PROSPECTIVA E PLANEAMENTO, Vol. 17−2010 AVALIAÇÃO DA SUSCEPTIBILIDADE AOS PERIGOS NATURAIS DA REGIÃO DE LISBOA E VALE DO TEJO Catarina Ramos1 José Luís Zêzere2 Eusébio Reis3 Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Universidade de Lisboa 1. O PAPEL DO ORDENAMENTO E GESTÃO DO TERRITÓRIO NA PREVENÇÃO DOS RISCOS Um dos objectivos essenciais do ordenamento do território é o de garantir a sua utilização sustentável, maximizando os recursos que ele apresenta e minimizando os riscos que o afectam. O desafio prioritário do ordenamento territorial é o de conseguir a interligação geográfica harmoniosa das actividades económicas, que sustentam qualquer sociedade e que criam a riqueza necessária para o bem-estar social, com o funcionamento dos sistemas naturais, que fornecem recursos imprescindíveis, mas que também, com a sua dinâmica, podem constituir situações de perigo. Nesta perspectiva, o ordenamento territorial deverá assentar em dois vectores essenciais: i) “dar espaço” aos sistemas naturais para que se possam auto-renovar e auto-regenerar; ii) manter as pessoas e bens afastados dos perigos com incidência espacial, levando à diminuição do risco; ou seja, a adopção dos princípios da prevenção e da precaução, que estão na base do desenvolvimento sustentável de qualquer sociedade. Daqui resulta que a gestão territorial não pode ser casuística, nem deve ziguezaguear ao sabor de interesses particulares, resultando num caos urbanístico, na delapidação de recursos e do incremento das situações de risco. Ao contrário, a gestão territorial deve ser eminentemente estratégica, garantindo, entre outros, aqueles dois vectores 1 [email protected] 2 [email protected] 3 [email protected] Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 58 Catarina Ramos; José Luís Zêzere; Eusébio Reis essenciais, e implica a monitorização dos vários sistemas naturais e antrópicos de incidência territorial e das suas interacções. Em Portugal, o sistema de gestão territorial foi definido através de um conjunto de instrumentos identificados na Lei de Bases da Política do Ordenamento do Território e de Urbanismo (Lei 48/98 de 11 de Agosto), com as actualizações introduzidas pela Lei 54/2007 de 31 de Agosto, dos quais se salientam, a escalas progressivamente maiores: i) o Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território (PNPOT, Lei nº 58/2007 de 4 de Setembro); ii) os Planos Regionais de Ordenamento do Território (PROT); iii) os Planos Municipais de Ordenamento do Território (PMOT). Os signatários deste artigo, integraram a equipa de Riscos e Protecção Civil, coordenada por J. L. Zêzere (Zêzere et al, 2008 e 2010), respectivamente, na elaboração do PROT do Oeste e Vale do Tejo (PROTOVT) e na revisão do PROT da Área Metropolitana de Lisboa (PROTAML). Esta equipa teve como missão: i) definir os tipos de perigos (naturais, ambientais e tecnológicos) com maior incidência nestas duas regiões; ii) definir critérios que permitissem espacializar os perigos; iii) elaborar um mapa de síntese que pudesse ser integrado no modelo de desenvolvimento regional e iv) indicar as directrizes e normas, no âmbito da gestão dos riscos, que deverão ser respeitadas e aplicadas pelos PMOT, no sentido de prevenir e minimizar os riscos. Da experiência resultante do trabalho nestes dois PROT, e da discussão com outras equipas similares que trabalharam noutros (Centro e Norte), são de salientar os seguintes aspectos: i) problemas ao nível conceptual na utilização de diferentes termos para os mesmos fenómenos; ii) diferentes critérios de análise e tratamento dos perigos, que impossibilitam a comparação entre regiões pertencentes a diferentes PROTs e, como tal, à avaliação integrada dos riscos a nível nacional; iii) perspectivas diferentes, quanto aos riscos a integrar nos instrumentos de ordenamento e planeamento territorial, relativamente aos que devem integrar os instrumentos do planeamento de emergência ou de política sectorial. Relativamente ao primeiro problema, foi dado, entretanto, um passo decisivo para a uniformização conceptual no “Guia Metodológico para a Produção de Cartografia Municipal de Risco e para a Criação de Sistemas de Informação Geográfica de Base Municipal” (Julião et al, 2009). Assim, os conceitos que serão aqui utilizados estão de acordo com o referido Guia. Destes, destacam-se os conceitos de perigo, susceptibilidade, perigosidade e risco4. 