II Colóquio da Pós-Graduação em Letras UNESP – Campus de Assis ISSN: 2178-3683 www.assis.unesp.br/coloquioletras [email protected] JORGE LUIS BORGES: PERSONAGEM DE CRÔNICAS E CONTOS BRASILEIROS Isis Milreu (Mestre – UNESP/Assis) RESUMO: O presente trabalho pretende analisar a ficcionalização de Jorge Luís Borges em contos e crônicas de autores brasileiros. Além de ser alvo de inúmeros ensaios, teses e biografias, o escritor argentino foi convertido em personagem literário em diversos países. No Brasil, destaca-se o romance Borges e os orangotangos eternos (2000), de Luís Fernando Veríssimo que também ficcionalizou o escritor argentino em três crônicas, reunidas em Banquete com os deuses (2003). São elas: Borgianas; Jorge e Benny e No céu. Entre os contos, podemos citar a obra que nomeia o livro de Lúcia Bettencourt A secretária de Borges (2006) e Borges, de Julián Fuks incluído no livro Histórias de literatura e cegueira (2007). Como já dissemos, este estudo buscará analisar as crônicas e os contos citados que literaturizaram Borges na literatura brasileira. PALAVRAS-CHAVE: Jorge Luis Borges; Borges personagem; literatura brasileira. Crônicas: encontros literários com a poética borgeana Para Antonio Candido (1992), “a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas.” (p.14). De acordo com o autor, isto ocorre porque a perspectiva dos cronistas é a do rés-do-chão, além de utilizarem a linguagem coloquial e de não terem a intenção de permanecer na posteridade. Assim, segundo Candido, a crônica “consegue quase sem querer transformar a literatura em algo íntimo com relação à vida de cada um, e quando passa do jornal ao livro, nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava” (p.14-15). É exatamente esta a impressão que temos ao ler Banquete com os deuses, de Luís Fernando Veríssimo. Sabemos que as crônicas foram feitas para serem publicadas em jornais e serem imediatamente consumidas e, na maioria das vezes, rapidamente esquecidas. Mas ao reuni-las em forma de livro, nos deparamos com crônicas que, por sua riqueza poética, merecem serem lembradas pela posteridade. Nesta obra, o autor reúne alguns de seus escritos sobre cinema, literatura e música, ou melhor, como podemos ler na orelha do livro “Truffaut, Fellini, Chaplin, Nabokov, 567 Borges, Miles Davis, Chet Baker – estão todos aqui, neste livro em que Veríssimo celebra suas grandes paixões e faz do leitor um convidado especial”. Desta forma, enquanto leitores convidados, vamos ao encontro de uma das paixões do autor: Jorge Luís Borges, ficcionalizado em seu romance Borges e os orangotangos eternos (2000) e objeto literário de três crônicas de Banquete com os deuses: Borgianas, No céu e Jorge e Benny. Estas obras apresentam alguns elementos comuns, além do fato de literaturizarem o escritor argentino. Nelas há encontros e conflitos, ademais de abordarem elementos ficcionais borgeanos, como veremos na análise de cada uma das crônicas. A crônica Borgianas é dividida em quatro partes. Na primeira, descreve um jogo de xadrez entre Borges e o narrador-personagem do relato que poderíamos até pensar, se quisermos acentuar o jogo ficcional, que é um alter ego de Luis Fernando Veríssimo ou o próprio autor. Desta forma, é possível interpretar a crônica como um diálogo literário entre dois escritores. O jogo ocorre no escuro, de acordo com o narrador “para não lhe dar nenhuma vantagem” ao escritor argentino, pois sabemos que o Borges escritor perdeu a visão no decorrer de sua vida. Assim, desde o início da crônica já temos a sugestão de dois personagens antagônicos, em conflito. Através do humor, o narrador desconstrói a imagem mitológica de Borges e o seu interlocutor não é um simples admirador do escritor, mas seu antagonista. Esta situação ambígua, sugerida pelo fato dos dois serem jogadores de uma partida de xadrez e, portanto, adversários e parceiros de jogo ao mesmo tempo, é intensificada no decorrer do relato e dá a tônica da crônica. No desenrolar do jogo, escutam um “tropel vindo da rua”. Para Borges são zebras, já para o narrador são cavalos. Mais uma vez há um conflito entre os dois personagens, ao mesmo tempo em que aparece um exemplo de metaficção, já que, suspirando, Borges confessa que pensava em escrever uma história em que pessoas desapareciam na Europa depois de acidentes estranhos e passa a narrá-la. Durante este relato escutam o estouro de um motor que vem da rua. Para o narrador, o barulho é o Hispano Suiza de uma diva estrábica. Já para Borges é uma mera Kombi. Mais uma vez, vemos demarcada a separação entre os dois personagens. Enquanto um está na realidade, o outro dá asas à sua imaginação. O interessante é que há uma mudança de perspectiva, uma vez que anteriormente, era Borges quem havia imaginado algo improvável e agora é o narrador quem entra no jogo borgeano, ou seja, os pontos de vista se invertem. 