17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis Artificações, Inquietações e Experimentações em Sociologia da Arte João Gabriel L. C. Teixeira,Departamento de Sociologia, Universidade de Brasília. Resumo: Trata-se de reflexão sobre o uso de metodologias experimentais em pesquisas e estudos da performance levadas a cabo na Universidade de Brasília. Procura-se descrever os procedimentos utilizados bem como alguns dos resultados obtidos em experiências desenvolvidas ao longo das duas últimas décadas. Enfoca especialmente a utilização do novo conceito “artificações”, na condução de experimento realizado na Universidade de Brasília, em 2006 e 2007. Demonstra como o diálogo entre as ciências sociais e as artes pode beneficiar a construção de uma estética cognitiva. Palavras-chave: performance, metodologia, sociologia da arte Abstract: This article reports on experiments about performance studies carried out at the University of Brasília. It describes the procedures utilized as well as some of the results of experiences which have been developed in the last two decades. It focusses especially the new concept of “artification”” used in the conduction of an experiment conducted at that University in 2006 and 2007. It demonstrates how the dialogue between the social sciences and the arts can benefit the construction of a cognitive aesthetics. Kew words : performance, methodology, ratification, sociology of the arts 1 – Apresentação A partir dos trabalhos experimentais realizados nos últimos doze anos pelo Laboratório Transdisciplinar de Estudos sobre a Performance (TRANSE) da Univesidade de Brasília, cujos relatos podem ser encontrados em outros trabalhos da autoria deste pesquisador (Teixeira, 1998 e 2006) tem se procurado delinear uma teoria que destaque as múltiplas relações que se podem estabelecer entre sociologia e teatro, na qual o campo dos estudos da performance, conforme desenvolvidos no Departamento pertinente da Universidade de Nova Iorque - onde desponta os trabalhos de Richard Schechner (1985, 1988, 1990 e 1993) - tem se mostrado extremamente operacional . Eles permitem a abertura de um imenso campo experimental que transcende aos limites do conhecimento sociológico, através da absorção de “insights” e informações proporcionadas pelas diversas contribuições do domínio das ciências sociais, sejam da antropologia, da etnografia, etnometodologia, do interacionismo simbólico, das artes em geral, da etnomusicologia, da psicanálise e da arquitetura, etc. 1145 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis Essa experimentação, no que se refere particularmente à utilização de locais e a sua exibição para públicos diferenciados, também tem permitido que o trabalho do TRANSE atinja novos patamares de risco e exposição. Recorda-se que essas possibilidades em termos de publicização e exposição da performance e dos performáticos fazem parte relevante da linguagem denominada na literatura, genericamente, de arte da performance. Essa experimentação, por outro lado, definiu praticamente as concepções de performance que o TRANSE tem adotado: 1)a concepção de performance enquanto linguagem artística (arte da performance), 2)como manifestação cultural (performance cultural) e 3)a idéia goffmaniana de performance no quotidiano (“o mundo é um palco”). Essas três concepções contemplam as variáveis conceituais do campo da performance mais em voga e sua escolha tem se mostrado operacional para condução das atividades desenvolvidas pelo/no mesmo. Não obstante, constata-se que essas concepções não são exaustivas nem conclusivas. É preciso que se leve em conta, nesta reflexão, que performance, em última análise, conforme afirma Taylor (2003), é um termo que conota simultaneamente um processo, uma prática, uma episteme, um modo de transmissão, uma realização e uma maneira de intervir no mundo e, portanto, suplanta amplamente as possibilidades de significação encontradas em seus sinônimos: teatralidade, ação, espetáculo e representação. Essa conotação ampliada, por assim dizer, é encontradiça com maior freqüência e nitidez nos experimentos estéticos estimulados por tal teoria. Ou seja, é a partir desses experimentos que se constrói a citada episteme. Nesse intuito, a teoria da performance informa o substrato sócio-cultural ao mesmo tempo em que utiliza práticas e técnicas artísticas, na busca do sensível no real e vice-versa. Argumentase que a esse processo dialógico pode-se atribuir a denominação de experiência vivenciada ou vivida. 