Avaliação da substituição do óleo combustível por gás natural nas usinas térmicas do sistema elétrico brasileiro Luciano José da Silva1 Roberto Meira Junior2 Hirdan Katarina de Medeiros Costa3 Edmilson Moutinho dos Santos4 Marilin Mariano dos Santos5 Virginia Parente6 RESUMO: A geração de eletricidade no sistema elétrico brasileiro ainda é fortemente hidrelétrica. Entretanto, com as constantes e recorrentes oscilações hídricas, o uso de outras fontes se faz necessário. As fontes renováveis estão crescendo em participação, mas sua intermitência, muitas vezes é prejudicial ao sistema. Assim, as térmicas são de grande importância para dar mais estabilidade e segurança. Com relação à capacidade instalada das térmicas, este estudo tem como objetivo avaliar a substituição de usinas térmicas antigas a óleo combustível por térmicas a gás natural no sistema elétrico brasileiro e verificar se tal procedimento realmente contribui para um melhor desempenho. Tal estudo é voltado para o sistema elétrico como um todo, pois faz uma abordagem para todo o parque térmico a óleo combustível. Para tal, será utilizado o banco de dados do Balanço Energético Nacional 2014 (BEN), que apresenta a geração das térmicas a óleo combustível do ano base 2013. A avaliação foi feita através de índices de sustentabilidade que mostraram de maneira quantitativa como se comporta as questões de custos e emissões de gases de efeitos estufa (GEE). Assim, este estudo contribui para apresentar os impactos da substituição do óleo combustível por gás natural em unidades térmicas no país. Palavras-chave: usinas térmicas, gás natural, óleo combustível, indicadores. 1 Luciano José da Silva - Bacharel em Engenharia Ambiental e Mestre em Engenharia de Energia pela Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI). Doutorando em Energia pelo Instituto de Energia e Ambiente (IEE/USP). Contato: [email protected] 2 Roberto Meira Junior - Bacharel em Engenharia Mecânica e Mestrando em Engenharia de Energia pela Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI). Contato: [email protected] 3 Hirdan Katarina de Medeiros Costa - Professora Visitante do PRH04/MCTI no IEE/USP. Contato: [email protected] 4 Edmilson Moutinho dos Santos - Professor Associado do IEE/USP. Contato: [email protected] 5 Marilin Mariano dos Santos - Coordenadora do curso de especialização em Petróleo e Gás no Instituto Mauá de Tecnologia (IMT). Contato: [email protected] 6 Virginia Parente - Professora Doutora do IEE/USP. Contato: [email protected] 1 INTRODUÇÃO 1.1 Geração Termelétrica A geração de energia elétrica a partir de derivados de petróleo ocorre por meio da queima desses combustíveis em caldeiras, turbinas e motores de combustão interna. No caso de termelétricas, o material é transportado até a usina, estocado e, posteriormente, queimado em uma câmara de combustão. O calor obtido nesse processo é usado para aquecer e aumentar a pressão da água, que se transforma em vapor. Este vapor movimenta as turbinas que transformam a energia térmica em energia mecânica. Posteriormente, um gerador permite a obtenção de energia elétrica. No caso do Brasil, onde historicamente a geração de energia elétrica é predominantemente hídrica, a geração térmica, particularmente com derivados de petróleo, normalmente opera na base para o pico de demanda do sistema (ANEEL, 2008). Os geradores térmicos são todos aqueles que utilizam processos que envolvem o aquecimento de uma substancia que funciona como um meio de transferência de energia ou a partir de processos que funcionam como a queima direta de um combustível, para que este gire uma turbina acoplada mecanicamente a um gerador. Há diversas opções tecnológicas referente às usinas térmicas, sendo assim, há várias formas para queimar ou aquecer várias substancias como combustíveis. Têm-se os geradores nucleares, os geradores movidos a carvão ou gás natural, os a diesel (ciclo Diesel) e os a derivados do petróleo (ciclo Otto). As substancias que podem ser aquecidas normalmente são o ar (ciclo Brayton) ou a água (ciclo Rankine) (Gianpietro, 