568 Borges continua o seu relato em que o mundo transforma-se em um imenso jogo de xadrez, onde o tabuleiro é um continente e as peças, vivas, são manipuladas por forças desconhecidas. Neste ínterim, o narrador descobre, pelo tato, que Borges liquidou os seus peões. Assim, podemos dizer que ao conseguir o privilégio de escutar a narração em primeira mão de Borges, o narrador foi seduzido por seu relato, o que levou-o a se distrair do jogo. Comparando esta parte da crônica com as Mil e uma noites, livro muito admirado pelo escritor argentino, podemos dizer que Borges adotou o mesmo procedimento de Sherazade para seduzir o sultão: a narrativa. Desta forma, encontramos a explicitação da força da literatura. Veríssimo, ao usar o xadrez como um elemento narrativo explora um tópico característico da poética borgeana. Sabemos que o escritor argentino versou sobre o tema do jogo do xadrez em vários de seus escritos: ensaios, prólogos, contos e no poema Xadrez. Para Borges, baseado na concepção do matemático, astrônomo e poeta persa Omar Khayyam, este jogo é a alegoria do destino humano, como podemos confirmar através de alguns versos de seu poema Xadrez: Também o jogador é prisioneiro (Frase de Omar) de um outro tabuleiro De negras noites e de brancos dias. Na segunda parte da crônica, o narrador e Borges dialogam sobre o Antigo Egito. Borges afirma que “Por baixo das areias do Antigo Egito existia outro Egito, e mais outro, no qual se falava em mais três”. (VERÍSSIMO, 2003, p.153). Eis a total relativização da história. A conversa prossegue e a complexidade do tema aumenta: Mas no nosso Antigo Egito, no Antigo Egito mais recente, disse Borges, acreditava-se numa vida depois desta e Borges indicou o tabuleiro com as duas mãos. Acreditava-se em ainda outro Egito acima do Antigo Egito. Um futuro Egito. Para onde iam os mortos, de navio. Os egípcios acreditavam também que, quando o nome ou a imagem de um morto eram apagados na Terra, o espírito do morto se apagava no Além. Os profanadores e os iconoclastas tinham a oportunidade de matar o morto pela segunda vez. (VERÍSSIMO, 2003, p.153). A conversação prossegue com a menção ao rei Akhnaton que, de acordo com o relato de Borges, apagou todas as referências ao seu pai, o rei Amenhotep das paredes e dos escritos do reino, eliminando-o, portanto, da Eternidade. O narrador pergunta a Borges qual a sua opinião sobre a teoria de que Akhnaton seria o modelo histórico para Édipo, que Freud... Borges não o deixa concluir a pergunta e pede que não se introduza Freud nesta história que já está muito complicada. Percebemos através desta intervenção uma clara inversão de papéis: quem conduz a narração é o 569 personagem e não o narrador. Depois, Borges justifica-se “E disse que só contava a história para mostrar o poder dos escritores sobre a posteridade e como até os mortos estavam à mercê dos revisores” (VERÍSSIMO, 2003, p.153). Usando o Antigo Egito como ponto de partida, o que encontramos aqui é a reflexão sobre o papel da literatura na preservação da memória de um escritor. Discute-se, então, a possibilidade que os escritores têm de se imortalizarem através da literatura. Claro, também podem tornar-se vítimas dos revisores, como o personagem ressalta. Se considerarmos o esforço que Borges escritor fez para rever suas produções, proibindo edições de seus escritos literários iniciais que considerava inferiores ao que escreveu posteriormente ou até reescrevendo-os, é possível pensarmos que há uma relação direta com a trajetória poética borgeana. Se formos mais longe e refletirmos sobre o papel que Maria Kodama ocupa hoje no tocante