A FIGURA DO ANTICRISTO NA DÉCADA DE 60 POR MEIO DO
FILME “O BEBÊ DE ROSEMARY”
Rafaela Arienti Barbieri - UEM
Solange Ramos de Andrade - UEM
Vanda Fortuna Serafim - UEM
Fruto da proposta de um Projeto de Iniciação Científica, ainda em elaboração, da
disciplina de Introdução à Pesquisa Histórica e da atuação no Laboratório de Estudos
em Religiões e Religiosidades, todos vinculados ao DHI-UEM, visa apresentar algumas
das problemáticas acerca da figura do Anticristo e sua apropriação pelo Cinema.. Pelo
viés da História das Religiões, pretendemos, neste projeto, analisar a figura do anticristo
por meio da fonte cinematográfica, mais precisamente o filme O bebê de Rosemary,
lançado nos Estados Unidos em 1968. Para pensar o filme enquanto fonte, utilizaremos
o conceito de representação em Roger Chartier e, principalmente, as teorias de Marc
Ferro em sua obra Cinema e história juntamente a análises feitas por Francis Vanoye e
Anne Goliot-lété em Ensaio sobre a análise fílmica e J. Dudley Andrew em As
principais teorias do cinema. No que se refere ao anticristo, o pensaremos por meio de
C. G. Jung e sua obra A criança divina: uma introdução a essência da mitologia.
Utilizaremos, ainda, Mircea Eliade e obras Mefistófeles e o Andrógino e El
chamanismo y las tecnicas arcaicas del éxtasis a fim de estabelecer relações entre o
Anticristo tanto com a ideia de Androginia quanto à perspectiva do xamanismo, uma
vez que há a possibilidade de abordá-lo como um intermediário entre os mundos
sagrado e profano. Em relação ao contexto no qual a fonte fora produzida, buscaremos
ponderar sobre a questão do aborto e individualidade feminina na década de 60 nos
Estados Unidos.
Palavras - chave: Anticristo, representação, criança, cinema, religiões e religiosidades
A FIGURA DO ANTICRISTO NA DÉCADA DE 60 POR MEIO DO FILME “O
BEBÊ DE ROSEMARY”
Rafaela Arienti Barbieri - UEM
Solange Ramos de Andrade - UEM
Vanda Fortuna Serafim - UEM
No contexto estadunidense da década de sessenta, mais precisamente em 1968 é
lançado o filme O bebê de Rosemary, uma adaptação do livro de Ira Levin publicado
em 1967, sendo a primeira obra de Roman Polanski sob o patrocínio de um dos grandes
estúdios de Hollywood: a Paramount.
O filme se passa em 1966 e aborda a história de um casal, Rosemary (Mia
Farrow) e Guy Woodhouse (John Cassevetes), que se muda para um apartamento no
edifício Dakota em Nova York portador de um histórico, no mínimo, sinistro. Após a
mudança, o casal passa a ter estranhas experiências dentro do apartamento, como a
presença de vozes durante a noite, vizinhos “simpáticos demais” e uma ascensão
repentina de Guy em relação a sua vida profissional enquanto ator.
Em meio a este cenário misterioso Rosemary acaba por engravidar após uma
noite extremamente confusa em sua memória, em que chega a confundir, durante ela,
sonho com realidade, além ter espécies de alucinações. Na verdade, Rosemary
encontrava-se naquela noite, sob o efeito drogas vindas de seus vizinhos Minnie (Ruth
Gordon) e Roman Castevet (Sidney Blackmer) os quais tinham pretensões referentes ao
corpo e possibilidades de gravidez de Rosemary.
Estes vizinhos já vinham apresentando desde a chegada dos Woodhouse um
comportamento estranho, e após um tempo, seu marido também passa a agir de maneira
diferente, principalmente após a gravidez, quando tenta mascarar o sofrimento tanto
físico, quanto psicológico, de Rosemary. Mas no geral, o importante é compreender a
chave principal do filme, a qual se encontra na existência de um pacto entre Guy e os
Castevets sob as bases de uma seita, que fez de Rosemary aquela que carregou “A
Semente do diabo” e por fim deu a luz ao próprio Anticristo.
