UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO ANTONIA CLAUDENE DE LIMA SANTOS MEMÓRIA E NAÇÃO EM EL JINETE INSOMNE 2012 1 MEMÓRIA E NAÇÃO EM EL JINETE INSOMNE Por ANTONIA CLAUDENE DE LIMA SANTOS Mestrado em Letras Neolatinas - Literaturas Hispânicas Dissertação de Mestrado em Literaturas Hispânicas, apresentada à Coordenação dos cursos de PósGraduação em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Orientadora: Professora Doutora Cláudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva. Faculdade de Letras da UFRJ 1º. Semestre de 2012 2 Memória e nação em El jinete insomne Antonia Claudene de Lima Santos Orientadora: Professora Doutora Cláudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira da Silva. Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Área de concentração: Estudos Literários Neolatinos – Opção: Literaturas Hispânicas). Examinada por: _________________________________________________________ Presidente, Profa. Doutora Cláudia H. Impellizieri Luna Ferreira da Silva _________________________________________________________ Profa. Doutora Silvia Inés Cárcamo de Arcuri – UFRJ _________________________________________________________ Profa. Doutora Rossi Alves Gonçalves – UFF _________________________________________________________ Profa. Doutora Mariluci da Cunha Guberman – UFRJ, Suplente _________________________________________________________ Profa. Doutora Amanda Leticia Oliveira Nascimento do Amaral - UFRJ, Suplente Rio de Janeiro Janeiro de 2012 3 4 AGRADECIMENTOS A minha família, pelo incentivo e compreensão de sempre; A minha amiga Amanda Oliveira, pelo apoio, incentivo, carinho e compreensão constantes; À Profª.Drª. Cláudia Luna, pela orientação, dedicação, carinho e acolhimento durante o Mestrado; Às Professoras Silvia Cárcamo e Rossi Alves, pelas críticas construtivas oferecidas durante a elaboração da dissertação; À Professora Bella Jozef pelo apoio, carinho e críticas preciosas durante suas aulas; À Professora Mariluci Guberman, pelas críticas construtivas durante o exame de seleção para o mestrado; Às Professoras Silvia Cárcamo, Rossi Alves, Mariluci Guberman e Amanda Oliveira por terem aceito participar desta banca; Aos meus queridos amigos de todas as horas, que suportaram minha tensão pré-defesa e que ao longo deste trabalho foram grandes incentivadores: Diogo Moreno, Beth Quireza, Alessandra Santos, Maria de Fátima Vieira, Adriana Ortega, Márcio Pinheiro; À CAPES, pela bolsa de Mestrado; 5 RESUMO MEMÓRIA E NAÇÃO EM EL JINETE INSOMNE Antonia Claudene de Lima Santos Orientadora: Professora Doutora Cláudia H. Impellizieri Luna Ferreira da Silva Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Área de concentração: Estudos Literários Neolatinos – Opção: Literaturas hispânicas). A América Latina caracteriza-se por uma grande diversidade cultural, que se expressa, na maioria das vezes, por uma relação desigual de poder entre seus diferentes grupos culturais. As tensões provocadas pelo conflito de interesses de cada um desses grupos e pelas contradições entre a vida dessa população e o seu desejo de uma sociedade mais igualitária possibilitam a criação de condições favoráveis para o surgimento de espaços nacionais nos quais determinados grupos sociais não se incluem no projeto de comunidade imaginada.Este choque cultural revela também que se estes grupos se mantêm à margem da nação, isto ocorre porque a historiografia e processo de construção dos projetos nacionais privilegiavam uma certa camada da população e sua perspectiva histórica. Nesta dissertação, procuraremos mostrar como a questão da representação da nação e o papel desempenhado pela memória coletiva na escrita de uma história dos vencidos são tratados no romance El jinete insomne do peruano Manuel Scorza. Para esse fim, analisaremos a representação da nação no romance e a função da memória coletiva como um elemento possibilitador para a construção da história dos vencidos. Em El jinete insomne a nação é representada como uma comunidade na qual o indígena figura às margens da sociedade, demonstrando, assim, as fissuras no discurso hegemônico que prevê uma imagem harmoniosa e homogênea da nação. A questão da memória coletiva, portanto, aparece como uma forma de resistência e oposição a esta ordem estabelecida e tem como fim principal construir uma história na qual a visão dos vencidos possa ser conhecida. Palavras-chave: nação, memória coletiva, heterogeneidade discursiva, neoindigenismo, literatura peruana Rio de Janeiro Janeiro de 2012 6 RESUMEN MEMORIA Y NACIÓN EN EL JINETE INSOMNE Antonia Claudene de Lima Santos Tutora: Profesora Doctora Cláudia H. Impellizieri Luna Ferreira da Silva Resumen de la Memoria presentada al Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como requisito parcial a la obtención del título de Máster en Letras Neolatinas (Área de concentração: Estudos Literários Neolatinos – Opção: Literaturas Hispânicas). América Latina se caracteriza por una gran diversidad cultural, que se expresa, frecuentemente, por una relación desigual de poder entre sus diferentes grupos culturales. Las tensiones provocadas por el conflicto de intereses de cada uno de eses grupos y por las contradicciones entre la vida de esa población y por su deseo de una sociedad más igualitaria posibilitan la creación de condiciones favorables para el surgimiento de espacios nacionales en los cuales determinados grupos sociales no se incluyen en el proyecto de comunidad imaginada. Este choque cultural revela también que si estos grupos se mantienen en la margen de la nación, esto ocurre porque la historiografía y el proceso de construcción de los proyectos nacionales privilegiaban una parte de la población y su perspectiva histórica. En esta memoria, procuraremos mostrar como la cuestión de la representación de la nación y el papel desempeñado por la memoria colectiva en la escrita de una historia de los vencidos son tratados en la novela El jinete insomne del peruano Manuel Scorza. Para ese fin, analizaremos la representación de la nación en la novela y la función de la memoria colectiva como un elemento posibilitador para la construcción de otra historia, la historia de los vencidos. En El jinete insomne la nación es representada como una comunidad en que el indígena figura en los márgenes de la sociedad, demostrando, por lo tanto, las fisuras en el discurso hegemónico que prevee una imagen harmoniosa y homogénea de la nación. La cuestión de la memoria colectiva, por lo tanto, surge como una forma de resistencia y oposición a este orden establecido y tiene como fin principal construir una historia en que la visión de los vencidos pueda ser conocida. Palabras-clave: nación, memoria colectiva, heterogeneidad discursiva, neo- indigenismo, literatura peruana Rio de Janeiro Enero, 2012 7 SUMÁRIO 1 – INTRODUÇÃO………………………………………………………………………….9 2- PERU: UMA NAÇÃO FRAGMENTADA 2.1. Conceito de nação e consciência nacional.........................................................14 2.2 . Peru: uma totalidade contraditória.....................................................................25 2.3 . Buscando a nação peruana: do indigenismo ao neo-indigenismo no Peru .....33 3 – AS “OUTRAS MEMÓRIAS” 3.1. Memória coletiva e história: permanência e mudança........................................41 3.2. Homens-memória:memória coletiva e história nas sociedades de cultura oral..44 3.3. O tempo mítico, o tempo histórico e suas implicações na escrita da História....62 4 – MEMÓRIA E NAÇÃO: CONFIGURADORES DE “OUTRA” REALIDADE 4.1. As configurações da nação em El jinete insomne...............................................82 4.2. As configurações da memória em El jinete insomne...........................................93 4.3. As relações entre tempo, memória e nação em El jinete insomne...................104 5 – CONCLUSÃO.....................................................................................................118 6 – BIBLIOGRAFIA...................................................................................................120 8 1- Introdução A América Latina caracteriza-se, principalmente, pela variedade de povos e culturas que formam as nações que conhecemos atualmente. Durante o período da conquista houve um embate entre a cultura européia e a cultura dos povos autóctones que aqui se encontravam. Esse processo histórico violento foi marcado pela imposição de uma cultura, tida como superior, sobre outra, vista com inferior. A chegada dos europeus ao continente significou não somente a perda do domínio sobre o espaço onde viviam os povos autóctones, mas a perda também de várias dimensões que compunham a realidade desses povos. Essa nova percepção da realidade que chegou com as caravelas européias era a história modernizadora que desembarcou para entrar em conflito com um mundo onde o passado apresentava importância fundamental para a compreensão dos fatos. A chegada dos conquistadores produziu uma transformação brusca na forma como os povos indígenas percebiam o tempo, que agora havia deixado de ser matéria dos mitos e deveria ser construído a cada dia, sem o auxílio dos adivinhos. Esta interferência no modo como esses povos viviam e se organizavam política e socialmente não ocorreu de maneira uniforme na América Latina, pois, enquanto em países como a Argentina os povos indígenas foram exterminados quase completamente, em países como Peru, Bolívia e Equador, representam, ainda no século XIX, a maior parte da população que os compõe. Dessa forma, existem na América diversos países que apresentam uma forte presença da cultura indígena. Em países como o Peru há vários estudos, como os do antropólogo José María Arguedas e do historiador Alberto Flores Gallindo, que comprovam a sobrevivência de comunidades e regiões nas quais a cultura indígena sobrevive e tem grande influência na forma de interpretar a realidade. A dualidade e o conflito cultural entre estas duas culturas, a ocidental e a autóctone, tem suas raízes no período da conquista, no entanto, sobrevive em países como o Peru onde a presença indígena é muito representativa. Ao longo do processo de independência dos países latino-americanos, houve a construção dos imaginários nacionais e a adoção de uma determinada perspectiva para contar a historia oficial da nação. Assim, a perspectiva adotada foi aquela da 9 elite letrada que fazia parte da incipiente burguesia que se formava. As populações indígenas ficaram à margem desse processo, sendo consideradas, em muitos casos, como um ‘entrave’ para a modernização e consolidação das nações. Dessa forma, em países como o Peru, buscou-se ‘peruanizar’ os indígenas, realizando um apagamento de sua cultura e de seu papel na construção da nação. A obra do autor que constitui nosso corpus pode ser vista como uma narrativa que buscou não somente representar essas contradições da sociedade americana, mas denunciar os confrontos surgidos dessa dualidade. O autor realiza a retomada do modelo de descrição da realidade adotado pelos cronistas da conquista; entretanto, como afirma Manuel Scorza, sua escrita ocorre a partir do olhar do outro, do indígena peruano, mostrando que a realidade apresenta diversas interpretações e depende da perspectiva de quem narra a história. A “inserção” da visão desses povos na história oficial apresenta-se como uma questão que até os dias atuais não se resolveu, demonstrando, como afirma Walter Benjamim, que o investigador histórico privilegia uma visão da história e identifica-se em geral com a visão dos vitoriosos, segundo o pensador alemão: A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção (...). (BENJAMIM, 1987, p. 226) Assim, devemos buscar uma concepção de história que não seja mutilada, mas que integre a visão desses povos que foram excluídos do processo histórico por ocupar a posição desprivilegiada de “vencidos”. Entretanto, esse processo pode apresentar vários percalços, uma vez que a maioria dos povos indígenas americanos não utilizava a escrita e fazia a narração do seu passado através da tradição oral. Partindo da oposição entre memória coletiva e história, Maurice Halbswachs afirma que a primeira é transmitida através da tradição oral e dificilmente será lembrada pelas gerações posteriores, enquanto a segunda não será esquecida, já que é registrada através da escrita; portanto, para que a memória coletiva não caia no esquecimento deve-se realizar o seu registro através da escrita. No entanto, como já vimos anteriormente, a escrita da história é mediada, privilegiando, geralmente, a perspectiva de visão dos vencedores. 10 A obra do escritor peruano Manuel Scorza se insere nesse projeto que busca fazer emergir a voz do outro, privilegiando uma outra perspectiva da história, trazendo para o momento atual questões que desde a conquista da América não se resolveram. Entretanto, é, sobretudo em El jinete insomne, terceiro romance que compõe a sua pentalogia Guerra silenciosa, que o escritor peruano aborda a questão da nação e da memória como elementos fundamentais para a cosmovisão e escritura da história do povo indígena, demonstrando, como o próprio autor afirma, que a América Latina é um arquipélago de tempos desconexos, onde uma cultura que remonta aos tempos da conquista sobrevive e convive, conflituosamente, com a cultura ocidental moderna. Em síntese, o tema central de nossa dissertação de mestrado é a questão da representação da nação e o papel desempenhado pela memória na escritura da história dos vencidos no romance El jinete insomne, partindo de uma compreensão do romance neo-indigenista como uma obra que pertence ao universo das literaturas heterogêneas, no sentido definido por Antonio Cornejo Polar (2000). Como já exposto anteriormente, o processo de conquista da América gerou o choque entre várias culturas distintas, interferindo radicalmente na vida dos povos autóctones. Essa interferência provocou a perda do domínio do espaço e do tempo no qual viviam estas populações, estabelecendo uma relação conflituosa que não cessou ainda no século XX, em países como o Peru. Trazendo a questão do indígena para os tempos atuais, mais precisamente a década de 60, do século XX, Scorza demonstra que esses confrontos sobrevivem, coexistindo, assim, em um mesmo espaço nacional uma cultura que apresenta uma visão mítica da realidade e outra localizada no tempo histórico moderno. Este modo do indígena de compreender a realidade através de um tempo mítico que propunha uma história baseada na memória coletiva e transmitida através da tradição oral, provocou, assim como o privilégio dado pelo investigador histórico à visão dos vencedores, uma exclusão da perspectiva do indígena da história oficial e do processo de construção do imaginário nacional, demonstrando que o confronto de culturas teve como consequência não só a imposição de uma cultura sobre outra, mas também o “apagamento” da visão deste povo da história oficial. 11 Considerando esses elementos, pretendemos problematizar as seguintes questões: a) Como está representada a nação na obra El jinete insomne? b) Qual o papel desempenhado pela memória coletiva na escrita da história dos vencidos em El jinete insomne? No romance de Scorza os movimentos indígenas que buscam resistir e lutar por uma melhor situação de vida e por um espaço em seu país, demonstram que o discurso hegemônico de uma nação harmoniosa é totalmente problemático se analisamos países com a realidade sócio-histórica peruana. Deste modo, as representações da questão nacional no romance estudado demonstram que a nação peruana é uma totalidade contraditória na qual o choque entre duas mentalidades e duas concepções de mundo permanece desde a conquista até os tempos atuais. A memória coletiva ,representada pela figura do jinete insomne, desempenha a função de escrever a História a partir de uma nova perspectiva, a dos vencidos. A manutenção da memória coletiva dos indígenas é uma forma de resistir ao discurso oficial e reivindicar outras versões da História oficial, em que os indígenas possam ser reconhecidos como parte integrante da nação. Como o questionamento acerca da construção do imaginário nacional e da memória como elementos fundadores de uma nova história, a história dos vencidos, se relaciona também com a questão da nação e da consciência nacional, realizamos no segundo capítulo de nossa dissertação uma breve exposição sobre esta temática. Iniciamos nossa exposição com os estudos de Benedict Anderson, que apresenta as origens da consciência nacional e o conceito de nação de uma forma mais geral, e seguimos, então, para as discussões postuladas por José Carlos Mariátegui e Antonio Cornejo Polar, já que os dois últimos críticos expõem seu olhar sobre a realidade sócio histórica peruana e auxiliam a compreensão da discussão proposta por Scorza no romance que constitui nosso corpus. No terceiro capítulo realizamos uma explanação sobre a noção de memória coletiva e memória histórica, frisando a importância destes conceitos para a construção de uma história dos vencidos e demonstrando que, a partir das sociedades que tomamos como referência, memória coletiva e história podem ser 12 termos equivalentes ou antagônicos, assim como mito e história podem também assumir o mesmo significado. As noções de tempo histórico e tempo mítico também ocuparam parte deste capítulo, pois se relacionam diretamente com a concepção de história e de historiografia. No quarto capítulo realizamos a análise de nosso corpus, baseando-nos, principalmente, nos conceitos de nação e consciência nacional expostos por Benedict Anderson e Cornejo Polar; nas propostas de Maurice Halbwachs e Jacques Le Goff para a definição de memória coletiva; nas definições de Martín Lienhard, Michel de Certeau e Walter Benjamin para a escrita da história; nos conceitos de tempo mítico e tempo histórico apresentados por Mircea Eliade e Walter Benjamin, respectivamente. A temática da nação e da memória e de suas representações no romance envolve questionamentos complexos, portanto, pretendemos na dissertação que ora apresentamos, problematizar estas questões a partir de um olhar que leva em consideração o contexto sócio histórico peruano e suas influências na representação desta temática no romance. 13 2- PERU: UMA NAÇÃO FRAGMENTADA Neste capítulo realizaremos uma breve exposição acerca das origens da nação e da consciência nacional, partindo inicialmente de uma perspectiva geral para depois pensarmos no contexto sócio histórico peruano. Esta temática dialoga também com as noções de indigenismo e neo-indigenismo, uma vez que estes movimentos literários no Peru representaram uma busca por outro projeto de nação peruana. Dessa forma, estes movimentos literários também terão espaço neste capítulo. 2.1 Nação e consciência nacional Em Comunidades imaginadas, obra na qual Benedict Anderson (2009) discorre sobre os conceitos de nação e nacionalismo, o autor afirma que o nacionalismo nasce na Europa Ocidental no final do século XVIII em um momento no qual o Iluminismo e a Revolução Francesa estavam destruindo a legitimidade dos reinos dinásticos e de ordem divina. O surgimento dos conceitos de nação e consciência nacional somente foi possível através da ocorrência de vários fatos históricos que possibilitaram que o homem reconstruísse sua concepção de língua, organização social e temporalidade. A primeira concepção a ser modificada foi a de que uma certa língua escrita oferecia acesso à verdade ontológica. As comunidades religiosas européias e asiáticas tinham a noção de que pertenciam a uma mesma comunidade central cuja língua unificava aqueles que pertenciam à religião. A língua nessas comunidades religiosas tinha um papel sagrado, assim, os seus membros se sentiam ligados a uma ordem supraterrena de poder, que existia graças à verdade ontológica oferecida pelo conhecimento das línguas sagradas. Nestes grupos religiosos a adesão de qualquer outro indivíduo à comunidade ocorria de forma mais simples do que nas comunidades que originaram as nações, já que estes povos acreditavam no “sacramentalismo único” das línguas que utilizavam e o acesso à comunidade ocorria através do conhecimento da língua 14 sagrada. Este fato permitia que indivíduos que pertencessem a regiões totalmente distintas se tornassem membros de uma mesma comunidade. A coesão inconsciente que existia nestas comunidades religiosas foi diminuindo a partir do final da Idade Média. As razões que levaram ao declínio deste tipo de pensamento foram as explorações a regiões que não pertenciam à Europa, o que permitiu a ampliação do horizonte cultural e geográfico do homem europeu. A partir do conhecimento de outras regiões, o homem europeu foi levado a pensar em seu território como uma unidade limitada e demarcada geograficamente. Outro fator que levou o homem europeu a modificar seu pensamento acerca da unidade inconsciente de sua comunidade religiosa foi um gradual declínio da noção de que a língua era sagrada. As línguas que mais tarde dariam origem ao inglês, francês, entre outras, passaram a ocupar cada vez mais espaço nas obras escritas; assim, o uso do latim passou por um processo de declínio, o que revelava um fenômeno mais amplo no qual as comunidades sagradas unidas através das antigas línguas sacras passavam a se territorializar, pluralizar-se e fragmentar-se. Outro fator que contribui para o surgimento da ideia de nação foi a modificação do conceito de organização social. O homem europeu acreditava que a sociedade se organizava naturalmente em torno de monarcas que governavam por apresentar uma graça divina. Cada reino era composto por súditos e não por cidadãos, os reis tinham uma linhagem e não se “misturavam” com o restante da população. A expansão dos reinos ocorria através dos casamentos e das guerras; assim, as alianças dinásticas reuniam povos completamente diferentes sob novos vértices. Durante o século XVII a legitimidade do monarca sagrado começou a declinar na Europa Ocidental. Diversos fatos históricos levaram a este declínio, como a decapitação do rei Carlos Stuart em 1649, na primeira revolução ocorrida no mundo moderno europeu. Outros fatos como a ocupação do trono de um dos mais importantes Estados europeus por um protetor plebeu, entre outros acontecimentos históricos, levaram a uma nova forma de pensar a organização social na qual o rei não teria mais um poder divino, tampouco seria o centro do poder. 15 A terceira crença a sofrer modificação foi a da temporalidade ,vista de uma forma na qual a cosmologia e a história se confundem e as origens do homem e do mundo são iguais. O homem medieval pensava o tempo como uma simultaneidade ao longo do tempo, não havia uma separação entre passado e presente, tampouco via a história como uma cadeia de causas e efeitos. Este homem passou de uma concepção de tempo “messiânico” para uma ideia de tempo na qual a simultaneidade cruza o tempo e é marcada pela coincidência temporal. A modificação nesta concepção está aliada ao surgimento de dois produtos culturais na Europa durante o século XVIII: o romance e o jornal. O aparecimento do capitalismo editorial e da imprensa permitiu que as pessoas se relacionassem de uma forma totalmente nova. Com o advento da imprensa, as pessoas passaram a perceber que as notícias que liam em um jornal poderiam ser lidas naquele exato momento por outro membro de sua comunidade, ainda que ambos não se conhecessem. Desse modo, o desenvolvimento da imprensa ocupou um papel fundamental na reestruturação da crença de temporalidade do homem, uma vez que possibilitou a criação de ideias totalmente inovadoras sobre a concepção de simultaneidade e a rápida veiculação do fluxo de informações. Além de citar a imprensa como um dos produtos culturais que possibilitaram pensar em uma nova ideia de temporalidade, Anderson expõe a grande importância que o surgimento do romance1 moderno provocou para modificar a noção de simultaneidade do homem. Segundo o crítico, a imprensa e o romance moderno foram elementos culturais protagônicos para que o homem adquirisse a concepção de simultaneidade que tem nos dias atuais, passando de uma concepção de “tempo messiânico”, no qual há uma simultaneidade de passado e futuro em um presente instantâneo, a uma concepção de “tempo vazio e homogêneo”, no qual a 1 A propósito do papel do romance moderno na perspectiva de uma nova forma de pensar o tempo, Ian Watt em sua obra A ascensão do romance (1990), aponta que o romance moderno/realista europeu representou uma ruptura com a tradição literária anterior de utilizar histórias atemporais para a reflexão de verdades imutáveis e morais. No romance moderno, o enredo utiliza a experiência passada como a causa da ação presente, assim, há o estabelecimento de uma relação causal que atua através do tempo e substitui a forma de pensar a noção de tempo das narrativas mais antigas. 16 simultaneidade cruza o tempo e é marcada pela coincidência temporal e medida pelo relógio e pelo calendário. Dessa forma, a grande inovação trazida pelo romance moderno, segundo Anderson, é o fato de que todas as ações que os personagens da narrativa realizam ocorrem ao mesmo tempo no relógio e no calendário sem que as pessoas se conheçam, possibilitando que se pensasse em uma sociedade que vivesse em um tempo vazio e homogêneo. Segundo o crítico esta inovação foi fundamental para que se pensasse no conceito de nação, uma vez que: A ideia de um organismo sociológico atravessando cronologicamente um tempo vazio e homogêneo é uma analogia exata da ideia de nação, que também é concebida como uma comunidade sólida percorrendo constantemente a historia em sentido ascendente ou descendente. Um americano nunca vai conhecer, e nem sequer saber o nome, da imensa maioria de seus 240 milhões de compatriotas. Ele não tem ideia do que estão fazendo a cada momento. Mas tem plena confiança na atividade constante, anônima e simultânea deles. (ANDERSON, 2009, p. 56-57) Assim, o romance moderno e a imprensa possibilitaram ao homem pensar em comunidades de modo “horizontal-secular, transtemporais”, proporcionando os meios técnicos para a representação do tipo de comunidade imaginada que seria correspondente à nação. Em sua análise sobre as origens da nação e da nacionalidade, Anderson aponta ainda mais alguns fatores que possibilitaram o surgimento deste tipo de consciência. Segundo o teórico, o fato de ter ocorrido uma interação entre o capitalismo, a imprensa e a diversidade linguística humana foi decisivo para que a noção de comunidade imaginada surgisse e originasse a ideia de nação. Assim, o teórico afirma que: Podemos resumir as conclusões dos argumentos apresentados até agora dizendo que a convergência do capitalismo e da tecnologia de imprensa sobre a fatal diversidade da linguagem humana criou a possibilidade de uma nova forma de comunidade imaginada, a qual, em sua morfologia básica, montou o cenário para a nação moderna. (ANDERSON, 2009,p.82) Estes fatos permitiram, portanto, que a ideia de nação moderna fosse construída. Assim, baseando-se nestes argumentos, Anderson defende a proposta de que a nação é uma comunidade política imaginada. O crítico afirma que a nação 17 é uma comunidade imaginada porque, embora os membros de uma nação não conheçam todos os habitantes de seu país, eles terão em mente que apresentam uma comunhão entre si. Esta noção de comunhão se deve a três motivos centrais: a limitação territorial da nação, já que apresenta fronteiras finitas; a soberania nacional, pois o conceito de nação surgiu na época em que o Iluminismo e a Revolução Francesa destruíam a legitimidade do reino dinástico e hierárquico; a ideia de a nação ser imaginada como uma comunidade porque, embora possam existir desigualdade e exploração dentro dela, a nação é vista como uma grande fraternidade e fonte de camaradagem horizontal. Analisando o caso da América Hispânica, Anderson expõe, como principais elementos causadores dos movimentos de independência no continente, o aumento do controle espanhol e a divulgação de ideias liberalizantes do Iluminismo na segunda metade do século XVIII. Como as colônias falavam a mesma língua da metrópole e as comunicações transatlânticas haviam melhorado, o fluxo de doutrinas políticas e econômicas que surgia na Europa Ocidental era cada vez maior, possibilitando que esta consciência nacional se desenvolvesse na América Espanhola. Anderson aponta algumas características peculiares do surgimento da consciência nacional e das nações latino-americanas em relação ao caso europeu. Uma das primeiras particularidades apontadas pelo crítico é o fato de a língua não ter sido um fator decisivo no continente americano uma vez que as colônias falavam o mesmo idioma que as metrópoles. Outra característica apontada pelo autor é o fato de os movimentos de independência terem “pouca espessura social”, uma vez que não foram organizados pelas classes populares, mas pelos criollos. No caso de alguns países como a Venezuela, o México e o Peru, Anderson aponta que o movimento de independência foi motivado pelo medo da mobilização das “classes inferiores”. Embora Anderson afirme que houve pouca participação das classes desfavorecidas da população nos movimentos de independência, críticos como 18 Alberto Flores Gallindo2 (1986), entre outros, assinalam a importância de movimentos de caráter emancipatório organizados pela população indígena na época colonial. Em países como o Peru, no decorrer do século XVIII, ocorreram uma série de rebeliões na área andina, entretanto, a revolução organizada por Tupac Amaru, em 1780 na região de Cusco, foi a que apresentou com maior evidência as características de um movimento nacionalista. Tupac Amaru reivindicava a expulsão dos espanhóis, a restauração do império Inca e a introdução de mudanças na estrutura econômica imposta pela Espanha. Além dessas reivindicações, o movimento tupamarista, como assinala Flores Gallindo (1986), pensava em construir um corpo político no qual convivessem criollos, mestiços, negros e índios, dissolvendo a distinção entre as castas e construindo um grupo de solidariedade entre todos que não fossem espanhóis. Essa última característica, de acordo com o crítico, acentua o traço nacionalista da revolução organizada por Tupac Amaru. Dessa forma, observamos que os movimentos nacionais não foram organizados somente pelos criollos: a população indígena e negra também lutou por libertar-se do jugo espanhol e por ter uma nação própria, na qual pudesse se reconhecer e exercer seus direitos e deveres. Outro fator característico dos movimentos de independências da América Hispânica apontado por Anderson é a noção de que as nações hispânicas foram “imaginadas” pelos criollos. Sobre esta afirmação, Thomas Ward (2009) destaca que os criollos tiveram um papel importante na formação dos novos Estados, no entanto, estes grupos sociais não incluíram em seus projetos nacionais todos os elementos que constituíam a nação. O crítico assinala que os criollos não conseguiram ‘imaginar’ suas comunidades nacionais de forma justa, já que não englobaram as populações negras e indígenas, em sua maioria analfabetas, como parte integrante 2 É importante frisarmos que Benedict Anderson analisa a questão nacional da América Hispânica a partir do olhar europeu, enquanto, autores como Alberto Flores Gallindo, Antonio Cornejo Polar e José Carlos Mariátegui observam esta questão a partir da perspectiva peruana, pensando a construção da nação peruana especificamente e abordando elementos peculiares ao processo de formação nacional peruano. 