4 Perigo: processo ou acção (natural, antrópico ou misto) susceptível de produzir perdas e danos. Susceptibilidade: incidência espacial do perigo. Perigosidade: probabilidade de ocorrência de um processo ou acção com potencial destruidor numa dada área e num dado período de tempo. Risco: Probabilidade de ocorrência de um processo (ou acção) perigoso e respectiva estimativa das suas consequências sobre pessoas, bens ou ambiente, expressas em danos corporais e/ou prejuízos materiais e funcionais, directos ou indirectos. Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 59 Avaliação da Susceptibilidade aos Perigos Naturais da Região de Lisboa e Vale do Tejo Em relação ao segundo problema, era quase inevitável que acontecesse. De facto, existem metodologias variadas aplicadas na análise de perigos e riscos. Afigura-se, no entanto, plausível, que na próxima revisão dos PROT se possam utilizar critérios semelhantes na análise e avaliação dos perigos. É este o timing certo dessa discussão. Quanto ao terceiro problema, deve também ser discutido, porque se existem fenómenos que ocorrem especificamente em determinados locais ou áreas (como por exemplo as cheias), outros existem que têm uma expressão espacial independente das características físicas do território e do uso que dele fazemos (como por exemplo as ondas de calor). No primeiro caso, a sua avaliação deve integrar o ordenamento e planeamento territorial, no segundo caso, o planeamento de emergência. Este artigo, na sequência do Seminário de Formação “Ordenamento Territorial, Competitividade, Coesão e Sustentabilidade”, organizado em Maio de 2010, pelo Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais (MAOT), procura ser um contributo para a discussão dos critérios de avaliação da susceptibilidade aos perigos que afectam o território, ou seja, para a definição e delimitação das áreas atingidas por fenómenos perigosos, que, como tal, devem merecer especial atenção na forma como são utilizadas e usadas pelas diferentes actividades humanas. 2. PERIGOS NATURAIS ANALISADOS NA REGIÃO DE LISBOA E VALE DO TEJO (LVT) Neste trabalho foram apenas seleccionados os perigos de origem natural e que são intrínsecos ao funcionamento dos sistemas naturais, mas que um correcto ordenamento do território e o cumprimento de regras e normas de construção/uso pode reduzir drasticamente os seus efeitos nefastos e, portanto, o risco a eles associado. Os perigos naturais seleccionados abrangem causas diversas: climáticas, hidrológicas, geológicas e geomorfológicas (quadro 1), válidas para a região de LVT, e manifestam-se a diferentes escalas espacio-temporais. A proposta metodológica que aqui se apresenta é sustentada pelo trabalho efectuado no PROTOVT e no PROTAML que levou à elaboração dos respectivos mapas de perigos e da sua incidência espacial (figuras 1 e 2, modificadas). Esta metodologia tem a vantagem de se poder aplicar a qualquer unidade territorial administrativa (NUTs, concelhos, ou outras) e permite comparar: i) os perigos entre si, quanto às suas diferentes incidências espaciais, e ii) as diferentes unidades administrativas quanto à sua susceptibilidade a esses perigos. Este facto, permite alicerçar uma visão estratégica na gestão dos diversos tipos de riscos e nos programas de financiamento que os poderão suportar, apoiando as opções e decisões políticas regionais ou intermunicipais na minimização de determinados tipos de riscos. Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 60 Catarina Ramos; José Luís Zêzere; Eusébio Reis A unidade administrativa considerada foi a concelhia, tendo sido construída uma base de dados única para os 51 concelhos que integram os dois PROTs, distribuídos por cinco NUTS III. A área total abrange cerca de 13% de Portugal continental, e comporta 33% da população portuguesa (quadro 2). Quadro 1 – Perigos naturais analisados e respectivas causas que afectam a região de LVT Tipo de perigo natural Sub-tipo Causa Factor desencadeante sismo sismo de elevada intensidade geológica movimento brusco de falhas tectónicas movimentos de vertente deslizamentos, desabamentos, balançamentos, escoadas, expansões laterais tsunami (maremoto) locais e regionais geológica e/ou geomorfológica sismos, movimentos de vertente subaéreos ou submarinos e erupções vulcânicas cheias rápidas, lentas climática precipitações abundantes e/ou intensas erosão costeira de praias, e climática hidrogeomorfológica de dunas, de arribas contaminação de aquíferos hidrogeomorfológica climática porosos, cársicos, fissurados e precipitações abundantes e/ou intensas storm surge, subida do nível do mar de origem eustática, movimentos de vertente geológica (*) (*) Os factores desencadeantes na contaminação de um aquífero podem ser naturais ou antrópicos. Contudo, neste caso, o que se analisa é a susceptibilidade à contaminação dos aquíferos, que depende das características físicas intrínsecas do próprio aquífero e do território em que está inserido. Quadro 2 – Características administrativas da região de LVT Região Área (Km2) População NUTS III OVT 8792 805633 Médio Tejo Nº de concelhos Oeste 33 Lezíria do Tejo Grande Lisboa AML 2963 2661850 Total 11755 3467483 5 51 % total 13% 33& 17% 17% Península de Setúbal Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 18 61 Avaliação da Susceptibilidade aos Perigos Naturais da Região de Lisboa e Vale do Tejo 3. AVALIAÇÃO DA SUSCEPTIBILIDADE AOS PERIGOS NATURAIS Uma vez que a susceptibilidade representa a incidência espacial de um fenómeno perigoso, foram definidas cinco classes de susceptibilidade, que definem a área afectada por cada perigo no contexto das unidades territoriais (neste caso, os concelhos). Assim, foi criada uma escala de 0 (zero) a 10 (dez), com um incremento de dois graus entre cada classe de susceptibilidade, a saber (quadro 3): Quadro 3 – Classes e respectivos índices de susceptibilidade Classe de susceptibilidade Índice % da área do concelho % do troço costeiro Não aplicável 0 n/a n/a Baixa 2 ≤ 10 ≤ 10 Moderada 4 10 - 25 10 - 25 Elevada 6 25 - 50 25 - 50 Muito elevada 8 50 - 75 50 - 75 10 75 - 100 75 - 100 Extremamente elevada Quando o perigo não afecta o concelho em questão, o índice é 0 (zero) e quando mais de ¾ da área do concelho é afectada então o índice toma o valor máximo de 10. Saliente-se o caso particular da erosão costeira, cujo grau de resolução (à escala regional) não permitiu a sua definição por área afectada, mas sim por troço costeiro afectado. Neste caso, considerou-se como 100% a totalidade do troço costeiro concelhio. Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 62 Catarina Ramos; José Luís Zêzere; Eusébio Reis Figura 1 – Mapa de perigos naturais da Região do Oeste e Vale do Tejo Fonte: Extraído de Zêzere et al, 2008, modificado. Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais Avaliação da Susceptibilidade aos Perigos Naturais da Região de Lisboa e Vale do Tejo 63 Figura 2 – Mapa de perigos naturais da Área Metropolitana de Lisboa Fonte: Extraído de Zêzere et al, 2010, modificado. 