A mediação da leitura e a refiguração: reflexões a partir de Paul Ricoeur
Markley Florentino CARVALHO 1 (UFGD)
Resumo: A discussão do mundo do texto e mundo do leitor apresentada por Ricoeur
fomenta neste artigo a reflexão sobre a experiência viva da leitura e a réplica da
interação do leitor com o texto. É a partir da representação da fenomenologia da leitura
que se embasa esta pesquisa sobre a busca do leitor pela configuração em narrativas do
romance atual e as estratégias de persuasão utilizadas pelo autor no processo de
compreensão e interpretação da narrativa. A interação do texto depende do objeto da obra,
assim sendo, busco na conceituação da narrativa, informações do contexto dos estudos
literários da narratividade para estudar fundamentalmente os esquemas dos jogos
interativos, nos quais o leitor é instigado na relação de interação com o mundo do texto
para o fim da refiguração da obra.
Palavras -chave: Refiguração; Narrativa; Fenomenologia da Leitura.
Introdução
A mediação da leitura postulada por Paul Ricoeur como o meio para a interação
entre o mundo do texto e o mundo do leitor será a base para o diálogo com outros autores
e suas teorias que reservaram um olhar para a questão da narratividade e a concretização da
obra literária.
Na teia dialógica traçada entre os textos eleitos na bibliografia do curso de mestrado
de letras da UFGD, fica evidente o diálogo entre as escolas literárias, sobre a comunicação da
obra literária, a relação da narratividade e a concretização da obra no ato da leitura. Ricoeur
apresenta a partir da hermenêutica, as suas teorias da leitura e as formas de estudar a
interação leitor/texto por meio da fenomenologia: a poética da retórica, a retórica entre o
texto e o leitor e a fenomenologia e estética da leitura2.
É na interação do leitor com o texto da obra, que o leitor poderá refigurá-la para a
transcendência em direção novamente ao referente. Sendo assim, neste artigo Ricoeur e
Ingarden dialogam a partir da fenomenologia, apresentando as indagações e respostas sobre a
complexa relação entre o mundo do texto e o mundo do leitor com o fim da refiguração da
obra literária.
Ainda a partir de outros textos de Ricoeur é fundamental dialogar e refletir sobre o
processo da leitura de uma obra enfatizando a questão da reação do leitor ao texto.
No processo da interação texto e leitor, a característica da comunicação literária de
uma obra também pode ser discutida por meio da estilística postulada por Rifaterre, pois, este
autor oferece meios de estudar a mensagem e o leitor de maneira focalizada na imanência da
obra.
Este texto direciona seu olhar sobre os esquemas dos jogos interativos, nos quais o
leitor é instigado a interar para o fim da refiguração da obra, mas sem o enfocar as
especificidades da narratividade.
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Para o processo do ato de ler e as questões de compreensão e interpretação de uma
obra para a sua concretização, o apoio vem do referencial teórico da bibliografia do curso,
trazendo para este estudo as idéias desses diálogos traçados na teia dialógica da imanência da
obras e a refiguração como resultado da concretização.
Neste estudo, foco a ideia da mediação da leitura como meio de concretizar a
significação do mundo do texto, termo utilizado por Ricoeur e que vem ao encontro do
referencial teórico proposto.
Prosseguindo sobre a problematização da relação entre o mundo do texto e mundo
do leitor, Ricoeur apresenta o pensamento da experiência viva da leitura e postula a réplica
das interações do leitor com o texto, neste tópico, busquei esquematizar a partir da
fenomenologia da leitura, a fundamentação para discutir a busca do leitor pela configuração
em narrativas do romance atual no processo de compreensão e interpretação da narrativa com
o fim da refiguração de uma obra literária.
1. O Mundo texto e Mundo do Leitor
Segundo Ricoeur a mediação da leitura é o meio que proporciona a interação entre o
mundo do texto e o mundo do leitor, ou seja, a partir da concretização da obra realiza-se a
refiguração. (RICOEUR, 1997, p.273-274).
Ricoeur afirma, “somente pela mediação da leitura é que a obra literária obtém a
significância completa, que estaria para a ficção assim como a representância3 está para a
historia”, ou seja, é por meio da concretização no ato da leitura que a intenção referencial da
obra é concretizada, levando em conta a significado na obra ficcional especificamente e a
representação na obra literária de discurso. (RICOEUR, 1997, p.275).