19 das futuras nações hispano-americanas. Em países como o Peru, o crítico expõe que as comunidades andinas não foram levadas em conta nas formulações daqueles que “imaginaram” a nação peruana. A partir da independência todos aqueles que viviam nos territórios que passaram a constituir as novas ‘nações’ não seriam mais indígenas, negros ou mestiços, todos eram considerados como pertencentes a uma mesma nação; assim, não havia mais ‘índios’ no Peru, mas peruanos. Tomando como referência os países pertencentes à América Latina, podemos verificar que desde a conquista da América os cronistas que escreviam sobre as terras descobertas e os intelectuais que surgiram após as independências tiveram um papel protagônico para a construção do conceito de nação e dos diversos elementos que seriam a base, a essência da nação. Doris Sommer (2004), em seu estudo sobre os romances nacionais da América Latina, destaca a importância desses escritores para a construção dos projetos nacionais. A estudiosa expõe que estes intelectuais não estabeleciam uma diferença “entre ciência e arte, fato e narrativa, e consequentemente entre projetos ideais e reais” (SOMMER, 2004, p.22). Assim, os narradores desse período acreditavam que poderiam preencher as lacunas presentes nos discursos históricos através de seus romances e projetar, dessa forma, um futuro ideal. Sommer destaca que “os escritores foram encorajados tanto pela necessidade de preencher uma história que ajudaria a dar legitimidade à nação emergente quanto pela oportunidade de direcionar aquela história para um futuro ideal.” (ibidem) A necessidade de construir a história das nações e do continente e o fato de a história ainda ser uma ciência em formação levou vários intelectuais a buscarem nas crônicas de conquista e memórias individuais a origem de nosso passado histórico. O papel dos escritores na formação dos projetos nacionais é fundamental, já que, assim como os cronistas, eles serão responsáveis por preencher os vazios deixados pela história. Esse fato revela que a história passa a ser contada a partir de um determinado ponto de vista e aquele que preenche as lacunas desse passado histórico torna-se a origem da expressão local e independente. Sommer assinala que esta função exercida pelos escritores leva a crer que a literatura pode interferir na história e ajudar a construí-la. 20 A estudiosa destaca que esses romances que buscaram construir os projetos nacionais latino-americanos apresentavam uma tendência conciliadora dos conflitos existentes entre os diferentes grupos sociais que faziam parte das nações. Dessa forma, segundo Sommer: Os romances locais não apenas distraíam os leitores oferecendo-lhes compensações pela história nacional maculada; eles desenvolviam uma fórmula narrativa que solucionava incessantes conflitos, sendo um gênero conciliatório pós-épico que fortalecia os sobreviventes à medida que reconhecia os antigos inimigos como aliados. (SOMMER, 2004, p.27) A construção desses projetos deveria contar, então, com uma ideia homogênea e horizontal de nação, fazendo com que todos se sentissem parte dessas grandes comunidades imaginadas que integravam a América Latina. Sommer assinala que essa postura assumida pelos “construtores da nação” no século XIX se diferencia daquela adotada pelos romancistas atuais, cuja intenção é “delinear a densidade histórica sobre um mapa repleto de projetos mutilados” (SOMMER, 2004, P.44). Os intelectuais contemporâneos buscam, portanto, mostrar os diferentes olhares e as fissuras presentes nestes projetos nacionais. Sommer sinaliza a importância que tiveram os romances construídos pelos intelectuais do século XIX e destaca que: É possível que as belas mentiras do romance nacional sejam estratégias semelhantes para conter os conflitos regionais, econômicos, de raça ou de gênero que ameaçavam o desenvolvimento das novas nações latinoamericanas. Afinal, esses romances faziam parte de um projeto burguês geral para promover a hegemonia na cultura que se formava. Idealmente, seria uma cultura aconchegante, quase abafada, que unia as esferas pública e privada de tal maneira que criava um lugar para todos, contanto que cada um soubesse qual era seu lugar.(SOMMER, 2004, p.46) Estes romances, portanto, sinalizavam para uma determinada forma de pensar a nação e delimitar os papéis que cada grupo social teria dentro de seus países. Analisando não somente as obras literárias produzidas durante as independências dos países latino-americanos, mas as características das literaturas regionais e nacionais da América Latina, Antonio Cornejo Polar (1984) aponta que a reflexão sobre estes sistemas literários deve levar em conta o fato de que a América 21 Latina é uma região com formação histórica homogênea e tem uma origem prévia àquela da literatura que lhe corresponde. Outros fatores citados pelo crítico são: a urgência de se recusar a ideia da literatura como expressão da realidade e a necessidade de enquadrar nossa literatura dentro da história social da América Latina e como parte constituinte dela. Cornejo Polar expõe que a justificativa da existência do primeiro fator que citamos se deve: Provavelmente o primeiro mal entendido provém da aplicação do conceito europeu de literatura nacional e de sua extensão aos espaços regionais e latino-americanos, especialmente no que toca ao requerimento de unidade, homogeneidade ou sistematicidade como condições de uma nacionalidade 3 e de sua literatura” (…) (CORNEJO POLAR, 1984, p.24, tradução nossa) Segundo Cornejo Polar (1984), em cada um dos países e regiões da América Latina são produzidas várias literaturas. O crítico assinala que essa grande variedade de literaturas não se limita somente àquelas que se originam da periodização literária estabelecida pela crítica. Como essa periodização depende de uma série de critérios que somente levam em conta a literatura latino-americana escrita em línguas europeias e com características estéticas próprias ou derivadas do Ocidente, há uma parte de nossa literatura que fica fora desse grande painel literário. Sobre este aspecto de nosso corpus literário, Cornejo Polar (1984) expõe que: Em algumas ocasiões a serie histórica começa com um período de outra filiação, o das literaturas pré-hispânicas, porém seu tratamento costuma ter algo de arqueológico, como se essas literaturas estivessem enclausuradas desde a conquista, ainda que às vezes se volte a mencioná-las em outras coordenadas cronológicas, só que nestes poucos casos são julgadas mais como manifestações folclóricas que literárias. (CORNEJO POLAR, 1984, 4 p.125, tradução nossa) 3 No original: “Probablemente el primer malentendido proviene de la aplicación del concepto europeo de literatura nacional y de su extensión a los espacios regionales y latinoamericanos, especialmente en lo que toca al requerimiento de unidad, homogeneidad o sistematicidad como condiciones de una nacionalidad y de su literatura.” 4 No original: “En algunas ocasiones la serie histórica comienza con un periodo de otra filiación, el de las literaturas prehispánicas, pero su tratamiento suele tener algo de arqueológico, como si estas literaturas estuvieran enclausuradas desde la conquista, aunque a veces se las vuelve a mencionar en otras coordenadas cronológicas, sólo que en estos pocos casos se les juzga más como manifestaciones folklóricas que literarias.” 22 Ao restringir nosso corpus literário à literatura escrita nos moldes ocidentais, há uma homogeneização das obras produzidas na literatura latino-americana, uma vez que toda produção literária que não segue estas regras está excluída do sistema literário. Como consequência desse fato, Cornejo Polar observa que este sistema literário não comporta a dimensão da literatura latino-americana e de suas literaturas regionais e nacionais. O crítico afirma que “não é sensato insistir que a literatura da Bolívia, Peru ou Equador é única e exclusivamente a literatura culta que se escreve em espanhol nesses países.” (CORNEJO POLAR, 1984, p.126, tradução nossa) Desse modo, Cornejo Polar expõe que se deve discutir a capacidade da literatura culta de representar a totalidade social latino-americana, englobando os grupos sociais que têm suas literaturas marginalizadas por esse sistema literário. O crítico assinala que movimentos literários como o negrismo, a gauchesca e o indigenismo buscam transportar para o meio literário algumas características das classes oprimidas, no entanto, como lembrou José Carlos Mariátegui (1975), devemos diferenciar a literatura indígena produzida pelos índios da literatura indigenista5, produzida pelos mestiços e brancos ocidentais. Segundo Cornejo Polar, o caráter conflituoso de nossa literatura é mais complexo se levamos em conta o fato de que na Europa a revolução burguesa e a expansão do capitalismo produziram sociedades com mais articulação e homogeneidade do que aquelas originadas na América Latina. O crítico assinala que nos países latino-americanos a debilidade e a falta de autonomia da classe burguesa, assim como a continuidade de modos de produção pré-capitalistas determinaram uma profunda desintegração social. 5 Sobre a diferença entre literatura indigenista e literatura indígena, Marátegui afirma que “a maior injustiça em que poderia incorrer um crítico, seria qualquer apressada condenação da literatura indigenista pela sua falta de autoctonismo integral ou pela presença de, mais ou menos notável nas suas obras, de elementos artificiais na interpretação e na expressão. A literatura indigenista nos não pode dar uma versão rigorosamente realista do índio. Ela deve ideá-lo e estilizá-lo. Também não pode nos dar a sua própria alma. É ainda uma literatura de mestiços. Por isso se chama indigenista, e não indígena.” (MARÁTEGUI, 1975, p.245-246) 23 Assim, o crítico expõe que, levando esta característica de nossa classe burguesa para uma perspectiva cultural, pode-se afirmar que a racionalidade burguesa moderna não dominou a totalidade do corpo social latino-americano e não pôde tornar-se um consenso nos países latino-americanos. Além desse aspecto, há outro fator que deve ser levado em conta: o meio utilizado para a difusão e formalização do sistema capitalista, a escrita, ficou restrito a um grupo social que, durante muito tempo, foi minoritário. Cornejo Polar aponta que o analfabetismo nos países latino-americanos debilita a institucionalidade literária e estabelece limites entre os diferentes sistemas literários coexistentes na América Latina. Segundo o crítico “A polaridade extrema confronta duas línguas, dois processos de formalização incompatíveis (a escritura e a oralidade) e duas racionalidades em muitos aspectos antagônicas.”(CORNEJO POLAR, 1984, p. 126, tradução nossa) As diferentes literaturas que compõem nosso corpus suscitam, então, a busca de uma nova forma de compreensão e análise de seu processo de formação e de suas relações com a realidade social e histórica da América Latina. Levando em conta o caráter heterogêneo e contraditório de nossa literatura, Cornejo Polar propõe a definição de totalidade contraditória para a caracterização da literatura dos países latino-americanos. Segundo o crítico esta definição: Provem basicamente da historização da pluralidade, isto é, da imersão das várias literaturas que se produzem na América Latina dentro do processo histórico de nossa sociedade e do exame dos conflitos concretos que a separam e unem como fatores de uma totalidade também concreta e 6 histórica.(CORNEJO POLAR, 1984, p.128, tradução nossa) A partir dessa nova proposta apresentada por Cornejo Polar, pode-se pensar em nossa literatura como resultado de processos conflituosos entre diferentes grupos sociais e negar-se a ideia de uma homogeneidade de nosso corpus literário. Cornejo Polar (1984) assinala que a noção de totalidade contraditória para a literatura latino-americana leva em conta que nossa literatura é formada por vários 6 No original: “Proviene básicamente de la historización de la pluralidad, esto es, de la inmersión de las varias literaturas que se producen en América Latina dentro del proceso histórico de nuestra sociedad y del examen de los conflictos concretos que la separan y unen como factores de una totalidad también concreta e histórica.” 24 sistemas literários que compõem a heterogeneidade étnico-social da América Latina e que não são independentes entre si, já que são produzidos dentro de um mesmo processo histórico e se relacionam entre si através de vínculos de contradição que a história explica. Ainda que apresentem contradições entre si, estes sistemas literários integram uma totalidade contraditória e é papel da crítica literária determinar os limites dessa totalidade, que poderá ser o de uma região ou de uma nação, e determinar a rede de contradições que irão definir esse objeto e como ele se transforma ao longo da História. 2.2. Peru: uma totalidade contraditória No caso peruano, o crítico José Carlos Mariátegui (1928)7 em sua obra clássica Sete ensaios de interpretação da realidade peruana (1928) na qual discorre sobre a realidade social, política e histórica do Peru a partir de uma visão socialista, expõe que no período em que ocorreu a revolução de independência o país apresentava os componentes de uma economia capitalista em estagio embrionário. Desse modo, não havia uma burguesia consciente das finalidades e interesses de suas atitudes, tampouco uma classe camponesa que reivindicasse seus direitos à terra e apoiasse a burguesia, que naquele período ainda estava em formação no Peru. Dessa maneira, segundo Mariátegui (1975): No Peru, menos ainda que em outros países da América, a revolução de independência não respondia a estas premissas. A revolução triunfara pela obrigatória solidariedade continental dos povos, que se levantavam contra o domínio da Espanha e pelo fato de que as circunstâncias políticas e econômicas do mundo estavam a seu favor. O nacionalismo continental dos revolucionários hispano-americanos unia-se a esse acordo forçoso de seus destinos, para nivelar os povos mais avançados na sua marcha em direção ao capitalismo, com os mais atrasados da mesma via. (MARIÁTEGUI, 1975, p.46) 7 José Carlos Mariátegui foi o introdutor da teoria socialista na América Latina, sua obra figura como uma tentativa de adaptar as teorias européias sobre o marxismo e o socialismo à realidade sóciohistórica peruana. Ocupa um papel de destaque no cenário literário peruano nas décadas de 1920 e 1930, oferecendo as bases teóricas para diversos pensadores e críticos da realidade sócio-histórica peruana e do processo literário no Peru. 25 Assim, no caso peruano, a revolução de independência não representou o reconhecimento dos direitos dos indígenas, mas a implantação de um sistema capitalista que visava atender aos interesses de uma pequena parcela da população. Mariátegui aponta que, após a independência, a situação do indígena piorou, uma vez que houve um maior fortalecimento da classe latifundiária em relação ao direito às terras e , sem a proteção da Coroa espanhola, o indígena estava à mercê da má fé e da corrupção da classe latifundiária. Durante o período colonial peruano os indígenas podiam manter suas comunidades, entretanto, estas estavam atreladas ao pagamento de tributos ao “encomendero”, um senhor proprietário de terras que representava a Coroa espanhola. A comunidade e o latifúndio conviviam durante a colônia, no entanto, cabe destacar que a manutenção daquela era interessante para a metrópole, pois garantia a permanência dos indígenas nas terras e o pagamento dos tributos. As comunidades indígenas eram protegidas pelas leis coloniais e este direito era garantido através da concessão de títulos de propriedade destas terras pelo rei e rainha espanhóis. Com o período de transição da colônia para a república e, consequentemente, da passagem de um sistema “feudal” para outro capitalista, o direito às comunidades tornou-se restrito. A partir da revolução de independência as comunidades passaram a ser consideradas ilegais e o indígena tornou-se, então, um pequeno proprietário de terras. A dissolução das comunidades indígenas não significou somente o fim de uma instituição econômica, mas também o de uma instituição social que mantinha e defendia a tradição indígena, conservando a função da família camponesa. Os privilégios concedidos à aristocracia latifundiária continuaram a existir, sendo esta a classe social que se conservou no poder, já que não havia ainda uma burguesia que tivesse força política para governar o país. A passagem de um sistema econômico (feudalismo) a outro (capitalismo) não se deu de maneira uniforme dentro do território peruano. O conflito sócio-cultural iniciado na conquista, no qual houve a sobreposição de uma cultura, tida como superior, sobre a outra, continuou a existir no território peruano e revelava a problemática de se pensar o país como uma nação homogênea. 26 Esta dualidade, que representa de um lado a cultura ocidental e de outro a cultura indígena, esteve presente na própria geografia e divisão territorial do Peru. Analisando o país como um território subdividido em três grandes regiões, a Costa, a Serra e a Selva, Mariátegui expõe que esta divisão não foi somente geográfica, mas, principalmente, cultural. A costa e a serra são duas regiões que se separam e se distinguem por apresentarem traços culturais conflitantes e uma população, em sua maioria, de origem espanhola na primeira região e de origem indígena na segunda. Mariátegui destaca que “a dualidade da história e da alma peruanas, em nossa época, define-se como um conflito entre a forma histórica que se elabora na costa e o sentimento indígena que sobrevive na serra”(MARIÁTEGUI,1975, p.144). Dessa forma, costa e serra são representantes de duas formas conflituosas de compreender a realidade, uma forma mestiça e outra indígena. Embora pensemos na nação peruana como um todo homogêneo, podemos observar que este todo apresenta um caráter artificial ,se levarmos em conta a dicotomia serra versus costa. Devido ao difícil acesso à serra peruana e à expulsão dos indígenas da região costeira, aquela região se manteve isolada e foi onde a raça e a língua indígenas puderam refugiar-se; assim, “na serra estão associados todos os fatores de um regionalismo, quando não de uma nacionalidade”. (MARIÁTEGUI,1975, p.146) Levando em conta estes aspectos da divisão territorial e cultural da nação peruana, o crítico peruano aponta que a unidade peruana ainda deve ser construída, já que o país apresenta uma dualidade sócio-cultural que o divide em grandes regiões que apresentam pouca conexão entre si e representam formas opostas de perceber a realidade. Segundo Mariátegui (1975): No Peru o problema da unificação é bastante profundo, porque não se trata aqui de resolver uma pluralidade de tradições locais ou regionais, mas uma dualidade de raça, de língua, de sentimento, nascida da invasão e conquista do Peru autóctone, por uma raça estrangeira que não foi capaz de mesclarse com a raça indígena, eliminando-a ou absorvendo-a.” (MARIÁTEGUI, 1975, p.146) As noções que constroem o conceito de nação como as ideias de uma extensão territorial delimitada e de uma comunidade imaginada como homogênea e horizontal entram em choque com a realidade sócio-cultural peruana exposta por Mariátegui. Segundo as considerações do crítico peruano, a nação peruana, ainda 27 nas décadas de 1920 e 1930, não apresentava as características essenciais para que se pensasse em uma unidade nacional. Dessa forma, podemos observar que o processo de construção da nação peruana apresenta um caráter conflituoso que se manteve desde a conquista até o período de independência do país. Seguindo a linha de pensamento proposta por Mariátegui, o antropólogo e romancista peruano José Maria Arguedas (1913-1969), em sua obra Formación de una cultura nacional indoamericana (1981), analisa a questão da dicotomia sóciocultural peruana e aponta como esta se originou nos tempos da conquista e sobreviveu ao longo do processo de independência e das décadas de 1960 e 1970 no Peru. Arguedas (1981) assinala que os povos peruanos se mantiveram isolados devido à topografia invencível do território peruano, dessa forma a Serra sofreu uma maior influência da cultura indígena e a Costa tornou-se ao longo do tempo a maior representante da cultura ocidental no Peru. A costa peruana passou a representar também um polo de atração para as populações indígenas da serra que desejavam uma melhoria de vida, aumentando, como aponta Arguedas, as ondas de migrações para esta região nas décadas de 1960 e 1970. Esta região será um meio também de aproximar-se de tudo aquilo relacionado ao progresso, assim, o antropólogo peruano assinala que: Esta vez a força determinante do intercambio não é somente nacional, vem de todo o universo humano; se trata do esforço profundo para ingressar em um status social superior, ao que se encaminham os múltiplos povos de todos os continentes. A costa é, no Peru, a região que mais avançou na direção desse status superior, por isso, atrai. (ARGUEDAS, 1981, 8 p.10,tradução nossa) Quanto à serra peruana, nela irá se concentrar a cultura indígena. A difusão da tecnologia moderna nesta região enfrentou uma serie de obstáculos, como a natureza física e a resistência cultural do indígena. Arguedas aponta que não 8 No original: Esta vez la fuerza determinante del intercambio no es sólo nacional, viene de todo el universo humano; se trata del esfuerzo profundo por ingresar a un status social superior, al que se encaminan los múltiples pueblos de todos los continentes. La costa es, en el Perú, la región que más ha avanzado hacia ese status superior, por eso, atrae. 28 somente estes elementos foram um entrave para a ‘modernização’ dessa região, mas também o conservadorismo colonial. Diferentemente da serra peruana, na costa a população indígena e os escravos vindos da África tiveram de assimilar os elementos da cultura ocidental mais rapidamente, já que o conhecimento destes era fundamental para a sobrevivência na região onde o domínio espanhol alcançou em pouco tempo o domínio completo. Estas duas culturas se diferenciam em muitos aspectos, entretanto, uma das características que será totalmente oposta à cultura ocidental representada pelos espanhóis será o conceito de propriedade da terra e o de trabalho. Na cultura ocidental esse conceito era e é mercantil e individualista; na indígena é ,coletivista e religioso. O crítico expõe que o indígena não entendia a posse da terra como fonte de enriquecimento individual, mas como uma atividade religiosa que deveria ser celebrada. O trabalho para estes povos era um ato religioso. Dessa forma, Arguedas assinala que “passaram cinco séculos desde o encontro dos povos e o índio não conseguiu ainda compreender, assimilar, por inteiro, o conceito ocidental da propriedade e do trabalho.” (ARGUEDAS, 1981, p.25, tradução nossa) Esta forma de se relacionar com o trabalho revela a problemática da extinção das comunidades indígenas durante o processo de independência, pois além de perder suas terras, o indígena se viu obrigado a assimilar de forma abrupta um novo sistema econômico que diferia em muitos aspectos daquele que utilizava nas propriedades que lhe foram concedidas pela Coroa espanhola. A comunidade indígena representa também a fragilidade da delimitação territorial imposta pelo projeto nacional unificador do Peru. A questão da delimitação da fronteira nacional se choca com a existência de comunidades indígenas nas quais o caráter social, econômico e cultural era oposto àquele idealizado pelo processo de construção nacional peruano. A respeito da formação das fronteiras nacionais, a estudiosa Claúdia Luna (1999) expõe que: As tentativas de estabelecer nações, no século XIX, esbarrarão na arbitrariedade de suas fronteiras, que, no processo de formação não levaram em consideração a conformação pluriétnica das populações. Realizadas pelas elites burguesas e visando à homogeneização social, desde Bolívar (expressos em termos como peruanizar ou mexicanizar as populações de origem indígena) buscou-se aplicar sobre grande parte da 29 população uma ideia de nação que não correspondia a suas realidades em diversos casos. Ou seja, as fronteiras delimitadas seguiam muito mais as demarcações coloniais ou interesses das elites locais que a conformação cultural das populações indígenas, que tinham suas demarcações territoriais. (SILVA, 1999, p. 191) A delimitação das fronteiras, assim como a homogeneidade cultural e social da população são questões que apresentam um caráter problemático em países onde a população indígena continua sendo a maioria e sua cultura permanece viva e até mesmo intacta em algumas regiões. A artificialidade das fronteiras nacionais revela que o projeto nacional para o estabelecimento de nações entra em conflito com a realidade social e cultural de diversos países latino-americanos. Analisando ainda a delimitação da fronteira nacional, Claudia Luna (1999) aponta que o fato de ignorar a existência de territórios e regiões que estão “fora” do espaço nacional definido pelas elites que estabeleceram as nações revela que há uma desconsideração do papel da “nação de origem”9 na formação da “nação histórica”. A construção do projeto nacional peruano contou também com o papel fundamental assumido pelo discurso e pela linguagem na formação da comunidade imaginada que corresponderia ao Peru. Dialogando com a proposta de Benedict Anderson, que vimos no tópico anterior, acerca da definição de nação como uma comunidade imaginada, Antonio Cornejo Polar (2000) aponta a importância da linguagem e do discurso na construção da consciência nacional. Segundo o peruano, as imagens e autoimagens construídas através do discurso nacional são resultados de processos lingüísticos complexos e de semioses nas quais os signos vão construindo significados que, algumas vezes, são fluidos e contrapostos entre si. Assim, segundo o teórico peruano: (...) teríamos de pensar a nação como uma entidade em movimento que, além disso, pode não ter uma só figura, mas tantas quantos sujeitos sociais a experimentam e a pensam. Em boa parte da América Latina, esses 9 Claudia Luna adota a terminologia de Fernando Mires (1992). A respeito da questão da formação das nações o teórico dirá: “en la configuración de una nación hay que diferenciar entre nación original y nación histórica (vale decir, aquello que una nación ha llegado a ser). Los indios son parte integral de la nación histórica, porque constituyen su nación original”. MIRES. F. (1992) p.227 30 sujeitos, além de representarem interesses e cosmovisões sociais relativamente definidos, costumam convalidar-se como portadores de identidade étnica. A esse respeito, o caso andino seria emblemático. (CORNEJO POLAR, 2000, p.57) Desse modo, os discursos que constituem a consciência nacional sofrem variações de acordo com o sujeito social que os enuncia. Para Cornejo Polar, cada sujeito social cria sua própria tradição, portanto, cada sujeito define a história que irá lhe corresponder e da qual fará parte. Dessa maneira, as nações são produtos discursivos que socialmente competem com outros discursos construídos por diferentes sujeitos sociais, da mesma forma e acerca do mesmo assunto. De acordo com as considerações de Cornejo Polar, a noção de homogeneidade necessária para a construção das nações propunha que toda nação deveria apresentar fatores que contribuíssem para a sua unidade, como a mesma língua e consciência histórica e o mesmo componente étnico. Embora esta unidade não tenha sido construída nos países da América, tampouco no surgimento dos estados nacionais na Europa, o modelo de nação homogênea continuou a ser perseguido. Assim, segundo o teórico peruano, as possíveis diferenças que ameaçavam a homogeneidade nacional eram entendidas como um problema a ser reparado através de políticas adequadas, como a criação de programas educativos uniformizadores, o desencorajamento da manutenção de línguas nativas e o estabelecimento de programas econômicos de produção e mercado centralizados. Cornejo Polar afirma que na América Hispânica optou-se pelo mesmo modelo de busca de uma nação homogênea, assim, no século XIX e nas cinco primeiras décadas do século XX houve uma ideia fixa de integrar aqueles que estavam “fora” do modelo ideal através de políticas aculturadoras10 que pretendiam apagar as 10 O termo aculturação, segundo Ángel Rama(1987), foi questionado pela crítica latino-americana, pois designa o processo passivo de passagem de uma cultura à outra. Rama destaca que o termo transculturação seria mais adequado para definir a cultura latino-americana, pois “revela a resistência ao considerar a cultura própria, tradicional, que recebe o impacto externo que haverá de modificá-la, como uma entidade meramente passiva ou inclusive inferior, destinada a maiores perdas, sem nenhuma classe de resposta criadora. Ao contrário, o conceito se elabora sobre uma dupla comparação: por uma parte registra que a cultura presente da comunidade latino-americana (que é um produto longamente transculturado e em permanente evolução) está composta de valores idiossincráticos, os que podem ser reconhecidos atuando desde datas remotas; por outra parte corrobora a energia criadora que move, fazendo-a muito distinta de um simples agregado de normas, 31 dissidências culturais e através de genocídios considerados como uma medida para o avanço e o progresso nacional. Segundo o teórico, estas medidas revelavam que “em outras palavras, a ideia subjacente era converter o heterogêneo e conflitivo, inclusive rancorosamente belicoso, num espaço homogêneo e, se possível, harmônico”. Cornejo Polar aponta também que neste período em toda a América Hispânica aparecem os discursos que defendiam a homogeneidade nacional, criando a necessidade social dessa proposta. Dessa forma, de acordo com as considerações de Cornejo Polar e Benedict Anderson, observamos que assim como o surgimento da imprensa e do romance, os sujeitos e discursos sociais apresentam um papel fundamental na construção das comunidades imaginadas que são as nações. A construção desta ideia de comunidade, entretanto, pressupõe uma homogeneidade que é problemática não somente para os povos europeus, mas para todos os países da América. Como toda nação é vista como uma unidade de língua, costumes, história e formação étnica a criação dessa “comunidade ideal”, muitas vezes, é feita através de medidas que buscam “apagar” as diferenças ou simplesmente descartá-las. No caso dos países andinos como o Peru, observamos que o conceito de nação como uma comunidade imaginada e homogênea é uma questão conflituosa, uma vez que, como apontou Mariátegui, o próprio processo de “construção” da nação peruana não teve uma participação ativa dos indígenas, maioria da população naquele período. Dialogando com Cornejo Polar, observamos que os sujeitos sociais e seus discursos para a construção da “nação peruana” foram fundamentais para que se criasse uma república na qual a grande maioria do povo peruano, os indígenas, não teria voz, tampouco representatividade, gerando, portanto, uma comunidade na qual as desigualdades e exploração desta classe social seriam uma fissura constante na ideia de nação homogênea idealizada pelos discursos nacionais peruanos. comportamentos, crenças e objetos culturais, pois se trata de uma força que atua com desenvoltura tanto sobre a herança particular, segundo as situações próprias do seu desenvolvimento, como sobre as contribuições provenientes de fora.” (RAMA, 1987, p.34, tradução nossa) 32 2.3. Buscando a nação peruana: do indigenismo ao neo-indigenismo no Peru As narrativas indigenistas, de uma forma geral, tiveram espaço em diversos países, como Peru, Bolívia e Equador, na primeira metade do século XX, sendo “herdeiras” dos romances chamados “indianistas”, em voga principalmente na segunda metade do século XIX. Ambas as narrativas tinham o indígena como tema, entretanto, diferiam na forma de representá-lo. No romance indianista o indígena é visto de uma forma idealizada, assim, segundo Concha Meléndez (1934): Incluímos nesta denominação (romance indianista) todo romance em que os índios e suas tradições estão apresentados com simpatia. Esta simpatia tem gradações que vão desde uma mera emoção exótica até um exaltado sentimento de reivindicação social, passando por matizes religiosos, patrióticos, somente pitorescos e sentimentais. (MELÉNDEZ, 1934, p.9, 11 tradução nossa) Dessa forma, o romance indianista, de acordo com a maior parte dos teóricos e críticos do tema, é aquele no qual o indígena é representado a partir de uma mera emoção exótica, idealizado e com corpo de índio e “alma de branco”. Além das características apontadas por Concha Melendéz, o crítico peruano Antonio Cornejo Polar (2000) também expõe que neste tipo de narrativa há a presença de historias exemplares que se propõem a mostrar um retrato da realidade, apelando para a consciência do leitor para que faça interferências na ordem impiedosa que oprime o indígena. Para o crítico peruano, este tipo de romance expressa uma ideologia oligárquica com elementos racistas e atitude paternalista em relação ao indígena, assim, o indianismo tem mais um caráter ético e abstrato do que social. Analisando a mudança da denominação de índio para indígena dos povos nativos da América Hispânica, Tomás Escajadillo (1994) afirma que estas 11 No original: “ incluimos en esta denominación (novela indianista) toda la novela en que los indios y sus tradiciones están presentados con simpatía. Esta simpatía tiene gradaciones que van desde una mera emoción exotista hasta un exaltado sentimiento de reivindicación social, pasando por matices religiosos, patrióticos, sólo pintorescos y sentimentales.” 33 denominações guardavam também um posicionamento ideológico acerca do tema, assim, segundo o teórico: Chamava-se “índio” ao aborígene da América desde os primeiros tempos da chegada de Colombo, pois ele pensou haver dado com outra costa das Índias Orientais, a Ocidental; se usou o indígena, sem saber como nem porque, a partir do final do século XIX. Parece que tal vocábulo se houvesse recarregado de certa dose de intenção, reivindicatória e social, de que não estava livre a de “índios”. Por ter uma sutileza quase verbalista, ela contem 12 significação essencial.(ESCAJADILLO, 1994, p.39, tradução nossa) A denominação de indígena para estes povos significou, portanto, uma mudança na forma como estes intelectuais os veriam e os representariam em seus romances. Essa definição para este povo, segundo Claudia Luna (1999)13, é “uma construção sistemática do mundo ocidental”, representativa dos interesses em conflito, pois, neste caso, indica a “apreensão do outro através da palavra”.