O contexto da década de sessenta nos Estados Unidos é propício para a
elaboração desse filme. É um ambiente macabro em que se encontram associações entre
satanismo e o estilo musical rock, além da formação de seitas satânicas como “A Igreja
de Satã” fundada por Anton Lavey em 1960, e a mais conhecida seita de Charles
Manson, que em 1969 seria responsabilizada pela morte de Sharon Tate, esposa de
Roman Polanski. Ela foi morta a facadas por quatro membros da seita, estando grávida
de oito meses.
No mesmo ano da morte de Sharon, tem-se também o falecimento do produtor do filme
William Castle por complicações renais. Testemunhas do hospital alegam tê-lo ouvido
dizer: “Rosemary, pelo amor de Deus, solte essa faca”. Lembrando que uma das cenas
finais do filme mostra Rosemary segurando uma faca, aproximando-se de um berço
preto e descobrindo que seu filho continua vivo, porém, não da forma que esperava.
No filme, o retrato da seita, que seria responsável pela invocação do demônio em
prol da relação sexual deste com Rosemary, é efetuado de maneira diferente, mais
discreta, não como um grupo de pessoas que dentro da sociedade se apresenta de forma
escandalosa, mas pelo contrário, da maneira mais “normal” possível, no caso do filme,
como vizinhos receptivos e prestativos, que aos poucos mostram os elementos que os
tornam sinistros. Ela é aparentemente encabeçada por Minnie e Roman, e as associações
entre o filme e a realidade tecem uma semelhança entre ela e “uma típica seita pequena
e reclusa da Califórnia”, referindo-se a de Charles Manson.
Mais tarde, em 1980, John Lennon foi morto a tiros por um fã chamado Mark
Chapman. Isso ocorreu na porta do edifício onde morava, o Dakota, local onde se passa
a trama do filme. Portanto, é possível notar que essa produção está inserida em um
ambiente já macabro e, após o seu lançamento nos Estados Unidos, ajudou a intensificar
e mantê-lo por meio dos acontecimentos, principalmente as mortes aqui colocadas,
posteriormente associadas a ele.
Além destes elementos contextuais, existe também a necessidade de
compreender o passado conturbado referente ao diretor e roteirista desse filme: Roman
Polanski. De acordo com o Artigo de Jonatnah da Silva e Lucília Romão “Procurado e
desejado: olhares de/sobre Roman Polanki”, ele nasceu em Paris em 1933, mas foi
criado na Polônia por seu pai judeu e mais tarde teria sobrevivido ao Holocausto, tendo
sua mãe morta em uma câmara de gás. (SILVA e ROMÃO, 2011, p. 203)
Mas um elemento interessante de sua vida a ser analisado é o fato de ter sido
acusado por sexo ilícito, fornecimento de drogas, sodomia e perversão com Samantha
Geimer de 13 anos, em 1977. No mesmo ano, foi condenado por relação sexual com a
menor de idade, passando 42 dias preso em uma instituição psiquiátrica. (SILVA e
ROMÃO, 2011, p. 204)
O tema relativo ao estupro também é trabalhado no filme, apesar desse
acontecimento da vida de Polanski ser posterior ao lançamento do mesmo. Rosemary,
quando tem a relação sexual com o demônio, como já coloquei anteriormente, está sob o
efeito de drogas vindas de seus vizinhos. Em sua cabeça, ela está dormindo com seu
marido, mas uma vez que não ingeriu toda a quantidade de drogas que lhe foi fornecida,
e conforme a noite passa, ela, imersa em alucinações, nota que há algo errado, não se
encontra com seu marido, está sendo observada, outra criatura estabelece contato com
seu corpo. Quando ela acorda, nota arranhões na pele e acaba por encarar a noite,
momentaneamente, como um sonho, o que não retira a sensação de ter sido estuprada.
Essa produção é vista ainda como aquela que iniciou o terror e a temática
satânica dentro do cinema, sendo que estes acontecimentos citados acima, associados ao
filme, contribuíram para torná-lo uma referência para a análise de tal assunto. Pode-se
notar a diversidade de temas nele abordados como, além das seitas satânicas, bruxaria, a
representação da figura do demônio, aborto e estupro - como já citei anteriormente mas entre eles a figura do anticristo, é um dos pontos chave da obra, que causa um
grande impacto por ser, depois do demônio, a outra grande criatura que provém de um
âmbito sagrado e faz uma intensa ligação com o mesmo.
