II Colóquio da Pós-Graduação em Letras
UNESP – Campus de Assis
ISSN: 2178-3683
www.assis.unesp.br/coloquioletras
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JORGE LUIS BORGES: PERSONAGEM DE CRÔNICAS E CONTOS BRASILEIROS
Isis Milreu
(Mestre – UNESP/Assis)
RESUMO: O presente trabalho pretende analisar a ficcionalização de Jorge Luís Borges em
contos e crônicas de autores brasileiros. Além de ser alvo de inúmeros ensaios, teses e
biografias, o escritor argentino foi convertido em personagem literário em diversos países. No
Brasil, destaca-se o romance Borges e os orangotangos eternos (2000), de Luís Fernando
Veríssimo que também ficcionalizou o escritor argentino em três crônicas, reunidas em
Banquete com os deuses (2003). São elas: Borgianas; Jorge e Benny e No céu. Entre os
contos, podemos citar a obra que nomeia o livro de Lúcia Bettencourt A secretária de Borges
(2006) e Borges, de Julián Fuks incluído no livro Histórias de literatura e cegueira (2007). Como
já dissemos, este estudo buscará analisar as crônicas e os contos citados que literaturizaram
Borges na literatura brasileira.
PALAVRAS-CHAVE: Jorge Luis Borges; Borges personagem; literatura brasileira.
Crônicas: encontros literários com a poética borgeana
Para Antonio Candido (1992), “a crônica está sempre ajudando a estabelecer
ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas.” (p.14). De acordo com o autor,
isto ocorre porque a perspectiva dos cronistas é a do rés-do-chão, além de utilizarem a
linguagem coloquial e de não terem a intenção de permanecer na posteridade. Assim,
segundo Candido, a crônica “consegue quase sem querer transformar a literatura em
algo íntimo com relação à vida de cada um, e quando passa do jornal ao livro, nós
verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria
pensava” (p.14-15).
É exatamente esta a impressão que temos ao ler Banquete com os deuses,
de Luís Fernando Veríssimo. Sabemos que as crônicas foram feitas para serem
publicadas em jornais e serem imediatamente consumidas e, na maioria das vezes,
rapidamente esquecidas. Mas ao reuni-las em forma de livro, nos deparamos com
crônicas que, por sua riqueza poética, merecem serem lembradas pela posteridade.
Nesta obra, o autor reúne alguns de seus escritos sobre cinema, literatura e música,
ou melhor, como podemos ler na orelha do livro “Truffaut, Fellini, Chaplin, Nabokov,
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Borges, Miles Davis, Chet Baker – estão todos aqui, neste livro em que Veríssimo
celebra suas grandes paixões e faz do leitor um convidado especial”.
Desta forma, enquanto leitores convidados, vamos ao encontro de uma das
paixões do autor: Jorge Luís Borges, ficcionalizado em seu romance Borges e os
orangotangos eternos (2000) e objeto literário de três crônicas de Banquete com os
deuses: Borgianas, No céu e Jorge e Benny. Estas obras apresentam alguns
elementos comuns, além do fato de literaturizarem o escritor argentino. Nelas há
encontros e conflitos, ademais de abordarem elementos ficcionais borgeanos, como
veremos na análise de cada uma das crônicas.
A crônica Borgianas é dividida em quatro partes. Na primeira, descreve um
jogo de xadrez entre Borges e o narrador-personagem do relato que poderíamos até
pensar, se quisermos acentuar o jogo ficcional, que é um alter ego de Luis Fernando
Veríssimo ou o próprio autor. Desta forma, é possível interpretar a crônica como um
diálogo literário entre dois escritores. O jogo ocorre no escuro, de acordo com o
narrador “para não lhe dar nenhuma vantagem” ao escritor argentino, pois sabemos
que o Borges escritor perdeu a visão no decorrer de sua vida. Assim, desde o início da
crônica já temos a sugestão de dois personagens antagônicos, em conflito. Através do
humor, o narrador desconstrói a imagem mitológica de Borges e o seu interlocutor não
é um simples admirador do escritor, mas seu antagonista. Esta situação ambígua,
sugerida pelo fato dos dois serem jogadores de uma partida de xadrez e, portanto,
adversários e parceiros de jogo ao mesmo tempo, é intensificada no decorrer do relato
e dá a tônica da crônica.
