8 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO IURI BARBOSA GOMES JORNALISMO EM QUADRINHOS: mediações e linguagens imbricadas nas reportagens Palestina – Uma Nação Ocupada e em O Fotógrafo CUIABÁ 2010 9 IURI BARBOSA GOMES JORNALISMO EM QUADRINHOS: mediações e linguagens imbricadas nas reportagens Palestina – Uma Nação Ocupada e em O Fotógrafo Dissertação apresentada, para a obtenção do título de Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea, à Universidade Federal de Mato Grosso, na área de concentração em Estudos Interdisciplinares de Cultura, linha de pesquisa em Comunicação e Mediações Culturais. Orientador: Prof.º Dr.º Yuji Gushiken CUIABÁ 2010 10 IURI BARBOSA GOMES 11 JORNALISMO EM QUADRINHOS: mediações e linguagens imbricadas nas reportagens Palestina – Uma Nação Ocupada e em O Fotógrafo Dissertação apresentada, para a obtenção do título de Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea, à Universidade Federal de Mato Grosso, na área de concentração em Estudos Interdisciplinares de Cultura, linha de pesquisa em Comunicação e Mediações Culturais. Aprovada em 6 de abril de 2010. BANCA EXAMINADORA: ____________________________________ Prof.º Dr.º Yuji Gushiken Universidade Federal de Mato Grosso ____________________________________ Prof.º Dr.º Giovandro Marcus Ferreira Universidade Federal da Bahia ____________________________________ Prof.º Dr.º José Serafim Bertolotto Universidade Federal da Mato Grosso 12 Ficha Catalográfica G631j Gomes, Iuri Barbosa Jornalismo em quadrinhos: mediações e linguagens imbricadas nas reportagens Palestina – uma nação ocupada e em O fotógrafo. / Iuri Barbosa Gomes. Orientador Yuji Gushiken – Cuiabá, 2010. 94 p. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal de Mato Grosso, 2010. 1.Jornalismo em quadrinhos – dissertações 2. Cultura midiática 3.Linguagem jornalística 4. Reportagem – análise e crítica I. Título CDU 070.449.8(043.3) Bibliotecária Luzimar Barbosa Chaves 13 AGRADECIMENTOS Agradeço aos membros da banca, Yuji Gushiken, orientador que muito ajudou na construção deste trabalho – seja com a oriental paciência ou com as muitas conversas regadas a café –, Giovandro Marcus Ferreira (UFBA), examinador externo que se dispôs a vir da Bahia para participar da discussão e do aprimoramento desta pesquisa, José Serafim Bertolotto (ECCO-UFMT) e Icléia Rodrigues de Lima e Gomes (ECCO-UFMT), por terem aceito o convite de participar desta avaliação e pelos comentários que auxiliaram na construção final deste trabalho. Agradeço ainda aos professores que durante o mestrado, de uma forma ou de outra, ajudaram na lapidação do texto e numa mais aprofundada pesquisa bibliográfica – mesmo que indiretamente. Agradeço também aos familiares e amigos que ajudaram e foram demasiado pacientes durante todo o processo de pesquisa: Luzimar Barbosa Chaves, Kamilla Braz de Campos, Maysa Barbosa Gomes, Protásio de Morais, Danilo Fochesatto, Kenas de Figueiredo, Joelcio Fagundes, Lawrenberg Advíncula, Laura Josani, Dyolen Vieira (in memorian), Geni e Cecília, e todos aqueles nomes que não cabem nos encartes dos CDs. 14 RESUMO A pesquisa descreve a emergência do jornalismo em quadrinhos como experimentação de linguagens de onde se retiram repertórios do jornalismo e das histórias em quadrinhos. Aponta os contornos que atribuem ao JHQ um limite e um nome entre tantas outras linguagens. Essa experimentação é analisada a partir de obras seminais – Palestina, Uma Nação Ocupada, do jornalista maltês Joe Sacco, e O Fotógrafo, do trio francês Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Fréderic Lemercier e outras obras que vieram no bojo dos precursores. Na perspectiva dos estudos culturais, considera-se o JHQ como um território experimental de linguagens que se atualiza em função dos processos mediadores que lhe sustentam a existência. Palavras-chave: comunicação; jornalismo; jornalismo em quadrinhos; linguagens. 15 ABSTRACT This paper describes the emergence of comic journalism (CJ) as languages experiment where take away jornalism and comic repertoire. Points out the contours that attach a limit to comic jornalism and a name among many other languages. This experimentation is analyzed from seminal papers - Palestina, Uma Nação Ocupada, from the maltese journalist Joe Sacco, and The Photographer, from the French ones Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert and Fréderic Lemercier, and others papers that came in the midst of the precursors. In a cultural studies perspective, the Comic Jornalism is consider as a language experimental territory that updates itself according to the mediating processes which suports its existence. Keywords: communication, journalism, journalism in comics; languages 16 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Capa de Palestina, Uma Nação Ocupada 08 Figura 2: Capa de O Fotógrafo – Vol. 1 09 Figura 3: O Fotógrafo: fotografia e quadrinhos juntos 18 Figura 4: Página da adaptação de A Metamorfose para os quadrinhos 24 Figura 5: Página de Maus, de Art Spiegelman 28 Figura 6: Palestina, Uma Nação Ocupada 31 Figura 7: Palestina, Uma Nação Ocupada 31 Figura 8: Palestina, Uma Nação Ocupada 32 Figura 9: O Fotógrafo 32 Figura 10: Palestina, Uma Nação Ocupada 34 Figura 11: O Fotógrafo: metalinguagem Figura 12: Página de Palestina, Uma nação Ocupada, de Joe Sacco 37 41 Figura 13: Capa (esq.) e uma das páginas de 08: A graphic diary of the campaign trail 47 Figura 14: O Fotógrafo: costumes locais 48 Figura 15: Palestina, Uma Nação Ocupada: visão do repórter 49 Figura 16: “Animação estática” em Palestina, Uma Nação Ocupada 51 Figura 17: O Fotógrafo: o encontro de costumes e mundos diferentes 57 Figura 18: Página de Che, biografia de Che Guevara 58 Figura 19: Johnny Cash com Bob Dylan em uma página de Johnny Cash, uma biografia, feita por Reinhard Kleist 60 Figura 20: O Fotógrafo: Conflitos de costumes e crenças 71 Figura 21: Página de Crônicas Birmanesas, de Guy Delisle 74 17 SUMÁRIO Introdução 8 1. Sobre a prática jornalística 12 2. Quadrinhos: de subliteratura à nona arte 22 3. Jornalismo em Quadrinhos: linguagens imbricadas 27 4. Mediação é/e convergência 41 5. Biografias: um afluente do JHQ 58 6. Território e Campo: uma possível leitura 63 7. Metodologia: Estudos Culturais e Mediações 76 Considerações finais 83 Referências 87 18 INTRODUÇÃO A expressão jornalismo em quadrinhos é relativamente recente, e precisamente começa a ganhar notoriedade com a obra apurada e desenhada pelo jornalista maltês Joe Sacco, Palestina, Uma Nação Ocupada – lançada originalmente em janeiro de 1994 os Estados Unidos. Com uma linguagem coloquial e com um estilo que lembra o grande nome do chamado quadrinho underground, Robert Crumb, Sacco literalmente traça quadros em capítulos sobre o conflito que há tempos ocorre entre palestinos e israelenses. Em tom investigativo e longe da utópica objetividade jornalística, Sacco vai a campo humanizar histórias que Figura 1: Capa de Palestina, Uma Nação Ocupada envolvem intolerância, tortura e mortes, sempre com a política e o aspecto sociocultural como pano de fundo. As mais de 100 páginas de Palestina... trazem em capítulos um intrincado jogo de desenhos que ilustram de forma metalinguística uma apuração jornalística sobre a questão palestino-israelense. Esta pode ser “reduzida” como uma disputa entre quem pode viver e quem pode controlar o uso de uma porção de terra (SMITH, 2008: 56). As aspas não são gratuitas, uma vez que há todo um teor político e sócio-cultural por trás desse histórico conflito – e que Sacco faz questão de explicitar ao longo da obra. Inclusive há partes em que as palavras ganham mais relevância com relação às ilustrações. Para a construção dessa reportagem, Joe Sacco passou dois meses entre Jerusalém, Cisjordânia e Faixa de Gaza entre o final de 1991 e início de 1992. 19 Muita coisa aconteceu desde então – e ele mesmo reconhece isso na introdução do livro, já em 1994 –, mas a força dos relatos que ele recolheu nesse período e o pouco avanço no que diz respeito ao processo de paz na região tornam a história atual, não-datada. É o recorte de um período, uma espécie de documentário cujas personagens são donas-de-casa, feirantes, estudantes e gente que, na normalidade de quem vive no conflito, mostram nuances que muitas vezes passam despercebidas pela cobertura jornalística convencional. Desde o lançamento de Palestina, Uma Nação Ocupada, porém, outras obras de cunho jornalístico mesclando a linguagem dos quadrinhos foram lançadas, como Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte (2007) e Crônicas Birmanesas (2009), ambas escritas e desenhadas pelo desenhista canadense Guy Delisle e lançadas pela Zarabatana Books. Nestas obras, assim como a de Sacco, Delisle ilustra a realidade a partir da sua vivência: uma temporada que passou na Coreia do Norte ao acompanhar sua esposa, Nadège, que trabalha na ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) e que acaba indo parar em Rangum, então capital de Myanmar (antiga Birmânia), país dominado por uma ditadura e não reconhecido por diversos países. Uma obra que também mescla jornalismo e quadrinhos é a trilogia O Fotógrafo, do trio francês Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Fréderic Lemercier. O livro-álbumreportagem, assim como uma das obras de Delisle trata dos Médicos Sem Fronteiras, mais Figura 2: Capa de O Fotógrafo – Vol. 1 especificamente expedição que eles de fazem uma no 20 Afeganistão em 19861. A diferença desta obra para as do canadense e para as de Sacco é a riqueza estilística, já que mescla os quadrinhos ao fotojornalismo – numa época em que fotos PB de filmes 35mm davam a tônica a esta prática. O Fotógrafo foi lançado no final de 2006 pela Conrad Editora – a mesma que lançou os livrosreportagem de Sacco. A fim de um recorte acadêmico para a pesquisa, escolheram-se Palestina, Uma Nação Ocupada e O Fotógrafo, obras seminais às quais se seguiram outras que contribuíram para a constituição do que hoje se chama de jornalismo em quadrinhos. São livrosreportagem que trazem as principais características desta proposta que se insere num tempo de links e inserções jornalísticas ao vivo: um tempo em que somos bombardeados por informações e imagens em demasia. A discussão que aqui se levanta tangencia a mediação cultural nesse novo formato de apresentação de uma reportagem, um formato que, num primeiro momento, pode parecer incomum, monstruosa. Isso porque as HQs comumente são associadas à ficção, e o jornalismo ao que é tido como real – ou como próximo do real. E é entre estas suas linguagens que o jornalismo em quadrinhos se erige, é entre estes dois meios que ele dita o seu ritmo e se territorializa – sem no entanto deixar de exibir imbricadas em si características tanto das HQs como do jornalismo. O resultado é um produto estético que não se afasta do caráter profissional do fazer jornalismo, mas também não descarta o valor estilístico e potencialmente comunicativo das imagens dispostas em quadrinhos. O que se propõe a apresentar neste trabalho de pesquisa é narrar a emergência histórica do jornalismo em quadrinhos, resumido nas iniciais JHQ, numa empreitada primeiramente descritiva, considerando que o estranhamento dessa experimentação demanda constituir o objeto em seus contornos mínimos. O JHQ se insere no atual campo da comunicação e da própria pesquisa acadêmica, como ele impõe um ritmo diferenciado à notícia diante da crise dos jornais – sem no entanto ostentar uma suposta imagem de “salvação do jornalismo – e mesmo diante de um tempo em que as novas mídias imprimem um ritmo acelerado às 1 Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) são conhecidos serem de vários países e por viajarem por territórios inóspitos ou não para tratar de pessoas que não têm acesso a tratamentos médicos – básicos ou de maior complexidade. 21 informações. Não que seja uma vertente inserida no mainstream jornalístico, tendo em vista os poucos práticos que podem ser vistos, seja no Brasil ou no exterior. Mas certamente se há alguns, é porque existe um público que a consome e que a legitima como produção comunicacional – ao mesmo tempo que subsidia novas produções. Trata-se de uma prática semiológica (CIRNE, 1972: 17) que não se desvencilha da realidade e dos preceitos jornalísticos, e que é construída quase que de forma artesanal, indo de encontro com a facilidade das ferramentas disponíveis para o trabalho de se reportar uma informação. O que se pretende é pensar a prática desse novo suporte jornalístico sem, contudo, tecer verdades absolutas sobre o tema – mesmo porque não há sequer uma bibliografia específica, sobretudo por ser uma forma aberta e sujeita a agregar novos suportes comunicacionais. A própria pesquisa sobre o tema está sujeita a imbricações conceituais. O presente trabalho inicialmente apresentar a forma mais usual da prática jornalística, a questão da crise pela qual passa a profissão e os elementos de uma grande reportagem – tendo em vista que o JHQ, em grande parte, apresenta-se desta maneira. Em seguida faz-se um rápido histórico do desenvolvimento dos quadrinhos a fim de situar esta linguagem. E, enfim, a discussão se volta para a mescla de linguagens e a territorialização do jornalismo em quadrinhos, uma prática essencialmente experimental no campo da comunicação – sendo mediada pelo aspecto cultural dos nossos tempos: há uma brecha na qual o jornalismo em quadrinhos se legitima como prática jornalística, seja pelo público que o consome ou pelas produções que, às margens, ganham terreno no campo comunicacional. 22 CAPÍTULO 1: SOBRE A PRÁTICA JORNALÍSTICA As práticas jornalísticas tiveram início na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, e a simples busca pela informação (news-gathering) foi responsável pelo surgimento dos gêneros jornalísticos que hoje estão em voga (NEVEU, 2006: 2223). Estes gêneros ganharam força e características peculiares que ao longo do tempo foram se agregando a uma prática que aos poucos foi sendo institucionalizada como um campo de conhecimento. Muitas denominações para gêneros estilísticos surgiram, mas independente de como é feita a apuração ou a narrativa, tem-se sempre em mente que a “A essência do jornalismo é a informação da atualidade, ou seja, de fatos, situações e ideias que estão ocorrendo, desenrolando-se ou atuando em e sobre determinada comunidade no momento preciso de sua manifestação” (BELTRÃO, 1980: p. 14). Essa informação da atualidade exige um interesse abrangente calcado na lealdade à sociedade (MARTINS, 2005: 33). Cabe ao jornalista apurar o olhar jornalístico para perceber o que é notícia, o que causa interesse público – procurando sempre levar em conta a ética que substancia a sociedade: “(...) notícia está no curioso, não no comum; no que estimula conflitos, não no que inspira normalidade; no que é capaz de abalar pessoas, estruturas, situações, não no que apascenta ou conforma; no drama e na tragédia e não na comédia ou no divertimento” (NOBLAT, 2003: 31). A atualidade, portanto, é o combustível da atividade jornalística. Como tal, precisa ser interpretada antes de ganhar os olhos e ouvidos da sociedade (BELTRÃO, 1980: 12). Vivemos num período de comunicação de massa, em massa e para a massa, e da mercantilização da informação, e a atualidade acaba sendo uma espécie de maldição do jornalismo, pois é preciso vender a grande notícia do dia sem apelar ao sensacionalismo – seja à base da violência ou do entretenimento fugaz. É bom lembrar, porém, que tal assertiva não é dogma 23 comunicacional-jornalístico, mas sim algo próximo do que se idealiza para a profissão. Nesse cenário expandido gerado pela modernidade, o jornalismo é obrigado a acompanhar o desenvolvimento tecnológico que envolve a mídia 2 – participando, assim, da reordenação do espaço e do tempo no mundo moderno (THOMPSON, 1998: 135). Hoje as diversas tecnologias permitem que a comunicação – seja ela impressa ou audiovisual – exiba um caráter ritualístico: a aldeia global de McLuhan espraia não só informações, mas costumes e culturas – entendendo cultura como uma rede de práticas que constituem o cotidiano3. O jornalismo entra como parte integrante do emaranhado de costumes sociais, como um meio de informar e também como mais um tijolo usado no muro que edifica o simulacro da realidade vigente, que é construída socialmente. O jornalismo se porta, ainda, como a sentinela da ordem social, seja para mantê-la ou para destruí-la, um espelho da consciência crítica de uma comunidade em um determinado espaço de tempo (NOBLAT, 2003: 21). A reportagem para nós ganha especial atenção por se tratar de um gênero jornalístico que humaniza o fato noticiado (cujo caráter é atual) relacionando a um contexto maior – mesmo que no perímetro do assunto em questão. Não que a notícia diária ou mesmo os fait-divers (DEJAVANTE, 2006: 56) não sejam ilustráveis humanísticamente, mas o caráter de imediatismo deles vai contra a uma das características principais do jornalismo em quadrinhos: o trabalho em, literalmente, desenhar-se os mínimos detalhes, em se pensar na disposição das imagens e das fotos, a busca por fontes in loco tal qual um etnógrafo. Estas taferas, no corre-corre de uma redação – por mais afastada da imagem romântica retratada nos filmes4, por exemplo –, seriam difíceis de serem feitas com o esmero que algumas propostas apresentam e que mais adiante serão deslindadas. 2 Há envolvida também uma questão metalingüística atrelada a uma estratégia de marketing, como por exemplo o Jornal Nacional, que foi copiado pelo jornal da TV Record e que, para se renovar e gerar novas tendências, fez uma propaganda em torno do novo cenário e da dinâmica adotada nas matérias. 3 Isso nos remete à definição de Muniz Sodré para globalização: “um outro nome para teledistribuição mundial de pessoas e coisas” (2002: 12) 4 Cf. os filmes Todos os homens do presidente (Título Original: All the President's Men. Produção: Walter Coblenz. Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: William Goldman, baseado em livro de 24 Já com as possibilidades criativas da reportagem, cujo nascimento está ligado à cobertura da Guerra de Secessão (NEVEU, 2006: 23), a situação muda um pouco, pois além de o repórter utilizar fontes secundárias (documentos, livros, relatórios e outros) na construção do texto, há a premissa deste ser maior e com mais possibilidades de se trabalhar as linguagens – principalmente a visual, que agrega um valor significativo e estético maior ao conteúdo verbal. As ilustrações aquecem o texto: dão visualidade pronta, antes da leitura. Fotos, caricaturas, charges, anúncios enxertam-se em meio aos textos, quebram-lhes a monotonia, imprimem movimento ao texto. Eis o grande arranjo estético, a orquestração gráfica do jornalismo (KELLY, 1972: 168) No caso do jornalismo em quadrinhos, as imagens ganham especial importância, tanto no erigir como na significação da reportagem, já que as referências podem ser as mais diversas. Uma fotografia, por exemplo, serve como referência direta à realidade, algo do tipo: “Leitor, não se engane, esta história é verídica e não um mero exercício de HQ”. Assim como a mesma fotografia agraga um avalor artístico à história em questão. Os pilares da linguagem jornalística são os registros de linguagem, o processo de comunicação e os compromissos ideológicos (LAGE, 1998). A língua do país – escrita e falada – é entendida como registro. A linguagem jornalística “é basicamente constituída de palavras, expressões e regras combinatórias que são possíveis no registro coloquial e aceitas no registro formal” (LAGE, 1998: 38). O processo de comunicação diz respeito ao referencial, a alteridade do emissor, do receptor e do processo de comunicação. Para isso, no jornalismo, buscam-se enunciados que atestam evidências dos fatos noticiados – nomes, datas, horários, enfim, detalhes que enriquecem o texto e que contribuem para a verossimilhança da história em questão (LAGE, 1998: 42). Esse processo está diretamente ligado à apuração, e por isso a foto ganha uma especial relevância. Bob Woodward e Carl Bernstein. Distribuição: Warner Bros, 1976. 1 DVD (138 min), son, color. Legendado. port.) e O Jornal (Título Original: The Paper. Produção: Brian Grazer e Frederick Zollo. Direção: Ron Howard. Roteiro: David Koepp e Stephen Koepp. Distribuição: Universal Pictures / UIP, 1994. 1 DVD (88 min), son, color. Legendado. port). 25 Por fim, os compromissos ideológicos são definidos pela posição tomada pelo repórter ao escolher este ou aquele termo – visando, é claro, não afetar a comunicabilidade. A primeira palavra que vem à mente diante disso é “objetividade”. A objetividade é um preceito muito difundido/discutido. Os bons manuais de jornalismo pregam a neutralidade como ferramenta imanente à linguagem jornalística. Porém, na perspectiva levantada por este artigo, acredita-se que é possível escrever uma reportagem com um quê subjetivo sem, contudo, se afastar tanto da sobriedade exigida, pois Reproduzir o real, por intermédio da lente de aumento da imprensa, significa ser fiel aos acontecimentos, permitir que eles ganhem repercussão pública exatamente como ocorreram. Isso não exclui a possibilidade de o jornalista expressar os próprios pontos de vista (julgamento, valoração) sobre os fatos, em espaço apropriado no jornal (MELO, 2006: 38) Como se apresentará mais a frente, o olhar crítico do jornalista já traz embutido o teor idiossincrásico que irá servir de tempero à reportagem – Ernest Miller Hemingway e o próprio Joe Sacco são bons exemplos. No jornalismo em quadrinhos não se exclui o olhar do jornalista de maneira alguma, principalmente por ele estar na história narrada, ele imprime de forma metalingüística suas impressões. Destarte, por meio de desenhos e fotografias tem-se um registro, um relato imagético do que poderia ser descrito por palavras. É o discurso visual sobrepondo-se ao verbal. E nisso já se ganha em objetividade, que nessa proposta jornalística assume um sentido não da impessoalidade que muitas vezes é almejado, e sim de um olhar que respeita o leitor ao apresentar, de forma contextualizada, uma notícia com as impressões do repórter, sem, contudo, soar como um artigo de opinião. Dos três pilares descritos acima surgem as formas de se apresentar uma notícia: a escrita (grafojornalismo), os signos icônicos (cinejornalismo), a oralidade (radiojornalismo) e a voz e a imagem (telejornalismo) (BELTRÃO, 1980). O 26 jornalismo em quadrinhos, infere-se, agrega a escrita e os signos icônicos (os desenhos e a fotografia), que serão tratados adiante. O foco aqui se volta para o jornalismo impresso, tendo como referência o jornal e as revistas informativas cujas imagens dão suporte a textos. Hoje em dia, em alguns casos, tais imagens têm vida autônoma, livre das limitações semânticas – afinal, um analfabeto pode não conseguir ler uma oração, mas com certeza apreende mais facilmente a mensagem de uma fotografia. A humanidade atinge à faculdade de pensar visualmente. Retorno aos primitivos, após o imenso hiato da escrita? É p efetivo poder da informação visual. Condição do tempo? Civilização da velocidade – escreve Poyares – não suporta muito meditar. É para a frente. Jogada no ritmo 5 incessante, na balada ardente do tempo de mudança . A circunstância da velocidade junta-se à tendência intensiva dos meios de comunicação, baseados na imagem. (KELLY, 1972: 114-115) Aqui tenta-se fugir da questão referente ao significado, pois este já é resultado de uma visão mais pessoal cujo combustível interpretativo é o repertório cultural de cada leitor. Qualquer imagem é analisada como uma interpretaçãotransformação do real, como uma formação arbitrária, cultural, ideológica e perceptualmente codificada. (...) Não há uma realidade empírica na foto: ela é um símbolo um conjunto de códigos. (DUBOIS, 1994: 53) Ressalta-se que os quadrinhos na proposta aqui apresentada não funcionam como “facilitadores‟ de um entendimento maior de qualquer questão que seja – mas sim de uma forma experimental de construção jornalística. Admite-se, porém, que a fotografia6, as ilustrações, as charges, os cartoons são unidades semânticas autônomas, mas pobres em sintaxe, o que pode gerar ambigüidade (LAGE, 1998: 07). No caso das fotos, a legenda resolve esse 5 Qalter Poyares. Comunic, Soc. E Rel. Públ,. Pág. 181. “Data de 4 de março de 1880 a primeira aparição de uma fotografia em jornal. A foto chamava-se Shanty-Town (Favela) e foi impressa pelo New York Daily Graphic.” (NEIVA JR., 2006: 72) 6 27 possível ruído na comunicação – já nos quadrinhos, os balões com falas e as onomatopeias cumprem esse papel. Tendo como referência esse universo informacional, e antes de um aprofundamento específico de como se constrói o jornalismo em quadrinhos – ou pelos menos as duas obras selecionadas para este trabalho –, é bom lembrar que a união entre jornalismo e quadrinhos faz surgir uma dúvida pertinente: é real o que está ilustrado, ou é um mero devaneio artístico ilustrando um lead? Para dirimir tal incerteza, a fotografia seria o primeiro instrumento para situar a verossimilhança do fato ao leitor, para apresentar um recorte “verdadeiro”7 do que, a princípio, pode parecer um mero produto do que mescle gratuitamente a informação ao entretenimento superficial, algo para passar o tempo. Isso porque hoje em dia a informação torna-se entretenimento. Vai da notícia ao espetáculo. Passa-se da ação à contemplação, da descrição à dramatização, da apresentação à construção de uma narrativa que repõe os fatos numa ordem e numa discursividade adequadas ao efeito jornalístico (SILVA, 2003: 104). A fotografia foi o primeiro instrumento mecânico a registrar de forma analógica a realidade (LAGE, 1998: 24). No caso do jornalismo em quadrinhos, ela não necessariamente entra em cena – vide os livroreportagem de Sacco: não há fotos, mas visualiza-se claramente nos desenhos enquadramento fotográficos8. Mas isso definitivamente não exclui a fotografia do processo constitutivo do jornalismo em quadrinhos, tanto que a obra O Fotógrafo, do trio Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Fréderic Lemercier, prova ser possível a junção (Figura1). 7 As aspas não são gratuitas, pois existe uma verdade? Segundo Ivan Lima (1998), no Japão shashin (fotografia) quer dizer reflexo da realidade. Tendo a visão de uma imagem refletida num espelho, soa no mínimo estranha tal definição, porque além dos gostos e sugestões, vale lembrar que nossos olhos são facilmente enganados por ilusões de ótica – vide o uso de espelhos convexos e côncavos. 8 Diferente do livro Crônicas Birmanesas, de Guy Delisle, que ao final do livro mostra as fotos usadas para afazer algumas das ilustrações. 28 Figura 3: O Fotógrafo: fotografia e quadrinhos juntos Uma dúvida que sempre surge nesse novo suporte para a informação é até que ponto o que se lê/vê é real ou imaginário. Como já foi dito acima, a fotografia é o liame visual que situa o leitor no que é tido como real. Como salienta Dubois (1994), a fotografia é percebida como uma espécie de prova que atesta a existência daquilo que mostra. Ele completa o raciocínio citando André Bazin (1918-1958), importante crítico e teórico do cinema, um dos fundadores da revista francesa Cahiers du cinema: Esta gênese automática subverteu radicalmente a psicologia da imagem. A objetividade da fotografia confere-lhe um poder de credibilidade ausente de qualquer obra pictórica. Sejam quais foram as objeções do nosso espírito crítico, somos obrigados a crer na existência do objeto representado, literalmente re-presentado, quer dizer, tornado presente no tempo e no espaço. A fotografia se beneficia de uma transferência de realidade da coisa 9 para a sua reprodução. 9 Citação que está presente na obra “O Cinema: Ensaios”, de André Bazin. 29 Há quadrinhos adultos, seja de Milo Manara (de cunho erótico) ou mesmo de Will Eisner (criador das graphic novels10 e cujas obras têm um tom mais existencialista e humanístico), que podem ser tidos como “baseados em fatos reais” e cujo aspecto literário é acentuado. Ressalta-se que o “encontro das HQs com a literatura se dá no nível da narração pura e simples, num nível muito mais íntimo e anterior do que o das adaptações de uma mídia a outra, que viriam acontecer mais tarde” (PATATI; BRAGA, 2006: 61). A diferença, porém, com relação ao jornalismo em quadrinhos é que a história deste é construída mediante a apuração dos fatos, há uma humanização do relato de acordo com preceitos jornalísticos – respeito às fontes, senso crítico. Trata-se de um trabalho cujo diferencial se dá na concepção artística de como ele será apresentado, na experimentação11. E o campo da comunicação é aberto a novas propostas, sujeito a re-inventar usos e a aproveitar ao máximo a potencialidade de novas ferramentas. Em tempos de links ao vivo e de fotografia digital, a WebTV, por exemplo, é um sintoma de como as novas mídias podem se expandir ainda no que diz respeito à plena utilização dos avanços tecnológicos em prol da comunicação. O jornalismo em quadrinhos não surge, é bom frisar desde já, como panaceia para a crise que a contemporânea comunicação enfrenta. Nos tópicos abordados em congressos de comunicação, nacionais e internacionais, a pauta costuma girar em torno das novas mídias e dos desafios aos comunicadores diante disso. A queda da obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista no Brasil também tangencia, num âmbito mais local, essa crise. Na verdade é como se a prática jornalística sentasse numa cadeira de balanço e assistisse a tudo que freneticamente passa, e, a seu tempo, fizesse por se entender a quem se interessasse em compreender este ou aquele assunto. Justamente por não estar inserido num contexto mais amplo do jornalismo, o jornalismo em quadrinhos não pode ser visto como a salvação ou mesmo responder a qualquer demanda que seja no que diz respeito à sanar a crise no 10 “Na tradição europeia dos anos 1970, tratava-se de trabalhar textos e desenhos na direção de uma expressividade mais assumidamente pessoal” (PATATI, BRAGA, 2006: 89). 11 Como afirma Martin-Barbero (2006): a arte reside na experiência. 30 campo jornalístico. Diante da prática profissional acima citada, trata-se de uma prática que surge como experimentação comunicacional, como um produto cujos alicerces imagéticos permeiam uma abordagem diferente no que diz respeito à apresentação de uma reportagem. A civilização que repousou na leitura sente-se, de certo modo, perturbada: o cultivo das palavras, o pensamento progressivo, o desenvolvimento lógico do raciocínio são subitamente abalados pelo impacto das imagens (KELLY, 1972: 117) Inegavelmente as imagens causam certa atração. Não que a máxima “Uma imagem vale mais que mil palavras” seja imbatível, mas é algo bem próximo de nossos dias – uma época marcada pela profusão de imagens: uma bricolagem constante de fotos, desenhos, stencil, quadrinhos e o que mais tiver apelo imagético. Claro que não basta apenas a imagem estar em determinado lugar para ser assimilada. Para representar o mundo é preciso um repertório de esquemas que elaborem e interpretem a realidade. Obrigatoriamente, um modelo organiza a experiência perceptiva. O esquema fixa a instabilidade flutuante que caracteriza o mundo. Só assim as coisas são reconhecidas. As coisas representadas não explicam a imagem; esta é aquilo que a invoca. (NEIVA JR., 2006: 1213) O poder da imagem é inseparável do JHQ. Um livroreportagem quadrinizado tem seu apelo imagético, sua monstruosidade que cativa e causa estranhamento. Porém, ressalta-se aqui que o JHQ não é a salvação do jornalismo, principalmente no Brasil, onde é cediço que tal experimentação ainda não é tão praticada e/ou aceita – pelo menos no que se observa em jornais diários de grande circulação. O JHQ, como será explicado mais adiante, apresenta-se como uma experimentação no campo da comunicação. Diante de todos os preceitos jornalísticos apresentados acima, ele se insere como uma tentativa de se apresentar a notícia em um suporte diferente. Não que, diante da crise, ele seja 31 quem esteja com a luz ou a bússola que irá guiar a profissão, mas se mostra como uma opção a ser explorada. São muitos os sintomas que apontam uma falência múltipla dos órgãos jornalísticos: fim da Lei de Imprensa, desregulamentação do profissional diplomado, crescimento vertiginoso das mídias sociais, queda nas circulações de impresso mundo afora, migração de verbas publicitárias, cerceamento jurídico da liberdade de expressão, influência do Estado nos meios de comunicação... Se há um futuro incerto à espreita, um “novo jornalismo” precisa ser criado. (FORTI, 2009: 27) Se vai dar certo ou não, o próprio mercado, o público consumidor, as editoras e quem o faz irá dizer. Não é, porém, a preocupação deste trabalho identificar a longevidade do JHQ, e sim focar o lado experimental em suas linguagens imbricadas que parecem ir na contramão de um período marcado pelas mídias instantâneas. 32 CAPÍTULO 2: QUADRINHOS: DE SUBLITERATURA À NONA ARTE Ao longo dos tempos, as charges, tiras, cartoons e fotografias ganharam cada vez mais espaço nos jornais e revistas. A personagem Yellow Kid, por exemplo, tornou-se o maior atrativo do jornal New York World (CAMPOS, LOMBOGLIA, 1984: 10-11), sendo considerado uma das primeiras inserções da HQ no jornalismo. Hoje nos jornais e revistas há infográficos, tiras, charges, caricaturas, fotografias e outros elementos que se inserem no catálogo imagético da comunicação na contemporaneidade. Na extremidade de tudo isso está Sacco e uma nova proposta de se fazer jornalismo: em quadrinhos. Com isso ele prova que as histórias em quadrinhos (HQs) vão além de histórias de aventuras com sujeitos de colante (MCCLOUD, 2005: 02), ele elimina os estereótipos que afirmam ser o gibi um mero material de consumo infantil, descartável. Patati e Braga inclusive afirmam que as histórias em quadrinhos, “irmãs do cartum e do folhetim, deixaram marca indelével nas fisionomias culturais e costumes do século XX” (PATATI, BRAGA, 2006: 16). Com o passar do tempo, as HQs ganharam outros contornos e deixaram de ser consideradas subarte ou subliteratura, influenciando outros campos, inclusive o da comunicação (LUYTEN, 1984: 08), sem contudo trazem em si a pretensa intenção de mostrar a realidade. Como ressalta José Arbex no prefácio de Palestina, Uma Nação Ocupada: A linguagem do quadrinho (...) é, muito mais, uma forma de manifestação estética. (...) A linguagem do quadrinho sequer tem a pretensão à verossimilhança postulada pela arte românica ou realista do final do século XIX (ARBEX, 2004) A ligação entre quadrinhos e a imprensa existe há tempos, quando em jornais norte-americanos e europeus se publicavam caricaturas de veia humorística com alguns diálogos – que mais tarde serviriam como base aos balões, que é onde as falas das personagens aparecem. A união jornal+tiras inicia-se por volta de 1850, sendo a primeira tira cômica com balão a do Yellow Kid em 1896 (IANNONE: 1994: 33), pois antigamente as primeiras histórias em 33 quadrinhos “eram histórias completas em uma única página. Eram formatadas para ocupar uma página nos suplementos dominicais do começo do século XIX” (PATATI; BRAGA, 2006: 23). Não é de hoje, vale ressaltar, que as HQs transitam nas páginas de jornais e revistas, e também não é novidade que o próprio universo jornalístico parece andar de mãos dadas com as HQs: temos Super-Homem, que quando não a salvar o mundo é o jornalista Clark Kent, há também Peter Parker, que ganha a vida como fotógrafo free lancer e cuja identidade secreta é a do Homem-Aranha, e pode citar ainda Tin Tin, um misto de jornalista e Indiana Jones, sempre com o cachorro Milou – e que, apesar de repórter, raramente aparecia escrevendo algo (PATATI; BRAGA, 2006: 37). Hoje não há como negar a influência dos quadrinhos na indústria cultural – com ênfase, é claro, na cultura pop de massa – que abarca desde Chaplin aos irmãos Wachowski12. As comics – denominação dada às HQ nos Estados Unidos – chegaram a figurar como fator de capital de venda de jornais (LUYTEN, 1984: 10). Não é à toa que jogos, roupas e brinquedos bebem da fonte HQ para espraiar seus produtos à sociedade. A visão de um produto para crianças ou para as gerações mais novas também, de certa forma, caiu – como exemplo podemos citar Sandman, gibi voltado para adultos que explora ao extremo questões oníricas e outras tantas de cunho psicológico. Mesmo que as histórias sobre super-heróis tenham – ou pelo menos pareçam ter – se esgotado criativamente, com a segmentação da informação há uma miríade de HQs disponíveis no mercado: dos mangás surreais e românticos, como Death Note13, aos conhecidos X-Men, que se mantém até hoje apesar da história ser mais do que conhecida. Há pouco tempo as HQs eram consideradas sem importância ou vistas como algo negativo. O ditador italiano Benito Mussolini chegou a banir todas as HQs da Itália com o seguinte argumento: as revistinhas eram uma „contracultura corrosiva' que poderia prejudicar a formação dos jovens italianos. Soma-se a isso 12 Criadores da trilogia cinematográfica Matrix, obra que traz imbricadas, entre muitas referências, elementos dos mangás. 