(SILVA, 1999, p.25) Assim, segundo as considerações de Claudia Luna e Tomás Escajadillo o movimento indianista passou a se relacionar com uma imagem de “mera emoção exótica” em relação ao indígena, enquanto que o movimento indigenista se ligava ao sentimento de reivindicação social dos direitos deste povo. A partir do estudo da narrativa indigenista peruana, Escajadillo (1994) propõe uma divisão do movimento indigenista em duas grandes etapas: o indigenismo ortodoxo e o neo-indigenismo. O crítico propõe como primeira obra indigenista peruana o livro Cuentos Andinos de Enrique López Albújar, já que nestes contos o autor rompe com a tradição romântica e idealista que caracterizava o indígena no movimento indianista e há a presença de um sentimento de reivindicação social . 12 No original: Se llamaba “índio” al aborigen de América desde los primeros tiempos de la llegada de Colón, pues que él pensó haber dado con otro costado de las Indias Orientales, el Occidental; se usó el indígena, sin saber cómo ni porqué, a partir de fines del siglo XIX. Parece como en tal vocablo se hubiera cargado cierta dosis de intención, reivindicatoria y social, de que no estaba libre la de “indios”. Con ser una sutileza casi verbalista, ella contiene significación esencial. 13 Para maior compreensão das relações entre as representações do índio e a construção dos projetos nacionais cf.: SILVA, Claudia Heloisa Impellizieri Luna Ferreira. Indianismo Romântico e projetos nacionais na literatura hispano-americana do século XIX. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999. 34 Para Escajadillo a primeira fase do indigenismo peruano é o indigenismo ortodoxo, que se caracteriza por apresentar o indígena a partir de um sentimento de reivindicação social e romper com a tradição romântica e idealista do mundo indígena. Outro elemento que caracteriza esta fase é o fato de existir nas obras indigenistas desse período uma forte separação entre o narrador e os protagonistas da narrativa. Assim, há uma forte divisão entre o “eu” que contempla o indígena e o “eles”(indígenas). Portanto, para que se produza um romance ou um conto indigenista, de acordo com a proposta de Escajadillo, há a necessidade da presença de três fatores: o sentimento de reivindicação social; a ruptura com o tratamento romântico do tema indígena e com a idealização romântica deste povo; a suficiente proximidade com o mundo recriado. Ampliando a discussão acerca dos elementos que caracterizam o romance indigenista andino, Cornejo Polar (2000) aponta que a produção indigenista se instala em um cruzamento entre duas culturas e duas sociedades. Esta noção, entretanto, já estava presente na obra Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, de José Carlos Mariátegui, na distinção que o crítico peruano faz acerca dos conceitos de literatura indígena e literatura indigenista. Para Mariátegui a literatura indígena é aquela produzida pelo próprio povo indígena e a indigenista é aquela que se produz pelos ocidentais das nações andinas sobre o mundo indígena. Segundo Cornejo Polar, Mariátegui caracteriza a literatura indigenista como uma obra de mestiços, no entanto, não enfatiza com esta definição o aspecto biológico, mas os aspectos sociológicos, históricos e culturais da questão. Partindo desta distinção apontada por Mariátegui, Cornejo Polar define a literatura indigenista como um dos tipos de literatura heterogênea produzida na América Latina. A partir da aplicação do conceito de heterogeneidade à literatura indigenista torna-se possível definir o caráter múltiplo e diferenciado dos elementos que contribuem para sua produção. Assim, levando-se em conta as instâncias produtoras, textuais, receptivas e referenciais da literatura indigenista torna-se 35 evidente que as três primeiras pertencem ao mundo moderno e ocidentalizado dos países andinos e a última, a referencial, ao universo indígena. Analisando esta questão, Cornejo Polar afirma que: (...) as camadas médias urbanas aplicam seus atributos culturais ( a escrita em espanhol, as convenções artísticas de raiz européia etc) e sua ideologia e interesses sociais (o positivismo ou o marxismo, a necessidade de assumir a representação de toda nacionalidade etc) para interpretar e compreender (conforme se trate da produção ou da recepção) a natureza de uma realidade outra, a indígena, que é agrária, oral, quéchua ou aimará, cujo imaginário obedece a outras racionalidades e cujos interesses sociais nem sempre são compatíveis com os do sujeito produtor-receptor do indigenismo.(CORNEJO POLAR, 2000, p.194) A definição da literatura indigenista como heterogênea, portanto, sinaliza para o fato de que o indigenismo é uma produção discursivo-imaginaria sobreposta entre dois campos socioculturais diferentes, opostos e conflituosos, se levamos em conta o dado histórico da conquista e da dominação e exploração de um desses campos sobre o outro. Analisando a manifestação da heterogeneidade na literatura latino-americana, Cornejo Polar (2000) afirma que os elementos que caracterizam as literaturas heterogêneas já estavam presentes nas crônicas de conquista, pois nestes relatos: Homens de “outro mundo” empregam seus recursos lingüístico-culturais para revelar o que lhes é desconhecido por completo e para fazê-lo inteligível a leitores distantes, ainda mais alheios a essa realidade nova e insólita, às vezes incrédulos e às vezes entusiasmados, mas sempre necessários para que o “descobrimento” e a conquista continuem ou para outorgar bens e honra àqueles que participaram destes empreendimentos. (CORNEJO POLAR, 2000, p.195) A analogia que se pode estabelecer entre a estrutura e o processo de produção das crônicas de conquista e do indigenismo permite, segundo o crítico peruano, inserir o indigenismo no “tempo longo” da América Latina, uma vez que a partir desta comparação se constata que a literatura indigenista é a manifestação insistente de uma forma de produção cultural que apresenta raízes seculares. Através da inserção do indigenismo no tempo longo e de sua associação com as crônicas da conquista torna-se possível explicar a heterogeneidade deste tipo de narrativa. Assim, Cornejo Polar expõe que desde a norma estilística, explicativa e 36 comparativa até a índole da história narrada, a obra indigenista é a história de uma interferência, uma vez que, “não há romance indigenista cuja narração não implique uma intromissão (de imediato, a do próprio narrador) e seu tempo referencial, um hiato muito nítido entre um antes e um depois”(p.196). O indigenismo andino, portanto, foi um movimento ligado a fortes motivações sociais, relacionando-se com a divulgação do universo indígena e a busca por denunciar as explorações e abusos sofridos por estes povos. A representação deste “universo desconhecido” aponta, principalmente, para a relação conflituosa entre duas concepções de mundo totalmente opostas e divergentes, demonstrando, assim, a heterogeneidade deste tipo de literatura. O indigenismo peruano, segundo alguns críticos do assunto, fecha seu ciclo em 1941 com a publicação do romance El mundo es ancho y ajeno, de Ciro Alegria. A partir deste período o indigenismo irá adquirir novas características, passando para a segunda etapa deste movimento literário, denominada de neo-indigenismo. Segundo Escajadillo, um dos fatores que melhor explicam o processo de passagem do indigenismo ao neo-indigenismo é a penetração cada vez maior no universo indígena. Um dos autores indigenistas que melhor exemplificariam esse processo em suas obras é o peruano José María Arguedas, que escreveu narrativas pertencentes ao indigenismo “ortodoxo”, como Agua(1935), Yawar fiesta (1941) e Diamantes y pedernales (1954), e ao neo-indigenismo, como Los rios profundos(1958). Como outro grande representante do neo-indigenismo, podemos citar Manuel Scorza, poeta e escritor peruano. Scorza foi um intelectual preocupado e comprometido em denunciar através de sua obra as explorações e massacres sofridos pelo povo indígena peruano de sua época. O intelectual inicia sua atividade política em 1945, ao ingressar na Universidade de San Marcos, filiando-se ao partido de esquerda APRA. Depois de um período de exílio político de cinco anos, Scorza retorna ao Peru e filia-se ao Movimento Comunal Peruano, após tomar conhecimento dos problemas enfrentados pelos camponeses indígenas dos Andes Centrais do país, tornando-se secretário de política do movimento. Observando os confrontos entre os indígenas e os latifundiários da região, Scorza publica 37 manifestos em jornais de Lima denunciando publicamente os abusos sofridos pelos camponeses. Entretanto, é após a prisão de um dos principais líderes do movimento, que Scorza decide fazer reportagens sobre os massacres ocorridos nos Andes Centrais, iniciando a criação de sua pentalogia denominada La guerra silenciosa, a partir de documentos e investigações sobre os confrontos. Como o próprio peruano afirma, sua obra é “uma crônica exasperantemente real e um testemunho dos massacres ocorridos na região que foram silenciados pela história oficial peruana”. La guerra silenciosa é composta de cinco romances: Redoble por Rancas, Garabombo, El jinete insomne, Cantar de Agapito Robles e La tumba del relâmpago. A obra de Scorza caracteriza-se principalmente pela denúncia das explorações sofridas pelos indígenas peruanos, relacionando-se ao movimento indigenista por apresentar como referente o indígena e por ter como finalidade a reivindicação de seus direitos. Entretanto, como afirma Cornejo Polar (2000), La guerra silenciosa se insere com mais exatidão no movimento neo-indigenista, dialogando com a narrativa do “boom” hispano-americano e incorporando elementos dessa narrativa como o realismo mágico, revelando as dimensões míticas do universo indígena, e o aperfeiçoamento do arsenal técnico da narrativa. Seguindo a linha da narrativa hispano-americana comprometida com a realidade sócio-histórica da América Latina, Scorza retomou o romance regionalista tradicional, que no Peru pode ser entendido como romance indigenista, em um período que a crítica se voltava para os romances produzidos pelo “boom”, revelando em um momento que se insere na modernidade o “arcaísmo” da sociedade indígena, o que demonstra que a modernidade e o arcaísmo coexistem contraditoriamente em um mesmo espaço nacional. O neo-indigenismo, segundo Escajadillo, apresenta as seguintes características: a utilização do realismo mágico ou maravilhoso para descrever o universo mítico do indígena andino; a intensificação do lirismo, permitindo que as obras indigenistas também pudessem ser denominadas como romances “poemáticos”; 38 a ampliação do tratamento dado ao problema ou tema indígena, não se restringindo a um ponto de vista racial, laboral ou regional e possibilitando a visão do problema indígena como parte integral da problemática de toda uma nação; a ampliação dos recursos técnicos da narrativa de temática indígena. Dialogando com as considerações de Escajadillo acerca do neo-indigenismo peruano, Cornejo Polar sinaliza que a caracterização proposta pelo crítico é correta, no entanto, há a necessidade de relacioná-la a uma concepção geral do indigenismo que não se restringisse a defini-lo por seu referente (o universo indígena) e por sua intenção (a denuncia e reivindicação social), mas que observasse também seu processo de produção. Dessa forma, seria possível visualizar a heterogeneidade conflituosa do indigenismo, produto de uma operação literária que coloca em relação assimétrica dois universos culturais diferentes e opostos, demonstrando, então, a contradição básica presente nos países andinos. Cornejo Polar expõe que a partir da década de 50 as tensões pluriculturais do indigenismo diminuem ou se formulam de forma menos drástica. Neste período há uma maior intercomunicação entre os diferentes setores da sociedade peruana através de migrações andinas para a costa e de uma expansão dos modelos culturais da cidade no âmbito rural. Estes fatos permitiram que houvesse uma maior aproximação entre o sistema sociocultural indígena e a sociedade e cultura que o produzia, o que, não significou uma maior integração do país. Assim, a heterogeneidade do indigenismo continuou a existir e os narradores neo-indigenistas desse período continuaram a confrontar-se com o fato de terem de revelar o universo indígena com os artifícios de outra cultura e através de uma inserção social diferente. A partir das propostas de Escajadilllo e Cornejo Polar, verificamos, portanto, que as narrativas indigenistas e neo-indigenistas revelam não somente o sentimento de reivindicação social e a denúncia dos abusos sofridos por estes povos, mas a heterogeneidade cultural e social dos países andinos, demonstrando que o conflito entre dois universos culturais diferentes, o indígena e o ocidental, iniciado na conquista da América, persiste através de novos matizes nestes países. 39 Estes conflitos demonstram que a aplicação do conceito de nação para o contexto peruano apresenta particularidades que revelam o caráter heterogêneo e contraditório do espaço nacional e da literatura deste país. O processo de construção da nação relaciona-se com o papel desempenhado pela literatura nacional e pela escrita da história. Esta última pode apresentar diferentes perspectivas e privilegiar uma visão acerca dos fatos. Assim, para povos onde a oralidade é predominante, a memória coletiva é fundamental para a manutenção e inclusão de sua história nas versões oficiais. Como veremos no próximo capítulo, a sobrevivência da memória coletiva dos indígenas será uma das grandes ferramentas de resistência ao discurso predominante que prevê uma nação homogênea e harmoniosa e representará também a possibilidade de se admitir outra perspectiva da História oficial. 40 3 – AS “OUTRAS MEMÓRIAS” Neste capítulo apresentaremos a temática da memória coletiva e histórica a partir dos estudos de Jacques Le Goff e Maurice Halbwachs, relacionando as propostas destes autores com as considerações de Gordon Brotherston acerca da literatura do “Quarto Mundo”. A memória coletiva estabelece também um diálogo com a escrita da história, dessa forma, na última seção deste capítulo abordamos as reflexões de Michel de Certeau, Mircea Eliade, Serge Gruzinsky acerca da historiografia e das noções de tempo mítico e tempo histórico. 3.1 - Memória coletiva e história: permanência e mudança Partindo de um estudo que leva em conta a condição social do indivíduo, Halbwachs define a memória baseando-se na influência que a vida em sociedade terá sobre as lembranças de cada indivíduo. Nossas lembranças, então, se organizariam de duas maneiras: se agrupando em torno de um indivíduo, que as interpretaria a partir de suas experiências pessoais e de seu ponto de vista, e se distribuindo dentro de uma determinada sociedade, da qual as lembranças individuais são imagens parciais. Desse modo, o homem participaria de dois tipos de memória: a individual e a coletiva. A memória individual é composta das lembranças e dos fatos individuais que marcaram a vida pessoal do indivíduo. Ao participar de um certo grupo, seja esse grupo sua família ou seus colegas de trabalho ou de sua religião, o homem teria lembranças comuns com o grupo do qual faz parte e que seriam recordadas de acordo com os interesses e a sobrevivência desse grupo. Esta segunda forma de memória seria a memória coletiva. Entretanto, Halbwachs expõe que a memória coletiva e a memória individual se interpenetram, uma vez que, para recordar totalmente determinados fatos, o homem precisa se apoiar em pontos de referência determinados pela sociedade e, muitas vezes, usa como base também as lembranças de outra pessoa para preencher as lacunas existentes em sua memória individual. 41 Ao longo da vida o homem participa de uma série de eventos que fazem parte da história de sua nação, sua cidade, conforme vimos no capítulo II. O homem pode recordar certos eventos históricos noticiados em revistas ou jornais dos quais ele não tenha participado ativamente, fatos que fazem parte de uma memória da nação. Esses fatos não compõem a memória individual do indivíduo, mas integram uma memória mais extensa da qual a memória individual é um pequeno fragmento. Assim, para recordá-los de forma integral será necessário apoiar-se na memória de outros indivíduos, no testemunho destes eventos históricos. Ao contrário desta memória tomada de “empréstimo” de outros indivíduos, a memória individual está inteira em cada um, em seu ponto de vista sobre os acontecimentos pessoais e individuais que marcaram sua vida. Dessa forma, o homem, ser social, teria suas lembranças em relação a fatos pessoais e individuais e participaria também de uma memória mais ampla, a memória coletiva, que englobaria não somente suas lembranças, mas as do grupo social do qual faz parte. Segundo Halbwachs: (...) existiriam memórias individuais e, por assim dizer, memórias coletivas. Em outras palavras, o indivíduo participaria de dois tipos de memória. Não obstante, conforme participa de uma ou de outra, ele adotaria duas atitudes muito diferentes e até opostas. Por um lado, suas lembranças teriam lugar no contexto de sua personalidade ou de sua vida pessoal (...) Por outro lado, em certos momentos, ele seria capaz de se comportar simplesmente como membro de um grupo que contribui para evocar e manter lembranças impessoais, na medida em que estas interessam ao grupo. (HALBWACHS, 2006, p.71) O indivíduo, então, tem suas próprias recordações íntimas, que compõem sua memória individual, entretanto, esta memória faria parte desse painel mais amplo que é a memória coletiva. Na medida em que esse homem faz parte de vários grupos sociais, ele integrará, então, inúmeras memórias coletivas. Halbwachs aponta que, a partir das diferenças entre memória individual e memória coletiva, poderíamos estabelecer uma distinção entre duas memórias: a memória pessoal ou autobiográfica e a memória social ou histórica. Assim como a memória individual se apoia na memória coletiva, a memória autobiográfica também precisa do apoio da memória histórica, uma vez que a história de cada um de nós faz parte de uma história geral. Esses dois tipos de memória se distinguiriam pelo 42 fato de a primeira ser bem mais contínua e densa e a segunda apresentar o passado de uma forma resumida e esquemática. Essa distinção entre memória autobiográfica e memória histórica será um dos pontos principais que o teórico utilizará para defender a ideia de que memória coletiva e historia são termos que se diferenciam em diversos aspectos. Para definir a memória coletiva e a memória histórica, Halbwachs parte de uma oposição entre os dois termos. Para o autor, a memória coletiva é um conjunto de pensamentos contínuos, que retém do passado aquilo que ainda está vivo ou é capaz de viver na consciência do grupo social que a sustenta. Na memória coletiva, a realidade e os fatos passados não apresentam subdivisões e linhas traçadas com exatidão, separando e opondo o presente e o passado. Cada fato irá se estender até onde a memória daqueles que compõem o grupo o mantiverem em sua consciência. Portanto, não há uma memória coletiva única, mas várias memórias coletivas correspondentes a cada grupo social localizado em um tempo e em um espaço determinados. Halbwachs aponta também que a sobrevivência da memória coletiva dependerá não só de sua manutenção na consciência do grupo social, mas no fato de que cada um dos componentes do grupo se detenha nas semelhanças entre os fatos ocorridos, o que os tornará pertencentes a uma mesma consciência. A memória coletiva, portanto, se baseia em nossas lembranças como membros de um grupo social, sendo suscetível de esquecimentos e dependendo, exclusivamente, da sobrevivência do grupo. Opondo-se a este tipo de memória, a história ou memória histórica terá como base um painel de acontecimentos passados, nos quais cada fato será estudado e analisado a partir de sua diferenciação e as transformações ocorridas nas sociedades ao longo do tempo terão destaque central. Assim, segundo Halbwachs: Para a história tudo está ligado, por isso cada uma dessas transformações deve reagir sobre as outras partes do corpo social e prepara aqui ou al uma nova mudança. Aparentemente, a série de acontecimentos históricos é descontínua, cada fato está separado do que o precede ou o segue por um intervalo, em que se pode acreditar que nada aconteceu. Na realidade, os que escrevem a história e observam principalmente as mudanças, as diferenças, compreendem que para passar de uma a outra é preciso que se desenvolva uma série de transformações, das quais a história só percebe a soma ou o resultado final. (HALBWACHS,2006, p.109) 43 Observamos, então, que a História oficial apresenta os fatos de uma maneira bem delimitada no tempo e no espaço, opondo o presente ao passado e “apagando” tudo aquilo que se manteve “igual” ao longo dos tempos. Outra característica que a diferencia da memória coletiva é o fato de a história se propor a ser “única”, uma vez que precisa dar conta de um período de tempo longo e de acontecimentos ocorridos em espaços nacionais, dessa forma, temos uma única história do descobrimento do Brasil, assim como a história da França ou de qualquer outro país. Memória coletiva e memória histórica, portanto, se diferenciam, principalmente, pelo fato de a primeira estar ligada às semelhanças entre cada fato ocorrido no grupo social e da segunda buscar sempre aquilo que houve de diferente e transformador para a oposição entre passado e presente dentro das sociedades nacionais. 3.2 - Homens-memória: memória coletiva e história nas sociedades de cultura oral A memória coletiva e a história podem apresentar diferentes definições e funções a partir das sociedades que tomamos como referencial para caracterizá-las, dessa forma, a distinção entre estes termos pode adquirir um novo significado. Segundo Halbwachs, estes dois termos são opostos e se diferenciam por valorizarem e apresentarem funções totalmente distintas; no entanto, tomando como referência as sociedades primitivas, observamos que a memória coletiva e a história podem se diferenciar muito pouco, apresentando, inclusive, funções parecidas e importantes para a coesão do grupo social. Le Goff (1984) afirma que não há uma “única” história, mas dois tipos de história. De acordo com o historiador “há pelo menos dois tipos de história: a da memória coletiva e a dos historiadores. A primeira é essencialmente mítica, deformada, anacrônica, mas constitui o vivido desta relação nunca acabada entre o presente e o passado”(LE GOFF, 1984, p. 166). Assim, tomando como ponto de referência as sociedades primitivas baseadas na cultura oral, verificamos que a história para estes povos se baseia no mito, uma vez que, para estes sua “fundação” tem como base os mitos de origem que explicam a sua permanência e existência no 44 mundo que habitam. Segundo Le Goff, muitos estudiosos consideram que a evolução destas sociedades consiste na passagem do mito à história, entretanto, o historiador aponta que a ausência da escrita não impossibilita que um povo tenha sua própria história, portanto, não há sociedades sem história. Um exemplo citado por Le Goff é o estudo de Nathan Watchel (1971) sobre as reações da memória dos indígenas à conquista do Peru. Watchel afirma que a conquista não afeta uma sociedade sem história, uma vez que “não se pode imaginar um gênio maligno em história: todos os acontecimentos se produzem num campo já constituído, feito de instituições, costumes, práticas, significações e traços múltiplos que ao mesmo tempo resistem e apoiam a ação humana” (WATCHEL, 1971, p.300). Assim a ideia de que as sociedades ditas primitivas, como os indígenas peruanos, citados no estudo de Watchel, não apresentam a noção de história e consciência histórica deve ser reavaliada. Para Le Goff a conquista do Peru também representou para estes povos uma perda de sua identidade uma vez que, segundo o historiador: A morte dos deuses e do Inca, a destruição dos ídolos constituem um traumatismo coletivo – noção muito importante em história, pelo que lembro aqui ela deve alinhar-se entre as formas principais de descontinuidade histórica: os grandes acontecimentos – revoluções, conquistas, derrotas – são sentidos como traumatismos coletivos. Os vencidos reagem a essa desestruturação, inventando uma práxis reestruturante cuja principal expressão é, neste caso, a Dança da Conquista: é uma restruturação dançada, em termos imaginários, pois as outras formas de práxis falharam. (LE GOFF, 1984, p.193) Analisando ainda este caso dos indígenas peruanos a partir dos estudos de Watchel, Le Goff expõe a noção da consciência histórica dos vencidos e dos vencedores, demonstrando que a história é racional somente para os vencedores e os vencidos a vivem como uma irracionalidade e alienação. Le Goff aponta que “os vencidos formam uma tradição como meio de recusa” (LE GOFF, 1984, p.193), assim, a história dos vencidos é uma forma de se opor e de resistir à história dos vencedores. Para o historiador, essa “outra” história reivindicada por estes povos é uma questão que deve ser avaliada pelos historiadores, pois, segundo Le Goff: (...)por um lado, a tradição é com certeza história e, mesmo que transporte os despojos dum passado longínquo, ela é uma construção histórica relativamente recente, uma reação a um traumatismo político ou cultural e, 45 na maior parte dos casos, aos dois em simultâneo; por outro lado, esta história lenta que encontramos na cultura popular é, com efeito, uma espécie de anti-história, na medida em que se opõe à história ostentatória e animada dos dominadores. (LE GOFF, 1984, p. 194) Dessa forma, a noção de uma história “única” que privilegia somente uma perspectiva – a dos vencedores - precisa ser revista, uma vez que, como apontou Le Goff, a perspectiva dos vencidos também deve fazer parte da historiografia oficial, constituindo-se como uma anti-história. A proposta de Le Goff sobre a existência de uma história dos vencidos e outra dos vencedores contempla as reflexões de Walter Benjamin, que expõe a existência de duas formas de se escrever a história: a dos historicistas e a do materialista histórico. Segundo o pensador alemão, o investigador historicista narra a história a partir da perspectiva com a qual estabelece uma empatia: a do vencedor. A empatia com o vencedor irá beneficiar sempre o ponto de vista dos dominadores acerca dos fatos históricos; por outro lado, a função do historiador que segue a corrente do materialista histórico é a de “escovar a história a contrapelo”, incluindo na História universal a visão dos vencidos. Benjamin aponta que o método do historicismo “culmina legitimamente na história universal” e não apresenta uma armação teórica, uma vez que, se baseia em um processo aditivo dos fatos históricos sem estabelecer entre eles uma relação de causalidade. O pensador alemão expõe que cabe ao materialista histórico construir um novo conceito de historia a partir de uma relação diferente com o passado. Na verdade, o materialista histórico precisa estabelecer uma relação de experiência com o passado: Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo como foi. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. (p.224) Através dessa nova relação com o passado, o materialismo histórico poderá elaborar uma novo conceito de história que inclua a perspectiva dos vencidos, construindo também uma relação de causalidade entre os fatos. A escrita da 46 história, portanto, deve levar em conta diferentes perspectivas para possibilitar o desenvolvimento de uma história universal que não seja mutilada. Escrever a historia se relaciona também com a atividade de narrar um fato, seja ele histórico ou cotidiano. Jeanne Marie Gagnebin (1987) 14 destaca que o estudo de Benjamin desenvolvido em suas Teses Sobre o conceito de História revela não somente uma reflexão sobre o devir histórico, mas uma crítica também ao discurso a respeito da História e das histórias. A escrita da história, dessa forma, faz referência às questões mais amplas da prática e política do desenvolvimento da atividade de narrar um fato. A estudiosa se propõe a analisar as teses de Benjamin sobre a História a partir do questionamento do que seria contar uma história, histórias ou a História. Segundo Gagnebin o estudioso alemão afirma que a historiografia burguesa e a historiografia progressista se baseiam em uma concepção de tempo homogêneo e vazio, um tempo cronológico e linear, assim, o historiador materialista deve buscar no passado os germes capazes de levar em consideração os sofrimentos acumulados e de oferecer uma nova face às esperanças frustradas, fundando um novo conceito de tempo, o tempo de agora cujas principais características são a brevidade e a intensidade. O historiador materialista não deve apontar uma imagem eterna do passado, mas construir uma experiência com o passado. Gagnebin aponta que essa questão é retomada por Benjamin em seus textos da década de 1930 a partir de uma nova problemática, na qual o estudioso alemão expõe o enfraquecimento da experiência no mundo capitalista moderno em detrimento da experiência vivida. Ao problematizar esta questão, Benjamin esboça uma reflexão sobre a necessidade de reconstruir esta experiência para garantir uma memória e uma palavra que sejam comuns; assim, o fracasso da experiência se 14 Gagnebin apresenta este estudo no prefácio do livro de Walter Benjamin, Magia e técnica, arte e política (1987). Nesta obra o pensador alemão discorre acerca da questão da arte de narrar e da historiografia no capítulo “O narrador, considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, citamos as reflexões de Gagnebin por considerarmos que sua análise contribui para nossa exposição sobre as relações entre a escrita da história dos vencidos e a arte de narrar os fatos, que apresentamos ao longo deste capítulo. Contudo, vale ressaltar que a estudiosa baseou-se, principalmente, neste texto de Benjamin e nas teses sobre a História, que o pensador alemão expôs neste mesmo livro, para construir suas reflexões que ora apresentamos. 47 relaciona também com o declínio da arte de contar, apontando para a necessidade de construção de uma nova forma de narratividade. De acordo com Gagnebin, a arte de narrar uma história torna-se cada vez mais rara, pois ela parte da transmissão de uma experiência no sentido pleno, cujas possibilidades de realização já não existem na sociedade moderna. Segundo a autora, Benjamin aponta três condições principais para que este tipo de arte de contar sobreviva nas sociedades: a experiência transmitida pelo relato era comum para o narrador e para o ouvinte; a existência de um caráter de comunidade entre vida e palavra se baseava na organização pré-capitalista do trabalho; a construção da dimensão pratica da narrativa tradicional ocorria a partir da comunidade da experiência. Estas condições demonstram que a arte de narrar se funda a partir de uma outra relação do homem com sua comunidade e com o seu trabalho. Benjamin destaca que nas sociedades pré-capitalistas o homem vivia de uma forma mais harmônica com seus semelhantes e os mais velhos representavam a sabedoria e transmitiam suas experiências vividas aos mais jovens, ao contrario dos tempos modernos nos quais o homem vive cada vez mais só e o rápido desenvolvimento da técnica e do capitalismo já não permite que haja uma comunidade de vida e de discurso entre a maioria das pessoas. As relações do homem com seu processo de trabalho também eram distintas, pois a maioria dos trabalhos eram artesanais, permitindo que o trabalhador desenvolvesse suas atividades em um ritmo mais lento e orgânico e possibilitando que o homem compartilhasse suas diversas experiências, uma vez que havia tempo para contar e ouvir histórias. Cada experiência narrada servia também de exemplo prático para o desenvolvimento da vida em comunidade para cujos membros os idosos e seus conselhos tinham um grande valor. Os apontamentos de Benjamin revelam, portanto, que nas sociedades modernas a arte de narrar se perdeu, uma vez que o homem já não se agrupa em torno de um idoso, tido como depositário da sabedoria, para ouvir suas experiências vividas. Tampouco seu ritmo de trabalho lhe permite travar outra relação com os 48 objetos que produz e aplicar em sua vida prática os conselhos e experiências obtidos em um grupo social do qual faça parte. No mundo moderno, o homem está cada vez mais sozinho e isolado, impossibilitando a manutenção da arte de narrar uma experiência de uma forma tradicional como ocorria nas sociedades précapitalistas. Assim, a autora afirma que: O depauperamento da arte de contar parte, portanto, do declínio da tradição e de uma memória comuns, que garantiam a existência de uma experiência coletiva, ligada a um trabalho e um tempo partilhados, em um mesmo universo de prática e linguagem. (GAGNEBIN, 1987, p.11) A arte de narrar, portanto, dependia de uma serie de fatores que desapareceram no mundo moderno, exigindo assim que surgissem novas formas de narratividade. Benjamin cita outras formas de narrativa que se tornaram predominantes como o jornal e o romance, cuja necessidade fundamental é encontrar explicações para os fatos reais e ficcionais. Dentre os romances modernos, Benjamin destaca a obra de Marcel Proust e Franz Kafka como narrativas que mantêm uma forma diferente de se relacionar com o passado, demonstrando, assim, que houve uma permanência da arte de narrar tradicionalmente um fato, nos tempos modernos. Considerando a proposta de Gagnebin acerca das modificações na arte de contar a partir da análise das teses sobre a História de Walter Benjamin, verificamos que a arte tradicional de narrar um acontecimento se relaciona a uma serie de fatos que já não existem mais nos tempos modernos. Ao falar do fato de contar uma história ou historias, a autora não se refere somente à narração de fatos cotidianos, mas ao processo de elaboração da própria História universal. Os questionamentos da autora revelam a preocupação de Benjamin de que houvesse uma nova forma de o homem se relacionar com seu mundo e com seu passado, criando mecanismos que possibilitassem a narração da História e das histórias a partir de uma nova percepção, na qual o “tempo de agora” pudesse efetuar transformações no presente a partir de um olhar para o passado de opressão no qual viviam certas camadas da população, incluindo novos elementos nesse conjunto de fatos históricos que compõem a História universal. 