No desenrolar do jogo, escutam um “tropel vindo da rua”. Para Borges são
zebras, já para o narrador são cavalos. Mais uma vez há um conflito entre os dois
personagens, ao mesmo tempo em que aparece um exemplo de metaficção, já que,
suspirando, Borges confessa que pensava em escrever uma história em que pessoas
desapareciam na Europa depois de acidentes estranhos e passa a narrá-la. Durante
este relato escutam o estouro de um motor que vem da rua. Para o narrador, o barulho
é o Hispano Suiza de uma diva estrábica. Já para Borges é uma mera Kombi. Mais
uma vez, vemos demarcada a separação entre os dois personagens. Enquanto um
está na realidade, o outro dá asas à sua imaginação. O interessante é que há uma
mudança de perspectiva, uma vez que anteriormente, era Borges quem havia
imaginado algo improvável e agora é o narrador quem entra no jogo borgeano, ou
seja, os pontos de vista se invertem.
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Borges continua o seu relato em que o mundo transforma-se em um imenso
jogo de xadrez, onde o tabuleiro é um continente e as peças, vivas, são manipuladas
por forças desconhecidas. Neste ínterim, o narrador descobre, pelo tato, que Borges
liquidou os seus peões. Assim, podemos dizer que ao conseguir o privilégio de escutar
a narração em primeira mão de Borges, o narrador foi seduzido por seu relato, o que
levou-o a se distrair do jogo. Comparando esta parte da crônica com as Mil e uma
noites, livro muito admirado pelo escritor argentino, podemos dizer que Borges adotou
o mesmo procedimento de Sherazade para seduzir o sultão: a narrativa. Desta forma,
encontramos a explicitação da força da literatura.
Veríssimo, ao usar o xadrez como um elemento narrativo explora um tópico
característico da poética borgeana. Sabemos que o escritor argentino versou sobre o
tema do jogo do xadrez em vários de seus escritos: ensaios, prólogos, contos e no
poema Xadrez. Para Borges, baseado na concepção do matemático, astrônomo e
poeta persa Omar Khayyam, este jogo é a alegoria do destino humano, como
podemos confirmar através de alguns versos de seu poema Xadrez:
Também o jogador é prisioneiro
(Frase de Omar) de um outro tabuleiro
De negras noites e de brancos dias.
Na segunda parte da crônica, o narrador e Borges dialogam sobre o Antigo
Egito. Borges afirma que “Por baixo das areias do Antigo Egito existia outro Egito, e
mais outro, no qual se falava em mais três”. (VERÍSSIMO, 2003, p.153). Eis a total
relativização da história. A conversa prossegue e a complexidade do tema aumenta:
Mas no nosso Antigo Egito, no Antigo Egito mais recente, disse
Borges, acreditava-se numa vida depois desta e Borges indicou o
tabuleiro com as duas mãos. Acreditava-se em ainda outro Egito
acima do Antigo Egito. Um futuro Egito. Para onde iam os mortos, de
navio. Os egípcios acreditavam também que, quando o nome ou a
imagem de um morto eram apagados na Terra, o espírito do morto se
apagava no Além. Os profanadores e os iconoclastas tinham a
oportunidade de matar o morto pela segunda vez. (VERÍSSIMO,
2003, p.153).
A conversação prossegue com a menção ao rei Akhnaton que, de acordo
com o relato de Borges, apagou todas as referências ao seu pai, o rei Amenhotep das
paredes e dos escritos do reino, eliminando-o, portanto, da Eternidade. O narrador
pergunta a Borges qual a sua opinião sobre a teoria de que Akhnaton seria o modelo
histórico para Édipo, que Freud... Borges não o deixa concluir a pergunta e pede que
não se introduza Freud nesta história que já está muito complicada. Percebemos
através desta intervenção uma clara inversão de papéis: quem conduz a narração é o
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personagem e não o narrador. Depois, Borges justifica-se “E disse que só contava a
história para mostrar o poder dos escritores sobre a posteridade e como até os mortos
estavam à mercê dos revisores” (VERÍSSIMO, 2003, p.153).
Usando o Antigo Egito como ponto de partida, o que encontramos aqui é a
reflexão sobre o papel da literatura na preservação da memória de um escritor.
Discute-se, então, a possibilidade que os escritores têm de se imortalizarem através
da literatura. Claro, também podem tornar-se vítimas dos revisores, como o
personagem ressalta. Se considerarmos o esforço que Borges escritor fez para rever
suas produções, proibindo edições de seus escritos literários iniciais que considerava
inferiores ao que escreveu posteriormente ou até reescrevendo-os, é possível
pensarmos que há uma relação direta com a trajetória poética borgeana. Se formos
mais longe e refletirmos sobre o papel que Maria Kodama ocupa hoje no tocante a
detenção dos direitos autorais das obras de Borges, podemos considerar que o
escritor argentino ficou totalmente a mercê de sua “revisora”. Novamente, percebemos
que o papel principal desta crônica é discutir a literatura e os problemas que a
envolvem.