a detenção dos direitos autorais das obras de Borges, podemos considerar que o escritor argentino ficou totalmente a mercê de sua “revisora”. Novamente, percebemos que o papel principal desta crônica é discutir a literatura e os problemas que a envolvem. Avançando na nossa análise, chegamos à terceira parte da crônica, em que de novo os dois personagens estão jogando xadrez, como nos informa o narrador: “Outra vez eu estava jogando xadrez com Jorge Luis Borges numa sala de espelhos, com peças invisíveis num tabuleiro imaginário [...]” (VERÍSSIMO, 2003, p.153). Além do xadrez, elemento característico da poética borgeana, outra marca do escritor argentino aparece nesta parte da narrativa: o espelho. Ademais, a ideia do tempo cíclico borgeano é explicitada através do marcador temporal “outra vez”. Para tornar o relato mais complexo, de repente surge um corvo que murmura “Nunca mais”, tal como no poema O corvo, de Poe. Exasperado, Borges pede que o narrador pare de fazer citações literárias. Este se defende declarando que está há horas em silêncio. Borges retruca que ele está citando entrelinhas. O narrador afirma que quem falou foi um corvo, o corvo de Poe. Borges responde que não pode ser o corvo de Poe, uma vez que ele exprimiu-se em português e esclarece que é o corvo do tradutor do escritor americano. Temos aí, um claro exemplo de intertextualidade. Sabemos que Borges foi um grande admirador de Poe, o que deixou registrado em um ensaio sobre o autor intitulado Edgar Allan Poe, publicado em La Nación (1949). Neste ensaio, Borges afirma que Poe faz parte da história das letras ocidentais, a qual não seria compreendida sem ele. Além disso, segundo Borges, o mais importante é que 570 pertence ao intemporal e ao eterno, por algum verso e por muitas páginas incomparáveis. Estas declarações sobre Poe podem perfeitamente serem aplicadas ao próprio Borges. Este “incidente” intertextual serve para Borges contar a tradução que fez de Robal de Almendres, o poeta anão da Catalunha. Segundo o seu relato, Robal escrevia na areia com uma vara e seus seguidores literários literalmente o seguiam, ao mesmo tempo copiando e apagando os seus versos do chão com os pés. Desta maneira, Robal jamais revisava os seus escritos, visto que não podia voltar atrás para ver o que tinha produzido. O narrador indaga porque ele não lia o que seus seguidores tinham copiado e Borges declara que Robal não confiava neles e nos coloca diante de um paradoxo “Se houvesse um entre eles com pretensão à originalidade, fatalmente teria alterado a poesia do mestre e não mereceria confiança. Os outros eram meros copiadores, e quem pode confiar em copiadores?” (VERÍSSIMO, 2003, p.154). Segundo Borges, Robal se considerava o poeta mais inédito do mundo. Todas as edições das suas obras eram desautorizadas por ele. Quanto mais o editavam, mais inédito ficava. Dando continuidade à narrativa, somos informados de que Robal quase ganhou um prêmio Nobel, mas desestimulou a academia em Estocolmo com a ameaça de ir recebê-lo em Nairóbi. O mais interessante desta terceira parte é a confissão de Borges “E eu traduzi a sua obra”. (VERÍSSIMO, 2003, p.154). O narrador indaga como Borges se manteve fiel ao espírito de Robal de Almendres na tradução e ele esclarece “Mudando tudo. Fazendo prosa em vez de poesia. Não traduzindo fielmente nem uma palavra.” (VERÍSSIMO, 2003, p.154). Ao ser indagado sobre onde está a tradução, Borges confidencia: “É toda a minha obra” (VERÍSSIMO, 2003, p.154). Após esta declaração, o corvo voa. Desta maneira, podemos interpretar o corvo como um elemento simbólico que estabelece o diálogo literário entre a obra de Borges e Poe. Ele, junto com o narrador e o leitor, é testemunha da confissão de Borges de que a sua produção literária não passou de uma tradução da obra de Robal de Almendres, um poeta anão da Catalunha. Além disso, este relato nos remete ao conto borgeano O livro de areia em que o narrador adquire um livro parecido com uma bíblia, mas que muda cada vez que é aberto. Assim, nenhuma história se repete e, tal como a escrita de Robal de Almendres, é sempre inédito. Ademais, podemos pensar que esta parte da crônica ironiza o fato de Borges não ter recebido o prêmio Nobel de Literatura através da