CÂMARA DOS DEPUTADOS DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES TEXTO COM REDAÇÃO FINAL COMISSÃO DE AGRICULTURA, PECUÁRIA, ABASTECIMENTO E DESENVOLVIMENTO RURAL EVENTO: Audiência Pública N°: 2035/05 DATA: 8/12/2005 INÍCIO: 11h8min TÉRMINO: 13h20min DURAÇÃO: 2h12min TEMPO DE GRAVAÇÃO: 2h11min PÁGINAS: 45 QUARTOS: 27 DEPOENTE/CONVIDADO - QUALIFICAÇÃO SARAIVA FELIPE - Ministro de Estado da Saúde. JARBAS BARBOSA DA SILVA JÚNIOR - Secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. SUMÁRIO: Debate sobre providências tomadas para prevenção da gripe aviária e para combate ao surto da doença no Brasil. OBSERVAÇÕES Houve exibição de imagens. 2 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 [P_40991] O [p_61352]SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Havendo número regimental, declaro aberta a presente reunião de audiência pública da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, a qual tem como objetivo discutir as providências que estão sendo tomadas para evitar que a gripe aviária chegue ao Brasil. Foram convidados para participar desta reunião o Sr. Ministro de Estado da Saúde, Saraiva [p_61353]Felipe, e o Dr. Jarbas Barbosa da Silva Júnior, Secretário de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, os quais já tomaram assento à mesa. Informo aos Srs. Parlamentares que o Ministro terá o prazo de 40 minutos para a exposição, o qual poderá ser prorrogado por mais 20 minutos, por deliberação do Plenário, sendo permitidos apartes apenas durante a prorrogação. Aos Deputados inscritos para formular considerações ou pedidos de esclarecimento será concedido o prazo de 3 minutos, respeitada a ordem de inscrição, dispondo o Ministro do mesmo tempo para a resposta, facultadas a réplica e a tréplica pelo mesmo prazo, improrrogável. Concedo a palavra ao Sr. Ministro Saraiva Felipe, por 40 minutos. O SR. MINISTRO SARAIVA FELIPE - Cumprimento meu colega Deputado Ronaldo Caiado, Presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; o Dr. Jarbas Barbosa da Silva Júnior, Secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde; as Sras. e os Srs. Deputados desta Comissão; as demais senhoras e senhores presentes. Em primeiro lugar, manifesto minha satisfação por estar aqui, atendendo ao convite da Comissão, para participar desta reunião e apresentar as providências que o Ministério da Saúde vem desenvolvendo para controlar a pandemia de influenza — não vou chamar de gripe aviária, porque há um problema terminológico, uma vez que gripe aviária é um problema veterinário, e, na verdade, o Ministério da Saúde está cuidando da pandemia de influenza, cujo agente etiológico mais provável ou que tem feito transmissão até agora de aves para pessoas é o H5N1. Vou pedir ao Dr. Jarbas Barbosa que nos mostre um resumo do plano de contingenciamento brasileiro, que foi apresentado inclusive em reuniões internacionais — no Canadá e em Montevidéu, numa reunião do MERCOSUL — e que eu acho que nos coloca em posição de vanguarda em relação a providências 3 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 tomadas para lidar com a possibilidade de chegada dessa pandemia ao País e da sua transmissão entre pessoas, o que ainda não acontece. O Dr. Jarbas preparou em PowerPoint uma apresentação sobre alguns tópicos, os quais eu acho que ficarão mais bem visualizados assim apresentados. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Concedo a palavra ao Dr. Jarbas Barbosa, Secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. O SR. JARBAS BARBOSA DA SILVA JÚNIOR - Bom-dia a todos os membros da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural. Apresentarei sinteticamente o Plano Brasileiro de Preparação para uma Pandemia de Influenza[p_61354]. (Segue-se exibição de imagens.) Conforme disse o Ministro Saraiva Felipe, há 3 problemas relacionados à gripe, os quais precisamos distinguir. Em primeiro lugar, existe a gripe comum, que nós chamamos de influenza sazonal e acontece todos os anos. Esse é um termo que não usamos muito em português, mas cujo uso estamos considerando importante, até para a diferenciarmos de outras doenças, o que será especialmente necessário no próximo ano, quando começarmos a campanha de vacinação contra a gripe. A [p_61355]gripe, por si só, é um problema de saúde pública, porque causa cerca de 500 mil mortes por ano no mundo inteiro, principalmente nos países de clima temperado — que têm inverno mais marcado e nos quais há maior transmissão de problemas respiratórios — e no grupo de população acima de 65 anos. Nós enfrentamos, atualmente, um grave problema, a gripe aviária, doença que, conforme disse o Ministro, é uma epizootia, ou seja, problema de saúde pública veterinária e que tem impacto social e econômico, mas também representa ameaça futura para a saúde humana. Refiro-me ao fato de esse subtipo de vírus estar, ainda que lentamente, aprendendo a se transmitir de uma pessoa para outra, o que pode vir a ocasionar uma pandemia. A gripe aviária é um problema atual. A pandemia é um problema futuro e incerto. Várias dimensões desse possível problema nós não temos condições de prever quando vão ocorrer nem que gravidade terão. 4 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Sobre a influenza sazonal, o Brasil tem situação privilegiada. Participamos, em outubro, na OMS, de reunião na qual foi feita recomendação para que os países desenvolvidos — que farão agora a vacinação, porque o inverno deles é no começo do ano — atingissem pelo menos 75% de cobertura vacinal no grupo mais vulnerável, os idosos. O Brasil atingiu neste ano 86% de cobertura vacinal entre essas pessoas, porque é um dos poucos países que, além de oferecer a vacina gratuitamente, fazem intensa campanha publicitária, com recursos do Ministério da Saúde, para estimular a população tomá-la. Além disso, temos implantado uma rede de unidades de sentinela. Desde 2000, esse trabalho vem sendo feito, mas com mais força a partir de 2003. Já existem 46 unidades funcionando em 21 unidades federadas e vamos completar o Brasil todo até metade do próximo ano. Tais unidades captam, numa amostra de pessoas que procuram os serviços de saúde com sintomas de gripe, material para fazer o isolamento do subtipo viral. Essa rede captou no ano passado mais de 2.300 amostras, as quais foram identificadas. Tal trabalho serve para que a vacina anual que nós aplicamos seja bem adaptada para os subtipos que circulam no Brasil e serve também para fazermos a vigilância de surtos de influenza quando eles acontecem principalmente em ambientes fechados, como creches e asilos, locais em que têm mais relevância. A gripe aviária é um dos vários subtipos do vírus. Alguns deles são específicos do ser humano, outros são específicos de aves, outros, ainda, são compartilhados entre espécies. Os vírus da gripe podem acometer porcos, cães, cavalos e aves diversas, inclusive migratórias e domésticas. O problema que enfrentamos hoje é a transmissão de um subtipo do vírus, o qual é considerado de alta patogenicidade, quer dizer, causa uma doença grave em aves — já levou à morte milhões de cabeças de frango no mundo inteiro. Já houve vários surtos, os quais começaram em 2003, principalmente no Sudeste Asiático, mas mais recentemente também acometeram alguns países da Europa. No canto direito do vídeo, podemos ver aquelas manchas vermelhas, que representam os países nos quais houve surtos de influenza aviária. E nós vemos que isso ocorreu não só na Ásia, mas agora também na Europa. Essas grandes linhas vermelhas, pretas e azuis são as rotas de aves migratórias, que geralmente fazem o percurso Norte/Sul. Ainda não se sabe 5 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 exatamente qual é o papel da ave migratória na transmissão do vírus. Esse é um dos pontos que está sendo inserido na agenda de prioridades de pesquisa. Porém, como há possibilidade de a transmissão ocorrer, é importante levarmos em conta tal fator. Neste mapa-múndi observamos a situação distinta dos diversos países em relação a surtos da influenza aviária. Em vermelho, pegando uma grande parte do continente asiático, está a situação de maior risco, a categoria 1. Nesses locais, o H5N1 está endêmico e vem ocorrendo desde 2003, e os países, por falta de recursos tecnológicos e financeiros principalmente, não conseguiram ainda erradicar os focos da doença. Em [p_61356]amarelo, está marcada uma região de categoria 2, que engloba grande parte da Europa Central, considerada área epidêmica. Na região, têm sido isoladas aves com o H5N1, mas, felizmente, tem-se conseguido controlar rapidamente a doença. Portanto, não há endemicidade em nenhum país da Europa. É considerada de alto risco toda a Europa, pela proximidade geográfica com os locais nos quais está circulando o vírus. A África é considerada região em situação de risco. Na categoria 4, a de mais baixo risco, está toda a região das Américas. Essa é uma região que tem muito baixo risco para surto em animais, porém pode ser acometida se houver uma pandemia. É importante chamarmos atenção para algo sobre o qual o Brasil fez, junto com outros países da América Latina, uma declaração: baixo risco não significa risco nenhum. Logicamente, neste momento está sendo dada prioridade à destinação de recursos para a Ásia, mas é importante também que os países das Américas, muitos dos quais têm baixa condição de se organizar para fazer frente a um surto de gripe aviária, sejam contemplados. Essa manifestação do Brasil e de outros países, bem como a presença do nosso Ministro da Saúde na reunião de Ottawa e na do MERCOSUL, entre outros eventos, já tem mobilizado o próprio Banco Interamericano de Desenvolvimento a apoiar na região iniciativas que consigam ajudar no controle da doença. O maior problema da gripe aviária atualmente é o impacto econômico e social por ela causado, porque a medida de controle fundamental é a eliminação das aves. Há regras mundiais para se lidar com o problema, mas a grande dificuldade hoje enfrentada é o problema econômico. 6 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 A Holanda enfrentou, em 2003, um surto de outro subtipo, também de alta patogenicidade. Em conseqüência do mal, morreu uma pessoa, um veterinário que trabalhava numa fazenda de criação. Em 3 semanas, o país erradicou três milhões e meio de aves e assim controlou a doença, que, em menos de 1 mês, estava absolutamente erradicada. Qual é a dificuldade enfrentada para exterminação dos animais? A principal delas é o fato de o frango ser uma proteína animal de alto valor nutritivo e baixíssimo custo. O maior problema é como convencer um pequeno produtor do interior da Indonésia ou da China a notificar rapidamente as autoridades da doença, sabendo que, por isso, a sua criação vai ser totalmente exterminada. O impacto social e econômico da doença, portanto, é forte. Já morreram em decorrência dela ou foram erradicadas mais de 120 milhões de cabeças de frango no mundo. Com a persistência da gripe aviária surge outro problema: o vírus demonstrou que pode passar de uma ave para um ser humano. Nunca houve — é importante realçar — transmissão pela ingestão de ave. Então, não há nenhum temor, nem mesmo na Ásia, de continuar ingerindo frango, desde que seja cozido, assado, frito etc. Tal perigo é ainda menor no Brasil, em que não foi registrado nenhum caso de gripe aviária. É importante que isso seja esclarecido, porque, como a globalização hoje também se reflete nas notícias, alguém pode ler no Brasil uma notícia sobre a gripe aviária e achar que já tem que se precaver. Não há, entretanto, nenhuma necessidade dessa medida. Os casos em que a gripe acometeu seres humanos foram restritos a pessoas que tinham contato direto com as aves e suas secreções, pessoas que trabalhavam com criações de aves. Isso mostra a necessidade de fortalecimento da vigilância sobre a saúde animal e da colaboração entre Ministérios da Agricultura e Saúde. Houve, na semana retrasada, no Brasil, a Conferência Hemisférica, evento em que estiveram representados todos os Ministérios da Agricultura e da Saúde do continente — também estavam presentes os produtores brasileiros de aves. Foi feita, então, uma declaração conjunta exclusivamente sobre a gripe aviária. Quanto ao impacto das medidas de prevenção e controle, há que se dizer que o Brasil está em situação vantajosa, pois não é importador, mas exportador de aves — aliás, o maior do mundo —, o que já é uma prevenção. Mesmo no que diz 7 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 