Avançando na nossa análise, chegamos à terceira parte da crônica, em que
de novo os dois personagens estão jogando xadrez, como nos informa o narrador:
“Outra vez eu estava jogando xadrez com Jorge Luis Borges numa sala de espelhos,
com peças invisíveis num tabuleiro imaginário [...]” (VERÍSSIMO, 2003, p.153). Além
do xadrez, elemento característico da poética borgeana, outra marca do escritor
argentino aparece nesta parte da narrativa: o espelho. Ademais, a ideia do tempo
cíclico borgeano é explicitada através do marcador temporal “outra vez”. Para tornar o
relato mais complexo, de repente surge um corvo que murmura “Nunca mais”, tal
como no poema O corvo, de Poe. Exasperado, Borges pede que o narrador pare de
fazer citações literárias. Este se defende declarando que está há horas em silêncio.
Borges retruca que ele está citando entrelinhas. O narrador afirma que quem falou foi
um corvo, o corvo de Poe. Borges responde que não pode ser o corvo de Poe, uma
vez que ele exprimiu-se em português e esclarece que é o corvo do tradutor do
escritor americano.
Temos aí, um claro exemplo de intertextualidade. Sabemos que Borges foi
um grande admirador de Poe, o que deixou registrado em um ensaio sobre o autor
intitulado Edgar Allan Poe, publicado em La Nación (1949). Neste ensaio, Borges
afirma que Poe faz parte da história das letras ocidentais, a qual não seria
compreendida sem ele. Além disso, segundo Borges, o mais importante é que
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pertence ao intemporal e ao eterno, por algum verso e por muitas páginas
incomparáveis. Estas declarações sobre Poe podem perfeitamente serem aplicadas
ao próprio Borges.
Este “incidente” intertextual serve para Borges contar a tradução que fez de
Robal de Almendres, o poeta anão da Catalunha. Segundo o seu relato, Robal
escrevia na areia com uma vara e seus seguidores literários literalmente o seguiam,
ao mesmo tempo copiando e apagando os seus versos do chão com os pés. Desta
maneira, Robal jamais revisava os seus escritos, visto que não podia voltar atrás para
ver o que tinha produzido. O narrador indaga porque ele não lia o que seus seguidores
tinham copiado e Borges declara que Robal não confiava neles e nos coloca diante de
um paradoxo “Se houvesse um entre eles com pretensão à originalidade, fatalmente
teria alterado a poesia do mestre e não mereceria confiança. Os outros eram meros
copiadores, e quem pode confiar em copiadores?” (VERÍSSIMO, 2003, p.154).
Segundo Borges, Robal se considerava o poeta mais inédito do mundo. Todas as
edições das suas obras eram desautorizadas por ele. Quanto mais o editavam, mais
inédito ficava.
Dando continuidade à narrativa, somos informados de que Robal quase
ganhou um prêmio Nobel, mas desestimulou a academia em Estocolmo com a
ameaça de ir recebê-lo em Nairóbi. O mais interessante desta terceira parte é a
confissão de Borges “E eu traduzi a sua obra”. (VERÍSSIMO, 2003, p.154). O narrador
indaga como Borges se manteve fiel ao espírito de Robal de Almendres na tradução e
ele esclarece “Mudando tudo. Fazendo prosa em vez de poesia. Não traduzindo
fielmente nem uma palavra.” (VERÍSSIMO, 2003, p.154). Ao ser indagado sobre onde
está a tradução, Borges confidencia: “É toda a minha obra” (VERÍSSIMO, 2003,
p.154). Após esta declaração, o corvo voa.
Desta maneira, podemos interpretar o corvo como um elemento simbólico que
estabelece o diálogo literário entre a obra de Borges e Poe. Ele, junto com o narrador
e o leitor, é testemunha da confissão de Borges de que a sua produção literária não
passou de uma tradução da obra de Robal de Almendres, um poeta anão da
Catalunha. Além disso, este relato nos remete ao conto borgeano O livro de areia em
que o narrador adquire um livro parecido com uma bíblia, mas que muda cada vez que
é aberto. Assim, nenhuma história se repete e, tal como a escrita de Robal de
Almendres, é sempre inédito. Ademais, podemos pensar que esta parte da crônica
ironiza o fato de Borges não ter recebido o prêmio Nobel de Literatura através da
figura de Robal de Almendres. Os biógrafos de Borges afirmam que ele alimentava o
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sonho de ganhar o Nobel, mas, por conta de suas polêmicas posições políticas, nunca
foi agraciado com tal honraria, embora tenha recebido diversos prêmios e títulos de
distinção universitários e governamentais.