2007). Em relação à participação das térmicas no Brasil, a Tabela 1 mostra que as mais significativas são as movidas a gás natural, bagaço de cana de açúcar, óleo combustível, óleo diesel, carvão mineral e licor negro, que apresentam 12.858.200 MW, 9.933.550 MW, 4.091.353 MW, 4.039.323 MW, 3.389.465 MW e 1.785.102 MW, respectivamente (ANEEL, 2015). Tabela 1 Capacidade instalada das usinas térmicas no Brasil Capacidade Instalada Fonte nível 2 Nº de Usinas Bagaço de Cana de Açúcar 387 Biogás-AGR 2 Agroindustriais Capim Elefante 3 Casca de Arroz 11 Biocombustíveis líquidos Óleos vegetais 2 Biomassa Carvão Vegetal 7 Gás de Alto Forno - Biomassa 8 Floresta Licor Negro 17 Resíduos de Madeira 47 Resíduos animais Biogás - RA 12 Resíduos sólidos urbanos Biogás - RU 10 Calor de Processo - CM 1 Carvão mineral Carvão Mineral 13 Gás de Alto Forno - CM 9 Calor de Processo - GN 1 Gás natural Gás Natural 137 Fóssil Outros Fósseis Calor de Processo - OF 1 Gás de Refinaria 7 Óleo Combustível 40 Petróleo Óleo Diesel 1.677 Outros Energéticos de Petróleo 16 Total 2.408 Origem Fonte Fonte nível 1 ( KW ) 9.933.550 1.722 657 39.533 435 51.397 109.865 1.785.102 358.925 2.081 62.317 244 3.389.465 20.029 40 12.858.200 1.473 33.996 4.091.353 4.039.323 937.928 37.717.635 % 6,878 0,0011 0,0454 0,0273 0,003 0,0355 0,076 1,236 0,2485 0,0014 0,0431 0,0168 2,347 0,1386 0,0276 8,903 0,1019 0,2353 2,8328 2,7968 0,6494 26,64 Fonte: (ANEEL, 2015) De maneira geral, os principais poluentes decorrentes do processo de combustão e presentes nas unidades de geração térmica são: material particulado (MP), dióxido de enxofre (SO2), óxidos de nitrogênio (NO, NO2), óxidos de carbono (CO, CO2) e Compostos Orgânicos Voláteis (COV) (Chaim, 2005). Os gases que são liberados na atmosfera dependem da composição do combustível a ser queimado, do processo de queima ou remoção pós-combustão e das condições de dispersão, como altura da chaminé, relevo e meteorologia. Quanto mais denso o combustível, maior o potencial de emissões. Nesse sentido, derivados de petróleo, como o óleo combustível, são altamente poluentes (ANEEL, 2008). 1.2 Óleo Combustível O óleo combustível é classificado como destilado ou residual. No primeiro caso, quando obtido por processos de destilação atmosférica ou a vácuo. Já no segundo caso, quando é derivado de processos de craqueamento térmico ou catalítico. Trata-se de um combustível largamente utilizado para aquecimento de fornos e caldeira, principalmente nas indústrias química, de papel e celulose, de alimentos e de bebida (Martins, 2001). O óleo combustível teve um papel importante nas últimas décadas para as indústrias brasileiras, pois promoveu a substituição da lenha como fonte principal de geração de calor e energia por uma fonte líquida, muito mais fácil de transportar e que permitiu a automatização dos equipamentos. Os setores mais significativos no consumo final energético de óleo combustível são o industrial, com 66% de participação; o de transportes, com 24%; o energético, com 9%; e outros, como agropecuária, comercial e público apresentam uma parcela reduzida, 1% (EPE, 2014). As projeções de demanda do óleo combustível do Plano Decenal de expansão da Energia (PDE) baseiam-se na atividade industrial e nas expectativas de mercado para substituição do óleo combustível pelo gás natural. Estima-se que entre 2014 e 2023, a projeção da demanda final de óleo combustível por região passará dos 4,2 milhões de m3 para 5,5 milhões de m3. Com relação às térmicas a óleo, a capacidade instalada saltará dos 3.493 MW em 2014, para 3.493 MW em 2023 (MME and EPE, 2014). 