A maneira pela qual a figura do anticristo é apreendida depende da tomada de
consciência das pessoas de uma dada época, podendo acontecer de inúmeras maneiras.
Dentro do filme ele é tratado enquanto o filho do Satã, interpretação que pode ser
atribuída à modificação da representatividade e presença desta figura, iniciada pelas
seitas formadas no decorrer da década de 60.
No momento do filme onde Rosemary descobre que seu filho ainda está vivo,
ela o encontra na sala de estar do apartamento dos Castevets. Sua face de espanto revela
a anormalidade da criança, “ela tem os olhos do pai”. Ao seu redor os integrantes da
seita comemoram a chegada do filho de Satã e profetizam suas futuras ações. O bebê
está dentro de um berço negro, e sob sua cabeça, colocado como um móbile, encontrase um crucifixo invertido.
As leituras que podem ser feitas a partir do Anticristo, neste caso, em seu estado
de infância, são várias, mas, enquanto uma manifestação do sagrado, por meio de
leituras de Mircea Eliade em obras como Sagrado e Profano, entre as que são permitidas
dentro dos limites do filme, elencamos para este trabalho uma análise da manifestação
do arquétipo da criança; a relação deste arquétipo com o conceito de androginia, e uma
abordagem do anticristo através da perspectiva do Xamanismo, juntamente com uma
discussão sobre individualidade feminina e o aborto na década de 60 nos Estados
Unidos.
Este objeto de estudo, de âmbito sagrado, juntamente com seus objetivos, só podem ser
inseridos no campo historiográfico na medida em que o movimento da Escola dos
Annales tomou força em 1929 com a publicação da revista Annales d’historie
economique et sociale por Marc Bloch e Lucien Febvre, isso em um contexto
intimamente ligado às perturbações no campo das ciências sociais e também na situação
mundial resultante do pós-guerra, 1914-1918, como apresenta François Dosse em “A
história em migalhas: dos annales a nova história”. (DOSSE, 1992, p.21,22)
Uma ampliação da gama de documentos disponíveis para o historiador,
modificações no chamado “tempo histórico”, um abandono da história política referente
exclusivamente às instituições estatais, o predomínio do método comparativo e da
história tanto socioeconômica, quanto “problema”, uma vez que há um constante
questionamento do documento, são algumas das características desta nova escola em
pleno desenvolvimento com suas três ou mais gerações, a qual quebra com
determinados aspectos da escola positivista de Langlois e Seignobos, a primeira a
desenvolver um método especifico para a história e que permitiu sua execução enquanto
disciplina, como apresentou José Carlos Reis, em A história entre a filosofia e a ciência.
(DOSSE, 1992, p 22-164)
O historiador “faz falar as coisas mudas”, como apresentou Febvre, em prol da
compreensão da sociedade que as produziu, sendo agora, o documento cinematográfico,
parte relevante de pesquisas historiográficas e, como já afirmou Marcos Napolitano em
sua obra Fontes Históricas, é crescente o número de temas, pessoas influentes, públicas
ou não, que são transportados para o mundo do cinema, televisão e música, ou seja,
“cada vez mais, tudo é dado a ver e a ouvir”, transformando este fenômeno já secular,
em um novo e vasto alvo de interesse por parte dos historiadores. (PINSKY, 2008,
p.235)
As fontes audiovisuais constituem-se na música, filmes e documentários, e são
chamadas pelos historiadores de “novas fontes primárias”, uma vez que são tidas,
erroneamente, por alguns como testemunhos quase diretos e objetivos da história,
devido ao seu alto potencial ilustrativo. Porém, Napolitano frisa a importância de
abordar estas fontes enquanto produções artísticas, dotadas de uma linguagem própria e
códigos internos que, apesar de provocarem este “efeito de realidade”, são
representações permeadas por subjetividade e intenção. (NAPOLITANO, 2008, p. 236,
237)
Da mesma maneira que deve ser feita com qualquer tipo de fonte, a fílmica
também deve ser sujeitada a críticas sobre sua origem, ou seja, quem são os produtores,
o diretor, gênero, conteúdo; qual é seu contexto de produção e também, quais seriam os