2 - As metodologias experimentais e a sociologia da arte Esta reflexão foi catalisada pela descoberta recente de que, na sociologia de língua francesa, já se podem identificar pelo menos dois sociólogos da arte que reconhecidamente utilizam metodologias experimentais diferenciadas em suas pesquisas: Hennion (1993, principalmente) e Mervant-Roux (1998, principalmente, e 2004). O primeiro acentua o pragmatismo de certas práticas musicais, considerando 1146 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis que a música mesma é uma sociologia, plena de instrumentos, corpos e de objetos que nos conduziria a uma mediação com uma dupla ultrapassagem, ou seja, a de um pensar crítico que reduz os objetos musicais ao social e que somente aceita esses mesmos objetos quando sejam extraídos do social. Já a Mervant-Roux (2004) vem cultivando a sobrevivência de formas artísticas em manifestações populares e realizando um escrutínio pormenorizado e recorrente sobre as audiências, os espetáculos e os locais de apresentação (1998). Essa estudiosa dos públicos de teatro tem se preocupado de forma pormenorizada sobre a importância dos mesmos na representação teatral, procurando responder a questão se, eles são - como diriam os grandes diretores - os grandes protagonistas do jogo, os parceiros primordiais do ator, os “terceiros homens”, os quartos criadores do espetáculo, ou tudo isso não passa de uma mitologia? Seu trabalho de campo nessa área, desenvolvido entre 1986 e 1994 se baseia numa série de exemplos variados de espetáculos, profissionais e amadores. Através da observação de diversas representações, a pesquisadora (1998) leva também em consideração os discursos da gente de teatro sobre o seu público, abrangendo os seus termos, expressões, relatos, metáforas e lendas, além da - o que é digno de nota - análise das gravações sonoras dos silêncios e dos ruídos das casas de espetáculo, onde se desenha e se esclarece a figura do espectador. Segundo a pesquisadora, a assistência, quando diante da cena, torna-se uma rede de visões que se transformam incessantemente, um curioso instrumento vibrante, ou o grande ressonador da ação dramática. Segundo Mervant-Roux (op. cit.), os olhares da audiência, paradoxalmente, se “escutam” mutuamente. Embora esses trabalhos ainda não tenham logrado divulgação suficiente para exercerem maior influência no desenvolvimento recente da sociologia da arte francesa, de qualquer forma vale a pena o registro dos mesmos, tendo em vista que a sociologia “mainstream” jamais admitiu anteriormente que a mesma pudesse vir a se tornar uma ciência experimental (“gente não é cobaia”) ou que pudesse utilizar-se dos métodos experimentais proporcionados pelas experiências informadas pelos estudos das performances artísticas. 3 - O TRANSE e as metodologias experimentais Essa possibilidade encontra-se presente não apenas nas montagens dos espetáculos como nos eventos acadêmicos realizados pelo TRANSE e que geraram várias publicações em que a preocupação experimental é marcante. 1147 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis Ora, segundo Vera Zolberg (2006), uma característica que parece definitiva nas metodologias empregadas pelos sociólogos das artes em seus estudos é o uso necessário e ostensivo da observação participante, em que o distanciamento e o antietnocentrismo estejam mesclados e, ao mesmo tempo, limitados pelas características subjetivas próprias dos objetos artísticos, ou seja, que os seus componentes estéticos estejam sempre considerados e explicitados, mesmo quando importando procedimentos de outras disciplinas. Essa necessidade, por sua vez, encontra espaço fértil para seu florescimento no caráter dialógico encetado pelo experimentalismo inerente aos estudos da performance. Estes, ao tempo em que proporcionam o substrato intelectual que provoca a reflexão sobre questões sócio-culturais concretas, perseguem as linhas artísticas, tornando público o produto alcançado e buscando uma platéia com a qual interagir. Há que se fazer referência também aos experimentos realizados em sala de aula durante o oferecimento de disciplina optativa sobre arte e sociedade aos alunos de graduação da universidade em que textos acadêmicos sobre estudos da performance e da psicanálise são reinterpretados pelos alunos através de encenações e manifestações estéticas variadas. Esses experimentos mais tarde passam a compor colagens de performances apresentadas ao público no final do curso. 