BORGES E O OUTRO: UMA ANÁLISE PSICOLÓGICA DO DUPLO BITTENCOURT, Amanda Rosa1; SÁVIO, Lígia 2 Palavras-Chave: Borges. Duplo. Psicologia. Introdução A explicação do duplo condiz com sua denominação: são dois seres ou duas imagens de si mesmo. Para entendermos o que duplo significa, podemos utilizar os preceitos teóricos trabalhados na psicologia. Nela, o “ver-se” é essencial para o desenvolvimento da personalidade, porque o nosso entendimento sobre quem somos abrange verificar a identidade que criamos. Para realizarmos a nossa abordagem sobre o duplo em Borges, utilizaremos a psicanálise, através do conceito de individuação de Carl Gustav Jung. Como explica Nascimento (s.d.), no procedimento da individuação ocorre o progressivo desenvolvimento psicológico do individuo a procura de si mesmo. O consciente, retratado pela persona, e o inconsciente, retratado pela sombra, apesar de parecem incoerentes, podem ser integrados na identidade. O tema do duplo pode ser visto sob esse viés se refletirmos na relação eu-outro como um diálogo dentro da mesma pessoa, promovendo o seu autoconhecimento, fato presente na literatura de Jorge Luís Borges. Nesse trabalho, pretendemos analisar o conto 25 de agosto, 1983, sob o viés dos conceitos de individuação junguiano explicando como o duplo aparece na obra. Desenvolvimento Segundo Bravo (1998), o termo mais famoso do duplo veio do alemão Döppelgänger, que significa “aquele que caminha do lado” e “companheiro de estrada”. Bravo (1998) escreve que o mito do duplo já surge, com outros nomes, em diversas mitologias. Conforme o passar dos anos, outros autores romanos e medievais trabalharam o assunto, até que o duplo teve o seu auge durante o movimento romântico. 1 Acadêmica de sexto semestre do curso de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. E-mail: [email protected]. 2 Orientada nesse artigo por Lígia Sávio, professora doutora do curso de Letras da Faculdade Porto-Alegrense – FAPA. E-mail: [email protected]. Otto Rank (1939) diz que os povos primitivos criaram a ideia de “alma” justamente para explicar a dualidade do indivíduo, ele se dividiria em um corpo físico e uma alma espiritual, a ligação implícita entre o “eu” e a morte. A confiança de que a alma era uma parte mortal e outra parte imortal fez com que o duplo não fosse visto apenas como uma parte derradeira da sobrevivência, mas também como uma parte da vida, a qual também pertence à morte. Como Jung divulgou suas próprias impressões sobre o assunto, ele ampliou as ideias da psicologia tradicional a essa nova compreensão através do conceito de Individuação. A psicanálise trabalha diretamente com essa relação dúbia da personalidade humana: o inconsciente e o consciente. Em seu trabalho, Jung (2000) escreve que a consciência não alcança a totalidade da psique; o homem não é consciente de tudo que acontece com ele e com os outros ao seu redor. Conforme Nascimento (s.d. apud JUNG, 1984, p. 8), Jung diz uma das maneiras de superar a disparidade da relação consciente/inconsciente está no diálogo entre um e outro “eu”, um eu exterior e um interior, em busca de um si mesmo real, como um sujeito completo. A efetivação do processo de individuação consiste de dois abalos psicológicos: promover a sinceridade dentro da persona e absorver os conteúdos reprimidos pela sombra. A persona, segundo Nascimento (s.d, apud JUNG, 1978, p. 9) é um complexo sistema de analogia entre a consciência individual e a sociedade, como uma máscara dedicada, por um lado, determinar um efeito sobre os outros e por outro lado, a encobrir a verdadeira natureza do sujeito. Nascimento (s.d. apud JUNG, 1978, p. 9) escreve que por meio da persona, o homem quer parecer com algum ideal, então se esconde atrás de uma “máscara”, constrói uma identidade de modo a se proteger e ser aceito no meio externo. Outro aspecto psicológico do indivíduo que reflete a relação eu-outro é a sombra. Segundo Jung (2000), a sombra é uma imagem do inconsciente pessoal. “A figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importuna, direta ou indiretamente, como, por exemplo, traços inferiores de caráter e outras tendências incompatíveis”. (JUNG, 2000, p. 277). Jung (2008) escreve que nesta situação de reconhecimento da sombra, o sujeito trata de distinguir os aspectos obscuros de sua personalidade, tais como eles são na realidade, sem máscaras ou mentiras. Ambos os lados demonstram que o sujeito possui uma dicotomia, que sua natureza