1 “ESPELHO, ESPELHO MEU: HÁ ALGUÉM MAIS IMPORTANTE DO QUE EU?” - UM ESTUDO SOBRE O DIÁLOGO NA RELAÇÃO ENTRE PROFESSORA E MÃE EM CRECHE Márcia Gagliardi Núcleo de Estudos e Pesquisas: Formação de Professores - Doutoranda Profa. Dra Maria Nazaré da Cruz INTRODUÇÃO Esta pesquisa tece considerações em relação ao diálogo presente entre professora e mãe no universo da educação infantil, em particular, em creche. Nosso propósito aqui é tentar compreender e refletir sobre esse diálogo e sobre as diferentes imagens – sobre si própria e sobre a outra - que se formam quando do encontro entre a professora e a mãe. Assumimos que a qualidade deste encontro marca a relação de ambas com a criança, nas questões do cuidado e da educação, importantes fontes no desenvolvimento global da criança em creche. Pesquisas na área têm indicado que inúmeros conflitos ocorrem quando do encontro entre a mãe e a professora da criança na creche. Essas pesquisas enfocam prioritariamente as queixas oriundas de ambos os lados da díade quanto ao cuidado e à educação das crianças. Esses conflitos e queixas, que pontuam a interação mãe-professora, parecem advir da proximidade das funções desempenhadas por ambas em relação à criança nesta faixa etária e por uma certa indefinição relativa ao papel profissional da professora na educação de crianças pequenas. A relação entre professora e mãe pode sofrer alterações quando a professora, hoje, é alguém formada em curso superior, o que lhe garante em seu próprio modo de conceber sua posição, em alguém cuja função é a de “educar”. Nessa atividade, parece que o “cuidar” pode ficar restrito à equipe que não possui formação superior e que acaba por desempenhar o papel substituto da mãe. Temos em nossa hipótese, questões de que (1) o cuidar não é visto como educar, (2) que a professora não se sente educadora e (3) que o diálogo existente entre professora e mãe pode oferecer indícios de como a professora vem se constituindo como tal no contexto da creche. O interesse em pesquisar a relação dialógica entre professora e mãe foi fruto do trabalho realizado junto a creches de uma cidade no interior do Estado de São Paulo como também da discussão em grupo sobre a temática (nas disciplinas obrigatórias do doutorado) e nas orientações para confecção da tese. É este, portanto, o foco de nosso trabalho: Que diálogo se estabelece entre mãe e professora? Que imagens – de si mesma e da outra - povoam o imaginário de ambas? e como conseqüência: Como se constitui o papel profissional da professora nesse contexto? Objetivamos pesquisar este universo por acreditar que podemos oferecer uma contribuição de estudo na relação que existe entre a professora e a mãe. ABORDAGEM METODOLÓGICA Nesta pesquisa utilizamos a metodologia qualitativa de investigação por meio do instrumento de entrevistas com professoras e mães que focalizam o diálogo estabelecido entre ambas. Serão frutos de nossa análise e reflexão as imagens que adquirem forma quando ambas se referem uma à outra. Partindo de estudos realizados na área e da revisão bibliográfica sobre o tema, foram realizadas entrevistas coletivas com quatro mães e cinco professoras, separadamente. Entrevistamos também a diretora da creche e realizamos observações durante dez dias na entrada e saída das crianças, totalizando 30 horas de registro em diário de campo. A entrevista com as professoras procurou abordar os seguintes temas: a função de ser professora, o relacionamento com a criança, as rotinas da creche, o contato com as mães, as 2 reuniões, as atividades do cuidar e do educar, a relação com a direção. Na entrevista com as mães, tratamos do o ingresso da criança na creche, da rotina e das regras, do contato com as professoras, das reuniões, da relação com a diretora. A diretora se prontificou a responder a todas as perguntas feitas pela pesquisadora, mas não autorizou o uso do gravador. Suas respostas foram registradas por escrito no momento em que a entrevista acontecia. Os temas pesquisados foram: o funcionamento geral da creche, a coordenação, o relacionamento com as mães, o relacionamento com os funcionários, o relacionamento com as professoras e o relacionamento com as crianças. CONSTRUÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS Após a entrevista com as mães e com as professoras iniciamos o processo de construção e análise dos dados, enfocando o diálogo existente entre elas, com o outro que me constitui e ao qual respondo, de acordo com o referencial bakhtiniano (Bakhtin, 1990, 2003). Bakhtin (1990, 2003) salienta que na troca de enunciados os sujeitos respondem ao diálogo com reações as mais diversas, numa infinita rede de enunciados culminando na alteridade, que confere a identidade própria de cada um dos sujeitos. O que é dito, por quem é dito e para quem é dito, formam