4 – Artificações* No ano de 2006, por exemplo, o Núcleo teve a oportunidade de encetar essa forma de experimentação sob a denominação de “artificações”, segundo um neologismo lançado pela socióloga francesa Roberta Shapiro, no citado Congresso de Sociologia de Língua Francesa (AISLF), realizado na cidade Tours, na França, em julho de 2004. Transcreve-se aqui, quase na íntegra, o texto produzido para o programa da experiência, apresentada no horário de almoço, no Restaurante Universitário da Universidade de Brasília, em 27 de julho de 2006. *Artificiar: fazer ou executar com artifício ou ardil; maquinar, urdir, tramar. Artifício (substantivo). Conforme está escrito no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Na ocasião, autora resumia o tema que propôs para discussão no Congresso afirmando que começou a refletir sobre essa noção num grupo de trabalho de antropólogos e sociólogos de que participara e que, em poucas palavras, esse novo 1148 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis conceito busca denominar o processo de transformação da não-arte em arte. Na ocasião afirmava a autora: “Em suma, a transformação da não-arte em arte é uma transfiguração das pessoas, dos objetos e da ação... O conjunto desses processos conduz não somente ao deslocamento da fronteira entre arte e não-arte, mas ainda a construir novos mundos sociais, habitados por entidades inéditas e em número crescente”. (Shapiro, 2004: 2). A seguir, a citada socióloga procurava demonstrar que ele não se refere apenas aos objetos, às pessoas e às ações, mas também à reclassificação das mesmas, ao enobrecimento das pessoas envolvidas e à edificação de novas fronteiras. Segundo Shapiro (op. cit.), a artificação implica também em modificações de conteúdo de formas de atividade e nas qualidades psíquicas das pessoas, permitindo a reconstrução dos objetos, a criação de novos e, mesmo, o rearranjo dos dispositivos organizacionais. A unificação desses processos, dos quais a nominação e a institucionalização são partes dependentes, conduz não somente a um deslocamento da fronteira entre a arte e não arte, mas também à construção de novos ambientes sociais, povoados de identidades até então inéditas e em número crescente. Adiante, a aludida pesquisadora passa a ilustrar esses processos com exemplos retirados de seus trabalhos e de seus colegas. Embora colocado sob a forma hipóteses a serem discutidas naquela ocasião, o experimento desenvolvido na Universidade de Brasília, demonstrou o seu caráter alternativo e seminal, pelo menos do ponto de vista da experimentação artística. Existem diversas variantes, nuances e componentes deste conceito-neologismo. Para o Núcleo, ele significou, mesmo inadvertidamente, nesse momento, as experimentações possíveis em sociologia da arte, durante um semestre, no, já citado, curso optativo sobre “Arte e Sociedade”. O pressuposto básico era mostrar mais uma vez como os estudos sobre a performance podem se constituir numa possibilidade de utilização das metodologias experimentais em sociologia da arte. Insistentemente, obcecadamente, imperiosamente. Shapiro também aduzia, no texto em questão, citando Harold Fromm (2003), que a artificação seria então uma função adaptativa específica do ser humano e que a continuidade e a evolução da espécie dependerão, entre outras, das capacidades artísticas dos indivíduos. Em inglês, artificação é igualmente um termo técnico com o sentido geral de bonificação e melhoramento. Ele ainda é inexistente na última edição da Enciclopédia Britânica. 1149 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis Sem medo de ser feliz, um alunado de quase trinta alunos de graduação em ciências sociais se jogou na experiência, sobretudo pela vontade de sair da rotina e experienciar os processos comunicativos das emoções e dos sentidos subjetivos dos textos acadêmicos. Nada de seminários ou aulas expositivas, mas a tentativa despudorada de expor o que Evreinoff (1996), Goffman (2002), Geertz (1978), Barroso (2004), Freud (1901, 1905, 1910 e 1917) e Minois (2003) suscitaram reflexivamente. A promessa era apenas a da confiança mútua e da vontade de aprender ludicamente, se divertindo muito. O trabalho ora apresentado certamente ficará entranhado no espírito de cada um, artificadamente, artimanhosamente, astuciosamente. 