REDESCOBRINDO O LUGAR NO ENCONTRO DOS ESTRANHOS: INTERAÇÃO E
SOCIABILIDADE
Rogéria Karla Borges do Nascimento1
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RESUMO
Esta comunicação versa sobre a sociabilidade desenvolvida entre as famílias assentadas no Núcleo
Barragem que faz parte do Assentamento Santa Bárbara II, localizado no município de Jaguaretama,
Estado do Ceará, e o Pólo de Divulgação Espírita Dr. Bezerra de Menezes (PODEBEM). O estudo
buscou conhecer os motivos da interação entre assentados e espíritas tendo como finalidade a
identificação da sociabilidade que se desenvolvia entre “estranhos”, ou seja, os Assentados e os
Espíritas, e as transformações que se apresentam na ideologia de vida dos assentados na convivência
com os espíritas. Para além dos motivos, fatos outros vieram somar aos caminhos da construção do
conhecimento a cerca da sociabilidade, desta forma voltei às origens do lugar que em si apresentavase impregnado de lembranças, pelo conteúdo da vivencia singular do Dr. Bezerra de Menezes
conhecido como, o Kardec Brasileiro, que marcará a história do lugar.
UM PRIMEIRO OLHAR
No dia 24 de setembro de 2005 às 6:00 horas da manhã, saí de Fortaleza com destino à
cidade de Jaguaretama, enquanto pensamentos mil povoavam minha mente. O que encontrarei lá?
Será que terei alojamento? E as pessoas, me receberão? Como será verdadeiramente uma vila
agrária? Neste clima cheguei à cidade de Jaguaretama. Perguntei onde ficava o Pólo de Divulgação
Espírita Bezerra de Menezes (PODEBEM) e logo me ensinaram como chegar. Percebi que era bem
vinda. Mais adiante uma placa indicava o caminho. Segui 10 Km em estrada de barro rodeei uma
barragem que havia se rompido com as chuvas de 2004.
Com muita dificuldade cheguei às portas do Assentamento Santa Bárbara II, mais
especificamente no Núcleo Barragem, mais adiante avistei as portas do Pólo de Divulgação Espírita
Bezerra de Menezes. Havia lá intensa movimentação, alguns jovens e crianças decoravam o local para
a festa que aconteceria logo mais à noite.
Estes foram o primeiro olha, o primeiro encontro e as primeiras impressões. Neste momento,
iniciei uma admiração profunda por aquele lugar e fui tomada de muita curiosidade. Desejava saber
tantas coisas e o tempo era tão curto, um fim de semana. Então não tinha muito tempo a perder.
Passei logo a me inteira sobre a “Festa” comemorativa do aniversário do Dr. Bezerra, que aconteceria
logo mais a noite e confirmei que eu e meu marido éramos umas das poucas pessoas de Fortaleza
convidadas a participar daquela comemoração, que se tornaria uma referência no meu processo de
descobrimento daquele lugar.
Podemos entender o lugar como sendo algo concreto, produzido pelo homem num processo
em que nos apoderamos e, ao mesmo tempo, transformamos a natureza num espaço que está
intimamente ligado às transformações sociais ao longo do tempo. O que pretendo dizer, ao trazer este
conceito sobre lugar, é refletir sobre a importância e para além da importância a influência da história e
de toda a transformação de que aquele lugar específico - o Pólo de Divulgação Espírita Bezerra de
Menezes - está investido.
1
Bacharel em Ciências Sociais; Universidade de Fortaleza
2
Vamos então conhecer um pouco do que chamei de “O Lugar Redescoberto” onde apresento a
história do “Lugar” e que tomo como ponto inicial o ano de 1831.
O LUGAR REDESCOBERTO
Na antiga Freguesia do Riacho do Sangue – hoje Município de nome Jaguaretama, nasceu em
29 de agosto de 1831, com o nome de Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcante, o quarto filho do casal
Antônio Bezerra de Menezes e D. Fabiana de Jesus Maria.
Bezerra, desde pequeno, demonstrou que seu caráter tinha, como linha de conduta, o respeito
e o cuidado com o próximo. Ainda na escola da Vila do Frade – um dos nomes do atual Município de
Jaguaretama - certa feita, seu professor, por motivos maiores, necessitou ausentar-se, de modo que
Bezerra, que contava apenas 11 anos, substituiu seu mestre nas aulas de latim, para que seus colegas
de classe na se atrasassem na matéria.
Constam que, certa feita, uma senhora, com sua filha pequena doente, recorrem ao Dr.
Bezerra e ele as atende, diligentemente. Ao término da consulta, a mãe se desculpa por não ter como
pagar-lhe, e muito menos dispor do dinheiro para comprar o remédio receitado. Foi quando Dr.
Bezerra, compadecido da situação de penúria em que se encontrava aquela senhora, retira do dedo
seu anel de formatura, único bem de valor que possuía, e dá para ela comprar os remédios de que sua
filha necessitava. Esta e outras histórias fazem parte da biografia do homem que, por seu acendrado
amor e dedicação, tornou-se conhecido como o “Médico dos Pobres”.