3.1. Susceptibilidade sísmica A região de LVT encontra-se num dos sectores mais perigosos do território do ponto de vista sísmico, não só pela sua proximidade aos acidentes tectónicos activos submarinos que se localizam a SW e a S do território, potencialmente geradores dos sismos máximos regionais (Grácia et al, 2003), que afectam também o Algarve e a metade sul e oeste do Alentejo, mas também por ser atravessada pelo(s) acidente(s) tectónico(s) do vale inferior do Tejo (Carvalho et al, 2006). Para a definição das áreas afectadas por sismos potencialmente perigosos, utilizaram-se três critérios: i) isossistas de intensidades máximas, baseadas na sismicidade histórica (LVT situa-se nas zonas de intensidade VIII a X); ii) peak ground acceleration (PGA), de Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 64 Catarina Ramos; José Luís Zêzere; Eusébio Reis acordo com a distribuição das PGA para um período de retorno de 475 anos (Montilla e Casado, 2002); iii) efeitos de sítio que produzem a amplificação do perigo sísmico, a saber: formações geológicas sedimentares não consolidadas, formações geológicas sedimentares com algum grau de consolidação, e faixa de 100m relativamente às falhas activas. O cruzamento destes critérios levou à definição de áreas de perigo sísmico baixo, moderado, elevado e muito elevado (Zêzere et al, 2007/08, Zêzere et al, 2008 e Zêzere et al, 2010). As áreas de perigo sísmico elevado a muito elevado, ou seja, onde pode ocorrer a destruição do edificado e um número elevado de feridos e vítimas mortais, foram incorporadas na matriz de susceptibilidade aos perigos naturais (quadro 4), cuja legenda se encontra no quadro 3. Como é visível nessa matriz, 21 concelhos de LVT têm mais de 75% da sua área afectada pelo perigo sísmico elevado a muito elevado (índice 10 – susceptibilidade extremamente elevada). Dentro destes, destacam-se os concelhos de: Alcochete, Almada, Cartaxo, Lisboa, Moita, Montijo, Palmela, Salvaterra de Magos, Seixal, Sesimbra, Setúbal, Sobral de Monte Agraço e Vila Franca de Xira, por terem a totalidade do seu território concelhio abrangido pelo perigo sísmico elevado a muito elevado. 3.2. Susceptibilidade aos movimentos de vertente Ao contrário do perigo sísmico, os movimentos de vertente (desencadeados na região por chuvas abundantes ou intensas) têm uma incidência espacial circunscrita a determinados locais, onde a conjugação das características litológicas e estruturais e do declive potenciam a instabilidade das vertentes e os movimentos de massa. Embora circunscrito, este tipo de perigo danifica gravemente habitações e diversos tipos de infraestruturas, das quais se salientam as rodoviárias, em especial as de nível hierárquico superior (auto-estradas e vias rápidas). Embora as condições geomorfológicas da região de LVT (predomínio das superfícies aplanadas e vertentes pouco compridas e de fraco comando) sejam muito diferentes das da Madeira e Açores, onde este tipo de perigo é frequentemente mortífero, a sua diversidade litológica e, sobretudo, a abundância de rochas sedimentares plásticas (margas e argilas), pertencentes aos terrenos da Orla Sedimentar Mesocenozóica, e dos depósitos superficiais, nesta, nos terrenos do Maciço Antigo e nos da Bacia Sedimentar do Tejo, potenciam um elevado número de movimentos de massa. Com base em vários trabalhos científicos (teses de doutoramento e de mestrado) já efectuados ou em execução nesta região, Zêzere et al (2007/08) definiram limiares de declive críticos para a instabilidade das vertentes, em função dos tipos litológicos existentes, validados por levantamentos de campo. As várias litologias, obtidas a partir do mapa geológico, foram agrupadas em oito conjuntos litológicos espacialmente relevantes na região (depósitos superficiais, rochas carbonatadas compactas, rochas sedimentares detríticas, rochas Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais Avaliação da Susceptibilidade aos Perigos Naturais da Região de Lisboa e Vale do Tejo 65 sedimentares plásticas, rochas graníticas e afins, rochas quartzíticas e afins, rochas xistentas e rochas vulcânicas). Os declives foram obtidos a partir do modelo numérico de elevação com base na altimetria à escala 1:25000. Foram considerados limiares de declive crítico: i) a partir de 10º, para os depósitos superficiais e rochas sedimentares plásticas; ii) a partir de 15º, para as rochas sedimentares detríticas e para as rochas xistentas; iii) a partir de 20º, para as rochas vulcânicas; iv) a partir de 25º, para as restantes. A aplicação deste critério aos 51 concelhos em análise permitiu verificar que, apesar de ser um fenómeno circunscrito espacialmente, a sua elevada frequência afecta 10 a 25% das áreas concelhias de 11 concelhos (quadro 4) e mesmo 30 a 40% das áreas dos concelhos de Arruda dos Vinhos, Mafra e Sobral de Monte Agraço. 