49 Como expusemos anteriormente, Benjamin busca uma nova concepção de História, uma história que inclua a visão dos vencidos e que busque também estabelecer uma nova relação com o passado. Entretanto, para realizar esta reformulação proposta pelo estudioso alemão, se faz necessário também um novo modo de narrar os fatos; além do mais, será a partir de um novo olhar sobre estes acontecimentos históricos que o homem poderá construir uma história que não seja excludente e fragmentada, mas sim uma história “aberta”, que possibilite diferentes olhares acerca dos fatos históricos. Estes questionamentos sobre uma historia dos vencidos e dos vencedores foram discutidos por vários historiadores. Dentre estes, podemos destacar os estudos de Gordon Brotherston (1997) sobre a América como o “Quarto Mundo” , que propõe que ali a história deve ser baseada não somente na perspectiva tradicional, mas a partir do ponto de vista dos vencidos. Brotherston (1997) aponta que em alguns estudos sobre o mapa-múndi criado pelos povos babilônios e adotado como referência pelos romanos e europeus da Idade Média havia a existência de três mundos: Ásia, Europa e África. Ao ser conquistada pelos europeus, a América passou a ocupar neste esquema a posição de “Quarto Mundo” e a denominação de “Novo Mundo”. Brotherston destaca que essas denominações, assim como a ideia da Europa como “Velho Mundo” e berço das tradições e padrões culturais, se mantiveram até os tempos atuais. Neste contexto, a América teve uma história de exploração sem precedentes e aqueles povos que viviam no continente antes da chegada dos conquistadores europeus passaram a ocupar um espaço marginal dentro das nações. Assim, o teórico destaca que: Como resultado da invasão de ultramar, a América sofreu de maneira única. No curso de uns quatro séculos, seus habitantes originais, que levavam milênios estabelecidos ali e se contavam por muitos milhões, passaram a ser considerados um fator marginal, quando não totalmente prescindível, no 15 destino do continente. (BROTHERSTON, 1997, p.21) 15 No original: “Como resultado de la invasión ultramar, América ha sufrido de manera única. En el curso de unos cuatro siglos , sus habitantes originales, que llevaban milenios establecidos allí y se contaban por muchos millones, han pasado a ser considerados un factor marginal, cuando no totalmente prescindible, en el destino del continente.” 50 A marginalização e em alguns casos, o extermínio total dos indígenas, em alguns países americanos, são fatores que colaboram para a manutenção de certos conceitos que se iniciaram na época da conquista e não sofreram grandes modificações até a atualidade. Brotherston aponta, ainda, o fato de pouquíssimos de nossos países relacionarem os povos indígenas sobreviventes com as raízes profundas da América. Este processo de apagamento do indígena como um dos componentes das raízes da América engloba também a própria construção da historiografia do continente, já que, segundo o teórico, “mais escassa ainda é a historiografia que busca desenterrar suas premissas em forma local, em lugar de corroborar cegamente as versões importadas da historia do planeta”. (BROTHERSTON, 1997, p.22, tradução nossa) A historiografia, portanto, leva em consideração, na maioria dos casos, as versões vindas de “fora”, ignorando a história vista a partir da perspectiva dos povos vencidos que sobrevivem no continente. Brotherston expõe que algumas ciências como a arqueologia e a antropologia buscam resgatar a história, os costumes e cultura destes povos. Dentre as obras que buscam resgatar a cultura indígena, o crítico destaca Mithologiques, de Lévi Strauss. Nesta obra, o antropólogo realiza um importante estudo sobre a cultura dos povos indígenas americanos, analisando, entre outros aspectos, alguns textos produzidos por eles. Ainda que Brotherston reconheça a importância da obra de Strauss para o conhecimento e difusão da cultura indígena americana, o crítico afirma que este estudo deveria levar em conta também o destino real dos sujeitos humanos cuja cultura e hábitos foram investigados. Assim, segundo o teórico: (…) estes dados científicos, ainda que indispensáveis para situar a América em uma perspectiva histórica, necessitam integrar-se às inquietudes políticas e ambientais urgentes, que surgiram com um novo ímpeto em relação com a sobrevivência mesma dos povos indígenas 16 americanos.(BROTHERSTON, 1997, p.23) 16 No original: (…) “ estos datos científicos, aunque indispensables para ubicar a América en una perspectiva histórica, necesitan integrarse a las inquietudes políticas y ambientales urgentes, que han surgido con un nuevo ímpetu en relación con la supervivencia misma de los pueblos indígenas americanos.” 51 Dessa forma, o estudo dessas culturas não deve ser divorciado da realidade na qual vivem estes povos indígenas. Estes estudos de Lévi Strauss, assim como os de outros antropólogos, são destacados por Brotherston como uma das referências para um resgate da história e da cultura indígena americana, no entanto, o crítico aponta que a melhor forma de representar o “Quarto Mundo” são os próprios textos produzidos por estes povos. Desse modo, o crítico afirma que: Depois de tudo, se a função primária dos textos clássicos é construir um espaço político e ancorar a continuidade histórica, resulta mais fácil concentrar-se nos do Quarto Mundo partindo da base de que esse mundo existe. O anterior é ainda mais certo quando estes clássicos se consideram um instrumento para consagrar crenças, por exemplo, em nossas origens como seres humanos ou em nossa dívida com a terra, já que então podem fazer oposição a todo o peso autoritário e prescritivo do dogma bíblico do Velho Mundo (como o entenderam cabalmente os astecas em sua resposta aos franciscanos em 1524) ou o fácil universalismo da ciência 17 ocidental.”(BROTHERSTON, 1997, p.24) O estudo destas obras, então, é fundamental não somente para o conhecimento do “Quarto Mundo” e de sua cultura, mas também para a construção de uma nova forma de interpretar nossa realidade e nosso passado, presente e futuro. Brotherston aponta que o estudo acerca dos textos e da literatura do “Quarto Mundo” leva em conta os conceitos do meio literário ocidental, o que gera uma série de inadequações aplicadas à riqueza dos textos produzidos por estes indígenas americanos. Assim, a literatura e os textos produzidos por estes povos foram vistos de uma forma fragmentada, definida a partir de uma perspectiva exterior, “importada” de outra concepção de literatura, a concepção ocidental. O crítico assinala que, devido a estas formas de interpretação da literatura indígena a partir de uma perspectiva ocidental: 17 No original: “Después de todo, si la función primaria de los textos clásicos es construir un espacio político y anclar la continuidad histórica, resulta más fácil concentrarse en los del Cuarto Mundo partiendo de la base de que ese mundo existe. Lo anterior es todavía más cierto cuando estos clásicos se consideran un instrumento para consagrar creencias, por ejemplo, en nuestros orígenes como seres humanos o en nuestra deuda con la tierra, ya que entonces pueden contrarrestar todo el peso autoritario y prescriptivo dogma bíblico del Viejo Mundo (como lo entendieron cabalmente los aztecas en su respuesta a los franciscanos en 1524) o el fácil universalismo de la ciencia occidental.” 52 (…) ignoraram-se categorias inteiras de representação, junto com maneiras de configurar o tempo e o espaço que justificam a colocação e enumeração de cada detalhe. Ao usar estas linguagens, a visual e a verbal, poder-se-ia dizer que o texto pode construir o mundo tal como se constrói a si mesmo, de maneira que sua auto definição ou ontologia corrobore a 18 autodeterminação política. (BROTHERSTON, 1997,p.25) Os textos literários destes povos são, então, uma ferramenta fundamental para conhecermos a sua concepção de mundo e seu ponto de vista dos fatos históricos dos quais eles participaram desde a conquista até os momentos atuais. Brotherston assinala que muitos povos indígenas americanos reivindicam seus direitos relacionando as explorações que sofrem atualmente com as condições de opressão que fazem parte de sua realidade desde a época da conquista. Assim, o crítico cita o encontro de povos indígenas americanos que ocorreu em Quito, no ano de 1990. Nesta conferencia discutiram-se os “500 anos de resistência índia” e os rumos do mundo atual. Sinalizando uma gradativa destruição do mundo que se iniciou na conquista e permanece nos tempos atuais, os indígenas debateram sobre a própria sobrevivência da humanidade a partir de sua perspectiva de mundo cujas bases são a noção da terra como “matriz” do homem e a conservação dos recursos naturais. Esta reunião em Quito estabeleceu uma ideia de continuidade entre os fatos ocorridos antes e depois da conquista da América e entre “histórias conhecidas cujos inícios são muito anteriores a Colombo e se afirmam frente às insistentes tentativas do Ocidente por cercear e dividir.”(BROTHERSTON, p.26, tradução nossa). O crítico destaca que a sobrevivência dessas culturas, assim como de textos que resgatam histórias da época pré-colombiana, sobreviveram apesar de todos os enfrentamentos vividos pela população indígena desde a conquista da América até os dias atuais. Segundo o estudioso, atualmente há um reconhecimento por parte dos órgãos nacionais e internacionais da importância destes textos e dessa cultura; 18 No original: (…) “se han ignorado categorías enteras de representación, junto con maneras de configurar el tiempo y el espacio que justifican la colocación y enumeración de cada detalle. Al usar estos lenguajes, el visual y el verbal, podría decirse que el texto puede construir el mundo tal como se construye a sí mismo, de manera que su autodefinición u ontología corrobore la autodeterminación política.” 53 assim, as políticas educativas também começaram a se modificar, de modo que “a tendência generalizada à integração começa a ver-se deslocada por uma nova consciência da linguagem e da memória do Quarto Mundo”.(BROTHERSTON,p.27, tradução nossa) Podemos relacionar as discussões propostas por Brotherston e Gagnebin sobre esta oposição entre a historia dos vencidos e a dos vencedores, partindo também do questionamento de que os “silêncios” deixados na historiografia oficial são consequência das lutas de poder entre as classes sociais pelo domínio da memória coletiva. Na mesma linha, Le Goff aponta que: (...) a memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva. (LE GOFF,1984, p.13) A memória coletiva, dessa forma, desempenha um papel fundamental na escritura da história, pois cada fato silenciado e cada lacuna deixados por esta memória representam uma parte da história que permaneceu esquecida, contribuindo para a escrita de uma história mutilada, na qual a versão dos vencedores segue sendo privilegiada. Esta reivindicação por uma “outra” história também fez parte da luta política de Scorza e do processo de escrita de sua pentalogia La guerra silenciosa. Em um artigo no qual analisa as relações entre crônica, historiografia e imaginação na obra de Scorza, Consuelo Hernández (1995) aponta que o peruano apresenta um ponto de vista múltiplo ao longo de sua obra, já que se declara “narrador testemunho que denuncia, narrador protagonista que e narrador autor implícito que dá conta da luta das populações andinas do Peru” (HERNÁNDEZ, 1995, p.151, tradução nossa). Scorza desenvolve sua narrativa seguindo o modelo da crônica, pois apresenta os fatos na ordem em que ocorrem nas décadas de 1950 e 1960 e dá notícia de um mundo desconhecido. Hernández afirma que, como cronista, o peruano desenvolve: (...) um jogo de representações que ocorre anonimamente entre os homens: a sub-história, os jornais locais, os volantes, os comentários efêmeros, os fracassos e êxitos fugitivos de autores com nomes, porém anónimos: ninguém os conhece. Ao incluir nos seus registros os acontecimentos que 54 gera a grande maioria, paradoxalmente, conta a “história dos anexos e das margens”, fechando assim a brecha, o grande abismo que deixa a História oficial, escrita por e para a classe dominante, essa história que cala fatos inconfessáveis para não desprestigiar sua “autoridade.” (...) (HERNÁNDEZ, 19 1995, p.151, tradução nossa) A obra do peruano, então, é uma tentativa de contar outra versão da História oficial, demonstrando as diferentes perspectivas que existem acerca dos fatos históricos. Reivindicar pela construção da história dos vencidos é lutar também pela sobrevivência de sua memória, assim, Scorza declara em uma de suas entrevistas que sua obra foi uma forma de manter viva a memória daqueles que ficaram à margem do discurso da História oficial. Segundo o peruano: Eu dotei de uma memoria aos oprimidos do Peru, aos índios do Peru que eram homens invisíveis da história, que eram protagonistas anónimos de uma guerra silenciosa, e que têm hoje uma memoria: possuem estes cinco livros nos quais podem apoiar-se e combater. Têm essa memoria, está dada já irreparavelmente e não se poderá apagar nunca, porque a adotaram inclusive os povos em combate; esse é um dos feitos mais emocionantes para mim como escritor. Inclusive lhe direi uma coisa: há grupos políticos no Peru que incluíram em seu ideário o fato de que suas lutas estão contadas em meus livros: é algo, eu diria, sem precedentes. Ao mesmo tempo, estes livros circularam no mundo, e isto não impediu que neste momento estivessem traduzidos para trinta e seis idiomas ou trinta e oito idiomas. Foi um mistura de realidade, fantasia e documento que fez algo explosivo em 20 nível de realidade. (PERLADO, 1979, p.9, tradução nossa) 19 No original: (…) “ se ocupa de un juego de representaciones que corre anónimamente entre los hombres: la subhistoria, la de los periódicos locales, los volantes, los comentarios efímeros, los fracasos y éxitos fugitivos de autores con nombres y sin embargo anónimos: nadie los conoce. Al incluir en sus registros los acontecimientos que genera la gran mayoría, paradójicamente, cuenta a la ‘historia de los anexos y de los márgenes’, cerrando así la brecha, el gran abismo que deja la historia oficial, escrita por y para la clase dominante, esa historia que calla hechos inconfesables para no desprestigiar su ‘autoridad’.” 20 No original: “Yo he dotado de una memoria a los oprimidos del Perú, a los indios del Perú que eran hombres invisibles de la historia, que eran protagonistas anónimos de una guerra silenciosa, y que tienen hoy una memoria: poseen estos cinco libros en los cuales pueden apoyarse y combatir. Tienen esa memoria, está dada ya irreparablemente y no se podrá borrar nunca, porque la han adoptado incluso los pueblos en combate; ese es uno de los hechos más emocionantes para mí como escritor. Incluso le diré una cosa: hay grupos políticos en el Perú que han incluido en su ideario el hecho de que sus luchas están contadas en estos libros; es algo, yo diría, sin precedentes. Al mismo tiempo, estos libros han circulado en el mundo, y esto no les ha impedido que en este momento estén traducidos a treinta y seis o treinta y ocho idiomas. Ha sido una mezcla de realidad, fantasía y documento que ha hecho algo explosivo a nivel de la realidad.” 55 A sobrevivência da memória coletiva, como demonstra a fala de Scorza, é uma das ferramentas de luta por uma nova versão da História oficial. Seus livros buscam representar a memória dos vencidos silenciada ao longo dos séculos pela História oficial. Ao retratar estas lutas Scorza expôs um outro lado da realidade peruana e, até mesmo, um outro “Peru”, na medida em que sua obra revela também a cosmovisão do homem andino e sua luta secular pela sobrevivência de sua história e sua cultura. O estudo da memória coletiva, portanto, está relacionado à história, contudo, Le Goff apresenta alguns fatores que serão importantes para que estes dois termos sejam entendidos nas sociedades de cultura oral ou sociedades primitivas. Baseando-se no estudo de Nadel sobre os povos Nupe da Nigéria, Le Goff afirma que para as sociedades primitivas há dois tipos de história: a objetiva e a ideológica. Segundo o historiador, a história objetiva é “a série de fatos que nós, investigadores, descrevemos e estabelecemos com base em certos critérios objetivos universais no que respeita às suas relações de sucessão” (LE GOFF, 1984, p.14) e a história ideológica é aquela que “descreve e ordena esses fatos de acordo com certas tradições estabelecidas” (LE GOFF, 1984, p.14). Esta última representa para os povos primitivos a sua memória coletiva e confunde o mito e a história, voltando-se para os mitos de origem e tornando a história “um cantar mítico da tradição”. Nestas sociedades, a memória coletiva volta-se com maior interesse para os conhecimentos práticos e técnicos do saber profissional e também para o seu passado ancestral. Como estes povos não desenvolveram a escrita, a memória coletiva é conservada por especialistas da memória ou homens-memória21. Estes homens desempenham um papel fundamental para a preservação da memória coletiva ou história ideológica dessas sociedades e são, geralmente, “genealogistas, guardiões dos códices reais, historiadores da corte, tradicionalistas, chefes de família idosos, bardos e sacerdotes” (LE GOFF, 1984, p.15) que assumem esta função, tornando-se, assim, os responsáveis pela coesão do grupo social. 21 Como veremos no quarto capítulo de nosso trabalho, uma das funções principais do cavaleiro insone será a de guardar a memória de seu povo, caracterizando-se como um homem-memória de sua comunidade. 56 Embora a existência dos homens-memória marque a permanência da memória coletiva, Le Goff aponta que a transmissão desta não se dava palavra por palavra, de uma forma mecânica. Para estes povos, a memória coletiva não necessitava ser relembrada com exatidão, dessa forma, há pouquíssimos registros acerca de processos mnemotécnicos com o objetivo de reproduzir esta memória. Le Goff aponta que: Segundo Goody, o suporte da rememorização não se situa ao nível superficial em que opera a memória da palavra por palavra, nem ao nível das estruturas profundas que numerosos mitólogos encontram... Parece pelo contrário que o papel importante cabe à dimensão narrativa e a outras estruturas da história cronológica dos acontecimentos. Assim, enquanto que a reprodução mnemônica palavra a palavra estaria ligada à escrita, as sociedades sem escrita, excetuando-se certas práticas de memorização variantes, das quais a principal é o canto, atribuem à memória mais liberdade e mais possibilidades criativas. (LE GOFF, 1984, p. 15) A memória coletiva nestas sociedades, portanto, apresenta uma liberdade criativa que a renova, tornando-a sempre viva para o grupo social que a conserva. Assim, podemos verificar que este tipo de memória nas sociedades primitivas se assemelha à memória coletiva definida por Halbwachs, na medida em que apresenta uma maior liberdade criativa e não se prende a divisões temporais exatas; por outro lado, se diferencia dela, já que representa também a história ideológica destes povos. O processo de memorizar um determinado fato tem sua origem na Antiguidade Clássica e aquele com a capacidade de fazê-lo era considerado um homem especial, com características quase divinas. Em seu estudo sobre a memorização ou “arte da memória”, Frances Yates (2007) expõe que a mnemônica ou “arte da memória” já figurava na obra clássica de Cicero, De oratore, como uma das cinco partes da Retórica. A arte da memória era uma técnica que possibilitava ao orador romano proferir longos discursos de cor com grande precisão. A partir de algumas regras para aprimorar a memória, os processos mnemônicos se baseavam no princípio de que para imprimir determinados fatos ou objetos na memória é necessário que se faça uma associação entre estes elementos e uma determinada imagem ou lugar no qual eles estivessem localizados. 57 Assim, a mnemônica se associaria com a capacidade do indivíduo de relacionar um determinado fato ou objeto a uma imagem ou local dentro de um grande espaço, a priori, memorizado. Yates destaca que “devemos pensar no orador antigo, movendo-se em imaginação, durante seu discurso, através de sua edificação construída na memória, extraindo dos lugares memorizados as imagens ali colocadas” (YATES, 2007, p.20). O processo mnemônico, então, se relacionava, segundo a proposta do estudioso clássico Cícero, à capacidade de relacionar fatos ou objetos a imagens, o que demonstra o papel fundamental do sentido da visão para a memorização. A arte da memória funcionava como uma das partes da Retórica e, desse modo, foi estudada e discutida por vários estudiosos romanos como Cícero e Quintiliano, assim como alguns estudiosos gregos. A estudiosa destaca o papel fundamental da obra clássica romana Ad Herennium cuja autoria é desconhecida, para o estudo da memória e dos processos mnemônicos. Ad Herennium era um grande tratado sobre a retórica e tinha como uma de suas partes principais o estudo sobre a memória, avaliada como uma ferramenta essencial para o conhecimento do orador. Neste tratado, expõe-se a existência de dois tipos de memória: a natural e a artificial. A memória natural seria aquela que se origina ao mesmo tempo que o pensamento e é inserida em nossas mentes. A memória artificial é aquela que se reforça e se consolida pelo treinamento, tendo como fundamento principal a associação entre lugares e imagens. Assim, o lugar é apreendido pela memória e as imagens são formas e símbolos daquilo que queremos recordar. Então, se queremos nos lembrar de um determinado animal, como um cachorro ou um gato, devemos colocar suas imagens em lugares definidos, possibilitando que a associação entre o lugar e a figura do animal traga à nossa memória a imagem do animal que desejamos lembrar. Os processos mnemônicos são, como sinaliza Yates, uma “escrita interior”, já que, assim como um indivíduo que conhece as letras do alfabeto pode escrever e ler o que escreveu, aquele que aprende a “arte da memória” pode colocar em locais específicos aquilo que ouviu e falar de memória. 58 Além da relação que se deveria estabelecer entre lugar e imagens, o autor do tratado Ad Herennium aponta a importância de algumas regras para a memorização de imagens. Segundo o estudioso, nossa memória não teria a capacidade de armazenar todos os fatos corriqueiros de nosso cotidiano, portanto, devemos fazer uma seleção deles. Isto significa dizer que armazenaríamos em nossa memória fatos marcantes de nossa vida e da sociedade onde vivemos, enquanto os mais simples seriam facilmente esquecidos. Segundo o autor, para memorizarmos uma determinada imagem devemos nos ater a algumas regras. O estudioso aponta que: Agora a própria natureza nos ensina o que fazer. Quando vemos em nosso cotidiano coisas triviais, comuns, banais, geralmente falhamos em nos lembrar delas, porque a mente não é estimulada por algo novo ou excepcional. Mas se vemos ou ouvimos algo indigno, desonroso, incomum, grande, inacreditável, ou ridículo, disso conseguimos nos lembrar por muito tempo. Assim, coisas próximas de nossos olhos e ouvidos tendemos a esquecer; é frequente nos lembrarmos melhor, por exemplo, de incidentes de nossa infância. Isso acontece porque coisas comuns facilmente fogem da memória, ao passo que as coisas surpreendentes e novas permanecem por mais tempo nela. (...) Devemos, então, criar imagens capazes de permanecer por mais tempo na memória. E conseguiremos isso se estabelecermos semelhanças as mais impressionantes possíveis; se não criarmos imagens em demasia vagas, mas ativas(...) (YATES, 2007,p. 26) Para criarmos imagens que nos façam recordar determinado fato ou objeto devemos, então, atentar para o fato de que estas imagens precisam apresentar características marcantes que possibilitem sua fácil absorção por nossa mente. O tipo de imagem auxiliar no processo de mnemônica que destacamos até agora servia para se recordar de coisas ou fatos. O tratado Ad Herennium cita também imagens que ajudariam na “memória para palavras”. O orador contaria com as mesmas técnicas utilizadas na “memória para coisas ou fatos” que descrevemos, entretanto, sua tarefa seria mais complexa já que para memorizar todas as palavras de um discurso seria necessário criar mais “lugares” associados a cada palavra que desejasse recordar. Yates aponta que o tipo de imagem da “memória para palavras” é igual ao da “memória para coisas”, ou seja, os dois representam “figuras humanas de caráter incomum e impressionante em situações de grande força dramática”. (YATES, 2007, p.30) O processo para a memorização de palavras contaria, não somente, com esta 59 associação entre imagens e lugares, mas deveria levar em conta também a memorização do discurso, ou seja, o orador deveria aprender de cor o poema ou o texto que quisesse recitar. Os processos de mnemônica foram objeto de estudo não somente de pensadores romanos da Antiguidade, mas também de alguns pensadores gregos como Aristóteles e Platão. Yates aponta que as principais contribuições do pensamento de Aristóteles para o estudo dos processos mnemônicos encontram-se em sua obra De anima. Nessa obra o pensador grego expõe sua teoria sobre a memória e a reminiscência baseando-se em sua teoria sobre o conhecimento. Aristóteles destaca que as percepções trazidas pelos nossos cinco sentidos são, a princípio, trabalhadas pela imaginação e são as imagens formadas que se convertem no material da faculdade intelectual do indivíduo. A imaginação seria, então, uma parte intermediária entre a percepção e o pensamento. Desse modo, ainda que o conhecimento seja derivado de impressões sensoriais, não é a partir delas que o pensamento funciona, mas depois de essas impressões terem sido trabalhadas pela faculdade da imaginação ou absorvidas por ela. Assim, Yates sinaliza que “é a parte da alma que produz imagens que torna possível o trabalho dos processos mais elevados do pensamento”(YATES, 2007, p.53). Yates aponta que a escolástica e a tradição da memória estabeleciam um ponto de contato entre a teoria mnemônica e a teoria do conhecimento de Aristóteles. Segundo a teórica: Esse ponto de contato consiste justamente na importância dada por ambas à imaginação. A afirmação de Aristóteles de que é impossível pensar sem uma imagem mental sempre é citada para sustentar o uso das imagens na mnemônica. E o próprio Aristóteles emprega as imagens da mnemônica como uma ilustração do que diz imaginação e pensamento. Pensar, diz ele, é algo que podemos fazer sempre que quisermos, “já que é possível dispor as coisas diante de nossos olhos, como aqueles que inventam sistemas de memória e constroem imagens”. (YATES, 2007, p.53) As relações entre a teoria aristotélica do conhecimento e a teoria dos processos mnemônicos são baseadas, como expôs Yates, no papel central da imagem para o armazenamento de objetos e fatos em nossa mente. Memorizar um fato, assim como pensar acerca de determinado assunto, são ações que requerem a 60 associação entre o objeto de nosso pensamento e de nossa memorização e uma determinada imagem em nossa mente. Platão, diferenciando-se da teoria de Aristóteles, crê na existência de um conhecimento não derivado de nossas impressões sensoriais. Para o filósofo esse conhecimento existe latente em nossa memória e seriam as formas ou moldes das Ideias e realidades que a alma conheceu antes de descer para o mundo terreno. Assim, Yates aponta que para o filósofo grego “o verdadeiro conhecimento consiste em experimentar as marcas das impressões da realidade superior, da qual as coisas são apenas reflexos”. (YATES, 2007, p.57) Para Platão a retórica tinha como função principal persuadir os homens a conhecerem a verdade cujo processo dar-se-ia através da rememoração e da lembrança das Ideias já vistas pela alma e das quais as coisas terrenas são cópias. Todo conhecimento e aprendizado são, portanto, tentativas de recordar as realidades percebidas pela alma no mundo das Ideias. A retórica, então, é vista como uma arte de dizer a verdade e persuadir aqueles que nos escutam. Para conseguir realizar esse feito é necessário um conhecimento verdadeiro da alma, obtido através da rememoração das Ideias. A memória, em suma, não seria uma parte da retórica, mas o fundamento do todo, de acordo com o pensamento de Platão. As reflexões de Platão acerca da memória e da capacidade da alma de recordar e memorizar realidades vistas no mundo das Ideias conferiram um poder divino ao ato de memorização e recordação: o orador capaz de persuadir seus ouvintes seria aquele que conseguisse recordar e tivesse impressa em sua alma a verdade presente no mundo ideal platônico. Os estudos desenvolvidos por Cícero e outros estudiosos latinos sobre a memorização levaram em conta as contribuições da teoria platônica sobre a memória e o ato de memorização. O orador capaz de memorizar e recordar era um homem que apresentava um grande destaque e prestígio social na Antiguidade. Outro estudioso sobre a questão da memória e da alma destacado por Yates é o professor latino de retórica, Santo Agostinho. Em suas Confissões, o estudioso discorre sobre o poder divino de nossa alma para recordar fatos vistos no mundo das Ideias e a importância da associação entre as imagens e os lugares 61 relacionados a elas em nossa mente para a memorização. Dialogando com as propostas de Cícero e Platão acerca da memória e dos processos de memorização, Agostinho conferia à memória, segundo aponta Yates, a “honra suprema de ser um dos três poderes da alma: Memória, Intelecto e Vontade, que são a imagem da Trindade no ser humano” (YATES, 2007, p.71). A partir das considerações de Yates acerca dos processos de memorização e da memória, podemos observar o poder divino conferido à memória e a arte de memorizar fatos e palavras. Na Antiguidade clássica aquele que recordava tinha o conhecimento da verdade e a capacidade de persuadir seus ouvintes sobre determinado assunto, a mnemônica era uma arte usada na retórica, mas, como apontou Yates, passou a ser considerada não somente parte desta ciência, mas o próprio fundamento de todo conhecimento. Ao longo desta seção vimos que a história apresenta diferentes versões. A escrita da história dos vencidos, em muitos casos, dependerá da sobrevivência da memória coletiva. Este processo de escrita se relaciona também com a forma como cada sociedade narra seu passado e concebe a noção de tempo. Como veremos na próxima seção, memória, história e tempo são termos que se complementam e revelam a cosmovisão de cada sociedade e sua forma de construir seu passado e compreender seu presente e futuro. 