5 – Inquietações Em 2007, aos alunos da citada disciplina, em número de quarenta, foi oferecida a oportunidade de performatizar temas, sugeridos pelos textos (Cohen, 1989; Freud, 1901, 1907, 1908 e 1914, Ianni,1996; Laban,1978 e Villaça e Góes 1998) e questões tratados durante o semestre. Os textos em geral, versavam sobre a dança, corpo e movimento, escolhidos de uma bibliografia específica selecionada para leitura e discussão pelo grupo. Neste processo, o grupo experienciou uma série de exercícios sistemáticos em dança contemporânea, com o auxilio de um coreógrafo e dançarino profissional que teve o objetivo central de preparar tecnicamente o alunado para preparar as cinco mini-performances apresentadas no final. Este apoio profissional facilitou sobremaneira a experiência, no que se refere à localização cênica dos alunos na apresentação final, nos seus processos de concentração e relaxamento. O mote do trabalho corporal proposto foi dançar os textos, parafraseando o titulo do trabalho de Garaudy (1980), Dançar a Vida. A apresentação dessas cinco performances no projeto Tubo de Ensaios, em sua sétima edição, intitulada “Inquietações” ocorreu durante o intervalo do meio dia, em toda a extensão sul do prédio do Instituto Central de Ciências (ICC), mais conhecido como Minhocão, na Universidade de Brasília, em 29 de junho de 2007. Ao todo foram apresentadas 18 performances simultâneas, coletivas e individuais, durante cerca de uma hora e meia, ao som de música eletrônica ao vivo, com participação de percussionistas que ecoava em todo o espaço cênico ocupado. 1150 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis Esses eventos acontecem anualmente e visam ocupar espaços-públicos não convencionais para apresentações performáticas simultâneas. Uma trilha sonora original é composta a cada ano e executada ao vivo por instrumentistas, percussionistas e cantores. O publico é induzido a percorrer espontaneamente o espaço envolvendo-se com as performances que se repetem a cada 5 minutos em média. As ‘Inquietações’ dos performáticos da UnB, inclusive dos estudantes de ciências sociais causaram um “frisson” sem precedentes no publico presente, cambiante e caminhante, calculado em cerca de 1.000 pessoas, constituído em sua grande maioria por membros da comunidade universitária, ou sejam, alunos, professores, funcionários e visitantes. A extensão desse ‘frisson’ pode ser avaliada a partir dos 120 depoimentos escritos colhidos de membros da audiência em urnas estrategicamente localizadas no espaço cênico utilizado. A guisa de ilustração, listam-se alguns deles: “Compreendo que a humanidade perece”. “Façam isso sempre! Quebrem a monotonia da Universidade”. “Fazer no teto da UnB da próxima vez, o norte...”. “Muito show. Não sabe quem é ator quem é espectador. Adorei”. “Esse povo é doido”. “Fiquei com medo!” “A humanidade é insana!” “Muito bom. As imagens são chocantes. Focam o obvio que ninguém quer entender”. “As inquietações realmente mexeram com alguns sentimentos íntimos e profundos. É bom ver trabalhos que causem imagem e sensação!” “Interessante até mesmo nas cenas em que utilizaram artifícios melequentos”. “O barulho atrapalha nosso trabalho”. “Achei que a música tem tudo a haver com a proposta de inquietar o público”. “Senti retratada a alma do mundo, o medo de tentar ser, e a ânsia de ter”. Ainda visando avaliar a recepção ao experimento, a 13 alunos da disciplina “Arte e Sociedade” foi aplicada uma ficha de avaliação sobre a experiência performática, 1151 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis sua metodologia e os resultados colhidos pela disciplina acadêmica. Vale a pena analisar alguns desses depoimentos, classificados segundo os tópicos do progrma do curso: I - Sobre a relação entre arte/sociedade/corpo: “Eu via a arte como sendo uma linguagem, a expressão máxima, a meu ver, da cultura, do meio social em que está inserida. Não achava que a linguagem corporal era tão poderosa para tal: o curso me mostrou isso”. “O que aprendi foi uma relação muito mais próxima entre a arte e