A obra literária transita do imanente para a transcendência em direção ao
referente, o mundo do texto possui a intencionalidade como estrutura interna, considerando o
ponto de vista da leitura, segundo Ricoeur, “há a relação transcendência na imanência, que
fica à espera da leitura para que a configuração se concretize passando à refiguração”
(RICOEUR, 1997, p.275-276). Há a problematização na interseção entre o mundo
configurado e o mundo da narrativa de ficção que se particulariza por meio do
desdobramento de uma temporalidade específica e da concretização da significação na obra a
partir dessa interseção. E também é no fenômeno da leitura que a obra do discurso (história)
se refigura no passado real. (RICOEUR, 1997, p.276).
No dinamismo da leitura, Ricoeur evidencia o momento do autor que utiliza o jogo da
linguagem para fomentar a travessia da configuração para a refiguração, tendo como processo
a intencionalidade representada pela marcas no mundo do texto que guiam o leitor. Ricoeur
expõe os momentos dessa dinâmica: “a estratégia fomentada pelo autor e dirigida ao leitor; a
inscrição dessa estratégia na configuração literária; a resposta do leitor como sujeito que lê,
como publico receptor”. (RICOEUR, 1997, p.277).
Em diálogo com Ricoeur, neste pensamento da interação firmada na relação texto e
leitor, Rifaterre postula: “a literatura não é feita de intenções, mas de textos; os textos são
compostos de palavras, não de coisas ou idéias; o fenômeno literário não se situa na relação
entre o autor e o texto, mas na relação entre o texto o leitor”. (RIFATERRE, 1989, p.81).
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Sendo assim, consideremos as características do ato de comunicação literária por meio
de dois elementos: a mensagem e o leitor. São três as conseqüências da comunicação
literária: 1) a comunicação é jogo dirigido, onde o controle é garantido pelas palavras; 2) o
jogo se desenvolve segundo as regras da língua; 3) a realidade e o autor são substituíveis
respectivamente no texto. Portanto, o texto é um código limitativo e prescritivo.
(RIFATERRE, 1989, p.4-5).
A partir do ponto de vista fenomenológico de Rifaterre, o significado é deduzido do
texto, pois toda palavra é ligada a um sistema de lugares-comuns, então, a combinação de
palavras é uma unidade de estilo que identifica um sistema, que desencadeia no leitor a
relação do sistema de lugares-comuns, decifrando esse sistema como contexto verbal. Assim,
o significado é apreendido em função dos significantes (clichês/combinações verbais). No ato
da leitura lemos as palavras no grupo das palavras e registramos este grupo na memória, na
qual, as palavras figuram em diversas funções (clichês/combinações verbais), e pela
contaminação das palavras lidas em um contexto verbal, as representações literárias são
impassíveis às modificações dos referentes e à evolução dos mitos e conseguimos decifrar
este sistema como contexto verbal. (RIFATERRE, 1989, p.14).
Rifaterre afirma que o texto não é uma obra de arte se não se impõe ao leitor, pois
deve, a partir da concretização da leitura, suscitar uma reação, exercer certo controle, no
comportamento do leitor que na mediação da leitura decifra o texto. Em diálogo com
Ricoeur, Rifaterre também diz que a reação do leitor é, às vezes, retardada ou suspensa, mas
ela deve acontecer mais cedo ou mais tarde, e deve ser explicada pelas características formais
do texto: “a resposta do leitor ao texto é a única relação da causalidade que pode provocar
uma explicação dos fatos literários”. (RIFATERRE, 1989, p.79, 88).
Nesse processo de interação, é importante pensar a mediação da leitura de uma obra
na questão da reação do leitor ao texto, por exemplo, a partir da idéia de Rifaterre, a primeira
geração de leitores tem menos problemas para resolver do que as posteriores: ainda assim nas
leituras posteriores, as interpretações sucessivas podem ser concretizadas pelo contexto
verbal, pois a monumentalidade da obra continua suscitando reações.
As leituras posteriores podem traçar a curva da popularidade de um texto, se invocam
as revoluções do gosto, a evolução do contexto social, o surgimento de novas doutrinas
estéticas, porém, deve acrescentar a esta lista o fator essencial, a evolução da linguagem que
não pode ser minimizada. (RIFATERRE, 1989, p.89).