Adolfo Bezerra faleceu no dia 11 de abril de 1900, no Rio de Janeiro, onde morava desde a
época em que cursou Medicina e cidade pela qual foi eleito vereador e deputado desempenhando o
cargo político para o qual foi eleito com muita dignidade. Depois de sua morte, as histórias a respeito
de sua ajuda aos mais necessitados continuaram a surgir. Os espíritas e não espíritas que pedem
ajuda, através da prece, ao “Médico dos Pobres”, principalmente em assuntos de saúde, dizem que
têm sempre os pedidos atendidos. São muitas as histórias a respeito do Dr. Bezerra, histórias que
aconteceram antes da sua morte e após sua morte.
Com o passar dos anos, o lugar exato de nascimento do Dr. Bezerra tornou-se desconhecido,
sabendo-se apenas que nascera no Riacho do Sangue - um dos nomes que recebeu o lugar até passar
a se chamar, definitivamente, de Jaguaretama.
Em 1973, um jornalista que estava hospedado na Fazenda Santa Bárbara, hoje Assentamento
Santa Bárbara II, em conversa com o Sr. Juarez Olimpio, dono da fazenda, é informado que naquelas
terras nascera, há muito tempo, um espírito de luz. No dia seguinte, o jornalista resolveu ir conhecer o
lugar, encontrando a ruína da casa onde Dr. Bezerra nascera, sendo assim, redescoberto o lugar.
A notícia da descoberta chega à CAPEMI – Caixa de Pecúlio, Pensões e Montepio –
Beneficente, criada em 1960, sem fins lucrativos, tendo como finalidade maior manter as obras sociais
do Lar Fabiano de Cristo, o qual, por sua vez, desenvolve atividades de inclusão social e filantropia,
sendo esta última, uma instituição nascida nas fileiras da Doutrina dos Espíritos
A CAPEMI através de orientação recebida da “espiritualidade”, constrói um hospital e
maternidade, na cidade de Jaguaretama, o qual recebe o nome do Dr. Bezerra e, embora com o passar
dos anos e com algumas limitações continua em funcionamento até a presente data. Com a finalidade
de marcar o local de nascimento do ilustre filho da terra a CAPEMI ergue um monumento, no local
exato das ruínas da casa.
A palavra Monumento, do latim Monumentu, é uma obra ou construção que se destina a
transmitir à posterioridade a memória de fato ou pessoa famosa, segundo o Dicionário Aurélio. O
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monumento erguido pela CAPEMI evoca o desejo de que a figura do Dr. Bezerra seja guardada na
lembrança de todos.
Passam-se os anos e o lugar, de difícil acesso, em meio à caatinga, rodeado apenas de
arbustos, além de se encontrar em terra particular, colabora para que, mesmo com a edificação do
monumento, permanecesse esquecido por aproximadamente 22 anos.
Em 1997, o Sr. Benvindo1, na época Presidente da Federação Espírita do Estado do Ceará
(FEEC), convida para conhecer o lugar onde nascera o Dr. Bezerra, o Sr. Antônio Alfredo Monteiro,
então Presidente do Grupo Espírita Paulo e Estevão (GEPE), instituição fundada há mais de cinqüenta
anos, tendo como local de origem, a sede localizada na Rua Pe
1
Benvindo da Costa Melo, fundador e primeiro presidente da Federação Espírita do Estado do Ceará,
estando à frente da mesma no período de outubro de 1990, com mais dois mandatos: 1995 a 1996 e
1997 a 1998. Considerado o principal líder da família espírita no Ceará
Antonio, 452, bairro de Piedade, em Fortaleza, a qual, em todos estes anos de atividade profícua, tem
atendido a diversas pessoas nos seus processos de reforma íntima, bem como, no exercício de
atividades humanitárias, usando como ferramentas, o ESDE – Estudo Sistematizado da Doutrina
Espírita; o T.E. – Tratamento Espiritual; o GEM – Grupo de Estudos Mediúnicos; e o CAD – Centro de
Atendimento à Desobsessão, com a efetiva participação de voluntários. Realiza, também, varias
atividades de ação social com crianças, adolescentes e idosos.
O Sr. Benvido, por ocasião da visita, junto com o Sr. Monteiro, busca entendimento com o
proprietário das terras, Sr. Juarez Olimpio, onde se encontram as ruínas da casa do Dr. Bezerra, para
comprar alguns hectares de terra, objetivando reconstruir a casa do “Médico dos Pobres”, de modo a
torná-la um museu. O fazendeiro, no entanto, não se mostra interessado na proposta e trata com certo
desdém, tanto a visita de ambos, quanto sua proposta.
O Sr. Monteiro, que se mantinha calado, apenas observando o diálogo entre o fazendeiro e o
Sr. Benvindo, é indagado pelo fazendeiro Juarez sobre sua origem. É assim que se descobrem, por
terem nascido no mesmo local e serem de famílias conhecidas, fato este que muda radicalmente o
tratamento até então dispensado aos dois visitantes.