3.3. O tempo mítico, o tempo histórico e suas implicações na escrita da História Enrique Dussel (1992) discute as diferentes atribuições dadas para a descoberta da América, assinalando que cada proposta defendida indica uma postura ideológica a respeito de algumas questões que envolvem este fato histórico: a relação entre o eu e o outro, a sobreposição de uma cultura à outra, a dicotomia civilização e barbárie, etc. Dussel (1992) destaca que o descobrimento da América foi um processo histórico que envolveu uma longa trajetória do que o ‘ser americano’ chegou a significar para o europeu. Ao longo desse período, a Europa, a partir de sua posição 62 de ‘centro’, começou a descobrir a América, definindo novos sentidos para a terra descoberta. A América passou a ser o ‘Novo Mundo’, mítico e especular, o território onde estão os desejos não cumpridos do ‘Velho Mundo’. O descobrimento veio atrelado à conquista 22 violenta da América, justificada por um projeto de expansão do cristianismo que significou a expansão também de um sistema político, econômico e cultural. A conquista da América foi alvo de diversas interpretações pelos críticos e pelas sociedades. Dussel destaca que dentre as várias formas de interpretação deste evento, a definição de ‘encontro de culturas’ seria a menos problemática, já que leva em conta não somente a cultura ocidental, mas busca conciliá-la com as diferentes culturas que aqui existiam antes da chegada dos europeus. Essa postura conciliadora apresenta, no entanto, uma grande ambiguidade, já que a conquista foi um processo violento no qual houve a morte de milhares de povos autóctones que habitavam a região e a imposição da cultura ocidental em detrimento da cultura indígena. Segundo Dussel: Na realidade, a cultura europeu-ibérica truncou as culturas autóctones, que sobreviveram somente mimetizadas em elementos dispersos de cultura, que rapidamente somente sobreviverão no folclore, na cultura popular dominada – e em extinção, se não se produz uma revolução popular cultural como aquela tentada na Nicarágua pelo Ministério de Cultura no tempo de um Ernesto Cardenal, por exemplo.” (DUSSEL, 1992, p.19, tradução 23 nossa) A conquista, portanto, não foi um encontro de culturas, mas a sobreposição de uma cultura sobre a outra. Assim como também apontou Leopoldo Zea (1983), a cultura latino-americana apresenta elementos das duas culturas, a europeia e a autóctone, no entanto, estas culturas ao longo de nossa história, “longe de assimilar22 Segundo a proposta de Enrique Dussel, a conquista é “un modo de la praxis, praxis de dominación, por medio de las armas”, por isso, preferimos utilizar este termo para definir o processo histórico que explanamos neste capítulo. 23 No original: “En realidad, la cultura europeo-ibérica tronchó las culturas autóctonas, que subsistieron sólo mimetizadas en elementos dispersos de cultura, que pronto sólo sobrevivirán en el folklore, en la cultura popular dominada – y en extinción, si no se produce una revolución popular cultural como la intentada en Nicaragua por el Ministerio de Cultura en el tiempo de un Ernesto Cardenal, por ejemplo.” 63 se se justapuseram”. Este processo fez com que houvesse a imposição de uma cultura considerada superior em detrimento de outra, a autóctone, vista como inferior. A cultura ocidental, europeia, seria vista pela grande maioria da sociedade latino-americana, ao longo de nossa história, como um modelo que deveria ser adotado por todos. A chegada dos conquistadores significou, então, uma interferência violenta na cultura e, consequentemente, na forma como os povos autóctones concebiam a realidade. Dussel destaca que no ano de 1492 marca o início da modernidade na história latino-americana, dessa forma, os povos que viviam aqui passaram por um processo profundo de transformações em todos os âmbitos de sua vida. Serge Gruzinsky (2001) aponta que com a chegada dos europeus houve não somente uma desestruturação dos espaços ocupados por estes povos, mas também uma desestruturação que era resultante das diferentes temporalidades que se chocavam. O crítico destaca que neste período as temporalidades apareciam como elas são, ou seja, como “construções próprias a cada universo, representações da passagem do tempo, expressas por instituições, ritos e técnicas de medição”(GRUZINSKY, 2001, p.71). Nas sociedades pré-hispânicas a contagem dos tempos apresentava um lugar fundamental na cosmologia e era um elemento de grande importância. Os calendários desenvolvidos por estas sociedades marcavam a passagem do tempo para indicar a sucessão ininterrupta das festas que davam ritmo ao ano indígena. Com a chegada dos conquistadores e a proibição das festas indígenas e de outras práticas religiosas, os indígenas passaram a viver em um vazio crescente. Em alguns anos, eles se viram privados dos elementos que utilizavam para marcar a passagem do tempo e deixaram de exercer sobre ele uma influência. Dessa forma, “o Tempo – ou, mais exatamente, o que lhe correspondia entre os índios- se pulverizava.” (GRUZINSKY, 2001, p.72) A chegada dos europeus foi, para muitos povos que viviam no continente, um sinônimo de desordem e caos. Se tomarmos como referência os povos indígenas no Peru, o historiador peruano Alberto Flores Gallindo, em seu estudo sobre a utopia andina, revela que para a maioria dos homens andinos a conquista foi a inversão da ordem do mundo. Para o homem andino, o cosmos se dividia em duas partes: o 64 mundo de cima e o mundo de baixo. Esta ordem do cosmos se repetia em outros níveis, como a capital do império, Cusco, cuja divisão consistia no bairro de cima e no bairro de baixo. Esta divisão em metades podia ser encontrada em diferentes comunidades do império, como na delimitação do próprio império inca, dividido em quatro partes que eram opostas e necessárias, representando, assim, a dualidade da concepção de mundo do homem andino. A manutenção dessas partes e o seu equilíbrio eram a garantia de que tudo funcionava na mais perfeita ordem. A conquista representou uma alteração desse equilíbrio, pois os espanhóis poderiam unir-se a uma dessas metades, no entanto, a relação que estabeleceram com os indígenas foi marcada pela imposição e pela assimetria. Os espanhóis impuseram uma religião, o cristianismo, que exigia entrega e sacrifícios, mas não acatava as regras de reciprocidade segundo a concepção de mundo dos indígenas andinos. Através da imposição de uma cultura sobre a outra, os espanhóis interferiam na vida cultural, política, econômica e social das sociedades autóctones. As sociedades que se formavam a partir dessa interferência foram caracterizadas por Gruzinsky como “zonas estranhas” por apresentarem uma grande instabilidade em seu corpo social. Dessa forma, não havia grupos sociais coesos, mas formações sociais que eram herdeiras de uma justaposição cultural violenta. O período histórico iniciado pela Conquista interferiu de forma duradoura no modo de vida das sociedades latino-americanas. Vários fatos contribuíram para esta intervenção, como o enfraquecimento das dinastias indígenas, as epidemias, a proibição das manifestações públicas de idolatria e a exploração desenfreada dos indígenas. Esses povos foram, portanto, perderam suas referências culturais pouco a pouco. Esta perda não se restringiu aos indígenas, ela também foi vivenciada pelos espanhóis que se encontravam no continente. Gruzinsky destaca que: Para todos, inclusive os índios, deu-se, em todos os sentidos da palavra, um fenômeno de distanciamento, físico e psíquico. Pela força das circunstâncias, cada um teve de ‘recuar’ de seu meio de origem, fosse esse os campos andaluzes, as costas da África ou as do México anterior à Conquista. Outros fenômenos parecidos tiveram efeitos igualmente perturbadores. Vários elementos dos universos tradicionais ou da Europa ocidental perderam o sentido que lhes era atribuído originalmente. Os objetos que transitavam de um mundo a outro acabavam cortados da memória de que eram portadores; sua circulação entre os grupos 65 dissociava-os da tradição e , às vezes, do poder que continham. O mesmo aconteceu com todos os tipos de práticas e crenças. (GRUZINSKY, 2001, p.83) A adoção de uma nova religião, assim como a de inúmeras outras técnicas trazidas pelos espanhóis causaram modificações na forma como os indígenas organizavam as informações e na sua própria noção de temporalidade. A substituição dos antigos códices pela escrita alfabética, pelo manuscrito e o livro trouxe uma nova relação com a informação. A adoção da escrita alfabética também mudou a forma de selecionar e montar as informações, impondo um modo de narração linear. A imposição de novos modos de vida levou os informantes indígenas a elaborar raciocínios e explicações materialistas para os fatos. Gruzinsky assinala que estas declarações revelam a “pressão constante exercida pelos novos tempos sobre as representações das populações vencidas”. (GRUZINSKY, 2001, p.86) O choque provocado pela Conquista foi suficiente para abalar alguns hábitos arraigados ao longo do tempo, gerando a dúvida, a ambiguidade e a indecisão. A perda de referências modificou as condições e o conteúdo da comunicação entre os grupos sociais que conviviam neste período. Essas perdas tiveram como resultado uma deficiência constante nas trocas que podiam ocorrer entre estes grupos, já que “não eram culturas se encontrando, mas fragmentos de Europa, América e África. Fragmentos e estilhaços que, em contato uns com os outros, não ficavam intactos por muito tempo.” (GRUZINSKY, 2001, p.87) Enquanto os conquistadores da América espanhola se preocuparam em anexar pelas armas todas as regiões do continente americano, a Igreja trabalhou para implantar nestes territórios conquistados os modos de vida que a Europa havia elaborado ao longo dos séculos. A estes processos de imposição da cultura ocidental sobre a cultura das sociedades autóctones, Gruzinsky define como ocidentalização. Segundo o crítico: A ocidentalização cobre o conjunto dos meios de dominação introduzidos na América pela Europa do Renascimento: a religião católica, os mecanismos do mercado, o canhão, o livro ou a imagem. Assumiu formas diversas, quase sempre contraditórias, às vezes até em franca rivalidade, já que foi a um só tempo material, política, religiosa – caso da ‘conquista espiritual’ – e artística. (...) Em sua versão castelhana, a ocidentalização operou, em vagas sucessivas entre os séculos XVI e XIX, a transferência para o outro 66 lado do Atlântico dos imaginários e das instituições do Velho Mundo. Foi uma empreitada colossal. Sob outras aparências, com outros conteúdos, objetivos e ritmos, a ocidentalização prosseguiu até os dias de hoje, ganhando progressivamente o conjunto do globo. (p.94) A conquista da América representou, portanto, uma dominação social, política e cultural dos povos autóctones. Como apontou Gruzinsky, este processo iniciado neste período histórico do continente americano não se restringiu ao século XVI, mas sobreviveu ao longo do tempo, demonstrando que estes conflitos ainda são latentes em diversos países latino-americanos. Como destacou Gruzinsky, a dominação espanhola interferiu de modo violento na vida dos povos autóctones que viviam aqui. Assim, a chegada dos espanhóis significou uma perda das referências e concepção de mundo dos indígenas. Uma das interferências citadas pelo crítico foi a introdução de uma forma de narração linear dos acontecimentos. Este fato chama a atenção também para a maneira como estes povos organizavam e entendiam o tempo. A noção de tempo24 integrava a cosmovisão dos povos autóctones, no entanto, não há uma unanimidade entre os críticos para defini-la. Franklin Pease, em sua obra El pensamento mítico, destaca que a noção de tempo para os povos andinos poderia ser classificada como cíclica, com sucessivas renovações do mundo. Assim, o período de tempo no mundo andino se dividia em ‘idades’. Cada ‘idade’ era precedida por um período de caos e renovada com a chegada de um deus civilizador e ordenador do mundo. Essas idades se repetiam ao longo do tempo e representavam uma renovação constante do mundo andino. Esta recriação constante do mundo presente na cultura andina nos remete ao estudo de Mircea Eliade em sua obra Mito y realidade (1991) , sobre a forma como as sociedades tradicionais interpretavam a realidade. O mitólogo aponta que nestas sociedades o mito era o elemento ordenador da realidade. A partir do seu conhecimento, o homem poderia controlar e compreender o mundo que o cercava. Segundo o estudioso, o mito conta uma história sagrada, um acontecimento que teve espaço no tempo primordial do começo do mundo. O mito narra as 24 Citaremos em nosso trabalho apenas as noções de tempo mítico e histórico, segundo as propostas de Mircea Eliade e Walter Benjamim. 67 façanhas de seres sobrenaturais para que uma realidade tenha passado a existir, seja ela o mundo que nos cerca ou uma ilha, um comportamento humano ou uma instituição. Dessa forma, o mito é sempre o relato de uma criação efetuada por seres sobrenaturais que são conhecidos por terem praticado tais atos no tempo sagrado dos ‘começos’. Os mitos revelam, portanto, uma atividade criadora e descrevem as irrupções do sagrado ou do sobrenatural no mundo. Este surgimento do sagrado fundamenta o mundo e faz com que ele se constitua como é nos tempos atuais. O homem, então, é um ser mortal, sexuado e cultural devido às intervenções dos seres sobrenaturais no começo do mundo. Uma das funções principais do mito é revelar os modelos exemplares de todas as atividades humanas significativas como a alimentação, o casamento, o trabalho, a educação, a arte e a sabedoria. Assim, cada ser sobrenatural é um modelo ideal a ser seguido pelo homem das sociedades tradicionais. Nelas, o mito apresenta algumas características principais como: a) constituir a história das ações dos seres sobrenaturais cujas aventuras são consideradas verdadeiras porque se referem a realidades e sagradas porque são obras dos seres sobrenaturais; b) fazer referência a uma criação que oferecerá o paradigma para todos os atos humanos, pois o conhecimento do mito revela a origem das coisas fazendo com que seja possível dominá-las; c) reger a vida do homem tradicional. Assim, vive-se o mito, já que o homem está dominado pela potência sagrada que exalta e rememora os acontecimentos. Viver os mitos confere à experiência do homem no mundo um caráter religioso, já que sua vivência é diferente da experiência ordinária e está cercada pela religiosidade que é obtida através da reatualização dos acontecimentos significativos dos seres sobrenaturais. Desse modo, deixa-se de existir no mundo cotidiano e penetra-se em um mundo impregnado pela presença dos seres sobrenaturais dos quais o homem da sociedade tradicional se faz contemporâneo. Este fato resulta na vivência em um tempo que não é cronológico, mas em um tempo primordial, o tempo em que aquele fato ocorreu pela primeira vez. Esse tempo é o tempo mítico, caracterizado pelo fato de ser sagrado e fazer referência ao momento em que se deu a criação de algo novo e significativo no mundo. 68 O mito, portanto, revela que o mundo, o homem e a vida apresentam uma origem e uma historia sobrenatural e que esta historia é significativa, preciosa e serve de paradigma para todas as atividades humanas. Mircea Eliade expõe que o homem das sociedades onde o mito ainda sobrevive habita um mundo aberto, ainda que seja cifrado e misterioso. Este mundo comunica-se com o homem e a compreensão de sua linguagem depende do conhecimento dos mitos e da compreensão dos símbolos. Através do conhecimento, por exemplo, dos mitos e símbolos representativos da lua, o homem pode compreender a temporalidade, o nascimento, a morte e a ressurreição, a sexualidade, a fertilidade, etc. O mundo não é um conjunto de objetos unidos arbitrariamente, mas um cosmos articulado e significativo. Todo objeto presente no mundo tem uma historia, por isso é capaz de falar com o homem, já que o conhecimento dos mitos pode revelar o acontecimento primordial que o originou. Dessa forma, o mundo se revela como linguagem e fala com o homem através de suas estruturas e ritmos. A forma como o homem das sociedades tradicionais interpreta sua realidade interfere na sua conduta em sociedade e na sua concepção de História. Enquanto o homem moderno se considera constituído pela História, o homem das sociedades tradicionais se considera como resultado de vários acontecimentos míticos. Sobre este aspecto, Mircea Eliade destaca que o homem das sociedades tradicionais acredita que sua existência é resultado de uma serie de acontecimentos que ocorreram nos tempos míticos e constituem uma História sagrada, já que os personagens que viveram estes dramas são seres sobrenaturais. O homem moderno se considera resultado do curso da Historia universal, mas não tem a obrigação de conhecê-la totalmente. Já o homem das sociedades tradicionais, ao contrário, tem a obrigação de rememorar sua história reatualizá-la periodicamente. Para o homem da sociedade mítica e moderna os acontecimentos são irreversíveis, enquanto que, para o homem das sociedades tradicionais este fato não constitui uma realidade. Para este homem, portanto, aquilo que ocorreu no ‘começo’ do mundo pode se repetir através da força dos rituais. Para ele o fundamental é conhecer os mitos, pois, a partir da rememoração dos modos de existência ocorridos no tempo 69 primordial, o homem pode reatualizá-los e repetir o que os seus antepassados fizeram no inicio da criação do mundo. A partir do conhecimento dos mitos o homem pode descobrir o segredo da origem de cada coisa presente no mundo. Mircea Eliade (1991) divide os mitos em duas grandes categorias: os mitos cosmogônicos, que explicam a origem do mundo, e os mitos escatológicos, que buscam explicar as histórias que resultarão no fim do mundo. O estudioso destaca que a maioria dos mitos americanos do fim do mundo apresenta uma teoria cíclica: acredita-se que a catástrofe será seguida por uma nova criação do mundo. Como expusemos anteriormente, o homem andino apresentava uma visão de mundo semelhante à do homem das sociedades tradicionais estudadas por Mircea Eliade, assim, os mitos também apresentavam um papel fundamental em suas vidas. As crenças dos homens andinos, entretanto, não permaneceram cristalizadas ao longo do tempo, pois sofreram uma serie de interferências da cultura ocidental trazida pelos espanhóis. Como exemplo desta interferência, podemos citar o mito de origem das ‘idades’ do mundo incaico relatado pelo cronista da conquista Felipe Guamán Poma de Ayala (1615). No relato Crónica y Buen gobierno de Guamán Poma, os indígenas andinos eram descendentes de Noé e o mundo aparece dividido em nove idades , cada uma correspondendo às idades ou eras bíblicas. A oitava idade correspondia ao tempo dos espanhóis nas Índias e após essa idade o mundo viveria a última ‘idade’, que marcaria a volta de Jesus Cristo e a instauração de um mundo perfeito. Como podemos observar, neste relato de Guamán Poma há a presença de inúmeros elementos da religião católica unidos à concepção de mundo dos povos andinos. O antropólogo peruano José Maria Arguedas também relata alguns mitos póshispânicos que anunciam o final do mundo, marcado pelo retorno de um período ideal no qual os indígenas terão um lugar de destaque e os espanhóis serão seus criados. Arguedas destaca o mito de Inkarri como um dos principais deste período histórico. Segundo a versão oferecida pelo historiador peruano Alberto Flores Gallindo, o mito de Inkarri remete a um acontecimento histórico que marcou a resistência indígena no Peru colonial: a morte do último descendente do império inca, Tupac Amaru I, na praça de armas de Cusco em 1572. Após ser decapitado 70 em praça pública, a cabeça do inca foi exposta e mantida no local de sua morte e seu corpo enterrado na catedral. A tradição afirma que a cabeça não apodrecia e envelhecia a cada dia, sendo cultuada por vários indígenas da região. Como o fato incomodou ao corregedor de Cusco, a cabeça foi enviada a Lima. Os indígenas acreditavam que algum dia a cabeça do líder inca se uniria ao restante de seu corpo e ele retornaria para anunciar o final do mundo e reordenar o caos estabelecido pelos conquistadores espanhóis através da restauração do império inca. Este mito reúne características da cultura andina aliadas às da cultura cristã de ressurreição dos corpos, aspecto do apocalipse cristão que o pensamento andino assimilou rapidamente. Flores Gallindo define este retorno do inca previsto pelo mito do Inkarri como uma característica do pensamento utópico do homem andino. A restauração do império, visto como um organismo social no qual os homens conviviam harmonicamente e não havia fome nem desigualdade, é um dos componentes da utopia andina25, que tinha como finalidade enfrentar a realidade fragmentada e desordenada resultante do processo de conquista. Flores Gallindo destaca que este mito revela uma forma de encontrar no passado a solução dos problemas de identidade existentes no presente. Assim, nos Andes parece haver a existência de um funcionamento diferente do tempo, que o historiador peruano declara como ‘próximo ás continuidades e permanências’ e que pode ser entendido também como um tempo mítico no qual as ações e fatos históricos dos heróis ancestrais de um povo são renovados periodicamente. O tempo mítico tem duas características principais: ser cíclico e anti-histórico. A primeira característica remete à questão da reatualização resultante da imitação das ações dos seres sobrenaturais ocorridas no inicio dos tempos. Através dessa rememoração durante as cerimônias de reatualização das ações exemplares ocorre a suspensão do curso do tempo e há a projeção daqueles que as celebram para o illo tempore, o tempo primordial. Nestes rituais há a abolição do tempo e uma renovação constante do mundo. Na maioria das vezes, os atos realizados durante estes eventos estão relacionados com os mitos cosmogônicos que narram a criação 25 Para maior compreensão sobre o conceito de utopia andina cf.: GALLINDO, Alberto Flores. Buscando un inca. Lima: Editorial Horizonte, 1986. 71 do universo. Esta característica circular do tempo e a abolição do tempo cronólogico ocorridos durante os rituais revelam uma intenção anti-histórica do homem destas sociedades. A negação de conservar a memória de um passado imediato demonstra que o homem das sociedades tradicionais não se aceita como ser histórico, pois não valoriza a memória das ações cotidianas. Todos os rituais e atitudes do homem das sociedades tradicionais levam a uma percepção da inexistência do tempo como o concebemos: cronológico e histórico, medido pelo relógio e marcado por datas e marcos temporais que são definidos a partir de certos eventos históricos. Para as sociedades tradicionais a vida do homem é definida pela repetição dos atos exemplares e se insere na duração, na continuidade deste tempo primordial. A vida é, então, um constante retorno aos mitos primordiais e , quando se desenvolve no tempo presente, o cotidiano não registra a irreversibilidade temporal. O homem destas sociedades vive em um eterno presente, já que reproduz incessantemente os atos primordiais dos seres exemplares. O tempo mítico, portanto, tem uma direção cíclica que anula a irreversibilidade dos fatos. Tudo no mundo recomeça a cada instante e o passado é uma prefiguração do futuro; assim, nenhum acontecimento é irreversível e as transformações não são definitivas. Tudo que existe no mundo é uma reprodução dos modelos exemplares do tempo primordial e essa repetição atualiza o momento mítico no instante em que ele ocorreu no tempo dos começos. O tempo possibilita somente o aparecimento e a existência das coisas, não apresentando nenhuma influência sobre a existência, já que ele também se renova incessantemente. Nas sociedades onde o mito sobrevive, o homem se opõe à noção de história considerada como uma sucessão de fatos irreversíveis e autônomos. Esta negação da história, no entanto, se choca contra fatos que o homem não pode prever, como as catástrofes da natureza, as desgraças pessoais e as injustiças sociais relacionadas com a estrutura de sua própria sociedade. Ao se deparar com situações que fugiam ao modelo daquelas tidas como exemplares, o homem acreditava que estes fatos tinham relação com alguma influência mágica ou demoníaca contra as quais o sacerdote de sua comunidade teria armas para combater. Caso a interferência do sacerdote não tivesse o efeito 72 desejado, o homem recorria ao seu Deus supremo e lhe rogava a abolição de tal situação através de oferendas e sacrifícios. A diferença central entre o homem das sociedades tradicionais e o homem moderno e ‘histórico’ está na valorização que este último concede aos acontecimentos históricos, ou seja, as novidades que para o homem tradicional não têm nenhuma significação e são consideradas infrações aos modelos exemplares, devendo ser abolidas periodicamente. Para o homem histórico a concepção de modelos exemplares de conduta e a repetição dos atos primordiais são vistas como uma concepção extraviada daquilo que ele considera como história. Para este homem os modelos exemplares constituem, no entanto, uma história, pois são compostos por ações que se manifestaram em um determinado tempo e aconteceram como qualquer outro fato histórico. Mircea Eliade aponta que os mitos primitivos citam o nascimento, a atividade e o desaparecimento de um deus ou um herói cujas aventuras ‘civilizadoras’ se reproduziam sucessivamente até o infinito. Isto indica que o homem tradicional também conhece uma história, embora ela seja primordial e esteja situada no tempo mítico. A concepção de tempo relaciona-se, como vimos, com a noção de história para cada sociedade. Assim, pensar em como uma sociedade representa seu passado é revelar também como esta sociedade guarda sua memória e a transforma em história. Como vimos ao longo desta seção, os mitos para as sociedades tradicionais configuram-se como história, já que apresentam as façanhas de heróis desenvolvidas em um determinado tempo e espaço. Como estas sociedades concebem o tempo com uma direção cíclica, não há o registro da história das ações cotidianas, mas daquelas que tiveram lugar no inicio dos tempos. Esta característica revela que para estas sociedades mito e história constituem um mesmo objeto. O homem das sociedades modernas apresenta uma outra concepção acerca da história, relacionando-a com eventos ocorridos ao longo do tempo, marcados em um tempo linear e irreversível. Estas duas concepções revelam também o que se concebe como história e que elementos estão incluídos no seu processo de construção. Se para uma 73 sociedade os mitos são a própria história, por outro lado, para a sociedade moderna as origens desta ciência remontam à Antiguidade greco-latina e seu conceito e à forma como se escrevia a história foi se modificando ao longo do tempo. Mircea Eliade afirma que a historiografia, ou seja, a escrita da história, começou na Grécia com Heródoto. Segundo o mitólogo, Heródoto explica que decidiu escrever suas Histórias para que as ações heroicas dos homens não se percam no passado. Ele tinha a intenção de conservar a memória dos feitos realizados pelos homens gregos e por aqueles considerados bárbaros. Esta motivação, entretanto, não foi a única que surgiu entre os historiadores da Antiguidade, outros como Tucídices escreveram a História de seu povo para mostrar a luta pelo poder, considerada por ele uma característica típica da natureza humana. Políbio escreveu para demonstrar que toda a história do mundo se relaciona e converge para o Império Romano, além de considerar também que a experiência que o homem adquire estudando História seria a melhor introdução para o entendimento da vida. Tito Livio escreveu com a finalidade de descobrir na História modelos e exemplos para sua sociedade e assim sucessivamente. Estes autores da Antiguidade Clássica não escreviam a História relacionandoa com a existência de um plano divino e a interferência de um Deus superior na vida da humanidade. Para estes historiadores a História era um fenômeno cósmico que revelava o nascimento, o desenvolvimento, a degeneração e desaparecimento das sociedades humanas. A partir dessa perspectiva a História não era considerada um objeto de conhecimento. A historiografia não era vista como uma forma de conhecimento útil “já que ilustrava o processo do eterno devir na vida das nações e, sobretudo, porque conservava a memória das façanhas dos diversos povos e os nomes e as aventuras dos personagens excepcionais.”(ELIADE, 1991, p.60, tradução nossa) A historiografia não tem a intenção de encontrar um sentido e uma direção para a História universal, mas de expor o esforço para a conservação da memória dos acontecimentos contemporâneos a uma determinada época e conhecer com exatidão o passado da humanidade. Mircea Eliade destaca que na Antiguidade a história assumiu diferentes funções, dentre elas a de oferecer modelos de comportamento do homem ideal. 74 Estes modelos para a vida cívica e moral apresentavam a mesma função dos mitos nas sociedades tradicionais. No entanto, a partir do século XIX a historiografia começou a se interessar pela história de sociedades consideradas exóticas e periféricas, realizando o que o mitólogo chamou de anamnese historiográfica e passando a se interessar pelo passado total da humanidade. Esta anamnese historiográfica se traduz em uma busca pelo descobrimento de uma solidariedade com povos desaparecidos ou periféricos. O estudioso assinala que este processo, no entanto, está em seu início. Teríamos de esperar algumas gerações para descobrirmos suas repercussões culturais. Entretanto, podemos afirmar que esta ‘anamnese’ é um prolongamento da valorização religiosa da memória e da recordação. Neste caso, a recordação total de nosso passado, incluindo os comportamentos culturais de sociedades onde o mito ordenava e dava sentido à vida humana. Este resgate de outras formas de cultura aponta para o fato de a cultura ocidental ocupar uma posição central na escrita da Historia universal; assim, aquelas sociedades que não apresentavam uma cultura similar à ocidental ficaram à margem da História. Mircea Eliade afirma que: Graças à cultura, um universo religioso dessacralizado e uma mitologia desmitificada formaram e nutriram a civilização ocidental, a única civilização que chegou a tornar-se exemplar. E nisso há algo mais que o triunfo do logos frente ao mythos. Trata-se da vitória do livro sobre a tradição oral, do documento — sobretudo do documento escrito— sobre uma experiência vivida que não dispunha de nada mais que os meios da expressão préliterária. Um número considerável de textos escritos e de obras de arte 26 antigas se perderam. (ELIADE, 1991, p.69, tradução nossa) 26 No original: “Gracias a la cultura , un universo religioso desacralizado y una mitología desmitificada han formado y nutrido la civilización occidental, la única civilización que ha llegado a convertirse en ejemplar. Y en ello hay algo más que el triunfo del logos frente al mythos. Se trata de la victoria del libro sobre la tradición oral, del documento – sobre todo del documento escrito – sobre una experiencia vivida que no podía más que de los medios de la expresión preliteraria. Un número considerable de textos escritos y de obras de arte antiguas se han perdido.” 75 A vitória da razão e do livro remete para os apontamentos de Dussel e Gruzinsky que expusemos no início desta seção. Esta vitória representou para o processo de conquista da América Latina a sobreposição de uma cultura ocidental vinda da Europa sobre a cultura oral dos povos autóctones que viviam no continente. Assim, a introdução da escrita inovou completamente a forma como o homem destas sociedades se relacionaria com sua realidade e sua forma de contar a ‘História’. Como vimos, houve vários cronistas que se propuseram a narrar a História do período anterior à conquista, no entanto, essas narrativas já contavam com uma série de adaptações e inserções de elementos da cultura ocidental imposta pelos conquistadores. Para sobreviver, estas culturas orais tiveram de se adaptar aos padrões estabelecidos pela cultura ocidental, tornando-se, portanto, letradas. Como vimos no capítulo III, a história é sempre escrita partindo-se de uma determinada perspectiva. Benjamin e Le Goff já apontavam para o fato de que a História universal privilegiava, na maioria das vezes, somente uma perspectiva da História, isto é, a dos vencedores. As posições ocupadas pelas sociedades periféricas e os povos tradicionais descritos por Mircea Eliade também remetem para a posição da América Latina e dos povos autóctones que aqui se encontravam antes da chegada dos espanhóis, revelando o caráter de centro da cultura ocidental e da Europa e o caráter de periferia do ‘restante’ do mundo cuja história foi narrada a partir do olhar europeu. Atentar para estas posições é reconhecer que a ‘anamnese historiográfica’ defendida por Mircea Eliade é de fundamental importância para a inserção da história dos povos que constituem a periferia do mundo ocidental na História Universal. Dussel reafirma esta posição latino-americana reconhecendo nela uma maneira de lutar contra uma história imposta pela perspectiva. O teórico chama a atenção para o lugar ocupado pelo Velho Mundo e sua cultura: Quando a Europa não tem consciência de seu ‘ser-centro’ é, simplesmente porque confunde sua ‘particularidade’ com a ‘universalidade’ humana em geral. ‘O europeo’ é ‘o humano’. Saber-se ‘centro’, ao contrário, é tomar consciência ao mesmo tempo de quatro momentos: 1) É tomar consciência de ser ‘centro’; 2) com relação a uma ‘periferia’ distinta; 3) em um planeta que é a ‘totalidade’ que os engloba na diferença; 4) com consciência ética de exercer uma ‘dominação’ como ‘centro’ sobre a ‘periferia’. Acreditar-se simplesmente ‘universal’ como europeu é cair em quatro erros: 1) Confundir o ‘centro’ com a ‘universalidade’ humana; 2) ter preconceito com a ‘periferia’ por ser não-centro simplesmente como não-humana; 3) não conhecer a 76 verdadeira ‘universalidade planetária’ com suas diferenças; 4) declarar-se inocente de uma dominação que se exerce invisivelmente.