Para que a interação do leitor com o texto não tenha ruptura, Rifaterre expõe dois
tipos possíveis de perceptibilidade e que são definidos por meio do código. Pelo código
lingüístico dos primeiros leitores que possui quase o mesmo código lingüístico que o código
do texto. E pelo código dos leitores posteriores – que se distanciam do texto cada vez mais
com passar do tempo. O grau de interação pode se tornar frágil e pode causar uma diferença
enorme na ação da concretização da obra se o texto emprega um código especial, que possa
causar uma ruptura mais profunda e repentina do que aquela que resulta da evolução gradual
da língua.
Porque os sistemas descritivos, os clichês resistem às mudanças, mas não escapam à
evolução semântica de seus componentes lexicais e menos ainda a de suas relações com o
contexto cultural. É afirmado por Riffaterre que o texto e sua forma imutável conservam, em
sua estrutura única, o código que o autor empregou por meio dos mecanismos da linguagem
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aplicada na concretização da obra. Sendo assim, uma descrição pode ser falsa sem nos
parecer errônea porque a representação da obra não remete à realidade, mas a substitui.
Portanto, o fenômeno literário se situa nas relações entre o texto e o leitor, na percepção da
mensagem (interior) pelo seu destinatário (exterior). (RIFATERRE, 1989, p.89).
2. O Mundo texto e Mundo do Leitor: Refiguração da Narrativa
Segundo Culler, “a partir do século XX o interesse pela escrita e pela leitura do
romance teve um aumento potencial, e desde os anos 60, a narrativa passou a ser o foco dos
estudos e pesquisas da teoria literária”. (CULLER, 1999, p. 85). A teoria da narrativa, ramo
da teoria literária direciona a sua pesquisa para a estrutura da narrativa. Mas, no presente
artigo, o olhar desse estudo é direcionado para a poética da narrativa e a interação do leitor
com o texto e para investigar o processo pelo qual, as narrativas obtêm os seus efeitos de
interação com o leitor.
A leitura é, precisamente, o ato que faz a transição entre o efeito de fechamento,
segundo a perspectiva da refiguração, e o efeito de abertura, de acordo com a configuração.
(RICOEUR, 1995, p. 109). Essa transição do mundo configurado do texto para o mundo real
do leitor é fomentada pela estratégia de persuasão imposta ao leitor para a passagem à
refiguração da obra, ou seja, a concretização, por meio do ato da leitura, é um processo
mediador para a significação de uma obra.
Ricoeur apresenta o ato de ler como a “ação de prolongar a suspensão da referência
ostensiva e transferir-se para o lugar onde o texto está, para dentro do recinto deste lugar sem
mundo”, portanto, pode-se dizer que o tempo da narrativa e o mundo imaginado são
elementos responsáveis pela conexão com o mundo do leitor para o desencadeamento do
processo de significação da obra. É justamente a busca do saber, a suspensão da descoberta
evidente, que leva o leitor à busca dessa concretude na leitura da obra. (RICOEUR,1976, p.
93).
Por meio da mediação da leitura pretende-se chegar à significação do mundo do texto,
pois é a partir da interpretação da linguagem e dos elementos, palavra a palavra que
significamos uma obra. Essa abstração é possível pela ação da escrita com a possibilidade de
atualização pela leitura, nessa interação dialética, se obtém a função referencial do texto. No
entanto, os leitores podem permanecer em estado de suspensão, entre a explicação e
compreensão, “relativamente a qualquer tipo de referido à realidade, ou imaginativamente
atualizar as potenciais referências do texto, como uma nova situação, a do leitor na
refiguração”. (RICOEUR, 1976, p. 92-93).
Porém é necessário atentar que ao refletir sobre a leitura como a interseção entre a
concretização e o mundo do texto, Ricoeur explica que o leitor entrará no sistema fechado do
texto, no código da linguagem como referencial para conectar a partir da imanência o
referencial das potencialidades desferidas pelo autor empenhado no processo de explicar mais
para a melhor compreensão da sua intencionalidade no texto:
Ler significa, desta maneira, prolongar a suspensão da referencia ostensiva
e transferir-se para o “lugar” onde o texto está, para dentro do “recinto”
deste lugar sem mundo. Em conformidade com tal escolha, o texto já não
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tem um exterior, mas tem apenas interior. (RICOEUR, 1976. p. 92-93).