a alteridade e os efeitos que provocam constituem o contexto geral da enunciação. Ainda, nesta troca de enunciados, há a constituição de um Outro, o ser que eu construo com um Outro. Apresentamos neste texto apenas um esboço de análise de alguns trechos das entrevistas com mães e professoras, a título de ilustração sobre o material de que dispomos e sobre algumas possibilidades analíticas. O recorte, a construção e a organização do conjunto dos dados ainda estão em processo. Saber e não saber Professora Vera: “... os filhos chegam na casa e contam: a tia fez assim!....Elas (mães) sabem bastante coisas da gente”. Mãe Júlia: “Ele já teve três professoras desde que está aqui. Ele está aqui há dois anos....Na realidade não sei por que saíram”, “...todas as mães são muito cuidadosas, todas elas querem saber muito dos seus filhos, não sei se aí ficaria algum problema para a creche...” Mãe Iara: “... o Pedro é muito levado e ele tem uma conduta muito agressiva... Como será que ela lida com isso?” Essas falas de professora e mães indiciam que a questão das informações que as mães têm ou não sobre o que acontece com seus filhos na creche é aspecto importante das relações entre elas. A professora Vera afirma que as mães sabem muito sobre as professoras, sobre o que elas fazem, através dos próprios filhos. As mães, por sua vez, parecem indicar que esse conhecimento que lhes chega através dos filhos não é suficiente. Iara se preocupa com a agressividade do filho e com o modo - desconhecido? - como a professora lidaria com isso. Júlia diz que as mães “querem saber muito dos seus filhos” e parece suspeitar de que isso seja um ponto de tensão em sua relação com a creche. Que imagens aparecem aqui? A professora parece que se vê como alguém exposta aos olhares das mães, através das narrativas de seus filhos. A fala da mãe Júlia, por sua vez, indicia que o fato de as mães quererem sempre saber mais sobre os seus filhos não é bem visto pela creche, como se a creche, suas professoras e funcionárias, não quisessem se dar a ver. Estar exposta (conforme a professora se vê) e não querer ser vista (conforme a mãe parece vê-la); saber bastante, através da criança (conforme a professora vê a mãe), e não saber – ou querer saber mais - do que se passa com o filho (conforme a própria mãe se vê) parece criar um jogo de imagens, em que muito é presumido e pouco explicitado. Enquanto mães se perguntam “como será que ela [a professora] lida com isso?”, professoras imaginam o que seus alunos dizem sobre elas para as próprias mães. 3 O lugar da professora Professora Angela: “...além de mandar recados de como eu tenho que agir com a criança. A sensação que eu tenho é que a mãe acha que eu sou empregada dela”. Professora Simone:”...às vezes eu coloco o recado no caderno e nem um ok elas...Então isso é difícil porque a gente faz a parte da gente” Essas falas de Ângela e Simone parecem indicar que se vêem desprestigiadas pelas mães que mandam “recados de como eu tenho que agir com a criança”, mas que não respondem aos recados que recebem das professoras. Acreditamos que a análise de embates como esses podem contribuir para compreender aspectos do processo de constituição profissional da professora. Este processo parece passar, entre muitos outros aspectos, pela imagem que as próprias professoras fazem do é “ser professora”, bem como de uma contraposição àquilo que é característico do “ser mãe”, como podemos perceber a seguir. Professora Vera: “Nas atividades planejadas é diferente...Você sabe que você está ensinando, que eles estão aprendendo...” Professora Amanda: “Minha intenção é daqui para frente, digamos assim, vir a dar aula mesmo. É exercer a profissão de educadora”. Professora Fernanda: “...isso não é função do professor, pegar no colo, mimar... eu não vejo isso como ser professora”. Partindo do diálogo estabelecido entre professora e mãe como também das imagens e auto-imagens presentes nele, iniciamos um caminho de entendimento da questão, onde “o sujeito sabe do outro o que este não pode saber de si mesmo, ao tempo em que depende do outro para saber o que ele mesmo não pode saber de si” (Bakhtin, 2008, p. 24). Nessa inter-relação, sentidos e acabamentos são definidos e moldam as relações que são estabelecidas. Nessa relação entre “eus” (Bakhtin, 2008, p.24) é que nasce o sentido, que é função dela e que ao mesmo tempo a molda. O termo “espelho” utilizado tanto por Bakhtin como por Arroyo (2000) significa que a imagem refletida nele possibilita a reflexão daquele que olha. “Ver-se no espelho não dá ao sujeito a visão acabada de seu ser que só o olhar do outro lhe confere” (Bakhtin, 2008, p.24) Uma fonte importante a respeito de quem somos é a comparação e sempre esperamos que os elogios para nossa pessoa ultrapassem em muito aqueles dirigidos