O personagem livro
Marco Antônio de Almeida - IA / UNICAMP (Campinas - SP)
O trabalho enfoca o livro não como suporte de leitura, mas como personagem
literário, sob várias formas: objeto-fetiche, metáfora do universo ou chave para sua
decifração, tesouro maravilhoso. A tematização constante do livro talvez possa ser lida
como metáfora das preocupações de cada época com as relações entre a experiência
humana e o conhecimento.
Bibliolatria: segundo o dicionário Aurélio, é o gosto apaixonado dos livros
(particularmente a Bíblia). Considerando que não se trata de hábito reprovável pela
moral e os bons costumes, nem tampouco perversão de ordem psicológica, mas, ao
contrário, de atitude presente constantemente no decorrer da história ocidental, não
nos parece ociosa a pergunta: porquê este amor pelos livros? Se, como diz Jorge Luís
Borges, o livro é uma extensão da memória e da imaginação, não é de se espantar que
tenha sido objeto de consideração, admiração e desejo por parte não só de literatos,
como também de simples leitores de todos os tempos e lugares, que nos legaram
algumas páginas a respeito de sua relação com o livro. Dessa forma, pretendemos
enfocar neste breve texto o livro não como suporte de leitura, mas como personagem
literário.
O livro aparece como personagem literário de várias formas. Como objetofetiche, motivo da adoração dos leitores, particularmente dos homens de letras, que o
vêem não apenas como produto final de seu trabalho ou do de outros colegas de
ofício, mas como um companheiro que os acompanha nos caminhos da vida. É aqui
que se encaixa com mais segurança a figura do bibliófilo, do colecionador de livros, do
qual Walter Benjamim deixou um notável retrato em seu pequeno texto
“Desempacotando minha biblioteca”. Ao falar dos livros, da maneira de adquiri-los,
Benjamin fala do colecionador, daquele ser que oscila entre a ordem (projetada na
arrumação perfeita, porém impossível, dos livros) e a desordem (o infindável afluxo de
novos volumes exigindo seu lugar na biblioteca). Mas, sobretudo, ele fala de si mesmo,
de uma capacidade de auto-projeção nos livros que caracterizará um aspecto
importante da bibliolatria presente no colecionador: “Pois dentro dele se domiciliaram
espíritos ou geniozinhos que fazem para com que o colecionador __ e me refiro aqui ao
colecionador autêntico, como deve ser
__
a posse seja a mais íntima relação que se
pode ter com as coisas: não que elas estejam vivas dentro dele; é ele que vive dentro
delas. E, assim, erigi diante de vocês uma de suas moradas, que tem livros como
tijolos, e agora, como convém, ele vai desaparecer dentro dela.”1
Outro bom exemplo de como pode ser forte a relação de amor com os livros,
da qual o colecionamento é a faceta mais evidente, nos é dado por Jorge Luís Borges,
“Continuo imaginando não ser cego; continuo comprando livros; continuo enchendo
minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 da
Enciclopédia Brokhaus. Senti sua presença em minha casa
__
eu a senti como uma
espécie de felicidade. Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gótica que
não posso ler, com mapas e gravuras que não posso ver. E, no entanto, o livro estava
ali. Eu sentia como que uma gravitação amistosa partindo do livro. Penso que o livro é
uma das possibilidades de felicidade de que dispomos, nós, os homens.”2. Borges
demonstra que existem mais que elementos puramente intelectuais nessa amizade entre
livro e leitor, que o ato de ler envolve também uma relação íntima, física, onde vários
sentidos participam: o tato (o folhear, o passar a mão sobre a encadernação e as
figuras), o olfato (sentir o cheiro do papel, da cola, da tinta), a audição (o gosto de ler
em voz alta determinadas passagens), mais raramente o paladar (o hábito pouco
recomendável de umedecer a ponta dos dedos com a língua, que tantos dissabores
causou em O nome da rosa), e, sobretudo, de forma absoluta, a visão. O que no caso
de Borges soa de forma tristemente irônica, captada por ele no seu “Poema dos dons”3
Como todo amor, a paixão pelos livros às vezes também corre o risco de ser
turvada pelo ciúme: o desejo do objeto amado passa a justificar qualquer ação visando
sua posse exclusiva. Mesmo que o objeto amado esteja em poder de outra pessoa:
entramos assim no perigoso terreno da bibliocleptomania, o roubo de livros, tão bem
exemplificado por Alberto Manguel no capítulo de mesmo nome de seu Uma história
1
Benjamin, Walter: Obras escolhidas vol. II - Rua de mão única. São Paulo, Brasiliense, 1987, p.