Segundo Ingarden, é na obra que se encontra o limite para este processo da mediação
da leitura, o texto tem marcas registradas como intencionalidade no momento da préfiguração; o autor coloca as marcas e o leitor as ressignificam na mediação da leitura e
reforça a questão da pré-figuração da obra como subsídio para a leitura imanente e a
ressignificação do texto: “é necessário considerar a construção da obra por meio da análise do
estrato das palavras e das frases significativas”. (INGARDEN, 1965, p.31). Portanto, entre a
“multiplicidade das leituras de determinada obra teria uma acima de tudo garantida à
unicidade da obra mantendo a sua identidade”, por meio dos objetos de imaginação préfigurados na obra literária e mediados no ato da leitura. (INGARDEN, 1965, p.33).
3. O Jogo da Interação com a Narrativa
A forma e o fundo regularizam a vivência da fantasia na concretização do objeto
representado no mundo do texto. O imaginativo é uma “parte real, imanente e inseparável da
vivência da representação por meio do ato de representação”, (INGARDEN, p. 251), por isso
o leitor capta a mensagem pela linguagem representativa do objeto intencional, não há foco
na psicologia do autor e sim nas estratégias de persuasão e os mecanismos alinhados para o
processo do jogo do texto e a interação do leitor. Na interação com o texto, o leitor é
enredado pelo jogo com o tempo construído na narrativa, o tempo subjetivo, este tempo está
acontecendo o tempo todo durante a interação da leitura, assim também se expõe espaço,
onde, existe sempre um “centro de orientação que pode ser transposto de modos diversos para
o mundo apresentado”. (INGARDEN, p. 260-261). Há pontos de orientação do espaço e do
tempo a serem percorridos na leitura:
Quanto aos seus “tipos especiais de compreensão, de valores estéticos e
extra-estético” e que podem ser minimizados ou maximizados em
determinada evolução cultural humana. Mas ainda assim, como a obra
literária possui “formação esquemática”, é possível em épocas diferente,
concretizações de uma mesma obra literária. (INGARDEN, p. 289-290).
No jogo do pacto narrativo, a interação do leitor pode ou não ter a presença explícita
ou ausência do narrador e do narratário. Estudos da narrativa apontam mudanças de
paradigma quanto ao narrador, pode-se esperar o narrador-narratário, o narrador tradicional
ou a nova perspectiva a partir da utilização de um novo tipo de presença implicadora de
maior complexidade interpretativa:
Quando as obras exigem um grau maior de distância, onde, por exemplo,
em uma análise poderá se identificar se existem comentários explícitos do
narrador sobre a história ou sobre a construção do discurso, pode também
contemplar a aparição explícita do narrador e se manter ambiguidades não
resolvidas pelo narrador. (COLOMER, 2003, p.214).
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Acontecem também diferenças constatadas no fato das obras atuais que silenciam a
voz interpretativa dos acontecimentos por parte do narrador, intencionando um relato que
mantém ambigüidades significativas. A conexão entre o narrador digno ou não de confiança
(no campo da retórica da leitura) é parte importante do jogo da interação, e é a partir do pacto
que o leitor faz “as escolhas e se dirige às normas que precisamente faz do texto uma obra de
um enunciador” (RICOEUR, 1997, p.280).
Refletindo sobre a mediação da leitura de uma narração, Ingarden esclarece a
concretização como o “elo entre o leitor e a obra que se oferece quando o leitor dela se
aproxima em atitude cognitiva e estética”. Sendo então, o ato da leitura uma experiência do
processo da comunicação da obra para o conhecimento e/ou para o deleite do texto, pois o
“prazer da narrativa está na desejo de saber” (INGARDEN, p.26; CULLER, p.92-93).
Ricoeur dialoga com Ingarden na questão das concretizações, pois, verifica que, o
leitor ao mesmo tempo é vítima do autor implicado, numa atitude ativa quanto à ação de
leitura, mas também numa atitude passiva no intricado jogo da interação com o texto. Ricoeur
chama a atenção para a visão fenomenológica a partir dos pontos de indeterminação e aspecto
de texto inacabado ressaltados por Ingarden, no qual, o leitor é convidado a participar nas
concretizações figurantes, ou seja, vivenciar as representações do mundo dos textos, e a
participar na interação do texto dando lhe uma forma a partir da lógica elaborada na narrativa.