13 Thriller policial contado em mangá cuja história gira em torno de uma personagem que possui um caderno sinistro (Death Note). Quem tem o nome escrito caderno morre, e a partir daí o protagonista passa a agir como um justiceiro a fim de tornar o mundo melhor. 34 o discurso do psicólogo alemão Frederick Wertham, que chegou a lançar um livro, Seduction of the Innocent, no qual ele acusava os quadrinhos como fomentadores da delinqüência e que incitavam ao homossexualismo – isso sem levar em conta o período pós-guerra pelo qual os Estados Unidos atravessavam, tempo de um exacerbado nacionalismo (GUZMAN, 1991). Hoje Wertham leva a alcunha de “inimigo das HQs”. Com o passar do tempo, porém, as histórias em quadrinhos ganharam outros contornos e deixaram de ser consideradas produtos de baixa qualidade e passaram a ser encaradas como uma forma de arte cujas possibilidades estéticas vão além do mero entretenimento com balões14. É bom deixar claro, porém, que a já praticada associação entre quadrinhos literatura (da e qual inclusive o jornalismo em quadrinhos usufrui em parte) não começou com Peter Kuper – para citar um nome relativa que ganhou notoriedade Figura 4: Página da adaptação de A Metamorfose para os quadrinhos 14 Cf. Là Oú Vont Nos Peres, do australiano Shaun Tan. O livro teve sua primeira tiragem em 2007 pela editora Dargaud. Trata-se de desenhos “mudos” hiperrealistas que contam determinado trecho da vida de um imigrante à procura de um lugar melhor para viver. O conceito de estrangeiro ganha contornos oníricos quando o personagem vai parar num lugar completa e absurdamente diferente do de sua origem. 35 ao transpor de forma quase xilográfica um clássico da literatura, A Metamorfose, de Franz Kafka. O romance O Guarani, de Jose se Alencar, por exemplo, foi adaptado aos quadrinhos já em 1950 – e há todo um percurso de outras obras que foram roteirizadas e quadrinizadas: clássicos nacionais e internacionais, de O Alienista, de Machado de Assis (desenhado pelos irmãos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Ba) a Moby Dick e a Bíblia15. Nesse aspecto, no que diz respeito à aproximação entre quadrinhos e literatura um nome que merece atenção é o de Will Eisner, criador da chamada graphic novel16 e que influenciou muitos outros autores/desenhistas que unem literatura aos quadrinhos. Como será deslindado mais à frente, os quadrinhos tem ligação direta com o cinema. Um fato que ilustra essa aproximação data de 1920, quando Ed Wheelan criou o Minute Movies (Momento do Cinema). Nesta obra Wheelan introduz na linguagem de HQ o close up (IANNONE, 1994: 23), comum nas apresentações das personagens17: fundo escuro, rosto em evidência, uma espécie de 3x4. Em alguns casos é feito um círculo branco num fundo preto destacando apenas o rosto – ou mesmo o corpo inteiro, tal qual um feixe de luz sobre um ator de teatro ou sobre o profissional do stand up comedy. As histórias de Robert Crumb são cheias desse recurso, obviamente é utilizado de diferentes maneiras. Outro dado que remete à ligação entre cinema e quadrinhos é a própria confecção do story board, que é a planificação de um filme na linguagem HQ, mas sem os balões. Além desses detalhes, soma-se a isso a utilização do universo fantasioso dos super-heróis pela indústria cinematográfica. Flash Gordon (cujo título original é Flash Gordon conquers the universe) foi lançado pela Universal nos idos anos de 1940, e Buck Rogers, em 1941. Vale a pena reparar as naves espaciais de 15 A referência neste caso é a Gênesis, capítulo do Antigo Testamento da Bíblia ilustrado por Robert Crumb, grande nome do chamado quadrinho underground, uma importante forma de expressão contra-cultural lançada nos Estados Unidos na década de 1960. Essa “tradução” mantém seu habitual traço sujo e peculiar – com direito às suas mulheres de corpos calipígios e tudo mais. 16 Cf. nota 7. 17 Cf. a entrada de Três Homens em Conflito. Título Original: Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo. Produção: Alberto Grimaldi. Direção: Sergio Leone. Roteiro: Agenore Incrocci, Sergio Leone, Furio Scarpelli e Luciano Vincenzoni. Distribuição: United Artists, 1966. 1 DVD (161 min): son, color. Legendado. Port. 36 papelão envoltas em gelo seco (PATATI; BRAGA, 2006: 218), um cenário bem diferente dos muitos recursos gráficos que hoje estão disponíveis. X-Men, Homem Aranha, Super-Homem, Homem de Ferro, Quarteto Fantástico: a lista segue por mais um sem-número de adaptações de quadrinhos para o cinema. Assim, tem-se que cada uma destas vertentes artísticas passa a adotar as características expressivas que lhes convém, adaptando-as ou apenas transferindo as mesmas de uma linguagem para outra. São os devires se apresentando. No caso do jornalismo, a apropriação da linguagem dos quadrinhos já inclui as outras acima citadas, como a fotonovela, que tem sua origem nos anos 1940 na Itália motivada pelo sucesso do cinema e dos seus atores. Não se quer aqui traçar a extensa história dos quadrinhos, todos os percalços enfrentados ao longo do tempo para a plena viabilização expressiva dessa vertente artística – que é considerada a nona arte. Quer-se aqui inserir as HQs no campo territorial das linguagens que compõem o jornalismo em quadrinhos, situá-las num tempo em que, como afirma Norval Baitello Júnior (2007), “vivemos uma nova transcendência nas imagens da mídia, que nos querem transportar a viagens múltiplas fora de nosso tempo, espaço e corpo”. 37 CAPÍTULO 3: JORNALISMO EM QUADRINHOS: LINGUAGENS IMBRICADAS O jornalismo em quadrinhos abordado neste artigo se refere principalmente ao praticado por Joe Sacco, cais-fonte da epistemologia prática desse novo fazer jornalístico no qual o repórter é o quadrinista e uma das personagens da reportagem18. Outra obra que será usada como fonte é o livro-álbum-reportagem O Fotógrafo, do trio francês Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Fréderic Lemercier, que constrói uma narrativa que se erige pelas fotografias e com quadrinhos bem estilizados – que numa primeira leitura podem passar por toscos ou preguiçosos – e que conta a jornada do fotógrafo Didier Lefèvre ao acompanhar uma equipe dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Afeganistão. Em ambas as obras o que mais chama a atenção é a forma como estes repórteres/ilustradores/fotógrafos contam uma história de cunho jornalístico, tradicional no que diz respeito ao fazer jornalismo, mesclando no texto o lado interpretativo e literário do jornalista) e com um quê de vanguarda por apresentar uma técnica diferente de se vender uma notícia. O consumo de informações jornalísticas é influenciado pela expressão de admiração e espanto (LAGE, 1998: 18), e as imagens fazem isso a serviço da reportagem, seja no “estilo” imprensa marrom ou a serviço do trabalho de luz e sombra de um espetáculo teatral. Por isso, talvez, é que têm causado admiração e espanto trabalhos como os de Joe Sacco, que apura e desenha reportagens tendo como ferramenta a linguagem das HQ – lembrando que uma primeira aproximação entre jornalismo e desenhos já havia sido feita com as charges, prática comuns em editoriais de política e que hoje está presente em praticamente todas as publicações jornalísticas, sejam elas online ou impressas. O jornalismo em quadrinhos, aqui chamado de JHQ, tem sua possível gênese em Ângelo Agostini, um desenhista italiano radicado no Brasil que no século XIX fazia espécie de reportagens ilustradas contra a escravidãoi. Porém, foi com Joe Sacco que a prática foi “sistematizada”. É evidente que eles não são os únicos a retratarem um recorte da realidade em quadrinhos – tendo em vista que o 18 Função referencial da linguagem. Mais adiante será explicada. 38 jornalismo bebe na fonte da realidade para se erigir. Art Spiegelman se aventurara nessa arte ao lançar em 1986 o primeiro volume de Maus: a história de um sobrevivente, que conta/ilustra vida do pai do autor, um sobrevivente do holocausto. A diferença está na forma como ele apresenta cada nacionalidade: judeus aparecem como ratos, já os alemães são gatos, americanos aparecem desenhados como cachorros, poloneses e os são porcos. A história é instigante, cheia de fatos dignos de um bom filme de Hollywood – e os quadrinhos de Spiegelman Figura 5: Página de Maus, de Art Spiegelman seriam já um bom storyboard. No ano 2000 foi a vez de Will Eisner trazer ilustrado o cotidiano metrópole norte-americana em New York: The Big City. Robert Crumb também contribuiu nos anos 1960 com essa humanização dos quadrinhos, experimentando com seus 39 traços sujos um olhar mais crítico e incisivo sobre a realidade ao ilustrar por um período American Splendor, que inclusive ganhou um filme que trabalha na película a estética dos quadrinhos aliada à animação19. Tais exemplos trazem uma forte carga do que convencionalmente se chama de vida real, que também é fonte para a prática jornalística. Mas no campo específico do jornalismo aliado às HQs não há dúvida: o maltês Joe Sacco é o grande precursor ao lançar em 1994 o livroreportagem Palestina, Uma Nação Ocupada20. Formado em jornalismo pela Universidade do Oregon em 1981, Sacco vive em Nova Iorque e ganha a vida como cartunista e jornalista. A grande sacada de Sacco, porém, não foi escrever uma versão palestina de Hiroshima21. O que ele fez foi unir linguagens, transgredir o conceito da pirâmide invertida ou mesmo do tradicional e já declarado morto lead (NOBLAT, 2003: 96). Ele criou um monstro comunicacional – conceito este que será abordado adiante. Para entender e mesmo justificar essa nova forma de apresentar uma grande-reportagem parte-se do pressuposto que a missão de um jornalista é informar contando histórias e tendo em vista o bem comum. O jornalista deseja dominar as técnicas que regem a profissão para cumprir tal missão de informar a sociedade – acrescida da formação de um imaginário e da conscientização (SILVA, 2003: 104). Sacco não criou uma técnica nova no que diz respeito à apuração, e sim re-arranjou as que estão disponíveis para produzir as versões que lhe cabem produzir. A questão aqui é a maneira como essa versão será apresentada: ele pode seguir o tradicional Era uma vez... ou começar explorando o clímax da história, como fez Kafka em A Metamorfose – que aliás também ganhou uma versão em quadrinhos22. Há diferentes maneiras de se contar uma história sob a ótica jornalística – textos, infografia, tabelas, fotografia (NOBLAT, 2003: 37) e agora, quadrinhos, “a 19 ANTI-HERÓI Americano. Título original: American splendor. Produção: Ted Hope. Direção e roteiro: Robert Pulcini e Shari Springer Berman. Distribuição: Fine Line Features, 2003. 1 DVD (100 min): son., color. Legendado. Port. 20 Cf. Bibliografia. 21 Obra escrita por John Hersey e considerada por muitos com a melhor reportagem já escrita. 22 Cf. bibliografia. 40 narrativa moderna em imagens” (MARTIN-BARBERO, 2006: 201). Estes são aqui vistos como um novo suporte no qual o jornalismo pode dar um salto além no que tange à concepção construtiva da notícia, aliando conceitos estéticos. Há uma mudança, mas frisa-se que “nem toda mudança é inovação, porém toda inovação envolve mudança” (SANTOS; FILHO, 2008, p. 15). Como se afirmou acima, Joe Sacco e os demais asseclas do jornalismo em quadrinhos não inovam na apuração, mas sim na forma como apresentam a reportagem, e com isso mudam, mesmo que timidamente, uma parcela do campo comunicacional. Neste ponto é preciso passar pelo dito new journalism – novo jornalismo, ou jornalismo literário, ou ainda romance de não-ficção –, que mescla elementos de ficção com a objetividade jornalística. O norte-americano Truman Capote é tido como o pai dessa vertente surgida por volta dos anos 1950 nos Estados Unidos. O new journalism na verdade extrapola os limites do jornal impresso, dando luz ao livroreportagem – veículo mais comum para esse novo gênero. Hiroshima é um exemplo, Chatô, o Rei do Brasil23 é outro, e Na Pior em Paris e Londres24 também não foge desse caráter literário – tanto que estampa na capa os dizeres “jornalismo literário”. E aqui é necessário abrir um parêntese: há quem diga que não existe o gênero literário ou o político: jornalismo é jornalismo. Entende-se aqui jornalismo literário como aquele cuja narrativa é mais bem trabalhada, atenta à detalhes que enriquecem o texto. José Marques de Melo o entende como jornalismo diversional25. As obras de cunho jornalístico de Sacco nada mais são do que livrosreportagem ilustrados, ou melhor, quadrinizados. A diferença está justamente na convergência da comunicação com a arte e algumas de suas vertentes – no caso os quadrinhos, o cinema e a literatura. Essa é a mudança: uma nova perspectiva no que diz respeito à apresentação de uma notícia, o que suscita uma 23 MORAIS, Fernando. Chatô, o rei do Brasil, a vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 24 ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 25 Cf. a entrevista de José Marques de Melo em: < http://www.anj.org.br/sala-deimprensa/entrevistas/leia-a-seguir-a-entrevista-com-o-jornalista-jose-marques-de-melo-falandosobre-seus-50-anos-de-profissao/ >. Acessado em 28 de dezembro de 2009. 41 estética e um ritmo diferentes – tanto no que diz respeito à construção do “texto” como na leitura. Numa reportagem quadrinizada são os quadrinhos que arquitetam a narrativa e que, na seqüência das imagens, guiam a leitura da notícia. Trata-se de um gênero híbrido na composição da linguagem na qual o cinema e a televisão emprestam os enquadramentos: No plano do enquadramento, a estória em quadrinho é claramente devedora ao cinema de todas as suas possibilidades e de todos os seus vezos. Mas, já no plano da montagem, o discurso resultaria mais complexo se se considerasse mais a fundo o aspecto, já assinalado, de que a estória em quadrinhos, contrariamente ao cinema, realiza um continuum graças à justaposição de elementos estáticos (ECO, 1990: 151) A aproximação do personagem, um ângulo incomum ou mesmo uma panorâmica do cenário para depois cair no detalhe de um brinco, por exemplo, são alguns dos recursos usados nos quadrinhos Sacco de ou nas fotografias de Didier Lefèvre. Seguem alguns exemplos de como as imagens são dispostas a partir dessa visão televisivocinematográfica. Figura 6 - Palestina, Uma Nação Ocupada A Figura 4 iliustra um exemplo de plano geral no Figura 7 - Palestina, Uma Nação Ocupada 42 Figura 8 - Palestina, Uma Nação Ocupada qual a imagem situa a personagem num cenário geral, dá uma ideia do ambiente. É uma visão de cima, como se estivesse o observador em uma grua. E como exemplo de plano médio tem-se a imagem abaixo, na Figura 5. Percebe-se que o foco é a personagem, mostrando-a de corpo inteiro. Outro tipo de enquadramento usado na televisão e no cinema é o chamado “plano americano”, no qual há uma aproximação da personagem, que na imagem Figura 9 – O Fotógrafo 43 é cortada no meio da perna ou da cintura para cima – mais comum, como Figura 8, do livro de Sacco. Há ainda o primeiro plano, no qual se mostra mais o rosto e o plano corte (ou insert), que dá ênfase a um detalhe. Na Figura 9, retirada de O Fotógrafo, é possível observar bem estes dois tipos enquadramento, principalmente por se tratar de fotos – neste caso, o brinco, que tem um significado específico no contexto retratado pelo fotógrafo. Como se nota, a questão imagética dá a tônica nesse tipo de proposta jornalística. Há todo um cuidado com a fotografia e uma preocupação em se conseguir uma ordem atraente de disposição das imagens. Soma-se a isso um esmero com o texto, e então tem-se presente a literatura no auxílio das construções gramaticais, como o uso das metáforas, que inclusive se apoiam nos desenhos e fotos para ganhar mais expressividade e humor. Se prestarmos atenção, os livrosreportagem que aqui se utiliza como fonte de pesquisa – Palestina, Uma Nação Ocupada e O Fotógrafo – têm ainda um quê das características dos documentários: poéticos, expositivos, observativos, participativos, reflexivos e performáticos (NICHOLS, 2005). No caso da obra de Sacco, abarcam-se três dessas classificações de documentário – observativo, participativo e poético, sendo esta hábil em possibilitar formas alternativas de conhecimento para transferir informações diretamente, dar prosseguimento a um argumento ou ponto de vista específico ou apresentar proposições sobre problemas que necessitam solução (NICHOLS, 2005: 138). De certa forma, Sacco não deixa de criar uma prática social, uma nova forma de se apresentar a subjetividade por meio de uma linguagem jornalística – estando aqui a ética exigida pela profissão. Guardadas as devidas proporções, estamos diante de uma obra de arte que apreende a realidade (FURTADO, 1986: 139), tal qual Augsburgo João Maurício (1802-1858), Aimé-Adriano Taunay (18031828) e Hércules Florence (1804-1879) – artistas contratados pelo Barão G. H. von Langsdorff para retratarem expedições que o barão pelo Brasil. 44 Figura 10 - Palestina, Uma Nação Ocupada Talvez os traços de Sacco ou as fotos de Lefèvre não sejam considerados 45 “arabescos de evocação histórica” (COSTA, DIENER, STRAUSS, 1995: 14) como as ilustrações dos artistas-viajantes acima citados, mas certamente funcionam como um registro dos costumes locais onde cada um, à sua maneira, busca conseguir subsídios para a reportagem em formato HQ. Tendo em vista alguns mandamentos do que se conhece como observação participante26, é possível verificar nas duas obras aqui utilizadas como exemplo a interação e a diferença entre o repórter e suas fontes (pesquisador e grupo pesquisado). A Figura 8 ilustra essa situação no caso de Palestina..., e no caso de O Fotógrafo, Figura 12 (pág. 49). Há um contato direto entre eles e isso exige inclusive uma certa maleabilidade do repórter para conseguir a informação desejada – como no caso em que Sacco pede ajuda a dois garotos palestinos e eles o enganam (pág. 23 e 24). Além das diferenças entre eles, faz-se nesta situação, de novo, um retrato do que é local, de como um estrangeiro é visto e tratado. Ele, o repórter, é a alteridade do que quer noticiar. Não há uma cobrança por parte das fontes do que será feito daqueles relatos. No caso de Lefèvre é um pouco diferente, já que ele foi contratado para cobrir fotograficamente a missão da MSF, ou seja: suas imagens têm um fim (ainda que não exigido pelos afegãos atendidos, mas sim da ONG). Mas existe sim uma preocupação como relato em si, pois, como supostos etnógrafos, Sacco e Lefèvre não são meros observadores do que retratam, mas participantes e informantes do processo – mesmo que a participação não seja tão determinante, tendo em vista justamente o caráter jornalístico. Tanto Sacco como Lefèvre participam das histórias descritas na HQ, ambos se inserem como um personagem do que está sendo descrito a nanquim e a películas em branco e preto. Uma das questões que surge na confecção da reportagem em quadrinhos é, justamente por essa observação participativa, o caráter subjetivo (atrelado ao caráter metalingüístico da obra), que se evidencia desde o traço do jornalista-ilustrador, na escolha das fotos, e passa pela participação deste no enredo apurado. É a função emotiva da linguagem: 26 In: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-69092007000100012&script=sci_arttext > Acessado em 03 de dezembro de 2009. 