respeito a aves exóticas, que poderiam também transmitir o vírus, não há motivo de preocupação, porque o Brasil também é exportador desses animais. Mas, ainda assim, o Ministério da Agricultura e os produtores têm tomado medidas concretas de proteção, as quais eu imagino que já tenham inclusive sido comunicadas a esta Comissão. Passarei agora a faltar de problemas que afetam diretamente os seres humanos. Quanto à possibilidade de ocorrência de uma pandemia de influenza, há que se considerar que houve 3 delas no século passado. A mais grave foi a chamada gripe espanhola, de 1918 e 1919. Houve mais uma [p_41807]nos anos [p_41808]50 e outra no final dos anos 60. A gripe espanhola foi anormalmente grave. Num país como o Brasil, as outras 2 não chegaram a ser percebidas como grave problema de saúde pública. Isso quer dizer que, quando olhamos para o futuro, projeções apontam que vamos repetir a gripe espanhola. Elas, contudo, não são baseadas em evidências técnicas e científicas. Não temos condições de dizer qual é a gravidade disso. É pouco provável que tenhamos mortalidade igual à da era do pré-antibiótico. Grande parte das mortes atribuídas à gripe espanhola na verdade não o foram. Muitas foram causadas por pneumonias bacterianas, que sobrevieram à gripe. Não podemos prever, portando, qual vai ser a gravidade disso. Aconteceram casos em seres humanos há 15 dias. Todos eles em 5 países da Ásia. A transmissão é relativamente baixa, se levarmos em conta que os seres humanos conviveram com aves infectadas há 2 anos. Então, 2 anos depois, registramos pouco mais de 130 casos. Ou seja, o vírus ainda não aprendeu a passar rapidamente da ave para o ser humano. Ainda não sabemos se isso vai acontecer e em quanto tempo. Há possibilidade de estarmos nos mirando muito no H5N1 e na verdade ele nunca aprender a passar de uma pessoa para outra e ser outro que, daqui a 2, 3, anos aprenda. É o que provavelmente acontece. Esse vírus, ao infectar uma pessoa, pode trocar material genético com um vírus que já acomete pessoas, o H3N2, muito comum entre os seres humanos. Nessa troca de material genético, pode gerar outra variedade de H5N1, que pode ser transmitido de uma pessoa para outra. Ou ele pode sozinho — o que é mais difícil, mas não é impossível — fazer uma mutação, ele mesmo, e aprender a se transmitir de uma pessoa para outra. Nessa circunstância, teríamos uma pandemia. 8 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Há, contudo, algo que nos chama a atenção: a alta letalidade quando mais da metade dos casos ocasionou mortes. Isso não se repetiria, de forma alguma, no caso de uma pandemia. Por quê? Porque não há vírus que alie alta transmissibilidade, período curto de incubação, com alta letalidade. Se ele mata tantos dos veículos que ele teria para se reproduzir, perde a capacidade de se reproduzir. Um exemplo disso é o vírus Ébola. Quando ele surgiu causou um temor no mundo. Diziam que ele poderia disseminar-se na África e causar gigantesca mortalidade. A letalidade do Ébola é 70% mais alta do que a do H5N1. Qual é o problema do Ébola? Ele tem uma letalidade tão alta que dá surtos sempre muito localizados. Acomete 50, 80, 100 pessoas e pára a transmissão, porque a letalidade é tão alta que ele não consegue disseminar-se muito rapidamente. Estima-se que o vírus da gripe espanhola, que tinha alta letalidade, chegava a 2%. É apenas para termos uma idéia, porque há pessoas que lêem essa coluna e pensam que haverá 3 bilhões de mortes se houver a pandemia. Isso, contudo, não procede. Para termos proteção global, tem de haver plano de preparação em todos os países. A notificação tem de ser imediata para podermos conter isso na fonte. O Ministério da Saúde tem participado dessas reuniões internacionais. Hoje todos nós temos a crença de que há mecanismos para se fazer uma contenção rápida se a detecção também for precoce. Essa imagem tem sido muito usada. Se enxergarmos a fagulha rapidamente, conseguiremos contê-la. Se apenas a detectarmos quando houver um incêndio, aí vai ser mais difícil. O mundo hoje já dispõe de mecanismos de vigilância epidemiológica e medidas de contenção capazes de bloquear o vírus rapidamente, impedindo-o de se espalhar pelo mundo inteiro. Isso se for detectado na fonte. Por isso, é importante criarmos um ambiente internacional de transparência e de cooperação, como encontros internacionais. O seminário que fizemos no Rio de Janeiro para apresentar o plano, a recente conferência e os encontros a que o Ministro fez referência têm contribuído para construirmos esse ambiente de transparência e de cooperação, assim como a ampliação do acesso a alguns insumos críticos, como vacinas e antivirais, e a garantia do seu uso racional. O problema não é o tamanho do estoque do Tamiflu. 9 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Segundo [p_41809]estudo da Organização Mundial de Saúde, com apenas de 1 a 3 milhões de doses de Tamiflu conseguiremos conter na fonte a pandemia se tivermos a notificação nos primeiros 20 dias. O problema não é o tamanho do estoque. É se ele vai estar disponível para uso onde for necessário, a fim de fazermos o bloqueio. O plano brasileiro começa a ser preparado em dezembro de 2003. Quando reapareceu o H5N1 em humanos, logo nos primeiros casos instalamos um comitê técnico e começamos a estudar o assunto. Em agosto de 2005, o Ministro Saraiva Felipe fez sua primeira reunião com nossa equipe e nos solicitou que déssemos prioridade à aceleração desse plano, a fim de ficarmos completamente preparados, com todo o plano pronto. A partir daí, instituímos um grupo de trabalho e fizemos várias reuniões ampliadas. Esse plano está agora sendo inclusive integrado com o plano da agricultura e com o trabalho dos outros Ministérios com um grupo executivo interministerial estabelecido em outubro por decreto presidencial. Esse grupo vai inclusive se reunir hoje à tarde. Estamos trabalhando em conjunto com os Ministérios da Agricultura, da Saúde, da Defesa, da Fazenda, do Planejamento, das Relações Exteriores, com o Gabinete da Segurança Institucional e com a Casa Civil. Tem sido um trabalho bastante integrado. O grupo vai produzir relatórios mensais para o Presidente da República, tendo em vista essa integração. Já apresentamos relatórios para o Conselho Nacional de Saúde. Tem sido muito importante essa participação em reuniões internacionais, nas quais o Brasil tem exercido inclusive papel de liderança em relação à necessidade de fortalecer esse fluxo de recursos e de suporte técnico para que os países em desenvolvimento tenham capacidade de responder rapidamente à questão. Apresentamos o plano em seminário internacional e o debatemos. Recebemos críticas e sugestões. Temos plena consciência de que o plano não está fechado nem acabado. Num plano como esse, no qual trabalhamos com previsão de cenário, seria uma arrogância que beiraria a estupidez se considerássemos que ele estaria pronto e acabado. O plano não é para ficar arquivado numa biblioteca. Ele é exatamente para ser implantado e ser constantemente reposicionado ante ocorrências novas que vão surgindo. 10 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 O objetivo é impedir a introdução dessa cepa. Caso ela ocorra, reduzir a disseminação, os impactos sanitários, econômicos e sociais. O plano está estruturado em 8 capítulos. Ele vai desde a descrição epidemiológica da influenza, descreve a atual estrutura e prevê, dos capítulos 4 ao 7, ações específicas para cada período. O objetivo é não tomarmos medidas exageradas nem insuficientes. Por último, ele traz uma atualização de medidas no âmbito legal, as quais deveremos tomar para fazermos contenções etc. O plano também possui vários anexos. Eles trazem desde os aspectos clínicos até o manual de normas, controle de infecção, eficácia da vacina e manejo clínico de pacientes, recomendações para hospitais de referência no atendimento, protocolo de investigação do surto, ações de vigilância sanitária em portos, aeroportos e fronteiras. No atual momento, não há nenhuma medida em relação ao ser humano, porque não há nenhuma transmissão entre eles. As medidas tomadas nos portos, aeroportos e fronteiras estão no âmbito do Ministério da Agricultura, a quem compete impedir a entrada de material, aves etc. Agora, estamos globalmente na fase 3. Detectamos 1 ou vários casos de infecção humana com novo subtipo viral em algum país estrangeiro de outro continente. Há uma série de recomendações para isso. Há no plano as medidas que devemos tomar nessa fase. Se for detectado um conglomerado de transmissão entre seres humanos com pouco casos, passamos para novo nível de alerta e de recomendação. Na fase 5, estão os períodos de alerta pandêmicos. Algumas atividades do plano já estão em andamento. Ele, além de ser um documento em aberto, é atualizado tecnicamente o tempo todo. Algumas medidas já têm de estar em campo. A primeira que já está em campo são a expansão e o aprimoramento do Sistema de Vigilância Epidemiológica da Influenza. É aquela tabela que mostrei aos senhores. Já estamos com 46 unidades de sentinela. Vamos fechar todas as 27 [p_518010]unidades federadas, até o primeiro semestre do próximo ano. Segundo. Investimentos para a produção nacional de vacinas contra a influenza. O Brasil, nesse particular, tem situação privilegiada. Atualmente, só temos fábricas de vacina contra influenza em países desenvolvidos. Até porque, acredito, 11 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 entre os países não desenvolvidos, o Brasil é o único que oferece gratuitamente, fruto da própria concepção do Sistema Único de Saúde, essa vacina para os idosos. Em 1999, foi feito um acordo de cooperação com os laboratórios Aventis Pasteur e o Instituto Butantan de São Paulo, para transferência tecnológica. Em 2003, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou com o Governador de São Paulo um acordo de cooperação para que os recursos dos 2 entes reunidos chegassem a mais de 50 milhões de reais, a fim de que fosse implantada uma fábrica de vacinas contra influenza em São Paulo. Naquele momento, cogitava-se a produção de uma vacina sazonal, que utilizamos todos os anos, mas se trata da mesma planta que pode produzir a vacina contra a cepa pandêmica. A vacina estará pronta ao final do próximo ano. Para nos anteciparmos, adiantamos 3,5 milhões de reais ao Instituto Butantan. No começo do próximo ano, apesar de mais restrita, já haverá uma área pronta para produzir uma vacina contra a cepa pandêmica. A vacina da gripe é específica para cada subtipo, por isso não se pode começar a fabricá-la desde já, porque não se sabe que subtipo será responsável pela pandemia, ou até mesmo se haverá tal incidência. Mas, havendo um protótipo desse subtipo, o Brasil — em companhia do México e da Índia — será 1 dos 3 únicos países não desenvolvidos com condições de produção local da vacina. Da mesma maneira ocorre com o antiviral. Estamos explorando com Farmanguinhos e Roche a possibilidade de transferência de tecnologia para a produção local. Não é um processo simples, quer dizer, o antiviral mais efetivo, o Tamiflu, advém de um produto natural, um similar do anis-estrelado, portanto, com limitada capacidade de produção. E, além dos mais, a produção é complexa, possui 10 fases. Estamos discutindo, e, se viável técnica e economicamente, o Brasil terá interesse e já assim se manifestou perante a Roche. Estamos discutindo na seara técnica a viabilidade dessa transferência de tecnologia. Igualmente estamos realizando inquérito para detecção do vírus da influenza em aves migratórias. Fizemos, no mês passado, em Mangue Seco, no Estado da Bahia, na divisa com Sergipe, o nono inquérito, resultado de parceria entre os Ministérios da Saúde, da Agricultura e do Meio Ambiente. Em todos os grandes locais de pouso de aves migratórias, estamos fazendo tais inquéritos. O alvo são as 12 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 aves e os animais das redondezas, a exemplo de galinhas, porcos, cães etc. Assim já procedemos em Coroa do Avião, em Pernambuco, na Lagoa dos Peixes, no Rio Grande do Sul, e no Maranhão. Próximo ao Distrito Federal, no Parque da Águas Emendadas, também faremos um inquérito, mesmo não sendo um dos principais locais de pouso das aves migratórias. É um trabalho permanente. O fato é que estamos buscando agulha em palheiro. Se não encontrarmos, não quer dizer que algumas dessas aves migratórias infectadas não chegaram ao Brasil. Mas é uma medida que já está em curso. Há outra ação, qual seja a revisão da política nacional de defesa civil, realizada em conjunto com o Ministério da Integração Nacional, que também compõe aquele grupo multiministerial já reunido. Fizemos a aquisição do estoque estratégico de antivirais. O Ministério da Saúde comprou 9 milhões e 130 mil tratamentos, o que corresponde a 91 milhões de doses. Os primeiros 14 mil tratamentos chegam ao País até 31 de dezembro e serão utilizados para treinamento de pessoas nos Estados, porque fizemos a compra de um tipo de formulação específica para uso em saúde pública. É necessário, portanto, um centro em cada Estado para ensinar o técnico a fazer a formulação, pois o composto vem em um pequeno balde com 10 mil tratamentos. O Tamiflu será utilizado como estoque estratégico para uso em 2 situações: para tratar pessoas acometidas da forma grave da doença ou para fazermos [p_518011]a profilaxia. Quer dizer, enquanto esperarmos a fabricação da vacina, que vai levar uns 6 meses entre a detecção da cepa até a concepção final da vacina, o Tamiflu pode ser usado com eficácia para bloquear o vírus. Com isso, pessoas que porventura forem contaminadas, se tomarem apenas 2 doses de Tamiflu em um período muito rápido, próximo a 48 horas, não terão a doença e não a transmitirão a um terceiro. Assim, bloqueia-se a transmissão. Foi elaborado material para capacitar a rede de vigilância epidemiológica e assistencial em Estados e Municípios. Estamos fazendo a revisão da legislação específica com a ajuda de um grupo sob a coordenação da Profa. Sueli Dallari, que tem trabalhado conosco para diagnosticar a necessidade de alguma outra medida. Por fim, estamos concluindo um estudo de modelagem, para desenhar cenários de disseminação no Brasil de uma pandemia. 