figura de Robal de Almendres. Os biógrafos de Borges afirmam que ele alimentava o 571 sonho de ganhar o Nobel, mas, por conta de suas polêmicas posições políticas, nunca foi agraciado com tal honraria, embora tenha recebido diversos prêmios e títulos de distinção universitários e governamentais. Na quarta parte da crônica, os dois personagens discutem sobre a importância da experiência para o escritor. O narrador sustenta que a experiência é importante. Borges defende que ela só atrapalha. E afirma: “Toda a experiência de que eu necessito está nesta biblioteca- disse Borges, indicando a sala de espelho com as mãos” (VERÍSSIMO, 2003, p.155). O narrador questiona que não estão em uma biblioteca e Borges responde “Eu estou sempre em uma biblioteca- disse Borges. Continuou: - E mesmo assim, sei como é enfrentar um tigre” (VERÍSSIMO, 2003, p.155). Antes de avançarmos na análise da crônica é fundamental ressaltarmos a presença de mais um elemento da poética borgeana: a biblioteca. Para Borges, o universo é uma biblioteca, como podemos ver, por exemplo, em seu conto A biblioteca de Babel. Retomando o relato, o narrador pergunta-lhe se alguma vez já enfrentou um tigre e ele responde que não, que nem sequer viu um tigre em sua vida, mas conhece tudo sobre este felino. Então, o narrador indaga-lhe se está baseado no relato de alguém que enfrentou um tigre e Borges afirma que ninguém que tenha enfrentado um tigre jamais deu um bom escritor. O diálogo continua e o narrador pergunta se houve algum escritor que se confrontou com um tigre. Borges esclarece que houve um que foi atacado dentro de sua biblioteca por um tigre, em Amsterdã. Nunca descobriram como o tigre chegou lá. Novamente, o narrador indaga se o tigre matou-o e ele diz que não. Diante desta resposta, afirma “Mas então ele, melhor que ninguém, pode descrever o que é enfrentar um tigre. Porque tem a experiência” (VERÍSSIMO, 2003, p.155). Borges responde que não, já que para fazer o relato ele precisaria voltar à sua biblioteca, consultar os seus volumes. E isso ele não pode fazer porque tem um tigre na sua biblioteca! Mais uma vez outro elemento da poética borgeana é utilizado por Veríssimo na construção de sua crônica: o tigre. Borges, de acordo com seus biógrafos, costumava ver tigres no zoológico de Buenos Aires quando criança, chegando até a desenhá-lo aos seis anos. A sua admiração por este felino pode ser vista no poema El otro tigre ou no seu livro El oro de los tigres, em que o animal aparece como uma metáfora de um sol encarcerado ou da crueldade do eterno. Desta maneira podemos interpretar esta última parte da crônica como uma exaltação do poder da literatura que substitui e supera a experiência. Também 572 podemos vê-la como uma alusão à imortalidade da obra borgeana, o que nos leva ao título da mesma: Borgianas. Como nos lembra Beatriz Sarlo (2007), o nome de poucos escritores originou um adjetivo que os identifica e também designa algo mais que sua própria obra. Para ela, estes adjetivos são, talvez, o efeito máximo, o mais amplo e o mais extensivo, que pode produzir uma invenção literária. De acordo com a autora, kafkaniano ou borgeano não são apenas uma qualidade da escritura, ainda que, em um primeiro momento, possam ter sido utilizados para nomeá-la: são adjetivos de originalidade. Por isso, ao usar um vocábulo que se tornou sinônimo da obra de Borges, Veríssimo ressalta a importância do autor, ao mesmo tempo em que lhe rende homenagem, transformando-o em objeto literário e utilizando diversos elementos de sua poética. Passaremos agora a analisar a crônica No céu, um relato das conversas de Jorge Luis Borges, Ítalo Calvino e Vladimir Nabokov na eternidade. De acordo com o narrador eles “estão no céu para prestigiá-lo, já que o céu, a ideia de um lugar para onde se vai depois da morte, foi certamente o primeiro produto da imaginação do homem, seu primeiro esforço literário” (VERÍSSIMO, 2003, p.157). Desta forma, o leitor se depara com mais uma crônica que tem por objeto a literatura. O local de encontro dos escritores é significativo e o narrador ironiza a descrença de Calvino afirmando que ele “se sentiu obrigado a ir para o céu e concorda com os outros que todos os escritores mortos estão lá por direito