46 A mensagem organiza-se, centralmente, na posição do emissor, marcado pelo traço indicial do pronome em 1ª pessoa, ao mesmo tempo que envia seus sentires, lembranças, expressões (...) A função emotiva implica, sempre, uma marca subjetiva de quem fala, no modo como fala. (CHALHUB, 2002: 17-18) Essa marca subjetiva pode ser notada nas ilustrações, nas fotografias selecionadas – ou descartadas – e pelo recheio dos balões. Tais características afastam o trabalho da utópica objetividade exigida pelo “jornalismo convencional”. “É isso que significa objetivação: algo que é feito por sua própria importância” (SENNETT, 2006: 99). No caso do JHQ, não importa o que Sacco ou Lefèvre sentiam quando apuraram suas respectivas reportagens – malgrado eles deixarem claro seus sentimentos nos quadrinhos e fotografias. Por isso optamos por abordar a interpretação como força motriz na construção dos textos-quadrinhos – diferente, é bom lembrar, de opinião. Conexões entre fatos presentes e passados são feitas na interpretação da realidade descrita, e o olhar crítico do jornalista faz a diferença. No caso das obras de Sacco e do trio francês, por mais pessoal que pareçam seus quadrinhos, o leitor percebe que não há uma visão hermética do fato, e sim a forma como eles – literalmente – é ilustrado nos livros. Não se tenta em nenhum momento esconder o olhar do repórter ou a sua a participação e envolvimento, pois é justamente esta a característica reflexiva presente nos documentários: o narrador torna-se parte integrante da paisagem: neste caso, uma metalinguagem ilustrada que se altera no decorrer da narrativa numa espécie de catarse reflexiva sobre sua própria condição. Há exatidão no que está ilustrado, porém os traços ou mesmo as fotografias que possam ser usadas como elementos significativos e o texto e a interpretação do jornalista não suscitam uma verdade, e sim uma versão. Parafraseando Nelson Rodrigues: não existe a vida como ela é, e sim como eu a vejo, como Sacco ou Lefèvre a veem e como qualquer outra pessoa a vê. O teor idiossincrásico é imanente à construção da reportagem a ser retratada em quadrinhos: mais uma versão da realidade, não a verdade pura e absoluta. Esta questão esbarra, além da objetividade, na técnica adotada pelo 47 repórter. E como diz Juremir Machado da Silva (2003): o jornalista, na relação existente entre objetividade e subjetividade, “tem o seu imaginário formatado pela técnica jornalística”. Ele não foge dos preceitos da profissão ou simplesmente cria figuras ou fotografa cenários artificiais. Tem-se aqui que o caráter reflexivo vem ao encontro da função fática da linguagem: pensar a mensagem no e para o canal – no caso, o livroreportagem ilustrado27. Como já foi mencionado acima, portanto, uma forte característica dessa prática é a função metalingüística da linguagem: “mensagem de nível metalingüístico implica que a seleção operada no código combine elementos que retornem ao próprio código” (CHALHUB, 2002: 49). Tanto em Palestina... como em O Fotógrafo os narradores aparecem falando sobre o livroreportagem no Figura 11 – O Fotógrafo: metalinguagem próprio livroreportagem: Sacco, por exemplo, se desenhou imaginando que uma cena daria uma boa foto, e Lefèvre em vários momentos é desenhado fotografando e na seqüência é mostrada a imagem clicada. O próprio fazer da obra é evidenciado. Em O Fotógrafo, por exemplo, as imagens são dispostas como em negativos, e algumas são marcadas com um xis vermelho. Ou seja: o jornalismo em quadrinhos se constrói não aleatoriamente: as funções referencial, poética, fática e metalingüística alicerçam a construção imagética livroreportagem, dando ao produto um trato artístico peculiar. 27 Cf. página 121 de Palestina... para verificar o teor fático da linguagem usada por Sacco. do 48 Diante desse quadro de linguagens, qual a diferença de Palestina, uma nação ocupada para Rota 66, de Caco Barcelos, por exemplo? O experimentalismo. Barcelos usa o texto verbal, Joe Sacco e o trio francês exploram o verbal com o rico auxílio de imagens. Lembrando que eles seguem o que dita a prática jornalística na apuração – entrevistas, o olhar crítico do repórter, o cuidado com o texto –, mas constroem de formas distintas a reportagem. A junção de linguagens, porém, não se afasta dos registros de linguagem, do processo de comunicação e dos compromissos ideológicos descritos por Nilson Lage (1998). No que se refere aos registros de linguagem, vale citar, os quadrinhos se apropriam das gírias, dos cacoetes e do coloquialismo que inclusive aproxima a reportagem do cidadão comum – mesmo que não seja esse o objetivo principal de um relato como o do JHQ. Neste jogo entre função referencial (a objetividade do jornalismo, que no jornalismo ganha um caráter mais de testemunho por meio das fotografias, uma vez que estas implicam um legitimidade, e não objetividade) e a função poética (a subjetividade do repórter), a imagem se vinga da linguagem verbal e re-assume seu posto de comunicação primária – afinal, aprendemos primeiro a ler figuras, e as próprias pinturas rupestres já evidenciam o caráter sedutor da linguagem visual. McCloud (2005) cita como exemplo o fato de os nossos primeiros livros terem mais imagens que palavras. Na sociedade contemporânea as imagens criam a necessidade de se relacionarem com o homem. Houve um período em que os livros de verdade eram aqueles calhamaços de palavras, parágrafos e sentido(s), sem figuras. Essa ideia, porém, foi diluída com a TV e a Internet, canais que prescindem da imagem. Com o JHQ, as imagens ganham nova relevância. Parafraseando a propaganda de refrigerante: imagem é tudo. A imagem mediática está presente desde o berço até o túmulo, ditando as intenções de produtores anônimos ou ocultos: no despertar pedagógico da criança, nas escolhas econômicas e profissionais do adolescente, nas escolhas tipológicas (a aparência) de cada pessoa, até nos usos e costumes públicos ou privados, às vezes como „informação‟, às vezes velando a ideologia de uma „propaganda‟, e noutras escondendo-se atrás de uma „publicidade‟ sedutora... A importância da „manipulação 49 icônica‟ (relativa à (DURAND, 1998: 33) imagem) todavia não inquieta As discussões que hoje permeiam a prática jornalística passam à margem das formas como ela é pensada. É como se o jornalismo já estivesse tão presente no dia-a-dia que passou a precisar desta alteridade (a HQ) para exibir alguma novidade em sua forma de ser concebido. Teorizar uma prática jornalística suscita discutir a epistemologia da profissão com um olhar atento à linguagem em si – e entendemos aqui o termo linguagem como representação do mundo, um simulacro da realidade (FURTADO, 1986: 132). Em Palestina... há referências que o próprio Sacco faz sobre a sua atuação como jornalista28, suscitando uma união entre a art nouveau – desenhos estilizados, composições minuciosas e senso crítico apurado – e o fazer jornalístico – com todas as suas características e exigências na construção das realidades. A convergência das comunicações com as artes sugere uma troca cultural, uma re-significação do próprio fazer jornalismo. Sacco inclusive já havia dado indícios dessa re-significação em histórias que misturavam sátira autobiográfica com uma espécie de diário de bordo onde se encontrava já relatos de guerra – tema que norteou posteriormente a junção do jornalismo com os quadrinhos na carreira dele. Tais relatos foram publicados originalmente na revista Yahoo, produzida pelo próprio Sacco entre 1988 e 199229. Não se trata tão-somente um artefato mercantil kitsch, como a princípio é fácil supor: A experiência estética no interior da cultura de massa exige o pensar as relações entre as artes e as novas linguagens advindas das novas tecnologias, considerando os sujeitos e objetos presentes no processo de comunicação artística (FURTADO, 1986: 131) A experiência do jornalismo em quadrinhos, porém, não advém necessariamente das novas tecnologias, das novas linguagens surgidas via 28 SACCO, Op. cit., p. 121-122. Lançado originalmente em 2003, depois do sucesso e reconhecimento de Palestina, Uma Nação Ocupada, O Derrotista (lançado três anos depois no Brasil) reúne as histórias publicadas primeiramente na revista Yahoo. Trata-se de um punhado de histórias sobre guerra e sobre o período em que Sacco acompanhou uma banda de rock. Destaque para o relato da mãe dele durante a Segunda Guerra, em Malta. 29 50 internet e afins. A experiência proposta pela iniciativa de Joe Sacco e companhia passa pela questão da leitura, de um tempo maior para a fruição das imagens, de uma nova forma ler uma reportagem. Não que os livrosreportagem disponíveis no mercado sejam produtos de massa amplamente consumidos, discutidos em mesas de bar ou em salas acadêmicas à exaustão. 51 CAPÍTULO 4: MEDIAÇÃO É/E CONVERGÊNCIA Figura 12: Página de Palestina, Uma nação Ocupada, de Joe Sacco 52 Os avanços das tecnologias possibilitaram o fenômeno conhecido como globalização da comunicação, no qual grande parte da população mundial está ligada a cabo a tudo que acaba de acontecer. A simultaneidade é a nova ordem mundial no que diz respeito à veiculação de informações: das Torres Gêmeas caindo em rede mundial, passando pela guerra no Iraque em drops diários e chegando ao playback ao vivo executado na abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Tudo nos remete aos progressos pelos quais as tecnologias da informação passaram ao longo do tempo – em especial no século XX. A aldeia global se apequena ainda mais devido à liquefação das fronteiras físicas: o mundo ao alcance de um clique ou de uma zapeada na TV, estando a fruição de bens simbólicos inevitavelmente sujeita a tal avanço. A revolução multimídia que marca o que alguns estudiosos chamam de pós-modernidade altera os processos comunicacionais e sociais (SILVA, 2003: 95). Gianni Vattimo (1989) defende a ideia de que vivemos numa sociedade pós-moderna, e um dos sinais disso é o fato de estarmos "mergulhados" na era da comunicação. Uma comunicação que, dentro de uma linha cronológica, localiza-se na idade do instantâneo e do imediatismo (VENTURELLI, 2004), num período cujo signo-mor é o excesso de informações e de imagens. E tudo isso é acompanhado de perto pelos novos paradigmas culturais. É diante desse cenário que práticas comunicacionais experimentais surgem como propostas – ou estratégias – de se ter um novo suporte para a informação – leia-se: notícia. É o caso do jornalismo em quadrinhos, JHQ, acima deslindado. Em plena era dos satélites e do rizomático e plurilinear hipertexto na Web, os livrosreportagem desse modelo de apresentação de um fato jornalístico sugerem uma pausa na fruição das imagens – como não se deter, por exemplo, nas fotografias que compõe O Fotógrafo? A convergência da comunicação – em especial a massiva: fotografia, cinema, televisão, publicidade, jornais, revistas, quadrinhos, livros de bolso, etc – com as artes é um fato observado há algum tempo, como já foi mencionado anteriormente. Unir arte e comunicação pode ser identificado como uma característica do tempo atual, um período de devires em que o que aparenta vir a ser não 53 necessariamente chega a se efetuar. Vivemos numa época em que são percebidas “mudanças na esfera cultural mais ampla, envolvendo os modos de produção, consumo e circulação de bens simbólicos” (FEATHERSTONE, 1995: 30). Como a comunicação se insere no campo da cultura – aqui entendida como um grupo organizado de padrões, crenças, leis naturais e convenções, entre outras coisas, que não é estático e está sujeito a um contínuo processo de transformação (CALDAS, 1986: 14) –, entende-se o JHQ como fruto desse tempo em que as fronteiras das linguagens se entrelaçam, criam intersecções que geram novos espaços, novos territórios. As composições minuciosas e intrincadas elaboradas por Joe Sacco sugerem um emaranhado de traços, como um contínuo tecido ilustrado, uma história que em si mesma cria um território próprio, uma vez que mescla as linguagens acima citadas na construção jornalística de uma realidade30. A questão de se fazer esse tipo de iniciativa jornalística talvez passe, nos dias de hoje, pela crise que os jornais impressos enfrentam, como a baixa vendagem, o formato ultrapassado e a concorrência da ágil e interativa31 internet. Mas aqui se deixa claro que não é este o mote que foi usado para tal experimentação, e sim um pano de fundo, tendo em vista que o lançamento de Palestina, Uma Nação Ocupada data do período de uma maior popularização da internet, por exemplo. Sobre esse aspecto é necessário abrir um parêntese: há uma crise de identidade e de receita no atual jornalismo (BELO, 2006: 14). A crise existe pelo fato que a mídia jornalística impressa muitas vezes insistir numa competição contra a celeridade da televisão, o alcance do rádio ou os links da Web. É ignorar a prescrição sugerida pela nova era: velocidade a favor dos furos de reportagem. Em hipótese a solução – ou a direção a se tomar – seja o diferencial pelo 30 Partindo do pressuposto que não existe A vida como ela é, mas sim A vida como eu a vejo – no caso, uma realidade – não estanque – que necessariamente passa pelo caleidoscópio cultural e idiossincrático do repórter. A objetividade, uma das principais premissas do jornalismo, é entendida aqui como algo inalcançável. Procura-se não ser objetivo no sentido romântico no que tange ao jornalismo, mas sim manter considerável sobriedade diante de um fato a ser noticiado. 31 Conforme explica Marco Silva (2003), entende-se interatividade como uma relação na qual se “associa emissão e recepção como pólos antagônicos e complementares na co-criação da comunicação”. Disponível em < http://www.saladeaulainterativa.pro.br/leia_comunicacao.htm >. Acessado em 19 de janeiro de 2009. 54 conteúdo mais denso, mais aprofundado dos assuntos em pauta. Ou se não é esta a solução, ao menos pode ser assim entendida como uma possível estratégia, não para a salvação de publicações e do próprio jornalismo impresso, mas como prática mesmo. Fundamentalmente, porém, a crise que aflige a imprensa não interessa tanto ao fazer do jornalismo em quadrinhos, pois esta é uma prática que surge como uma forma diferente de se apresentar um fato ao leitor. Não se trata de uma salvação para os jornais, mas sim de experimentar linguagens no campo da comunicação, explorar aspectos estéticos para além de meros rebuscamentos estilísticos. Se o progresso das ideias nasce quase sempre da descoberta de relações impensadas, de ligações inauditas ou mesmo de redes nunca antes imaginadas (CALABRESE, 1987: 21), o JHQ dá um passo nessa direção. Não que seja ignorada a máxima da velocidade a favor da notícia, mas neste caso o tempo ganha outro sentido e não vem, a priori, acompanhado pelo imperativo de furo de reportagem. Assim, o jornalismo, que tem toda uma tradição, ganha outros contornos. (...) as tradições são como áreas de construção, sempre sendo construídas e reconstruídas, quer os indivíduos e os grupos que fazem parte destas tradições se deem ou não conta disto (BURKE, 2003: 102). É bom frisar que o JHQ não necessariamente se apresenta como o progresso da grande reportagem ou a panaceia do jornalismo impresso – principalmente no Brasil –, mas sim como uma experimentação prática até então não usada. O diferencial do JHQ é a sugestão – ou proposta – de uma pausa na fruição das imagens que, em outras mídias, em especial as eletrônicas, são freneticamente passadas para as pessoas. É uma questão de tempo, de absorção do que se lê e contempla: cria-se uma necessidade de tempo para se deslindar os traços, as fotografias e todas as entrelinhas ilustradas da reportagem em questão. A ideia que se tem é que não há como, na pós-modernidade, parar por completo para uma nítida observação – e caso consiga parar, perdem-se outras tantas cores, outros tantos sons. O olhar parece sempre míope, pois não 55 consegue acompanhar a miríade de matizes e formas e movimentos que compõem o cenário atual. Somos leitores moventes, e o JHQ parece exigir, no formato ao qual se apresenta, um retorno ao leitor contemplativo32. Não se trata de uma visão romântica da leitura, mas sim uma experiência estética de um produto jornalístico que sugere uma forma específica de leitura – mais tempo para a obnubilação –, uma junção de linguagens que cria um formato próprio – mas não estanque. “Um novo comunicante deverá trazer novos conceitos de forma, de relacionamento, de leitura, específicos e que informam a partir de sua própria linguagem, independente de qualquer representação verbal” (SÁ, 1975: 31). No caso da obra de Joe Sacco, é possível observar cada linguagem ao longo desse traçar contínuo da grande reportagem. Tem-se, assim, um contemporâneo “monstro comunicacional” – conceito que vale também para O Fotógrafo. E para chegar a este conceito, anteriormente mencionado, parte-se de uma captura intelectual de Foucault: O monstro é que é a figura essencial, a figura em torno da qual as instâncias de poder e os campos de saber se inquietam e se organizam. (...) Enfim, um misto de formas: quem não tem braços nem pernas, como uma cobra, é um monstro. Transgressão, por conseguinte, dos limites naturais, transgressão das classificações, transgressão do quadro, transgressão da lei como quadro: é disso de fato que se trata, na monstruosidade (FOUCAULT, 2001: 7979)” O jornalismo em quadrinhos, por ser essencialmente um misto de linguagens, transgride as linguagens que o caracterizam: transita entre duas concepções tidas como tradicionais: a do jornalismo – uma prática profissional que vigia a ordem social e faz as vezes de consciência crítica de uma comunidade (NOBLAT, 2003) –, e a dos quadrinhos – arte seqüencial (EISNER, 1999). De uma maneira geral, cada época exibe o seu catálogo de aberrações: na Idade Média, o homem bestial (misto de homem com animal), no Renascimento, os 32 Estas são definições de Lucia Santaella, que explica a distinção de três tipos de leitores – levando em cota o ciberespaço: o movente, o contemplativo e o imersivo. Cf. bibliografia. 