3.3. Susceptibilidade a tsunami (maremoto) Os tsunamis são, dos seis tipos de perigos naturais em análise, os de menor probabilidade de ocorrência. Contudo, os registos históricos mostram-nos que os tsunamis com consequências devastadoras, atingiram por cinco vezes a região de LVT nos últimos 2000 anos (dois no período romano, dois no século XVI e um no século XVIII). Os tsunamis ocorrem devido a sismos com epicentro no oceano, a movimentos de massa em vertentes submarinas ou subaéreas (que atinjam o mar) ou a erupções vulcânicas. O enquadramento geotectónico de Portugal Continental mostra que os principais locais geradores de tsunamis se enontram no Banco de Gorringe, nas falhas submarinas activas N-S que se estendem ao largo da costa alentejana e na falha Açores-Gibraltar. Estas estruturas geram os chamados “tsunamis locais”, os mais perigosos, porque chegam em poucos minutos à região de LVT. Contudo, existem também outros locais que poderão gerar os “tsunamis regionais”, que levam entre 1 a 3h a chegar à região. O zonamento da susceptibilidade à inundação costeira por tsunami foi efectuado com base na simulação modelística do maremoto gerado pelo sismo de 1755 (Baptista et al, 2003). Consideraram-se ondas de SW com 6 m de altura, um run-up de referência de 15m e efeitos locais, a saber: i) tipo de litoral (praia, arriba), ii) geometria da linha de costa e sua relação com a direcção (SW) mais provável da propagação da(s) onda(s), iii) altimetria da faixa litoral e sua relação com a altura das ondas de tsunami, iv) presença, disposição e geometria de obstáculos que canalizem a propagação da onda. Foram consideradas duas zonas com probabilidade de serem atingidas por este fenómeno, sendo aqui considerada a zona 1, de maior probabilidade (quadro 4), embora nos mapas dos dois PROTs tenham sido consideradas as duas zonas. As áreas mais atingidas são os Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 66 Catarina Ramos; José Luís Zêzere; Eusébio Reis litorais baixos e arenosos e as reentrâncias da linha de costa, de onde se destacam os estuários do Tejo e Sado, as lagoas de Óbidos, S. Martinho do Porto e Albufeira, e ainda a faixa costeira da Nazaré e da Costa da Caparica (até à base da arriba fóssil). Os concelhos com susceptibilidade a tsunami elevada (entre 25 e 40% de área afectada) são os de Alcochete, Barreiro e Moita. Com susceptibilidade moderada encontram-se os de Almada, Seixal e Vila Franca de Xira (entre 10 e 20% da sua área). Quadro 4 – Matriz de susceptibilidade aos perigos naturais, por concelho, na região de LVT Sismos Mov. vertente Tsunami Cheias Aquíferos Erosão costeira Abrantes 2 4 0 2 4 0 Alcanena 2 2 0 2 8 0 Alcobaça 4 2 2 2 6 6 Alcochete 10 2 6 6 8 0 Alenquer 10 4 0 2 4 0 Almada 10 2 4 2 8 6 Almeirim 10 2 0 4 8 0 Alpiarça 10 2 0 6 10 0 8 2 0 2 0 0 Arruda dos Vinhos 10 6 0 2 0 0 Azambuja 10 2 0 6 2 0 Barreiro 10 2 6 2 8 0 Benavente 10 2 0 6 2 0 Bombarral 4 2 0 2 2 0 Cadaval 2 4 0 2 2 0 Concelhos Amadora Caldas da Rainha 2 4 2 2 4 10 Cartaxo 10 2 0 6 8 0 Cascais 2 2 2 2 2 4 Chamusca 2 0 2 6 0 Constância 2 2 0 4 6 0 Coruche 6 2 0 2 8 0 Entroncamento 8 2 0 2 10 0 Ferreira do Zêzere 2 4 0 2 4 0 Golegã 10 2 0 10 10 0 Lisboa 10 2 2 2 0 0 Loures 8 4 2 4 0 0 Lourinhã 2 2 2 2 2 10 Mafra 2 6 2 2 0 10 Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 67 Avaliação da Susceptibilidade aos Perigos Naturais da Região de Lisboa e Vale do Tejo Moita 10 2 6 6 8 Montijo 10 2 2 2 10 0 Nazaré 6 2 2 2 6 4 Óbidos 4 4 2 2 4 10 Odivelas 8 4 0 4 0 0 Oeiras 8 2 2 2 0 0 Ourém 2 2 0 2 6 0 Palmela 10 2 2 2 10 0 