os indivíduos e sociedade... Que pode haver arte em coisas cotidianas e banais. O corpo se insere como parte constante, pois através dele podemos nos expressar melhor”. “A arte está intimamente relacionada com o entendimento da sociedade e da sociologia. O corpo foi muito bem trabalhado, incluindo as noções de domínio do mesmo para a produção artística”. “É uma relação íntima e de referências simultâneas. Não existe um sem a presença do outro. O corpo é objeto para ambos. É possível trabalhar o corpo e compreender melhor as relações entre a arte e a sociedade”. “A arte é uma forma de viver, a liberdade de se por no mundo, de estar e transformar o convívio em sociedade. O corpo é o nosso passaporte de entrada nessa brincadeira em que a ação faz o impossível existir e o inacreditável acontecer”. “A arte permeia todas as relações sociais, mesmo que a primeira vista não consigamos distinguir. E o corpo é o palco dessas relações”. “Arte e sociedade se relacionam de diversas formas, a arte sendo um importante elemento de integração e comunicação entre os homens. O corpo se insere nessas relações na medida em que se torna também um elemento de expressão artística”. II - Sobre a relação entre performance e vida concreta: “A performance está presente no cotidiano. Viver é performar. O trabalho com a dança permitiu um contato consciente com a arte da performance que domina a vida”. ‘Performatizar é criar uma personagem, segurar uma postura. Na dança tenta-se repassar impressões, o movimento é um exercício com o mundo empírico não ego centrado, é portanto, performance. Na dança se emulam posturas cotidianas, é um rito, uma forma de sublimação”. “O mundo é um palco. Em cima dele estamos performando/atuando. Em diversas situações, a performance perpassa a nossa vida cotidiana. No trabalho com a dança não faltou oportunidade de perceber como nós teatralizamos em forma de dança, a vida. Notamos que movimentos s dos braços/pernas/cabeça/ etc. vistos (praticados) nas aulas práticas são realizados em diversos contextos do nosso dia-a-dia”. 1152 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis “Foi uma experiência incrível, só que ainda não consegui interpretar e internalizar tudo o que aconteceu nesse evento”. III - Sobre a participação no evento/cognição/desenvolvimento estético: ‘Que a sociedade está sempre na espera do cumprimento da performance a qual fomos preparados e o corpo físico corresponde a essas expectativas”. “O curso serviu para ver o quanto fazer arte é sofrido, mas ao mesmo tempo delicioso”. “Me senti cumprindo minha função social na sociedade que é a de mostrar que existem diversas formas de se interpretar uma mesma ação e que sempre existiram diversas formas. Exemplos: textos, músicas, ações. Hoje me sinto muito mais livre”. ‘A apresentação foi o ponto alto da disciplina. Após toda teoria vista e do treinamento corporal, conseguimos montar uma performance. Acredito que o conhecimento dos textos junto com a aplicação de toda essa teoria na apresentação proporcionou um maior domínio da teoria, pois conseguimos sentir como um performático sente, literalmente sentir na pele o que o texto fala e também foi importante para mostrar o que éramos possíveis em tão pouco tempo”. “Estar em performance é um transe, uma permissão. Provocação e vulnerabilidade. Dar-se à alteridade de si, assumindo os riscos. Buscar o obvio inencontrável. Baterse no vento à carne viva. A pura cognição da poesia”. “O evento artístico foi uma excelente oportunidade de experenciar a relação entre arte e sociedade de uma forma bem direta. Desde a preparação até a realização foi possível ver cada vez mais claro os elementos que caracterizam a performance, a arte que cutuca, que questiona, perturba, busca respostas e ao mesmo tempo não as quer”. “Compreendi (tomei consciência) de uma nova dimensão do corpo, aprendi a melhor explorá-lo e valorizá-lo. Primeiro li sobre o corpo, depois experimentei, tornando o conhecimento completo.” Considerações Finais Culminando os exemplos sobre o que se deseja denominar como experiência vivida menciona-se o recurso metodológico empregado por doutorando em sociologia da Universidade de Brasília em sua pesquisa de tese. Neste caso, o que aconteceu foi a experimentação sentida no próprio corpo do pesquisador da extensão física das técnicas empregadas nas acrobacias