(RICOEUR, 1997, p.280).
Este jogo da interação com a narrativa também é chamado por Ricoeur de combate no
sentido do confronto do leitor implicado/autor implicado no desafio da descoberta da
mensagem da obra, a abordagem da interação de leitura é colocada então, no campo da
retórica da persuasão, pois o autor lança de estratégias de persuasão para jogar com o leitor
dentro do texto.
4. O Fenômeno da Leitura
Para refletir sobre o efeito da interação do leitor com o texto, seguindo os passos de
Ricoeur, a abordagem eleita é a fenomenologia da literatura e a estética da recepção
(denominada por Ricoeur de estética da leitura) para refletir à cerca do efeito da narrativa
sobre o leitor, tendo em vista que, o leitor implícito está inscrito no próprio texto.
Com o romance moderno não basta a leitura para a concretização figurante de uma
obra. O texto do romance moderno convida o leitor, a dar uma forma à obra, num jogo
intrigado de sedução-frustração, no qual, a configuração da obra é realizada pelo próprio
leitor, que somente concretizando as esquematizações na incessante busca da coerência da
leitura consegue interagir com o texto, num jogo esquematizado de frustração na
decodificação da mensagem da obra a ser concretizada. (RICOEUR, 1997, p.289).
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Busca do efeito – resposta
Equilíbrio
Signos do texto
Atividade de leitura do texto
Efeito instável do dinamismo (frustração) 4
Configuração realizada
Refiguração realizada
Na estrutura do texto
no ato da leitura
Experiência viva da Leitura
São situações estudadas no ato da leitura: 1) o ato de leitura é um grande drama,
porque além dos pontos de indeterminação, são colocadas também estratégias de frustração
intencionadas no texto; 2) além de uma falta de determinibilidade5, o leitor vai lhe dar com
um excesso de sentido, a leitura aparenta no texto um lado não escrito a se concretizado; 3)
com a distância da obra na leitura a concretização se torna uma ilusão. Ricoeur denomina
essas situações de experiência viva da leitura e postula que na realidade a réplica das
interações do leitor com o texto está na pós-leitura, no qual, o estase propõe na desorientação
reorientar o leitor na compreensão e interpretação da obra. (RICOEUR, 1997, p.290-291).
Pelo esquema abaixo se pretende apresentar as ideias de Ricouer a respeito de uma
possível simetria entre o leitor implicado e o autor implicado na teoria da leitura em busca do
efeito-resposta a partir das estratégias do romance moderno: a distância do leitor e o sistema
de colocar no leitor a responsabilidade de configurar a obra para que ele, no processo de
concretização do ato da leitura possa refigurar a obra. Portanto, a simetria entre os dois
(leitor/autor) implicados não seria possível, porque o leitor se identifica com o destinatário e
o autor tem a ação focada na obra (a mensagem), que somente chegará ao destinatário se este
adentrar no jogo da narrativa para o fim da refiguração. Ricoeur propõe que a atenção não
seja focada no leitor implícito (modelo transcendental), mas sim para a necessidade do leitor
real, o leitor instigado a interar com o texto e a leitura real. (RICOEUR, 1997, p.291-292,
311).
Simetria leitor implicado/ autor implicado
Leitor implicado
Autor implicado
Marcas no texto (ler) / Marcas no texto (escreve)
Leitor das instruções do texto
Escritor das marcas no texto
Autonomia semântica do texto
Leitor implicado/Autor implicado - Correlatos na obra?
Identificação com o destinatário
Identificação com o estilo da obra
Simetria enganosa # autor implicado
Autor implicado se torna o autor real
(ilusão da concretização)
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Leitor real = leitor implicado
Narrador imanente = voz narrativa
Leitor virtual (enquanto não atualiza pela
concretização as potencialidades do texto)
Estratégia de persuasão
Leitor real
Autor implicado
sobrepõem-se ao leitor implicado
Apaga o autor real
Fenomenologia da leitura 6
Preferência por leitor real
Significação da obra
Leituras
Marcas no texto
Interação
Interação
Refiguração da obra
Do princípio do leitor, Ricoeur passa para a perspectiva do papel da leitura na
interação do leitor com o texto, assim a leitura apresenta duas perspectivas inseridas no jogo
do texto como estratégias: a persuasão e a frustração como fomento para o desejo do saber
diante da narrativa. Durante o processo de leitura, o leitor “se submete às expectativas
desenvolvidas pela estratégia no texto”, mas o leitor se frustra perante a concretização, pois
suas expectativas não se realizam no mundo imaginado do texto habitado por ele, o leitor. O
mundo do texto é esquematizado pelo autor apenas como recinto de interação e para que se
realize efetivamente a concretização, o leitor tem a responsabilidade de configurar a narrativa
para então realizar a refiguração da obra (RICOEUR, 1997, p.303).