Peniche 6 2 2 2 2 8 Rio Maior 4 2 0 2 6 0 10 2 0 4 10 0 4 2 0 4 6 0 Salvaterra de Magos Santarém Sardoal 0 2 2 0 2 0 0 Seixal 10 2 4 2 8 0 Sesimbra 10 2 2 2 6 2 Setúbal 10 4 2 2 6 2 Sintra 2 2 2 2 2 8 10 6 0 2 0 0 Tomar 2 2 0 2 4 0 Torres Novas 2 2 0 2 6 0 Sobral de Monte Agraço Torres Vedras Vila Franca de Xira Vila Nova da Barquinha 4 4 2 2 2 10 10 4 4 8 2 0 4 2 0 2 4 0 3.4. Susceptibilidade às cheias As cheias são um fenómeno muito frequente, pois ocorrem quase todos os anos. São essencialmente de dois tipos: as cheias lentas (ou progressivas) e as cheias rápidas (ou repentinas)5. As primeiras afectam os grandes cursos de água da região, em especial o Rio Tejo, e secundariamente os rios Sado, Zêzere, Nabão e Sorraia; as segundas ocorrem nas pequenas e médias bacias de drenagem, afluentes daqueles rios ou que drenam directamente para o oceano (Ribeiras do Oeste). Na região de LVT, as cheias lentas são devidas a períodos chuvosos que se prolongam por várias semanas, diminuindo o efeito regularizador das barragens, e as cheias rápidas são devidas a períodos curtos de precipitação intensa que ocorrem em algumas horas. 5 A região de LVT também pode ser afectada por um terceiro tipo de cheias: as cheias de derrocada devido ao rebentamento de barragens, que, felizmente, nunca ocorreu. Neste contexto, a barragem potencialmente mais perigosa para a região, pela sua posição e volume de água armazenado, é a de Castelo de Bode. Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 68 Catarina Ramos; José Luís Zêzere; Eusébio Reis As cheias rápidas têm um historial mortífero em LVT, pela rapidez com que se formam e por afectarem áreas, por vezes, densamente urbanizadas com ocupação indevida dos leitos de cheia. As cheias lentas, embora sejam responsáveis por vários cortes em vias de comunicação e inundem vastas áreas, raramente são mortíferas, porque permitem accionar, em devido tempo, os sistemas de alerta, diminuindo o seu grau de risco. Para a delimitação das zonas afectadas por cheias (ZAC) do Vale do Tejo e dos troços terminais dos seus afluentes, que ele invade durante as cheias de maior magnitude (“cheias de jusante”), teve-se em consideração o disposto na Lei da Água (Lei nº 58/2005, artigo 4º, alínea ggg), ou seja, foram utilizadas as cotas atingidas pela ponta de cheia de Fevereiro de 1979 (a maior cheia registada no século XX). Para a cartografia das cheias nos restantes fundos de vale, foi tida em conta a informação constante nos Planos de Bacia Hidrográfica das Ribeiras do Oeste e do Sado, complementada com a análise geomorfológica dos fundos de vale, nomeadamente a individualização de planícies aluviais, a partir da altimetria e topografia na escala 1: 25000. Nos casos de vales de fundo estreito, foram representados os troços afectados pelas cheias e não as ZAC, propriamente ditas, uma vez que a sua delimitação só é possível a uma escala maior, que a escala dos PROT não comporta. Por tal motivo, na matriz do quadro 4, apenas foram consideradas as ZAC. Do conjunto dos concelhos da região de LVT destacam-se os da Golegã, com mais de 75% da sua área em leito de cheia (cheias do Tejo) e o de Vila Franca de Xira, com mais de 70% (nas classes de susceptibilidade extremamente elevada e muito elevada, respectivamente). Os concelhos na classe de susceptibilidade elevada (25 a 50% da sua área inundada), são: Alcochete, Alpiarça, Azambuja, Benavente, Cartaxo e Moita. Todos estes concelhos são afectados essencialmente por cheias lentas. O concelho onde as cheias rápidas abrangem uma maior extensão é Loures (figura 2). 