13 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 O Ministro tem sido muito cuidadoso e está tentando evitar fazer estimativas. Por quê? Porque, por vezes, o sentido do termo “estimativa” para os epidemiologistas é bastante diferente daquele divulgado pela imprensa. Para nós, estimativa tem significado impreciso. Para a população, porém, pode ser entendido como previsão, como se estivéssemos prevendo a ocorrência de determinado número de casos. Isso é absolutamente inconsistente. Para termos uma idéia, o melhor órgão de vigilância do mundo, o CDC de Atlanta, que desenhou o primeiro modelo matemático para casos que tais, afirma que a previsão de leitos necessários no Estados Unidos varia de 2% a 20% dos casos. Ou seja, a margem de erro é de até 10 vezes. Outro exemplo desse tipo de confusão foi evidenciado quando o Coordenador do Grupo das Nações Unidas para o Combate à Gripe Aviária, o Dr. David Nabarro, fez uma estimativa de que poderia haver em torno de 150 milhões de mortes. No dia seguinte, ele foi desautorizado pelo Diretor da OMS, pois se tratava de absurdo exagero. A OMS estima que, no máximo, haveria o dobro das mortes já registradas normalmente, ou seja, de 1 milhão a 5 milhões de óbitos. Estamos aperfeiçoando esse modelo matemático utilizado pelo CDC para a realidade brasileira, mas qualquer modelo matemático necessita de parâmetros, os quais hoje não conhecemos. Portanto, pode ou não haver uma pandemia. Cito um segundo exemplo: trata-se da pandemia chamada de Gripe Russa, da qual alguns especialistas negam a qualidade de pandemia, de tão benigna. Ou seja, o conceito de pandemia contempla um evento de baixa gravidade ou um de alta gravidade. Não sabemos prever exatamente quantos leitos ou óbitos, mas estamos fazendo essa modelagem e nos preparando para os piores cenários. Então, cada Estado está se programando. Se necessitarmos de 1.000 leitos, sabe-se de antemão quantos estarão disponíveis nas redes pública e privada. Se precisarmos de leitos em hospitais do Exército ou na UTI, isso também está sendo avaliado. A previsão genérica é a de que, a cada 100 casos, 50 não demandarão qualquer atendimento médico, pois serão tratados como gripe comum. Dos 50 restantes, 8% necessitarão de internação hospitalar, 92% serão tratados somente como ambulatoriais. É com base nessas estimativas que estaremos percorrendo os Estados para precisar as necessidades. 14 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Pontos críticos. Há disponibilidade limitada de antivirais. Esse não é tanto o caso do Brasil, pois já adquirimos um estoque. Mas vários países das Américas nem sequer tiveram condições de comprar seus estoques estratégicos de antivirais. Há, igualmente, limitação da disponibilidade de vacina. Devemos levar em conta que, se fizermos um uso racional da vacina, não precisamos necessariamente vacinar todo mundo. A varíola foi erradicada do mundo sem se vacinarem todas as pessoas do planeta. Em 1997 tivemos uma epidemia de sarampo, mas conseguimos detê-la vacinando apenas menores de 5 anos, apesar da ocorrência de casos em adultos jovens. Então, estratégias adequadas, principalmente no sentido de detectar com rapidez e conter a pandemia, são capazes de limitar a expansão da doença. A utilização adequada dos recursos assistenciais é importante para que não sobrecarreguemos nosso sistema de saúde. Outro aspecto relevante é a comunicação transparente e com base em evidências, para evitar o que acontece em casos de epidemias, quando, por exemplo, alguém diz que nada está sendo feito e que o Tamiflu deve ser tomado desde já. Ou seja, quem tiver estoque do Tamiflu não saberá quando tomá-lo. Deverá fazê-lo quando der um espirro ou somente quando tiver uma febre. Como a pessoa vai saber se está acometida apenas de um resfriado ou da gripe aviária? O [p_518012]fato é que não há estudos sobre o uso do Tamiflu a longo prazo. Portanto, um hipocondríaco que passe 3 meses ingerindo a droga estará fazendo a si próprio um mal muito maior do que aquele provocado pela doença. É importante haver comunicação com base técnica e evidências, para que sejamos transparentes, mas sem causar qualquer pânico ou outro problema. Estamos nos preparando para a seguinte situação: gripe aviária não é um evento incomum. Nas Américas, houve a detecção, na Colômbia, de um foco de gripe aviária. Não se tratava de uma cepa de alta patogenicidade, ou seja, não apresentava risco para a saúde animal ou humana. Mas, durante 48 horas, até se conseguir a informação técnica sobre o que estava realmente ocorrendo, o pânico instalou-se nos países vizinhos. Portanto, há um preparo para, se se detectar qualquer vírus de influenza aviária no Brasil, utilizarmos nossa capacidade laboratorial para identificar rapidamente a natureza da doença e, assim, não permitir dúvidas ou pânico. 15 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 A coordenação entre as várias áreas é trabalho desse comitê, assim como a garantia de elevado apoio político e suporte financeiro fazem parte do mesmo esforço. O Ministro Saraiva Felipe tem sido um advogado constante dessas ações e, em público ou em reuniões, defende a necessidade de implantação desse plano. A presença dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento no grupo tem sido muito importante para esse fim. Finalmente, a última e a terceira versão do plano se dará a partir das contribuições deste seminário e de alguns estudos de grupos específicos de comunicação e legislação que ainda estão trabalhando. Ao final de janeiro, já teremos ultimado esse trabalho. Eu ia trazer a versão atual impressa, mas está esgotada. A nossa presença em fóruns internacionais demandou um número grande dessas cópias, mas o texto encontra-se disponível na Internet, e já reservei alguns exemplares para as Comissões de Saúde e de Agricultura. Quem quiser verificar algum ponto do texto basta acessar a Internet. Quanto à elaboração dos planos estaduais, devo dizer que 6 Estados já o fizeram, mas queremos todos os 27 Estados preparados até abril. A partir daí as ações se concretizam. O plano nacional possui diretrizes, protocolos e orientações, mas a partir dos planos se decidirá quem tomará decisões sobre suspensão de cirurgias eletivas, para não sobrecarregar o hospital. Quer dizer, cada Estado se incumbirá de disponibilizar o número de leitos necessários. No caso brasileiro, há uma vantagem: na pior hipótese, em um ano, serão necessários até 1 milhão de internações hospitalares, as quais não se dão ao mesmo tempo. Cada leito produz várias internações em um mês. Mas devemos nos lembrar de que só o SUS produz 12 milhões de internações por ano, além da rede privada conveniada. Ou seja, deverá haver um detalhamento em cada Município brasileiro grande, providência que deverá ser tomada agora, antecipadamente, para não ocorrer às pressas, quando houver necessidade real de leitos. Porém, repito, o Brasil tem situação diferenciada da de outros países com rede hospitalar pequena, ou mesmo de países desenvolvidos que, durante o inverno, enfrentam sobrecarga muito grande em seu sistema de saúde, a exemplo do que aconteceu no ano passado nos Estados Unidos e há 3 anos na Inglaterra. 16 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Estamos trabalhando em outras medidas. Esperamos pela implantação do plano e pela revisão periódica das ações, pois ainda haverá ajustes. O plano não está ultimado. Nenhuma medida acarretará desperdícios. Isso é importante, porque na área de saúde, como o dinheiro é público, sempre estamos nessa busca por mais recursos. O Ministro Saraiva Felipe determinou que tomássemos sempre medidas racionais ao nos prepararmos para esse enfrentamento, mas que não atuássemos sob pressão emocional, para que as ações não resultassem em desperdício. Ou seja, todas as ações terão caráter permanente e reverterão em benefício da saúde brasileira. A fábrica de vacina do Instituto Butantan será fornecedora de medicamentos que serão utilizados todos os anos na vacinação contra a gripe. O Tamiflu, caso não haja pandemia e antes de vencer o seu prazo de validade, será utilizado para tratar os casos graves de gripe que acontecem todos os anos no Brasil, principalmente nos Estados do Sul do País, que têm o inverno mais marcado, assim como parte da Região Sudeste, a população de idosos, pessoas com doenças crônicas, e assim por diante. O fortalecimento da vigilância epidemiológica e dos laboratórios, tanto os do Ministério da Agricultura, quanto o da Saúde, será capaz de nos preparar melhor para uma nova pandemia, ou seja, as medidas tomadas com base racional não redundam em desperdício. Por [p_518013]último, a contribuição brasileira para esse ambiente global de transparência. O Ministro Saraiva Felipe participou dessas reuniões internacionais, em especial da de Ottawa. Detectou-se um problema político, global e econômico. Os países desenvolvidos não podem pedir aos países da Ásia que notifiquem qualquer caso rapidamente, pois não se trata de deixá-los à mercê da sorte, com pessoas morrendo. Quer dizer, ou se cria um ambiente de cooperação e mobilização de recursos ou o mundo estará desprotegido. O Brasil tem dado contribuições e participado muito ativamente de todos esses esforços. Era o que eu gostaria de dizer. 17 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Muito obrigado pela exposição, Dr. Jarbas Barbosa. Dando prosseguimento à audiência pública, vamos passar a palavra, pelo prazo de 5 minutos, ao Deputado Moacir Micheletto, co-autor do requerimento de realização desta reunião. O SR. DEPUTADO MOACIR MICHELETTO - Sr. Presidente, Srs. Ministros, Sras. e Srs. Deputados, há pouco a imprensa nos indagou por que a Comissão de Agricultura convidou o Ministro da Saúde para tratar de assunto não pertinente à agricultura. Devo dizer que estamos ouvindo aqui depoimentos de médicos, além do fato de nosso Presidente e os Deputados Waldemir Moka, Darcísio Perondi, Enéas, Dr. Rodolfo e Alexandre Maia, enfim, de todos serem médicos, este último médico veterinário. É lógico que toda a ênfase dada aqui foi sobre o efeito da gripe aviária, ou seja, sobre as decorrências na área da saúde e da agricultura. Seria uma estupidez se o Governo e as autoridades das 2 áreas não tivessem ainda um plano. Estou satisfeito com a explanação do Secretário. Há um cenário criado pela síndrome do medo, uma paranóia social sobre o que está acontecendo. Quero ressaltar a gravidade do fato, pois a gripe aviária pode alastrar-se pelo corredor migratório. Como foi bem abordado, somos um país eminentemente exportador, portanto, pela distância dos focos já registrados, é pouco provável que a doença chegue ao Brasil. Faço apenas uma observação, Sr. Ministro — até para não ser repetitivo, porque outros Deputados, que são médicos, têm mais competência para fazer perguntas da área a V.Exa. —, sobre o plano conjunto dos Ministérios da Saúde e da Agricultura para saber onde estão os focos. O foco certamente estará no campo, nas aves infectadas que porventura lá estejam. Pergunto: esse trabalho está conjugado com as metas a curto, médio e longo prazos concebidas em parceira com o Ministério da Saúde? O orçamento disponível é suficiente para esse plano emergencial que os senhores estão colocando em prática? Sr. Presidente, é apenas essa a minha observação. Deveremos convidar também a área competente no Ministério da Agricultura para vir a esta Casa e expor o seu plano de ação, em especial as dirigidas ao produtor e às regiões produtoras. 