O homem do sertão valoriza a família e as tradições e, quando identifica outro, pela origem
familiar, ajuda-o, mesmo não o conhecendo efetivamente, porém, só o fato de pertencer à família X ou
Y é suficiente para dar-se o acolhimento e haver a reciprocidade. Assim, por terem a mesma origem e
serem de famílias conhecidas, o Sr. Juarez não aceitou a proposta de compra, pois não lhe
interessava, mas, mandou um trabalhador seu acompanhar os novos amigos e marcar, na extensão
desejada, o tanto de terra que quisessem, pois a mesma seria doada à Federação Espírita do Estado
do Ceará.
O Sr. Benvindo, sabedor da formação de Engenheiro Militar do Sr. Monteiro, encomenda-lhe o
projeto de construção da “Cidade Nova Era”, a cidade que imaginava, através de sua visão espiritual. O
Sr. Monteiro, por sua vez, não vê possibilidades de realizar tal construção, por dois motivos: as
condições naturais do ambiente de caatinga e as condições financeiras que não existiam, mas, mesmo
assim, desenvolve o projeto e o entrega ao Sr. Benvindo, que permanece na certeza da concretização
de sua visão espiritual.
A intenção do Sr. Benvido não era só de construir o museu dedicado ao “Médico dos Pobres”
mas concretizar o que via através de sua visão espiritual, uma cidade que seria construída naquele
lugar com muitas famílias morando, muitas crianças, muito verde e pássaros e tinha a certeza que a
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cidade em breve seria construída, por este motivo pensou ele que deveria compra as terras e construir
as casas.
De modo que, enquanto presidente da FEEC, o Sr. Benvindo reconstrói no mesmo lugar da
antiga morada, um novo prédio, que passou a abrigar o museu, em memória do Dr. Bezerra. A
inauguração se deu em 9 de março de 1997 e, desde aquele momento, iniciaram-se as visitas de
caravanas, formadas de pessoas vindas de Fortaleza, da própria região e de outros Estados.
Neste sentido, o “lugar redescoberto” abriga em si o desejo de pessoas ligadas a Doutrina dos
Espíritos de que, o exemplo de homem, que foi o Dr. Bezerra e que nascera naquele lugar, pudesse
concretizar o sonho, enquanto idealização de uma nova sociedade.
Após a reconstrução da casa do “Médico dos Pobres”, e decorridos quase três anos, dá-se
inicio à construção do Pólo de Divulgação Espírita Bezerra de Menezes (PODEBEM), com o auxílio
financeiro do Lar Fabiano de Cristo (CAPEMI), da Federação Espírita do Estado do Ceará (FEEC), do
Grupo Espírita Paulo e Estevão (GEPE) e de muitos espíritas que acreditaram na visão espiritual do Sr.
Benvido.
DO LUGAR REDESCOBERTO AO RECONSTRUIDO
O Projeto de Assentamento (PA) 2 Santa Bárbara II tem como ponto inicial a tomada de
responsabilidade, por parte do INCRA, de adquirir imóveis com a finalidade de reassentar algumas
famílias, atingidas pelo processo de construção do Açude Castanhão, e outras famílias, que se
encontravam há mais de um ano em luta pelo direito à terra.
Em dezembro de 1998, com a autorização da superintendência do INCRA, um pequeno grupo
de 50 famílias, previamente selecionadas pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais, adentra-se às
terras do Sr. Juarez Olimpio, que estavam em processo final de desapropriação. A criação oficial do PA
ocorreu em janeiro de 1999 e o grupo dos 50 assumiu a responsabilidade pela seleção das 178
famílias que comporiam os três núcleos (Núcleo Alegre, Núcleo Campina e Núcleo Barragem) do
Assentamento Santa Bárbara II, sendo que 80 vagas seriam reservadas para os atingidos do
Castanhão.
O nome do PA permaneceu o mesmo da fazenda, acrescido do indicativo II por já existir no
Ceará, no Município de Caucaia, outro assentamento com o mesmo nome Santa Bárbara. O Núcleo
barragem recebeu este nome por se localiza junto à barragem, construída pelo antigo proprietário da
fazenda e recebeu 50 famílias, vindas de Jaguaretama, Banabui, Solonópole e outras localidades.
2 PA
– Projeto de Assentamento - sigla utilizada pelo INCRA para se referir a um assentamento agrário,
neste estudo utilizarei a mesma sigla
Dentre as famílias que compõem o assentamento algumas têm a agricultura como atividade
de origem, mas, são trabalhadores que tiveram uma existência pautada, até aquele momento, no
trabalho em terra que não lhes pertencia, sob o regime de arrendamento, ou como empregado.
Algumas dessas famílias já moraram em outros estados brasileiros, como por exemplo, São Paulo, e
retornaram ao lugar de origem.
Segundo a fala do Sr. Xiquexique “– Só vai pra frente quem tem muita fé e força de vontade,
porque senão, desiste antes de começar!”. O “começar”, de que fala o Sr. Xiquexique, é o processo
inicial, quando se entra nas terras, mesmo com a autorização de abrir a porteira e não se tem nada
para “começar”, a não ser um belo projeto, que se apresenta como solução dos problemas, os quais
não se restringem ao econômico, estendendo-se ao ambiente natural. O assentamento situa-se no
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Município de Jaguaretama, no sertão do Ceará, a área natural é de caatinga, caracterizada por baixos
índices de chuva, temperatura média de 25ºC e 29ºC e o solo é arenoso e pedregoso.