objetivos da mesma. Estas considerações em momento algum podem ser desvinculadas
dos elementos específicos que compõem o filme, que se encontram, por exemplo, na
linguagem, na existência ou não de efeitos, no próprio posicionamento da câmera e no
desenvolvimento de diálogos do filme. (NAPOLITANO, 2008, p. 237, 238)
Como coloca Napolitano, o conteúdo do filme, junto à sua linguagem e
tecnologia de registro, formam um tripé que interfere significativamente no potencial
informativo deste tipo de documento, e cada um destes elementos não deve ser estudado
separadamente, mas sim, ser encarados em seu conjunto. Todo o processo de edição de
edição do filme, tanto no que se refere à música quanto ao enquadramento da cena,
interferem no sentido cultural que o filme irá adquirir. (NAPOLITANO, 2008, p.237247)
Mas além dessa “revolução documental” desencadeada pelos Annales, houve
também o desenvolvimento da chamada História das Religiões, e uma vez que o objeto
de pesquisa aqui apresentado pertence a esse âmbito de estudo, é necessário trabalhá-lo
por meio de autores como Mircea Eliade e Jacqueline Hermann, que ajudam a
compreender a sistematização da História das religiões enquanto disciplina, assim como
as influencias que esta recebeu de outras áreas do conhecimento, o que acabou por
retirar algumas das barreiras impostas ao campo de pesquisa disponível para a análise
historiográfica, permitindo neste caso, o estudo de elementos e manifestações do
sagrado.
A História das religiões passou a atuar, com o auxílio do desenvolvimento da
psicanálise e outros ramos do conhecimento, em prol da compreensão do “profundo”,
ou, como colocaria Carl Jung, de um “inconsciente” que conduziria a um melhor
entendimento do próprio homem, e como já defendeu Marc Bloch em Apologia da
história ou o ofício do historiador, “a história é a ciência dos homens no tempo”, e no
momento que colocamos o homem em uma posição, no mínimo, privilegiada, deve-se
levar em consideração tudo que se torna real a partir dele. (ELIADE, 1999, p. 01-07)
Sendo assim, as modificações na abordagem da História das Religiões permitem
analisar, nesta proposta de pesquisa, o anticristo enquanto um intermediário entre os
mundos sagrado e o profano, e, nesse momento, os conceitos e análises de Mircea
Eliade em obras como Sagrado e profano e Mefistófeles e o Andrógino, referentes
também ao seu desenvolvimento junto a outras disciplinas, tornam-se extremamente
necessários para o entendimento da maneira pela qual a história apreende o anticristo,
que pode-se dizer, transcendentemente revelado em uma criatura humana.
Voltando seus esforços para a compreensão de uma essência das religiões, a
partir de uma análise dos fenômenos religiosos e, como coloca Hermann em Domínios
da História, diferentemente da elaboração de uma história das religiões como fizeram
alguns Etnólogos e Sociólogos, Eliade primeiramente utiliza-se de uma separação entre
os mundos que denomina por sagrado e profano, sendo o sagrado aquele que transcende
o profano e esse aquele em que vivemos. Desta maneira, o conhecimento dos elementos
e mundo sagrado é possível partindo do que ele denomina por Hierofania.
(HERMANN, 1997, p. 474-507)
O conceito de Hierofania está presente na obra Sagrado e Profano e equivale às
revelações do sagrado, as quais fundam o mundo por meio da ordenação do caos, além
de auxiliarem o ser humano a entender a razão de sua existência e a situar-se na
realidade objetiva. Elas diferem-se da realidade natural que as envolvem e a parir do
momento em que são apreendidas pelo homem, ultrapassam sua irracionalidade
atingindo um grau de realidade “por excelência”. (ELIADE, 2001, p. 25-27)
Uma Hierofania pode ser um local como uma Igreja, que indica uma sacralidade
e pode ser entendido como um ambiente que “comunica-se” com o sagrado. Ela pode
ser um objeto inanimado como uma pedra ou ainda um humano que se encontra sob um
estado que ultrapassa sua condição profana, sendo esse o caso do bebê apresentado no
filme. O bebê é uma criatura profana, porém o que permite sua caracterização enquanto
uma hierofania e, portanto, de caráter sagrado, é o fato de ser o filho de satã.