Na quarta parte da crônica, os dois personagens discutem sobre a
importância da experiência para o escritor. O narrador sustenta que a experiência é
importante. Borges defende que ela só atrapalha. E afirma: “Toda a experiência de
que eu necessito está nesta biblioteca- disse Borges, indicando a sala de espelho com
as mãos” (VERÍSSIMO, 2003, p.155). O narrador questiona que não estão em uma
biblioteca e Borges responde “Eu estou sempre em uma biblioteca- disse Borges.
Continuou: - E mesmo assim, sei como é enfrentar um tigre” (VERÍSSIMO, 2003,
p.155). Antes de avançarmos na análise da crônica é fundamental ressaltarmos a
presença de mais um elemento da poética borgeana: a biblioteca. Para Borges, o
universo é uma biblioteca, como podemos ver, por exemplo, em seu conto A biblioteca
de Babel.
Retomando o relato, o narrador pergunta-lhe se alguma vez já enfrentou um
tigre e ele responde que não, que nem sequer viu um tigre em sua vida, mas conhece
tudo sobre este felino. Então, o narrador indaga-lhe se está baseado no relato de
alguém que enfrentou um tigre e Borges afirma que ninguém que tenha enfrentado um
tigre jamais deu um bom escritor. O diálogo continua e o narrador pergunta se houve
algum escritor que se confrontou com um tigre. Borges esclarece que houve um que
foi atacado dentro de sua biblioteca por um tigre, em Amsterdã. Nunca descobriram
como o tigre chegou lá. Novamente, o narrador indaga se o tigre matou-o e ele diz que
não. Diante desta resposta, afirma “Mas então ele, melhor que ninguém, pode
descrever o que é enfrentar um tigre. Porque tem a experiência” (VERÍSSIMO, 2003,
p.155). Borges responde que não, já que para fazer o relato ele precisaria voltar à sua
biblioteca, consultar os seus volumes. E isso ele não pode fazer porque tem um tigre
na sua biblioteca!
Mais uma vez outro elemento da poética borgeana é utilizado por Veríssimo
na construção de sua crônica: o tigre. Borges, de acordo com seus biógrafos,
costumava ver tigres no zoológico de Buenos Aires quando criança, chegando até a
desenhá-lo aos seis anos. A sua admiração por este felino pode ser vista no poema El
otro tigre ou no seu livro El oro de los tigres, em que o animal aparece como uma
metáfora de um sol encarcerado ou da crueldade do eterno.
Desta maneira podemos interpretar esta última parte da crônica como uma
exaltação do poder da literatura que substitui e supera a experiência. Também
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podemos vê-la como uma alusão à imortalidade da obra borgeana, o que nos leva ao
título da mesma: Borgianas. Como nos lembra Beatriz Sarlo (2007), o nome de poucos
escritores originou um adjetivo que os identifica e também designa algo mais que sua
própria obra. Para ela, estes adjetivos são, talvez, o efeito máximo, o mais amplo e o
mais extensivo, que pode produzir uma invenção literária. De acordo com a autora,
kafkaniano ou borgeano não são apenas uma qualidade da escritura, ainda que, em
um primeiro momento, possam ter sido utilizados para nomeá-la: são adjetivos de
originalidade. Por isso, ao usar um vocábulo que se tornou sinônimo da obra de
Borges, Veríssimo ressalta a importância do autor, ao mesmo tempo em que lhe rende
homenagem, transformando-o em objeto literário e utilizando diversos elementos de
sua poética.
Passaremos agora a analisar a crônica No céu, um relato das conversas de
Jorge Luis Borges, Ítalo Calvino e Vladimir Nabokov na eternidade. De acordo com o
narrador eles “estão no céu para prestigiá-lo, já que o céu, a ideia de um lugar para
onde se vai depois da morte, foi certamente o primeiro produto da imaginação do
homem, seu primeiro esforço literário” (VERÍSSIMO, 2003, p.157). Desta forma, o
leitor se depara com mais uma crônica que tem por objeto a literatura.