1.3 Gás Natural Combustível formado por longo processo de decomposição de matéria vegetal e animal, em meio carente de oxigênio e sob condições de elevada pressão e temperatura. O gás natural é encontrado em rochas porosas, algumas vezes associado ao petróleo. Muitas vezes, por falta de modais de transporte, o gás natural é queimado. Possui constituição variável, de acordo com as condições locais de formação, mas é constituído quase que de metano puro, possuindo menores porcentagens de etano e propano. Trata-se de um dos combustíveis mais importantes em termos mundiais, pois apresenta alto poder calorífico, baixa densidade e baixo teor de impurezas (Martins, 2001). Uma das aplicações energéticas do gás natural se dá pela geração de eletricidade através de usinas termelétricas. Uma mistura de ar comprimido com o gás natural permite a combustão, que resulta em gases de alta temperatura, provocando o movimento de turbinas conectadas aos geradores de eletricidade. O destino seguinte do gás determina se a térmica será de ciclo simples ou combinado. O mais comum é o primeiro caso, em que o gás é resfriado e liberado na atmosfera por uma chaminé. Já no segundo caso, os gases em alta temperatura são transformados em vapor e direcionados a turbinas novamente. Embora o ciclo combinado seja mais caro, ele aumenta a eficiência do processo de geração (ANEEL, 2008). As projeções de demanda do gás natural do PDE resultam da análise crítica das pesquisas realizadas pela EPE em parceria com a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (ABEGÁS) e a outros consumidores industriais do gás. Como já mencionado, a penetração do gás natural depende muito da sua competição direta com o óleo combustível, desse modo, a relação de preços entre esses energético é fundamental para as hipóteses de crescimento. Também é levando em consideração os seguimentos industriais que preferem o uso do gás natural pelo elevado grau de pureza do produto final, como é verificado na fabricação do vidro, de determinadas cerâmicas e de fertilizantes, no qual essa fonte é utilizada tanto como insumo energético, como matéria-prima. As previsões de demanda são feitas com base em dois cenários: (i) um que tem como premissa a manutenção dos preços relativos de gás natural a respectiva área de concessão da distribuidora no patamar corrente; (ii) e outro que considera o aumento da competitividade do gás natural no setor industrial e a manutenção da competitividade no setor residencial e do GNV, em relação a energéticos substitutos, portanto o preço relativo para a indústria é menor que o preço relativo corrente. A demanda do primeiro cenário, potencial, será sempre maior que a do segundo, que é a demanda de mercado. Feito estas considerações, o PDE estima que o consumo final energético de gás natural alcance 63 milhões de m3 por dia em 2023, contra 38 milhões de m3 em 2014. Em termos médios, espera-se que aos 85 milhões de m3 diários de gás natural consumidos em 2013, sejam adicionados cerca de 42 milhões de m3/dia até 2023, dos quais 23 serão utilizados como consumo não energético. Do total de 128 milhões de m3 diários em 2023, cerca de 23 milhões de m3/dia serão requeridos pela produção termoelétrica esperada. Em termo de evolução da capacidade instalada de geração do gás natural, o PDE aponta 11.442 MW em 2014 e um salto para 20.016 MW em 2023 (MME and EPE, 2014). O gás natural é um dos combustíveis mais utilizados no Brasil na geração termelétrica, apresentando elevado poder calorífico e, sua queima, apresenta baixos índices de emissão de poluentes, em comparação a outros combustíveis fósseis. Em caso de vazamentos, tem rápida dispersão, com baixos índices de odor e de contaminantes. O uso dessa tecnologia foi ampliado somente na última década do século passado. Atualmente, as maiores turbinas a gás chegam a 330 MW de potência e os rendimentos térmicos atingem 42%. Ao contrário do carvão e do petróleo, o gás natural tem uma relação hidrogênio/carbono superior e emite menos dióxido de carbono. A queima do gás natural oferece um meio eficaz para melhoria da qualidade do ar (Moutinho dos Santos et al., 2007). Outros combustíveis fósseis liberam partículas que impedem a fotossíntese nas plantas e agrava doenças cardíacas e pulmonares em humanos. O material particulado é também um contribuinte para a poluição atmosférica. A produção e combustão de combustíveis fósseis também geram emissões de nitrogênio e óxido de enxofre. Os óxidos de nitrogênio resultam em vários impactos ambientais, incluindo poluição e chuva ácida. Óxidos de enxofre também são um contribuinte principal para a chuva ácida (Afgan et al., 2007). No caso do gás natural, tem-se um dos combustíveis que menos gera poluentes de oxidação parcial, como monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos não queimados (UHC) e fuligem (Chaim, 2005). 