235.
2
Borges, Jorge Luís: “O Livro”. In: Cinco visões pessoais. Brasília, Editora da UNB, 1985, p. 10.
3
“Ninguém rebaixe à lágrima ou censure/ Esta declaração de maestria/ De Deus, que com magnífica
ironia/ Me deu os livros e a um só tempo a noite.” Mais adiante: “Em minha sombra, a meia luz
vazia/ Exploro com meu báculo indeciso,/ Eu, que me afigurava o Paraíso/ Sob a aparência de uma
biblioteca.”. Jorge Luís Borges, “Poema dos dons”. In: O fazedor, São Paulo, Difel, 1984, p. 49/50.
da leitura, através da história do Conde de Libri, que conheceu esta triste fama no
século XIX.. Para Manguel, a sensualidade que emerge da relação física que se
estabelece entre livro e leitor tem uma natureza profundamente egoísta, embora
profundamente humana: “Tudo isso, muitos leitores não estão dispostos a compartilhar
__
e se o livro que desejam ler está em posse de outra pessoa, as leis da propriedade
tornam-se difíceis de obedecer, assim como as da fidelidade no amor. (...) Podemos
relutar em justificar os roubos de Libri, mas o desejo subjacente, o anseio de ser, ao
menos por um momento, o único capaz de chamar um livro de meu, é comum a mais
homens e mulheres honestos do que talvez estejamos dispostos a reconhecer.”4
Creio que é mais o elemento de projeção, essa capacidade de experiência
vicária proporcionada pelo livro, que explica o fascínio que ele provoca, capaz de
explicar desde a famosa frase de Kafka a respeito de não se interessar por nada além da
literatura, o apelo da narrativa (mais contemporaneamente, do romance) assinalado por
Benjamin, ou mesmo a declaração de Jorge Luís Borges sobre sentir mais orgulho por
alguns livros lidos do que pelos escritos por ele.
Outra forma sob a qual o livro é referido em alguns momentos (e que possui
uma certa ligação com a atribuição de um caráter sagrado a ele) é como metáfora do
universo, visão que por vezes chega a ser mística, e que procura na mágica das
relações entre as letras impressas nesses livros arcanos a chave para os mistérios do
universo. O exemplo da Cabala5 é que o primeiro salta aos olhos, mas encontramos
situações semelhantes nos devaneios de autores como H. P. Lovecraft, Borges e
outros. O caso de Lovecraft chega a ser singular pela simetria inversa que estabelece
com a tradição cabalística: ele imaginou uma obra, a qual se refere em vários de seus
contos, o Necronomicon, o mais abominável dos livros, uma espécie de compêndio
negro escrito pelo árabe louco Abdul Al-Hazred e que conteria em suas páginas a
essência do Mal. A visão do livro como arcano parece ter sua realização mais perfeita
na obra de Jorge Luís Borges6. A totalidade era um tema caro a Borges, que a
4
Manguel, Alberto: Uma história da leitura. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 277.
Palavra de origem hebraica, significa tradição, ensinamento recebido. É a principal tradição do
misticismo judaico, e sua doutrina sustenta a possibilidade de uma “visão” direta dos atributos de
Deus mediante o estudo de interpretações esotéricas, de ordem alegórica-numerológica, do texto
bíblico do Antigo Testamento (a Torá) e de outros textos. Nessa linha, a principal obra cabalística é o
livro do Zohar (“Esplendor”), escrito no séc. XIII.
6
A referência à figura do universo como livro na obra de Borges é assinalada por Emir Rodrigues
Monegal em Borges: uma poética da leitura. São Paulo, Perspectiva, 1980. Embora dialogando com
este texto, procuramos desenvolver a analogia em outra direção.