O local de encontro dos escritores é significativo e o narrador ironiza a
descrença de Calvino afirmando que ele “se sentiu obrigado a ir para o céu e concorda
com os outros que todos os escritores mortos estão lá por direito adquirido, pelo
exercício da literatura, inclusive o Marquês de Sade, embora este ocupe um cercado e
tenha as asas curtas como as de uma galinha” (VERÍSSIMO, 2003, p.157). Assim,
vemos a supervalorização que a literatura tem para Veríssimo, já que todos os
escritores possuem um lugar no céu, independente de suas crenças ou de seu
comportamento, pelo exercício da arte literária.
O narrador relata algumas das conversas entre os três escritores enquanto
tomam chá. Novamente há uma discordância entre dois personagens. Para Borges, o
chá é a única bebida para passar a eternidade. Já Calvino pensa que algo mais forte
faria a eternidade passar mais depressa. Entre as discussões dos escritores,
ressaltam-se as maneiras de coibir vocações literárias equivocadas. Eles concluíram
que uma solução seria dar a certos críticos o poder de não apenas condenar autores
novos, inclusive à morte, com os próprios críticos sendo encarregados da execução, o
que também os ajudaria a aguçar seus critérios. Além destes debates, os três trocam
reminiscências literárias. O narrador relata que um dia discutiam sobre qual seria o
trecho mais erótico de toda literatura universal. Borges comentou que a frase mais
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sensual que jamais ouvira era de uma poesia curda e a reação dos seus interlocutores
é irônica: “Calvino e Nabokov sorriram um para o outro sem que Borges os visse. Era
típico de Borges, escolher logo uma poesia curda” (VERÍSSIMO, 2003, p.158). Assim,
aparece a cumplicidade dos dois autores, contrapondo-se ao escritor argentino. “Em
seguida Nabokov indaga qual é a frase e Borges a reproduz em curdo. Os outros
esperam que ele faça a tradução, mas Borges confessa que “não tinha a menor ideia
do seu significado, apenas tivera uma ereção ao lê-la” (VERÍSSIMO, 2003, p.158).
Desta maneira, através do humor, Borges é deslocado da sua condição de mito e
humanizado.
Ao reunir três importantes escritores do século XX em uma crônica, Veríssimo
homenageia a literatura, demonstrando algumas de suas preferências literárias.
Embora Borges e Nabokov tenham nascido no mesmo ano, o que os aproxima é o fato
de, juntamente com Calvino, pertencerem ao que se convencionou chamar de pósmodernismo. Também precisamos lembrar que Calvino homenageou o escritor
argentino em seu livro Por que ler os clássicos (2000), destacando as contribuições de
Borges para a literatura. Ademais, as obras dos três autores são consideradas
fundamentais para a história da literatura ocidental, por seu caráter inovador. Em
suma, esta crônica é mais um exemplo da força da literatura que proporciona aos
leitores a possibilidade, por exemplo, de ver autores tão diversos reunidos em uma
crônica. Além disso, este relato nos permite refletir sobre a questão do cânone e se
considerarmos o ponto de vista de Veríssimo retratado nesta crônica, podemos pensar
que a escolha de nossos clássicos é algo pessoal, já que todos os escritores de
literatura têm um lugar reservado no céu.
Por fim, chegamos à terceira crônica de Banquete com os deuses que tem
Borges como personagem intitulada Jorge e Benny. É um relato do encontro (ou
desencontro) pós-morte de Borges com Benny Goodman, clarinetista e músico de
jazz, conhecido como “O Rei do Swing”. Como esclarece o narrador: “Jorge Luis
Borges e Benny Goodman morreram ao mesmo tempo, em junho de 1986. Há 19
anos. Na época, imaginei-os esbarrando um no outro, na chegada” (VERÍSSIMO,
2003, p.185). É inevitável o leitor se perguntar: chegaram onde?
Se pensarmos na verossimilhança das datas em que os personagens
morreram, é um encontro perfeitamente possível, visto que o músico faleceu um dia
antes do escritor argentino. Após esbarrarem-se e se desculparem, fazem uma breve
apresentação em que informam os seus nomes e nacionalidades. Goodman informa
que é o “Rei do Swing” e indaga quem é Borges. Este declara “Bem, eu inventei este
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labirinto. Modestamente” (VERÍSSIMO, 2003, p.185). Assim, o leitor é informado que
chegaram a um labirinto. Goodman questiona “Como, inventou, se eu estou nele?”
