são
desenvolvidas especialmente através do projeto “Banda-Mirim” com crianças de QUATRO
comunidades carnavalescas de Novo Hamburgo (Protegidos da Princesa Isabel; Marujos, Portela
e Cruzeiro). O Banda Mirim é coordenado pela Profª. Eliane Anselmo e conta com a parceria da
Associação das Entidades Carnavalescas e Recreativas de Novo Hamburgo. Os alunos do Curso
de Letras, matriculados nas disciplinas de Pesquisa e Prática Pedagógica em Letras, planejam,
organizam e desenvolvem as oficinas sob a orientação dos professores e a supervisão das
coordenadoras do projeto. As técnicas utilizadas são as de pesquisa bibliográfica e oficinas de
execução. Os materiais necessários são livros de literatura e material de sucata e escolar em geral.
As oficinas ocorrem aos sábados pela manhã, nos espaços das Escolas de Samba (pavilhões das
escolas). Na primeira parte da oficina, são realizadas as atividades de leitura, interpretação e
produção textual. Os acadêmicos aplicam o planejamento a partir da leitura e da interpretação dos
textos literários pelos alunos, da contação de histórias pelos acadêmicos e do desenvolvimento de
atividades lúdicas a partir dos textos lidos, que culminam com uma proposta de produção textual
ou outras formas de interpretação, como teatros, jogos, pinturas, desenhos, etc. Posteriormente,
há reflexão sobre as produções interpretativas em formas de debates e conversas informais com
os participantes do projeto. Os assuntos abordados são de origem identitária, como o sambaenredo do projeto, a partir da sua leitura, compreensão, interpretação e também de atividades
intertextuais, como a busca de outras características históricas, culturais e sociais a partir do
assunto. Nesses espaços se processam novas possibilidades de interpretação do mundo, mediante
práticas pedagógicas que articulam os diferentes saberes acadêmicos e cotidianos em torno da
identidade cultural da etnia negra. Na segunda parte, há o próprio ensaio da Banda, sob a
coordenação do mestre de bateria da escola.
São realizadas reuniões periódicas e de estudos para o acompanhamento das atividades e a coleta
dos resultados parciais e finais a partir da análise das produções interpretativas dos alunos nas
oficinas.
A busca pela diferença e pela mudança – alguns tópicos de reflexão
A partir do planejamento adequado à realidade dos participantes do projeto e embasado nas
teorias de ensino de literatura abordadas nas disciplinas de Seminário de Pesquisa e Prática
Pedagógica em Letras e Literatura Infanto-Juvenil, o presente projeto é uma maneira efetiva de
articulação entre a teoria e a prática para os acadêmicos do Curso de Letras e também a inclusão
social para os alunos participantes das oficinas. Com a realização do projeto Leitura, Literatura e
Construção de Identidade: a formação do leitor, percebe-se que os resultados apontam dois
rumos. Um deles é a da diversificação de espaços de prática e pesquisa para os acadêmicos, o que
faz com que se apropriem de realidades socioeconômicas e culturais variadas, fator que contribui
para a compreensão de mundo e da realidade do seu espaço de ação como professor. Com a
realização das oficinas, os acadêmicos têm mais uma oportunidade de conhecer a realidade social
das comunidades de Novo Hamburgo in loco e também de aplicar a teoria estudada em aula nas
oficinas, legitimando a competência lingüística dos participantes do projeto, propiciando, assim,
a construção de uma identidade autêntica.
Sabe-se que a competência lingüística se constitui ao longo da história pessoal, cultural e
social do indivíduo. Trata-se de um construto que se legitima ao longo do processo vital
de cada ser humano. Assim entendida, tal competência é produto de um complexo
processo. Não há, pois, como creditar somente à sala de aula, à ambiência escolar a
responsabilidade dessa tarefa. Há outros espaços sociais, não-institucionalizados, nos
quais os indivíduos também adquirem conhecimento. (KETZER, 2002, p. 71-72).
Por outro lado, para as crianças do Banda Mirim, este espaço consiste em mais uma oportunidade
de construção de conhecimentos e cidadania dentro da instituição à qual pertencem, por meio do
desenvolvimento da competência discursiva a partir da leitura literária e da produção textual.
Busca-se, a longo prazo, a melhoria da qualidade de vida da comunidade através do contato com
a leitura de textos literários. Em decorrência disso, o Centro Universitário Feevale, com a
realização do projeto, contribui para o desenvolvimento regional.
Pelo fomento ao aprendizado da leitura
O Centro Universitário Feevale é o meio de fomento e inclusão social bem como de
desenvolvimento regional e, com este projeto, contribui para a democratização do saber e para a
legitimação da aplicação de conhecimentos construídos pelos acadêmicos bem como a difusão de
conhecimentos e técnicas inovadoras no ensino-aprendizagem da literatura, buscando despertar o
gosto pela leitura e a efetiva formação de leitores na sua região de abrangência.
O conjunto do planejamento e da execução do projeto contribui para o desenvolvimento da
leitura, da escrita e da compreensão de textos literários, para formar leitores e escritores
competentes, além de indivíduos críticos e transformadores da sua realidade. Na medida em que a
prática da leitura desenvolve o senso crítico dos leitores, torna-se meio contribuinte para a
formação da identidade dos sujeitos. A interdisciplinaridade, além de ser legitimada pelas
disciplinas do Curso de Letras envolvidas no projeto, ocorre também por meio das intervenções
dos alunos das oficinas, da relação intertextual estabelecida nas oficinas e da própria culminância
com a musicalidade desenvolvida nos ensaios da Banda.
Assim, a partir dos resultados evidenciados pelo trabalho de extensão, as autoras do projeto têm a
pretensão de ampliá-lo para outras comunidades nas quais se tenha o diagnóstico da necessidade
de inclusão lingüística, pois, como é sabido
Esta “leitura” mais crítica da “leitura” anterior menos crítica do mundo possibilitava aos
grupos populares, às vezes em posição fatalista em face das injustiças, uma compreensão
diferente da sua indigência. É neste sentido que a leitura crítica da realidade, dando-se
num processo de alfabetização ou não e associada sobretudo a certas práticas claramente
políticas de mobilização e de organização, pode constituir-se num instrumento o que
Gramsci chamaria de ação contra-hegemônica. (FREIRE, 1997, p.21)
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