A beleza do projeto fica no papel por mais de um ano, período em que as famílias se vêem
abandonadas, sem condição de suprir suas necessidades básicas. Após este período, é liberado o
Crédito de Implantação, que se subdivide em três modalidades: Crédito Habitação, para construção
das moradias; Crédito de Fomento, para início da plantação, e, por último, o Crédito Alimentação, que
se destina a assegurar a alimentação, enquanto não é produzida efetivamente no assentamento.
Mesmo com a liberação dos créditos, acima citados, as dificuldades permaneciam, pois nem
todos conseguiam cultivar o roçado e o que se colhia, em muitos casos, não supria as necessidades
das famílias; a distância entre o Núcleo e a sede do município de 10 km torna-se muito maior, quando
têm que caminhar sob o sol causticante do sertão, em busca de trabalho, este, por sua vez, quando
conseguem, é só um “bico”; o que não lhes garante o sustento durante longo período.
Para além das dificuldades, que os colocam à margem dos direitos, alguns acontecimentos
colaboram para que a esperança não se extinga, como por exemplo, o fato de a associação criada no
Núcleo - por obrigatoriedade do próprio INCRA, dada à impossibilidade de ordem administrativa de se
tratar com cada individuo; ser procurada pelo Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB), e aí a
esperança se fortalece, encontrando um parceiro na sustentação do Núcleo, através de crédito, a fundo
perdido, para criação de galinha, outro para trabalhar nas áreas de sequeiro e, por último, projeto que
visa à disseminação da plantação de cajueiros, para fins comerciais, sendo que este último,
infelizmente, até o presente momento, não foi liberado.
ANDRADE (2000, p.214) afirma que o sentimento de territorialidade, subjetivado pelas
pessoas, provoca a consciência de confraternização e participação. Estes sentimentos; podemos
supor, foram instigados e despertados gradativamente nos assentados de forma inconsciente, podendo
ser considerado como ponto inicial, o momento da união em regime de mutirão para construção das
moradias, que receberiam suas famílias, e consubstanciados nas junções dos esforços de todos, na
modificação do espaço. O espaço, nesse sentido, é concreto e simbólico, lócus das relações dos atores
sociais
Ao modificarem o espaço, no movimento necessário de transformação do ambiente natural, se
adéquam aos novos aspectos, que passam a fazer parte da comunidade, na dimensão cultural e
política que se instalaria, com a convivência dos “estranhos”, formando-se o ambiente propício ao
surgimento de uma sociabilidade, que tem, inicialmente, como caráter gerador, a carência vivida pela
comunidade.
Na necessidade do Pólo 3, ou seja, de obtenção de mão-de-obra para construção das
edificações, que comporiam o espaço, e dos assentados, em obter trabalho e renda, realiza-se a
construção do espaço em um território que agrega em si, um sentido abstrato de território, onde o
sagrado se manifesta através da pessoa do Dr. Bezerra de Menezes.
Os assentados se vêem no contato com a “ética espírita” 4 da valorização do outro, da
educação com o outro, no respeito às diferenças, na busca de práticas de valorização da vida, num
contexto não dogmático; estabelecendo uma socialização e sociabilidade entre “estranhos”, que
mesmo tendo fins práticos, como requisito do primeiro termo, compraz-se no estabelecimento de laços,
que têm em si a razão, e são fundamentados no segundo termo, ou seja, na sociabilidade.
Utilizo os dois conceitos, socialização e sociabilidade, tomando para o primeiro a compreensão
do processo de aprendizado da vida social, com caráter intrínseco coercitivo, na medida em que visa à
transmissão de conteúdos e a reprodução social de regras de comportamento, enquanto a
sociabilidade dá-se na valorização do contato, da comunicação e da interação.
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A sociabilidade pode ser mais facilmente compreendida, se a tomarmos na dimensão do tempo
livre, onde a característica predominante é o prazer de se estar com o outro, sem compromissos. Desta
maneira, podemos apreender o conceito de sociabilidade como processo
3
Pólo é o nome utilizado pelos assentados e espíritas pra referir-se ao Pólo de Divulgação Espírita
Bezerra de Menezes (PODEBEM) e é o termo que utilizarei neste trabalho.
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Allan Kardec, codificador do Espiritismo, deixou claro que não tinha inventado nada. Apenas
organizou, coordenou, baseado no método teórico-experimental e secundado pelos Espíritos de luz, os
conhecimentos que estavam espalhados pelo mundo. Nesse sentido, o Espiritismo não tem dogmas,
não faz proselitismo e tampouco prescreve ações padronizadas para os seus seguidores. Aponta,
simplesmente os problemas enfrentados pelos seres humanos e lança uma luz sobre eles.
inclusivo. A sociabilidade e a socialização contemplam aspectos diferentes, mas não se anulam, antes
se desenvolvem no mesmo espaço.
A reprodução da “ética espírita”, pelos assentados, vai sendo assimilada, não na totalidade dos
atores sociais, mas, se torna o fio condutor do estabelecimento da convivência entre os “estranhos”,
fator este verificado no decorrer dos três anos de observação participante, através da qual pude
dialogar com assentados, que se intitulam espíritas e os que apenas interagem com o Pólo, por alguns
motivos, os quais se vinculam com a educação, a cultura, o econômico, político etc.