(VERÍSSIMO, 2003, p.185). Borges afirma que “É difícil explicar. Escrevi vários livros
não explicando exatamente isto. Minha ideia da morte era esta: o último labirinto”
(VERÍSSIMO, 2003, p.186). A seguir pergunta se não o inventou também. O músico
acha pouco provável que ele o tenha inventado. Borges confessa “Às vezes penso que
eu inventei tudo. Que a vida foi só uma coisa que eu imaginei. As estrelas, o universo,
eu mesmo. Tudo imaginação minha” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Esta declaração nos
leva a refletir sobre o poder de criação de um escritor, comparável ao de um deus.
Prosseguindo a conversação, Goodman questiona que se ele é o inventor do
labirinto, como é que não sabe o caminho. Borges dá uma resposta magistral e
provoca o seu interlocutor: “Se fosse um caminho, não seria um labirinto. Você tem
pouca imaginação para um rei” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Desta forma, estamos
diante de mais um elemento da poética borgeana: o labirinto, tematizado em ensaios,
contos e poemas do escritor argentino. Goodman rebate improvisando uma frase
musical. Então, Borges responde: “A música sempre me pareceu a forma mais árida
de retórica. A literatura é um labirinto sem saída. A música não tem nem entrada. É
uma geometria inútil” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Com estas palavras, Borges
estabelece a superioridade da literatura em relação à música e torna-se inevitável não
lembrarmos as declarações que o Borges escritor fez sobre a sua dificuldade em
compreender esta arte.
A seguir discutem sobre o tango. Borges afirma que “O tango não é nem
literatura nem música. É o contrário” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Goodman discorda
de sua opinião. Para ele “A música é um caminho, com começo, meio e fim. E o jazz é
um atalho secreto” (VERÍSSIMO, 2003, p.186). Por sua vez, Borges contesta que
sempre desconfiou da espontaneidade. E afirma “Nossas vidas seriam mais
suportáveis se as pudéssemos viver só depois da terceira revisão” (VERÍSSIMO,
2003, p.186). Ademais do debate sobre as duas artes, encontramos aqui a
aproximação da literatura com a vida, já que revisão é uma ação que podemos
praticar, principalmente, com textos escritos. Assim, abre a possibilidade de sermos os
revisores de nossas vidas, algo que apenas a escrita proporciona. No caso de Borges
escritor, mais uma vez, é importante ressaltar que a revisão de seus escritos foi uma
atividade intensamente praticada por ele.
Retomando o relato, Goodman propõe que se separem, pois assim um dos
dois poderá encontrar o caminho: Borges poderá inventá-lo ou ele improvisará outro.
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Borges responde que não há caminhos, visto que “Este é o último labirinto, o que leva
sempre ao lugar em que a gente já está. É o que eu chamo de ‘eternidade’”
(VERÍSSIMO, 2003, p.186). Não encontrando alternativas, o músico lamenta-se por ter
caído na ideia borgeana de morte e Borges indaga-lhe qual era a sua concepção. Ele
responde que “Sei lá. Algo com o chão vitrificado, cortinas, bem anos 30. Uma banda,
algumas garotas...” (VERÍSSIMO, 2003, p.187). Então, Borges sussurra “Jesus” e
Goodman pergunta onde. Borges esclarece que foi só um comentário e declara que só
há uma saída: “Eu estar imaginando tudo isto” (VERÍSSIMO, 2003, p.187).
Novamente, o poder de criação é ressaltado.
Contos: a arte borgeana dos ditados
Após o nosso passeio pelas crônicas, agora é vez de percorrermos dois
contos de autores brasileiros que converteram Borges em objeto literário. São eles: A
secretaria de Borges, de Lúcia Bettencourt, e Borges, de Julián Fuks. As duas
narrativas possuem uma grande riqueza poética e permitem que o leitor penetre no
universo borgeano de uma maneira lúdica. Um dos aspectos mais atraentes dos
contos é a recriação dos momentos de escrita de Borges depois que ele perdeu a
visão. É exatamente neste ponto em que nos deteremos na análise das duas obras
citadas.
A secretária de Borges nomeia o livro de contos da autora. Como o próprio
título já indica, trata-se da relação de Borges com sua secretaria, depois de sua
cegueira. De acordo com o conto, o personagem herdou a secretaria de sua mãe,
“como se herda um móvel de família” (BETTENCOURT, 2006, p.14). A partir desta
declaração do narrador em primeira pessoa, podemos vê-la como algo imprestável,
desumanizada, mas no decorrer da narrativa a sua importância se acentua e ela
chega a tornar-se imprescindível para Borges.