1.4 Substituição de sistemas de óleo por gás natural Diversos autores mostram que a substituição do óleo combustível por gás natural apresenta diversas vantagens (Chaim, 2005; Moutinho dos Santos et al., 2007). Até mesmo os órgãos governamentais têm incentivado tal substituição. Embora se trate de um combustível fóssil, o gás natural deve ser uma fonte de energia de transição entre as tendências energéticas atuais, dominadas por carvão e petróleo, e outra recente, com maior diversificação das fontes e participação crescente de fontes renováveis. Atrelado a isso, observa-se uma liderança ascendente dos gases combustíveis, tanto naturais, como os produzidos por outras fontes. Nesse sentido, um novo mundo estaria nascendo, chamado de "civilização do gás". Tal civilização deve perdurar por um bom tempo, embora deva perder força com a diversificação e consolidação de outras fontes (Moutinho dos Santos et al., 2007). O gás natural apresenta vantagens ambientais e outras relacionadas com a operação e manutenção, pois são muito mais simples, como pode ser visto nas Figuras 1 e 2. Estudos de variabilidade econômica na substituição do óleo combustível por gás natural demonstrou uma economia anual de aproximadamente 36%. O custo unitário do gás natural foi de 0,166 USS/m 3, comparando ao custo de 176 USS/ton para o óleo combustível (Chaim, 2005). Figura 1 Sistema de geração de vapor a óleo combustível. Fonte: (Chaim, 2005) Figura 2 Sistema de geração de vapor a gás natural. Fonte: (Chaim, 2005) 1.5 Indicadores de sustentabilidade A definição mais concreta de desenvolvimento sustentável surgiu pela primeira vez em 1987 com o Relatório de Brundtland e foi amplamente adotada no contexto da Conferência das Nações Unidas sobre meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92). Segundo a Comissão Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente das Nações Unidas, o desenvolvimento sustentável visa suprir as necessidades atuais sem comprometer as necessidades das gerações futuras. A sustentabilidade supõe a habilidade para perdurar no tempo, evitando o colapso das civilizações, sociedades, economias e organizações. O processo de mudança do antigo paradigma para o novo, o da sustentabilidade, está em andamento e envolve todas as áreas do pensamento e da ação humana (Almeida, 2002). No conceito de desenvolvimento sustentável são englobados comumente três componentes: o econômico, o ambiental e o social. O setor energético, apesar de trabalhar com matérias-primas e produtos de origem não renovável como os combustíveis fósseis, pode ter práticas e ações voltadas ao desenvolvimento sustentável, como melhor utilização de recursos naturais, uso de fontes alternativas de energia e eficiência energética. Para avaliar as reais transformações ou monitorar o cumprimento de metas de sustentabilidade faz-se necessário o uso de indicadores. Os indicadores são componentes essenciais na avaliação global do progresso rumo ao desenvolvimento sustentável (Gallopin, 1997). O objetivo da avaliação de sustentabilidade é fornecer aos decisores uma avaliação do global ao local, integrando sistemas naturas e sociais em perspectivas de curto e longo prazo, a fim de, ajudá-los a determinar quais ações, devem ou não, serem tomadas em uma tentativa de tornar a sociedade sustentável (Ness et al., 2007). As compilações de informações para formular indicadores englobam três etapas centrais: normalização, ponderação e agregação (Singh et al., 2012). Indicadores de sustentabilidade e índices compostos são de grande importância e, cada vez mais, mostram-se como uma poderosa ferramenta para a formulação de políticas e de comunicação pública no fornecimento de informações sobre os países e sobre o desempenho das empresas