18 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Sou do Estado do Paraná, da maior região produtora de frangos da América do Sul, e não podemos sequer pensar em um foco dessa doença naquela região, o que traria problemas enormes do ponto de vista econômico e social. Pretendemos, portanto, ouvir também o Ministério da Agricultura, que é a mola propulsora das ações junto do produtor rural e d[p_518014]os grandes Estados produtores, principalmente Paraná e Rio Grande do Sul, que hoje detêm 80% da produção de aves do Brasil. Parabéns, mais uma vez, ao Dr. Jarbas Barbosa pela explanação que em muito vai colaborar para estancar a síndrome do medo, a paranóia social criada pela imprensa. O Ministério da Saúde poderia dar maior divulgação a essas informações, para que não se causem maiores transtornos, inclusive à biossegurança no Brasil. Era o que tinha dizer. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Peço ao Deputado Luis Carlos Heinze que assuma a presidência dos trabalhos para que eu possa formular perguntas ao Sr. Ministro, na condição de co-autor do requerimento de convite a S.Exa. para comparecer a esta reunião. (Pausa.) O SR. PRESIDENTE (Deputado Luis Carlos Heinze) - Concedo a palavra ao Deputado Ronaldo Caiado. O SR. DEPUTADO RONALDO CAIADO - Sr. Ministro Saraiva Felipe, Dr. Jarbas Barbosa, Secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, quero agradecer a V.Exas. e à sua assessoria, pois, no momento em que foi formulado o convite, imediatamente colocaram-se à disposição desta Comissão para apresentar os documentos e os trabalhos já elaborados pelo Ministério em relação ao programa de combate à gripe aviária. Sr. Ministro, precisamos deixar claro, em primeiro lugar, se a gripe aviária vai chegar ou não ao Brasil. O Dr. Jarbas Barbosa afirmou que não podemos dizer quando chegará ao País, mas uma certeza já temos: a de que chegará. Ouvimos há poucos dias autoridades norte-americanas dizerem que em 3 meses a gripe aviária já terá atingido os Estados Unidos, com previsão de contaminação de aproximadamente 90 milhões de norte-americanos. Gostaria de saber se essas informações procedem. 19 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Ainda sobre as informações dadas pelo Dr. Jarbas Barbosa, destaco que a migração das aves não se dá no sentido leste/oeste, mas, sim, norte/sul. Ou seja, são exatamente as aves que vêm dos Estados Unidos, do Estado do Alaska. Ora, esse controle do diagnóstico precoce, como bem citou o Deputado Moacir Micheletto, é que nos preocupa, Sr. Ministro, porque a área de defesa agropecuária do Ministério da Agricultura foi destruída, totalmente desintegrada. Existem apenas resquícios de um serviço de defesa agropecuária. Para que V.Exa. tenha uma idéia, o corte no Orçamento para o ano de 2005 foi da ordem de 80%. E todos nós somos testemunhas do que ocorreu com o controle da febre aftosa, exatamente por falta de convênios, fiscais, veterinários, barreiras sanitárias e controles em regiões que sabíamos serem de risco, comprometendo um dos mais importantes setores da economia do País e o superávit da balança comercial. Indago se o Ministério da Saúde tem previsão orçamentária para esse combate, já que se trata de episotia — e muito bem devemos alertar a imprensa sobre a origem e a transmissão do vírus — transmitida por meio das aves migratórias, que podem contaminar outras aves e atingir o ser humano. Como bem disse o Dr. Jarbas Barbosa, até então não houve mutação desse vírus, ou seja, ele ainda não pode ser transmitido de ser humano para ser humano. Mas, pelo conhecimento que temos da área, sabemos que também há possibilidade [p_418015][p_418016] dessa mutação. A área de controle sanitário do Ministério da Saúde tem dotação orçamentária capaz de dar continuidade ao programa de prevenção que se iniciou em alguns Estados, como V.Sa citou? É possível ser ampliada para outras regiões e Estados a pesquisa para detectar a presença de aves migratórias com o vírus? Pode haver controle na região? Fomos informados agora de que a destinação orçamentária do Ministério da Agricultura para o controle sanitário de aves no Brasil — vejam bem — é de 1 milhão de reais. Pode ser que seja ampliada para 5 milhões. Esse setor é responsável por mais de 3 bilhões e 200 milhões de reais apenas em exportações. No Orçamento, para essa área específica de aves, a previsão é de 3 bilhões e 400 milhões de dólares da balança comercial. Há previsão para o Ministério da Agricultura de 1 milhão de reais. 20 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Estamos vendo que se trata de faz-de-conta. Não temos como manter, com 1 milhão de reais, o controle para o diagnóstico precoce, caso aconteça contaminação pelo vírus H5N1. Tenho outra pergunta a fazer ao Dr. Jarbas: é adequada a estrutura dos laboratórios instalados no Brasil? Qual a capacidade deles, ao ser identificada a cepa, para a produção de vacinas? Quais os convênios que o Governo Federal pode ter firmado com o Governo de São Paulo e com outras unidades? Dizia-me há pouco o Ministro Saraiva Felipe que existe diferença entre a quantidade de doses de Tamiflu. Esse produto antiviral é destinado ao paciente acometido e ao que é tratado preventivamente, se não me engano, mudando de 10 doses para o paciente com o vírus e aquele que pode ter tido o contato, mas não tem sinais da gripe aviária. O estoque de Tamiflu que o Ministério da Saúde mantém é suficiente para quantos milhões de brasileiros, diferenciando-se os casos de diagnóstico precoce, de profilaxia e de tratamento antecipado, após contato com o vírus, mas sem que o paciente tenha sintoma? Quantos brasileiros poderíamos atender, em caso de contaminação, com o atual estoque do Ministério da Saúde? Os casos letais, acima de 50%, foram ou não tratados com Tamiflu? Os pacientes foram diagnosticados mas não tiveram acesso ao antiviral? Sobre o uso do antiviral, qual é a estatística existente hoje? Os resultados são positivos nos casos em que não existem evidências de sintomas? Foi feita a prevenção pelo fato de terem tido contato com o vírus? Nos casos em que já existem sintomas, qual o percentual de óbitos [p_519817]e de cura de quem foi contaminado pelo vírus Influenza? Em caso de contaminação, V.Sa. falou da necessidade de 1 a 2 milhões de leitos hospitalares. Pergunto se teríamos disponibilidade desse número de leitos em todos os Estados ou apenas nas regiões com maior número de granjas ou de criatórios. Para as regiões com maior incidência e risco é que devemos voltar a atenção, em nossos Estados? São essas as perguntas que formulo ao Sr. Ministro. E faculto as respostas ao Dr. Jarbas Barbosa. A exposição do Sr. Ministro Saraiva Felipe foi muito bem feita e demonstrou o profundo conhecimento que S.Exa. tem da matéria. Agradeço ao Ministro a presença na nossa Comissão de Agricultura. 21 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Era o que tinha a dizer. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Carlos Heinze) - Agradeço ao Presidente da nossa Comissão, Deputado Ronaldo Caiado. Neste momento em que falamos de escassez de recursos, seja no âmbito do Ministério da Agricultura, seja no âmbito do Ministério da Saúde, e em que está presente à nossa reunião o Ministro da Saúde, para tratar de tema extremamente importante para a avicultura, contamos também com a presença do Senador Gilberto Mestrinho, Presidente da Comissão Mista de Orçamento, a quem agradeço e pergunto se deseja se manifestar. O SR. DEPUTADO WALDEMIR MOKA - Sr. Presidente, apenas quero registrar que o Senador Gilberto Mestrinho tem sido importante aliado da bancada da agricultura na Comissão Mista de Orçamento. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luis Carlos Heinze) - Não sei se V.Exa. é ruralista, mas está nos ajudando muito. O SR. SENADOR GILBERTO MESTRINHO - Lamentavelmente, sou apenas Senador do Amazonas. O desvio que houve da atenção do Governo em relação ao agronegócio de modo geral está gerando conseqüências agora. Há descaso na liberação de verbas para o setor, o que causou grande baixa na atividade agrícola. Além dos fatores climáticos, da seca, tivemos o caso da ferrugem na soja, mas sobretudo faltaram recursos na área de vigilância sanitária, e isso está causando prejuízo de mais de 500 milhões de dólares ao País. Prejuízo maior é o do conceito que vamos ter lá fora. A bancada ruralista da Câmara tem adotado posicionamentos muito fortes na defesa de seus pleitos. E a bancada da saúde também já vem atuando há muito tempo. Há mandamento constitucional apenas escritural, ou seja, não é cumprido na prática. As verbas destinadas à área da saúde têm sido contingenciadas. Isso faz com que a própria Comissão Mista de Orçamento perca a sua principal finalidade. O Governo ignora que o Congresso foi criado há séculos para apreciar o orçamento. Daí surgiram outras atribuições, mas o que se queria no início era o controle dos gastos públicos, da receita pública. No entanto, no Brasil isso não está sendo obedecido. Este País tem receita efetiva de 500 e poucos bilhões. Embora o 22 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 orçamento seja de 1 trilhão e 600 bilhões, a receita efetiva, o valor de que o Governo vai dispor é de 500 e poucos bilhões, dos quais 178 serão destinados ao pagamento de juros e encargos da dívida. Sei [p_519818]que o Ministro sofre grande pressão. E estou aqui não só para assistir ao final da reunião, mas também para convidar S.Exa. a comparecer à Comissão Mista de Orçamento, porque eu preciso ouvi-lo, até por solidariedade. Agradeço a deferência, Deputado Ronaldo Caiado. Acreditamos neste País, mas ele ainda precisa de muitas mudanças. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luis Carlos Heinze) - Dando seqüência aos trabalhos, informo que os próximos oradores inscritos são os Deputados Dr. Rodolfo Pereira e Waldemir Moka, a quem peço licença para conceder a palavra ao Deputado Francisco Turra, inicialmente, tendo em vista que S.Exa. tem viagem marcada. Para encerrar o bloco, o Ministro pede que 3 oradores se manifestem. O SR. DEPUTADO WALDEMIR MOKA - Essa camaradagem gaúcha é complicada aqui na Comissão. Em se tratando de um ex-Ministro, vou ceder; é caso de hierarquia, e sou um homem disciplinado e obediente. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luis Carlos Heinze) - A pedido do Ministro, ouviremos 3 oradores. Em seguida, S.Exa. responderá às perguntas. Depois ouviremos os demais. Com a palavra o Sr. Deputado Francisco Turra. O SR. DEPUTADO FRANCISCO TURRA - Sr. Presidente, vou apenas fazer uma observação, nenhuma pergunta, nenhum questionamento. Antes, preciso devolver a cortesia. Gostaria de pedir ao Deputado Moka que integre o primeiro bloco, para que não sofra prejuízo. Sr. Presidente, Sr. Ministro, somos de uma região em que a avicultura é a força da economia, tanto do Estado quanto local. A avicultura está concentrada em algumas regiões. A nossa, por exemplo, é uma delas. Depois desses acontecimentos, vejo que surgiu uma boa relação entre os Ministérios da Saúde e da Agricultura, dentro do possível, e a iniciativa privada. Acho que nunca houve ação pró-ativa como essa. Aliás, quero felicitar o Ministério da Saúde bela brilhante ação de prevenção que adotou. Mas ainda falta maior e melhor debate na base, para que os técnicos 23 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 dos Ministérios da Saúde e da Agricultura cheguem a essas regiões e informem, orientem, sem causar pânico. Posso citar o exemplo do que ocorreu na Colômbia. Há algum tempo, recebi a informação de que morreu um lote de aves com problema. Mas não tinha nada a ver com a gripe aviária. Isso, pelo amor de Deus, é um desastre. A desinformação e o pânico podem causar problemas a um país. Se essa notícia tivesse chegado a um órgão de imprensa sequioso por divulgar casos bombásticos, seria fatal até para a nossa credibilidade. Então, Sr. Ministro, quero que considere a hipótese de deslocar técnicos para as regiões em que a avicultura é atividade forte e importante, para realizarem, se possível, debate muito transparente com os produtores brasileiros. Será um bem para o País. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Passaremos a palavra ao Sr. Ministro Saraiva Felipe. Lembramos que o Dr. Jarbas Barbosa tem total liberdade para também responder aos questionamentos que lhe forem dirigidos diretamente. Passo a palavra ao Sr. Ministro. O SR. MINISTRO SARAIVA FELIPE - Eu gostaria de agradecer-lhes as intervenções. Vou tentar fazer um roteiro das questões mais gerais e, quando entrarmos nas mais específicas, como as epidemiológicas, passarei a palavra ao Dr. Jarbas Barbosa. Vou começar pelas considerações do Deputado Moacir Micheletto. Quanto [p_519819]ao tema abordado por S.Exa., o Brasil apresenta vantagens e desvantagens. O nosso País exportou no ano passado 2 bilhões de dólares em aves, valor superior ao da exportação de carne bovina. O Brasil não é o principal destino ou ponto de circulação de pessoas oriundas da região em que a doença é transmitida mais de aves para pessoas. Nós temos migração do norte para o sul e do sul para o norte; não há aves migratórias vindas da Ásia, da Europa Central e de regiões em que há gripe aviária. Pedimos que fosse feita pesquisa relativa à percepção da população sobre o noticiário da gripe aviária. Trinta e nove por cento das pessoas se manifestaram temerosas com o consumo de aves ou derivados. 24 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Além de proselitismo, tenho publicado artigos e mobilizado equipes para levarem a mensagem do Ministério aos Municípios. E, para que essa mensagem chegue, eu dependo da articulação com Estados e Municípios. Eu não teria como chegar diretamente aos Municípios. Aliás, eu percebo que nessa sistemática de distribuição de competências dentro do Sistema Único de Saúde ainda há certo embaralhamento. Por exemplo: eu não tenho gerência local de serviços. No mais, eu dependo de uma boa articulação tripartite, que envolva o Conselho de Secretários Estaduais e Municipais. Estamos dando esclarecimentos até tranquilizadores porque não temos no Brasil casos de gripe aviária, muito menos de pandemia de Influenza H5N1. Estou chamando a atenção para o fato de que as notícias começaram a ser veiculadas de forma muito bombástica e de que temos de trabalhar no sentido de dar a elas a real dimensão. Ou seja, que elas não causem preocupação porque não se trata de possibilidade concreta. Em relação às inquirições do Presidente da Comissão, Deputado Ronaldo Caiado, sobre se vai ou não chegar ao Brasil uma pandemia de Influenza, tenho a dizer que essa resposta não existe. Pandemia é a epidemia que atinge vários lugares do mundo, que é extensiva em relação aos países. A resposta, com essa objetividade cobrada, ninguém vai poder dar, nem os cientistas que estão trabalhando com isso no mundo inteiro. Ninguém sabe. Até agora, o vírus que tem transmitido a doença das aves para as pessoas é o H5N1. Mas, em todos os seminários em que discutimos esse assunto, percebemos que os imunologistas e microbiologistas não sabem. Por isso é que não se pode antecipar a produção de vacina. Existe alteração genética que possibilita ao vírus de fita simples se transformar num vírus capaz de ser transmitido de pessoa para pessoa. Pode ser que a configuração do vírus que vai provocar a transmissão entre pessoas, depois uma epidemia e uma pandemia, tenha até mudado. Não temos como antecipar isso. Trata-se de prospecção. O [p_519820]mundo tem de tomar consciência de que trabalhar em rede é uma possibilidade concreta. Hoje temos meios de proteção da população muito mais desenvolvidos tecnicamente do que em 1918, quando não se tinha nem antibiótico, e o mundo estava estiolado pelo fim de uma guerra mundial. Hoje a situação é diferente. Tenho aproveitado a experiência internacional, sobretudo dos países do 25 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 sudeste da Ásia, para diminuir um pouco a minha ansiedade. Mas repito: ninguém consegue dar essa resposta com tal precisão. Quanto ao diagnóstico precoce, V.Exa. tem razão absoluta. A doença se difundiu, sobretudo no Vietnã, porque não havia fundos que garantissem a indenização aos produtores, mesmo com a informação de que havia um vírus que poderia provocar doença em seres humanos. Provavelmente, houve retardo na informação. Aqueles produtores devem ter pensado o seguinte: “Vamos ver se fica por aqui, porque se não vão chegar e matar as aves do meu galinheiro”. Então, a detecção precoce e a conscientização em âmbito municipal têm de acontecer. Estamos cobrando, de acordo com a sistemática do SUS e a partir dos planos estaduais que estão ficando prontos, o detalhamento a respeito das pessoas ou dos órgãos responsáveis. Vai ser a Prefeitura? Vai ser o Secretário Municipal de Saúde? O chefe do Departamento Municipal de Saúde? O Secretário Municipal de Agricultura? Mas existe realmente a necessidade de distribuirmos a responsabilização local. Na condição de sanitarista, eu dei ênfase muito grande a tudo isso. No primeiro dia no Ministério, chamei o pessoal da epidemiologia e pedi que estudassem esse assunto, porque já havia lido a respeito dele. Mas não adianta ter um bom plano nacional sem raízes municipais ou locais. Falarei agora sobre a área de controle sanitário da saúde. Eu trabalhei no Ministério da Saúde de 1988 a 1991, no cargo de Secretário Nacional de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Se houve uma área que me provocou gratíssima surpresa foi a de epidemiologia. Tanto que o Dr. Jarbas continua na equipe a convite meu; não existiu qualquer interferência política. Trata-se de uma área bem estruturada. Estamos montando, para ser inaugurada em janeiro, uma sala de situação informatizada. Eu acho que vai ser uma das mais fantásticas do mundo. Vou poder acompanhar em tempo real a notificação de casos de malária em qualquer cidade da Região Norte do Brasil. Bastará ligar o computador. Nós fizemos uma previsão e uma provisão de recursos de 2005 a 2007 de 1 bilhão de reais para enfrentarmos uma situação dessa natureza. É um volume de recursos considerável. Os gastos com a compra de Tamiflu ascenderam a 193 milhões de reais. O Brasil é o único País da América do Sul que dispõe de Tamiflu. Eu já estou até 26 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 sendo cobrado por países vizinhos no sentido de ser solidário em relação ao estoque, no espírito do MERCOSUL, porque não existe mais possibilidade de aquisição do medicamentou. Um único laboratório o produz: Roche. E a tecnologia é complexa. Outro dia me perguntaram por que eu não quebro a patente. Quebrar a patente daquilo que não temos como produzir é ridículo. Só quebraríamos a patente se tivéssemos segurança em relação às condições de produzir em território nacional. Quando não se tem essas condições, quebrar a patente significa desabastecimento, significa fechar a porta de acesso ao produto. O seguinte cálculo foi feito: 91 milhões de doses corresponderiam a 9 milhões e 100 mil tratamentos. Só que, para o tratamento, são utilizadas 10 doses. Identificada a pessoa com o vírus, para fazer o bloqueio de contato, usam-se apenas duas doses.[p_518621] O Ministério está se preparando para, em caso de pandemia, com transmissão de pessoa para pessoa, tenhamos esquemas de detecção rápida e possamos fazer não apenas o tratamento, mas também o bloqueio de contato. Inicialmente, isso é suficiente. Há negociação entre Biomanguinhos e Laboratório Roche, de tal forma que ele nos forneça a droga semiprocessada, para que continuemos o processamento. Poderíamos, nesse caso, dar segurança a outros países da região. Vou falar sobre um tema algo complexo nesta Comissão. Em relação à febre aftosa, o surto talvez nos tenha propiciado, por exemplo, conseguir recursos e até ajudar o Ministério da Agricultura. Para V.Exas. terem uma idéia, o Ministério da Agricultura recebeu 28 milhões de reais para a ativação de laboratórios veterinários. A informação que tínhamos era a de que eles estavam praticamente desativados. Então, se somarmos os problemas econômicos advindos da crise de febre aftosa, da ameaça de pandemia de Influenza e da gripe aviária, houve mobilização e formação de um grupo executivo interministerial. A primeira necessidade apresentada aos Ministérios da Fazenda e do Planejamento foi a de mobilização de recursos. Nesse aspecto, acendeu-se a luz vermelha porque a gripe aviária não vai entrar no País. Isso facilitou o trabalho do Ministério da Saúde. Gostaria de registrar que, no caso da ameaça de gripe aviária, foram importantes as unidades sentinelas. Em 2000, havia 3 unidades sentinelas 27 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 epidemiológicas; agora existem 46, em 21 Estados; e fecharemos o ano que vem com unidades sentinelas em todos os Estados. Elas pegam milhares de casos de gripe e fazem o isolamento para classificar o tipo de vírus que os está provocando. É possível que fortuitamente consigamos nos antecipar a qualquer tipo de expansão local da doença. A questão apresentada pelo Senador Gilberto Mestrinho é importante, sobretudo no aspecto do Orçamento da Saúde. A Emenda à Constituição nº 29 teria mais eficácia se conseguíssemos regulamentá-la. Evitaríamos a utilização de recursos da área da saúde em atividades não específicas. Isso tem ocorrido. Nada existe, por exemplo, que impeça o fornecimento de alimentação popular a preços subsidiados, desde que não seja incluído como atividade do setor Saúde. Se não, lazer e esporte dele também farão parte. A idéia não é essa. Quando lutamos pela Emenda nº 29, a idéia era de vincular os recursos ligados à área específica da saúde, indo da promoção até os atendimentos mais complexos. A possibilidade de burlar essa vinculação é decorrente da falta de regulamentação. No plano dos Estados e Municípios isso também ocorre. Poucos Estados cumprem a regra de aplicação dos 12%, prevista na Emenda à Constituição nº 29. Essa regulamentação é importante. O Deputado Francisco Turra nos fala sobre a necessidade de aprofundamento do debate, e tem toda a razão. Não [p_518622]adianta elaborarmos planos nacionais, se não enraizarmos a discussão até o nível municipal. E, no âmbito da agricultura, é muito importante a discussão, baseada já em experiências internacionais, sobre a existência do fundo para indenização dos produtores, caso efetivamente a gripe aviária chegue ao Brasil. As experiências internacionais mostram que, se não houver a segurança da indenização, o alerta precoce não vai ocorrer. O produtor, mesmo tendo conhecimento dos sintomas de gripe aviária nas aves, dificilmente faria comunicação precoce, se não tivesse a garantia da indenização pelo extermínio. Eu peço ao Sr. Jarbas que complete as informações sobre o uso do Tamiflu e a eficácia do tratamento, no caso da contaminação pelo vírus Influenza. O SR. JARBAS BARBOSA DA SILVA JÚNIOR - Obrigado. Complementarei as informações muito rapidamente. (Segue-se exibição de imagens.) 