adquirido, pelo exercício da literatura, inclusive o Marquês de Sade, embora este ocupe um cercado e tenha as asas curtas como as de uma galinha” (VERÍSSIMO, 2003, p.157). Assim, vemos a supervalorização que a literatura tem para Veríssimo, já que todos os escritores possuem um lugar no céu, independente de suas crenças ou de seu comportamento, pelo exercício da arte literária. O narrador relata algumas das conversas entre os três escritores enquanto tomam chá. Novamente há uma discordância entre dois personagens. Para Borges, o chá é a única bebida para passar a eternidade. Já Calvino pensa que algo mais forte faria a eternidade passar mais depressa. Entre as discussões dos escritores, ressaltam-se as maneiras de coibir vocações literárias equivocadas. Eles concluíram que uma solução seria dar a certos críticos o poder de não apenas condenar autores novos, inclusive à morte, com os próprios críticos sendo encarregados da execução, o que também os ajudaria a aguçar seus critérios. Além destes debates, os três trocam reminiscências literárias. O narrador relata que um dia discutiam sobre qual seria o trecho mais erótico de toda literatura universal. Borges comentou que a frase mais 573 sensual que jamais ouvira era de uma poesia curda e a reação dos seus interlocutores é irônica: “Calvino e Nabokov sorriram um para o outro sem que Borges os visse. Era típico de Borges, escolher logo uma poesia curda” (VERÍSSIMO, 2003, p.158). Assim, aparece a cumplicidade dos dois autores, contrapondo-se ao escritor argentino. “Em seguida Nabokov indaga qual é a frase e Borges a reproduz em curdo. Os outros esperam que ele faça a tradução, mas Borges confessa que “não tinha a menor ideia do seu significado, apenas tivera uma ereção ao lê-la” (VERÍSSIMO, 2003, p.158). Desta maneira, através do humor, Borges é deslocado da sua condição de mito e humanizado. Ao reunir três importantes escritores do século XX em uma crônica, Veríssimo homenageia a literatura, demonstrando algumas de suas preferências literárias. Embora Borges e Nabokov tenham nascido no mesmo ano, o que os aproxima é o fato de, juntamente com Calvino, pertencerem ao que se convencionou chamar de pósmodernismo. Também precisamos lembrar que Calvino homenageou o escritor argentino em seu livro Por que ler os clássicos (2000), destacando as contribuições de Borges para a literatura. Ademais, as obras dos três autores são consideradas fundamentais para a história da literatura ocidental, por seu caráter inovador. Em suma, esta crônica é mais um exemplo da força da literatura que proporciona aos leitores a possibilidade, por exemplo, de ver autores tão diversos reunidos em uma crônica. Além disso, este relato nos permite refletir sobre a questão do cânone e se considerarmos o ponto de vista de Veríssimo retratado nesta crônica, podemos pensar que a escolha de nossos clássicos é algo pessoal, já que todos os escritores de literatura têm um lugar reservado no céu. Por fim, chegamos à terceira crônica de Banquete com os deuses que tem Borges como personagem intitulada Jorge e Benny. É um relato do encontro (ou desencontro) pós-morte de Borges com Benny Goodman, clarinetista e músico de jazz, conhecido como “O Rei do Swing”. Como esclarece o narrador: “Jorge Luis Borges e Benny Goodman morreram ao mesmo tempo, em junho de 1986. Há 19 anos. Na época, imaginei-os esbarrando um no outro, na chegada” (VERÍSSIMO, 2003, p.185). É inevitável o leitor se perguntar: chegaram onde? Se pensarmos na verossimilhança das datas em que os personagens morreram, é um encontro perfeitamente possível, visto que o músico faleceu um dia antes do escritor argentino. Após esbarrarem-se e se desculparem, fazem uma breve apresentação em que informam os seus nomes e nacionalidades. Goodman informa que é o “Rei do Swing” e indaga quem é Borges. Este declara “Bem, eu inventei este 574 labirinto. Modestamente” (VERÍSSIMO, 2003, p.185). Assim, o leitor é informado que chegaram a um labirinto. Goodman questiona “Como, inventou, se eu estou nele?” (VERÍSSIMO, 2003, p.185). Borges afirma que “É difícil explicar. Escrevi vários livros não explicando exatamente isto. Minha ideia da morte era esta: o último labirinto” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). A