em domínios como o meio ambiente, econômico, social ou de melhoria tecnológica. Indicadores de sustentabilidade simplificam, quantificam, analisam e comunicam uma informação complexa e complicada. Índices e sistemas de classificação estão sujeitos à subjetividade, mas apresentam como principais vantagens a multidimensionalidade, o uso de normalização e agregação com base em regras científicas e métodos estatísticos robustos. Mesmo com vários esforços internacionais para se medir a sustentabilidade, apenas poucos desses apresentam uma abordagem integral, tendo em conta os aspectos ambientais, econômicos e sociais. Na maioria dos casos, o foco está em um dos três aspectos. Embora, os aspectos se completem, a sustentabilidade é mais do que uma agregação das questões importantes, ela tange as interligações e as dinâmicas desenvolvidas em um sistema. Se os índices são mal construídos, eles irão fornecer resultados enganosos e serão interpretados de maneira equivocada. Assim, as análises de sensibilidade e análises de incertezas podem ajudar a testar a eficácia e robustez do índice. A escolha do modelo, do mecanismo de ponderação e o tratamento de valor ausente também desempenham um papel predominante enquanto ocorre a construção de um quadro. Indicadores de desenvolvimento sustentável devem ser selecionados, revisados e refinados com base nas comunidades de interesse apropriadas. Assim, os índices devem ser construídos dentro de um quadro coerente (Singh et al., 2012). Estudos de sustentabilidades que envolvem indicadores quantitativos ainda são relativamente escassos. No que diz respeito a índices de sustentabilidade voltados para o setor energético, (Schlör et al., 2013) detalham uma metodologia específica para avaliar a matriz elétrica da Alemanha, com conceitos definidos de acordo com as metas adotadas pelo proponente. Os índices de desenvolvimento sustentável e o índice de sustentabilidade padronizada apresentados pelos autores calculam o grau em que a sustentabilidade é alcançada. Ambos os índices mostram, em uma perspectiva diferente, se a Alemanha está no caminho sustentável de energia de acordo com as metas estabelecidas pelo Governo alemão na sua estratégia. Os índices, também, nos possibilitam comparar normativamente as metas de sustentabilidade definidas, com o real comportamento da sociedade alemã e, nos permitem responder através de um processo de monitoramento dos cálculos dos indicadores de sustentabilidade, onde é necessária uma ação política. No entanto, tem-se que levar em consideração o fato das metas de sustentabilidade serem o resultado de um processo de tomada de decisão política. No Brasil, (Borges et al., 2012) realizaram um trabalho com o objetivo de construir e aplicar um modelo de indicadores de sustentabilidade de eletricidade para o setor comercial paraense na intenção de orientar os investimentos do setor elétrico. Os indicadores foram construídos segundo critérios da Comissão de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas e selecionados, estrategicamente, variáveis nas dimensões econômica, social, ambiental e política. Os resultados obtidos para o período de 2000 a 2008 revelam que o setor comercial do Pará apresenta uma baixa utilização de energia elétrica devido as altas tarifas cobradas, boa capacidade de geração de empregos e um comportamento do PIB com destacada representação diante do contexto econômico do Estado. Para o século XXI, estima-se a diminuição das reservas petrolíferas, o que demandará ajustes aos atuais padrões de consumo e produção. No entanto, observa-se que os combustíveis fósseis apresentam uma grande participação no mercado energético. Os atuais preços praticados, a constante evolução tecnológica e as novas descobertas de reservas colocam os combustíveis fósseis com uma grande competitividade e deixam dúvidas sobre as previsões de exaustão. De outro lado, os países do G7, durante encontro em junho de 2015, reconheceram e assumiram a necessidade de descarbonização de suas economias até o fim século. O grupo das maiores economias do planeta pretende reduzir as emissões globais entre 40% e 70% até 2050, tendo como base 2010. Tal meta foi oficializada por meio de uma carta conjunta assinada em junho de 2015 (G7, 2015). Uma análise de sustentabilidade feita em sentido amplo considera diversos fatores e suas interações. Este estudo faz uso de dois indicadores de sustentabilidade, focando nas questões econômica e ambiental. No entanto, em momento algum se desconsidera a importância de outras abordagens e suas interações. 