A CONVIVÊNCIA ENTRE “ESTRANHOS”
Mesmo tendo origens semelhantes, nem todos os assentados têm como formação o trabalho
na agricultura, pois uns eram pescadores, outros trabalhadores no Município, há também os que
trabalhavam junto com o pai, em pequenos roçados de propriedade da família, e, ao casarem, viram-se
na obrigação de buscar seu lugar. Para além da questão de suas origens, porém, todos têm em comum
a esperança de melhoria da qualidade de vida para suas famílias.
Ocorre, porém que na junção de pessoas, que não desempenhavam as mesmas atividades
econômicas ou se desempenhavam a realizavam-na com bases diferentes, apresenta-se, como fator
de dificuldade a necessidade de aprender a viver numa comunidade, que tem, como atividades em
comum, o trabalho na roça e o cuidado com os animais, num espaço limitado, em que as condições
naturais são adversas, além da necessidade de as decisões serem compartilhadas por todos.
O mais difícil que a gente enfrenta é que vem o que morava na roça, vem o
vaqueiro.... quer dizer, era o relacionamento.
Eu venho de uma região, a propriedade era pequena mas era do meu pai,
então o meu relacionamento é um, o pescador é outro, aquele que vivia de
aluguel é outro. Então a nossa convivência torna-se difícil, por a gente ter
pensamento diferente, não ter o costume de se relacionar com grupos de
pessoas [...]. (Sr. Palma em 29/ 09/2007)
Observa-se que, as dificuldades vividas nos primeiros anos de implantação do assentamento,
não se limitam à carência ao nível da economia. Vai além e passa pela dificuldade de se relacionar em
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grupo, fator de suma importância, haja vista que qualquer melhoria tem que ser pensada, a nível de
comunidade.
Segundo LEVINAS apud Lígia Aguiar (2003) “o nascimento latente do mundo se dá a partir da
morada” lugar onde se desenvolvem os laços de família, de parentesco, de vizinhança, de
reconhecimento e pertencimento, onde os cuidados com a morada propiciam a existência do lugar.
Assim, a vida no assentamento apresenta como realidade, o nascimento de um novo mundo,
onde as moradas são planejadas pelo INCRA, seguindo os moldes de um conjunto habitacional
urbano, consistindo de casinhas com três quartos, sala, cozinha, banheiro, varanda e um pequeno
quintal; as ruas são largas, o local de plantar, longe de casa, em lotes sorteados, colocando juntas,
pessoas que detêm aptidões diferentes e pensam diferente, mas que necessitam aprender a se
relacionar para alcançar a realização do sonho de permanência no PA, o que para muitos significa ter
uma morada, em outras palavras, o sonho da casa própria, que pode ser interpretado como o desejo
de consolidação da vontade de se estabelecer em um lugar, deixando de ser um sertanejo errante,
vivendo ora nas terras de um, ora em outras terras, sem destino, sem lugar onde possa criar raízes.
É o que pode ser percebido na exteriorização do sentimento de alegria da Sra. Flor de Pinhão
“Minha vida no assentamento passou a ser bem melhor, porque antes morava com patrões, hoje moro
em casa própria”.
O mesmo se repete no sentimento do Sr. Imbuzeiro “Uma das maiores alegrias são a boa
moradia e da água em abundância”. O sentimento compartilhado com a noção de cidadania é o que
expressa o Sr. Mandacaru “(...) um cidadão feliz em ser contemplado com trabalho e habitação”.
A referência ao sentimento de alegria, pela conquista da moradia, mistura-se com as
lembranças da dificuldade, do que é ser assentado e não ter um emprego e renda. A dificuldade por
não ter renda propiciada por um emprego apresenta-se nas lembranças dos assentados, em caráter
superior à das dificuldades de iniciar o plantio do roçado. O que seria esperado em tal contexto é
exatamente o contrário, enfim, são pessoas assentadas no ambiente rural, em uma vila agrícola e que
de uma forma ou de outra têm suas raízes culturais atreladas à agricultura.
A pouca lembrança da dificuldade de manter um roçado, para suprir as necessidades das
famílias, denuncia o grau de aproximação das expectativas, que poderiam ser percebidas, junto ao
homem que vive no meio urbano. Esta aproximação da percepção - assentado e preocupação com
trabalho remunerado - justifica-se pelo fato de muitos deles terem vivenciado, por longo período de
tempo, a vida na sede do Município, desenvolvendo ocupações, como servente, pedreiro etc.
Segundo Oliveira Dollfus (1972, p.77) “A sociedade que ocupa espaço rural é muito menos
diferenciada, do ponto de vista profissional, que a sociedade urbana.” A diferenciação, a qual Dollfus se
refere, está intimamente ligada à atividade que é central no meio rural, ou seja, o trabalho agrícola e de
cuidado com os animais, já que, no meio urbano, a divisão social do trabalho se dá numa
especificidade, que busca atender uma necessidade, criada pelo homem, cada vez maior, dessa forma,
o mesmo não deveria acontecer no meio rural.