28 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 O Tamiflu é um medicamento utilizado para qualquer subtipo do vírus da gripe aviária. É o que tem mais eficácia e causa menos resistência. Os subtipos de vírus têm maior facilidade de desenvolver resistência a outros antivirais também efetivos contra o vírus da gripe. Por isso o Tamiflu está sendo utilizado mundialmente. Na grande maioria dos casos relatados, não foi utilizado Tamiflu porque eles ocorreram em regiões muito pobres. Também veremos que esse vírus aprendeu muito lentamente a passar de aves para humanos. Mostrei muito rapidamente o slide, mas ressalto que já houve 1.800 surtos de gripe aviária no Vietnã — não são casos; são surtos —; 1.164 na Tailândia; 216 na Indonésia; 84 na China. Apesar desses milhares de surtos de gripe aviária, só houve 130 casos em seres humanos. Portanto, o vírus felizmente ainda não é um bom “passador” de aves para humanos. Se houver algum caso no Brasil, o que terá de ser feito rapidamente? Terão de ser aplicadas as medidas que a Defesa Sanitária Animal recomenda: fazer o extermínio de aves num raio de 3 quilômetros; colocar as aves sob observação num raio de 10 quilômetros; e usar Tamiflu de imediato nos trabalhadores da fazenda. É pouco provável que isso ocorra, mas devemos estar prontos para o uso do medicamento. O Tamiflu usado nos surtos de Influenza mostrou bons resultados tanto no tratamento quanto no bloqueio de contato; em alguns casos, chegou a 80%. Por isso ele está sendo considerado a arma de que vamos dispor entre o momento da detecção e o da obtenção da vacina. A Organização Mundial de Saúde tem-se recusado a dizer qual a quantidade de Tamiflu que um país deve comprar porque isso depende da estratégia de cada um e da gravidade da gripe. Estamos em posição intermediária. Compramos Tamiflu em quantidade correspondente ao tratamento de 5% da população brasileira. Para bloqueio, chegamos a 45 milhões de pessoas. Proporcionalmente à população, compramos menos do que a Inglaterra porque ela vivenciou, há 3 anos, um debate sobre se havia ou não epidemia muito grave. Houve divulgação de imagens na televisão de idosos acometidos por gripe, esperando por leitos em corredores de hospitais, o que nunca vimos no Brasil. Mesmo nos invernos rigorosos, nunca há acometimento desse tipo. Compramos quantidade de Tamiflu parecida com a comprada pelo Canadá, país do Hemisfério Norte, e maior do que a adquirida pelo Chile, nosso vizinho, que 29 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 comprou quantitativo proporcional ao tratamento de 1,6% da população. Tínhamos alguns cenários de escolha e optamos pelo intermediário exatamente para atingir o equilíbrio, ou seja, estarmos preparados, mas sem comprar estoque tão grande que não pudesse ser utilizado depois. A disponibilidade[p_518623] de leitos hospitalares será igual em todos os Estados? Provavelmente não. Temos acompanhado, principalmente desde a adoção da vacina contra a gripe, as internações e a mortalidade em virtude de suas complicações. As Regiões Norte e Nordeste praticamente não têm sazonalidade. Como não existe inverno rigoroso, as pessoas não ficam reunidas o tempo todo; quase não se percebe variação durante o ano. Na Região Sul, essa variação é mais marcada pelo inverno. Mas a situação é completamente diferente da verificada em um país como o Canadá, onde estivemos há pouco, acompanhando o Ministro, ou de um país europeu, onde a vida ao ar livre durante os 3 meses do inverno é praticamente impossível. As pessoas ficam o tempo todo em ambientes fechados, e a incidência de transmissão de qualquer doença por via respiratória cresce muito. É por isso que, para eles, gripe sempre é importante problema de saúde pública, mesmo a chamada gripe sazonal. Provavelmente, a nossa situação será diferente em virtude do que estamos fazendo. Usamos a média dos modelos matemáticos norte-americanos desenvolvidos, mas não estamos satisfeitos. Estamos trabalhando juntos: o nosso pessoal e um grupo de estatísticos da FIOCRUZ, especialistas em modelos, para precisar em Manaus e Porto Alegre o grau de faixa. Se os norte-americanos, pais do modelo, têm uma faixa que varia 10 vezes, não estamos preocupados em acertar exatamente quantos casos vão surgir, mas em preparar precocemente a rede para, se necessário, ter recursos hospitalares e leitos de UTI disponíveis. Por último, os laboratórios realmente são muito importantes porque os sintomas são os mesmos. Não sou veterinário, mas há aqui um especialista presente. Os sintomas são iguais. Só se pressente que há algo anormal porque a patogenicidade é alta. O vírus provavelmente mata muito mais do que os de baixa patogenicidade. Mas o isolamento tem de ser laboratorial. Por isso, esses recursos a que o Ministro Saraiva Felipe fez referência são fundamentais para recuperar e pôr em pleno funcionamento os laboratórios do setor de agricultura. A área da saúde já 30 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 tem 3 laboratórios credenciados pela Organização Mundial de Saúde: 1 no Pará, no Instituto Evandro Chagas; 1 em São Paulo, no Instituto Adolfo Lutz; e 1 no Rio de Janeiro, na FIOCRUZ. Somos um dos países não desenvolvidos que têm não só 1, mas uma rede de 3 laboratórios que cobrem distintas regiões. Por último, sobre a previsão dos 3 meses, esclareço que vi esse número ser repetido há pouco em matéria jornalística. É daqueles números que se tornam verdadeiros pela repetição. Desconheço a base efetiva dessa previsão. Provavelmente, como disse o Ministro, começando a haver transmissão entre humanos, a entrada nas Américas se dará pelos Estados Unidos ou pelo Canadá, que têm mais fluxo turístico com a Ásia. A SARS, por exemplo, entrou pelos Estados Unidos e foi contida lá; não chegou a nenhum outro país do continente americano. Aliás, ela entrou pelo Canadá, chegou aos Estados Unidos e foi contida. A nossa expectativa é a de que, chegando ao Canadá ou aos Estados Unidos, países que dispõem de recursos técnicos e financeiros, a doença seja logo contida devido à maior facilidade de contenção de que dispõem. De qualquer forma, temos de estar preparados para a eventualidade de ocorrer algum caso no Brasil. Mas não há imediatismo. Havendo forte transmissão na Ásia, provavelmente num período de meses, haveria algum caso no Canadá ou nos Estados Unidos, pelo fluxo de passageiros. Isso não quer dizer que daqui a 3 meses ocorrerão casos no Brasil. São coisas completamente distintas. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Em virtude do avançado da hora, passarei a palavra aos 4 últimos oradores inscritos. Depois, novamente concederei a palavra ao Sr. Ministro. Com a palavra o Deputado Dr. Rodolfo Pereira, para formular a sua pergunta, pelo prazo de 3 minutos. O SR. DEPUTADO DR. RODOLFO PEREIRA - Sr. Presidente, Sr. Ministro, Sr. Jarbas Barbosa, algumas das perguntas que eu teria a formular dizem respeito à barreira epidemiológica, bastante explicada pelos convidados; bem como às regiões de maior risco em virtude da migração de aves e do maior volume de criação de frango; ao treinamento de profissionais da saúde e à preparação de unidades em cada Estado para atender os pacientes; à fiscalização, pela ANVISA, de portos e aeroportos. Acrescento aqui a educação em saúde, extremamente importante, haja vista que a doença vai acometer um cidadão do campo, que [p_518624]não tem 31 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 conhecimento sobre como fazer a notificação dos casos até que chegue ao médico de um setor de emergência, às vezes despreparado para tratar daquela patologia, que vai perder tempo e permitir a contaminação de outras pessoas. Ministro, aqui surge a primeira pergunta. Quando tratamos de outras patologias, como dengue, malária e AIDS, todas letais; e de outras menos letais, como tuberculose e hanseníase, temos total controle em relação à etiologia, à forma de transmissão; dispomos de mais doses de medicamentos do que os destinados ao tratamento da Influenza aviária; e não conseguimos conter seu avanço com todo o amparo e os sistemas de vigilância implantados pelo Ministério da Saúde. No caso de algumas doenças extremamente regionais, como a malária, que só acomete parte da população do Brasil, há variação de controle. O Sr. Jarbas sabe que há 3 ou 4 anos houve grande avanço no que se refere à malária, com redução de mais de 50% dos casos no Amazonas, por exemplo, e hoje estamos voltando a patamares fora do controle. Quantas campanhas fizemos para combater a dengue? Pergunto aos senhores como é possível confiar nas ações dos Governos, mesmo nas pactuações, que são o caminho correto mas difícil de seguir, porque em alguns Municípios não há sequer condição de movimentação de pessoal porque faltam veículos ou porque não foram consertados os que o Ministério cedeu? Há falhas; há solução de continuidade no plano de rede que V.Exa. mencionou? Onde se busca a confiança para o combate a essa doença? A minha última pergunta é se o Brasil tem conhecimento e controle de doenças provenientes dos países vizinhos. Naturalmente, no País já houve casos de doenças advindas deles, que não fazem o controle nem o investimento que fazemos na área de saúde e que considero bastante eficaz para o tamanho do nosso País. Perguntaria sobre a Guiana Inglesa, que está exatamente na trajetória da migração para o nosso País; sobre a Venezuela, um pouco desordenada na parte epidemiológica. Esse ponto precisa ser observado porque esses países podem ser os nossos contaminadores. Lembro que no nosso Estado, Roraima, há 10 anos havia 2 tipos de vírus da dengue; agora, depois de todos os avanços, são 4. Houve evolução negativa de uma doença de fácil controle. 32 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 São as perguntas que faço, na certeza de haver imenso interesse da parte dos senhores. Caso contrário, não estariam aqui pessoalmente discutindo a questão. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Com a palavra o próximo orador inscrito, Deputado Waldemir Moka, por 3 minutos. O SR. DEPUTADO WALDEMIR MOKA - Sr. Ministro Saraiva Felipe; Sr. Jarbas Barbosa, Deputado Ronaldo Caiado, vejo com satisfação que o Ministério hoje é muito tranqüilo. Manifesto preocupação exatamente igual à do Deputado Dr. Rodolfo Pereira. Sou de Mato Grosso do Sul, V.Exa. sabe. O Pantanal, sem dúvida alguma, causa grande preocupação em virtude da sua extensão e da dificuldade de acesso. Pensando no pior, acho que o Deputado Dr. Rodolfo Pereira tem toda a razão. Aliás, sinto-me atingido porque doenças como a dengue e a malária são complicadas de tratar. Em Campo Grande, em determinada época, é altíssima a incidência de dengue. E sabemos que faltou estrutura e conexão entre o Ministério da Saúde e a Vigilância Sanitária na cidade, o que é fundamental. Em Mato Grosso do Sul especificamente falamos exaustivamente de febre aftosa, por exemplo. Quem falou menos do assunto aqui avisou 5 ou 6 vezes que a crise ocorreria após começarem a ser desativadas as unidades móveis. Não havia prevenção. Penso, Sr. Ministro, até pelo medo que se instalou no País, que talvez fosse importante, durante a discussão da lei orçamentária deste ano, que se alocassem recursos especificamente[p_408725] para epidemiologia. Aproveitemos essa oportunidade. Participo da Comissão de Orçamento, e vários membros estão aqui. Vamos criar. Sabemos que tudo depende de estrutura, que depende de recursos, que não podem nem devem ser contingenciados. Gostaria de começar o ano aproveitando tudo isso para fortalecer, estruturar esse departamento e fazer com que isso chegue a cada Estado e Município. Reforço as considerações feitas pelo Dr. Rodolfo e deixo como preocupação Mato Grosso do Sul, que tem uma fronteira muito extensa tanto com a Bolívia, quanto com o Paraguai. Sem subestimar ninguém, são países que têm dificuldade, sobretudo nessa área, que, para nós, é muito importante. Mato Grosso do Sul 33 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 sempre fica como filtro, como pára-choque, porque não conseguimos evitar esses problemas. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Passo a palavra ao próximo inscrito, Deputado Pompeu de Mattos. (Pausa). Ausente. Concedo a palavra ao Deputado Luis Carlos Heinze. (Pausa.) Ausente. Tem a palavra o Sr. Ministro Saraiva Felipe. O SR. DEPUTADO DARCÍSIO PERONDI - Sr. Presidente, posso fazer uma observação? O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Passo a palavra ao Deputado Darcísio Perondi. O SR. DEPUTADO DARCÍSIO PERONDI - Serei breve. Assisti à exposição do Dr. Jarbas Barbosa e do Sr. Ministro. A impressão que tenho é de que o Brasil se organizou, o que é muito bom. Parabéns, Sr. Ministro e equipe! Como a gripe aviária pode atingir as pessoas e a febre aftosa não, com certeza V.Exa. está agregando mais apoio do que teve nosso Ministro Roberto Rodrigues durante a crise da febre aftosa. Isso mostra que o Ministério está atento e preparado. Torceremos para que essa gripe não chegue aqui. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Passo a palavra ao Ministro Saraiva Felipe. O SR. MINISTRO SARAIVA FELIPE - Sr. Presidente, Deputado Ronaldo Caiado, não estou procurando fazer elogios. Há muitos buracos no sistema de saúde brasileiro, mas às vezes a notícia negativa supera os dados positivos apresentados. As 3 Américas conseguiram, em 1994, o Certificado de Erradicação da Poliomielite, conferido pela Organização Mundial de Saúde e que a Europa só conseguiu em 2002. Dr. Rodolfo, o senhor sabe por que perdemos esse certificado? O senhor sabe onde a doença reapareceu? Nos Estados Unidos. Se fosse aqui no Brasil, eu estaria na Comissão de Seguridade Social e Família tendo de dar todas as explicações do mundo. Alguém imagina como aconteceu um caso de poliomielite no Brasil? A doença foi reintroduzida nas Américas pelo país mais desenvolvido. A justificativa é que há comunidades religiosas refratárias à vacinação. O certo é que a doença reapareceu e está-se pensando em voltar a fazer o que estamos fazendo: 34 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 vacinação em massa. Em relação à poliomielite, Dr. Rodolfo, a cobertura vacinal que houve na última etapa foi de 95,6% das crianças na faixa etária de 0 a 5 anos. Aqui já se falou sobre vacinação de idosos. Falemos agora sobre a dengue, doença para a qual não há vacina nem remédio e depende de conscientização coletiva. Voltaremos [p_408726]a fazer maciça campanha em rádio, jornal, televisão, primeiro do Poder Público, que tem a gestão sobre recursos humanos. Ontem foi apresentado o LIRA — Levantamento Rápido do Índice de Infestação pelo Aedes aegypti. O Rio de Janeiro, pela infestação, é a cidade mais vulnerável. Talvez não haja uma epidemia de grandes proporções, porque ela já teve tantas que as pessoas já estão imunizadas, em função de surtos anteriores. No Rio, o índice é altíssimo, e há 12.500 pessoas disponíveis, sob a coordenação das Secretarias Estaduais e Municipais. Prorrogamos os contratos de 5.000 mata-mosquitos quando de minha gestão como Ministro. O pessoal da antiga SUCAM está à disposição do Governo do Estado do Rio de Janeiro, além do pessoal contratado pelos Municípios, com recursos consideráveis repassados pela Secretaria de Vigilância e Saúde. Existe a necessidade de fazer as visitas e a colaboração indispensável da população. Oitenta por cento dos focos, Deputado Mauro Lopes, estão dentro das casas, nos jardins ou nos quintais. Uma tampinha com água limpa e parada serve para a reprodução de centenas de Aedes aegypti. O que houve no Brasil? Um cochilo sanitário — esse é um diagnóstico meu — quando eliminamos a SUCAM, que foi absorvida. Estados e Municípios não assumiram suas responsabilidades, e ficamos, durante algum tempo, sem um organismo federal que assumisse o papel da SUCAM, que visitava as casas e ainda escrevia o nome SUCAM com numeração. Houve uma lacuna, e, com isso, não houve o combate ao mosquito, e o assunto saiu de pauta para a população. Poliomielite e dengue devem ser assuntos permanentes. Estamos voltando a fazer propaganda maciça, para que a população nos ajude. Se não há remédio nem vacina, o jeito é matar, eliminar o mosquito. Quanto à hanseníase, o Brasil está caminhando para a previsão de eliminação da doença como problema de saúde pública em 2008. Existem altos índices de prevalência de tuberculose. Sabemos que isso não depende só do sistema de saúde. Quem é médico aqui sabe disso. Parcela da população é muito pobre. O acesso ao serviço de saúde tem a ver com pobreza, segundo pesquisas já 35 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 realizadas. Então, começa-se a ter a manutenção de alta prevalência, e estamos estudando como intervir para diminuí-la. No caso da malária, cutucarei o problema com vara curta. O que está acontecendo na periferia das grandes cidades tem muito a ver com desmatamentos e descontroles climáticos. Houve um surto de malária em Manaus, e o Ministério teve de intervir, dando apoio. Não há gente para fazer tratamento de malária ou intervir. Em Mato Grosso do Sul, devo trabalhar com a Secretaria Estadual e Municipal. O Ministério é um órgão que dá apoio técnico e é o principal financiador do SUS. Somente estamos prestando serviços ao Rio de Janeiro. Inclusive, recuperei alguns serviços que estavam com o Município. Ademais, não prestamos serviços em lugar nenhum. Claro que todos os problemas batem e rebatem na autoridade sanitária nacional, que acaba sendo o Ministro. Por exemplo, houve uma greve de anestesistas do Governo em Vitória. Junto com o Governador Paulo Hartung, tivemos de intervir, o que funcionou bem. Eles são muito organizados. Nenhum deles é funcionário do Ministério. Em Manaus, ficou claro que houve um desmatamento muito grande na periferia da cidade, além[P_409027] do desequilíbrio ecológico, que chamei — e estou propondo ao Dr. Jarbas escrever um texto com esse título — de pandemônio epidemiológico, porque as coisas estão encadeadas. Por que todos os surtos de gripe surgem no Sudeste da Ásia? Estou curioso, quero saber. Deve ter algum problema ali. Não sei se é pelo acúmulo de população em condições precárias, mas deve haver uma razão. O caso de Manaus é ilustrativo. O que aconteceu foi um desmatamento violento na periferia da cidade. O Anopheles darling, mosquito que transmite a malária e é hematófago, não teve mais condições de se alimentar de animais silvestres, como macacos, e começou a migrar para onde havia sangue, ou seja, invadiu a cidade de Manaus. Aconteceu ainda, em função do furacão Katrina, um desequilíbrio ecológico: a maior seca em muitos anos, o que favoreceu a procriação do mosquito. As coisas estão encadeadas. A intervenção do homem na natureza acaba provocando o que eu chamo de pandemônio epidemiológico, que precede as pandemias. 36 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Às vezes, a vulnerabilidade não está ligada apenas ao dinheiro, senão a doença não teria reaparecido nos Estados Unidos. O Secretário de Saúde dos Estados Unidos, que foi Governador de Utah por 2 vezes, disse-me uma coisa interessante: que eles tinham que se cuidar em relação à possibilidade de pandemias. Isso porque, depois do que aconteceu em Nova Orleans, quando ficaram expostos a pobreza, a precariedade do sistema de atenção à saúde, o racismo e a situação econômica das pessoas, os Estados Unidos não têm condições de enfrentar um caso de influenza por H5N1. Ou seja, o Governo norte-americano está politicamente vulnerável para enfrentar a questão. Eles também tiveram experiência anterior desagradável com a pneumonia asiática, a SARS, que afetou 2 países ricos, Canadá e Estados Unidos. Isso aconteceu por questões climáticas, mas também por conta de vulnerabilidade. Ou seja, uma rede de proteção absoluta num mundo globalizado, onde as pessoas circulam, onde há disparidades econômicas e problemas ecológicos graves, não existe. Tenho consciência de que há uma falha no nosso plano, o que admito como Ministro: o plano tem que chegar ao Município. Essa é a única forma, Deputado Moka, de termos, em Mato Grosso, por exemplo, condição de nos preocuparmos com os vizinhos, porque é uma região de fronteira. Se não chegarmos aos Municípios de fronteira, se não envolvermos as unidades militares de fronteira na Amazônia, vai ficar essa lacuna. O plano é bom, chegou ao nível estadual, mas a informação deve chegar às pessoas, ao Município. Tenho recomendado isso ao Dr. Jarbas, porque quero que cada Município se manifeste e apresente o nome do responsável para prestar as informações tanto sobre a parte veterinária, quanto sobre o aumento de casos de gripe, para que possamos fazer a detecção precoce. O SR. DEPUTADO MAURO LOPES - Sr. Ministro, aproveitando a oportunidade... O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Por favor... O SR. DEPUTADO MAURO LOPES - Pela ordem, Sr. Presidente. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - O Sr. Ministro tem um horário e ... 37 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 O SR. DEPUTADO MAURO LOPES - É apenas uma pequena intervenção, que pode até servir de orientação. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Pois não. O SR. DEPUTADO MAURO LOPES - É que, às vezes, as pessoas que combatem a dengue se preocupam com pneus velhos, essas coisas. Mas, por conta da insegurança pública, pelo medo de assaltos, as pessoas estão construindo muros altos com cacos de vidro, com fundos de garrafa, que é um verdadeiro criatório de mosquito. Seria interessante alertar para isso. O SR. MINISTRO SARAIVA FELIPE - A informação procede e é uma preocupação nossa. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Sobre a tese que o Sr. Ministro levanta em relação ao desmatamento da Amazônia como um dos fatores, podemos, futuramente, propor a realização de seminário ou congresso sobre o tema. Minas Gerais é um Estado que avançou muito no que se refere a desmatamento, e não tenho notícia da reincidência de malária naquele Estado. De qualquer maneira, Sr. Ministro, colocamo-nos à sua inteira disposição e vamos continuar o debate, que é interessante. Esta [P_409028]foi uma audiência pública extremamente produtiva. V.Exa. atendeu ao convite da Comissão da Agricultura e não só fez uma exposição sobre a febre aviária, mas também se colocou à disposição para toda e qualquer pergunta formulada pelos Srs. Parlamentares. Concordo com o Deputado Waldemir Moka quando diz que V.Exa. conseguiu, com muita competência e habilidade política, pacificar o Ministério da Saúde, onde existia um enfrentamento ideológico que não era produtivo para o País. V.Exa. se ocupa única e exclusivamente da saúde da população, cuidando, sem dúvida alguma, de avançar em termos de investimentos e melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro. Como Presidente desta Comissão, declaro encerrada a audiência pública, que contou com a presença do Sr. Ministro Saraiva Felipe. Havendo número regimental, declaro abertos os trabalhos da reunião extraordinária da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, convocada para discussão e votação do relatório prévio apresentado à Proposta de Fiscalização e Controle nº 38 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 111, de 2005, dos Srs. Abelardo Lupion e outros, que propõe que a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural averigúe o surgimento de febre aftosa no Estado do Paraná. O Relator é o Deputado Cezar Silvestri, e o parecer é pela implementação, nos termos do plano de execução e metodologia de avaliação apresentado. Antes de conceder a palavra ao Relator para que faça a leitura do relatório prévio, o Sr. Ministro terá 3 minutos para responder às perguntas formuladas pela imprensa. Às 13h3min, reiniciaremos a reunião, passando a palavra ao Deputado Cezar Silvestri. (A reunião é suspensa.) O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Dando continuidade à reunião da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, concedo a palavra ao Relator, Deputado Cezar Silvestri, para que faça a leitura do relatório prévio. O SR. DEPUTADO CEZAR SILVESTRI - Sr. Presidente, Srs. Deputados, em 7 de dezembro de 2005, foi apresentada a esta Comissão Proposta de Fiscalização e Controle, de autoria dos Deputados Abelardo Lupion, Dilceu Sperafico, Moacir Micheletto e Assis Miguel do Couto, do Paraná, cujo nome não consta do relatório porque assinou posteriormente, destinada a apurar as responsabilidades do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento — MAPA em relação ao surgimento de foco de febre aftosa no Estado do Paraná. A referida proposta foi registrada pela Mesa da Câmara dos Deputados como PFC nº 111, de 2005. Nos termos do parágrafo único do art. 32 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, é de competência desta Comissão tratar do assunto. A necessidade do ato de controle e fiscalização emerge das posições contraditórias entre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e o Governo do Paraná, a respeito da confirmação ou não da ocorrência de foco de febre aftosa naquele Estado, questão que vem sendo investigada desde meados de outubro último. Segundo o Secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, o reconhecimento da ocorrência de febre de aftosa no Paraná deu-se em razão de 39 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 novos fatos que relacionam os resultados dos testes sorológicos efetuados no Paraná com focos da doença anteriormente identificados em Mato Grosso do Sul. De outro lado, o Governo do Paraná refuta a confirmação de febre aftosa, sendo que técnicos do Estado, inclusive os ligados ao meio acadêmico, entendem equivocada a decisão do Ministério da Agricultura. Esclarecer a veracidade dos fatos é de fundamental importância não somente para a pecuária estadual, mas também para o País, que tanto tem progredido nos últimos anos e muito tem a perder. Sem dúvida alguma, a proposta de fiscalização e controle em tela tem razão de ser. Os questionamentos levantados e os potenciais prejuízos decorrentes de decisões equivocadas exigem[P_583929], para o bem da agropecuária nacional, que o caso seja devidamente esclarecido, com cautela e isenção. O que se pretende não é eximir os pecuaristas de possíveis medidas drásticas inerentes a