2 METODOLOGIA Os instrumentos metodológicos descritos a seguir foram realizados para testar a hipótese de que a substituição das térmicas a óleo combustível por unidade a gás natural contribuem para uma geração com menor emissão de gases de efeitos estufa e menor custo. Em suma, fez-se uso de indicadores quantitativos para comparar os dois cenários de geração. O estudo foi feito com base nos dados do BEN 2014 (EPE, 2014), de onde foi extraído a geração dos empreendimentos de centrais térmicas a óleo combustível do ano base 2013, tanto das centrais elétricas de serviço público, como das centrais elétricas de autoprodução, como visto na Tabela 2. Para simplificar os cálculos e de acordo com os dados disponíveis, considerou-se que as opções tecnológicas apresentam para cada unidade capacidade instalada de 150 MW. Assim, para gerar a energia do ano base 2013, são necessários 14 empreendimentos. Tabela 2 Geração de Eletricidade Óleo Combustível 2013 (GWh) 11.112 Fonte: (EPE, 2014) Considerou-se que a geração das centrais a óleo será substituída por centrais a gás natural. Para avaliar o impacto dessa mudança, foi utilizado dois indicadores, um para avaliar os custos globais médios (CGM) e outro para avaliar as emissões de GEE (Walter et al., 2014). Para calcular o CGM do grupo de empreendimentos, considerou-se os custos de investimentos e de operação e manutenção (O&M) para o período de 2013, como mostra a Equação 1. 𝑪𝑮𝑴 = ∑𝒏𝒋=𝟏(𝑶𝒑𝒆𝒙𝒋 + 𝑪𝒂𝒑𝒆𝒙𝒋 ) (01) Onde: 𝑶𝒑𝒆𝒙𝒋 = custos de operação total (O&M) correspondentes ao ano j; 𝑪𝒂𝒑𝒆𝒙𝒋 = custos de investimento (em novas centrais ou em adaptações necessárias) em forma de anualidade correspondentes ao ano j; J = período considerado, ano base 2013 (1 ano). Os custos da geração de eletricidade considerados, bem como outros parâmetros, são os apresentados na Tabela 3 (Losekann et al., 2013; Walter et al., 2014). Para a troca das caldeiras a óleo combustível por gás natural, considerou-se um custo de investimento de 2200 USS/MW instalado. Tabela 3 Parâmetros para cálculos dos custos de geração no Brasil Fator de capacidade (%) 60 60 CAPEX (USS/kW) 1200 850 Óleo Combustível Gás natural (ciclo simples) Fonte: (Losekann et al., 2013; Walter et al., 2014) OPEX (USS/MWh) 12,0 3,5 Para o cálculo do total de emissões de GEE, considerando Dióxido de Carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), foi utilizado a Equação 2. 𝑮𝑬𝑬 = ∑𝒏𝒋=𝟏(𝑪𝑶𝟐𝒋 + 𝑪𝑯𝟒𝒋 + 𝑵𝟐 𝑶𝒋 ) (02) Onde: CO2j = toneladas equivalentes de CO2; CH4j = toneladas equivalentes de CO2 correspondentes ao CH4; N2Oj = toneladas equivalentes de CO2 correspondentes ao N2O; J = período considerado, ano base 2013 (1 ano). Todos os componentes foram expressos em toneladas de CO2 equivalentes, considerando os fatores de ponderação definidos pelo IPCC (CO2 = 1; MH4 = 25, N2O = 298) (Solomon, 2007). Os fatores de emissão adotados para o estudo são os estipulados na Tabela 4 (FIESP and CIESP, 2001). Tabela 4 Emissões de CO2 durante a geração de eletricidade Combustível Óleo Combustível Gás Natural Emissões (kg CO2/kWh) 0,87 0,38 Fonte: (FIESP and CIESP, 2001) 3 RESULTADOS Foram levantados dois cenários para a geração de energia termelétrica a óleo combustível no ano de 2013, sendo um considerando a opção tecnológica de térmica a óleo, como já funciona até então, e o outro, ocorrendo a substituição dessa capacidade instalada por térmica a gás natural. Com a aplicação dos índices de custos e de emissões, foi possível mensurar de maneira quantitativa o impacto da substituição das térmicas a óleo no sistema brasileiro por gás natural. Embora