Neste contexto de desafios é que se dá a interação com o “estranho”, ou seja, com o Pólo,
quando da busca de uma fonte de renda que supra as necessidades básicas. Os assentados, no
entanto, encontram um parceiro que os auxilia na obtenção de renda e no enfrentamento do desafio,
de se entenderem, enquanto grupo, na construção de uma nova realidade.
Foi através do Pólo, que a gente aprendeu a se reunir e a trabalhar em grupo.
Aprendeu. Agora eu faço que nem o outro, que aprendeu a ver as pessoas de
uma forma diferente. Então esse é o mais difícil. (Sr. Palma 29/09/2007)
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Segundo Jung Mo Sung e Josué Cândido da Silva (1995), a cultura é uma criação social e é
onde se têm as respostas criativas geradas pelos indivíduos e grupo social frente aos desafios. Estes
desafios podem ser gerados pelas mudanças técnicas e não implicar em contradição com os valores
estabelecidos socialmente.
Outro tipo de desafio é o que vem, em decorrência da mudança de paradigmas, mudanças
essas que alteram a visão de mundo do grupo social, mudanças essas que entram em conflito com
modelos em funcionamento, ou seja, conflito com valores, princípios...
Ainda segundo nossos autores, a cultura é uma criação humana, que funciona como uma
“segunda natureza” e temos dificuldade em percebê-la como tal, pois “parece que é a realidade, e não
uma realidade possível” (SUNG; SILVA, 1995, p. 30), assim sendo, o Pólo, enquanto o “estranho”,
buscou auxiliar os assentados, nas respostas às questões que se apresentavam na dificuldade
econômica, mas, que, em realidade, se fundamentavam na construção dos vínculos sociais entre
assentados.
O Pólo tornou-se, desta maneira, o lugar de referência para a comunidade e freqüentadores; e
é onde se têm os vínculos desenvolvidos no cotidiano, onde se dá o reconhecimento e o pertencimento
entre “estranhos”, permeado por valores desenvolvidos através da alteridade
A alteridade, no que se refere à relação de educação com o outro, ou seja, ao se colocar na
relação interpessoal, no lugar do outro, na valorização, na identificação com o outro e dialogando com
o outro, como a etimologia da palavra em latim expressa, no significado do prefixo alter, a alteridade
assim compreendida é a base das interações entre Pólo e assentados.
A interação entre Pólo e assentados pode ser compreendida, também, como o pano de fundo
no processo educativo, de construção e reconstrução da tomada da cidadania e da percepção da
necessidade de redefinição da “ideologia” de vida, que se concretiza na espacialidade social, de forma
implícita e que não é formulada, mas sentida, como esclarece Durkheim ao afirmar que
Na verdade, porém, cada sociedade, considerada em momento determinado
de seu desenvolvimento, possui um sistema de educação, que se impõe aos
indivíduos e de modo geral irresistível. (DURKHEIM. 1978, p. 36)
Desta maneira, verifica-se que a interação Pólo-assentado, que aparentemente se dá como
resultante da busca de suprir as necessidades básicas, tendo como meio, o trabalho na construção da
Escola Fabiano de Cristo e que viria a desempenhar, como função maior, o processo educativo das
crianças e jovens do assentamento, toma como aparência de identificação não imediata, a construção
da nova realidade social, na qual os elos vão sendo criados interligando uma teia sócio-espacial .
A FESTA: INTERAÇÃO E SOCIABILIDADE
A cultura da região, explicitada por ocasião das comemorações relativas ao aniversário de Dr.
Bezerra, apresenta-se com algumas características; dentre as quais, uma delas é de se revelar como
momento de festa, compreendida como,
[...] divertimento, liberação, relaxamento das tensões sociais, provocadas pela
lutas por poder, ou mesmo uma transgressão simbólica da ordem, que
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permitiria a pacificação das pressões sociais liberadas por meio de rituais
(Pinheiro; Freire, 2005 apud Brandão,1989)
Ou seja, é um momento de diversão, no qual se deixa a alegria invadir o ser e o ambiente.
Uma segunda característica, trata-se do momento de ligação com o Divino, similar aos festejos
religiosos, nos quais o profano e o divino se entrelaçam. Uma terceira característica que se apresenta,
com importância para compreensão da sociabilidade desenvolvida é o fato de ser a ocasião de maior
interação entre assentados e espíritas (Pólo).
Simmel (2006) discorre sobre a sociabilidade e apresenta o impulso sociável, como a
substância da sociabilidade. No entendimento do autor, a sociabilidade tem como princípio
proporcionar aos indivíduos, valores sociáveis - entendidos como liberdade, alegria, vivacidade – de
maneira recíproca e em “quantidades” máximas.
Refletindo sobre a substância constituinte da sociabilidade, temos o momento festivo do mês
de agosto, no qual se pode constatar o impulso sociável descrito por Simmel, de maneira a concretizar
o êxito deste impulso, que é, enfim, o principio da sociabilidade formulada por nosso autor.