ensinadas na Escola Nacional de Circo onde o mesmo se matriculou como estratégia de aproximação aos alunos e professores da mesma. Aqui, o que ficou patente foi uso da experimentação nas artes circenses enquanto campo de produção social de processos sensoriais, envolvendo os 1153 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis indivíduos em situações-limite em que a presença do risco físico é componente fundamental. No caso da análise encetada pelo autor sobre o sonho dos acrobatas, este chega a admitir a possibilidade de se formarem redomas sensoriais oníricas, não previstas em seu projeto original, abrindo novas possibilidades de experimentação em determinadas formas artísticas, até então negligenciadas pela tradição sociológica no campo das artes. Veiga de Almeida (2004) finaliza sua obra chegando a admitir que os casos identificados em sua pesquisa de deslocamento sensorial parecem constituir a base tanto da teoria da performance como da própria sociedade atual. Esta reflexão, entre outras conclusões, leva à consideração de que o experimentalismo aqui defendido pode estreitar como queria Brown (1977) as afinidades existentes entre arte e ciência, ou mais precisamente, entre arte e sociologia, colaborando na criação de uma estética cognitiva propícia ao desenvolvimento de uma poética para a sociologia, além de arejar as suas lógicas de investigação. Em princípio, argumenta-se que o saber sociológico se beneficiaria sobremaneira do empreendimento estético no sentido de expandir as possibilidades de previsão e prognóstico sobre as transformações sociais. Nisbet (1977), por exemplo, chama a atenção para a maior capacidade das artes em geral em insinuar certas antecipações e profecias sobre o desenvolvimento das sociedades humanas. Turner (1982), a seu tempo, sugeriu que as performance culturais revelariam o caráter mais profundo, genuíno e individual de cada cultura. Guiado pela crença em sua universalidade e relativa transparência, Turner, ademais, propunha que os povos poderiam se compreender melhor através de suas performances culturais. Por outro lado, é bom que se esclareça que o que está se preconizando é a expansão das possibilidades da lógica da descoberta, por oposição à lógica da demonstração, também constitutiva do saber sociológico, mas que necessita de uma abordagem diferenciada para a sua consecução. Nesse sentido, as artes se beneficiariam desse diálogo com a sociologia no que ela fornece de rigor no tratamento dos dados e na redução das possibilidades de reducionismo e impressionismo (Heinich, 1998). Bastide (1979:200) esclarece este ponto de vista de forma definitiva ao afirmar que a arte “nos dá acesso a setores que o sociólogo interessado pelas instituições não consegue atingir: as metamorfoses da sensibilidade coletiva, os sonhos do imaginário histórico, as variações dos sistemas de classificação, enfim as visões de 1154 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis mundo dos diversos grupos sociais que constituem a sociedade global e suas hierarquias”. Finalmente, este relato tenta demonstrar que já é possível superar os constrangimentos impostos à sociologia pela sua tradição de cunho mais positivista. Nesse intento, espera-se que tenha ficado patente o papel a ser desempenhado pelas metodologias experimentais em sociologia da arte, no qual as possibilidades das práticas em estudos da performance podem desempenhar uma função decisiva. Referências Bibliográficas: Bastide, Roger. Arte e Sociedade, 1979, São Paulo: Cia. Editora Nacional. Brown, Richard Harvey. A poetic for sociology, toward a logic of discovery for the human sciences, the University of Chicago Press, Chicago and London, 1977. Cohen, Renato. “Prefácio”, “Do Percurso”, “Introdução” e “Das raízes: Live Art – Ponte ente Vida e Arte” in Performance como Linguagem, Editora Perspectiva, São 1989. Evreinoff, Nikolas. “O Eterno Show” in Teixeira, J.G.L.C. (organizador) Performáticos, Performance e Sociedade, Editora da Universidade de Brasília, 1996. 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Atualmente é coordenador do Laboratório Transdisciplinar de Estudos sobre a Performance (TRANSE) na UnB. *Todas as obras de Sigmund Freud citadas neste artigo foram publicadas na Edição Standard das Obras Completas do mesmo, Editora Imago, Rio de Janeiro, s/data. 1156