seguir pergunta se não o inventou também. O músico acha pouco provável que ele o tenha inventado. Borges confessa “Às vezes penso que eu inventei tudo. Que a vida foi só uma coisa que eu imaginei. As estrelas, o universo, eu mesmo. Tudo imaginação minha” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Esta declaração nos leva a refletir sobre o poder de criação de um escritor, comparável ao de um deus. Prosseguindo a conversação, Goodman questiona que se ele é o inventor do labirinto, como é que não sabe o caminho. Borges dá uma resposta magistral e provoca o seu interlocutor: “Se fosse um caminho, não seria um labirinto. Você tem pouca imaginação para um rei” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Desta forma, estamos diante de mais um elemento da poética borgeana: o labirinto, tematizado em ensaios, contos e poemas do escritor argentino. Goodman rebate improvisando uma frase musical. Então, Borges responde: “A música sempre me pareceu a forma mais árida de retórica. A literatura é um labirinto sem saída. A música não tem nem entrada. É uma geometria inútil” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Com estas palavras, Borges estabelece a superioridade da literatura em relação à música e torna-se inevitável não lembrarmos as declarações que o Borges escritor fez sobre a sua dificuldade em compreender esta arte. A seguir discutem sobre o tango. Borges afirma que “O tango não é nem literatura nem música. É o contrário” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Goodman discorda de sua opinião. Para ele “A música é um caminho, com começo, meio e fim. E o jazz é um atalho secreto” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Por sua vez, Borges contesta que sempre desconfiou da espontaneidade. E afirma “Nossas vidas seriam mais suportáveis se as pudéssemos viver só depois da terceira revisão” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Ademais do debate sobre as duas artes, encontramos aqui a aproximação da literatura com a vida, já que revisão é uma ação que podemos praticar, principalmente, com textos escritos. Assim, abre a possibilidade de sermos os revisores de nossas vidas, algo que apenas a escrita proporciona. No caso de Borges escritor, mais uma vez, é importante ressaltar que a revisão de seus escritos foi uma atividade intensamente praticada por ele. Retomando o relato, Goodman propõe que se separem, pois assim um dos dois poderá encontrar o caminho: Borges poderá inventá-lo ou ele improvisará outro. 575 Borges responde que não há caminhos, visto que “Este é o último labirinto, o que leva sempre ao lugar em que a gente já está. É o que eu chamo de ‘eternidade’” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Não encontrando alternativas, o músico lamenta-se por ter caído na ideia borgeana de morte e Borges indaga-lhe qual era a sua concepção. Ele responde que “Sei lá. Algo com o chão vitrificado, cortinas, bem anos 30. Uma banda, algumas garotas...” (VERÍSSIMO, 2003, p.187). Então, Borges sussurra “Jesus” e Goodman pergunta onde. Borges esclarece que foi só um comentário e declara que só há uma saída: “Eu estar imaginando tudo isto” (VERÍSSIMO, 2003, p.187). Novamente, o poder de criação é ressaltado. Contos: a arte borgeana dos ditados Após o nosso passeio pelas crônicas, agora é vez de percorrermos dois contos de autores brasileiros que converteram Borges em objeto literário. São eles: A secretaria de Borges, de Lúcia Bettencourt, e Borges, de Julián Fuks. As duas narrativas possuem uma grande riqueza poética e permitem que o leitor penetre no universo borgeano de uma maneira lúdica. Um dos aspectos mais atraentes dos contos é a recriação dos momentos de escrita de Borges depois que ele perdeu a visão. É exatamente neste ponto em que nos deteremos na análise das duas obras citadas. A secretária de Borges nomeia o livro de contos da autora. Como o próprio título já indica, trata-se da relação de Borges com sua secretaria, depois de sua cegueira. De acordo com o conto, o personagem herdou a secretaria de sua mãe, “como se herda um móvel de família” (BETTENCOURT, 2006, p.14). A partir desta declaração do narrador em primeira pessoa, podemos vê-la como algo imprestável, desumanizada, mas no decorrer da