5
explorou de variadas maneiras (sendo “O Aleph” provavelmente a mais famosa). A
imagem do livro, como elemento condensador da totalidade ou como chave para
decifrá-la, é constantemente recorrente em seus contos e ensaios.
Em seu famoso conto “A biblioteca de Babel” ele nos apresenta uma biblioteca
composta de salas hexagonais, tão vasta quanto o universo, povoada por livros dos
quais não há dois idênticos (Alberto Manguel observa que esta biblioteca multiplica ao
infinito a arquitetura da velha Biblioteca Nacional de Buenos Aires, da qual Borges era
o diretor cego7 ). Esta biblioteca contém tudo que é possível expressar no mundo
através de todas as combinações possíveis do alfabeto. É possível ver neste conto uma
referência à Cabala, e pensar no “livro total” que estaria na Biblioteca: “Sabemos,
igualmente, de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Nalguma
estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a
cifra e o compêndio perfeito de todos os demais: algum bibliotecário o consultou e é
análogo a um deus.(...) Não me parece inverossímil que nalguma divisão do universo
haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem __ um só, ainda que seja,
há mil anos!
__
o tenha examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não
estão para mim, que sejam para os outros. Que o céu exista, embora meu lugar seja o
inferno.”8 Ao livro perfeito corresponde o leitor perfeito; este leitor só pode ser um
deus.
Já em “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, a ligação livro/totalidade
surge através do jogo com o tempo
__
Borges imagina neste conto um livro infinito,
escrito por um sábio chinês, que se constitui ao mesmo tempo num labirinto temporal:
“A explicação é óbvia: O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma imagem
incompleta, mas não falsa, do universo tal como o concebia Ts’ui Pen. Diferentemente
de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme,
absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa
de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se
aproximam, se bifurcam, se cortam ou secularmente se ignoram, abrange todas as
possibilidades.”9 Nos dois contos citados, Borges cria outro artifício pelo qual um livro
poderia ser infinito, imaginando um volume cíclico, circular, cuja última página fosse
7
Manguel, Alberto: Uma história da leitura. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 235.
Borges, Jorge Luís: “A Biblioteca de Babel”. In: Ficções. Porto Alegre, Globo, 1976, p. 67/68.
9
Borges, Jorge Luís: “O jardim dos caminhos que se bifurcam”. In: Ficções, op. cit., p. 81/82.
8
idêntica à primeira.10. Mas é de outro recurso que ele lança mão para criar novo livro
infinito no conto “O livro de areia”: “Disse que seu livro se chamava Livro de Areia,
porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim.(...) O número de páginas deste
livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma a última. Não sei porque
estão numeradas deste modo arbitrário. Talvez seja para dar a entender que os termos
de uma série infinita admitem qualquer número.”11 Mas talvez a visão mais poética de
Borges acerca de uma escritura que contenha a chave do universo e que é,
paradoxalmente, o mais inimaginável dos livros, está em “A escrita do deus”. Deitado
sobre o frio chão de pedra de seu cárcere, o qual divide com um jaguar, jaz um mago
asteca perdido em reflexões: “Horas depois comecei a avistar a lembrança; era uma das
tradições do deus. Este, prevendo que no fim dos tempos ocorreriam muitas
desventuras e ruínas, escreveu no primeiro dia da Criação uma sentença mágica, capaz
de conjurar estes males. Escreveu-a de maneira que chegasse às mais distantes
gerações e que não a tocasse o azar. Ninguém sabe em que ponto a escreveu nem com
que caracteres, mas consta-nos que perdura, secreta, e que um eleito a lerá.”12 Após
muitos anos, o velho mago decifra o enigma divino: a sentença fora escrita por seu
deus nas manchas do jaguar
__
verdadeiro livro vivo que manteve inalterada a
mensagem através dos séculos.