(DUSSEL, 1992, 27 p.21, tradução nossa) O reconhecimento de sua posição central levará a Europa, portanto, a reinterpretar seu papel nas relações com a periferia, possibilitando que surja uma nova forma de se contar a história através de uma ‘anamnese historiográfica’ na qual cada sociedade possa ser reconhecida através de sua própria perspectiva acerca dos eventos históricos que a constituem como é atualmente. Assim, se trata de produzir uma modificação em nossa perspectiva e vermos a mundo a partir da perspectiva do mundo indígena, que segundo Dussel “é a perspectiva atual do latino-americano, seja índio ou negro, mestiço ou branco”.(DUSSEL, 1992, p.22, tradução nossa) A escrita da história representa uma relação entre um eu que se propõe a narrar os fatos sobre o outro, dessa forma, reconhecer as posições ocupadas pelo eu e o outro é um passo importante para a construção de uma história que não seja mutilada. As relações entre o discurso e o real estabelecidas pela historiografia é um dos temas abordados por Michel de Certeau (1993) em seu livro A escrita da história (1993). O estudioso assinala que a história moderna ocidental permite que um corpo que se cala possa falar. A história, então, “supõe uma decolagem entre a opacidade silenciosa da "realidade" que ela pretende dizer, e o lugar onde produz seu discurso, protegida por um distanciamento do seu objeto”. (CERTEAU, 1993, p.9) 27 No original: “Cuando Europa no tiene conciencia de su ‘ser-centro’ es, simplemente porque confunde su ‘particularidad’ con la ‘universalidad’ humana en general. ‘Lo europeo’ no es ‘lo humano’. Saberse ‘centro’, en cambio, es tomar conciencia al mismo tiempo de cuatro momentos: 1) Es tomar conciencia de ser ‘centro’; 2) respecto de una ‘periferia’ distinta; 3) en un planeta que es la ‘totalidad’ que los engloba en la diferencia; 4) con conciencia ética de ejercer una ‘dominación’ como ‘centro’ sobre la ‘periferia’. Creerse simplemente ‘universal’ como europeo es caer en cuatro errores: 1) Confundir el ‘centro’ con la ‘universalidad’ humana; 2) enjuiciar a la ‘periferia’ por ser no-centro simplemente como no-humana; 3) no conocer la verdadera ‘universalidad planetaria’ con sus diferencias; 4) declararse inocente de una dominación que se ejerce invisiblemente.” 77 Segundo o crítico, na historiografia encontramos uma estrutura própria da cultura ocidental moderna: um saber falar a respeito daquilo que o “outro” cala, garantido pelo trabalho interpretativo de uma ciência humana e realizado através de uma fronteira que distingue o homem ocidental dessa cultura que o aguarda para ser conhecida. A historiografia moderna nasce, portanto, da clivagem entre um sujeito que se supõe culto e letrado e um objeto escrito numa linguagem desconhecida que deve ser codificada. Certeau aponta que a historiografia separa o presente e o passado, repetindo sempre o gesto de dividir cada período histórico. Dessa forma, sua cronologia é constituída por períodos, como a Idade Média, a História Moderna, entre os quais existe a indicação de ser outro ou de não ser mais aquilo que havia sido até então. Cada tempo novo dá lugar a um discurso que considera como morto aquilo que o antecedeu, recebendo um passado no qual já existem as marcações de rupturas anteriores. Dessa forma, a divisão feita pela historiografia é o “postulado da interpretação que se constrói a partir de um presente e seu objeto”(CERTEAU, 1993, p.10). No passado do qual esta divisão se diferencia, ela realiza uma seleção entre aquilo que pode ser compreendido e aquilo que deve ser esquecido para que se tenha a representação de um entendimento do presente. Esta divisão, entretanto, é bastante problemática, já que exclui o que considera como um entrave para a noção de presente que se pretende obter. Certeau aponta que: (...) aquilo que esta nova compreensão do passado considera como não pertinente – dejeto criado pela seleção dos materiais, permanece negligenciado por uma explicação – apesar de tudo retorna nas franjas do discurso ou nas suas falhas: "resistências"; "sobrevivências" ou atrasos perturbam, discretamente, a perfeita ordenação de um "progresso" ou de um sistema de interpretação. São lapsos na sintaxe construída pela lei de um lugar. Representam aí o retomo de um recalcado, quer dizer, daquilo que num momento dado se tomou impensável para que uma identidade nova se tomasse pensável. Muito longe de ser genérica, esta construção é uma singularidade ocidental (CERTEAU, 1993, p.10-1) Podemos observar, então, que a construção dos períodos históricos apresenta uma série de elementos que ficam de fora de sua totalidade. Assim, construir um ‘passado’ implica excluir tudo aquilo que é um entrave para que 78 determinada noção de presente que o historiador deseja transmitir ganhe suas caracterizações. Certeau afirma que esta construção de períodos históricos bem demarcados no tempo é uma característica da historiografia ocidental. Em certas regiões, como a Adia [SIC] as novas formas não expulsam as antigas. O que ocorre é o "empilhamento estratificado", ou seja, o passar do tempo não tem necessidade de se certificar pelo distanciamento de passados. Em vez disso, há um processo de coexistência e reabsorção. Da mesma maneira, entre os povos Merina de Madagascar, as antigas listas genealógicas e o passado constituem uma "herança das orelhas" uma "memória da boca" . Assim, em vez de ser um objeto deixado para trás com a finalidade de que um presente se torne possível, o passado é um tesouro cujo centro é a sociedade que exerce a função de memorial. O passado, então, é um elemento cujo destino é a manducação e a memorização. Entre este povo, a história é necessária para que o homem possa recordar e não esquecer a si mesmo. A história, neste caso, coloca o povo no centro dele mesmo, levando-o de um passado a um futuro. A historiografia foi, ao longo do tempo, substituindo os mitos da Antiguidade por uma prática com valor de modelo científico, que simboliza o “querer saber ou de um ‘querer dominar’ o corpo, de transformar a tradição recebida em texto produzido” (CERTEAU, 1993, p.12). Dessa forma, a historiografia é indissociável do destino da escrita no Ocidente moderno e contemporâneo; no entanto, ela tem a peculiaridade de operar na criação de um determinado dado histórico, construindo as representações com elementos do passado e localizando-se na fronteira do presente em que é necessário fazer da tradição um passado, sem que nada se perca dela. No processo historiográfico o passado é uma “ficção” do presente, ou seja, a explicação do passado marca a diferença entre o aparelho explicativo presente e o material explicado, isto é, os documentos relativos ao passado que se busca apresentar. A realidade que se inscreve no discurso historiográfico é resultante das determinações de um lugar de onde se escreve. Este lugar é caracterizado por sua dependência com relação a vários fatores: um poder estabelecido em outra parte, o 79 domínio das técnicas relacionadas às estratégias sociais e o jogo com os símbolos e as referências que tornam legitima a autoridade diante do público. Certeau afirma que a historiografia é : colocada ao lado do poder, apoiada nele, mas a uma distância crítica, tendo em mão, imitados pela própria escrita, os instrumentos racionais das operações modificadoras dos equilíbrios de força a título de uma vontade conquistadora; reunindo as massas de longe (por detrás da separação política e social que as distingue), reinterpretando as referências que existem nelas (...) (CERTEAU, 1993, p.13) A historiografia é uma eterna reconstrução do passado baseada em um determinado lugar de onde se escreve que mantem relações com um poder que o apoia e o legitima. Certeau assinala que este “poder”, no período que compreende do século XVII ao XVIII, era apoiado pela realeza; com o passar do tempo, no entanto, foi sendo substituído pela instituição científica do Estado que ‘patrocina’ o historiador. O distanciamento com relação à dívida contraída com este órgão científico que patrocina o historiador pode ser identificado no corpo da obra criada pelo historiógrafo e nos métodos científicos empregados na construção de seu relato. Outros elementos que possibilitam a percepção desse distanciamento são um trabalho técnico e um interesse público. Assim, o historiador recebe da própria atualidade os meios para realizar seu trabalho e determinar seu interesse. Com relação a estes elementos que envolvem a escrita da história, Certeau assinala que: (...) a historiografia não pode, então, ser pensada nos termos de uma oposição ou de uma adequação entre um sujeito e um objeto: isto não é senão o jogo da ficção que constrói. Tampouco se poderia supor, como ela às vezes leva a crer, que um "começo'; anterior no tempo, explicaria o presente: aliás, cada historiador situa o corte inaugurador lá onde pára sua investigação, quer dizer, nas fronteiras fixadas pela sua especialidade na disciplina a que pertence. Na verdade, parte de determinações presentes. A atualidade é o seu começo real. (CERTEAU, 1993, p.16) A escrita da história, portanto, se relaciona com as diferentes condições que envolvem a possibilidade de produção do historiador. A partir de ferramentas do presente o historiador constrói uma imagem do passado que não deixa de estabelecer relações com a atualidade e com o lugar de onde se escreve. 80 Neste capítulo expusemos reflexões acerca das relações entre memória, história, historiografia e tempo. Como vimos, a reivindicação de uma história dos vencidos passa por questões como a manutenção da memória coletiva, a percepção de tempo para cada sociedade e a forma como estes elementos serão utilizados no processo de escrita da história. A obra de Scorza, como vimos anteriormente, traz para o cenário literário peruano de 1970 a luta de um povo por suas terras e pela manutenção, principalmente, de sua cultura e memória. Ao longo da pentalogia, Scorza apresenta o mundo indígena através de um olhar que demonstra a grandeza da luta secular de um povo cuja voz foi sistematicamente silenciada desde o processo de conquista da América até as décadas de 1960 e 1970, no Peru. A inclusão de novas vozes e de outras perspectivas para a escrita da História oficial remete para o processo de construção dos imaginários nacionais. A partir do reconhecimento de outras versões da História oficial, podemos pensar em uma nação na qual o indígena não esteja às margens, mas seja visto como um dos protagonistas do processo de formação do país. 81 4. MEMÓRIA E NAÇÃO: CONFIGURADORES DE “OUTRA” REALIDADE Partindo das reflexões sobre a construção da nação e do imaginário nacional propostas por Benedict Anderson (2008), José Carlos Mariátegui (1975), José María Arguedas (1981) e Antonio Cornejo Polar (2000) e das noções de memória coletiva, escrita da história e tempo mítico e histórico propostas por Jacques Le Goff (1984), Michel de Certeau (1993) e Mircea Eliade (1991), respectivamente, nos propomos a analisar no próximo capítulo as representações da nação no romance El jinete insomne e o papel da memória para a construção da história dos vencidos neste romance. Finalizamos o capítulo relacionando as representações da nação e da memória coletiva com a questão do tempo mítico e do tempo histórico, já que estas últimas noções, como expusemos no capítulo III, desempenham um papel importante para a escrita da história de cada sociedade. 4.1. As configurações da nação em El jinete insomne No capítulo II vimos as discussões de alguns teóricos acerca do conceito de nação e a problemática da construção dessa noção para os países latinoamericanos. A nação, comunidade imaginada, necessita da construção de elementos que integrem a diferentes povos e classes sociais em uma mesma noção de pertencimento a um determinado país. Nos países latino-americanos, Cornejo Polar identificou o caráter contraditório das literaturas nacionais e regionais e os limites frágeis entre cada uma dessas regiões e países. Pensar o conceito de nação nos leva a questionar também o papel dos intelectuais e da literatura para a construção de elementos ‘característicos’ da identidade nacional destes países. Dessa forma, narrar sobre os diferentes grupos sociais que compõem a nação é uma questão que envolve a postura de cada intelectual acerca de sua ideia de nação e dos possíveis conflitos existentes entre cada um desses grupos. Ao analisar a formação histórica da nação peruana, vários críticos são unânimes no fato de que o Peru, desde os tempos da conquista, apresenta uma 82 clara distinção entre dois espíritos, duas mentalidades que se chocam constantemente: os ocidentais e os indígenas descendentes dos povos autóctones. Embora haja a existência de um discurso nacional que ‘suaviza’ os conflitos e alguns críticos busquem reiterar a pouca participação das classes populares formadas por negros e indígenas nos movimentos de independência, Ward (2009) sinaliza que os traços das culturas desses grupos sociais são marcantes na ‘cultura nacional’ dos países que se formavam. As classes populares no Peru eram formadas, em sua grande maioria, por indígenas e mestiços no período da independência. Alguns intelectuais que discutiram a questão nacional peruana destacavam a importância do indígena e de sua cultura para a formação da nação peruana. Dentre estes teóricos destacamos as propostas de González Prada, José Carlos Mariátegui e José Maria Arguedas que reivindicavam o indígena como principal elemento formador da nação peruana. Essa reivindicação não será exclusiva desses teóricos e não ficará restrita aos intelectuais ligados aos movimentos de independência ou de vanguarda do Peru. Manuel Scorza terá uma proposta convergente em relação à questão indígena peruana, destacando em seus romances a importância de se admitir um outro olhar para a situação do indígena na sociedade peruana e a importância do resgate das lutas deste povo desde a conquista até as décadas de 1960 e 1970. O primeiro romance da principal obra de Scorza, a pentalogia Guerra silenciosa, publicado em 1970, relata a interferência da multinacional Cerro de Pasco Corporation na vida da comunidade indígena de Rancas, assim como a luta dos indígenas da região contra a tomada de suas terras por esta empresa. Paralelamente a estes fatos, o líder da comunidade, Héctor Chacón, elabora um plano para vingar-se dos desmandos do principal latifundiário da região, o juiz Montenegro. O romance termina com o sufocamento dos levantes indígenas pelas tropas do governo e com a prisão de Chacón. No segundo romance, Garabombo, líder da comunidade de Yanacocha, aproveitando-se de seu poder sobrenatural, a ‘invisibilidade’, também organiza um levante que, ao final do romance, é descoberto pelas autoridades, levando ao massacre da maioria dos indígenas da comunidade. Em El jinete insomne o enredo segue a mesma lógica dos outros dois romances: inicia-se com a luta de Raimundo 83 Herrera, líder comunitário indígena de Yanahuanca, para organizar um levante contra as autoridades locais. Entretanto, há uma diferença entre esta narrativa e as que a antecedem: a luta principal de Herrera será para resgatar os títulos concedidos pela Coroa espanhola à comunidade de Yanahuanca para, assim, realizar uma batalha judicial pela posse das terras indígenas tomadas pelos latifundiários da região. Em El jinete insomne alguns personagens presentes nos romances anteriores voltam a aparecer, como o juiz Montenegro e sua família. Assim como nos outros dois romances, a narrativa termina em massacre. Cantar de Agapito Robles também relata a organização de um levante na comunidade de Yanacocha pelo líder Agapito Robles e o sufocamento deste movimento ao final do romance. Nele diversos personagens passam por uma série de transformações em seu modo de conceber o processo de construção da memória e da história do povo indígena da região; assim, o narrador estabelece vínculos com El jinete insomne e o próximo romance que concluirá a pentalogia. O quinto e último romance da pentalogia apresenta uma série de características que o diferenciam dos demais, como a presença do diálogo claro entre as organizações dos levantes indígenas e os movimentos sociais que ocupavam parte do cenário latino-americano naquele período: a Revolução Cubana e a organização de um grupo guerrilheiro peruano, o Sendero Luminoso. Neste romance, Scorza dialoga também com as teorias marxistas e cita, inclusive, José Carlos Mariátegui. Em La tumba del relâmpago há também a organização de um levante, entretanto, este movimento é construído com a união das diversas comunidades que já sofreram massacres e conta com a ajuda de elementos de fora da comunidade, como o advogado limenho Genaro Ledesma e o próprio Manuel Scorza, que aparece em um capítulo do romance como personagem. Em La tumba del relâmpago as rebeliões também têm o mesmo final, entretanto, o narrador abre espaço para a reflexão acerca do conflito entre a sobrevivência de uma mentalidade predominantemente mítica dos indígenas representados no romance e a assimilação de elementos da cultura ocidental, que pudessem contribuir para a mudança da situação de exploração e opressão sofrida por estes povos. 84 Scorza buscou não somente representar as contradições da sociedade americana, mas denunciar os confrontos surgidos da dualidade entre uma mentalidade baseada na cultura oral e outra baseada na cultura escrita, ocidental e moderna. O peruano retoma em sua obra o modelo de descrição da realidade adotado pelos cronistas da conquista; entretanto, afirma que busca escrever a partir do olhar do outro, do indígena peruano, mostrando que a realidade apresenta diversas interpretações e depende da perspectiva de quem narra a história. Scorza ressalta, nas diversas entrevistas concedidas a alguns críticos literários, a importância de dar voz aos vencidos, de narrar os fatos a partir do olhar indígena. Essa reivindicação do escritor deixa clara sua consciência de uma dualidade presente na sociedade peruana, uma vez que Scorza admite a existência de duas formas de narração: a dos vencidos e a dos vencedores. Essa dualidade estará representada ao longo de sua pentalogia por dois grupos sociais em constante conflito: os latifundiários, representantes da cultura ocidental e dos interesses capitalistas, e os camponeses indígenas. Como nosso corpus se restringe ao terceiro romance da pentalogia, nos deteremos em analisar a questão nacional somente ali. Este romance tem como fio condutor da narrativa a busca de Raimundo Herrrera, o cavaleiro insone, pelos títulos de propriedade da terra equivalente à comunidade onde vive. Paralelas à trama central, há o desenvolvimento de historias secundárias: a transformação do rio Chaupihuaranga em lago e suas consequências para as comunidades indígenas e as peripécias do Engenheiro, cuja missão é traçar o plano cadastral das terras apropriadas ilegalmente pelos latifundiários. Ao longo da narrativa, Herrera percorre diferentes comunidades indígenas buscando convencer os camponeses a se unirem em uma rebelião contra os latifundiários da região, no entanto, a maioria dos indígenas se recusa a participar do levante por temerem novos massacres. Disposto a seguir com seu plano de recuperar os títulos, Herrera decide também fazer o plano cadastral das terras onde habita. Para realizá-lo, contrata um engenheiro, que visitará diferentes fazendas a fim de cumprir a incumbência. Contemporâneo dos movimentos de esquerda contra a ditadura e da Revolução Cubana, Scorza retratará a temática do indígena inserida em um 85 contexto no qual haverá um diálogo com os movimentos políticos que ocorrem no contexto hispano-americano de seu tempo. Declarando-se cronista e testemunho dos acontecimentos que são narrados em sua pentalogia, Scorza buscará retratar o mundo indígena através de uma outra perspectiva, revelando que muitas das questões expostas por Mariátegui acerca do “problema do indígena” no Peru continuam a existir dentro de um novo contexto social. Assim, Cornejo Polar sinaliza que o ciclo narrativo de Scorza buscará romper com a visão insular do universo indígena, como se este não formasse parte da realidade nacional peruana. Segundo o crítico peruano: Na obra de Scorza, esta ampliação começa a partir de um fato real: as lutas das comunidades do centro são contra os “gamonales”(como em El mundo es ancho y ajeno), mas também, e principalmente, contra a Cerro de Pasco Corporation (que não é uma instituição inventada como “o Consórcio” de Todas las sangres). A evidencia de que a Cerro estava situada, na década de 60, no vértice do poder social e econômico do Peru, e indiretamente, no foco do poder político, determina que a rebelião dos “comuneros” de Yanahuanca, Yanacocha e outras comunidades do centro seja um acontecimento nacional com repercussões bem mais graves do que as que poderiam ter tido os enfrentamentos regionais entre camponeses e latifundiários. Por outra parte, o não menos óbvio caráter imperialista da Cerro de Pasco indica que o acontecimento narrado por Scorza se relaciona com a dinâmica dos conflitos entre o imperialismo e os povos do Terceiro Mundo. (CORNEJO POLAR, 2000, p.110) A problemática indígena não representará, portanto, uma questão externa ao contexto nacional peruano e passará a ser um microcosmo da relação do próprio Peru com os países do Primeiro Mundo. Em El jinete insomne a unidade da nação peruana será discutida através do questionamento da integração e reconhecimento dos indígenas como “peruanos” e a presença da dualidade entre serra e costa peruana. A exclusão social desta camada da população mostrará a fissura do discurso hegemônico nacional que “integra” a todos os habitantes do país em uma grande comunidade imaginada e horizontal. Assim, Scorza revelará a existência não só de duas concepções de mundo diferentes, mas de uma dualidade cultural que se iniciou na conquista e não se resolveu até a década de 1970. Um dos fragmentos do romance que retrata o conflito da questão nacional é o encontro entre o engenheiro e um latifundiário da região. Com o objetivo de realizar 86 o plano cadastral das terras da região, o engenheiro visitará o povoado de Q´eros e conhecerá o dono da fazenda “Manicômio azul”: - ¿Quién es usted? - Recorro el Perú estudiando el paisaje. Preparo una obra. - ¿Por cuenta de quién? - Por cuenta de la Sociedad Geográfica de Washington. ¿Quiere ver mis credenciales? El hacendado cambia. - Se conoce tanto el Perú sabrá que aquí acaba la civilización. Más adelante no hay nada. - ¿Y Q´eros? - A Q´eros se puede entrar pero no siempre salir. Por allá sólo viven antropófagos. Hace un año llegó un antropólogo americano. Estudiaba el paisaje. ¡Igualito que usted! Se empeño en ir a Q´eros. Hasta ahora lo estamos esperando. La gente de Q´eros es terrible. Hacen beber brebajes a los extranjeros. ¡Asesinan! - Tierras desconocidas. Justamente eso me interesa. - Usted no conoce estos páramos. Los indios de por aquí son locos. Por eso bauticé mi hacienda “Manicomio azul”. Son peor que animales. Hace años que lucho. Esa gente es un obstáculo. ¿Tiene usted familia? (…) 28 (EJI, p.130) Neste diálogo entre os personagens observamos que o próprio nome da fazenda revela a imagem negativa e pejorativa que o latifundiário tem dos indígenas que trabalham ali, uma vez que os classifica como loucos e avisa que ali “acaba a civilização”, revelando que o lugar ocupado por estes indígenas é o da total “barbárie”. Através do discurso do latifundiário observamos também a visão totalmente excludente do indígena da sociedade peruana e da “civilização”. Caracterizados que são como “animais” e como um “obstáculo” se localizam à margem de todos os elementos relacionados à idéia de civilidade e sociedade ocidentais representadas pela figura do latifundiário e do engenheiro. Essa postura do latifundiário, assim como o fato de estes indígenas aparecerem como um povo que está ‘fora’ da civilização são elementos que representam a realidade de várias comunidades indígenas da serra peruana das décadas de 1960 e 1970. José Maria Arguedas (1981) ressalta que em algumas delas a cultura desses povos permanece íntegra, no entanto, este fato é acompanhado da miséria econômica e da segregação cultural que isolam estas comunidades. 28 A partir de agora as citações do romance virão após a sigla EJI. 87 Arguedas (1981) assinala que a cultura desses povos se manteve diferenciada da cultura ocidental através dos séculos e é resultado de um longo processo de mudança sofrido pela antiga cultura peruana desde a época da conquista. Dessa forma, a noção de pertencimento destes indígenas a uma ‘comunidade imaginada peruana’ é uma questão conflituosa, já que as diferenças culturais entre estes povos e aqueles que representam a cultura ocidental apresentam elementos completamente divergentes em relação à concepção da realidade que os cerca. Seguindo o mesmo diálogo, o latifundiário declara que estes indígenas não conhecem o significado da palavra ‘Peru’, portanto, não têm ‘consciência’ da nação onde habitam: - ¿Usted cree que los indios conocen el significado de la palabra Perú? Acepte un consejo. ¡Vuélvase! - Me perjudicaría. Este viaje me cuesta. La Sociedad Geográfica me adelantó cinco mil soles. - Usted me cae simpático. Lo ayudaré. Le daré guías y caballos. ¡Pero no se aventure! Sería lamentable que un sabio de su calidad dejara aquí los huesos. - Me está convenciendo. - Yo le daré buenas bestias. - Para bestias ya tengo con mis ayudantes. - Los americanos resolvieron el problema exterminando a los peles rojas. Los españoles se equivocaron permitiendo sobrevivir a los indios. Esa gente sólo se ocupa de tener hijos. (…) (EJI, p.131) Nesta fala do latifundiário, os indígenas mais uma vez são descritos a partir de uma visão negativa, vistos como um ‘entrave’ para o progresso, um ‘problema’ que deveria ter sido sanado na época da conquista. Os dois personagens presentes no diálogo representam a cultura ocidental, vista como superior à ‘barbárie’ representada pelos indígenas. A dualidade cultural entre os representantes da cultura ocidental e os indígenas que compõem a imensa comunidade imaginada e heterogênea peruana poderá ser observada também em um outro fragmento da narrativa no qual este mesmo personagem, o engenheiro cujo nome o narrador não revela, decide dar a um indígena de uma das fazendas onde realizava um plano cadastral de terras uma 88 moeda de um sol peruano. O episódio que já havia sido relatado a partir de uma diferente perspectiva no primeiro romance da pentalogia, Redoble por Rancas, é retomado agora por Scorza. Em El jinete insomne a ‘célebre moeda’ oferecida ao indígena permitirá a este camponês ocupar um novo status dentro da fazenda onde trabalha: Las cocineras me miraron con respecto. Doña Concepción me sirvió té en pocillo. Usted se fue a dormir. Yo me desvelé. La emoción no me dejó dormir. Oscuro aún me levante para ensillar su caballo. La peonada me esperaba en el coso.¡ Todos sabían que usted me había regalado un sol! Querían conocer. Salvo los caporales que acompañan a Don Tomás Chamorro en sus correrías, en Jarria, nadie conocía dinero. La peonada me seguía. Tanto alboroto atrajó a nuestro patrón. (EJI, p.52) A posse da moeda, um elemento representativo de poder e status para a cultura ocidental, possibilita ao indígena ser visto com respeito por seus companheiros e ser tratado pelo chamamento reservado aos patrões, como ocorrerá em uma outra fala do personagem, de “Don Tupayachi”. Este episódio representa de forma irônica o fato de que ao se aproximar cada vez mais da cultura valorizada pela sociedade peruana, apropriando-se de um de seus elementos de maior status social, o dinheiro, Tupayachi deixa de ser um trabalhador comum como os outros e ‘assume’ um novo papel dentro da fazenda onde trabalha. Após ganhar a moeda do engenheiro, o indígena será castigado por seu patrão e decidirá fugir da fazenda seguindo aquele que lhe apresentou um ‘outro mundo’. Essa mudança na personalidade do indígena representa também uma assimilação de elementos da cultura ocidental, como o capitalismo, e a tomada de consciência do personagem. Tupayachi se dá conta de que vive em uma nação na qual o dinheiro é um dos elementos que permite ao homem adquirir uma série de benefícios e privilégios na sociedade na qual está inserido. A moeda, neste episódio, é um passaporte para a assimilação de uma outra forma de conceber a realidade, uma vez que a partir deste fato o indígena decide partir da fazenda onde vive e descobrir o ‘mundo’ que lhe era alheio até então. Outro fato presente na narrativa que representa o caráter heterogêneo e conflituoso da nação peruana será a dicotomia Serra versus Costa. Esta questão 89 não se limita somente a uma diferenciação geográfica, essa dualidade é também cultural, como vimos no capítulo II. Em El jinete insomne a dualidade serra versus costa aparecerá no episódio em que se narrará sobre os ‘benefícios’ da transformação do rio Chaupihuaranga em lago. A transformação do rio inicia o romance e marca a paralisia do próprio tempo na região, como sinalizou Scorza em entrevista a Manuel Osorio. A crítica Francisa Rivas (2007) em seu artigo sobre aspectos da relação entre o eu e o outro na pentalogia Guerra silenciosa, afirma que no terceiro romance da pentalogia há a presença de personagens que poderíamos chamar de intermediários, já que alguns sofreram um processo de conscientização política e outros vêm de ambientes externos à serra e contribuem para a abertura do espaço fechado da sociedade tradicional serrana. Rivas aponta que neste romance haverá o rompimento da tradicional dualidade serra/costa, no entanto, discordamos da crítica neste ponto, pois entendemos a presença desta dicotomia como uma forma de denunciar a ‘loucura’ do tempo na região e as possíveis transformações causadas por esse fato. Assim, não há um rompimento, mas uma sinalização de que algo necessita ser feito para que o tempo volte a ‘correr’ na região e as comunidades indígenas e a sociedade local recuperem o curso normal de suas vidas. Colocando-se sempre como um narrador que contará a história a partir da perspectiva do indígena, Scorza sinaliza neste romance a necessidade de que as comunidades voltem a lutar por seus direitos. Assim, não há uma quebra na relação conflituosa entre a cultura ocidental e a indígena, mas uma problematização desse conflito. A paralisia dos vários rios de algumas comunidades próximas à comunidade de Yanacocha chama a atenção dos habitantes desta última, que se põem a discutir sobre as causas do fenômeno. Inicialmente, os camponeses pensam que poderia ter sido obra de uma velha viúva da região que tinha a fama de ser feiticeira, no entanto, o cavaleiro insone , Raimundo Herrera faz questão de sinalizar que este fato não se relaciona com os feitiços da viúva, mas com uma questão mais complexa: - No es Félix. - ¿Entonces quién es? Usted nos miró con esa cólera, ese resentimiento, esa conmiseración que ciertas veces le encharcan los ojos. 90 - Todos saben quién para las cosas. Preferimos apedrear la puerta de la Félix. (EJI, p.22) Raimundo Herrera deixa claro em sua fala que esta paralisia se relaciona ao poder ilimitado do latifundiário que comanda a região e tem o poder de paralisar o tempo, já que seus atos não são questionados, tampouco os indígenas se organizam para lutar contra a situação de opressão na qual vivem e mudar o rumo de sua história. Não nos deteremos em analisar, por ora, a questão das relações de poder neste romance, já que o foco de nosso trabalho neste capítulo é a questão nacional e os elementos relacionados a ela, no entanto, apenas gostaríamos de sinalizar para este questionamento que pretendemos desenvolver em outros momentos de nossos futuros trabalhos. A discussão sobre a paralisia do rio continua, entretanto, há uma mudança na atitude dos personagens, pois após apedrejar a porta da viúva Félix, os indígenas percebem que houve vantagens na transformação do rio. Depois de algum tempo, todos os habitantes da comunidade passam a recolher os patos que surgem no lago e há também a construção de várias embarcações para cruzá-lo. Estes ‘benefícios’ são sentidos por todos que vivem ali e há a sensação de que a região está se transformando em costa, como observamos no fragmento abaixo: En el fondo los halagaba sentirse costeños. Muy claro se vio durante la última feria. Disputando por el precio de un toro, don Edmundo Ruiz, furioso por la terquedad del tusino Remigio Villena, le gritó: ‘¡Llévate a tu cornudo, serrano de mierda!’ Villena sacó el cuchillo pero no contradijo el calificativo. ¿Qué podía decir? (EJI, p.25) Embora haja a presença dos benefícios da transformação do rio, observamos que essa questão da dualidade entre costa e serra não é suavizada pelo narrador, uma vez que, há na própria fala do personagem Edmundo Ruiz uma negação de ser ‘serrano’, já que usa esse qualificativo para ofender o feirante, e a resposta à ofensa não ocorre, pois Villena se reconhece como serrano e não interpreta o fato de ter sido chamado desse qualificativo por Edmundo como uma ofensa. Essa divergência caracteriza a presença dessa dualidade costa/serra, assim, não há uma ruptura da dicotomia, mas a problematização da questão a partir de um outro prisma. 