focos confirmados de febre aftosa, muito menos colocar em xeque o sistema nacional de controle de prevenção e de identificação da doença. Mas é preciso reconhecer, entre outros aspectos, que sistemas são falíveis, especialmente em períodos em que órgãos encarregados de fiscalização e controle enfrentam limitações estruturais e de ordem orçamentária e financeira. Nesse sentido, torna-se necessário discutir a questão com profissionais ligados à área, entre eles os representantes de entidades técnicas e de pesquisa, assim como as autoridades competentes dos Governos Federal, Estadual e Municipal, em busca de posição que reflita com credibilidade a real situação da febre aftosa no Paraná. O tema é complexo, envolve interesses, inclusive, de nossos concorrentes do mercado externo de carnes. Qual é a posição da comunidade técnica e científica? Os testes laboratoriais realizados são suficientes para diagnósticos definitivos? Uma vez esclarecidas questões como essas, ter-se-á maior segurança e conforto para adoção de providências necessárias, qualquer que seja a conclusão a que se chegue. Do alcance jurídico, administrativo, político, econômico, social e orçamentário. Quanto aos aspectos jurídico-administrativos, caberá a esta Comissão verificar a observação, pelos órgãos competentes, da regulamentação em vigor atinente ao controle, à prevenção e à identificação de casos de febre aftosa, assim 40 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 como propor medidas que se mostrarem necessárias ao aperfeiçoamento dos procedimentos. Do ponto de vista econômico-social, a realização da PFC de que se trata tem relevância para boa parte do setor pecuário nacional, abrange interesses de grandes e pequenos produtores e a inserção dos demais elos da cadeia produtiva nos mercados interno e externo. Sob o enfoque político, é dever desta Casa contribuir com sua força fiscalizatória para elucidação dos fatos. É isso que a sociedade espera do Poder Legislativo. Relativamente a questões orçamentárias, caberá verificar a boa e a regular aplicação e a suficiência dos recursos destinados ao Ministério da Agricultura para o controle sanitário de nosso rebanho. Objetivos, plano de execução e metodologia de avaliação. A presente proposta de fiscalização e controle tem como objetivos: Identificar as causas e analisar as possíveis conseqüências da ocorrência de foco de febre aftosa no Estado do Paraná; Investigar as razões do desencontro de informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e o Governo do Paraná quanto à ocorrência ou não de febre aftosa naquele Estado; Averiguar a capacidade técnica e tecnológica dos Laboratórios Nacionais Agropecuários — LANAGROs e os autorizados pelo Ministério da Agricultura no que se refere à realização de análise para identificação de febre aftosa; Analisar as medidas emergenciais adotadas pelo Governo Federal, nos âmbitos técnico, orçamentário e financeiro, com relação às carências e às necessidades das Secretarias de Defesa Agropecuária Federal e Estaduais; Analisar níveis de responsabilidade no âmbito do Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa; Diligenciar no sentido da confirmação ou não de focos de aftosa no Paraná; Propor medidas e diretrizes para aperfeiçoamento do sistema nacional de defesa agropecuária. 41 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Para alcançar os objetivos mencionados, propõem-se as seguintes providências: Realização de reuniões de audiência pública, fechadas ou abertas ao público, em Brasília ou em outra localidade, com especialistas de universidades e representantes de centros de pesquisas e laboratoriais públicos ou privados; representantes de sindicatos, federações, confederações e demais entidades e sociedades ligadas ao setor agropecuário; produtores rurais e profissionais do setor pecuário; representantes e dirigentes de órgãos públicos; Solicitação de informações e documentos a quaisquer órgãos públicos ou entidades de pesquisas ou laboratoriais; Contratação de serviços laboratoriais nacionais ou internacionais; Solicitação de auxílio do Tribunal de Contas da União para realização de auditoria nos programas e ações destinados ao controle e à prevenção de febre aftosa; Proposição de medidas e diretrizes para o aperfeiçoamento do Sistema Nacional de Defesa Agropecuária; Apresentação, discussão e votação do relatório final desta PFC. Por último, o voto, Sr. Presidente. Pelas razões expostas, voto pela implementação da PFC nº 111, de 2005, nos termos do plano de execução e metodologia e avaliação apresentado. É esse o relatório, Sr. Presidente. O [P_583930]SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Em discussão o relatório do Deputado Cezar Silvestri. Para discutir, concedo a palavra ao Deputado João Grandão. O SR. DEPUTADO JOÃO GRANDÃO - Sr. Presidente, é claro que qualquer ação regimental que fosse tomada em relação a essa matéria teria outro destino. Esse relatório não poderia ser aprovado hoje, porque regimentalmente tem prazo para ser distribuído. Tivemos uma conversa com os Deputados Cezar Silvestri, Abelardo Lupion e chegamos a um acordo, até porque o Deputado Assis do Couto também assina a PFC. Por esse acordo, vamos votar, evidentemente, com o compromisso de que o nobre Relator fique aberto a indicações de outros nomes pelo Deputado Assis do 42 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 Couto. Se for o caso, vamos conversar com autoridades sanitárias de Mato Grosso do Sul, tanto com o Secretário de Produção, quanto com o Presidente da Iagro, para saber se têm interesse em participar. A eles vou enviar o relatório da PFC, para que conheçam os objetivos e a metodologia que será usada. Nesse sentido, a bancada do Partido dos Trabalhadores é pela aprovação, no contexto de que já há acordo com o Relator e os proponentes da matéria. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Antes de continuar a discussão, quero esclarecer ao Deputado João Grandão que o art. 67, § 2º, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados é bem claro: “O Presidente prefixará o dia, a hora e a Ordem do Dia da sessão extraordinária, que serão comunicados à Câmara em sessão ou pelo Diário da Câmara dos Deputados, e, quando mediar tempo inferior a vinte e quatro horas para convocação, também por via telegráfica ou telefônica, aos Deputados”. Com isso, gostaríamos de esclarecer... O SR. DEPUTADO JOÃO GRANDÃO - Peço ao nobre Deputado que leia também o art. 47, parágrafo único, por favor. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Refiro-me à sessão extraordinária, na qual o relatório tem que ser lido e distribuído no plenário, e não com antecedência de 24 horas. Não é uma sessão ordinária, mas extraordinária, convocada em período inferior a 24 horas. Então, não existe aqui descumprimento algum do Regimento Interno, a fim de deixar clara a convocação extraordinária, para que o Deputado Cezar Silvestri apresente seu plano de trabalho. O SR. DEPUTADO JOÃO GRANDÃO - Sr. Presidente, insisto na questão do art. 47, porque é notória. Se eu quisesse — algo que não penso em fazer — pedir vista ao relatório, poderia fazê-lo com a maior tranqüilidade. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Perfeitamente. O SR. DEPUTADO JOÃO GRANDÃO - Então, regimentalmente, estamos abrindo mão de pressuposto regimental, porque fizemos um acordo. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Concordo com V.Exa. por abrir mão da prerrogativa que tem de pedir vistas, e a Presidência e toda a Comissão lhe agradecem isso. 43 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 A sessão extraordinária dá a prerrogativa de não ser necessária a distribuição antecipada do relatório por 24 horas. O art. 47 do Regimento Interno diz respeito às reuniões ordinárias, e não às extraordinárias, conforme lemos há pouco. Concedo a palavra ao Deputado Carlos Batata, para discutir a matéria. O SR. DEPUTADO CARLOS BATATA - Sr. Presidente, quero parabenizar a bancada do Paraná, os Deputados Moacir Micheletto e Abelardo Lupion e o nobre Relator. Acredito que, no momento, pela nossa imagem em âmbito nacional e mundial em relação à febre aftosa, o Deputado João Grandão é suficientemente aberto para não se utilizar de artifício regimental algum que provoque atraso. Voto com o relatório do nobre colega e peço à Presidência que nos ajude no Nordeste a obter recursos suficientes para avançar mais na questão da febre aftosa. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Não havendo mais inscritos para a discussão do relatório... O SR. DEPUTADO CEZAR SILVESTRI - Sr. Presidente, peço a palavra antes da votação. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - Antes de colocar o relatório em votação, concedo a palavra ao Deputado Cezar Silvestri. O [P_583931]SR. DEPUTADO CEZAR SILVESTRI - Quero agradecer ao Deputado João Grandão a compreensão e reafirmar aquilo que S.Exa. já disse sobre o acordo realizado, a fim de que conste no relatório a possibilidade de que, nesse período de hoje até terça-feira, o Deputado Assis Miguel do Couto requisite a presença de convidado, como um dos autores da requisição. Para o Relator, não há impedimento. O SR. PRESIDENTE (Deputado Ronaldo Caiado) - A Presidência recebe de V.Exa. a abertura para que o Deputado Assis Miguel do Couto também apresente qualquer sugestão, que será aceita pela Presidência e também pelo Plenário. Em votação o relatório. Os Srs. Deputados que o aprovam permaneçam como se encontram. (Pausa.) Aprovado por unanimidade. Requerimento: 44 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 “Requeremos, nos temos do art. 52, § 5º, do Regimento Interno, ouvido o Plenário desta Comissão, a votação extrapauta do requerimento de autoria do Deputado Cezar Silvestri, que solicita seja realizada reunião de audiência pública para averiguar o surgimento de febre aftosa no Paraná. Sala da Comissão, em 8 de dezembro de 2005. Deputado Cezar Silvestri”. Havendo acordo, não há necessidade de votação nominal, conforme exigência regimental para requerimento de votação extrapauta. Em discussão. Não havendo quem queira discutir, em votação. (Pausa.) Aprovado por unanimidade o requerimento extrapauta. Requerimento, do Deputado Cezar Silvestri, para que a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural promova audiência pública para averiguar o surgimento de febre aftosa no Paraná: “Sr. Presidente, Requeiro a V.Exa., com as prerrogativas do art. 52, § 5º, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, e na condição de Relator da Proposta de Fiscalização e Controle nº 111, de 2005, que busca averiguar o surgimento de febre aftosa no Estado do Paraná, que a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural promova audiência pública no dia 13/12/2005, às 14h, solicitando a presença das seguintes autoridades: Dr. Gabriel Alves Maciel, Secretário de Defesa Agropecuária — SDA-MAPA; Dr. Jorge Caetano Júnior, Diretor do Departamento de Saúde Animal — DSA-SDA; Dr. Coordenador-Geral Jamil de Gomes Combate às de Souza, Doenças — CGDC-DAS; Dra. Tânia Lira, do Ministério da Agricultura; Dr. Ravison Dalanágua, de Porto Alegre; Dr. Gilfredo Darcy, Parafitose do Rio de Janeiro; Dr. Raimundo Costa, 45 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão de Agricultura, Pecuária, Abast. e Desenvolvimento Rural Número: 2035/05 Data: 8/12/2005 do CESUMAR do Paraná; Prof. Amauri Alfieri, da UEL; Dr. Silmar Bürer, da CONESA do Paraná; Dr. Felisberto Batista, Chefe do Departamento de Fiscalização e Defesa Agropecuária do Paraná; Dra. Maria do Carmo Pessoa Silva, da Divisão de Defesa Animal da Secretaria de Agricultura do Paraná, para discutirem o tema. Sala das sessões, em 8 de dezembro de 2005”. Entendida a observação feita pelo Relator e pelo Deputado João Grandão de que, caso seja do interesse do Deputado Assis Miguel do Couto acrescentar qualquer nome aos demais aqui anunciados, existe o consentimento e a autorização prévios da Comissão para que sejam incluídos. Em discussão. Não havendo quem queira discutir o requerimento de audiência pública, do Deputado Cezar Silvestri, para dia 13, às 14h, em votação. Os Srs. Deputados que o aprovam permaneçam como se encontram. (Pausa.) Aprovado. Convoco [P_583932]os Srs. Deputados para participarem de reunião deliberativa em 14 de dezembro, quarta-feira, neste plenário, às 10h. Convoco ainda S.Exas. para audiência pública no dia 13 de dezembro de 2005, às 14h. Nada mais havendo a tratar, vou encerrar os trabalhos. Está encerrada a reunião.