A influência de Borges, particularmente do conto “A Biblioteca de Babel”,
pode ser apreciada na construção de outra biblioteca famosa, aquela descrita por
Umberto Eco em O nome da rosa.13 Temos de novo a biblioteca como labirinto, como
microcosmo que conserva o conhecimento acumulado pelos homens (função que de
fato era cumprida pelos monastérios na Idade Média). Mas não se trata mais do livro
como súmula do universo ou chave para sua compreensão; é, antes de mais nada um
livro proibido, a parte desaparecida da Poética de Aristóteles que trataria do riso,
manuscrito que o sherlockiano monge medieval Guilherme de Baskerville busca
incansavelmente. Temos aqui a passagem para uma outra forma de se visualizar o
livro: como tesouro maravilhoso, objetivo de personagens empenhados na procura do
romance ou manuscrito perdido, leitmotiv de romances, como o de Eco, que
10
Borges, J. L.: “A Biblioteca de Babel”, p. 62 e “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, p. 79.
Borges, J. L.: “O livro de areia”. In: História universal da infâmia e outras histórias. São Paulo,
Círculo do Livro, s.d., p. 318/319.
12
Borges, J. L.: “A escrita do deus”. In: O Aleph. Porto Alegre, Globo, 1986 (6A ed.), p. 92.
13
Eco, Umberto: O nome da rosa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.
11
tematizam a busca do conhecimento (conhecimento que pode ser visto como fonte de
poder, ou como diria Nietzsche, como fonte de potência, chave para uma mudança
interior).
Este é um topos presente com freqüência na literatura policial (da qual o
romance de Eco é um primo cult). É o caso das obras de John Dunning (Edições
perigosas, Impressões e provas), nas quais o detetive Cliff Janeway __ também livreiro
e bibliófilo
__
está sempre as voltas com manuscritos ou edições raras que
desaparecem. No Brasil, temos o personagem de Vastas emoções e pensamentos
imperfeitos, de Rubem Fonseca, que aceita serviços escusos para poder obter o
manuscrito desaparecido daquele que seria o romance perdido do escritor judeusoviético Isaak Bábel. Ou o detetive Remo Bellini, de Toni Bellotto, empenhado em
encontrar um manuscrito perdido de Dashiell Hammett em Bellini e o demônio.
Num terreno diferente da literatura policial, o da ficção científica, encontramos
o livro como referência importante na distopia futurista de Ray Bradbury Fahrenheit
451 (mais conhecida através da adaptação feita para o cinema por François Truffaut).
Numa sociedade do futuro, os livros são proibidos, sua leitura e posse constituindo um
grave crime. Uma equipe de bombeiros às avessas se encarrega de queimá-los quando
encontrados (o título do romance se refere à temperatura em que os livros ardem). Um
dos bombeiros, entretanto, resolve ler um dos livros que até então queimava,
adquirindo individualidade e tornando-se um criminoso perante o sistema. Desiste da
vida na sociedade, encontrando, refugiadas num bosque, as pessoas-livro
__
homens e
mulheres que decoram os livros, transformando-se eles próprias em livros vivos, para
evitar que eles sejam esquecidos. O ex-bombeiro (ou ex-incendiário) une-se ao grupo,
tornando-se também uma pessoa-livro (só por curiosidade, escolhe ser Histórias
extraordinárias, de Poe). Com relação aos exemplos anteriores, verifica-se aqui uma
inversão: de objeto desejado, o livro torna-se veículo subversivo a ser destruído
__
o
que é uma maneira paradoxal de demonstrar o seu valor.
A busca do livro perdido fica mais explícita ainda como metáfora do desejo
imperioso de leitura por parte do leitor em outro romance cult que toma emprestada à
literatura policial parte de sua estrutura narrativa: Se um viajante numa noite de
inverno, de Italo Calvino. Ao longo da trama em que se desdobra essa estrutura
__
a
perseguição de um livro por parte de um personagem identificado apenas como o
Leitor, que busca continuar sua leitura interrompida e que acaba por descobrir uma
conspiração em curso para acabar com sentido de todos os livros, embaralhando
leituras e autores, criando falsificações e simulacros de livros verdadeiros, etc.