Além disso, a Psicanálise de Jung no caso desse projeto é fundamental para o
desenvolvimento de determinadas discussões, e em “Mefistófeles e o Andrógino”
Eliade coloca que os “psicólogos do profundo” passaram a voltar seus esforços para um
entendimento do dinamismo do inconsciente, tendo por base uma análise dos símbolos
provenientes do mesmo. Pode-se entender o que Jung em A criança divina: uma
introdução à essência da mitologia, chama por “arquétipo” enquanto um dos
produtos/símbolos do inconsciente e, de acordo com Eliade, os símbolos podem fazer
parte de uma “linguagem cultural, capaz de exprimir realidades humanas e valores
espirituais” (ELIADE, 1999, p.07).
Portanto, a forma pela qual o inconsciente toma forma em sua manifestação enquanto
arquétipo dá-se de várias formas, e no que se refere ao arquétipo da criança tanto Jung,
quanto Eliade, colocam-na enquanto determinante para entender os elementos ligados a
sexualidade deste, agora, objeto histórico.
Sendo assim, Carl G. Jung coloca que; “No indivíduo, os arquétipos aparecem
como manifestações involuntárias de processos inconscientes, cuja existência e sentido
só pode ser inferido.” (JUNG, 2011, p.113) Portanto, é possível afirmar que os
arquétipos surgem a partir de um inconsciente, são típicos e podem ser chamados de
“modelos”, sendo por muito componentes de mitos, ou até mesmo aparecendo nos
“produtos da fantasia psicótica”. Os arquétipos estão presentes de maneira semelhante
em diversos povos que não possuem nenhum tipo de ligação entre si, e no caso do
arquétipo da criança isso acaba por se repetir.
O arquétipo da criança pode ser primeiramente analisado por Jung, com base em
elementos do inconsciente, sendo ele, de acordo com o psicanalista, amplamente
desenvolvido na criança até a sua puberdade. Algo “pensa dentro dela”, mas ela ainda
não sabe definir o que é, ou seja, ainda não tomou consciência dele, o que influencia na
estrutura de sua existência e, de acordo com as interpretações de Jung,
conseqüentemente na sua sexualidade.
De acordo com Jung, a forte presença de um inconsciente na criança acarreta
uma indefinição de sua sexualidade. Seu sexo físico está definido, mas não sua
sexualidade no âmbito psicológico, o que admite uma análise que aborde a questão da
androginia na criança. Tanto para Eliade quanto para Jung a androginia psicológica traz
consigo um aspecto de perfeição vinculado ao, como apresentou Eliade, “mistério da
totalidade”. O homem primordial, em sua totalidade, aboliu de si os contrários e a
androginia, na medida em que abarca o feminino e o masculino no mesmo corpo, acaba
por exprimir tal estado.
Além disso, a ideia de perfeição estaria ligada também a existência de um
número considerado de divindades hermafroditas nas teogonias gregas e germânicas,
como citou Eliade, as quais espalham-se por outras religiões por meio de determinadas
adaptações que preservam no mínimo em sua origem esse “ancestral mítico andrógino”.
Portanto, sendo a criança uma criatura andrógina dentro de uma esfera psicológica,
pensá-la enquanto um ser perfeito é amplamente coerente e, como já apresentou Eliade,
“não é possível tornar-se um homem sexualmente adulto antes de conhecer a
coexistência dos sexos, a androginia”, ou ainda, esse “ser total”. (ELIADE, 1999, p.
116)
Conforme a criança cresce e tem acesso a um sistema de educação, ela toma para
si os exemplos dos adultos e gradativamente abandona seu estado de inconsciência e,
conseqüentemente de androginia, o que não retira a possibilidade dela aderir, nesse
caso, conscientemente ao ideal andrógino. Portanto, quais são as conseqüências da
“totalidade dos poderes mágico-religiosos associados aos dois sexos” (ELIADE, 1999,
p.103) serem pensados no anticristo é algo a ser analisado.
Além da perspectiva que atribui uma característica de Hierofania para o
anticristo, uma abordagem do mesmo sob a ótica do Xamanismo também é possível.
Como colocou Pedro Ferreira em O Xamanismo e as técnicas arcaicas do Êxtase: Eliade
revisitado os conceitos de xamã e xamanismo são posicionados por Eliade de maneira
teoricamente diferente, sendo o xamanismo a vertente que contém e repassa as técnicas
do êxtase, e o xamã aquele que tem o controle sobre as mesmas. (FERREIRA, 2003, p.