Após alguns desencontros, estabelece-se um jogo entre os dois personagens,
em que Borges dita suas produções para a secretaria que as modifica, melhorando
seus escritos. Entretanto, incomodado, o protagonista tenta romper o jogo textual e
procura um outro escriba, mas não encontra o prazer que tinha em produzir com a
secretaria. Então, chama-a de volta, mas, aparentemente, o jogo é encerrado. Borges
sente-se infeliz e não consegue completar seus escritos. Todavia, um dia o seu antigo
escriba vai visitá-lo e cumprimenta-o por sua nova publicação, considerando-a a
melhor que já havia produzido. Ele pensa que é alguma reedição de um de seus livros,
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mas no decorrer da leitura percebe que as frases soltas que tinha ditado para a
secretaria transformaram-se em excelentes obras literárias.
Através deste conto podemos discutir algumas questões próprias da
literatura. Entre elas a visão de textos literários enquanto um jogo. Como disse o
personagem: “O texto virou um tabuleiro de xadrez, onde cada um de nós tentava
antecipar os possíveis movimentos do outro” (BETTENCOURT, 2006, p.17).
Precisamos lembrar que este jogo era silencioso, tácito, pois os personagens não
admitiam que jogavam. Aparentemente, a secretaria anotava o que Borges ditava,
mas sempre modificava o que escutava. Assim, através da secretaria, o leitor é
convidado a participar do jogo de criação textual borgeano, já que no ato de leitura,
muitas vezes, tentamos antecipar o que leremos.
Outra ideia exposta nesta narrativa é a importância da releitura que o leitor
faz de uma obra literária: “Percebia, agora, que ela me era necessária, que suas
mudanças me haviam viciado e que só desejava compor textos para vê-los mexidos,
reordenados, dialogicamente trabalhados em labirintos cada vez mais complexos”
(BETTENCOURT, 2006, p.19). É exatamente este processo mental que o leitor de
literatura realiza e por isso é possível que existam diversas interpretações para um
mesmo texto. Ademais, sabemos que somente através de um acúmulo de leituras, é
possível compreender amplamente a obra de Borges e a partir daí relê-lo. Além de
enfatizar a necessidade de que o leitor borgeano seja um jogador e um leitor, este
conto valoriza o diálogo entre os textos, mostrando que a intertextualidade pode criar
obras mais criativas, como ocorreu com a reescrita dos textos borgeanos pela
secretaria.
Por fim, o jogo entre os personagens atinge um nível complexo, mas
impossível de ser resolvido, como Borges deixa claro: “Ela havia me usurpado
totalmente. Prescindira de mim, e me negara até mesmo o jogo inicial da composição
enxadrística. Não posso, nem quero, desmascará-la, pois com isso destruiria a mim
mesmo.” (BETTENCOURT, 2006, p.20). Desta maneira, o personagem aceita que as
obras com as quais alcançou o sucesso sejam creditadas apenas a ele, embora saiba
que foram produzidas também por sua secretaria. Em suas palavras “Tornei-me o
autor mais festejado de meu país, sou um sucesso em vida e serei um clássico após a
minha morte. Ela, no entanto, não passa de um fantasma” (BETTENCOURT, 2006, p.
21). Assim, vemos Borges transformar-se de um personagem dependente no início do
conto ao escritor canônico da atualidade.
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Em Borges, Julián Fuks desvenda diversas facetas do universo ficcional
borgeano, ao mesmo tempo em que recria alguns momentos da vida do escritor
argentino, enfatizando a superação da sua cegueira na continuidade do exercício da
literatura. Desta maneira, entramos em contato com elementos da poética borgeana,
tais como a biblioteca, o labirinto, o espelho e o xadrez. Também temos a
oportunidade de refletirmos sobre alguns conceitos borgeanos, entre os quais, o
tempo, a história e a imortalidade.
O conto é dividido em onze capítulos e, neste trabalho, exploraremos apenas
o terceiro. Nesta parte da narrativa, Borges rememora o período em que trabalhava
em bibliotecas, tanto a Biblioteca Municipal Miguel Cané quanto a Biblioteca Nacional.
Como terminava rapidamente o seu trabalho de catalogação de livros, Borges usava o
seu tempo livre para escrever. O narrador nos informa que foi na biblioteca municipal
que surgiram “A biblioteca de Babel”, “As ruínas circulares”, “A morte e a bússola”,
entre outras obras literárias.