__
se
parodiam diversas formas de escrita do romance. São proto-romances, projetos de
livros que mal se esboçam e já têm sua leitura interrompida por alguma situação
decorrente da conspiração em jogo, obrigando o Leitor a uma busca incessante do
livro desejado. Como observou Susan Sontag a respeito da obra, a relação que se
estabelece entre leitor e livro é uma relação de desejo. O romanesco instaura aqui um
espaço de prazer e liberdade do qual se nutre o Leitor, mas que lhe é sucessivamente
negado (à maneira de um coitus interruptus) na medida em que sua leitura não
consegue chegar ao fim. Este “duplo princípio do prazer” se confirma num dos
capítulos finais do livro de Calvino, quando o Leitor participa de uma discussão sobre
a leitura de livros numa biblioteca. Um dos participantes lhe faz a seguinte observação:
“Acredita que toda leitura deva ter um princípio e um fim? Antigamente, a narrativa só
tinha duas maneiras de terminar: uma vez passadas as suas provações, o herói e a
heroína se casavam ou morriam. O sentido último a que remetem todas as narrativas
comporta duas faces: o que há de continuidade na vida, o que há de inevitável na
morte.”14 Espantado, o protagonista chega à conclusão que deve desposar a heroína do
romance, que se encerra com a cena do Leitor e da Leitora partilhando, num grande
leito conjugal, suas leituras paralelas.
*
*
*
*
*
Símbolo do conhecimento em geral, e da Literatura em particular, a imagem do
livro é cara ao imaginário ocidental. Mais que manifestação do apreço pela erudição ou
pelo prazer da leitura, a tematização constante do livro talvez possa ser lida como
metáfora das preocupações de cada época com as relações entre a experiência humana
e o conhecimento. Jorge Luís Borges assinala que os antigos não professavam o culto
ao livro, por nele verem apenas o substituto da palavra oral
__
esta sim valorizada por
sua fugacidade, por seu caráter vivo. O que é bem diferente da visão oriental, que
introduziu uma novidade em relação ao livro: a noção de livro sagrado, como a Bíblia,
os Vedas, o Corão. Para Borges, esse conceito de livro sagrado pode ter passado, mas
14
Calvino, Italo: Se um viajante numa noite de inverno. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982, p. 314.
o livro ainda possui uma certa santidade (o que talvez explique seu culto), que
devemos lutar por manter15.
Esta “santidade” atribuída ao livro por Borges guarda alguma semelhança com
o conceito de aura e com as qualidades atribuídas ao narrador por Walter Benjamin em
seu famoso ensaio. Embora por vezes alguns autores insistam em assinalar os
elementos de nostalgia presentes na análise benjaminiana, vale registrar o diagnóstico
cultural contido no texto __ a perda da capacidade de intercambiar experiências: “Uma
das causas desse fenômeno é óbvia: as ações da experiência estão em baixa, e tudo
indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça de todo” 16. Para Benjamin,
o primeiro indício da evolução que vai culminar com o fim da narrativa é o surgimento
do romance. Ele não procede da tradição oral nem a alimenta. Enquanto o narrador
representa a experiência própria coletivizável, o romancista assinala a emergência do
indivíduo isolado, incapaz de falar exemplarmente de sua experiência. Ora, na
modernidade, o livro
__
particularmente o romance
__
torna-se para muitas pessoas o
veículo para a troca de experiências, a única forma possível de estabelecer contato com
o mundo (ou dele fugir, do qual o bovarismo é o exemplo dramático). Um veículo que
pouco a pouco vai perdendo esse papel e até a sua forma tradicional diante dos
avanços da técnica17. Talvez nisto resida parte da “aura” do livro para Benjamin, da
qual ele dá testemunho em alguns escritos, como por exemplo “Livros” (onde os livros
da infância aparecem como elo com um mundo de paz e pureza perdidas) ou “A
biblioteca do colégio” (livros como refúgio da chatice do mundo oficial, passaporte
para universos lúdicos e mágicos), além dos já referidos “Guarda-livros juramentado” e
“Desempacotando minha biblioteca”18.
Tal atitude para com os livros, e, por suposto, para com o conhecimento, ainda
é moderna: prevê a manutenção do espaço do livro (ou lamenta a sua perda) na medida
em que ele é assimilado à possibilidade do “verdadeiro” conhecimento, ao trabalho
interior de transformação e libertação das consciências individuais tão caro à tradição
15
Borges, J. L.: “O livro”, op. cit.
Vide Benjamin, W.: “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov.” In: Obras
escolhidas vol. I - magia e técnica, arte e política, São Paulo, Brasiliense, 1985, p. 198. Sobre o
conceito de aura, vide no mesmo livro o ensaio “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade
técnica.”