56 irmãos siameses, e na Idade Clássica, os hermafroditas (BELUCHE, 2008). O monstro era tido como uma violação das leis naturais (FOUCAULT, 2001: 69). E o que se pode entender do JHQ senão como uma violação do que comumente se entende de jornalismo e mesmo de quadrinhos? O termo monstro não possui uma origem muito clara. O que se sabe com certeza é que sua origem é latina, podendo vir tanto de monstra que significa „mostrar, apresentar‟, quanto de monstrum, com significado de „aquele que revela, aquele que adverte‟, ou mesmo de monstrare que possui a ideia de „ensinar um comportamento, prescrever a via a seguir‟” (LEITE JÚNIOR, 2008) Tendo clara a definição de jornalismo e de quadrinhos, e partindo do conceito de monstruosidade, entende-se aqui o JHQ como uma prática para a qual se aponta o dedo, que causa estranhamento. Lembremos do emaranhado de traços de Joe Sacco em Palestina, Uma Nação Ocupada. A monstruosidade reside justamente na imbricação de elementos do cinema, do fotojornalismo e do documentário, e que, a partir disso, muda a intensidade do que concebemos como jornalismo e quadrinhos – mas sem sair do perímetro jornalístico. É jornalismo, mas também HQ. É HQ, mas também jornalismo. “O que torna o material cada vez mais rico é aquilo que faz com que heterogêneos mantenham-se juntos sem deixar de ser heterogêneos; o que assim os mantém, são osciladores, sintetizadores intercalares de duas cabeças pelo menos; analisadores de intervalos...” (DELEUZE, GUATTARI, 2005: 139); A classificação ao qual essa prática escapa é a que define de forma limítrofe essas duas principais linguagens na qual o JHQ se erige: tal qual as gêmeas Daisy e Violet, de Freaks33, não andam separadas nessa proposta lingüístico-comunicacional. Jornalismo e quadrinhos caminham juntos, colados, 33 Filme dirigido por Tod Browning e lançado em 1932, Freaks é um filme sobre aberrações com aberrações. O que o torna um clássico-cult é o fato de abordar um tema que ainda hoje causa certa repulsa. O que dizer na época em que saiu, quando não se tinha muitas informações sobre estes indivíduos? Trata-se de um compêndio de imagens que chocam, de personagens monstruosos em suas singularidades corpóreas – e que se aceitam como tais, num aparente adeus ao corpo. 57 mas conscientes cada um de sua função e do seu papel. Um não se deixa levar pelo outro: o jornalismo não vira ficção, tampouco os quadrinhos viram tãosomente uma notícia ilustrada. Tem-se aí uma linguagem monstruosa ciente de sua feição e de sua perturbação no campo jornalístico e dos próprios quadrinhos – afinal, é quadrinhos, mas não tem aquele ar de mero entretenimento pop e combina de forma harmoniosa semelhanças e diferenças entre as linguagens utilizadas na construção da obra (BURKE, 2003: 30). Figura 13 – Capa (esq.) e uma das páginas de 08: A graphic diary of the campaign trail O JHQ, com essas características de produto investigativo-estético, documentário-poético, apresenta-se, portanto, como um trabalho jornalístico lento, com ritmo próprio. Ele vai quase que na contramão: na era do link e do mundo ao alcance de um clique, trata-se de uma proposta que exige mais tempo para ser confeccionada e para ser fruída. Mas, apesar de ser calcada em papel e nanquim e fotografia, o JHQ também passeia pela internet. Um recente exemplo é a graphic 58 novel feita por Dan Goldman, 08: A Graphic Diary of the Campaign Trail34 (Figura 11). A obra de Goldman é uma não-ficção que aborda a corrida presidencial nos Estados Unidos. Com desenhos estilizados que parecem imagens tiradas da televisão, este é um exemplo recente dessa proposta – já migrando para uma outra mídia, a internet, malgrado ter sido feita como que para um suporte “tradicional” (o papel). E a partir deste exemplo pode-se inferir que estas obras, desde o seu início, trazem sempre uma carga crítica sociocultural muito forte – seja pelas questões do Oriente Médio seja por assuntos políticos. Figura 14 – O Fotógrafo: costumes locais 34 Cf. < http://dangoldman.net/08-Excerpt.pdf > Acessado em 02 de abril de 2009. 59 Analisando o teor idiossincrásico das obras, identifica-se, porém, um quê de “narração primitiva” na qual é produzida uma ritualização da ação: A ritualização da ação encontra-se, assim, ligada não só a certas “técnicas”, mas também a certos arquétipos que, como assinala Roman Gubern, remetem “ao conjunto de nossas experiências cotidianas” e que nascem “não no céu, mas sim a partir dos sofrimentos e deleites cotidianos” (MARTIN-BARBERO, 2006: 195 Há inegavelmente um olhar firme sobre o cotidiano, sobre as histórias comuns das quais o jornalismo se utiliza para a chamada humanização do relato. E isso tanto em obras como Palestina, Uma Nação Ocupada e como em O Fotógrafo, uma vez que elas criam a narrativa através da fala dos entrevistados e do próprio repórter dentro de um contexto sociocultural. A visão do repórter em nenhum momento é deixada de lado, pois ele está inserido na história, e tal qual um fotógrafo, registra o fato, mas não tem o poder de mudá-lo, revertê-lo ou criar qualquer tipo de perturbação. No caso dos dois livros aqui usados como fonte de estudo, os repórteres não pretendem salvar ninguém e nem escondem que sentem medo, raiva. Eles são os outros, os estranhos. Como diria Barbero: “Todo sujeito está sujeito a outro e é ao mesmo tempo sujeito para alguém. É a dimensão viva da sociabilidade atravessando e sustentando a dimensão institucional, a do „pacto social‟” (MARTIN-BARBERO, 2006: 306). E isso faz com que cada um, à sua maneira, descreva com esse olhar os costumes das pessoas – como no caso das figuras 10 e 10. Em se tratando do JHQ, entra em jogo também, a apropriação simbólica de uma obra, explicada por Bourdieu (2007), e o consumo produtivo, descrito por Calabrese como “uma forma de consumo que não permanece passiva, mas que, no próprio acto de consumir um objecto cultural, produz uma interpretação que muda a própria natureza do objecto” (CALABRESE, 1987: 143). Ao consumir um livroreportagem em quadrinhos, o público-leitor ajuda a moldar, a alterar a concepção de que se tem desse tipo de obra, e assim re-significam e conduzem 60 Figura 15: Palestina, Uma Nação Ocupada: a visão do repórter 61 as duas linguagens – jornalismo e quadrinhos – a outros lugares que não os que habitualmente estamos acostumados a vê-las. “A obra de arte – e, do mesmo modo, qualquer outro produto – cria um público sensível à arte e capaz de sentir o prazer com a beleza. Por conseguinte, a produção não cria apenas um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto” (SÁ, 1975: 32). A dúvida sobre o que é jornalismo e o que é arte35, quando as duas formas de expressão se apresentam amalgamadas, não surge com o JHQ. Basta lembrar de Guernica, obra de Picasso que se originou de uma fotografia impressa num jornal francês (VENTURELLI, 2004: 25). Por outras palavras, não existe uma objectividade imediata dos fatos, existe só a coerência da perspectiva segundo a qual os interrogamos, do horizonte dentro do qual os incitamos a responder (CALABRESE, 1987: 20) A forma usada por Sacco para retratar conflitos no Oriente Médio é importante para a compreensão da obra e do que ele apura: esse ritmo que o formato propõe. Um exemplo é a brincadeira de animação que ele faz ao se utilizar da ideia de frame por frame para sugerir movimento numa cena estática (SACCO, 2004: 38). De certa forma, ele quebra a gramaticalidade esperada de uma imagem parada, e nisso dá um salto maior, uma significação ampliada (PINTO, 2002: 38). Isso é possível porque, na construção desse território de linguagens, consegue-se explorar com liberdade o código jornalismo-HQ, e a partir daí surge esse novo ritmo (DELEUZE, GUATTARI, 2005) na hodierna comunicação – que é marcada pelas abundantes imagens desbotadas e gastas pelo tempo que são devoradas por novas imagens que as reciclam (BAITELLO JUNIOR, 2005). 35 Considera-se os quadrinhos como nona arte. Quem mais contribuiu para que essa forma de expressão – encarada como algo tipicamente adolescente e ficcional – ganhasse status de arte foi Will Eisner, criador das graphic novels, que são histórias ricamente ilustradas e com conteúdo para além de capas e super-poderes. 62 Palestina, Uma Nação Ocupada, vale citar, venceu o American Book Award, um dos prêmios literários mais importantes dos Estados Unidos concedido a autores contemporâneos proeminentes. Pouco depois de seu lançamento, a obra também ganhou o Brooker Prize, prêmio de jornalismo que normalmente contempla livros como os de Truman Capote e Hunter Thompson (PATATI; BRAGA, 2006, 76). Soma-se a isso o prêmio HQ Mix, o Oscar dos quadrinhos no Brasil, em 2000. Outra obra de Joe Sacco, Área de segurança Gorazde, a guerra na Bósnia Oriental, foi eleita a HQ do ano pela conceituada revista Time. Talvez essa seja a prova que, apesar dos seus 180 anos de idade, o espírito de renovação e experimentalismo dos quadrinhos renasce na convergência das linguagens36, e o mesmo pode-se estender ao jornalismo, que ganha um novo ritmo junto ao formato HQ. Figura 16: “Animação estática” em Palestina, Uma Nação Ocupada 36 Um exemplo é a obra O Espinafre de Yukiko, de Frédéric Boilet, que mistura fotos que parecem desenhos e traços simples, esboçados. É quadrinhos em tom biográfico, e, como o JHQ, metalingüístico. 63 A epistemologia dos quadrinhos se constrói na observação do que já foi feito e no que ainda pode surgir a partir de agora. Assim como demorou muito tempo para os quadrinhos imporem suas próprias convenções gráficas como linguagem internacional, o JHQ exigirá tempo para estabelecer um padrão – se é que isso é possível ou mesmo se é a questão. Trata-se de um fluxo semiótico no qual há uma junção de diferentes linguagens que se entrelaçam e que apontam para diferentes possibilidades de abordagem jornalística. O JHQ é um devir jornalismo-HQ, um devir foto-HQ, foto-jornalismo, e cada um destes devires assegura a desterritorialização de um dos termos e a reterritorialização do outro, “os dois devires se encadeando e se revezando segundo uma circulação de intensidades que empurra a desterritorialização cada vez mais longe” (DELEUZE, GUATTARI, 2006: 19). Neste ponto surge a construção de um território de linguagens, um ritmo próprio para a apresentação de uma grande reportagem. Um ritmo que não se enquadra no deadline das redações, que precisa esticar uma linha do tempo própria para que tanto a confecção como a fruição do produto final seja mais lenta – por mais que esteja inserida num contexto atual, na forma diferente se de narrar uma história. Como já foi adiantado acima, o JHQ se insere num período de excesso de informações e de imagens, tudo atrelado ao avanço técnico-comunicacional das mídias impressas, eletrônicas e digitais. “O encontro da informática com os sistemas de representação visual promove uma troca cultural no que se refere à construção, veiculação e visualização das imagens” (PLAZA, 1993: 73). Vivemos uma célere iconofagia contemporânea: “as imagens desgastadas são devoradas por novas imagens que as reciclam” (BAITELLO JUNIOR, 2005: 17). O JHQ acaba por se inserir nesse contexto imagético, e o faz sem maiores problemas. Por mais que haja uma certa confusão – do tipo: jornalismo ou quadrinhos? –, ele se apresenta de tal maneira que ele é visto e percebido pelos diferentes públicos leitores. Não se trata de apenas ser visto, vendido como produto da indústria cultural, mas trata-se, sendo um produto editorial e comunicacional, de uma notoriedade – principalmente, neste caso, acadêmica – que extrapola o círculo de admiradores que poderia o JHQ tornar apenas uma curiosidade estilística. 64 O jornalismo em quadrinhos recicla as imagens das quais dispõe numa experimentação visual que exige mais tempo para ser absorvida – tanto que não se vê reportagens em quadrinhos em jornais diários. Há alguns exemplos37, inclusive em periódicos de circulação diária, mas em quantidade meramente ilustrativa. A grande parte do material de JHQ está publicada em livrosreportagens, o que sugere um público leitor-consumidor mais específico, que tenha tempo e interesse de conferir esse tipo de experimentação, de aberração informativa. Não se trata, por enquanto, de um produto para as grandes massas: o conteúdo exige repertório do leitor e o preço do livroreportagem ainda não é acessível à maioria do virtual público leitor. Vale lembrar, porém, que o mercado, no modo de produção capitalista, é quem arquiteta as mudanças que marcam o social, definindo, a partir das práticas de consumo, a fruição dos bens simbólicos38. Nesse sentido, porém, há exceções. Um exemplo são os dois volumes de O Grito do Povo (Le cri du peuple), escritos pelo cineasta e jornalista Jean Vautrin e desenhada por Jacques Tardi, obra esta que trata da Comuna de Paris, quando moradores defenderam a cidade de uma invasão alemã. Ilustrada por personagens simples (operários e prostitutas) e figuras conhecidas (o pintor Gustave Coubert e a anarquista e precursora do feminismo Louise Michel, por exemplo), O Grito do Povo vendeu mais de 200 mil exemplares na França, onde foi publicado em quatro volumes pela Editora Casterman, em 2004. 37 Junior, Luiz Costa Pereira. Obra que mistura fotos a desenhos seqüenciados retoma gênero que começa a virar corrente própria. Disponível em < http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11381 >. Acessado em 14 de agosto de 2008. No dia 19 de agosto de 2007 Joe Sacco foi capa da Folha + da edição nº28627 do jornal Folha de São Paulo. A reportagem Iraque, uma história [em quadrinhos], por Joe Sacco mostra o que o jornalista viu no Iraque quando conheceu um centro de treinamento militar dos Estados Unidos para os iraquianos. Como se vê, por mais que seja uma notícia fria, o tema é atual e pertinente, e foi publicado num periódico de grande circulação. Claro, num caderno cultural – talvez pelo caráter artístico da obra, talvez pelo fato de ainda existir uma ideia de que uma reportagem nesses moldes não cabe no caderno Internacional ou de Cidades de um jornal. Não é o caso de entrarmos no mérito da linha editorial do jornal em questão, mas sim observarmos a inserção do jornalismo em quadrinhos também num veículo diário. A versão em inglês da reportagem – originalmente publicada no jornal The Guardian, está disponível em < http://image.guardian.co.uk/sysfiles/Guardian/documents/2006/01/20/fullsacco1.pdf >. Acessado em 22 de novembro 2006. 38 Cf. nota 57. 65 A boa receptividade por parte do público adulto e culto francês demonstra – ou pelo menos sugere – um bom princípio de legitimidade à experiência capitaneada por Joe Sacco e pelo trio Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Fréderic Lemercier. Vale lembrar ainda propostas feitas na Itália39 que demonstram a aceitação e os exemplos práticos dessa amálgama lingüística são mais visíveis. O que explicaria isso? Do lado da comunicação, o que hoje necessitamos pensar é um processo no qual o que está em jogo já não é a dessublimação da arte, simulando, na figura da indústria cultural, sua reconciliação com a vida, como pensavam os frankfurtianos, e sim a emergência de uma razão comunicacional, cujos dispositivos – a fragmentação que desloca e descentra, o fluxo que globaliza e comprime, a conexão que desmaterializa a hibridiza – agenciam as mudanças do mercado da sociedade. (MARTINBARBERO, 2006: 13) No Brasil, segundo o ilustrador Cau Gomes, a tendência é sequer considerar o cartum como uma vertente do jornalismo40 – lembrando que ele está intimamente ligado à própria gênese das histórias em quadrinhos, que hoje desaguam, também, no nicho jornalístico. Independente disso, a prática vem sendo feita e testada, publicada e legitimada – seja por prêmios jornalísticos ou do universo dos quadrinhos ou por vendagens consideráveis. A aceitação na França não deixa de ser um primeiro passo rumo a um reconhecimento maior dessa convergência artístico-comunicacional calcada numa prática semiológica (CIRNE, 1972: 17). A aceitação da proposta se dá pela obra, e não como artefato. Explica-se: entende-se artefato como a projeção de uma imagem vista na tela, o objeto estético diz respeito à opinião do leitor sobre o artefato, e a obra não é somente um objeto estético, mas se prolonga, não se 39 Cf. a editora italiana BeccoGiallo, que trabalha só com HQs de investigação de grandes casos, como a catástrofe nuclear de Chernobyl . Disponível em < www.beccogiallo.it > Acessado em 18 de julho de 2008. 40 MOULATLET, Ana Luiza. Para Cau Gomez, "a imprensa desistiu de considerar o cartum um tipo de jornalismo”. Redação do Portal Imprensa. < http://portalimprensa.uol.com.br/portal/traco/2008/08/15/imprensa21756.shtml > Acessado em 16 de agosto de 2008. 66 sabe onde começa nem onde termina. Seguindo o ponto de vista da prática (SÁ, 1975), o JHQ é algo que foi feito antes de uma teorização. O resultado da prática de jornalismo em quadrinhos gera um produto, pois, como toda informação hoje em dia, os livrosreportagens de Joe Sacco e de quem mais pratica o JHQ são consumidos mercadológica41 (CANCLINI, 1995) e simbolicamente – o que nos remete ao consumo produtivo42 de Calabrese (1987) e a Martin-Barbero: O consumo não é apenas reprodução de forças, mas também produção de sentidos: lugar de uma luta que não se restringe à posse dos objetos, pois passa ainda mais decisivamente pelos usos que lhes dão forma social e nos quais se inscrevem demandas e dispositivos de ação provenientes de diversas competências culturais (MARTIN-BARBERO, 2006: 292) Há uma mediação por parte dos quadrinhos no que diz respeito à abordagem jornalística, pois procura-se um novo suporte para a apresentação de uma reportagem, o que configura inclusive uma mudança nos dois campos – tanto do jornalismo como dos quadrinhos. O campo daquilo que denominamos mediações é constituído pelos dispositivos através dos quais a hegemonia transforma por dentro o sentido do trabalho e da vida da comunidade” (MARTIN-BARBERO, 2006: 265) Não que Palestina... ou O Fotógrafo tenham mudado a vida dos que ali estão retratados, mas ela evoca a memória deles, mas não de forma pitoresca ou folclórica, mas sim quase etnográfica. Eles criam com o JHQ um novo suporte para a apresentação de um fato de importância jornalística, e se utilizam da cultura – tanto a deles como a de quem observam – como uma ponte na construção imagética desse produto comunicacional. 