Georg Simmel parte do pressuposto de que a sociabilidade tem a sua estrutura, fundada em
bases democráticas e num mesmo estrato social, dada a igualdade entre indivíduos. Nesta concepção,
a sociabilidade se apresenta quase como algo “natural”, pois os indivíduos não necessitam se despir do
que é material e do que é pessoal, haja vista as diferenças serem mínimas, em decorrência da
igualdade social.
Para além deste entendimento, Simmel não descarta a formação da sociabilidade, entre
indivíduos de estratos sociais diferentes, apenas acrescenta a esta o fato de ser constrangedor e poder
causar contradições. Ora, aí se encontra o fator diferencial da sociabilidade desenvolvida entre
assentados e Pólo. Entre os assentados, temos a sociabilidade, que se desenvolve entre indivíduos do
mesmo estrato social, e que, democraticamente, partilham a sociabilidade com o Pólo (espíritas), que,
em grande maioria, são pessoas de estrato social distinto.
A construção da sociabilidade entre assentados e Pólo e que toma o caráter descrito por
SIMMEL, “A sociabilidade cria, caso se queira, um mundo sociologicamente ideal: nela, a alegria do
individuo está totalmente ligada à felicidade dos outros.” (2006, p. 69), a alteridade apresenta-se
enquanto processo facilitador da construção e desconstrução da idéia que os homens fazem de si,
permitindo o êxito do impulso social, em que cada indivíduo garante os valores sociais, em quantidade
compatível com o recebido.
A FESTA EM 2005
A primeira festa, em comemoração ao aniversário de nascimento do Dr. Bezerra de Menezes,
aconteceu em agosto de 2005. Sua singularidade reside no fato de a organização ter como
centralidade, os assentados. Foi uma festa feita por eles e para eles, porque, neste ano, a seca na
região castigou por demais os assentados, em especial os do Núcleo Barragem, que viram a barragem
Santa Bárbara romper e as águas levarem todo o equipamento de irrigação, junto com a plantação.
Foram momentos de desespero para as famílias, ao anoitecer, a tristeza, semelhante às águas
que invadem todos os cantos, invadiu o Núcleo, tomando as famílias de profunda tristeza. Como
conseqüência do acontecido naquela noite, não teve luz, tudo ficou escuro; as pessoas chorando nos
alpendres das moradas, pensando no que seria delas agora.
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No dia seguinte, não se tinha água e luz e não havia como passar para o outro lado, em
direção ao Município de Jaguaretama. Ninguém ia e ninguém vinha, era gente vindo de toda a
redondeza para olhar à distância, as águas indo embora e levando todas as esperanças dos
assentados.
Muitas famílias pensaram em ir embora, umas foram, outras ficaram e tiveram que enfrentar as
dificuldades,como, por exemplo, verem os animais a passarem sede, porque não tinha água nem para
as pessoas, muito menos para os animais. Como solução, tinha que andar léguas e léguas, até a
localidade de Timbaúba, para que os animais não morressem por falta de água.
No entanto, o sertanejo, que segundo o dito popular, “é forte”, conseguiu transformar toda a
dificuldade, vivenciada ao longo de 2005, em uma linda festa, da qual pude participar, momento em
que pôde ser percebido o processo de mudança que acontecia nos indivíduos, expressando a idéia do
homem bravo que tinham de si mesmos. O pátio externo da escola Fabiano de Cristo que se localiza
no Pólo, foi tomado de cadeiras, postas em fileira, para que a platéia pudesse assistir às apresentações
artísticas; uma cortina foi improvisada com retalhos, em fitas, e fixaram-se duas cartolinas, onde se
viam desenhos feitos por uma jovem assentada, retratando o Dr. Bezerra e a paisagem do Pólo.
A Festa inicia-se com a apresentação de uma peça teatral, encenada, escrita e dirigida pelos
agricultores. A peça falava do homem que tinha sido o Dr. Bezerra. Aconteceram algumas outras
apresentações artísticas, que envolveram toda a platéia. À medida que o tempo passava e as
apresentações aconteciam, mais pessoas da comunidade chegavam e se envolviam com o clima, que
é quebrado, apenas, quando adentram no recinto o Prefeito do Município de Jaguaretama e sua
comitiva, que tomam seus lugares junto aos assentados para participar da festa que comemora o
aniversário do Dr. Bezerra de Menezes, filho ilustre da cidade, e coincidentemente a data do
nascimento do “Médico dos Pobres” é a mesma do aniversário do Município de Jaguaretama, ou seja,
29 de agosto.
Ao começar a apresentação mais esperada da noite, todos se movimentam, principalmente a
meninada, pois é hora do Boi dos Mascarados, que chega e contagia a todos com a ‘Dança da
Banana’. Em seguida, acontece a apresentação de dois repentistas da região, que fazem uma
homenagem ao Dr. Bezerra e engrandecem, por palavras, o apoio do Pólo à comunidade.
Participa da festa uma média de 120 pessoas, entre adultos, jovens e crianças e todos
compartilham de um jantar preparado por senhoras da comunidade.
Nos anos de 2006 e 2007, as condições climáticas e a reconstrução da barragem permitem
que caravanas vindas de Fortaleza possam participar da Festa, que seguem os moldes de 2006, ou
seja, a organização, as apresentações e o jantar, tudo feito pelos assentados.