Depois de mais um dia de trabalho, Borges volta para casa e avisa sua mãe
que ditará um poema inteiro. Ela se alegra e passa a anotar. Borges pede que leia o
que já foi escrito diversas vezes. Através deste processo de produção textual em que
se mesclam a oralidade e a escrita, surge o poema “Junho, 1968”, reproduzido no
conto, com tradução de Carlos Nejar.
Embora tenhamos nos detido apenas em um dos capítulos do conto, é
preciso esclarecer que a metaficção também está presente em outras partes do relato.
Fuks reconstrói episódios da vida de Borges em que este escreve alguns de seus
contos e poemas. Nesta reconstrução destaca-se, além da obra poética que já citamos
o “Poema dos dons” que Borges dita para María Esther Vázquez. Se sairmos do
âmbito dos ditados borgeanos encontraremos outros exemplos metaficcionais na
narrativa, a qual começa com um escritor que está elaborando um artigo sobre Jorge
Luis Borges para uma enciclopédia latino-americana e culmina com a impossibilidade
de Borges descrever a sua própria morte. Em outras palavras, a metaficção perpassa
todo o relato que é conduzido pelo labirinto borgeano da memória.
Como vimos, os dois contos apresentam elementos da poética borgeana e
recuperam um momento importante da produção literária de Borges: a fase em que
supera a cegueira através da descoberta da oralidade e utiliza-se de escribas para
registrar a sua criação literária. Seja humoristicamente, como vimos no primeiro conto,
ou de forma mais reflexiva, como no relato de Fuks, o que pretendemos ressaltar
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destes contos é o fato de eles explorarem a metaficção e recriarem a construção de
um relato oral, resgatando a arte borgeana dos ditados.
Algumas conclusões
Após enveredarmos pelas crônicas de Luís Fernando Veríssimo, a primeira
conclusão a que podemos chegar é a de que ao ficcionalizar Jorge Luis Borges, o
autor homenageou-o, dialogando com o seu universo ficcional e humanizando-o. Ao
mesmo tempo em que demonstra a sua paixão pelo escritor argentino, Veríssimo
desmistifica a poética borgeana aproximando-a do leitor através do uso de uma
linguagem simples e humorística. Desta forma, enquanto convidado deste banquete
literário, o leitor pode se deliciar com os elementos borgeanos, penetrando em
labirintos ou bibliotecas ou acompanhando um jogo de xadrez, entre outras
possibilidades. Ademais, devido ao jogo intertextual que o cronista estabelece com a
obra de Borges, o leitor é chamado a mergulhar mais intensamente em seu universo
ficcional, (re) descobrindo algumas leituras. Por outro lado, suas crônicas, permitem a
reflexão sobre temas importantes para a literatura, tais como o poder da arte literária,
a intertextualidade, a originalidade, a canonização de escritores e a crítica, entre
outros tópicos.
Em relação aos contos analisados neste trabalho, tudo o que dissemos
anteriormente sobre as crônicas pode ser aplicado às narrativas de Lúcia Bettencourt
e Julián Fuks. Entretanto, não podemos nos esquecer de que trazem algo que não
aparece nas crônicas: a reconstrução de momentos de escrita de Borges através da
ajuda de escribas. Isto nos permite discutir também o papel dos auxiliares do escritor
argentino durante o processo de criação literária e até questionar a noção de autoria.
Tanto as crônicas quanto os contos são um convite para que o leitor
aprofunde a sua relação com a obra de Borges. Desta forma, gerando novos discursos
literários, a ficcionalização do escritor argentino ademais de homenageá-lo multiplica
as possibilidades de leitura de sua obra, pois já não estamos mais diante de um mito,
mas sim de um escritor que habita outras ficções e que está, portanto, mais próximo
do leitor.
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Referências bibliográficas
BETTENCOURT, L. A secretaria de Borges. Rio de Janeiro: Record, 2006.
BORGES, J. L. Obras completas. Buenos Aires: Emecé, 1994.
CALVINO, I. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
FUKS, J. Borges. Histórias de literatura e cegueira. Rio de Janeiro: Record, 2007.
SARLO, B. La escritura del dios. In: Escritos sobre literatura argentina. Buenos Aires:
Siglo XXI Editores, 2007.
VERÍSSIMO, L.F. Banquete com os deuses. Rio de janeiro: Objetiva, 2003.
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Jorge Luís Borges: personagem de crônicas e contos