Considerações
Por meio do diálogo construído neste artigo, entre as teorias de Ricoeur, Ingarden e
Rifaterre, sobre a narratividade e a refiguração da obra por meio da mediação da leitura; se
constata a interação do leitor na imanência da obra como abordagem de estudo a ser
estendido para o desdobramento do tema mundo do texto e o mundo do leitor e a
fenomenologia como teoria para discutir o avanço dos estudos no campo da teoria da leitura.
È necessário expandir a reflexão sobre o papel da leitura nos estudos da teoria
literária, e com esse propósito abrir espaço para a problematização da interação e reação do
leitor com o texto.
Apresentada por Ricoeur, a mediação da leitura como forma de concretizar a
significação da narrativa, demonstra a pertinência em estudar o ato da leitura do ponto de
vista sobre o jogo da persuasão contido no mundo do texto e refletir sobre o processo de
transição do mundo configurado do texto para o mundo real do leitor (transição para a
transcendência), a partir do papel da concretização no ato de leitura.
Fundamentalmente, com o espaço conquistado na atualidade por quem escreve como
por quem ler as narrativas do romance moderno, mediante as teorias apresentadas, mostram
que há um novo sistema do jogo configuração/refiguração da obra. Sendo assim, o leitor tem
o novo desafio das obras abertas para concretizar, a partir do desdobramento das estratégias
de persuasão e a performance de sua leitura dentro do mundo texto. È necessário dialogar
com um autor implicado, com uma voz narrativa e às vezes com a ausência proposital do
autor, em busca das orientações e instruções das marcas do texto na configuração para a
refiguração da obra.
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Se há novos códigos e novas estratégias de persuasão, a teoria dos estudos da leitura
perpassa pela busca de novas problematizações a investigar e a postular, com o olhar sempre
aberto para os novos paradigmas apresentados pelo desafio da teoria da leitura
Referências
[1] COLOMER, Tereza. A formação do leitor literário. 2003. São Paulo: Global, p.214
[2] CULLER, Jonathan. In: Narrativa. Teoria literária: uma introdução. 1999. p. 84- 95.
[3] INGARDER, Roman. In: Questões prévias. A obra de arte literária. 1965. p.19-49.
[4] _________. O estrato das objetividades apresentadas. p.239-300.
[5] _________. A vida da obra literária. p.363-388.
[6] RICOEUR, Paul. Teoria da Interpretação. [Trad. Artur Mourão]. Lisboa- Portugal:
Edições 70. 1976. p. 4-107.
[7] ________. Os jogos com o tempo. In: Tempo e Narrativa: tomo II. [Trad. Roberto
Ferreira]. In: . Campinas- S.P.: Papirus. 1997. p. 109-147.
[8] ________. O mundo do texto e o mundo do leitor. In: Tempo e Narrativa: tomo III.
[Trad. Roberto Ferreira]. Campinas- S.P.: Papirus. 1997. p. 273-314.
[9] RIFATERRE, Michael. A produção do texto. [Trad. Eliane de Paiva]. São Paulo:
Martins Fontes, 1989, p. 4-89.
1
Markley Florentino CARVALHO, mestranda.
Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
Faculdade de Comunicação, Artes e Letras.
[email protected]
2
Termo cunhado por RICOUER. Paul. Tempo e Narrativa: tomo III.1997.
3
Termo cunhado por RICOUER. Paul. Tempo e Narrativa: tomo III.1997.
4
Tabela fenômeno da leitura.
5
Termo cunhado por RICOUER. Paul. Tempo e Narrativa: tomo III.1997.
6
Tabela fenomenologia da leitura.
64
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CARVALHO, Markley Fiorentino