91 O fato de a serra passar a ter características da costa peruana é um sinalizador de que a realidade está alterada na comunidade. Este fato é comemorado por todos os habitantes da região, no entanto, Raimundo Herrera é o único a criticar essas mudanças, alertando que essa realidade só está se modificando devido à falta de organização de um levante da comunidade contra os abusos praticados pelo latifundiário da região. A dicotomia costa/serra, portanto, é um fenômeno que permanece e revela duas formas diferentes de conceber a realidade: uma mais próxima do pensamento ocidental e com características claramente capitalistas e outra mais próxima da cultura indígena e de sua concepção da realidade. A problemática da nação em El jinete insomne se relaciona a várias questões, como a noção de pertencimento e reconhecimento do indígena como um elemento constituinte dela, a dualidade entre a costa e a serra, fenômeno que sinaliza o conflito constante entre duas formas de conceber a realidade, e o estabelecimento das fronteiras e de um espaço nacional. Como expusemos no capítulo II, a construção da nação responde a três premissas básicas: a existência de uma comunidade homogênea e horizontal, a ocupação de um território delimitado e a prática da soberania. A questão territorial é problemática no romance, já que há diferentes ‘nações’ dentro da nação peruana, pois as comunidades indígenas representam não somente uma organização econômica, mas um núcleo social e cultural completamente distinto dos grandes centros peruanos representantes do ideal de nação. Como vimos no capítulo II, a nação peruana não se enquadra no modelo europeu de nação homogênea e horizontal. Preferimos a proposta de Cornejo Polar para caracterizar esta nação: uma totalidade contraditória cujos conflitos iniciados na conquista são latentes até os dias atuais e suscitam a adoção de uma nova perspectiva para se fazer literatura e analisar a sua realidade sócio-histórica. A partir da conscientização de que existem diferentes vozes e perspectivas que são conflituosas dentro da sociedade peruana, poderemos pensar em uma nação múltipla na qual estas vozes possam ser ouvidas. 92 4.2. Configurações da memória em El jinete insomne A obra de Scorza se insere no projeto de muitos escritores latino-americanos que buscam fazer emergir a voz do outro, privilegiando outra perspectiva da história, trazendo para o momento atual questões que desde a conquista da América não se resolveram. Entretanto, é, sobretudo em El jinete insomne, que o escritor peruano aborda a questão da memória como elemento fundamental para a cosmovisão e inserção da perspectiva histórica do povo indígena na historiografia oficial. A perspectiva que Scorza diz adotar em sua obra é a dos vencidos, dos indígenas peruanos massacrados pelas rebeliões ocorridas na década de 1960 no Peru. Essa postura foi alvo de diferentes reações da crítica literária, segundo Friedhelm Schimidt (1991), em seu artigo sobre Redoble por Rancas, primeiro romance da pentalogia scorziana. Os críticos assumiram duas posturas diferentes: por um lado alguns apoiavam as afirmações do escritor peruano de que ele descrevia os acontecimentos históricos a partir do ponto de vista e com a voz do povo indígena e, por outro lado, aqueles que consideravam o caráter heterogêneo da literatura indigenista proposto por Antonio Cornejo Polar e defendiam que Scorza escrevia partindo de uma posição de intelectual, utilizando os códigos da cultura ocidental e observando o mundo indígena de fora. Embora consideremos a obra de Scorza um exemplo de literatura heterogênea, no sentido defendido por Cornejo Polar, acreditamos que as críticas à perspectiva adotada por Scorza não procedem, se consideramos a lição deixada por Mariátegui: a literatura indígena difere da literatura indigenista. Assim, não podemos esquecer que sua obra não é literatura indígena, uma vez que não foi produzida por um indígena, mas por um intelectual que se solidariza com os abusos enfrentados por este povo e decide denunciá-los em sua pentalogia. Como já dito no capítulo II, a obra de Scorza se inclui na fase neo-indigenista da literatura peruana. Assim, uma das características da obra do autor é o fato de sua narrativa recriar o modelo das crônicas de conquista da América, pois oferecem informações sobre um mundo desconhecido pelo leitor. Como podemos observar em alguns títulos de capítulos do romance El jinete insomne: 93 De la sorpresa que don Raymundo Herrera se llevó el día que recuperó el título de la comunidad de Yanacocha; De la conversación que don Germán Minaya sostuvo con el apoderado Ambrosio Rodríguez, hombre de bien (si es que este título puede darse a un hombre de bien en el Perú); De cómo la gente no agradece sino todo el contrario. Partindo dessa noção, alguns críticos, como o peruano Mauro Mamani Macedo (2008), afirmam que na tradição das crônicas de conquista havia dois tipos de cronista: aqueles a serviço da Coroa espanhola, criadores de um discurso que justificava todos os atos cometidos pelos colonizadores e aqueles que escreviam com o objetivo de encontrar igualdade racial e social e assumiam a voz dos vencidos. O discurso destes últimos tinha um tom de denuncia, já que eram críticos das atrocidades cometidas pelos conquistadores. Segundo Mamani Macedo, Scorza afirma que: Acredito que exista duas linhas de narradores gerados ao longo da história. Os cronistas que acompanham os conquistadores, e os cronistas que tentam acompanhar os povos vencidos (…) Simultaneamente há dois tipos de cronistas: os que acompanhan os espanhois, que vão desde Bernal Díaz del Castillo até Mario Vargas Llosa no Peru, e os que acompanham os vencidos, que vão desde Huamán Poma até José María Arguedas. 29 (ESCAJADILLO, 1990, p. 69) O crítico assinala que Scorza se inclui nesta linha de cronistas iniciada por Huamán Poma, sua obra, então, se caracteriza por ser uma perspectiva dos vencidos para os fatos narrados. Como vimos no capítulo III, há diferentes formas de se narrar um fato histórico, desse modo, assumir a visão dos vencidos revela, não somente, uma determinada postura frente aos fatos, mas também a recuperação e sobrevivência 29 No original: “ Yo creo que hay dos líneas de narradores que se han generado a lo largo de la historia. Los cronistas que acompañan a los conquistadores, y los cronistas que intentan acompañar a los pueblos vencidos. (…) Simultáneamente hay dos tipos de cronistas: los que acompañan a los españoles, que van desde Bernal Díaz del Castillo hasta Mario Vargas Llosa en el Perú, y los que acompañan a los vencidos, que van desde Huamán Poma hasta José María Arguedas.” 94 de uma certa memória acerca destes fatos. Dessa forma, há também a existência de duas memórias: a dos vencidos e a dos vencedores. A permanência da memória dos vencidos se relaciona à manutenção dos elementos que a guardam, assim como ao fato de que estas memórias tenham espaço e visibilidade dentro de nossa sociedade. Desse modo, a manutenção de textos ou manifestações literárias produzidas pelos povos autóctones acerca do período da conquista da América e pelos descendentes destes povos até os tempos atuais é de fundamental importância para a sobrevivência de sua memória. O estudo e a inclusão de textos produzidos pelos povos autóctones como parte integrante do corpus da literatura latino-americana foi reivindicado por vários críticos como Cornejo Polar, Gordon Brotherston e Serge Gruzinsky, entre outros. Como já vimos no tópico 3.2 do capítulo precedente, esse fato revela a preocupação destes autores de que se admitam novas vozes dentro da literatura latino-americana e de que, sobretudo, estas vozes sejam ouvidas. Uma das principais armas de dominação utilizada pelos conquistadores foi a destruição de todo tipo de notação gráfica ou livros escritos pelos povos autóctones que habitavam o continente antes de sua chegada. Analisando este aspecto, Martin Lienhard aponta que houve a ‘violência da escritura’, já que estes materiais, como códices e notações gráficas, entre outros, foram destruídos completamente e o que sobrou deles foi utilizado para um melhor mapeamento e domínio da região durante o período de conquista da América. Outro fato citado pelo crítico é o da apropriação destes textos pelos conquistadores, pois ao realizar-se o processo de catequização dos indígenas, interpretavam-se os textos através de um foco que menosprezava e distorcia completamente o significado original destes materiais. Assim, retirados de seus contextos originais, estes materiais serviram para iniciar um processo de dominação da concepção de mundo destes povos e impor o domínio de uma cultura sobre a outra. A grande maioria das versões que se conhecem sobre os fatos históricos ocorridos na conquista da América se baseiam em crônicas, livros de memórias daqueles que apresentavam a visão dos vencedores acerca dos fatos históricos deste período. O resgate de materiais que representam a visão dos vencidos é de 95 fundamental importância para que sua perspectiva acerca dos fatos históricos seja conhecida e ouvida. A pentalogia de Scorza, La guerra silenciosa, traz em seu título um sinalizador desta questão: o autor irá relatar uma guerra silenciada, esquecida pela sociedade de seu tempo. Este silêncio aponta para o fato de que os fatos históricos são relatados a partir de uma seleção de acontecimentos que leva em conta uma determinada perspectiva, a dos vencedores, como nos apontaram Benjamin e Le Goff. A sobrevivência da memória dos vencidos é uma ferramenta de resistência e de luta pela inclusão de sua perspectiva na historiografia oficial. Vista como memória coletiva, a história de muitos povos depende, como sinaliza Halbwachs, da existência de membros do grupo para que permaneça através dos tempos. Assim como há diferentes memórias individuais que compõem a memória coletiva, esta última também faz parte de um painel maior que é a memória histórica. A memória coletiva, portanto, se relaciona aos diferentes grupos que compõem a sociedade. Cada grupo social terá sua própria memória coletiva acerca dos fatos e estas perspectivas irão ser completamente divergentes umas das outras, originando diversas versões acerca dos fatos vivenciados por cada grupo social. Em El jinete insomne a manutenção da memória coletiva será uma ferramenta utilizada para o desenvolvimento de uma consciência histórica acerca dos fatos que marcam a realidade da comunidade ao longo dos séculos. Assim, recordar é uma forma de manter viva a chama para provocar a organização de mais uma luta armada contra os abusos praticados pelos latifundiários da região. Em El jinete insomne, Don Raimundo Herrera é o personagem que dá título ao romance e, como o nome da obra sugere, é um velho indígena que não dorme e, por apresentar a capacidade de permanecer desperto, consegue lembrar fatos históricos que envolveram a sua comunidade ao longo dos séculos. O personagem, assim como os protagonistas dos dois romances anteriores a este, apresenta características sobrenaturais, como o fato de ser insone e de ter ‘vencido o tempo’. Esta última característica é abordada por Eduardo Huarag Álvarez (2008) em seu estudo sobre o herói mítico nos romances de Scorza: 96 Deter o tempo para viver além do que usualmente vivem os humanos, está relacionado com o que se conhece como o tema fáustico. Isto adota, na criação narrativa, diversas modalidades. Pode tratar-se de um personagem que tem motivações pessoais para realizar um pacto e regressar o tempo ou simplesmente detê-lo. Neste caso, se trata de uma finalidade social, uma motivação transcendente. Uma motivação da qual se supõe um sacrifício pessoal. (ÁLVAREZ, 2008, p.133) As características sobrenaturais do cavaleiro insone se relacionam, segundo o crítico, à sua missão dentro da comunidade indígena, portanto, estas atribuições de Raimundo Herrera serão necessárias para que ele concretize seu destino como herói mítico. A capacidade de ‘deter o tempo’ e viver mais que os outros seres humanos apresenta também a vantagem de permitir que esse personagem se lembre de fatos ocorridos desde 1705, ano em que sua comunidade recebe o título de propriedade da Coroa Espanhola, até os tempos atuais, década de 1960, período em que ocorrem os fatos relatados no romance. Como podemos observar no início do capítulo 18, cujo título é “Entonces se acordó de lo que pasó allá por mil ochocientos veinticuatro”: Entonces se acordó de lo que pasó allá por mil ochocientos veinticuatro No, no dormí. Esta noche, como todas las noches desde que contraje esta enfermedad de estar despierto, no pude cerrar los ojos. ¿Cuándo la contraje? ¿En 1705 cuando la cacica Ticsi Rimi ordenó que saliéramos a medir nuestro límites? … No, no se pudo. Midiendo recorríamos este mismo rumbo cuando Cantalicio Robles nos envejeció con la noticia: el propietario Gregorio de Paredes había degollado a todos nuestro hijos. En 1716 también fracasamos. No, no puedo dormir. Las noches las cruzo de blanco en blanco, recordando esas cosas. ¿O estoy soñando? Al principio, la enfermedad se me notaba en las ojeras azules. Después me alivié. Aunque a veces el cansancio me hace pensar que mi cuerpo se tragó las ojeras. Azul debo tener ahora el esqueleto. ¿Han atravesado, de noche, la helada pampa Junín? Peor es atravesar la noche solo, perseguido por la jauría de estos recuerdos… Yo ya estuve aquí. Muy claro estoy viendo lo que pasó en Yanacocha en 1824. Ese año, hasta yo creí que por fin alcanzaríamos justicia. (EJI, p.117) Como podemos verificar no título do capítulo no qual se insere o fragmento citado, Raimundo se lembra de fatos ocorridos em 1824 e 1881, referindo-se a um momento completamente distante do período no qual se passa a história narrada. O fato de se manter acordado é repetido várias vezes no fragmento e reforça a característica sobrenatural do personagem de permanecer insone. Não dormir se 97 relaciona à questão da memória e do esquecimento; assim, manter-se “acordado” significa lembrar todos os fatos ocorridos no decorrer do tempo e “dormir” se relaciona ao esquecimento. Na tradição platônica o fato de lembrar se relaciona também, como apontou Yates, à apreensão do conhecimento como um todo. Desse modo, aquele com a capacidade de memorizar os fatos é também aquele que apresenta uma maior sabedoria acerca dos fatos. Essa característica de Raimundo Herrera o coloca não somente como um depositário da memória coletiva de sua comunidade, mas como um homem sábio capaz de interpretar os fatos a partir de outra perspectiva, buscando sempre incitar sua comunidade para a luta contra as explorações sofridas. A capacidade de reter os acontecimentos na memória era vista por Platão como uma atribuição dos homens superiores, já que, de acordo com o filósofo “para aqueles que esqueceram, a rememoração é uma virtude; porém os perfeitos não perdem jamais a visão da verdade e não têm a necessidade de recordá-la.” (ELIADE, 1991, p.54, tradução nossa) A personificação da memória para a cultura grega era a deusa Mnemosyne, mãe das musas e inspiradora dos poetas. O poeta possuído pelas musas tinha a capacidade de beber diretamente na fonte da ciência e obter o conhecimento das origens do mundo e do começo das genealogias, passando a ter também o poder de compreender o seu presente e seu futuro através de uma visão global do processo histórico. Mircea Eliade aponta que não somente para a cultura grega clássica, mas também para várias sociedades ‘arcaicas’, o esquecimento do passado equivale à morte. Assim, a condição para que se mantenha a imortalidade é ter uma memória inalterada, já que os mortos, para estas culturas, são aqueles que perderam a memória. O mitólogo destaca também a relação entre a morte e o sono para estas sociedades, revelando que para inúmeras religiões o sono equivale à própria morte do indivíduo. Assim o sono se relaciona também com a perda da memória, uma das características daquele que está morto. O ‘despertar’ do homem equivale ao fato de recordar seu passado e ,a partir dessa rememoração, compreender seu presente e futuro. 98 Mircea Eliade assinala que nestas culturas a vitória sobre o sono e a vigília eram atitudes valorizadas e utilizadas em vários rituais de iniciação espiritual do homem, assim “não dormir não é unicamente triunfar a fadiga física, mas, sobretudo, dar prova de força espiritual.”(ELIADE, 1991, p.54, tradução nossa) Como uma das características principais de Raimundo Herrera é o fato de permanecer insone, podemos observar, de acordo com as considerações de Mircea Eliade, que esta atribuição do personagem está relacionada à sua missão de manter viva a memória coletiva de seu povo e permanecer em eterna vigília até que sua comunidade se conscientize de que deve lutar contra a situação de exploração na qual se encontra. A vigília de Raimundo se relaciona também com a situação do povo indígena no Peru. Como destacou Mariátegui, o problema do indígena no Peru é econômico e social. O sistema feudal mantido por vários latifundiários da região serrana no Peru é um dos entraves para o desenvolvimento do país e para uma melhor condição de vida para os indígenas. Assim como o crítico peruano, Arguedas sinaliza para esta questão, ressaltando que a situação de exploração e isolamento vivida pelos indígenas serranos era resultado também da manutenção de um sistema conservador que não possibilita o desenvolvimento da região. Disposto a provocar a ira e a reação contra a situação sofrida pelos companheiros da comunidade onde vive, o cavaleiro insone decide insultá-los com o objetivo de contagiá-los com sua raiva. A atitude de Herrera é vista, a princípio, com maus olhos pela maioria da comunidade, que teme novos massacres e, por isso, aceita passivamente os desmandos do juiz Montenegro, latifundiário que se apropria ilegalmente das terras dos indígenas da região. A atitude de Herrera revela que o problema do indígena no Peru tem raízes seculares, como podemos observar no fragmento abaixo: - Busco, hermanos, encenderles la sangre, contagiarles mi rabia tan grande contra la injusticia. Hace siglos que reclamamos en vano nuestras tierras. Estamos ya acostumbrados al abuso. ¡Reaccionen! Todo lo que me propongo gimiendo públicamente por nuestras desgracias es que ustedes se enfurezcan. ¡Está hecho! (EJI, p.58) O fato de passar séculos reclamando por estas terras revela que o cavaleiro insone, assim como a questão indígena peruana, sobrevive desde a conquista da América até os tempos atuais. 99 Mabel Moraña (1983), em seu artigo sobre a função ideológica da fantasia na obra de Scorza, assinala que o problema indígena no Peru tem origem em um sistema de exploração mantido ao longo dos séculos, no qual o indígena é gradativamente expulso ‘legalmente’ de suas terras e tem sua mão-de-obra explorada pelos representantes da oligarquia local. Ao longo do romance, Herrera consegue influenciar seus companheiros e levá-los a lutar por suas terras. Após organizar um grupo para segui-lo em sua busca pela elaboração do registro cadastral de suas terras, Herrera declara que a viagem empreendida por ele e seus companheiros ‘durará mais que sua vida’, revelando que sua função principal é reavivar a luta ancestral de seu povo contra o sistema que os explora. Assim, a viagem e a luta seguirão mesmo após sua morte. A vigília de Herrera também pode ser relacionada à questão indígena, já que em outra fala do cavaleiro insone ele declara que ‘mientras nuestra queja siga con los ojos abiertos, yo tampoco los cerraré!’ (EJI, p.172) Desse modo, manter-se acordado é também resistir à situação de exploração sofrida por seu povo. Neste fragmento, a ‘queixa dos indígenas’ é personificada, já que segue com os ‘olhos abertos’, revelando que a insônia de Herrera e a queixa de seu povo são dois fatos que estão relacionados. Os fatos recordados por Raimundo não compõem somente a sua memória individual, mas assumem também um caráter coletivo, uma vez que os fatos que recorda se relacionam diretamente à sua condição de homem indígena e pertencente a um determinado grupo social localizado no tempo e no espaço e fazem referência ao papel que o personagem ocupa na comunidade onde habita: o indígena mais velho da região e líder do movimento indígena contra os latifundiários. Como vimos no capítulo III, a memória coletiva pode diferenciar-se da memória histórica dependendo do referencial de sociedade que se tenha como base. No entanto, como destacou Jacques Le Goff, a memória coletiva e a história podem ser equivalentes, se levarmos em consideração as sociedades baseadas em uma cultura oral. Os povos indígenas que habitavam o continente antes da chegada dos conquistadores espanhóis se baseavam em uma cultura predominantemente oral. Em sua obra La voz y su huella (1990), Martin Lienhard expõe que dentre as 100 “inovações” trazidas pelos europeus no período da conquista da América, a valorização extrema da notação gráfica ou alfabética do discurso, especialmente o discurso do poder, teve um papel de grande destaque. Embora muito estudiosos defendam a ideia de que os povos autóctones eram povos ‘sem escritura’, Lienhard aponta que cada comunidade autóctone apresentava um tipo de escritura com diferentes funções sociais e aparência. Estas formas de escritura tinham diversas formas de representação: pinturas corpóreas, códices maias, linguagem dos tambores, kipus (área andina), glifos, etc. Na área andina o sistema de escritura predominante era o kipu, artefato confeccionado a partir de uma serie de fios coloridos que se uniam através de nós verticalmente em uma linha horizontal. A leitura do kipu supunha uma noção simultânea de um signo numérico, de sua posição nos eixos horizontal e vertical, e de cor. Cada signo respondia a três perguntas: quantas unidades/dezenas eram, de qual categoria e em que momento da sucessão temporal estavam. O kipu permitia dois usos distintos: armazenamento de dados úteis para o governo e a administração estatal e armazenamento de dados históricos, como a genealogia dos imperadores incas ao longo dos tempos. Embora tivesse um uso histórico, o kipu não registrava os fatos do cotidiano, Lienhard destaca que este sistema: (...) representa um sistema semiótico destinado a assegurar, em todos seus níveis, a administração do Estado, e a facilitar, como auxiliar mnemotécnico, a produção do discurso histórico-genealógico. A contribuição da memória oral, pouco importante no uso administrativo, se revela decisiva no uso historiográfico do kipu. O sistema andino de comunicação (no qual o kipu ocupa um lugar privilegiado), poderia, pois, ser caracterizado como 30 predominantemente oral (…). (LIENHARD, 1990, p.42, tradução nossa) Este sistema de notação, portanto, não se aplicava para os fatos cotidianos, obras ficcionais ou quaisquer discursos que estivessem fora da área de interesse da administração do Estado. 30 No original: (...) “resulta un sistema semiótico destinado a asegurar, en todos sus niveles, la administración del Estado, y a facilitar, como auxiliar mnemotécnico, la producción del discurso histórico-genealógico. La contribución de la memoria oral, poco importante en el uso administrativo, se revela decisiva en el uso historiográfico del kipu. El sistema andino de comunicación (en el cual el kipu ocupa un lugar privilegiado), podría, pues, ser caracterizado como predominantemente oral” (…). 101 Lienhard destaca que os sistemas de notação americanos, com exceção da escritura fonética dos povos maias, não transcreviam os discursos verbais, mas refletiam a percepção de mundo cósmico, natural e social dos povos autóctones. Estes sistemas não tinham como finalidade transcrever a inteligência discursiva do homem, mas oferecer o resultado de suas observações, reflexões e medidas. Assim, o teórico aponta que estes sistemas apresentavam uma forma de escritura conservadora e o desenvolvimento da dinâmica do discurso humano ocorria somente através da oralidade. A partir dessas observações acerca dos sistemas de notação americanos, o teórico aponta que: As escrituras americanas servem, principalmente, para armazenar dados, para fixar uma visão do mundo já consagrada, para arquivar as práticas e representações da sociedade. Não lhes incumbe, ou somente em uma medida reduzida, explorar ou planificar o porvir, jogar (filosofar) com as representações: estas práticas se realizam na esfera oral. A notação gráfica ou plástica, das sociedades andinas ou mesoamericanas, surgiu sem dúvida a partir da necesidade de racionalizar a administração em umas formações social e economicamente complexas, ademais de centralizadas; também para fixar, de modo indiscutível, os méritos histórico-genealógicos e os valores das sucessivas castas hegemônicas. (LIENHARD, 1990, p.48, 31 tradução nossa) Estes sistemas de escritura, portanto, não realizavam um questionamento das ações do homem, tampouco armazenavam informações do cotidiano desses povos. Podemos observar que estes sistemas apresentavam um papel fundamental para a organização do Estado, delegando à memória coletiva e oral a função de guardar todos os fatos que não eram armazenados. De acordo com as considerações de Lienhard, podemos constatar que os povos indígenas peruanos tinham uma cultura que era e se manteve predominantemente oral. Este fato é de suma importância para a questão da 31 No original: “Las escrituras americanas sirven, ante todo, para almacenar datos, para fijar una visión del mundo ya consagrada, para archivar las prácticas y representaciones de la sociedad. No les incumbe, o sólo en una medida reducida, explorar o planificar el porvenir, jugar (filosofar) con las representaciones: éstas prácticas se realizan en la esfera oral. La notación gráfica o plástica, de las sociedades andinas o mesoamericanas, surgió sin duda a raíz de a necesidad de racionalizar la administración en unas formaciones social y económicamente complejas, además de centralizadas; también para fijar, de modo indiscutible, los méritos histórico-genealógicos y los valores de las sucesivas castas hegemónicas.” 102 memória, já que, como apontou Le Goff, nas sociedades de cultura oral a memória coletiva e a história são termos sinônimos. Desse modo, podemos considerar a memória coletiva representada pela figura do cavaleiro insone como a própria memória histórica de sua comunidade. Como Le Goff apontou em seus estudos, os indígenas mais velhos representam para as sociedades de cultura oral verdadeiros guardiões da memória coletiva de seu grupo, assim, o fato de o personagem ocupar esta posição social o coloca como um “homem-memória” de seu povo, aquele que mantêm vivas a memória coletiva e a própria história de sua comunidade. Neste outro fragmento do romance podemos observar mais um fato histórico recordado por Herrera: Entonces se acordó de lo que pasó allá por mil ochocientos ochenta y uno No. No dormí. La fatiga de ese muchacho, Crispín, me removió los recuerdos. ¡Tan parecido al jovencito Lorenzo Chavalia que me acompañó, por esta misma ruta, a esconder nuestro Título en 1811! Asolaban nuestra tierra los chilenos, esos extranjeros de cuyo yugo, en vano, todas las generaciones nos intentamos liberar. ¿Era 1881? ¡Era! Yo tenía 68 años. ¿Quién ordenó que mi edad se detuviera? ¡Qué importa! El hecho es que estoy parado sobre el suelo de todas las generaciones, detrás de esta queja. Ciertas noches, pienso: ¿seré yo el único forzado a proseguir con los ojos abiertos?...En una feria de Pacaraos, sería 1768, oí que el apoderado de Michivilca tampoco dormía. ¿Alguien habrá dispuesto que exista una raza de hombres despiertos, condenados a recordar, a no dormir mientras no se absuelva nuestra queja? Quizá, pues, no descansaremos jamás. No. No dormí. Me acordé de lo que sucedió a nosotros durante esa guerra. (EJI, p.155) No fragmento acima, Raimundo cita o fato de haver uma “raça de homens que estão condenados a não dormir”, isto é, a não esquecer a memória de sua comunidade. Esta fala do personagem revela a importância da permanência da memória coletiva de seu povo para a tomada de consciência e para a luta por seus direitos, uma vez que, estes homens-memória jamais dormirão enquanto a questão da exploração ao povo indígena não estiver resolvida. O fato de que estes acontecimentos históricos sejam contados a partir da perspectiva desse indígena remetem à questão apontada por Le Goff de uma busca dos povos que apresentam um trauma coletivo, no caso peruano, o trauma da conquista, por uma “história dos vencidos”, uma “anti-história”. Assim, Raimundo representa a voz desses indígenas e a sua versão para os fatos históricos narrados 103 pela historiografia oficial. Através de Herrera, a história ‘nacional’ é narrada sob a perspectiva dos vencidos, há uma paródia do discurso oficial que constrói a historia nacional peruana. Podemos verificar nos fragmentos citados, portanto, que Raimundo é um dos personagens que representam a memória coletiva e a história da comunidade indígena peruana retratada no romance, uma vez que ocupa a posição de homemmemória de seu povo. O fato de não esquecer, relacionado à insônia de Raimundo, demonstra a importância da manutenção da memória coletiva, ferramenta fundamental para esta comunidade, uma vez que representa uma anti-história e uma resistência à história oficial peruana, narrada pela ótica dos vencedores, reforçando seu papel central na tomada de consciência do povo indígena para uma luta que mude o seu destino. 4.3 - As relações entre tempo mítico, memória e nação em El jinete insomne Vimos na terceira seção do capítulo III que tempo e escrita da história são dois elementos que se relacionam, já que a historiografia leva em conta uma determinada concepção de tempo. Assim, contar a história é uma forma de expressar como cada povo concebe sua ideia de tempo e armazena sua memória, seu passado. Nas sociedades onde o mito permanece vivo, o tempo é marcado pela continuidade e por sua reação à “história”, ou seja, o homem destas sociedades não se considera constituído por uma história na qual os fatos têm uma sequencia linear e irreversível. O homem é resultado das ações daqueles seres sobrenaturais que tiveram lugar no tempo mítico dos “começos” do mundo. Sua história é revivida e renovada periodicamente. Assim, o tempo tem um caráter cíclico e cada ação praticada pelos seres sobrenaturais serve de modelo para a vida do homem e pode ser revivida. O tempo, portanto, não tem um caráter irreversível. O homem da sociedade moderna ocidental, entretanto, se considera constituído por uma série de eventos históricos que fazem parte da História universal dividida em períodos marcados pelo calendário e considerados irreversíveis. Cada período se diferencia do outro e as sociedades caminham em um percurso linear. 104 Como apontou Benjamin, a história considera que os fatos percorrem um tempo vazio e homogêneo. A noção de tempo para cada sociedade, como vimos, aponta para como o homem interpreta sua realidade e os acontecimentos relacionados com o mundo no qual está inserido. Dessa forma, um acidente ou uma catástrofe podem ter diversas interpretações dependendo da sociedade que tomamos como referência. O homem constituído pela história interpreta uma mudança brusca, uma catástrofe ou uma injustiça social em sua sociedade como um fato que compõe a história de sua cidade, seu país. O homem constituído pelo mito, no entanto, vê este fato como uma alteração na história sagrada de sua comunidade. Esta “ruptura” no seu mundo deve ser abolida através dos feitiços e magias de seu sacerdote ou por meio de oferendas e sacrifício ao seu Deus supremo. A história, portanto, assume diferentes concepções: para uma sociedade, ela se configura como mito, para outra, como uma ciência que revela os períodos e fatos que marcaram a vida das cidades e nações. A escrita da história é mediada pelas possibilidades de sua produção: aquilo que deve ser descrito, o órgão que patrocina o historiador e a posição deste último diante dos fatos a serem relatados. Escrever a história é uma tarefa que envolve uma série de fatores que irão contribuir para que determinada noção de passado se construa. A partir do pressuposto que as sociedades têm uma evolução rumo ao progresso, como pensar em países onde a cultura indígena é predominante e se configura como uma ferramenta de resistência e de “entrave” para o desenvolvimento econômico? Em estudos sobre a cultura indígena peruana e a sobrevivência de uma mentalidade mítica em várias regiões povoadas predominantemente por indígenas no Peru, Alberto Flores Gallindo apontou que nos locais onde a cultura indígena rege a vida da comunidade, o atraso econômico e a miséria são maiores. Aliado a esse fator, a manutenção de um regime econômico conservador que explora o indígena revelam que a situação deste povo, em determinadas regiões do Peru, se modificou muito pouco desde a independência do país. Mariátegui já havia apontado que em 400 anos de história a situação do indígena no Peru pouco havia mudado, o 105 “problema do indígena” peruano, então, se insere em um tempo longo, marcado pela continuidade de sua situação de exploração e miséria, iniciada pelos espanhóis e mantida pelos criollos donos de latifúndio. A obra de Scorza, como vimos em nossas seções anteriores, é marcada pela denúncia e reivindicação social da situação do indígena na sociedade peruana. No romance que analisamos, observamos, dentre outras questões discutidas anteriormente, que a temática do tempo32 perpassa vários capítulos da obra, colocando-se, assim, como um tópico que se relaciona também com as configurações da nação e da memória no romance. A concepção de tempo para o homem andino pode ser entendida, como apontou Franklin Pease (1982), através de características que marcam a circularidade do tempo e sua “reação à história”. Esta circularidade é fruto da concepção de que o homem andino é constituído por uma história sagrada de heróis ordenadores e civilizadores do mundo. A cada destruição do mundo, segue uma reconstrução desse mundo, assim, o tempo tem um caráter cíclico, pois está em constante renovação. A conquista foi interpretada como o “caos”, trazendo uma interferência brusca e violenta na concepção de mundo do homem andino. A imposição de uma cultura letrada e baseada em um tempo linear e histórico representou uma ruptura e uma fragmentação na noção de sua identidade. Sua forma de reagir a essa realidade foi a criação de vários mitos que previam a volta do mundo como ele era nos tempos dos incas. Esse retorno de um tempo perfeito, no qual não havia fome nem desigualdade social, foi bem representado pelo mito do Inkarri, que pregava a volta do último imperador inca e a restituição de seu império. A noção de perfeição do império inca, no entanto, foi questionada por vários críticos como Alberto Flores Gallindo e Cornejo Polar. Flores Gallindo apontou em vários estudos que a concepção de um império inca perfeito faz parte de um dos processos que configura a utopia andina, assim, essa noção não leva em conta o império como ele foi, mas a imagem que os indígenas peruanos construíram dele ao longo do processo de conquista e independência do país. 32 Nos deteremos em analisar somente as representações do tempo mítico e do tempo histórico no romance. 