Assentados e espíritas vindos de Fortaleza sentam-se juntos, interagindo. Divertem-se, jantam
e participam da Festa, demonstrando a sociabilidade desenvolvida ao longo dos anos.
A socialização impõe-nos regras e normas de conduta social, que por seu caráter coercitivo
apresenta-se, em dado momento, como o divisor de estrato social, ou melhor, como discriminatório. A
sociabilidade apresenta-se como propiciador do alívio das tensões sociais, sem, contudo, desprender
os atores da realidade. Apresenta-se também como mecanismo de inclusão social sem contudo
desconsiderar a existência dos conflitos, naturais da convivência social.
Á GUISA DE REFLEXÃO
Um lugar que guarda em si uma memória, que já não é sua, mas de muitos, um lugar que
influência e é influenciado, um lugar dos iguais, que se estranham e de estranhos que buscam se
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igualarem, esta foi a percepção que tomou a observação, e que possibilitou a identificação da
sociabilidade, que se desenvolveu entre “estranhos e estranhos”.
Mas que sociabilidade é esta? Sim, pois há vários tipos de sociabilidade. Temos a que se
desenvolve entre os índios Kaxinauá, descrita por Cecília Mccallum (1988) temos os exemplos dados
por Georg Simmel em sua obra Questões Fundamentais de Sociologia (2006), e muitas outras
descritas por vários outros pesquisadores e estudiosos.
No entanto, a sociabilidade desenvolvida entre assentados e Pólo é a resultante de um
processo de reconhecimento, em vários níveis, que vão do econômico ao subjetivo individual e coletivo,
passando de um ao outro, sem ter contudo, uma linha rígida a seguir.
Podemos, também, aferir que a sociabilidade surge em decorrência do processo de
socialização e este é o ponto inicial da transformação, pelo qual, as pessoas estão a passar, cada um
em seu tempo, uns mais rápidos, outros um pouco mais lentos.
Um fator importante, que compõe os vieses da construção da sociabilidade analisada, é o
processo de construção do conhecimento, através da alteridade, no respeito e aprendizado com o
outro.
O que transpareceu, com muita propriedade, nas observações, foi a busca do respeito e
reconhecimento de si e do outro e, para além da alteridade, o processo de reeducação, ou, dizendo de
outra forma, de mudança de “ideologia” que se fundamenta na educação, a qual se apresenta em
todos os níveis da construção cultural dos assentados, e que se mostra como motivadora da Doutrina
dos Espíritos, representada pelo Pólo e exemplificada na figura do Dr. Bezerra de Menezes.
Um exemplo claro do que denomino de “ideologia” é o entendimento do homem do sertão que
toma para si o atributo de que ser forte seja sinônimo de apresentar-se de modo rude, pois isto é ser
homem, de não levar desaforo para casa, como um senhor relatou que antes tudo se resolvia na ponta
da peixeira; sentar e conversar os problemas ou apenas ouvir o desabafo do outro que está irado não é
coisa de homem.
Ao afirmar que a educação é o ponto central da Doutrina, não implica em aferir que a
pretensão do Pólo é transformar a todos em espíritas, e esta afirmação fundamenta-se na própria
centralidade, que é a educação, processo pelo qual o homem torna-se, através da razão, senhor de si
mesmo. Neste processo, a educação toma, em primeiro momento difundir valores que facilitem a
socialização dos atores sociais, e num segundo momento o processo concreto de educação não no
sentido da educação escolar, mas o que permite a tomada de cidadania com seus deveres e direitos.
A sociabilidade, então, desenvolvida entre assentados e Pólo, busca, em realidade, ser o
momento de interação, em que a alegria e o entusiasmo são os geradores dos impulsos sociáveis, que
independem do estrato social a que se pertence.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, Lígia Brochado. O LUGAR E O MAPA. CAD. CEDES, Campinas, v, 23, n. 60,2003.
Disponível em: http:// scielo.br/hph?script=sci_arttex&pid=s0101-32622003000200002. Acessado em
27 de setembro de 2007.
ANDRADE, Manuel Correia. TERRITÓRIO: Globalização e Fragmentação. (Org) Milton Santos, Maria
Adélia A. de Souza e Maria Laura Silveira. 5ª ed. São Paulo: HUCITEC. 2002.
DOLLFUS, Oliver. O ESPAÇO GEOGRÁFICO. Tradução de Heloysa de Lima Dantas. São Paulo:
Difusão Européia de Livros, 1972.
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DURKHEIM, Émile. EDUCAÇÃO E SOCIOLOGIA. 11ª. São Paulo: Melhoramento [Rio de Janeiro]
Fundação Nacional de material Escolar, 1978.
McCALLUM, Cecília. ALTERIDADE E SOCIABILIDADE KAXINAUÁ: Perspectiva de uma antropologia
da vida diária. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 1998, vol. 13, n. 38.
SIMMEL. Georg, QUESTÕES FUNDAMENTAIS DA SOCIOLOGIA. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
SUN. Jung Mo; SILVA. Josué Candido da. CONVERSANDO SOBRE SOCIEDADE E ÉTICA. 2ª ,
Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
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REDESCOBRINDO O LUGAR NO ENCONTRO DOS ESTRANHOS