02)
O anticristo pode não possuir algumas características de um xamã, como a
capacidade de executar essa transição entre os mundos sagrado e profano, elemento
necessário para a identificação de um xamã, porém, a essência de sua estrutura é
essencialmente sagrada e, portanto, manifestando-se de maneira profana e humana, faz
uma intensa ligação com um dos elementos que lhe deram origem.
Agora, retornando ao contexto da década de 60 nos Estados Unidos, é possível a
construção de um paralelo que percorra a questão do aborto e individualidade feminina
dentro da fonte aqui apresentada. No decorrer do filme Rosemary deixa de ser a mulher
aparentemente frágil, meiga e inocente que fica feliz e empolgada ao engravidar
justamente quando queria, para tornar-se, principalmente após a confirmação da
gravidez, alguém extremamente persistente e que não desiste de procurar indícios que
comprovem suas desconfianças, relacionadas a todo o ambiente que se formou após ter
conhecido seus prestativos vizinhos, mesmo que mais ninguém acredite naquilo que
descobre e defende.
Não é qualquer mulher que tem a capacidade de resistir até o último mês de
gestação do filho de Satã, ela há de ter uma preparação para isso e, além de tudo tem de
ser extremamente forte, sendo também as complicações e dificuldades da gravidez, mais
uma de manifestação do arquétipo da criança, neste caso, divina.
Essas características de personalidade desconstruídas e construídas ao longo do
filme nem sempre fizeram parte do pensamento de uma grande parte da sociedade, aqui,
estadunidense, sendo a década de 60 o período onde a mulher passa a ocupar um maior
espaço e representatividade dentro de uma determinada realidade.
A questão do aborto vem juntamente com essa mudança de atitude feminina
relativa a esse período, a qual também é trabalhada no filme e, dentro do contexto de
produção dessa fonte, é de grande influência e importância para sua compreensão.
Rosemary sofre de dores físicas desde que descobre a gravidez e tem freqüentes
consultas com o médico recomendado pelos Castevets: O Dr. Saperstain, que
paulatinamente também se mostra participante da seita do filme. Mas a abordagem a ser
levantada é a relacionada à importância de em um contexto como esse a Rosemary
deixar bem claro seu posicionamento quanto ao aborto: ela tem medo que seu filho
morra e não vai abortar.
Portanto, é possível notar que o filme pode ser trabalhado por diversos caminhos
e, o que neste trabalho está proposto, compreende as dificuldades existentes para
conciliar a visão psicológica, nesse caso de Jung, com a que circunda o ambiente das
religiosidades. Isso juntamente com uma análise das representações ali propostas
vinculadas ao ambiente histórico no qual foram produzidas.
REFERÊNCIAS
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CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Rio de
Janeiro: Difel, 2002.
VANOYE, Francis. Ensaio sobre a análise fílmica. Ed. 2. Campinas – SP: Papirus
editora, 1994.
ANDREW, J. Dudley. As principais teorias do cinema: uma introdução. RJ: Zahar,
2010.
JUNG, Carl; KERÉNYI, Karl. A criança divina: uma introdução a essência da
mitologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
ELIADE, Mircea. El chamanismo y las tecnicas arcaicas del éxtasis. México: Fondo
de Cultura Economica, 1996.
ELIADE, Mircea. Mefistófeles e o Andrógino: comportamentos religiosos e valores
espirituais não-europeus. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
NAPOLITANO, Marcos. A história depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi
(org). Fontes Históricas. 2ª Ed. São Paulo: Contexto, 2008.
SILVA, Jonathan Raphael Bertassi da; ROMÃO, Lucíla Maria Sousa. Procurado e
desejado: olhares de/sobre Roman Polanski. 2011
DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à Nova história. SP: Editora
da Universidade Estadual de Campinas, 1992.
REIS, José Carlos. A história entre a filosofia e a ciência. SP: Atica, 1996.
HERMANN, Jacqueline. História das religiões e religiosidades. In CARDOSO, Ciro
Flamarion; VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História: ensaios de teoria e
metodologia. 5ª edição. RJ: Campus, 1997.
BLOCH, Marc. Apologia a história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2001.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o profano. SP: Martins Fontes, 2001.
FERREIRA, Pedro. O Xamanismo e as técnicas arcaicas do Êxtase: Eliade
revisitado. 2003
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