narrativa a sua importância se acentua e ela chega a tornar-se imprescindível para Borges. Após alguns desencontros, estabelece-se um jogo entre os dois personagens, em que Borges dita suas produções para a secretaria que as modifica, melhorando seus escritos. Entretanto, incomodado, o protagonista tenta romper o jogo textual e procura um outro escriba, mas não encontra o prazer que tinha em produzir com a secretaria. Então, chama-a de volta, mas, aparentemente, o jogo é encerrado. Borges sente-se infeliz e não consegue completar seus escritos. Todavia, um dia o seu antigo escriba vai visitá-lo e cumprimenta-o por sua nova publicação, considerando-a a melhor que já havia produzido. Ele pensa que é alguma reedição de um de seus livros, 576 mas no decorrer da leitura percebe que as frases soltas que tinha ditado para a secretaria transformaram-se em excelentes obras literárias. Através deste conto podemos discutir algumas questões próprias da literatura. Entre elas a visão de textos literários enquanto um jogo. Como disse o personagem: “O texto virou um tabuleiro de xadrez, onde cada um de nós tentava antecipar os possíveis movimentos do outro” (BETTENCOURT, 2006, p.17). Precisamos lembrar que este jogo era silencioso, tácito, pois os personagens não admitiam que jogavam. Aparentemente, a secretaria anotava o que Borges ditava, mas sempre modificava o que escutava. Assim, através da secretaria, o leitor é convidado a participar do jogo de criação textual borgeano, já que no ato de leitura, muitas vezes, tentamos antecipar o que leremos. Outra ideia exposta nesta narrativa é a importância da releitura que o leitor faz de uma obra literária: “Percebia, agora, que ela me era necessária, que suas mudanças me haviam viciado e que só desejava compor textos para vê-los mexidos, reordenados, dialogicamente trabalhados em labirintos cada vez mais complexos” (BETTENCOURT, 2006, p.19). É exatamente este processo mental que o leitor de literatura realiza e por isso é possível que existam diversas interpretações para um mesmo texto. Ademais, sabemos que somente através de um acúmulo de leituras, é possível compreender amplamente a obra de Borges e a partir daí relê-lo. Além de enfatizar a necessidade de que o leitor borgeano seja um jogador e um leitor, este conto valoriza o diálogo entre os textos, mostrando que a intertextualidade pode criar obras mais criativas, como ocorreu com a reescrita dos textos borgeanos pela secretaria. Por fim, o jogo entre os personagens atinge um nível complexo, mas impossível de ser resolvido, como Borges deixa claro: “Ela havia me usurpado totalmente. Prescindira de mim, e me negara até mesmo o jogo inicial da composição enxadrística. Não posso, nem quero, desmascará-la, pois com isso destruiria a mim mesmo.” (BETTENCOURT, 2006, p.20). Desta maneira, o personagem aceita que as obras com as quais alcançou o sucesso sejam creditadas apenas a ele, embora saiba que foram produzidas também por sua secretaria. Em suas palavras “Tornei-me o autor mais festejado de meu país, sou um sucesso em vida e serei um clássico após a minha morte. Ela, no entanto, não passa de um fantasma” (BETTENCOURT, 2006, p. 21). Assim, vemos Borges transformar-se de um personagem dependente no início do conto ao escritor canônico da atualidade. 577 Em Borges, Julián Fuks desvenda diversas facetas do universo ficcional borgeano, ao mesmo tempo em que recria alguns momentos da vida do escritor argentino, enfatizando a superação da sua cegueira na continuidade do exercício da literatura. Desta maneira, entramos em contato com elementos da poética borgeana, tais como a biblioteca, o labirinto, o espelho e o xadrez. Também temos a oportunidade de refletirmos sobre alguns conceitos borgeanos, entre os quais, o tempo, a história e a imortalidade. O conto é dividido em onze capítulos e, neste trabalho, exploraremos apenas o terceiro. Nesta parte da narrativa, Borges rememora o período em que trabalhava em bibliotecas, tanto a Biblioteca Municipal Miguel Cané quanto a Biblioteca Nacional. Como terminava rapidamente o seu trabalho de catalogação de livros, Borges usava o seu tempo livre para escrever. O narrador nos informa que foi na biblioteca municipal que surgiram “A biblioteca de Babel”, “As