41 “O consumo é um processo em que os desejos se transformam em demandas e em atos socialmente regulados” (CANCLINI, 1995: 59) 42 CF. conceito na pág. 42. 67 Figura 17 – O Fotógrafo: o encontro de costumes e mundos diferentes 68 CAPÍTULO 5: BIOGRAFIAS: UM AFLUENTE DO JHQ Figura 18: Página de Che, biografia de Che Guevara feita por Hector Oesterheld e Alberto e Enrique Breccia A característica híbrida de juntar um relato jornalístico com os quadrinhos pôde ser verificada, por exemplo, no trabalho já aqui citado de Art Spiegelman, Maus – a história de um sobrevivente. De caráter biográfico, a história de 69 Spiegelman se utiliza de metáforas visuais para contar a história de vida do pai do autor, um sobrevivente do holocausto da Segunda Guerra Mundial. É quadrinhos, mas é também uma biografia – e que se constrói, vale ressaltar, com um método de apuração jornalística ilustrada na própria obra. O que se percebe são duas linguagens já se misturando: uma espécie de aquarela cujos matizes seriam mais bem “definidos”43 com a proposta de Joe Sacco. E por isso citamos alguns exemplos de biografias em quadrinhos, um afluente do JHQ que cada vez mais se expande e ganha obras. A partir de Palestina... percebeu-se o potencial dos quadrinhos para o jornalismo e seus gêneros. Um exemplo disso são as biografias, e para ilustrar tal inferência pode-se citar a vida quadrinizada de Che Guevara. Neste caso é possível identificar como o olhar jornalístico conta na hora da concepção artística. Uma foi feita por Kim Yong-Hwe e lançada no Brasil em 2006, a outra pelos argentinos Alberto e Enrique Breccia (arte) e Hector Oesterheld. A primeira é na caracterização estilística do mangá (quadrinhos japoneses) e traz referências mais recentes, como a banda Rage Against the Machine e como a imagem do guerrilheiro é usada comercialmente como uma ideia de rebeldia. A segunda, que originalmente foi lançada três meses depois da morte de Che, é densa, de um preto e branco jornalístico que contextualiza os fatos e, indo e voltando no tempo, instiga a leitura. Mais próxima das pretensões do documentário, a biografia argentina de Che não deixa de ter o seu caráter jornalístico: o relato de um fato histórico, mas com um viés artístico que exorta a um olhar mais atencioso, um tempo maior para a leitura tanto do que está nos balões como das imagens – que em alguns momentos, devido à riqueza de detalhes e ao fato de ser em branco e preto, parecem xilogravuras. 43 Novamente as aspas não são gratuitas, tendo em vista que, malgrado Sacco ter dado o pontapé inicial do JHQ, o formato dele não estanque. 70 Figura 19: Johnny Cash com Bob Dylan em uma página de Johnny Cash, uma biografia, feita por Reinhard Kleist Outro exemplo biográfico que podemos citar é o da quadrinista americana Alison Bechdel. Ela também brinca com o imaginário, com as cores e com a narrativa ao falar do pai e de si mesma. Na obra de Alison também se identifica uma apuração jornalística, um olhar diferenciado e metalingüístico. E se os traços não são emaranhados como os de Sacco – mas um ou outro detalhe lembra 71 Robert Crumb44 – e tampouco o livro tem o fotojornalismo de O Fotógrafo, a história se faz interessante. Pode-se identificar na obra uma biografia em formato de reportagem quadrinizada: há a humanização, a contextualização dos fatos e uma ordem cronológica que não afeta a comunicabilidade da narrativa. Outra biografia lançada no mercado editorial brasileiro é Johnny Cash, uma biografia, feita por Reinhard Kleist. Os traços são estilizados, em preto e branco. O título é auto-explicativo, mas o que interessa é que são retratados, em desenhos, fatos que muitas vezes não são contados quando se fala de Johnny Cash – como o vício em boletas (anfetaminas). Tanto Maus como Fun Home e Johnny Cash, uma biografia foram premiadas. Maus primeira ganhou o prêmio Pulitzer45. A obra de Alison Bechdel foi eleita o melhor livro de 2006 pela revista Time, além de ganhar o Eisner Award46 de 2007. Já Johnny Cash, uma biografia ganhou o título de Melhor Graphic Novel alemã no Festival de Berlim e na Feira do Livro de Munique, além de ter ganhado em 2008 o Max und Moritz (o mais importante prêmio de quadrinhos na Alemanha) e o Les Prix des Ados 2009, no Festival de Música e Literatura de Deauville – na França. As biografias são apenas um braço com veias jornalísticas que se estende no campo da comunicação. Da França vem outro exemplo de como este nicho tem sido explorada na linguagem dos quadrinhos. Em março de 2010 estava previsto o lançamento da biografia da cantora, pintora e modelo francesa Kiki47 (que fez parte da vanguarda artística parisiense da década de 20, frequentando os mesmos círculos sociais de surrealistas como André Breton e Max Ernst). Desenhada 44 por Catel e roteirizada por José-Louis Bocquet, “Kiki de Cf. nota 8 (pág. 15) Prêmio estadunidense outorgado a pessoas que realizem trabalhos de excelência na área do jornalismo, literatura e música. Administrado pela Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, foi criado em 1917 e é anunciado sempre em abril. Os indicados são escolhidos por uma banca independente. 46 Criado em 1987, após o fim do Jack Kirby Awards, trata-se hoje da premiação estadunidense mais importante da indústria dos quadrinhos. 47 Ela é quem posa em "Le Violon d'Ingres" (1924), fotografia de Man Ray na qual ela aparece de costas com o corpo semelhante a um violino. In: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u690936.shtml >. Acessado em: 09 de fevereiro de 2010. 45 72 Montparnasse” originalmente lançada em 2007 no mercado europeu e também já foi premiada no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, em 2008. Serão 416 página na edição brasileira – sendo que o rascunho inicial previa mais de 600 laudas. O que se percebe com o JHQ – e a biografia entra como um “afluente” do campo jornalístico – é que há um valor estético que se emoldura através das imagens, que podem ser consideradas como uma espécie de bússola na pósmodernidade: sigamos as imagens, assistamos as imagens e cultuemos as imagens, sejam elas de carne e osso ou desenhos de uma indústria, por exemplo, musical48. Como diria Arnaldo Antunes, música para ouvir música, e neste caso: imagem para satisfazer impressões e fruições mercadológicas e sociais. Como bem reforça Venturelli (2004): na imensa e irreversível imagoteca universal na qual está inserida a contemporaneidade proliferam-se milhares de imagens. 48 Os atores não são imagens às quais muitos se espelham? Isso nos remete à mitologia. E com relação aos desenhos musicais, temos a banda Gorillaz, cujos músicos são desenhos animados – malgrado o dinheiro em torno deles ser de verdade. É uma espécie de versão mais atual da proposta do Kraftwerk, que usou robôs para representá-los, por exemplo, em videoclipes. 73 CAPÍTULO 6: TERRITÓRIO E CAMPO: UMA POSSÍVEL LEITURA Se na literatura, que possibilita diferentes formas de expressão, a união com os quadrinhos dialoga de forma artística e harmoniosa49, com o jornalismo não há de ser diferente. A característica de unir linguagens heterogêneas é o que enriquece a construção comunicacional do JHQ. E ao mesmo temo é o que causa uma certa confusão mercadológica: a falta de um rótulo mais claro faz inclusive com que livros de JHQ sejam encontrados nas estantes de quadrinhos das livrarias. Talvez haja uma resistência, no mercado ou no meio intelectual, em não se considerar o JHQ algo sério por ser retratado em quadrinhos – malgrado a linguagem das HQs ser utilizada para confecção, por exemplo, de manuais do tipo ISO 9000 e guias turísticos, e nem por isso deixam de ser quadrinhos ou produtos editoriais considerados importantes em suas áreas. Emerge então um território de linguagens a partir dessa junção, da distância entre elas que aproxima uma da outra. Esta é a marca do JHQ. Como elucidam Deleuze e Guattari (2005), o território é uma distância que “não só assegura e regula a coexistência dos membros de uma mesma espécie, separando-os, mas torna possível a coexistência de um máximo de espécies diferentes num mesmo meio, especializando-os” (DELEUZE, GUATTARI, 2005: 116-117). Há uma reorganização das funções nessa amálgama de linguagens, sendo que as atividades funcionais não são territorializadas sem adquirir um novo aspecto: O território é de fato um ato, que afeta os meios e os ritmos, que os "territorializa". O território é o produto de uma territorialização dos meios e dos ritmos (DELEUZE, GUATTARI, 2005: 120) Essa territorialização permite que ali se atualize um ritmo – o ritmo próprio que marca o JHQ: algo entre o jornalismo e os quadrinhos, um caminhar próprio que não se desvincula totalmente dos dois caminhos iniciais – essencialmente 49 Cf. Dom Casmurro e O Alienista, de Machado de Assis, ilustrados por Ruy Tridade e Fábio Moon e Gabriel Bá, respectivamente. Che: uma biografia, ilustrada por Kim Yong-Hwe (cf. bibliografia). Ou Desista! e A Metamorfose, ambos oriundos da obra de Franz Kafka e ilustrados por Peter Kuper. 74 comunicantes. As duas linguagens dialogam num campo próprio: tendo a imagem do jornalismo como um imenso oceano cujos gêneros navegam de acordo a força do vento. O JHQ se destaca não como melhor ou pior, por não se mostrar no pelotão de frente, mas por se mostrar num ritmo diferenciado que, como se pode pensar com Deleuze e Guattari (2005), opera em blocos heterogêneos, e não num espaço-tempo homogêneo. O notório no JHQ é o seguinte: É que a ação se faz num meio, enquanto que o ritmo se coloca entre dois meios, ou entre dois entre-meios, como entre duas águas, entre duas horas, entre lobo e cão (DELEUZE, GUATTARI, 2005: 119) A incomum – ou até então impensada – conexão entre jornalismo e histórias em quadrinhos (HQs) une uma prática calcada na platônica objetividade50 às características das HQs – estas, em geral, associadas à ficção. O jornalismo em quadrinhos não se refere tão-somente a um exercício artístico ou de estilo, pois nem todo jornalista sabe ou tem o talento de desenhar (e houve quem nem por isso deixou de lançar uma reportagem em HQ, como é o caso de Didier Lefèvre), mas sim a um reflexo de como caminha a comunicação para uma convergência maior com as artes, uma hibridação de formas comunicacionais e culturais (SANTELLA, 2004). No capitalismo contemporâneo, a questão do talento, aliás, remete à ideia de perícia, explicada por Richard Sennett (2006). Para ele, uma característica permanente do avanço tecnológico é a extinção das capacitações. Não se discute aqui até que ponto as novas tecnologias amputam este ou aquele talento dos profissionais do jornalismo e os padroniza51. O que se observa é que o JHQ exige, sim, uma perícia, um certo talento que, assim como a imbricação de linguagens, diferencia o produto final. Sacco tem a perícia do traço, um talento a mais que não é absorvido pelo mercado jornalístico formal – a não ser, suponha-se, que ele 50 Lembrando que a objetividade, uma das principais premissas do jornalismo, é entendida aqui como algo inalcançável e que passa pelo auditório cultural do repórter. Procura-se não ser objetivo, mas manter certa sobriedade diante de um fato a ser noticiado. 51 A ideia aqui é a seguinte: há uma padronização na maneira de se reportar uma notícia. Experimentações narrativas praticadas por Hunter Thompson, por exemplo, não são tão comuns no jornalismo atual. 75 tentasse a carreira de chargista. O que ele faz? Apura, roteiriza e desenha uma reportagem que, quem sabe em outro momento, seria apresentada de forma tradicional: lead, sub-lead e todo um complemento textual. Aprofundar a habilidade através da prática é algo que vai de encontro às instituições que precisam de indivíduos que façam muitas coisas diferentes de improviso. Embora as organizações flexíveis precisem de gente inteligente, enfrentam problemas quando elas passam a se comprometer com a perícia (SENNETT, 2006: 100) Joe Sacco e o trio francês se utilizam da perícia que possuem para ampliar o campo das práticas comunicacionais. Não que eles o tenham feito em represália aos veículos jornalísticos em que trabalhavam ou algo do gênero, e sim porque enxergaram essa possibilidade de experimentação. Que fique claro: “Uma definição abrangente de perícia seria: fazer algo bem-feito simplesmente por fazer” (SENNETT, 2006: 98). Como já foi explicado: eles poderiam ter optado por um modelo tradicional de narrativa, mas escolheram os quadrinhos. Tendo em vista que o campo do jornalismo tem como característica a diversidade de abordagens e está sujeito a experimentações, o JHQ nasce nesse imenso oceano estriado, e ele o alisa à sua maneira ao mesmo tempo em que estria o seu próprio campo – tendo em vista a não-uniformidade de proposta do JHQ. É assim que ele cria a sua marca: não como salvação do jornalismo, mas como uma experimentação comunicacional. Na crise de mercado – na qual, como já se ressaltou anteriormente, o JHQ não surge como salvação ou solução –, observa-se a diferença experimental praticada por Sacco e demais autores de JHQ justamente pela produção de uma marca de linguagem, que se constitui como marca de distinção. E a partir do momento em que ele lança um trabalho como esse e tem respaldo de um público erudito que “aceita” a proposta jornalística dele, Sacco inicia uma nova forma de se fazer reportagem no que diz respeito ao suporte em que ela é apresentada. Diante das mediações explicadas por Barbero (2006), se nas literaturas de cordel e colportage é possível se encontrar o caminho que leva o folclórico ao popular, seria o JHQ uma forma de popularização tanto do jornalismo como dos 76 quadrinhos? Talvez não seja o caso, assim como não o é o da salvação desse nicho comunicacional. Livros como o de Maurício Pestana52, por exemplo, não surgem como a panaceia ou como incentivadores de leitura. O JHQ emerge de uma forma que, pelo próprio formato e pelo preço de produto final 53, não é tão popular, não é facilmente encontrado em bancas de revista. O que se infere é que o JHQ não é um produto editorial massivo, pelo menos no Brasil. Como já foi citado anteriormente, há exemplo de produtos de JHQ que alçaram à condição de best-sellers editoriais na França, mas naquele país, além de uma aparente facilidade em se aceitar esse tipo de experimentação artístico-comunicacional, há uma classe média culta disposta a conhecer, fruir e pagar pelo produto. Situação ainda diferente no Brasil, onde há uma elite econômica que não necessariamente constitui uma elite intelectual suficientemente cosmopolita e aberta a interagir com experimentações editoriais como o JHQ. O JHQ se mostra como uma proposta diferente de se comunicar com suas bases imersas em questões culturais – o jornalismo, as HQs, a fotografia, a literatura. Tais características também, reconhece-se, enfraquecem o jornalismo, pois sempre há a dúvida sobre até que ponto é jornalismo e até que ponto é meramente quadrinhos ou um experimento artístico. Essa fisionomia é que confunde, é o que deixa – de certo modo – vulnerável a própria prática, mas que suscita questionamentos, novos olhares sobre o próprio jornalismo – tendo em vista, é bom lembrar, o contexto no qual o JHQ surge, que é marcado pelo caos de imagens, por um intenso fluxo de informação. “...qualquer fenómeno comunicativo (ou qualquer fenómeno cultural) que tenha uma geometria irregular ou uma turbulência no próprio fluxo é um fenômeno caótico. Não só os objectos, portanto, mas também o seu processo de produção e de recepção” (CALABRESE, 1987: 140). O território de linguagens no qual o JHQ se apresenta não deixa dúvida que os elementos artísticos são usados em prol da própria construção da reportagem 52 PESTANA, Maurício. Revolução Constitucionalista de 1932 em quadrinhos. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo, 2009. 53 Um exemplar de O Fotógrafo, pelo site da Editora Conrad, custa R$ 46,00. Consulta feita no dia 02 de março de 2010. 77 quadrinizada54. Como já foi citado anteriormente, não se cria uma nova forma de fazer jornalismo, uma nova técnica de entrevista ou algo nesse gênero. O que se tem é uma nova forma de apresentar uma reportagem, com um ritmo próprio – tanto de confecção como de leitura. A fruição do produto é diferente da de um jornal diário. E nesse território de linguagens, aos poucos – e esta é uma observação que se faz aqui com certa pretensão – o JHQ interfere no campo jornalístico, de modo específico, e comunicacional, de modo mais amplo. E neste caso, recorre-se a Bourdieu para um melhor esclarecimento: O campo de produção propriamente dito deriva sua estrutura específica da oposição – mais ou menos marcada conforme as esferas da vida intelectual e artística – que se estabelece entre, de um lado, o campo de produção erudita enquanto sistema que produz bens culturais (e os instrumentos de apropriação desses bens) objetivamente destinados (ao menos a curto prazo) a um público de produtores de bens culturais que também produzem para produtores de bens culturais e, de outro, o campo da indústria cultural especificamente organizado com vistas à produção de bens culturais destinados a nãoprodutores de bens culturais (“o público cultivado”) como nas demais classes sociais (BOURDIEU, 2007: 105) O JHQ é produzido por jornalistas que, ou sabem desenhar, ou conhecem desenhistas dispostos a enveredar por esse universo. O campo do JHQ deriva da oposição entre o mundo dos quadrinhos – convencionalmente atrelado a superheróis, a ficção e a histórias fantasiosas55 – e o do jornalismo – área profissional que relata os fatos do cotidiano, da chamada realidade. Mas pergunta-se: o JHQ tem uma norma de produção? Como já foi mencionado nas páginas anteriores, não há um modelo específico, mesmo porque uma reportagem quadrinizada pode trazer de uma só vez, além dos quadrinhos, a fotografia, elementos do documentário – como foi explicado no capítulo Jornalismo em Quadrinhos: Linguagens Imbricadas. As normas de produção são estabelecidas na própria prática, pois cabe aos envolvidos decidirem que elementos visuais e estéticos irão 54 Lembrando que: “Todo ato de produção cultural implica na afirmação de sua pretensão à legitimidade cultural” (BOURDIEU, 2007: 108). 