haja outros critérios passíveis de comparação, como a emissão de outros poluentes (material particulado, SOx, NOx, CO e compostos orgânicos voláteis) e outros parâmetros, optou-se por focar apenas em dois indicadores. No indicador custos, este estudo constatou que a substituição do óleo combustível por gás natural representa uma economia de 89.199.600 US$ durante o ano de 2013, ou seja, gastos 67% menores. Embora haja um custo de capital atrelado as adaptações necessárias para fazer a troca das caldeiras, o CGM é menor para o gás natural devido ao seu menor custo de O&M. Tabela 5 Comparativo dos custos das termelétricas em estudo durante a geração de eletricidade em 2013 Combustível Óleo Combustível Gás Natural CGM (USS) 132.451.200 43.251.600 Com relação a emissões de GEE, verificou-se redução de 5.444.880 ton CO2, o que em termos relativos representa cerca de 56%. Os resultados são favoráveis, considerando a necessidade de emitir menos gases de feito estufa, e os compromissos assumidos pelo Brasil com a lei nº 12.187 de 29 de dezembro de 2009, que instituiu a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) no Brasil. Cabe ressaltar que mesmo havendo significativas reduções do GEE, as centrais a gás natural também emitem outros poluentes que causam sérios danos ao ambiente e a saúde pública. Tabela 6 Comparativo das emissões de CO2 pelas termelétricas em estudo durante a geração de eletricidade em 2013 Combustível Óleo Combustível Gás Natural Emissões (ton CO2) 9.667.440 4.222.560 4 CONCLUSÕES Este estudo fornece subsídios para comprovar a afirmação de que a substituição das térmicas a óleo combustível por unidade a gás natural contribui para uma geração com menores emissões de gases de efeitos estufa e menor custo. De modo específico, pode-se observar e quantificar tal afirmação para todo o sistema elétrico brasileiro. Considerando a geração das térmicas a óleo combustível no ano base de 2013, os indicadores utilizados mostram que a tal substituição contribuiria para a redução de 67% dos custos de O&M e 56% dos GEE. A mudança de opção tecnológica em questão necessita de investimento para fazer as adaptações necessárias, mas este custo é compensado pelas diferenças significativas dos custos de O&M, que são bem menores para o gás natural. Quanto à redução de emissões de GEE, elas são relevantes e contribuem para as metas voluntárias que o país assumiu e está de acordo com os compromissos assumidos por alguns países ao redor do mundo. Ressalta-se que este estudo é significativamente sensível aos custos adotados, sendo assim, uma análise de sensibilidade e um estudo mais profundo dos preços adotados contribuem para uma abordagem mais realística. Há um interesse muito grande na atualidade em reduzir as emissões de GEE. Além da sociedade como um todo, grupos específicos também fazem um discurso contra a utilização de combustíveis fósseis. Ressalta-se a decisão do G7 em assinar uma declaração conjunta, em que os países do grupo se comprometem a diminuir as emissões. Essa meta passa essencialmente por reduzir o consumo de combustíveis fósseis, focar no desenvolvimento de novas tecnologias e promover a eficiência. A proposta desse trabalho fica restrita aos combustíveis fósseis, mas tratase de uma mudança de opção tecnológica que contribuir decisivamente para melhorias econômicas e ambientais. E como afirma Moutinho dos Santos (2004), o gás natural exerce um importante papel para a transição de uma sociedade baseada em combustíveis como petróleo e carvão para uma nova sociedade possivelmente voltada para fontes renováveis de energia. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Afgan, N.H., Pilavachi, P.A., Carvalho, M.G., 2007. Multi-criteria evaluation of natural gas resources. Energy Policy 35, 704-713. Almeida, F., 2002. O bom negócio da sustentabilidade. Nova fronteira, Rio de Janeiro. ANEEL, 2008. Atlas de energia elétrica do Brasil. ANEEL, Brasilia. ANEEL, 2015. Banco de Informação da Geração (BIG) - Capacidade de Geração do Brasil. 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