a outra. “Queremos superar alguém que, pelo direito ou pelo avesso, consideramos como parâmetro” (idem, p. 80). Que olhos são estes que acabam por aniquilar a paz antes sentida? O olhar que nos chega através do espelho “traz sempre uma pergunta e uma resposta” (Idem, p. 80). Buscamos ao nos olhar perceber o que o outro enxerga em nós e reciprocamente fazemos o mesmo. É uma forma de entender como somos vistos. Brait (2008, p. 24) salienta: “Ver-se no espelho não dá ao sujeito a visão acabada de seu ser que só o olhar do outro lhe confere. Assim, só nessa relação de eus entre si pode nascer o sentido, que é função dela e ao mesmo tempo serve para moldá-la”. E ainda (p.43) “o que fazemos então, quando em frente ao espelho, à falta dessa efetiva possibilidade (de nos vermos a nós mesmos inteiramente abarcados pelo nosso exterior) é nos projetarmos num possível outro peculiarmente indeterminado, com a ajuda de quem tentamos encontrar em uma posição axiológica em relação a nós mesmos. Nesse sentido, nunca estamos sozinhos frente ao espelho: um segundo participante está sempre implicado no evento da autocontemplação”. 4 Complementa (p.43): “Bakhtin destaca a complexidade que se esconde atrás da aparente simplicidade da autocontemplação. É ingênuo pensar, diz ele, que no ato de olhar-se no espelho há uma fusão, uma coincidência do extrínseco com o intrínseco. O que ocorre, de fato, é que, quando me olho no espelho, em meus olhos olham olhos alheios; quando me olho no espelho não vejo o mundo com meus próprios olhos e desde o meu interior; vejo a mim mesmo com os olhos do mundo – estou possuído pelo outro”. Temos aqui um pressuposto importante: “tenho que passar pela consciência do outro para me constituir” (Idem, p.43) e para que possa me compreender, é necessário um “ato de ir até o outro e de voltar a si” (p.128), questão esta relativa ao conceito de empatia. CONSIDERAÇÕES FINAIS Professora e mãe se articulam como atores sociais que imprimem marcas no desenvolvimento da criança e que a ajudam a estruturar seu aprendizado e a desenvolver a consciência de si bem como o papel que desempenha na interação com o meio. Como agente social, a professora tem em sua constituição docente um papel fundamental no desenvolvimento da criança, papel este muitas vezes não sentido em sua prática como importante, mas que se torna fundamental quando pensamos que sua interlocução com outros agentes fundamenta sua crença e seu próprio desenvolvimento profissional. Também como agente social, a mãe tem em seu grupo familiar um papel importante no desenvolvimento da criança, papel este muitas vezes sobrecarregado por outros papéis que assume, mas que se torna fundamental quando pensamos que sua interlocução com outros agentes possa contribuir para o desempenho de sua própria maternagem. Através das análises pode-se compreender o porquê existe distanciamento entre ambas (professora e mãe) e o quanto é importante que essas imagens que as compõem possam ser revistas para que a criança tenha assegurado o desenvolvimento sadio de suas potencialidades, visto que é o elo de ligação entre ambas e também pelo fato de proporcionar a ambas a possibilidade dessa reflexão pessoal. Pensando em um contexto geral da educação, esta pesquisa volta-se para a importância do diálogo entre professora e mãe da criança, em virtude deste diálogo constituir parte da formação da criança. Sua auto-estima, sentimentos de segurança, vivências afetivas, são itens que ajudam a estruturar seu mundo interno e são as bases para um desenvolvimento futuro sadio. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARCE, Alessandra. Documentação Oficial e o Mito da Educadora Nata na Educação Infantil. Dissertação de Mestrado em Educação, Araraquara, 1997 ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre: Imagens e Auto-Imagens. RJ: Vozes, 2000 AZEVEDO, Heloísa H.O. Formação Inicial de Profissionais de Educação Infantil: desmistificando a separação entre cuidar-educar. Tese Doutoramento, UNIMEP, 2005 BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003 BAKHTIN, M. (Volochinov, V.N.) Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1990 BRAIT, B. Bakhtin – conceitos chave. São Paulo: Contexto, 2008 5 CERISARA, Ana Beatriz.A formação de professores em serviço para a educação infantil:uma possível contribuição da universidade. Florianópolis:UFSC, 1991. Relatório de Pesquisa (mimeo) HADDAD, Lenira. A creche em busca de identidade. São Paulo:Loyola, 2002 KRAMER, Sonia. Profissionais de educação infantil : gestão e formação. São Paulo: Ática, 2005 MARANHÃO, D.M.;SILVA, C.V. Creche,pré-escola e família:revendo conceitos para compartilhar cuidados e educação das crianças. In: Santos, L.E.S., organizadora. Creche e pré-escola: uma abordagem de saúde. São Paulo:Artes Médicas, 2004