3.5. Susceptibilidade à erosão costeira O litoral da região de LVT é dominado por sistemas costeiros de tipo arriba e praiaarriba. As arribas são talhadas em calcários, margas e arenitos da Orla Mesocenozóica Ocidental e secundariamente em formações detríticas terciárias da Bacia Sedimentar do Tejo. Embora os troços litorais submetidos a erosão marinha mais intensa sejam os de praia e praia-duna, as arribas são afectadas frequentemente por movimentos de massa, de tipo deslizamento e desabamento, e por fenómenos de erosão hídrica de tipo ravinamento. A avaliação da susceptibilidade à erosão costeira, porque efectuada à escala regional, não permitiu definir áreas afectadas, pelo que se optou pela definição de troços costeiros, correspondendo os 100% à totalidade da linha de costa do concelho (quadro Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais Avaliação da Susceptibilidade aos Perigos Naturais da Região de Lisboa e Vale do Tejo 69 4). Foram definidos os tipos de litoral presentes na região, a saber: i) litoral arenoso (sistemas praia, praia-duna e praia-planície aluvial); ii) arriba (mergulhante ou com plataforma rochosa de sopé); iii) arriba com praia estreita no sopé; iv) litoral artificializado. O perigo de erosão costeira foi classificado como elevado ou moderado atendendo aos seguintes critérios: i) dinâmica geomorfológica descrita na bibliografia científica (Marques, 1997; Neves, 2004); ii) caracterização dos troços constantes nos POOC de Alcobaça-Mafra, Sintra-Sado e Cidadela-S. Julião da Barra); iii) para as arribas: tipos de litologia e respectiva resistência mecânica e pendor das camadas e respectiva geometria em relação à disposição da linha de costa; iv) pontos críticos identificados pelo INAG e por fotointerpretação. No quadro 4 foi apenas considerado o perigo de erosão costeira elevado. Assim, a maior parte dos concelhos com linha de costa (9 em 13) possui uma susceptibilidade elevada a extremamente elevada. A esta última classe pertencem os concelhos de Caldas da Rainha, Lourinhã, Mafra, Óbidos e Torres Vedras. O ponto crítico principal, pelo desaparecimento do sistema costeiro inicial praia-duna e pela excessiva construção, situa-se em Almada (Costa da Caparica). 3.6. Susceptibilidade à contaminação dos aquíferos A contaminação de aquíferos integra os perigos ambientais, porque conjuga o funcionamento destes hidrossistemas com as actividades humanas que os poderão contaminar. Embora este tipo de perigo não tenha sido tratado pela equipa de Riscos e Protecção Civil, mas sim pela de Recursos Hídricos e Saneamento, pelo que não consta nos mapas de perigos do OVT e da AML, foi integrada nesta análise, como perigo natural, porque o que aqui se considera é a susceptibilidade à contaminação, que depende das características físicas e hidrodinâmicas do aquífero e das características geomorfológicas do território em que se insere, independentemente das actividades que o possam contaminar. A região de LVT é muito rica em recursos hídricos subterrâneos, o que constitui simultaneamente um recurso de inestimável valor e um desafio na sua preservação, atendendo à variedade e densidade de actividades humanas que os podem contaminar. A região de LVT possui 15 sistemas aquíferos, dos quais 9 são detríticos e 6 são cársicos (Almeida et al, 2000). Os aquíferos cársicos distribuem-se na sua totalidade pela Orla Mesocenozóica Ocidental (Penela-Tomar, Sicó-Alvaiázere, Maciço Calcário Estremenho, Cesareda, Ota-Alenquer e Pisões-Atrozela), enquanto os detríticos se localizam na Orla Ocidental (Vieira de Leiria-Marinha Grande, Ourém, Alpedriz, Paço, Torres Vedras e Caldas da Rainha-Nazaré) e na Bacia Sedimentar do Tejo-Sado (Aluviões do Tejo, Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 70 Catarina Ramos; José Luís Zêzere; Eusébio Reis Margem Direita e Margem Esquerda). Este último possui cerca de metade das reservas de água subterrâneas de Portugal continental. Para a definição da susceptibilidade à contaminação destes aquíferos, foram utilizados os critérios referidos em Ramos et al (2009 e 2010), para a delimitação da Áreas Estratégicas de Protecção e Recarga dos Aquíferos – AEPRA (Lei da REN – Decreto-Lei nº 166/2008), ou seja: i) litologia e estrutura da zona vadosa, parâmetro que toma valores de 1 a 10 refletindo a permeabilidade vertical nas formações hidrogeológicas da região de