17
Benjamin, Walter: “Guarda-livros juramentado” In: Obras escolhidas vol. II - Rua de mão única.
São Paulo, Brasiliense, 1987.
18
Benjamin, W.: Obras escolhidas vol. II - Rua de mão única.
16
iluminista. O imaginário do qual o livro é o portador se articula como espaço de prazer
e liberdade; utopia muitas vezes solitária, independente das mediações ideológicas
__
fator que o torna um dos meios de subversão mais eficazes e, portanto, mais
perseguidos, como bem ilustra a fábula de Fahrenheit 451. Uma desconfiança
generalizada, segundo Manguel; não são apenas os regimes totalitários que temem os
livros e sua leitura: “Em quase toda parte, a comunidade dos leitores têm uma
reputação ambígua que advém de sua autoridade adquirida e de seu poder percebido.
Algo na relação entre um leitor e um livro é reconhecido como sábio e frutífero, mas é
também visto como desdenhosamente exclusivo e excludente, talvez porque a imagem
de um indivíduo enroscado num canto, aparentemente esquecido dos grunhidos do
mundo, sugerisse privacidade impenetrável, olhos egoístas e ação dissimulada
singular.”19
Essa potência obscura que se encerra nas páginas do livro, esse poder de
modificar seu portador
__
o leitor
__
e por conseguinte, o mundo a sua volta, talvez
explique a metáfora do livro como arcano e como tesouro. Metáfora que se sustenta
ainda por sua similaridade: nos textos místico-religiosos ou nos contos metafísicos de
Borges, a decifração do livro corresponde à decifração do universo; nos textos
policiais, a descoberta do livro encontra um paralelo na descoberta do enigma (ou na
descoberta da chave para a decifração do mesmo).
A idealização do livro, sua auratização, é colocada em dúvida por uma postura
que, na falta de termo melhor, poderemos chamar de pós-moderna, exemplificada por
alguns personagens do romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de
inverno. A importância da leitura, condição fundante da paixão pelos livros, é
desmitificada pelo personagem Irnerio, que nada lê: “Estou tão acostumado a não ler,
que não leio nem mesmo o que me cai por acaso sob os olhos. Isso não é fácil: a gente
aprende a ler em pequeno e fica a vida inteira escravo desses troços escritos que nos
caem sob os olhos. Eu tive de fazer um certo esforço para aprender a não ler, mas
19
Essa desconfiança é ativamente produzida pelos governos em geral, através da construção
ideológica de uma falsa dicotomia Livros/Realidade: “Com essa desculpa, e com efeito cada vez
maior, a dicotomia artificial entre vida e leitura é ativamente estimulada pelos donos do poder. Os
regimes populares exigem que esqueçamos, e portanto classificam os livros como luxos supérfluos; os
regimes totalitários exigem que não pensemos, e portanto proíbem, ameaçam e censuram; ambos, de
um modo geral, exigem que nos tornemos estúpidos e que aceitemos nossa degradação docilmente, e
portanto estimulam o consumo de mingau. Nessas circunstâncias, os leitores não podem deixar de ser
subversivos.” Manguel, A., op. cit., p. 35.
agora já faço isso naturalmente. O segredo é não evitar encarar as palavras escritas,
pelo contrário: é necessário olhá-las fixamente, até que desapareçam.”20 Filho da
sociedade da superinformação, Irnerio é quase o paradigma baudrillardiano do homemmassa que, saturado de informações e imagens, nada pode distinguir do ruído de fundo
geral. Sua atitude possibilita inclusive uma relação totalmente diferente com os livros,
não mais objeto de culto, mas matéria plástica para outras combinações: “Não é para
ler. É para fazer. Eu, com os livros, faço coisas. Enfim, obras: estátuas, quadros, pode
chamar como quiser. Já lhes consagrei mesmo uma exposição. Colo os livros com
resina e eles assim ficam presos. Fechados, abertos; ou ainda lhes dou forma, eu os
esculpo, abro neles brechas internas. É uma bela matéria para se trabalhar, os livros,
pode-se fazer muita coisa com eles.”21 No novo sistema de objetos que se estabelece
na sociedade contemporânea, os livros não ocupam mais lugar privilegiado.