é contrastante quanto complementar, aludindo aos conceitos de duplo. Podemos analisar a temática do duplo relacionada aos processos de individuação na obra de Jorge Luís Borges, como uma relação eu-outro à procura do si mesmo, um “eu” dialogando com um “outro”, que é ele mesmo psicologicamente. Análise da obra Borges conhecia os simbolismos que o duplo apresenta.Em vários textos, vemos que ele detinha todos os conhecimentos necessários, como autores que ele havia lido que partilharam o tema do duplo. No conto analisado, o Borges mais velho citará alguns desses escritores, enfatizando a alusão ao duplo, tais como Stevenson, Shakespeare, Goethe e Keats. No conto 25 de agosto, 1983, Borges apresenta o duplo de uma forma direta, de uma maneira que vai conduzindo o leitor à sensação de estranhamento. O personagem vai até um hotel à noite, onde existem plantas duplicadas em espelhos e o próprio dono não o reconhece. Ora, como diz Chevalier e Gheerbrant (1991), a noite é onde o inconsciente se libera de sua prisão, a escuridão representando um duplo aspecto: as trevas que envolvem a transformação e a preparação do dia, onde a luz da vida se mostrará. No momento em que o personagem se depara com o seu nome no livro de presença, apresenta a primeira certeza da temática do duplo no conto. “[...] ocorreu a primeira surpresa das muitas que essa noite me depararia. Meu nome, Jorge Luís Borges, já estava escrito e a tinta, ainda fresca.” (BORGES, 1999, p. 425). Temos a revelação do outro, o encontro com o outro Borges, que é ele mesmo, como diz o dono do hotel, “depois, olhoume bem e corrigiu-se: – Desculpe. O outro se parece tanto, mas o senhor é mais jovem.” (BORGES, 1999, p. 425). Conforme Chevalier e Gheerbrant (1991), a velhice é um sinal de sabedoria e virtude, uma reunião de experiência e conhecimento, uma imagem imperfeita da imortalidade. Podemos ver o velho Borges no conto como um duplo sábio do jovem Borges, uma figura do inconsciente que conhece o mundo, uma sombra eterna, que escapa as limitações do tempo, como diz Chevalier e Gheerbrant, “ser um velho é existir desde antes da origem; é existir depois do fim desse mundo.” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1991, p. 934). Que estranho – dizia –, somos dois e somos o mesmo. Mas nada é estranho nos sonhos. [...] – Posso morrer a qualquer momento, posso perder-me naquilo que não sei e continuo sonhando com o duplo. O fatigado tema que me deram os espelhos e Stevenson. ” (BORGES, 1999, p. 426) Os dois se compreendem, são duas facetas da mesma pessoa que compreende o que o outro sente e como o outro pensa. O velho Borges coloca o prenúncio de sua morte e comenta que justamente na hora da morte, ele continua sonhando com o duplo. Se verificarmos isso sob o viés da psicologia analítica, a morte é o momento em que nos aproximamos mais perto do nosso inconsciente, a morte é um desdobramento do “eu”, outra fase da vida; o personagem coloca que apesar de que vai perder-se no que ainda não sabe, ele continua sonhando com o duplo, o tema mais trabalhado em tantos lugares e tempos, o assunto relacionado à morte e ao seu interior. Conclusão Como diz Nascimento (s.d.), acreditamos que a temática do duplo utilizado por Borges em sua literatura foi válida também, para o autor, como uma passagem de elaboração intelectual e afetiva de si mesmo, através das zonas inconscientes de sua vida. Recursos que a arte tem condições de propiciar, de fato, a todo indivíduo. A literatura pode ser um meio de explicação do homem, revelando os conflitos que esse possui. E Borges faz isso, ele relaciona o consciente e o inconsciente em sue trabalho, promovendo uma reflexão dos seus leitores e a criação de uma critica pessoal que é o processo de individuação, conhecer a si mesmo e se aceitar por isso. Referências BORGES, Jorge Luís. A Memória de Shakespeare. In: Obras completas. São Paulo: Globo, 1999. BRAVO, Nicole Fernandez. Duplo. In: BRUNEL, Pierre. (Org.). Dicionário de Mitos Literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. JUNG, Carl Gustav. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2008. JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000. NASCIMENTO, Rubem de Oliveira. Uma perspectiva psicológica do duplo na literatura de Jorge Luis Borges. In: Revista Interdisciplinar de Estudos Ibéricos, [s.d]. Disponível em: <http://www.estudosibericos.com/arquivos/iberica9/borgesnascimento.pdf>. Acesso em: 23. Ago. 2010.