55 O que não diminui os trabalhos dos profissionais da área, claro. Faz-se aqui apenas uma observação de como se mostram antípodas o jornalismo com os quadrinhos. 78 utilizar na reportagem. A norma de produção, infere-se com a recente história do JHQ, diz mais respeito às normas jornalísticas, porque se foge muito de certas exigências dessa área profissional, deixa de ser jornalismo. Há pouco se discutia até que ponto é jornalismo ou apenas quadrinhos: a diferença está na monstruosidade do resultado final, ao ultrapassar as duas fronteiras, sem no entanto deixar de enxergá-las. Os próprios leitores e críticos irão avaliar se é ou não jornalismo em quadrinhos. O controle de qualidade – e talvez tal assertiva seja pretensiosa – se dá pela utilização das normas jornalísticas no que diz respeito ao respeito às fontes, aos relatos, à humanização do relato, à ética profissional. É assim que funciona: por mais que sua base esteja alicerçada no moderno jornalismo, o JHQ tem um ritmo próprio de produção e de fruição. Ele funciona de acordo com um manual pouco ortodoxo no qual estão contidas as exigências mínimas, cabendo à criatividade e ao talento-perícia de cada profissional o arremate final em como se relatar uma reportagem em quadrinhos. A autonomia que o JHQ possui no campo comunicacional, nessa leitura que se faz aqui sobre o conceito de Pierre Bourdieu (2007), pode ser verificada em alguns números de vendas. É preciso ter em mente que a difusão dessa prática ainda é tímida, principalmente no Brasil, que não possui uma tradição como, por exemplo, na França56, onde esse novo formato já é bem aceito pelo público e pela crítica. Para se ter uma ideia, a série criada pelo jornalista Philippe Cohen sobre o presidente francês Nicolas Sarkozy virou best seller – vendeu cerca de 300 mil exemplares. Cohen batizou a cria como história de investigação em quadrinhos. Denominações à parte, aos poucos o JHQ ganha reconhecimento dos jornalistas “convencionais” e da academia – reconhecimento que, como explicado acima, remete aos Estudos Culturais. Ser “aceito” não o transforma, ressalta-se mais uma vez, na salvação do jornalismo, mas o faz ser visto como uma possibilidade a mais a ser explorada no relato de um fato. Não se trata de ser um cartunista como jornalista ou o contrário, 56 PALMEIRA, Cristina. Quadro a quadro. Revista Imprensa – Jornalismo e Comunicação. N. 234, maio 2008. 79 mas de enxergar a chance de se utilizar de outro suporte para fazer uma grande reportagem. E aqui voltamos ao talento ao qual Sennett (2006) se refere. E não se trata de uma competição do tipo: O Fotógrafo é melhor que Palestina, Uma Nação Ocupada. Essa questão cabe ao leitor, que, por gosto próprio, escolherá qual o livro que, de certa forma, mais significa a ele. Cada obra irá apresentar distinções, características próprias. E as condições sociais – e por que não profissionais? – irão mediar o surgimento de novos exemplos de JHQ. A França, como já foi mencionado, é um país de conhecido histórico literário e intelectual, o que pode vir a ser um fato determinante para que lá surjam exemplos de jornalismo em quadrinhos – tanto em reportagens como em biografias. Joe Sacco, por exemplo, passou sete anos produzindo seu novo livro, Footnotes in Gaza57. A história conta, uma vez mais na Palestina, o que aconteceu em 1956, quando 111 refugiados palestinos foram mortos por soldados israelenses. Não quer dizer este novo trabalho vai ser melhor que o do outro jornalista. Pode haver, levando em consideração o talento, uma busca de superação do próprio ilustrador – e esta é uma questão muito pessoal, e que não é meta ser respondida neste trabalho –, mas uma competição pela legitimidade não se dará entre quem faz JHQ. Ele busca suas distinções a partir de suas próprias criações, a partir de um eixo próprio. Trata-se de uma prática que cria um território e tenta alisá-lo à medida que se insere no contexto da comunicação contemporânea, e aos poucos ele se distingue do que se vê. De novo: não se trata de ser melhor ou pior, mas de ser uma experimentação no campo da comunicação. Há com o JHQ uma ruptura com as ortodoxias precedentes (BOURDIEU, 2007) no que diz respeito à prática jornalística e ao próprio uso da linguagem dos quadrinhos – como um novo suporte ao jornalismo. Não que a história narrada seja posta em segundo plano. Como já foi escrito anteriormente, as histórias dos livrosreportagens aqui tidos como fonte de pesquisa primam pela humanização do relato, por um olhar atento e com forte teor etnográfico. Mas há, diante do que se 57 Footnotes in Gaza foi lançado nos Estados Unidos em dezembro. Até o fechamento deste trabalho, não havia previsão de lançamento no Brasil. 80 convencionou chamar de jornalismo – todo um arsenal de práticas e preceitos que regem a profissão –, uma quebra com a ortodoxia jornalística, em especial sobre a forma como dizer, como noticiar – ressaltando, mais uma vez, que a história não é deixada em segundo plano. Afirmar o primado da maneira de dizer sobre a coisa dita, sacrificar o “assunto”, antes sujeito diretamente à demanda, à maneira de abordá-lo, ao puto jogo das cores, dos valores e das formas, forçar a linguagem para forçar a atenção à linguagem, constituem procedimentos destinados a afirmar a especificidade e o caráter insubstituível do produto e do produtor, dando ênfase ao aspecto mais específico e mais insubstituível do ato de produção artística. (BOURDIEU, 2007: 111) A exploração da linguagem em sua máxima possibilidade a favor da forma, mas também em prol da história, que é o que dá corpo ao livroreportagem quadrinizado. Se uma boa história em quadrinhos precisa de um bom roteiro, um bom argumento, uma boa reportagem precisa de uma boa história para se sustentar como tal. E no meio comunicacional, em especial o jornalismo, a imbricação entre jornalismo e quadrinhos – e demais linguagens afins –, aliada aos temas abordados nas reportagens e às técnicas, tudo isso possibilita a esta prática uma distinção. O produto criado pelo próprio JHQ, no qual o grupo que o pratica busca esta distinção cultural pelas especificidades reconhecidas em sua atividade jornalístico-experimental, é que faz com que tais obras ganhem notoriedade no campo cultural. “(...) é a própria lei do campo, e não um vício de natureza, como pretendem alguns, que envolve os intelectuais e os artistas na dialética da distinção cultural, muitas vezes confundida com a procura a qualquer preço de qualquer diferença capaz de livrar do anonimato e da insignificância. (BOURDIEU, 2007: 109) A especialidade do JHQ (a imbricação de linguagens e a diferenciação da prática convencional) alia-se ao talento (Sennett, 2006) do jornalista-ilustrador. E esta suplementação de perícias já cria uma distinção. A maneira e o estilo como a reportagem é apresentada – seja somente com quadrinhos, como no caso de 81 Figura 20: O Fotógrafo: Conflitos de costumes e crenças Sacco ou misturando HQ com fotografias (e seus negativos), como em O 82 Fotógrafo – também ajudam a distinguir o JHQ, a criar a marca de linguagem que diferencia esta prática do jornalismo convencional58. Os temas também contam muito, já que demonstram a sensibilidade do autor-jornalista ao selecionar sua pauta: as impressões de mundo, esta ou aquela ideia, sentimentos. Tudo serve de subsídio para a elaboração do trabalho, e o talento nesse momento faz diferença, pois pode auxiliar e facilitar os caminhos a serem percorridos na construção do roteiro que norteia a reportagem quadrinizada. O teor etnográfico é forte, e fornece, de certa forma, um matiz diferenciado às cores de um simples relato. A página abaixo (Figura 17) de O Fotógrafo explicita bem o conflito entre culturas, o embate entre costumes e crenças diferentes. Esse dado peculiar que normalmente está presente nas obras que se encaixam como JHQ – seja uma reportagem ou uma biografia – é mais um componente na construção de uma marca característica desta prática. Porém, ainda sobre a questão do campo (BOURDIEU, 2007) no JHQ não há uma condenação por parte da comunidade intelectual ou artística de quem o pratica quando se utilizam procedimentos de distinção não reconhecidos, até porque não há uma norma formalizada de como fazer JHQ. Se alguém quiser juntar quadrinhos, fotografia e colagens, é possível fazê-lo. Trata-se de um campo aberto, sujeito mesmo a experimentações outras, mas que tem suas distinções e algumas regras (principalmente as que dizem respeito à parte jornalística). A monstruosidade reside na junção das linguagens, mas, como elas serão reunidas, isso vai depender do talento do autor. Todas essas distinções reforçam o caráter popular-urbano (BARBERO, 2006) do jornalismo em quadrinhos: popular porque é um produto que traz em si o apelo e linguagens de comunicação de massa (jornalismo e quadrinhos), e urbano porque é consumido por uma classe média que vive em cidades onde o fluxo de informações tende a propiciar contato com novas linguagens. Esse conjunto de 58 Ressaltando-se mais uma vez que o JHQ, por mais que tenha sua distinção, sua marca de linguagem e esteja criando um território no campo da comunicação, ele tem como fonte os preceitos do jornalismo tradicional. Não se quer aqui exaltar o JHQ como a mais interessante novidade no campo comunicacional dos últimos tempos. O que se quer aqui é apresentar de que maneira ele se distingue, como as linguagens se misturam e não deixam de ser identificáveis no emaranhado imagético dos livrosreportagem disponíveis no mercado. 83 características ajuda a criar a marca de linguagem do JHQ, distingue-o de uma maneira peculiar no campo da comunicação. Como já se escreveu acima, o JHQ é, ainda pelo estranhamento editorial, um produto monstruoso para o qual se “aponta o dedo”. Esse reconhecimento passa pelo aspecto cultural e também pelo econômico, tendo em vista o valor que cada livroreportagem custa. No que diz respeito ao cultural, o reconhecimento vem com a aceitação de uma forma de expressão jornalístico-artística, como uma linguagem visual que explora de forma singular a junção do jornalismo com os quadrinhos. Sabe-se que antes do cinema e da televisão, uma verdadeira revolução no campo gráfico pôde ser verificada no século XX, principalmente pela substituição dos desenhos reproduzidos em litogravuras por fotografias nas revistas (NEIVA JR., 2006: 72). O JHQ também se enquadra nesse repertório de experimentações imagéticas. Num século marcado pelas imagens como foi o XX e como se anuncia o XXI – sejam elas ao vivo, preto e branco, excessivamente coloridas ou modificadas por Photoshop –, os quadrinhos amalgamados com o jornalismo ganham uma nova feição. O teor experimental que permeia essa prática comunicacional talvez seja o ponto alto, tanto em termos de linguagem como de própria autonomia enquanto campo. Afinal, há um público consumidor, há um interesse acadêmico no que diz respeito a estudar ou pelo menos identificar melhor esse monstro comunicacional, as editoras investem em tradução e em produtos de qualidade, e há uma autoridade no assunto/prática, Joe Sacco. Por mais que seja possível encontrar outros títulos de JHQ, cabe a Sacco, sendo isso quase consenso, o mérito de ter sistematizado de maneira prática um novo território no campo da comunicação ao unir jornalismo com quadrinhos. Há quem mescle tons mais de crônica, como Guy Delisle (Figura 18), mas sem deixar o caráter jornalístico de contar uma história de lado: apuração, humanização do relato, contato com as fontes, pesquisa. 84 Figura 21: Página de Crônicas Birmanesas, de Guy Delisle O que se verifica inda com o JHQ é um acontecimento, não é substância 85 nem acidente, nem qualidade nem processo, não é da ordem dos corpos, mas que também não é imaterial (FOUCAULT, 2004). Voltamos ao conceito que tangencia a ideia de monstruosidade. A proposta iniciada por Sacco e pelos demais artistascomunicadores se materializa em livrosreportagens, mas ao mesmo tempo se mostra amorfa, pois não há um modelo específico, algo que restrinja outras possibilidades de experimentações no que diz respeito a unir jornalismo e quadrinhos. É como se a proposta estivesse solta no ar e coubesse a quem percebesse isso captar e traduzir em ilustrações e fotos – imagens em geral – uma reportagem. Como já foi apresentado anteriormente, o JHQ se efetiva como uma mistura entre o jornalismo e os quadrinhos sem, contudo, fechar as propostas num único formato. A criação de um território de linguagens mediado pelas questões culturais torna o JHQ, de certa maneira, um ente diferenciado no campo da comunicação. O que o diferencia no processo comunicacional é justamente a característica de acontecimento, a monstruosidade, o ir e vir entre as fronteiras que o definem. Não se quer aqui atribuir mil e uma qualidade ou fazer apologias ao trabalho de Sacco e companhia, mas fazer leituras possíveis tendo como pano de fundo a prática jornalística e a história dos quadrinhos. Por mais que pareçam forçadas tais capturas intelectuais, faz-se necessário explicar que, na ausência de uma bibliografia específica sobre JHQ, a criação de um campo de conhecimento passa por leituras outras que ultrapassem, mesmo que ligeiramente, a barreira do senso comum – e nisso talvez resida o cerne da pesquisa. Dizer que JHQ é monstruoso ou caótico não é algo que se faz gratuitamente. Como um trabalho que, em primeiro lugar, descreve o objeto, o que se pretende aqui é enxergar o JHQ como o mercado e como a própria prática faz com que ele se estabeleça como produto e depois se imponha como objeto de pesquisa. Seja em Paris, onde as condições sociais e intelectuais medeiam o surgimento de novos livrosreportagem, ou seja no Brasil, onde editoras tem se preocupado em traduzir e lançar obras do gênero, o JHQ aos poucos se estabelece como um novo campo possível dentro da comunicação, e por meio do 86 seu discurso que alia imagens ao texto se diferencia como prática jornalística cujo percurso vai de encontro ao deadline e estria o liso campo das experimentações. 87 CAPÍTULO 7: METODOLOGIA: ESTUDOS CULTURAIS E MEDIAÇÕES Antes de seguirmos, faz-se necessário inserir o jornalismo em quadrinhos, ou JHQ, dentro de um nicho de conhecimento acadêmico. Para isso tem-se como referência os Estudos Culturais, que surgiram em meados na década de 1950 (HALL, 2003: 132) e nos remete a uma nova forma de pensar a cultura. A formulação marxista da base (economia) condicionando a superestrutura (cultura) não era mais suficiente para explicar o vórtice que envolve a cultura. A explicação dada por essa equação base/superestrutura fica aquém, por exemplo, se levarmos em conta o surgimento das novas mídias ao longo da história. O caleidoscópio cultural contemporâneo – com suas linguagens e engrenagens rizomáticas – não cabe tão-somente nas margens do estruturalismo – que se limita a estudar o que fica, e não se volta às vicissitudes: A teoria marxista, tal qual vulgarizada pelo movimento comunista, estabelece a primazia das infra-estruturas econômicas, das quais as superestruturas (sistemas políticos, direito, criação cultural) são apenas produtos. Raramente levada em conta com precisão, a diversidade das superestruturas de uma sociedade, de uma „formação social‟ a outra, não passa então de puro „reflexo‟ das relações de classe e de produção‟ (MATTELART, 2004: 78) A ruptura de pensamento proposta pelos Estudos Culturais traz novas formas de se abordar um tema. Aliás, essa ruptura traz à tona assuntos antes deixados de lado que não podiam estar sob o guarda-chuva do que se convencionou a chamar de cultura – entendida aqui como um grupo organizado de padrões, crenças, leis naturais e convenções, entre outras coisas, que não é estático e está sujeito a um contínuo processo de transformação (CALDAS, 1986: 14). Raymond Willians – que, juntamente com Richard Hoggart, Edward Thompson e Stuart Hall, é considerado um dos pais dos Estudos Culturais, os founding fathers (MATTELART, 2004: 45) – foi um dos pensadores que desmistificou a ideia de uma cultura pura e trouxe à tona uma interpretação dela como algo feito por todos, socialmente – indo de encontro com a visão difusionista 88 de Hoggart com relação a alta cultura (CEVASCO, 2003: 51). Por mais que se reconheçam falhas nesse modo de pensar – tendo em vista que as condições sociais e econômicas de cada indivíduo pesam no momento de fruição dos bens culturais59 (visão que evidencia uma referência marxista comum aos founding fathers) –, ele já representa um avanço frente à visão elitista que se tinha da cultura outrora. Os Estudos Culturais nascem de uma recusa do legitimismo, das hierarquias acadêmicas dos objetos nobres e ignóbeis. Eles se fixam sobre a aparente banalidade da publicidade, dos programas de entretenimento, das modas vestimentares (MATTELART, 2004: 72). Num linguajar próximo do marketing, o olhar se volta, a partir dos estudos culturais, às coisas simples da vida, ao que está ao nosso redor e passa como mero elemento na composição do cotidiano. Como escreveu o próprio Stuart Hall: O que importa são as rupturas significativas – em que velhas correntes de pensamento são rompidas, velhas constelações deslocadas, e elementos novos e velhos são reagrupados ao redor de uma nova gama de premissas e temas (HALL, 2003: p. 131) A quebra de paradigma proposta pelos Estudos Culturais nos remete a uma crise na literatura. A linguagem verbal, antes tida como hegemônica, perde uma parte de sua força – sendo válido lembrar uma formulação feita pelo teórico marxista Antonio Gramsci, que dizia que a hegemonia é uma construção do poder pelo consentimento dos dominados com relação aos valores de uma ordem social, “uma „vontade geral‟ consensual” (MATTELART, 2004: 74). Vale citar que na teoria marxista – que como já foi mencionado acima, é uma referência na gênese dos estudos culturais – estão imbricadas linguagem e ideologia, sendo a linguagem vista como um fenômeno histórico, imutável. Por mais acadêmica que possa soar esse tipo de assertiva, vale dizer que tal 59 Com relação ao conceito de fruição de uma obra de arte, um bem cultural, vale lembra Boudieu: “A obra de arte considerada enquanto bem simbólico (e não em sua qualidade de bem econômico, o que ela também é) só existe enquanto tal para aquele que detém os meios para que dela se aproprie pela decifração, ou seja, para o detentor do código historicamente constituído e socialmente reconhecido como a condição da apropriação simbólica das obras de arte oferecidas a uma dada sociedade em um dado momento do tempo.” 