LVT; ii) recarga potencial, calculada ao nível do solo em mm/ano; iii) declive da superfície topográfica. O índice final (recarga efectiva, IRef) que resulta da média ponderada dos três parâmetros anteriores, com incremento de 3 para o primeiro e de um para os outros dois, varia de 1 a 9,8. Estes valores foram agrupados em 10 classes. Como áreas a proteger pela susceptibilidade à contaminação foram seleccionadas as classes 8 e 9 do IRef, independentemente do declive, e as classes 6 e 7 do IRef apenas em terrenos com fraco declive (<6%). Dada a diversidade e dimensão dos sistemas aquíferos em presença, não é de estranhar que 25 dos 51 concelhos tenham uma susceptibilidade elevada a extremamente elevada (quadro 4). De todos eles destacam-se, por terem mais de 80% do seu território nas AEPRA (classe de susceptibilidade extremamente elevada): Alpiarça, Entroncamento, Golegã, Montijo, Palmela e Salvaterra de Magos. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Da avaliação realizada, resulta que a região de LVT é essencialmente susceptível ao perigo sísmico elevado (43% da sua área), embora com uma grande variação intermunicipal (figura 3), seguindo-se as áreas susceptíveis à contaminação dos aquíferos (35% do total da região), também com uma grande variação intermunicipal (figura 3), as afectadas por cheias (10%), por movimentos de vertente (8%) e pelos tsunami (2%). O perigo elevado de erosão costeira atinge 46% da linha de costa da região. A Região de Lisboa e Vale do Tejo integra a maior área metropolitana do país e cerca de 1/3 da população portuguesa. No quadro do seu desenvolvimento, que se deseja sustentável, é fundamental a segurança dos cidadãos que nela vivem e trabalham, não só do ponto de vista social, mas também ambiental. Deste modo, a integração dos riscos (naturais, ambientais e tecnológicos) como parte integrante do ordenamento do território afigura-se essencial. A definição dos riscos tem, como ponto de partida, a avaliação da Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 71 Avaliação da Susceptibilidade aos Perigos Naturais da Região de Lisboa e Vale do Tejo susceptibilidade, ou seja, a incidência espacial de um determinado fenómeno perigoso. Este trabalho pretendeu ser um contributo metodológico para uma uniformização da avaliação da susceptibilidade, possibilitando a comparação dos seus resultados nas diferentes regiões do território. Foram, para já, aqui integradas duas: as dos PROTs do OVT e da AML. Georreferenciadas as áreas susceptíveis aos fenómenos perigosos, é possível com a sobreposição, também georreferenciada dos diferentes usos do território, avaliar os elementos expostos a esses perigos (infra-estruturas, áreas habitacionais, industriais, agrícolas, ou outras) e monitorizar, ao longo do tempo, os usos compatíveis ou incompatíveis que os diversos municípios vão efectuando nos respectivos territórios. Este facto, poderá ajudar a criar uma política de responsabilidade (e responsabilização) ao nível municipal pela forma como se utiliza e gere o território. Figura 3 – Susceptibilidade da região de LVT aos perigos naturais analisados e variação máxima e mínima no conjunto dos 51 concelhos erosão costeira cont.aquíferos cheias tsunami inst.vertentes sismos 100 90 80 70 60 % 50 40 30 20 10 0 Departamento de Prospectiva e Planeamento e Relações Internacionais 72 Catarina Ramos; José Luís Zêzere; Eusébio Reis BIBLIOGRAFIA: ALMEIDA, C., MENDONÇA, J.J.L., JESUS, M.R., GOMES, A.J. (2000) – Sistemas aquíferos de Portugal Continental. Lisboa, Centro de Geologia da Fac. Ciências Univ. Lisboa, Instituto da Água, vol. II e III. BAPTISTA, M.A., MIRANDA, J.M., CHIERICI, F., ZITELLINI, N. (2003) – New Study of the 1755 Earthquake Source Based on Multi-Channel Seismic Survey Data and Tsunami Modelling. Natural Hazards and Earth System Sciences, 3, pp. 333-340. CARVALHO, J., CABRAL, J., GONÇALVES, R., TORRES, L., MENDES-VICTOR, L. 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