ruínas circulares”, “A morte e a bússola”, entre outras obras literárias. Depois de mais um dia de trabalho, Borges volta para casa e avisa sua mãe que ditará um poema inteiro. Ela se alegra e passa a anotar. Borges pede que leia o que já foi escrito diversas vezes. Através deste processo de produção textual em que se mesclam a oralidade e a escrita, surge o poema “Junho, 1968”, reproduzido no conto, com tradução de Carlos Nejar. Embora tenhamos nos detido apenas em um dos capítulos do conto, é preciso esclarecer que a metaficção também está presente em outras partes do relato. Fuks reconstrói episódios da vida de Borges em que este escreve alguns de seus contos e poemas. Nesta reconstrução destaca-se, além da obra poética que já citamos o “Poema dos dons” que Borges dita para María Esther Vázquez. Se sairmos do âmbito dos ditados borgeanos encontraremos outros exemplos metaficcionais na narrativa, a qual começa com um escritor que está elaborando um artigo sobre Jorge Luis Borges para uma enciclopédia latino-americana e culmina com a impossibilidade de Borges descrever a sua própria morte. Em outras palavras, a metaficção perpassa todo o relato que é conduzido pelo labirinto borgeano da memória. Como vimos, os dois contos apresentam elementos da poética borgeana e recuperam um momento importante da produção literária de Borges: a fase em que supera a cegueira através da descoberta da oralidade e utiliza-se de escribas para registrar a sua criação literária. Seja humoristicamente, como vimos no primeiro conto, ou de forma mais reflexiva, como no relato de Fuks, o que pretendemos ressaltar 578 destes contos é o fato de eles explorarem a metaficção e recriarem a construção de um relato oral, resgatando a arte borgeana dos ditados. Algumas conclusões Após enveredarmos pelas crônicas de Luís Fernando Veríssimo, a primeira conclusão a que podemos chegar é a de que ao ficcionalizar Jorge Luis Borges, o autor homenageou-o, dialogando com o seu universo ficcional e humanizando-o. Ao mesmo tempo em que demonstra a sua paixão pelo escritor argentino, Veríssimo desmistifica a poética borgeana aproximando-a do leitor através do uso de uma linguagem simples e humorística. Desta forma, enquanto convidado deste banquete literário, o leitor pode se deliciar com os elementos borgeanos, penetrando em labirintos ou bibliotecas ou acompanhando um jogo de xadrez, entre outras possibilidades. Ademais, devido ao jogo intertextual que o cronista estabelece com a obra de Borges, o leitor é chamado a mergulhar mais intensamente em seu universo ficcional, (re) descobrindo algumas leituras. Por outro lado, suas crônicas, permitem a reflexão sobre temas importantes para a literatura, tais como o poder da arte literária, a intertextualidade, a originalidade, a canonização de escritores e a crítica, entre outros tópicos. Em relação aos contos analisados neste trabalho, tudo o que dissemos anteriormente sobre as crônicas pode ser aplicado às narrativas de Lúcia Bettencourt e Julián Fuks. Entretanto, não podemos nos esquecer de que trazem algo que não aparece nas crônicas: a reconstrução de momentos de escrita de Borges através da ajuda de escribas. Isto nos permite discutir também o papel dos auxiliares do escritor argentino durante o processo de criação literária e até questionar a noção de autoria. Tanto as crônicas quanto os contos são um convite para que o leitor aprofunde a sua relação com a obra de Borges. Desta forma, gerando novos discursos literários, a ficcionalização do escritor argentino ademais de homenageá-lo multiplica as possibilidades de leitura de sua obra, pois já não estamos mais diante de um mito, mas sim de um escritor que habita outras ficções e que está, portanto, mais próximo do leitor. 579 Referências bibliográficas BETTENCOURT, L. A secretaria de Borges. Rio de Janeiro: Record, 2006. BORGES, J. L. Obras completas. Buenos Aires: Emecé, 1994. CALVINO, I. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. FUKS, J. Borges. Histórias de literatura e cegueira. Rio de Janeiro: Record, 2007. SARLO, B. La escritura del dios. In: Escritos sobre literatura argentina. Buenos Aires: Siglo XXI Editores, 2007. VERÍSSIMO, L.F. Banquete com os deuses. Rio de janeiro: Objetiva, 2003. 580