106 Em seu estudo sobre o tempo na obra A dança imóvel de Manuel Scorza, Claudia Luna sinaliza para a questão da análise de elementos míticos na cultura dos povos pré-colombianos da América Latina: Resgatamos de nossos antepassados pré-colombianos os elementos atemporais e míticos, sem atentarmos para a organização social que nelas imperava. Novamente nós mesmos neutralizamos uma diferença que era sinal de riqueza. Havia, aqui, sim, povos que se encontravam no estágio primitivo, porém inúmeros outros, como astecas, maias e principalmente incas, já o detectaram vários historiadores, possuíam uma estrutura social hierarquizada, organizada segundo o modo de produção asiático, o que, aliás, facilitaria o processo de dominação espanhol. (SILVA, 1988, p.104) A associação, portanto, de uma mentalidade mítica para a maioria dos povos autóctones que aqui se encontravam no período da conquista é problemática, já que vários povos, como os citados pela estudiosa, apresentavam uma estrutura social bem desenvolvida e marcada pela desigualdade social. A imagem de um império inca perfeito, como apontou Flores Gallindo, é um dos elementos que compõem a utopia andina e representa uma reação à história de opressão iniciada na conquista da América. A questão do tempo em El jinete insomne inicia o romance. O primeiro capítulo intitulado “De cómo el río Chaupihuaranga siguió apellidandóse Chaupihuaranga pero cesó de ser río” relata a paralisia das águas do rio na comunidade de Yanahuanca: Yo fui el primero en percatarme de la pereza del agua. Vivo cerca de Racre, en una casucha que respetan las crecidas: conozco todas las mañas del Chaupihuaranga. Una mañana de agosto (pero quizás era diciembre) queriendo encerrar unas truchas en un brazo de agua, me extrañó la flojera del río. (…) Tres semanas después el Chaupihuaranga se detuvo definitivamente.(…) Así comenzó la parálisis del Chaupihuaranga. Luego se detuvieron los demás ríos. ¡Ojalá hubieran sido ellos los únicos en volverse inválidos! (EJI, p. 11-13) Este fato, entretanto, não é visto somente como uma simples mudança da natureza, pois segundo Blithz Losada Pereira (2003), “a água é o receptáculo sobre o qual gira e flui a totalidade do cosmos, segundo a visão andina do universo” (PEREIRA, 2003, p.19, tradução nossa) desta forma, a paralisia dos rios, um dos símbolos universais do curso do tempo, é vista por essa comunidade indígena como um sinal de que a passagem do tempo também foi interrompida naquela região. 107 Esta interpretação dos indígenas revela também como sua percepção da realidade e sua relação com a natureza que os cerca se diferencia daquela da cultura ocidental moderna. O rio se comunica com o personagem que inicia o relato, Don Magdaleno, conhecedor de todas as “manhas” do Chaupihuaranga. Outro elemento que chama a atenção na fala do personagem é a indefinição para uma data ou mês no qual ocorreu o fato. Magdaleno cogita que poderia ser agosto ou talvez dezembro, não determina uma data específica para o acontecimento. Esta “loucura” do tempo é sinalizada por Scorza em uma entrevista a Manuel Osorio: Se em El jinete insomne, por exemplo, o tempo se detem – porque em minha opinião o tempo se detem em determinadas culturas – se as águas, os rios, as cataratas, as correntes começam a deter-se, a cobrir as punas para converter-se em um grande lago, não é porque eu tentei uma graciosa operação imaginativa, ou um alarde estilístico, e sim porque é parte significativa da história. Eu observo que as concepções de tempo que regem na maior parte da América Latina não são as concepções de tempo 33 que regem no Ocidente. (OSORIO, 1984, p.58, tradução nossa) A paralisia do rio, portanto, é uma interrupção no curso da história do povo desta comunidade. Ao declarar que o tempo se mantem paralisado em determinadas culturas, Scorza sinaliza para o fato de que há sociedades que apresentam diferentes concepções de tempo, assim, a passagem temporal pode ser experenciada de forma diferente para cada uma delas. Como também apontou Gruzinsky, no período da conquista da América houve o choque entre diferentes modos de percepção do tempo, as temporalidades sobreviviam de maneira conflituosa. Estendendo-se do período colonial até o século XX, este conflito entre diferentes concepções para o tempo marca a sociedade peruana. Se concebemos a história como uma linha reta marcada pelos fatos históricos, que corre em direção linear rumo ao progresso, à modernização, 33 No original: “Si en El jinete insomne, por ejemplo, el tempo se detiene – porque en mi opinión el tiempo se detiene en determinadas culturas – si las aguas, los ríos, las cataratas, las corrientes empiezan a detenerse, a cubrir las punas para convertirse en un gran lago, no es porque yo intenté una graciosa operación imaginativa, o un alarde estilístico, sino porque es parte significativa de la historia. Yo observo que las concepciones de tiempo que rigen en la mayor parte de América Latina no son las concepciones de tiempo que rigen en Occidente.” 108 podemos observar que inúmeros países latino-americanos se encontram em um processo de “atraso” se comparados a países do primeiro mundo. No caso peruano, como entrar na modernidade sem perder os traços culturais da identidade indígena? Como avançar no tempo, rumo a uma consciência histórica sem abrir mão da cultura indígena e de suas características míticas? Estes questionamentos revelam a sobrevivência de um ritmo temporal marcado pela continuidade de traços da cultura andina que entram em conflito com a concepção temporal da cultura ocidental moderna, como sinalizou Flores Gallindo, é um elemento que aponta para uma fratura profunda na sociedade peruana e na sua noção de identidade. Como sinalizaram vários críticos peruanos, o império inca caiu ao primeiro contato com os espanhóis; a cultura indígena, no entanto, sobrevive até os dias atuais. Pensar em uma forma de manter esta identidade e, ao mesmo tempo, “entrar na modernidade” é uma das questões sobre a qual se debruçaram vários intelectuais peruanos, como José María Arguedas e latino-americanos, como o argentino Néstor García Canclini. As possíveis respostas para estes questionamentos, no entanto, admitem inúmeras possibilidades e suscitam grandes discussões. Assim, deixaremos para trabalhos futuros estes apontamentos. A temática do tempo volta a aparecer no romance no capítulo “Síntomas de la plaga que acometió a los relojes de Yanahuanca”. Nele há o relato de vários episódios envolvendo os relógios de diversas autoridades da comunidade de Yanahuanca. Os relógios na comunidade começam a adoecer, apodrecendo e morrendo. Símbolo universal do tempo cronológico e histórico, a doença dos relógios sinaliza, assim como a paralisia do rio, uma alteração no curso da história nesta região: Doña Añada, la más vieja de las cinco cocineras del juez Montenegro, jura que el primer enfermo fue el Longines del subprefecto Valerio. (…) Pero nadie discute que tres días después el reloj enfermo se asfixió en una rápida agonía. Luego se comprobaría que a los relojes la muerte les sobrevenía tras clamorosas inflamaciones. Ninguna máquina se eximió de esos lobanillos. ¡Solapadamente el reloj del subprefecto Valerio padecería antes la infección! (EJI, p.33) Após a infecção do relógio do vice-prefeito e a “morte” do objeto depois de expelir um mau cheiro, Valerio e seus convidados que presenciaram a cena, 109 decidiram manter em completo sigilo o acontecido. Outro relógio a sofrer a mesma infecção foi o do diretor da escola da comunidade, Prematuro Cisneros: Usando lujos, don Prematuro Cisneros lo traslado al patio. Era mediodía. El sol restauro el vigor del dolente. El morado donde se desleían los números romanos retrocedió en la tarde. El vientecillo del crepúsculo lavó la hedentina. En la engañosa mejoría de los moribundos. En la tarde el reloj desapareció debajo de una vegetación intolerable. (…) No quería publicar la deshonra de una enfermedad provocada por su pobreza. Así se esfumó la segunda oportunidad de descubrir el verdadero significado del óbito. (EJI, p.36-7) Outros relógios também padeceram de uma doença e morreram. Neste episódio foram os relógios de quatro militares da região que passaram a noite com uma prostituta e perceberam que seus relógios haviam se contaminado com uma terrível doença venérea: Tres días después los relojes tenorios mostraron inequívocas purulaciones. Astocuri y Bejarano, veteranos de mil combates, sospecharon que sus relojes exigirían enérgicas dosis de Ungüento de Soldado, clásico vencedor de chancros. El ungüento no sirvió de nada. Mareados por la fetidez, acudieron a la Unidad de Salud: se encontraron con Egmidio Loro. El sanitario Canchucaja admitió que también su reloj padecía de una venérea de bandera. (…) Los sobrevivientes finaron con la semana. Así, el miedo a una “enferdad secreta”, provocó el tercer silencio. (EJI, p.37) Com o passar do tempo, todos os relógios da comunidade começaram a adoecer e morreram: Protegido por la impunidad, el mal se instaló. Poco después todos los relojes sobrevivientes de Yanahuanca mostraron fatiga o decadencia. Una mañana el Opa Leandro descendió alterado del campanario. Ante sus ojos una vegetación lívida había devorado el “XII” del reloj público. (EJI, p.38) Nos três primeiros episódios podemos observar que a doença dos relógios se relaciona também com uma característica de seus donos. Os relógios das autoridades que mantêm um regime autoritário e explorador apresentam um mau cheiro, por isso sua doença é escondida do restante da população, já que, de certa forma, ridicularizam a postura destas autoridades. No terceiro episódio, os relógios dos militares apresentam uma doença venérea, denunciando o envolvimento dos militares com a prostituição. Mais uma vez, a causa da doença é omitida e ninguém, 110 além dos médicos e dos donos dos relógios, chega a conhecer o real motivo da morte dos objetos. Esta morte dos relógios também denuncia a postura destas autoridades, ridicularizando sua conduta na sociedade. A partir destas mortes, como vimos no último fragmento, o mal, ou seja, a doença do “tempo”, ataca toda a comunidade. A causa deste fato revela que este mal também é resultado da impunidade, dos silêncios deixados pela omissão das autoridades. Dessa forma, como salientaram Arguedas e Flores Gallindo, o tempo nos Andes parece ser o da continuidade, não somente da continuidade da mentalidade mítica dos indígenas, mas o da continuidade da situação de pobreza e exploração deste povo resultante do conservadorismo e da manutenção de um regime que condena o indígena à miséria e ao total descaso por parte das autoridades legais, representativas da nação peruana. Outra passagem da obra que relata a loucura do tempo na comunidade é o capítulo cujo título é “Decadencia del arte postal” . O capítulo se inicia com o relato da doença adquirida pelo funcionário dos correios, responsável pela entrega da correspondência na comunidade. Após sofrer um estranho ataque e morder sua própria mão, que costumava estender ao juiz Montenegro, Celestino Matos passa também a sofrer de uma miopia que lhe impede de ver as pessoas e cumprimentálas. Como a miopia não lhe permite ver as pessoas a partir de um ângulo correto, os habitantes da comunidade passam a ignorá-lo, fato que faz com que ele enlouqueça e seja definitivamente afastado de seu emprego. Após esse fato, a correspondência passa a ficar no Juizado de primeira instância, no qual trabalha o juiz Montenegro. De posse da correspondência dos moradores de toda a comunidade, Montenegro passa a ler as cartas e a descobrir as queixas de alguns moradores acerca de suas atitudes: Una tarde que el doctor se aburría, sus ojos tropezaron con el saco de lona e la correspondencia; muy sorprendido descubrió un sobre dirigido al prefecto de Cerro de Pasco. ¿Quién se carteaba con la primera autoridad departamental? Resultó una carta de don Eulogio Vento. El director de la escuela de Yanacocha exponía al prefecto de Cerro los percances que “a mi modesto entender causará la implantación del nuevo calendario caprichosamente dispuesto por el tirano de esta provincia, el célebre doctor Montenegro. (…) Sin ánimo polémico me permito, señor Prefecto, señalar los inconvenientes que el nuevo calendario suscita en mis alumnos. Si para los maestros ya no es difícil que los niños memoricen las epopeyas de nuestra historia, usted comprenderá, señor Prefecto, que al paso que vamos pronto celebraremos las derrotas y lloraremos las victorias…” (EJI, p.94) 111 Nesta passagem, o narrador deixa claro que a paralisia do tempo na comunidade é resultado da imposição de um novo calendário, elaborado de acordo com as preferências do juiz Montenegro. Esse fato chama a atenção, mais uma vez, para o poder ilimitado do juiz, que consegue “paralisar o tempo” e nos remete também para a imposição de uma determinada concepção de tempo sobre outra. Se tomarmos como referência o período da conquista da América, podemos observar, a partir das considerações de Gruzinsky, o conflito entre diferentes formas de conceber o tempo que existiu naquele período de nossa história é retomado por Scorza. No entanto, o autor se utiliza da ironia para demonstrar que assim como na conquista houve a imposição cultura ocidental sobre a autóctone e, consequentemente, a imposição do modo de marcar o tempo de forma linear e histórica sobre a forma de marcação temporal do ano indígena, nesse episódio há a imposição arbitrária de uma nova “temporalidade”, construída a partir das vontades pessoais da autoridade de maior prestígio na comunidade, o juiz Montenegro. Esta nova forma de marcar o tempo representa, como podemos observar no fragmento, uma alteração na forma também de se contar a história da nação peruana. Vimos, a partir das propostas de Certeau e Mircea Eliade, que a escrita da história se relaciona com a forma como cada sociedade concebe o tempo e constrói seu passado. O passado, então, é fruto de uma serie de eventos históricos narrados a partir de uma determinada perspectiva. Sem uma noção de tempo linear, a escrita da história, como a concebe a cultura ocidental, sofre alterações, tornando-se de difícil entendimento, como constatamos na última passagem do fragmento, na qual o professor Vento afirma que os alunos passarão a “celebrar as derrotas e chorar as vitórias”. Alterar o tempo, então, é uma forma também de alterar o curso da história e, consequentemente, a própria memória coletiva desta comunidade. Devido à doença do antigo funcionário e às inúmeras queixas do professor Vento, o juiz Montenegro decide designar um novo funcionário para o cargo. A partir desse fato, há a falência total do serviço de correspondência na comunidade, já que o juiz proíbe que o funcionário entregue as cartas aos seus destinatários: El correo fue raleando hasta que desapareció. Entonces se comprendió la inutilidad de un servicio que sólo comunicaba disgustos. Si allende las cordilleras existían quiméricas instancias, esas inverosímiles 112 administraciones no conocieron los memoriales quejosos. (…) Como esas máquinas de volar que planean sobre las tempestades, la provincia flotó sobre desilusiones y desastres. No se escucharon los avisperos de enconadas elecciones, ni se conocieron las traiciones de los politicastros. (…) Gracias a la benevolencia del doctor Montenegro se ignoraban las vociferaciones del mundo. Desterrada de preocupaciones, cerrada y perfecta, la provincia engordó, los relojes se pudrieron, el Chaupihuaranga se volvió lago, los niños y las plantas cesaron de crescer. (p.97/8) A inexistência dos correios, assim como a imposição de um novo calendário, mergulham a comunidade em um tempo no qual o curso da história é abolido. Esta é uma das características do tempo mítico; assim, esse tempo é marcado pela permanência e continuidade de uma história sagrada. Nesta passagem do romance, no entanto, observamos que a “abolição do tempo” significa a permanência de um regime autoritário e explorador e de uma realidade na qual o indígena é o maior prejudicado. Com a paralisia do tempo, esta comunidade se mantem desconectada do restante da realidade nacional peruana. Scorza declarou em sua entrevista a Manuel Osorio que a principal questão que busca sinalizar com a interrupção do correr do tempo em El jinete insomne é a paralisia da própria história. Segundo o peruano, na América Latina “há povos que se detiveram nos séculos XVI, XVII, XVIII ou XIX” (OSORIO, 1984, p.57, tradução nossa), assim, nosso continente pode ser entendido como um arquipélago de tempos detidos sem conexão. Esta paralisia do tempo retrata a realidade de diversas regiões peruanas nas quais o tempo se “deteve”, ou seja, não houve um acompanhamento do ritmo acelerado de modernização e “progresso” almejado pelas regiões mais desenvolvidas do país, como a costa peruana, e a sobrevivência da mentalidade mítica permanece até o século XX. No capítulo intitulado “De las abracadabrantes fiestas que organizaron los Montenegro”, há uma nova crítica à interrupção do tempo na comunidade. Neste capítulo, a esposa do juiz Montenegro decide adiantar uma série de feriados e a própria data de comemoração da independência do Peru por encontrar-se “entediada” com a ausência de festas na região. No diálogo a seguir, o professor Vento e o inspetor discutem a respeito das alterações do calendário propostas pela senhora: - El doctor dice que usted se opone a festejar las efemérides nacionales. 113 - Usted también, señor inspector ¿está de acuerdo con esa majadería de adelantar el tiempo? - Majadería es una palabra muy fuerte, Vento. Usted conoce al juez Montenegro. Es un hombre de ocurrencias. Cada loco con su tema. Si a él se le antoja que el lunes es sábado ¿a usted qué le importa? - Este señor se cree el dueño del mundo. Pretende estabelecer um nuevo calendario. El inspector Izquierdo dijo bonachón: -¿Qué es un calendario, Vento? Es una convención. ¿Sabe usted que el año inca tenía diez meses? Sin dármelas de erudito me permito recordarle que los mayas incluso tenían un mes de cinco días. Durante la Revolución francesa se pusieron de moda meses diferentes: “nivoso”, “pluvioso”, “floreal”. ¡Lindos nombres! El tiempo es relativo, señor Vento. (EJI, p.146) Questionado por sua atitude, Vento não aceita o “adiantamento do tempo” proposto pela esposa do juiz, mas o inspetor tenta convencê-lo afirmando a relatividade das concepções de tempo para diferentes sociedades, inclusive os povos pré-colombianos que constituíram grandes impérios na América Latina. Neste diálogo podemos observar a ironia estabelecida pelo narrador através da fala do inspetor acerca da ideia de tempo que cada sociedade pode apresentar. A noção de tempo, assim como a própria escrita da história, é fruto de construções sistemáticas do homem. A sociedade que tomamos como referência para analisar estes fatores nos indicará como cada povo interpreta a realidade que o cerca. Nesta fala há uma clara ironia acerca dessa discussão. Neste contexto, o tempo não é fruto de uma concepção de mundo dos indígenas, tampouco da cultura ocidental moderna: o tempo é regido pela vontade de determinadas autoridades que detêm um poder ilimitado na sociedade peruana. Apropriar-se do tempo é também apoderar-se do curso da vida nesta comunidade, como observamos na fala do professor Vento. Em outro fragmento do capítulo, a discussão acerca da implantação do calendário demonstra as alterações na realidade da comunidade: El calendario comenzó a desmayarse. Por pura bellaquería el Opa Leandro ofreció en venta unos almanaques: simples hojas de cartulinas con meses de cuarenta o sesenta días, con las nuevas efemérides en rojo, verde, amarillo, azul. Los badulaques se arremolinaron muertos de risa, pero, oh sorpresa, don Herón de los Ríos, alcalde de Yanahuanca, se metió la mano al bolsillo, extrajo cinco soles y exclamó: “Muy bonita, Leandro, su obra de arte.” A los graciosos que estallaron en carcajadas, los condujeron al Puesto por “desacato al señor alcalde”. El mantenimiento del calendario gregoriano se estimó desde entonces un “desacato al Poder Judicial”. En la práctica era 114 contradecir la realidad. Octubre engordó hasta tener ochenta días y noviembre murió apenas a los nueve días de edad. (EJI, p.147) Neste fragmento é interessante observar, entre outros aspectos, o fato do novo calendário haver sido confeccionado pelo personagem “Opa Leandro”. Descrito como um louco que busca bajular as autoridades, a posição de Opa Leandro agora se inverte: aproveitando-se da imposição de um novo tempo, o personagem passa a ocupar uma posição de privilégio na sociedade, já que incorpora o novo calendário a sua realidade. A partir do momento que um “louco” constrói o calendário desta sociedade, podemos observar que nela o que impera é o desregulamento da realidade e a construção de um mundo no qual tudo se encontra totalmente alterado. A mudança ocorrida na ordem estabelecida revela um mundo que se encontra invertido, caracterizando o processo de carnavalização34 deste episódio do romance. Assim como alterou o curso dos rios, o crescimento de crianças e plantas na comunidade, a desordem causada pela alteração do tempo “acelerou” os anos e causou catástrofes na região: La velocidad de los meses se acentuó: setenta y tres días después se recibió el año de 1965. Antes de que concluyera lo que según caducos calendarios pretendía ser 1963, Yanahuanca se preparó para el advenimiento de 1979 y los programas patrióticos con que se conmemoraría el Centenario de la Guerra con Chile. Pronto se acabó el siglo veinte y comenzó el veintiuno. (…) Ni los Montenegro ni sus alcahuetes ni sus forzados oferentes, comprendieron el verdadero significado de un temblor que a poco remeció la provincia. Solamente “años” después se enterarían que el supuesto terremoto fue consecuencia de la irresponsable alteración de las fechas. Igual que un corcel que se desboca enloquecido por avispas, así, aguijoneado por las disposiciones de doña Pepita, el tiempo se salió de sus márgenes, fluyó demencial y se estrelló contra el flanco rojizo de las montañas de Astacoto. (p.149) Neste fragmento, podemos observar que há a personificação do tempo, que assume características humanas e reage às alterações propostas pela esposa do juiz, causando um grande terremoto na região. Esse fato chama a atenção para a 34 A estudiosa Suely Reis Pinheiro, em seu trabalho sobre a picaresca no romance Garabombo, el invisible, apresenta uma análise cuidadosa acerca da carnavalização neste romance, de acordo com a proposta de Bakhtin (1970). Podemos observar, desse modo, que a carnavalização é uma técnica narrativa utilizada por Scorza ao longo de sua pentalogia. 115 “loucura” que acometeu o tempo e para as modificações na realidade da comunidade resultantes desse fato. Outro aspecto que podemos salientar neste fragmento é a questionamento da escrita da historia. Como vimos, o historiador depende de uma série de elementos para que sua produção seja possível: o patrocínio de um órgão científico e o apoio de um poder que o legitime, tornando seu discurso um objeto crível pela sociedade. Como a alteração do tempo configura-se como uma mudança na escrita da história da comunidade, o papel de quem escreve essa história também é posto em destaque. Ao longo destes fragmentos, podemos observar que a história “caminha” em direção ao futuro ou ao passado de acordo com as vontades do juiz Montenegro e de sua família. Ninguém ousa discutir essa nova realidade instaurada pelas ações do juiz, seu poder o legitima como dono da realidade e da história de sua comunidade. A partir do momento em que ele e sua esposa interferem nas datas e nas contagens dos meses e anos, podemos dizer que estes personagens criam e recriam a própria história da comunidade. Assumindo uma postura de reação a esta realidade desde o inicio da narrativa do romance, o cavaleiro insone surge, então, como um dos personagens que será o grande opositor aos desmandos da família Montenegro. A loucura do tempo, segundo o cavaleiro insone, só poderá ser combatida através da luta armada contra a situação de exploração na qual vivem os indígenas desta região. Lutar contra esta realidade é uma forma de lutar contra a imposição de um tempo e uma história que não contemplam a perspectiva do indígena. Somente a luta pode recuperar o andamento do tempo na região e transformar a realidade da comunidade. Assim, no último capítulo do romance, “ De como el lago Chaupihuaranga siguió siendo lago pero dejó de apellidarse Chaupihuaranga”, observamos que a luta empreendida pelo cavaleiro e sua comunidade resulta também em uma nova configuração para a realidade que os cerca. Após a morte do cavaleiro e um novo massacre realizado pelas tropas do governo, a realidade na região assume novos aspectos: No sólo el antiguo Chaupihuaranga se volvió rojo. Los Requis me dicen que el día del entierro de don Raimundo Herrera, las corrientes se tiñeron en las 116 alturas. El suegro de los Guadalupe cuenta que por su rumbo, cerca de la cordillera Culebra, además de teñirse, los ríos se encabritaron. “Magdaleno, yo no estaba bebido. Te juro que vi al río Culebra arrodillarse. Se prosternó e intentó regresar a su nacimiento. ¿Ves como corre ahora para acá? Pues durante tres días quiso correr hacia allá, hacia el cerro Wayracóndor.” Parece que en Pomayaros, en Rabí, en Taquiambra, en Chinche, los ríos recuperaron después su color. Puede ser. En todo caso, aquí las aguas siguen enlutadas de rojo. (EJI, p.211-2) Neste fragmento, a natureza apresenta uma reação à morte do cavaleiro e ao massacre realizado na comunidade. Os rios, convertidos em lagos no inicio da narrativa do romance, voltam a correr e “levam luto” pelas mortes ocorridas na região. O retorno do curso das águas dos rios representa a volta da passagem do tempo na comunidade. Com a organização da luta e a reação às atitudes arbitrárias da família Montenegro, os indígenas recuperam o curso do tempo e da sua própria história. Este fato, no entanto, não sinaliza para uma vitória do movimento indígena, já que o massacre voltou a se repetir e a comunidade segue de luto pela morte de Herrera, como podemos observar na última passagem do fragmento. O rio Chaupihuaranga segue sendo lago, pois suas águas não voltam a correr e se mantêm vermelhas, em sinal de luto. Este aspecto do rio revela que a luta dos indígenas terá uma continuidade. Assim, a organização do levante comandado por Herrera foi de extrema importância para a recuperação sobretudo da memória coletiva e da própria história da comunidade. A realidade sofreu alterações a partir desta ação dos indígenas. Desse modo, a lição deixada por Herrera representa a voz daqueles que não cessam de reclamar os direitos do povo indígena na sociedade peruana e de reivindicar uma nova perspectiva para a historiografia oficial. A ira de Herrera foi a mola propulsora para a luta de seu povo e seu objetivo, suscitar a vontade de lutar em uma população aterrorizada pelo medo, revela a luta ancestral do povo indígena peruano por um espaço na totalidade contraditória que é a nação peruana. 117 CONCLUSÃO Nesta dissertação, procuramos analisar a representação da nação e o papel assumido pela memória coletiva no processo de construção de uma história dos vencidos no romance El jinete insomne de Manuel Scorza, tentando contextualizá-lo social, política e economicamente, atentando para a posição do produtor e dos referentes da obra, o que a caracteriza como heterogênea. Na segunda metade do século XX, começam a surgir romances vinculados ao Indigenismo, apresentando, no entanto, novos elementos e perspectivas, constituindo o que se tornou conhecido como Neo-Indigenismo. Dentre essas inovações, destacamos o uso do real maravilhoso, que teve como objetivo expor uma melhor compreensão do sentido mítico da visão de mundo do homem andino; a introdução de novos recursos formais que deram origem a uma intensificação do lirismo na narrativa; e, finalmente, a ampliação do “problema do índio”, que começou a ser visto a partir de uma perspectiva nacional. A obra de Manuel Scorza é relacionada ao movimento neo-indigenista; dessa forma, nestes romances percebemos o contato direto com a tradição indigenista e a permanência de questões primordiais como o caráter heterogêneo dessa literatura. Como apontamos, no romance de Scorza os movimentos de resistência e luta dos indígenas por uma melhor condição de vida e, consequentemente, por um lugar em seu espaço nacional, indicam que o discurso hegemônico de uma nação harmoniosa é totalmente problemático se tomamos como referência países com a realidade sócio-histórica peruana. Assim, a partir das considerações de Cornejo Polar, podemos observar que as representações da questão nacional no romance analisado demonstram que a nação peruana é uma totalidade contraditória na qual o conflito entre duas mentalidades e duas concepções de mundo permanece desde a conquista até os tempos atuais. A sobrevivência de uma memória coletiva dos indígenas, portanto, é de fundamental importância para a inclusão da perspectiva destes povos na historiografia oficial e, consequentemente, para sua inserção no espaço nacional. Em El jinete insomne a memória coletiva, que também é sinônimo de história, é representada pela figura do homem-memória Raimundo Herrera. Ao longo do 118 romance podemos observar que Herrera luta pela posse dos títulos de sua comunidade e, principalmente, pela conscientização de seus companheiros para que se organize um novo levante. Herrera apresenta uma memória ‘sobrenatural’, de longo alcance; por isso, pode lembrar fatos históricos ocorridos desde o período colonial da história peruana até a década de 1960, na qual é narrado o romance. O papel desempenhado por este homem-memória, representante da memória coletiva de seu povo, é o de guardião da história dos vencidos, da “anti-história”. A memória coletiva representada pela figura do jinete insomne desempenha, portanto, a função de reescrever a história a partir de uma nova perspectiva, a dos vencidos. Manter viva esta memória coletiva é resistir ao discurso oficial hegemônico e reivindicar novas versões da história oficial, na qual os indígenas possam ser ouvidos e reconhecidos como parte integrante da nação. 119 BIBLIOGRAFIA ACHUGAR, Hugo. Historias paralelas / Historias ejemplares: la historia y la voz del otro. Revista de Crítica Literaria Latinoamericana, Lima, Año XVIII, Nr. 36, pp. 49-71, 2do. semestre de 1992. _______________. Planetas sem boca: escritos efêmeros sobre arte, cultura e literatura. Trad. Lyslei Nascimento. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. ÁLVAREZ, Eduardo Huarag. El héroe mítico en las novelas de Scorza. In: MAMANI MACEDO, Mauro. Manuel Scorza: homenajes y recuerdos. Lima: Andesbooks, 2008. ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Trad. Denise Bottman.São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ARAO, Lina. A trajetória da utopia em Jorge Icaza e Manuel Scorza. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006. 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