Mentor da conspiração que busca falsificar todos os livros existentes, trocando
a autoria e o conteúdo dos mesmos, incluindo erros e mistificações, o personagem
Hermes Marana é o que melhor exemplifica uma certa postura pós-moderna em
relação à leitura, à literatura e, consequentemente, ao livro. Para ele, “Que importa o
nome do autor na capa? Transportemo-nos em pensamento para daqui a 3 mil anos.
Deus sabe que livros de nossa época terão sobrevivido, de que autores ainda se
lembrará o nome. Alguns livros terão ficado célebres mas serão considerados obras
anônimas, como o é para nós a epopéia de Gilgamesh; haverá autores cujos nomes
permanecerão célebres, mas dos quais não restará nenhuma obra, como o é o caso de
Sócrates; ou ainda, todos os livros que terão sobrevivido serão atribuídos a um
misterioso autor único, como Homero...”22 Todo o capítulo VI, uma paródia alucinada
dos thrillers de espionagem, é dedicado às maquinações do personagem, envolvendo
desde a busca de um manuscrito inédito, a existência de um super-computador
programado para criar romances, o “Pai das Histórias”
__
um velho cego contador de
histórias que seriam a matéria de todos os romances escritos
__
, até seitas secretas e
movimentos guerrilheiros em luta entre si para preservar ou destruir os livros
existentes, etc.
20
Calvino, I., op. cit., p. 59.
Idem, p. 179.
22
Ibidem, p. 119.
21
Marana é a representação irônica e hiperbólica da visão pós-moderna que
considera a literatura como um vasto sistema polissêmico de obras referenciadas entre
si, onde as noções de autoria e originalidade não têm mais importância, onde a
necessidade de se concluir as narrativas é fútil, porque todas são inconclusas, todas
fazendo parte da grande narrativa única que seria a Literatura. Perdida a aura do
escritor, da escritura, está perdida também a aura do livro, objeto da conspiração
articulada por Marana. Mas essa visão quase niilista não é a tônica do romance de
Calvino. O amor à narrativa, a paixão pelo livro, terminam vencedores, no leito onde o
Leitor e Leitora partilham suas leituras, agora menos ingênuas, mas nem por isso
menos prazeirosas. A “pós-modernidade” de Calvino tem um sinal positivo: revelado o
segredo da magia, nem por isso deve-se queimar o feiticeiro e seus apetrechos. Essa
visão poderia ser relacionada com aquela desenvolvida por Umberto Eco em seu
ensaio “O texto, o prazer, o consumo”, onde postula a existência de pelo menos dois
tipos de leitor, um de primeiro nível, que seria a vítima designada das estratégias
enunciativas do texto, e um leitor de segundo nível, crítico, que ri do modo pelo qual o
texto procura capturá-lo. Este último leitor seria o protótipo do leitor pós-moderno,
preocupado com o dialogismo intertextual presente em todos os níveis da produção
cultural. Mas não se sobreporia necessariamente, ou estaria em oposição, ao leitor de
primeiro nível: o prazer do enunciado (o “quê”), embora distinto do prazer da
enunciação (o “como”), pode lhe ser complementar.23
Vale retornar ao exemplo ambíguo de Borges: moderno em seu culto ao livro,
“pós-moderno” em sua produção literária (que estabelece um dialogismo intertextual
inédito na literatura até então), ele é um exemplo feliz da convivência dos dois tipos de
leitor propostos por Eco. Mais do que isso, Borges é o exemplo acabado da
possibilidade de uma experiência de vida que se confunde com uma experiência de
leitura. O que lhe permite deixar um juízo definitivo sobre livros e leitores: “Se lemos
um livro antigo é como se lêssemos durante todo o tempo que transcorreu entre o dia
em que foi escrito e nós. Por isso convém manter o culto ao livro. O livro pode conter
muitos erros, podemos não concordar com as opiniões expendidas pelo autor, mas
23
Eco, Umberto: “O texto, o prazer, o consumo” In: Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1989.
ainda assim, ele conserva algo sagrado, algo divino, não com um tipo de respeito
supersticioso, mas com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.”24
24
Borges, J. L.: “O livro”, op. cit., p. 11.
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