89 pensamento vai de encontro com o materialismo, que vê a história da linguagem como um “movimento resultante do trabalho (lingüístico) dos homens (práxis) em seus diversos estágios de organização social. Este trabalho se dá justamente na interação”. O marxismo era a corrente utilizada pelos founding fathers, porém, como explica Hall, nenhuma perspectiva é absoluta e separada, e as rupturas surgem com novas perspectivas epistemológicas. Não é preciso ir longe para observar que, antigamente, a visão hegemônica que se tinha era que os livros ditos sérios eram aqueles cujas páginas não continham imagens, que tinham conceitos e elucubrações sobre temas difíceis. “As abstratas imagens conceituais expressas nos textos escritos não chegavam à compreensão do homem comum” (BAITELLO JUNIOR, 2005: 16). Como lembra Maria Elisa Cevasco: “O discurso da cultura de minoria – o de um pequeno número de eleitos que detém o valor cultural – ainda pode ser escutado em certas posições contemporâneas” (CEVASCO, 2003: 48). Sabe-se que a leitura – entendida aqui como a compreensão e interpretação da mensagem dada dentro de um contexto – não era e nem é ainda um privilégio de todos, e a compreensão se mostra, destarte, numa margem ainda mais afastada – o que nos leva de volta à teoria marxista. Esta não é o foco neste trabalho, mas ajuda a entender como o conceito de cultura esteve – e ainda está – atrelado à questão da linguagem (principalmente a verbal), sendo essa um componente na legitimidade dos objetos de pesquisa. A questão cultural passa, necessariamente, pela linguagem escrita. O jornalismo em quadrinhos, como experimentação entre comunicação e arte, se beneficia hoje dessa visão menos fechada da cultura e do que se pode focar como objeto de pesquisa. Com essa abertura, a comunicação, é bom salientar, torna-se também um item significativo na amplitude da cultura contemporânea. Se tivesse entrado no mercado há mais tempo, no início dos working papers do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), provavelmente o jornalismo em quadrinhos seria enquadrado também como “o ópio dos intelectuais”, um vanguardismo pitoresco (MATTELART, 2004: 55). 90 As aparentes banalidades da publicidade, dos programas de entretenimento, das modas e outros temas – como as subculturas jovens – ganham monografias desde o início da década de 1970 dos pesquisadores da Escola de Birmingham, berço dos Estudos Culturais. As evoluções, as hibridações, as contradições e a coerência das subculturas, por exemplo, puderam ser vistas através do olhar dos pesquisadores, com uma leitura diferenciada da que a publicidade e a mídia, por exemplo, pintam delas (MATTELART, 2004: 6465). O fato de tais pesquisas terem já retrabalhado o olhar restritivo que a academia tinha para esses micro-universos do cotidiano e para os saberes e fazeres do dia-a-dia abriu caminho para estudos como este a respeito do jornalismo em quadrinhos, cujo processo de produção passa, inevitavelmente, por linguagens que remetem à cultura de massa – quadrinhos, cinema, fotonovela. Nesse ponto chega-se às mediações que fazem com que os meios comunicacionais existam, embora, no caso do JHQ, não se trate de mediações de massa, mas mediações socioculturais que permitem a emergência de experimentações como processo de invenção de novas práticas sociais. Entre editoras, públicos virtuais, condições de produção, ambiente favorável e outros fatores, novos meios emergem como projetos experimentais. Elementos culturais servem de substrato para o surgimento de uma proposta de experimentação como o jornalismo em quadrinhos. Na pespectiva das mediações, o JHQ evidencia-se como uma espécie de “blasfêmia”, por misturar linguagens distintas – jornalismo e história em quadrinhos –, embora ambas já constituam o imaginário moderno do campo comunicacional de modo mais amplo desde o século XX. Tal qual o cordel, como salienta Martin-Barbero (2006), o JHQ mistura uma linguagem considerada culta (jornalismo) com uma outra que está inserida na cultura pop (quadrinhos). Há uma diferença, no entanto: enquanto o cordel é consumido por uma parcela considerada iletrada da população, os livros que se enquadram no JHQ são comprados por uma classe média culta, que entende e 91 que parece estar mais suscetível e disposta a apreender a junção da linguagem verbal do jornalismo com o visual dos quadrinhos. Seria, por outro lado, uma vulgarização. Não é o caso do cordel, que é mediação por não ser uma linguagem erudita tampouco ser uma linguagem popular: ele é as duas. Ele mistura linguagens e religiosidades, e por isso não é bem visto por “quem está em cima”. É possível estender essa visão ao JHQ, que mistura duas linguagens e nem sempre é bem visto – afinal, há quem confunda quadrinhos (mais relacionado à ficção) com jornalismo (mais calcado na realidade). Nesse caso, o JHQ não passaria de uma banalização do jornalismo por meio dos quadrinhos. Apesar de se entender a imagem como uma forma de escrita (BAITELLO JÚNIOR, 2005: 35), um livroreportagem nos moldes do JHQ talvez não seja facilmente compreendido por quem não tem esse conhecimento prévio, por quem não conhece as convenções jornalísticas ou dos próprios quadrinhos. É fato que hoje em dia, não só pelo status de nona arte, mas pela própria presença no meio cultural, os quadrinhos não causam mais tanto estranhamento com sua linguagem, por mais audaciosa que seja60. Bem como o jornalismo não se mostra estranho, mesmo que seja ele dotado de aparências extremas, como é o caso do gonzo journalism61. As duas formas de linguagem já são bem conhecidas, e a junção delas é que, num primeiro momento, pode causar confusão e estranhamento. Confusão porque há quem acredite não ser possível unir jornalismo com quadrinhos, o que poderia dar ao JHQ o aspecto de mero entretenimento com ares de informação. Já o estranhamento se dá pela própria junção, pela linguagem monstruosa que surge a partir da união do jornalismo com os quadrinhos – imagens unidas umas nas outras e o uso da fotografia junto à linguagem das HQs, por exemplo. 60 Cf. nota 13. Trata-se de uma técnica de reportagem criada e desenvolvida no início dos anos 60 nos Estados Unidos pelo jornalista Hunter S. Thompson. Assim como o new journalism de Tom Wolfe, Gay Talese e Truman Capote, o gonzo journalism sugere novas formas de apresentação do texto e também de temas, abordagem e apuração. Um exemplo desta linguagem é o livro Medo e Delírio em Las Vegas – uma jornada selvagem ao coração do sonho americano (Conrad, 2007), escrito por Thompson e adaptado ao cinema por Terry Gilliam (Fear and Loathing in Las Vegas, EUA, 1998). 61 92 A questão que pode surgir, destarte, é: a confusão e o estranhamento se dão por parte de quem? Pelo menos da parte do jornalismo isso não é tão visível. Não que o JHQ seja ou venha a se tornar um gênero jornalístico e passe a ser amplamente utilizado em redações. Mas há alguns exemplos de reportagens e mesmo de pequenas notícias neste formato, o que demonstra uma aproximação pacífica do JHQ com a forma tradicional da profissão. Há uma classe média que consome esse formato de jornalismo, pois o livrosreportagens tem um preço não acessível a grandes extensões da massa consumidora, e essa classe média não deixa de ser o que move a confecção e a tradução dessas obras. Não que Joe Sacco ou Didier Lefèvre tenham “escrito” suas respectivas reportagens pensando vender milhões de exemplares, mas eles tem o respaldo de existirem um público específico para o tipo de produto que oferecem ao mercado. Se é vulgarização ou não há segmentos de consumidores que permitem mercadologicamente a produção de tais obras: uma classe média culta que demanda o consumo por estas experimentações. O sucesso de obras do JHQ, por exemplo, na França (país onde a aceitação a esse tipo de experimentação já é mais evidente) talvez resida no fato de ser um país com uma numerosa classe média culta, onde emergiram muitas das hoje conhecidas tradições artísticas, vanguardas e onde as artes historicamente tem sido práticas sociais mais presentes no cotidiano da população em geral. Não se pretende aqui subestimar este ou aquele país, mas os números franceses sobre o JHQ apontam na direção de esta ser uma prática jornalística que, além do respaldo acadêmico enquanto um objeto de pesquisa – que assim o é, nesta análise, na perspectiva acadêmica proposta pelos Estudos Culturais –, possui um público que consome e se interessa por este tipo de experimentação. As transformações socioeconômicas e culturais na passagem do século XX ao XXI permeiam as mediações como condição de produção, circulação e consumo de produtos editorais como o jornalismo em quadrinhos. Se a imagem foi no século XX um elemento que propiciou a massificação do consumo de bens culturais, nos dias de hoje, a partir da própria massificação de produtos como 93 histórias em quadrinhos que se permite a invenção de um produto para segmentos cultos, como o jornalismo em quadrinhos. São essas transformações no processo de produção, circulação e consumo que autorizam, no campo comunicacional, a emergência de blasfêmias midiáticas e culturais como o JHQ. Se há meios é porque, como sugere Martin-Barbero, há mediações que configuram historicamente suas condições de existência. A partir das produções seminais de Joe Sacco (Palestina, Uma Nação Ocupada) e do trio francês Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Fréderic Lemercier (O Fotógrafo), além de outras obras que vieram constituindo esse nicho de experimentações entre jornalismo e quadrinhos, percebe-se o quanto a cultura das imagens da comunicação de massa hoje se traduz em novos modos de codificação para segmentos sociais que, acostumados ao consumo de produtos da cultura pop e massiva, se dispõem a fruir produtos que, pelo estranhamento que ainda causam, é preciso, antes de mais nada, ao menos apontar o dedo e reconhecer sua existência. Mas de que se trata exatamente, ainda não se sabe, o que demanda, do ponto de vista da pesquisa, um registro que descreva não suas formas ainda não consolidadas, mas seus contornos mínimos que lhe atribuem um limite entre tantas outras linguagens e um nome: jornalismo em quadrinhos. 94 CONSIDERAÇÕES FINAIS As discussões que hoje permeiam a prática jornalística transitam em qual suporte ela é apresentada ao grande público: webTV, jornal impresso, vídeo, rádio e, como se explicitou acima, em quadrinhos. O jornalismo, prática já estabelecida social e profissionalmente, necessitou de uma alteridade – visualizada nos quadrinhos – para pensar e mesmo enxergar novas possibilidades de experimentações enquanto forma comunicacional. Em 1994 realizava-se a Copa do Mundo de Futebol, Ayrton Senna morria na Itália, Nelson Mandela tornava-se o primeiro presidente negro da África do Sul, a Sony lançava seu videogame no Japão (Playstation), Fernando Henrique Cardoso era eleito presidente do Brasil já no primeiro turno e se iniciava a operação comercial da Internet no Brasil. Enquanto tudo isso ocorria, Joe Sacco lançava Palestina, Uma Nação Ocupada. Sem a pretensão de salvar o jornalismo ou de mudar o mundo – um romantismo atrelado à profissão que, aos que tudo indica, aos poucos morre e se transforma em um engajamento político-social, de fato, sério –, Sacco lançava as bases de uma prática que hoje busca se estabeler no campo jornalístico e comunicacional onde linguagens são imbricadas em prol de uma grande reportagem: o jornalismo em quadrinhos (JHQ). Admite-se que para a produção diária das notícias, tal proposta é difícil e inviável, pois seria preciso adaptar novos horários de fechamento das edições ou mesmo adotar o caráter taylorismo-fordismo (uma intensa, padronizada e fragmentada produção em série visando a redução de custos e elevação de lucros). Não é o caso, pois o próprio Sacco levou sete anos para fazer um livro. A prática do JHQ exige pesquisa, um trabalho muito próximo do trabalho de campo etnográfico. O repórter precisa estar presente para não apenas descrever, mas narrar com matizes pessoais e humanizados um relato a ser noticiado. Há nisso uma re-significação do próprio fazer jornalismo, uma junção entre a comunicação e as artes que é mediada por um cenário sociocultural propício ao surgimento de experimentações como a do jornalismo em quadrinhos. 95 Vive-se um período em que as imagens assumem um papel preponderante, e tudo se transforma em algo para se ver. Tudo se resume, se presume e se reduz, e ao mesmo tempo de beneficia do alargamento das linguagens, da união destas e de novas propostas. Cria-se uma espécie de fábula das linguagens, um texto quase onírico onde elas parecem conviver em harmonia. Mas não é tão simples assim. O jogo não parece ser tão igual a partir do momento em que o jornalismo precisa se estabelecer como tal para que uma experimentação seja aceita como séria. Não se quer aqui vangloriar o JHQ ou Sacco ou mesmo o trio francês responsável pelo álbum O Fotógrafo. Apenas se reconhece a construção de um produto editorial que se mantém e se reproduz diante de um cenário comunicacional adverso, diferente de quando a proposta surgiu. Tendo como pano de fundo a alguns conceitos dos Estudos Culturais, o que se pretendeu aqui foi deslindar o JHQ, suas linguagens e como ele se erige diante de um cenário que, a princípio, não teria espaço para ele: em meio a frenética profusão de imagens numa rotina calcada pela celeridade, propor um trabalho que exige mais tempo para a confecção e para a própria fruição é ir na contramão. Não deixa de ser um desafio comunicacional, já quem nem se estabeleceram ainda convenções que firmem uma “identidade” ao JHQ, essencialmente híbrida. Híbridas, neste contexto, significa linguagens e meios que se misturam, compondo um todo mesclado e interconectado de sistemas de signos que se juntam para formar uma sintaxe integrada (SANTAELLA, 2003: 135) Se o que importa são as quebras significativas de pensamento e a reagrupação de velhos elementos ao redor de uma nova gama de premissas e temas (HALL, 2003) – e esta parece ser a marca do nosso tempo –, o JHQ não é tão estranho assim. A monstruosidade e toda a aparência intrincada de linguagens se desenrolam aos poucos quando observado de perto sob uma perspectiva que vai além da simples observações estética. São obras cujo apelo visual é forte, e isso é inegável. Mas não se resume somente a isso: há todo um conjunto de devires que caracterizam o JHQ ora como arte média (BOURDIEU, 2007) ora como algo que vai além do lugar-comum – tanto em termos jornalísticos como no 96 que diz respeito aos quadrinhos. E nisso ainda exibe um quê de arte erudita, uma vez que não é totalmente igualitária a distribuição de tais produtos culturais – seja pelo preço ou mesmo pelo acesso às edições. Diante isso, o que se pode inferir é que o JHQ, como prática experimental da comunicação, cria um campo novo de linguagens e se destaca no campo jornalístico. Não como salvação, como a panaceia para a crise que aflige os jornais impressos ou o que mais for nesse sentido, mas sim como um novo caminho que pode ser percorrido no que diz respeito a construção de uma grande reportagem que sugere novos ares à fruição de uma notícia. Trata-se de uma proposta experimental que é mediada por questões culturais – tendo a França, país mencionado nos capítulos anteriores, como um dos principais expoentes do gênero – e cujo ponto de partida é a conversão das artes com as comunicações. É um entrelaçamento imagético que traz em si ares etnográficos, de documentários e de todo um arsenal imagético que ilustra de forma poética e jornalística uma grande reportagem. Por mais caótica que possa parecer tal prática – afinal, ao mesmo tempo em que ganha certo status, ela parece perdê-lo justamente por estar agregada aos quadrinhos, a uma cultura popular –, ela tem se estabelecido culturalmente e economicamente – seja pela venda ou pelas edições caprichadas que, como se sabe, tem um custo. Ganhando força nos sujeitos sociais, o JHQ erige narrando os confrontos da vida real, histórias que ganham outros contornos nos traços e nas fotos utilizadas. O JHQ, beneficiando-se da quebra de paradigmas – seja no próprio campo da comunicação como na academia –, constrói um território de linguagens próprio, marca contemporânea da mestiçagem, do hibridismo 62. Reside nisto sua monstruosidade, sua transgressão em ser isso e aquilo ao mesmo tempo – sem contudo deixar de ter uma identidade própria e, paradoxalmente, amorfa. A arte, caso possamos designar-lhe uma mínimo de sentido subversivo, passou a ocupar todos os espaços imagéticos possíveis para a sua veiculação e suas 62 Como ressalta Santaella: “Por volta do início dos anos 80, começaram a se intensificar cada vez mais os casamentos e misturas entre linguagens e meios, misturas essas que funcionam como um multiplicador de mídias” (SANTAELLA, 2003: 15). 97 experimentações. O homem contemporâneo urano vive submerso por uma proliferação incontrolável de imagens. Vive-se numa imensa e irreversível imagoteca universal, proporcionada principalmente pelos meios de comunicação (VENTURELLI, 2004: 85) O campo, o território, o ritmo, o acontecimento: o JHQ se faz presente assim. Talvez indo contra o que diz Nietzsche sobre o jornalismo – discurso feito pelos fracos para os fracos –, a prática é um emaranhado de linguagens que situase no atual signo do excesso – principalmente no que diz respeito à informações e imagens de uma maneira geral – artísticas e de outras categorias. É nesse contexto que o JHQ surge e se apresenta, mediado culturalmente e arquitetado por um intenso e imanente caráter semiológico. 98 BIBLIOGRAFIA AMARAL, Luís. Técnica de jornal e periódico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969. BAITELLO JUNIOR, Norval. A era da iconofagia: Ensaios de Comunicação e Cultura. São Paulo: Hacker Ed., 2005. _______________________. A arte está morta! In: Revista Continuum Itaú Cultural – nº 19, 2007. BECHDEL, Alison. Fun Home: uma tragicomédia em família. Tradução André Conti. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2007. BELO, Eduardo. Livro-reportagem. São Paulo: Contexto, 2006. BELUCHE, Renato. A gênese dos anormais. 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